On Capeverdean
literature
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A desmistificação
da emigração Cabo-verdiana na obra de Orlanda Amarílis Kathryn Bishop-Sanchez
A POÉTICA CRIOULA DE SÉRGIO FRUSONI
Brasil e Cabo Verde: um diálogo
entre José Lins do Rego e Baltasar Lopes
«O Caboverdiano
vê-se confrontado, inevitavelmente, com questões de ordem
O crioulo e o
Português no processo de afirmação em Cabo Verde
A escrita da terra
em Manuel Lopes e na Claridade
Entre a fugida e a
viagem: a poética da "ilha"
A construção do
ideal nacional e a constituição de novas literaturas em África
Manuel Lopes
toujours fidèle à Claridade
Inquérito a
escritores de Cabo Verde
Dina Salústio : A Louca
de Serrano por Adelaide Batista
L'univers de l'ile et les iles de l'univers
MYTHES ET LÉGENDES
- LE MOMENT « ATLANDIDE »
Jorge
Barbosa:« Quando o descobridor chegou
Corsino Fortes: O
épico da Caboverdianitude serena?
Corsino Fortes e a tradição
clássica
CORSINO FORTES,
PABLO NERUDA & SAINT- JOHN PERSE
PÃO & FONEMA :
IDENTIDADE POÉTICA E BUSCA DA PÁTRIA
Intervenção na II festa da língua
Portuguesa
Ilha & Poema:
celebração do arquipélago na poesia de Corsino Fortes
UMA PUBLICAÇÃO PARA OS
ANAIS DE CABO VERDE
Inquietos olhares: A construção do processo
de identidade nacional nas obras de Lídia Jorge e Orlanda Amarílis (Jane Tutikian)
http://www.fflch.usp.br/dlcv/posgraduacao/ecl/pdf/via02/via02_07.pdf
Orlanda Amarílis, literatura de
migrante (Benjamin
Abdala Junior)
http://www.fflch.usp.br/dlcv/posgraduacao/ecl/pdf/via02/via02_06.pdf
PhD dissertation on female authors from English speaking countries, Cape Verde (Dina Salústio, Orlanda Amarilis) and Mozambique: http://www.library.uu.nl/digiarchief/dip/diss/2003-0310-101002/inhoud.htm
Micro-universes and Situated Critical Theory: Postcolonial and Feminist Dialogues in a Comparative Study of Indo-English and Lusophone Women Writers (pdf-file)
1. O livro de contos
Cais-do-Sodré té Salamansa (1974) de Orlanda Amarílis (1) insere-se na tradição
literária cabo-verdiana de uma maior tomada de consciência nacional que parece
ter-se divulgado a partir do primeiro número da revista Claridade, de 1936 (2).
É lugar comum considerar-se que os escritores do arquipélago da última metade
do século XX decidiram "romper com os arquétipos europeus e orientar a sua
actividade criadora para as motivações da raiz cabo-verdiana." (Ferreira
37) (3). Este movimento de desapego em relação à literatura europeia
marca o início de uma literatura moderna cabo-verdiana na
qual a realidade de Cabo Verde se torna a temática principal. Surge então na
literatura uma consciência da autenticidade da cultura nacional, a
caboverdianidade (4); os problemas específicos do arquipélago (a fome, as
secas, a emigração, a pobreza, a nostalgia do exilado…) encontram-se no
centro das narrativas. O crítico norte-americano Gerald Moser comenta o evento
da literatura moderna cabo-verdiana da maneira seguinte (5):
•Criaram-se os
alicerces de uma literatura nacional entre 1935 e 1960. Nesta época, um pequeno
grupo de intelectuais juntou-se à
Os autores cabo-verdianos
começaram, portanto, a empenhar-se em representar o
‘chão crioulo’. Influenciados também provavelmente pelo modelo dos
neo-realistas portugueses, os escritores de Cabo Verde começaram a aperfeiçoar a arte do retrato social. Desta perspectiva, o
leitor atento não pode deixar de se dar conta da importância do tema da
emigração na produção literária cabo-verdiana. As
condições económicas das ilhas ajudam a explicar a
emigração
O arquipélago cabo-verdiano,
circundado pelas águas hostis do Oceano Atlântico, tem vindo a ser representado
ciclicamente
Porém, a questão da emigração
•Uma das notas
dominantes da literatura criada por este Movimento [de
Claridade], quer na poesia quer na novelística, foi o evasionismo. Com esta
atitude espiritual propuseram-se os componentes do Movimento exprimir uma dada
situação de existência do povo cabo-verdiano, decorrente do condicionamento
geográfico e telúrico do arquipélago, e que conceberam
Neste
ensaio, uma visão romantizada e simplificada da emigração cabo-verdiana é
claramente alvo de crítica.
Silveira condena tal interpretação da emigração das
ilhas, atribuindo-a às decepções dos escritores "avassalados pela
frustração resultante do desejo irrealizado de conhecer e viver em meios mais
fortemente ocidentalizados que o meio cabo-verdiano."(p.246). Além disso,
a sua crítica denuncia a imagem transtornada da emigração na
literatura cabo-verdiana, indicando que só se costumava reflectir "nas
obras dos claridosos o facto de emigração para as Américas e jamais a emigração
degradante para terras
Passemos
agora à primeira colecção de contos de Orlanda Amarílis (7) que, pelas imagens
que nos transmite da emigração, nos interessa particularmente neste estudo. Publicada uma década depois do ensaio de Onésimo
Silveira, a colecção Cais-do-Sodré té Salamansa ilustra uma perspectiva da
emigração distinta da literatura evasionista dos claridosos denunciada por
Silveira: a contista pinta de facto uma imagem menos idealizada da emigração
cabo-verdiana e "alarga o seu discurso à diáspora cabo-verdiana em
Lisboa." (Ferreira 125) (8)
Em
Cais-do-Sodré té Salamansa, Amarílis apresenta uma visão nostálgica da terra
natal e simultaneamente uma tomada de consciência nacional cabo-verdiana. Temos de sublinhar que esta sensibilidade não é
apresentada a partir das ilhas cabo-verdianas,
Neste estudo,
limitar-nos-emos à análise de um dos contos incluídos na
colecção Cais-do-Sodré té Salamansa, "Desencanto", que testemunha da
visão pouco romantizada da emigração que apresenta Orlanda Amarílis.
conto "Desencanto", situado simbolicamente no
meio da colecção, apresenta o mal-estar do cabo-verdiano (sobre)vivendo longe das
ilhas natais. Em comparação com a tradição evasionista do movimento de
Claridade, os eventos e os sentimentos provocados pela experiência da emigração
são apresentados sem idealização romântica neste
conto. Não se trata de imagens falsamente paradisíacas de terras desconhecidas
ou da "terra-longe" denunciadas por Silveira; a autora sugere, pelo
contrário, uma perspectiva intimamente ligada à realidade do emigrado, sem
tentar poetizá-la nem transformá-la. Estamos nitidamente no
início de uma fase mais madura da literatura cabo-verdiana, mais céptica em
relação aos mitos da emigração dos cabo-verdianos.
No conto
"Desencanto", como aparece de forma explícita em pelo menos dois
outros contos de Amarílis (p.9), a vida lisboeta que é posta em evidência é a
dos lugares públicos de circulação constante de passageiros: a protagonista do
conto mora na linha Lisboa/Cascais e viaja até ao Cais-do-Sodré para depois
apanhar o barco que a levará ao outro lado do Tejo. É nesta
viagem quotidiana que toda a história se desenvolve.
Na viagem de comboio, o movimento apressado continua.
A narração enfatiza a velocidade do comboio, que só pára em certas estações:
"este é rápido. Desliza e apita nas estações onde não pára hoje e todos os
dias." (p.61). Na chegada à outra margem do Tejo,
a pressa é de novo evocada: "Daqui a pouco com mais um esticão será outra
etapa outra corrida para o escritório sobranceiro à praça larga suja de papéis
e folhas secas." (p.62). Todos estes elementos
sublinham o ritmo rápido da viagem que, por analogia, é representativo do ritmo
de vida veloz e cansativo numa sociedade moderna.
Nesta narrativa, Amarílis
inclui retratos significativos da multidão que acompanha o emigrado nesta luta diária para chegar ao lugar de trabalho. A imagem da sociedade assim criada deixa-nos entrever com
clareza o meio ao qual a protagonista tenta adaptar-se e no qual quer sentir-se
integrada. Ao longo da viagem, vemos que os transportes
públicos estão sempre superlotados, o que permite sublinhar o contacto
obrigatório e inevitável de cada passageiro com um grupo de viajantes
habituais. No eléctrico, e depois no comboio, a protagonista deve fazer
face aos transportes sempre cheios: "A bicha nunca mais finda e o
eléctrico ronca de papo-cheio." (p.57). No comboio daquela hora de ponta a
protagonista não consegue encontrar um lugar sentado e faz a viagem em pé: "De
pé, continua a ler os títulos em letras gordas." (p.61). Ao chegar ao
Cais-do-Sodré, ela sai "empurrada pelos outros" (p.61), o que
sublinha de novo a pressa e a agressividade dos
viajantes nessa fase da viagem. E o tumulto prolonga-se na
última etapa do seu trajecto, na travessia do Tejo: "O barquinho das mil e
uma noites vomita uma mole de gente e engole-a por sua vez para a levar à outra
banda." (p.62). O Cais-do-Sodré, lugar de movimento
constante devido às chegadas e partidas de comboios e à proximidade dos barcos
cacilheiros, representa um lugar de agitação. É um cruzar incessante de
pessoas, na maioria desconhecidas entre si, e em
transição no vai-vém perpétuo da cidade moderna. É neste meio que a
cabo-verdiana é obrigada a reflectir sobre a sua posição na
sociedade moderna, da qual tenta seguir, inquietamente, o ritmo.
Esta corrida constante nos
transportes públicos,
Esta agitação da sociedade
moderna lisboeta contrasta com as lembranças de uma vida sossegada na sua terra natal: a "cidade parada" (p.58) do
arquipélago ressurge na memória da protagonista e estabelece um ponto de
comparação com a sua vida actual em Lisboa. É então que ela se indaga sobre a
sua condição de mulher mestiça no estrangeiro: "Voltar para quê? Para
vegetar atrás das persianas da cidade parada e espreitar as mulheres trazendo a
água do Madeiral em latas à cabeça ou os homens puxando as zorras com os sacos
para a casa Morais?" (p.58). Neste excerto percebemos o
sentimento de desapego e desdém que a protagonista sente para com a sua terra
natal. Ela elimina a possibilidade de voltar a Cabo Verde: agora,
acostumada à vida mais civilizada, a vida menos progressista das ilhas não lhe
parece ter muita atracção.
Tudo no conto tende a apresentar-nos o lado impessoal e monótono de uma
sociedade moderna. As relações humanas com os companheiros de viagem (do
edifício, do Cais-do-Sodré, da paragem do eléctrico,…)
não vão além de um cumprimento banal: "Bom dia. Passou bem?" A
repetição do mesmo cumprimento pronunciado distraidamente por pessoas
diferentes reforça a impessoalidade das relações
humanas neste trajecto. A protagonista, apesar de reconhecida
e cumprimentada, permanece uma pessoa anónima. Na
narrativa não se revela nenhuma informação sobre a sua identidade. Ao
chegarmos ao fim do conto, nem sequer sabemos o seu nome. Os companheiros de
viagem da cabo-verdiana podem reconhecê-la, mas não há
nenhuma intimidade entre eles. Por sua vez, a protagonista tenta adivinhar
mentalmente a identidade dos companheiros cujos gestos
e olhares observa com atenção: "Viúvo? Casado? Uma ruga vinca-se-lhe entre as sobrancelhas arranjadas."
(p.63). São contactos estéreis, despidos de interesse e calor
humanos, os que a protagonista tem com os seus companheiros de viagem
quotidianos.
Em cada
etapa da viagem da protagonista surgem-lhe pensamentos que mostram que a sua existência
é totalmente indiferente para as outras pessoas concentradas nas suas próprias
vidas. Presenciamos claramente esta
indiferença na viagem de comboio até ao Cais-do-Sodré:
"Procura lugar com os olhos. Os outros vêem-na
indiferente. O cavalheiro magrinho da frente lê concentrado o jornal da
manhã." (p.61). Nesta cena, à indiferença sentida acrescenta-se a falta de
reconhecimento público, posto este último em relevo
pela comparação que ela faz mentalmente entre a sua vida e a dos heróis
descritos nos jornais. O seu sacrifício diário, por mais importante que lhe
possa parecer a ela pessoalmente, passa despercebido.
Vemo-la reflectir: "Não será ela também uma heroína de todos os dias neste ciclo de etapas cronometradas de onde não pode
fugir?" (p.61). Nesta sociedade impessoal e fria, ela
sente-se abafada, a viver nos confins de uma monótona rotina. A impressão de ser prisioneira num sistema do qual não pode
sair, e de ter que cumprir com "etapas cronometradas", reforça a
ideia de sufocação.
Podemos
afirmar, depois dos comentários e exemplos referidos atrás, que a sua
integração nesta sociedade citadina é apenas superficial. Apesar de compartilhar exteriormente a mesma
experiência que os companheiros de viagem, ela não esquece nem esconde as suas origens; e sente-se só dentro desta sociedade. A compreensão da sua solidão é causa de grande tristeza. Ao
alcançar as docas da outra margem do Tejo, vemo-la só dentro da multidão:
"resvala por entre as gentes, estranha solitária no seu casaco de
quadrados." (p.64). Projecta-se-nos assim a
imagem de uma mulher sozinha (10), estrangeira numa terra alheia.
Apesar da agitação e do movimento dos passageiros, sobressai a monotonia da
viagem, que podemos atribuir à monotonia das relações sociais na sociedade
moderna. Na página 58 lemos: "sempre as mesmas caras
todas as manhãs. Sempre as mesmas." A senhora do
casaco claro, a aprendiza de cabeleireiro, a
mulherzinha da alcofa, a escriturária…fazem parte do seu ritual diário.
Mas, tal
Esta monotonia põe em relevo
a impressão de vazio que a protagonista sente na sua
vida lisboeta. Tal
Neste conto, Amarílis evoca a insatisfação que a protagonista sente em todas as facetas
da sua vida.
Vejamos
alguns exemplos concretos. Amarílis
evoca a dado momento a relação que a protagonista teve com um homem casado que a enganou. A cabo-verdiana tenta afastar esta lembrança,
esperando poder esquecer o tocar insincero do amante: "Se pudesse limpar
da cara a sensação das carícias que ele lhe fazia.
Costumava passar-lhe a mão pela face e prescrutar-lhe bem fundo nos olhos à
espera de não sei de quê. Malandro. Sempre gostava de saber o que é que ele queria." (p.63). Ela fica com dúvidas para as quais, numa vida sem sentido, não
tem resposta que a satisfaça. As suas inquietações e
frustrações remetem-na para a miséria da sua existência triste e medíocre.
mal-estar cultural que lhe nasce ciclicamente das relações
humanas é o que provoca o sentimento de perda da sua dignidade. Tal tema ocupa uma posição proeminente e parece carregar-se de
sugestões. Num dos episódios evocados no conto, é
claramente implicado que ela ocupou anteriormente uma posição de submissão no
emprego. Reflectindo sobre este trabalho
retrospectivamente ela admite: "já estava a adaptar-se à vida de pau
mandado." (p.59). No trabalho, a sua inexperiência, a falta de
conhecimentos e uma educação insuficiente provocaram nela um sentimento de
inferioridade: "nunca conseguiu enfrentar os clientes sabidos e
desnudaram-na com os olhos lascivos. Quando isso acontecia
corava e tremia. Nem sabia já para onde se
voltar." (p.59). A experiência que ela vai
adquirindo no mercado do trabalho reforça a sua consciência das suas humildes
origens de mulher das ilhas cabo-verdianas, passado do qual não se pode
desfazer.
No episódio atrás-referido,
os homens parecem arrogar-se o direito de olhar para a protagonista mestiça com
"olhos lascivos". Podemos ler na atitude
degradante dos homens frente a esta mulher das ilhas simultaneamente uma
manifestação do desequilíbrio racial e da diferença entre os sexos (12). Da mesma maneira, o último encontro relatado nesta narrativa
sublinha a relação de forças desigual que existe entre as raças nesta
mundividência. Isso é claro no comentário que alguém dirige ao
"homem do chapéu preto": "Malandro, estás a fazer-te prá
mulata" (64). A seguir as duas pessoas "riem
baixo". Esta simples conversa entre dois estranhos leva a
protagonista a reflectir mais seriamente sobre a sua condição de mulher mestiça
e emigrante na sociedade portuguesa: "esse riso é
uma afronta. Sempre a fugir de andar com os patrícios de cor
para não a confundirem e afinal é um branco que lhe vem lembrar a sua condição
de mestiça." (p.64). Tentando evitar a companhia de outros
cabo-verdianos, ela não consegue contudo esconder as suas origens.
A ideia de alienação das
raças e de insatisfação social por causa da cor corresponde,
•Apesar de adoptar as
maneiras sociais e ideias culturais do grupo social dominante, o poeta negro
dá-se progressivamente conta que a sua integração na sociedade europeia (i.e.
dos brancos) é apenas parcial e que o seu lugar inferior provém igualmente da
sua cor. Não importa o grau de assimilação do vestir, da linguagem, do
comportamento social, ele é principalmente um advogado ou um senador preto, ou,
politicamente, um preto francês ou americano. Contanto que seja preto (ou
mestiço), a assimilação total está fora de
alcance." (p.2) (13)
Preto-Rodas expõe a seguir
que a posição do negro na sociedade europeia será
sempre insatisfatória, dado que à medida que se assimila à sociedade, ele
"se dissocia de seus compatriotas por causa de suas preferências sociais e
culturais, assim
É este
fenómeno bipartido da assimilação superficial na sociedade ‘dos
brancos’, por um lado, e do afastamento cultural do país de origem, por
outro, que Amarílis põe em cena no conto "Desencanto". A protagonista não pode mudar a sua condição de mestiça, nem
esconder a sua identidade verdadeira; portanto, não vai nunca poder fazer
integralmente parte da sociedade acolhedora. Mendonça comentou este isolamento repetidas vezes sugerido na obra de
Amarílis, isolamento que é evocado neste passo pela protagonista de
"Desencanto": "É em Lisboa que verdadeiramente [os emigrados] se
sentem insulados e, na maior parte das vezes, insulados pela própria cor. Isso
parece trazer-lhes um desencanto permanente…"(p.47).
fim do conto pinta uma triste imagem da realidade de uma
cabo-verdiana no estrangeiro: num cruzamento entre duas culturas e sociedades,
ela já não pertence à sociedade das ilhas, mas ao mesmo tempo a sua aprovação
na sociedade europeia permanece incompleta. Podemos considerar a totalidade da
narrativa da viagem neste conto
Neste conto,
A conclusão do texto é
significativa: "Oh céus! É uma cigana errante, sem
amigos, sem afeições, desgarrada entre
Notas
Amarílis, Orlanda. Cais-do-Sodré té Salamansa. Coimbra: Centelha, 1974.Com o
evento da independência cabo-verdiana, os autores associados aos movimentos
literárias dos anos 40, 50 e 60 puderam começar a publicar as suas obras. Orlanda Amarílis publica a sua primeira colecção de contos naquele
ano.
A revista
Claridade foi publicada intermitentemente entre 1936 e 1960.
Ferreira, Manuel. Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa. Vol. 1. Biblioteca Breve.
Para um
estudo aprofundado deste movimento, ver Araújo,
Moser, Gerald. Changing Africa: the First Literary Generation of
Silveira, Onésimo. "Consciencialização na literatura caboverdiana." Critical Perspectives on Lusophone Literature from
Há de facto
poucas escritoras cabo-verdianas. Orlanda Amarílis é a primeira escritora com livro
publicado. Maria Margarida Mascarenhas e Aydeia Avelino Pires são também entre as (raras) escritoras de origem
cabo-verdiana.
Ferreira, Manuel, e Gerald
Moser. Bibliografia das literaturas africanas de expressão
portuguesa. Lisboa: Casa da Moeda, 1983.
Nesta
colecção Cais-do-Sodré té Salamansa, "Cais-do-Sodré" e
"Nina" são os outros dois contos nesta categoria.
Frequentemente na obra de Orlanda Amarílis evoca-se a solidão das mulheres,
vivendo nas ilhas ou no estrangeiro. Ver a este
propósito: Santilli, Maria Aparecida. "As mulheres-sós de Orlanda
Amarílis." Cadernos de Literatura 17 (1984): 37-41.
Mendonça, Fernando. "Orlanda Amarílis, uma escritora de
Cabo Verde." Vértice 44.461 (1984): 44-53.
Ver a este propósito o estudo seguinte de Gregory McNab que
analisa as relações entre mulheres-objectos e
homens-sujeitos nos contos "Thanon-les-Bains" e
"Salamansa": McNab, Gregory. "The Subjection of Women in Two Stories by
Ver: Preto-Rodas, Richard A.
Negritude as a Theme in the Poetry of the Portuguese-Speaking World.
Éjxenbaum, B. M. "O.
Henry and the Theory of the Short Story." The New Short
Story Theories. Ed. Charles E. May.
http://www.unb.br/il/liv/public/frusoni.htm
Simone Caputo Gomes
Universidade Federal Fluminense
A obra de Sérgio Frusoni, poeta caboverdiano que optou
pela adoção do crioulo
Filho de Giuseppe Frusoni e
Erminia Bonucci, Sérgio nasce no Mindelo, S. Vicente, a 10-08-1901, e morre em
Lisboa, em 1975. Autor de vários contos em crioulo divulgados na Rádio
Barlavento, notabiliza-se
Mesquitela Lima, que faz um
estudo antropológico da obra de Frusoni, para nossa felicidade, recolheu boa parte
dos poemas soltos em pedaços de papel que o poeta eventualmente conservava e,
na maioria das vezes, perdia (
Assim, um corpus
significativo de produção bilingüe1 de Sérgio Frusoni pode hoje ser examinado
pelo pesquisador das áreas de Língua e Literatura, e nossa intervenção se dará
neste segundo nível.
Enquanto conjunto de obra, a
poética de Sérgio Frusoni acompanha a movimentação da Literatura Caboverdiana
em torno de temas básicos à cultura
Conferindo originalidade à
obra de Frusoni percebemos a técnica do poema-retrato e o enfoque do quotidiano
do povo crioulo, nas atividades simples do dia-a-dia.
Não admira, pois, que seus
textos sejam expressos em crioulo, pois este é o veículo de comunicação da
camada de população retratada, que não tinha acesso à língua portuguesa.
O crioulo constitui o
elemento cultural que mais assume, fixa e expressa os valores culturais
caboverdianos, a cultura caboverdiana enquanto comunidade de memória, com um
sentimento de identidade que conjuga todo o Arquipélago e se estende à
diáspora, gerando uma consciência de grupo bem demarcada. Mesquitela Lima
discute, com base nesses argumentos, o fato de ainda não ter sido outorgado ao
crioulo o estatuto de língua e propõe que ele se denomine caboverdiano (ao
invés de crioulo)2, para melhor caracterizar a sociedade que dá a conhecer.
Contudo, as polêmicas língua
ou dialeto, crioulo ou caboverdiano, não nos ocuparão no momento. O que
interessa é examinar os principais temas e processos que fazem da obra de
Sérgio Frusoni um grande momento de Poesia, e de Poesia Caboverdiana.
Frusoni adota para seus
textos o crioulo da Ilha de S. Vicente, e o nosso critério de adoção de uma
forma escrita para o crioulo foi escolher o caminho mais fácil: conservar a
grafia usada pelo poeta (como sabemos, a dificuldade de adotar uma forma escrita
para o crioulo persiste, e sobre isto nos pode dar importante depoimento uma
especialista, a Dra. Dulce Almada
Um preâmbulo sobre alguns
aspectos do crioulo de Cabo Verde para os que fazem os primeiros contactos com
a Literatura Caboverdiana nos parece ainda necessário.
O fenômeno do bilingüismo não
afeta globalmente a sociedade caboverdiana; nem todos os caboverdianos falam o
português, muito mais utilizado na camada culta e rudimentarmente falado nas
camadas populares.
Frusoni é, pois,
praticamente, um dos principais escritores que dão ao crioulo dignidade poética
escrita, visto que no seu tempo a língua originária transmitia fundamentalmente
mornas e coladeiras.
Influenciada pelo movimento
da Claridade, que pensa a sociedade e a cultura como diferenciadas de um modelo
colonial, a produção poética de Sérgio Frusoni recolhida por Mesquitela Lima
compõe-se de 78 poemas, dos quais 15 sonetos (4 em português, 1 em inglês),
escritos no crioulo de S. Vicente e acompanhados das respectivas traduções
literárias
Com o intuito de publicar em
vida o livro Sanvicente crioulo, Frusoni, logo no poema
"Presentaçom", assume sua identidade de caboverdiano e sanvicentino:
Quem mi ê? Um fidje de
Sanvcênte.
Nascide, crióde, lá na ponta
d' Praia.
Lá ondê que mar tâ sparajá
debóxe de bôte,
moda barra dum saia.
Cs' ê que m' crê? Cantá nha
terra!
Companhal na sê dor;
na nôbréza d' sê
na pobréza d' sê vida!
Tradução:
Quem eu sou? Um filho de
nascido, criado, lá na Ponta
da Praia.
Lá onde o mar se espreguiça
debaixo dos botes,
O que eu quero? Cantar a
minha terra!
Acompanhá-la na sua dor;
na nobreza da sua alma;
na pobreza da sua vida!
Esta é a proposta da obra. Os
poemas autobiográficos "Nha coraçôm", "Mnine d'
Sanvicente", "Pracinha", "Igreja D'Nossióra da Luz"
continuam a delinear o retrato do poeta caboverdiano e de sua amada terra:
Nha coraçôm ê dum rapaz de
vint'óne:
êl tâ rí, êl tâ chorá, consoante
êl crê.
Se dá'l pa cantá, êl ê italióne,
pa quêl sangue quêl herdá quand'
m'nascê:
Se dá'l pâ chorá, êl ê
caboverdeóne
(Meu coração é dum rapaz de vinte anos:
ri, chora, consoante ele
quer.
Se lhe dá para cantar, é
italiano,
por aquele sangue que herdou
quando nasci
Se lhe dá para chorar, é
caboverdeano)
No poema "Mnine
d'Sanvicente", Frusoni alude a suas saídas de Cabo Verde, ao tema da
emigração-regresso, tão cantado pela Literatura do Arquipélago:
E j'a m' bá e já m' bem;
já m' torná bá e torná bem;
e alí'm lí, de pê na tchôm,
sem um vintem, sem um tstôm,
tâ crê torná bá...
ma pa torná bem...
(Já fui e já regressei;
já tornei a ir e tornei a
regressar;
aqui estou, de pés no chão,
sem um vintém, sem um tostão,
a querer ir...
e tornar a regressar...)
A técnica do retrato
condensado atinge líricos momentos no "flash" da Pracinha e da
Igreja, cartões postais do Mindelo:
Igreja
Igreja
Cambra
Câmara
Rua da
Luz Rua da Luz
Camim d'
cimter Caminho do cemitério
Dalí ond'ê que m'
tâ
Daqui onde estou
m' ti t' oióbe, nha
Igrejinha: vejo-te, minha Igrejinha
semp caiadinha d'
brónc sempre caiadinha de
branco
por dentre e por
fóra, por dentro e
por fora,
semp tâ
figurá
sempre a fazer figura,
embora
bidjinha!
embora velhinha!
Os costumes da terra (como a
culinária), as fontes de sobrevivência, a seca e a chuva, a fome, a pobreza,
terão expressão nos poemas "Rebêra", "Dia de féria",
"Pâ quês pardalim", "Lembróme", "Infancia" e
"Calôte , fidje de pôbréza, praga de nôs terra". O Porto Grande e a
chuva são focalizados em paralelo no primeiro texto, correlacionando a
abundância da água e da lama, tão necessárias ao cultivo, especialmente do
milho, à abundância de barcos, tão importante para a economia da ilha:
M' câ sabê de
bô,
Não sei de ti,
nem de fórça dêsse
láma
nem da força dessa lama
que bo ti tâ carregá pa
mar. que carregas para o mar.
Sô m' sabê cma
vapor
Só sei que os vapores
já pitá na
baía,
já apitaram na baía
cma aligria d'ága já rebentá
na ar. e que a alegria da água
[á rebentou no ar...]
O milho assado, o rabo de porco
e o feijão malaguetado, a cachupa e o pãozinho de milho (midje assóde, rabim de
tchuc, fejón malaguetóde, catchupa, pômzinha de midje) inscrevem-se em alguns
poemas enquanto pratos típicos da cultura caboverdiana
Em contraste, o sofrimento
das crianças por causa da fome é retratado no poema "Infancia", num
resgate da memória que persiste no poema "Lembróme".
Lembróme bô
perfil:
Lembra-me o teu perfil:
nocênte
(...)
inocente (...)
Ma que já tá
trazê,
Mas que já trazia
sargide na
pêle
serzida na pele
dôr ma
sufrimênte,
a dor e o sofrimento,
sina de nôs
pôve...
sina do nosso povo...
Fôme cá prêsta! Fôme ê
bjôm! A fome não presta! Fome é
[um horror!]
Ma ants fôme do qui pêste ma
guérra! Mas antes fome do que
[peste na guerra!]
Fôme ta minguóne, ta
incudjine, A fome mingua-nos,
[encolhe-nos]
ma quem ta morrê fête
menine, mas quem morre feito
[criança]
ta torná nascê fête
menine, volta a nascer feito
[criança]
de lá de barriga de
terra! de lá da barriga da
terra
No poema "Pâ quês pardalim" Frusoni focaliza a
mulher que, depois de desmaiar de fome, preocupa-se com um saco onde levava
restos de cachupa e tocos de pão. Interpelada
(em português) por que não comeu o farnel, ela diz:
E...e côsa que m' tá
levá... E...e o que é que eu levava...
quês...pardalim
àqueles...àqueles pardaizi-
[nhos]
-Pardais?
-Sim...
Quês...quês...dôs fidjim...de
meu... àqueles...àqueles...dois filhinhos...meus...
A mulher, retratada ora na sua
situação de abandono, em virtude da emigração do marido, ora no trabalho, ora
em situações humorísticas, ou em sua sensualidade ("marmél de bô pêite/ ta
pedí dentada d'ôme" - os marmelos do teu peito/a pedir dentada de homem),
constitui um tema constante na obra de Sérgio Frusoni.
No texto "Quand um
palavra sô tâ dzê tude côsa" Frusoni ridiculariza a mulher que regressa de
rápida viagem a Lisboa com hábitos e até pronúncia diferentes. Uma só palavra
condensará a crítica do povo a esse tipo de personagem: PACIÊNCIA!
Um dia nh'Augusta infermêra,
desembarcá tâ bem
d'Lisboa: (desembarcou, vinha de Lisboa)
luva, cartêra,
cabel caracolóde
cara pintóde
ta pscá confundi
parcença. (procurando confundir a figura)
Um mudjêr q'tava ta passá,
pará tâ spial,
cabá el sucdí cabeçá el dzê:
_Nh' Augusta, nh' armôm,
PACIENÇA!.. (ah!, Meu irmão,
PACIÊNCIA!...)
No poema-sketch (técnica
recorrente em sua obra) "Pai d'Fidje", o poeta mostra a mulher que
reza para que o marido viciado ganhe no jogo, para que seus filhos não passem
fome e ela não apanhe:
Spiá pa fidje, quem? Ele?
Adéh!
importal lá s'ês t'andá
sfarrapóde,
ô sem cmê! Alá'l sentóde
na jôgue, êss ê que'l crê!...
Scompôl? Brigá ma êl? Cónta
d' nada!
Remêde ê rezá, cmáde!
E pdí Nossiôr pa fazel ganhá,
pamóde s'êl perdê, êl
tíntchóme d'pancada...
A situação quase permanente
da mulher só, em virtude do abandono ou emigração do marido, ou do afastamento
do filho que parte para trabalhar longe é constantemente referida em poemas
como "Sirvice de criada ca tá dá têmpe pa nada" e "A
volta":
Sim, êl há
d'voltá. Sim,
há-de voltar.
E cs'ê qu' m há
dzê? E que lhe direi?
Cma
m'speral?
Que o esperei?
Cma m'
sofrê?...
Que sofri?
S'el ca
creditá?
E se ele não acreditar?
Cs' ê qu' m há
fazê? Que hei-de
fazer?
M' há mostral
fidje, Mostro-lhe a
criança?
ô m' ha fcá
calóde? ou fico calada?
E s' êl bem el stranhá
casa; E se ele vem e estranha a
[casa?]
esse nha
magréza;
esta minha magreza
esse portôm
abêrte, este
portão aberto,
ma esse lume
pagóde?... e este lume apagado?...
E s'stude bem dá cêrte?
E se tudo vier a dar certo?
S'el cabá d'
entrá
se acabar de entrar
êl corrê pa
mim?... e
correr para mim?
M' há pô tâ
tchorá,
Hei-de chorar,
ô m' há pô tâ
rí?... ou hei-de
rir?...
Este belíssimo texto dá a
medida da dramaticidade da emigração em terras caboverdianas. Os poemas
"Contratóde" (que fala da partida do contratado, escravo do século
vinte, por força do regime colonial), "Navì ta bá, navì ta bêm"
(Navio que vai, navio que vem), "Na terra strónhe" (Em terra
estranha),"Despedida", "Chamada de mar", "Diante de
mar de sanvicente", "Volta d'imigrante antigo" enquadram-se no
ciclo do terra-longismo (partida/regresso, o querer partir e ter de ficar/e
vice-versa), tão bem teorizado por Manuel Ferreira (FERREIRA 1972).
Por outro lado, o chamado da
terra, a caboverdianidade, a anti-evasão expressa veementemente por Ovídio
Martins
Ma lì qu'
m'nascê
Mas aqui é que nasci
lì qu' m'
criá!
aqui é que me criei!
Êsse mar, êsse cêu, ma êsse
tchôm, Este mar, este céu, este
[chão]
Lì qu'm'ha morrê!
Aqui é que hei-de morrer!
Idêa
d'imbarcá
Ideia de embarcar
nunca passóme pâ cabéça
(...) nunca me passou pela cabeça
Antes fcá pa lì tâ gozá dêsse
mar Antes ficar por cá a
[gozar deste mar]
ma dêsse
cêu.
e deste céu.
Conhecendo e amando Cabo
Verde, é fácil entender o sentimento de Sérgio Frusoni.
NOTAS
1. Considero a tradução
literária dos textos para o português como um corpus poético à parte.
2. Ibidem, p. 26.
BIBLIOGRAFIA
FERREIRA, Manuel. 1972.
O círculo do mar e o terra-longismo em Chiquinho de Baltasar Lopes.
Colóquio-Letras 5.66-70.
LIMA, Mesquitela.
http://www.geocities.com/ail_br/brasilecaboverde.html
Marcia Garcia Dias
Embora a partir da década de oitenta
se verifique um número significativo de trabalhos que põem em foco as relações
interliterárias voltadas para as literaturas não-canônicas, as relações
culturais entre Brasil e Cabo Verde são bem anteriores e para efeito desta
comunicação vamos situá-las na década de trinta.
Manuel Ferreira, no seu longo
prefácio à edição comemorativa dos cinqüentas anos da publicação do primeiro
número de Claridade (março de 1936/ março de 1986), procura analisar os
elementos que, na sua opinião, constituem uma explicação lógica para o
aparecimento desta revista no arquipélago.
Dentre os "elementos
exógenos", aponta primeiramente a presença dos escritores portugueses
Augusto Casimiro, António Pedro e José Osório de Oliveira; depois assinala a
contribuição da revista Presença; considera ainda o contato com alguns jornais
portugueses e, finalmente, a contribuição da literatura brasileira. Nas
palavras do próprio Manuel Ferreira: "Aliás, desde o princípio deste
século, para não irmos mais longe, a presença brasileira é por vezes notória na
literatura caboverdiana. as referências são constantes, quer em obras
literárias quer na Imprensa. E elas vêm das formas mais diversas. Desde as
dedicatórias de escritores caboverdianos, nomeadamente José Lopes, a
personalidades brasileiras, transcrições de poemas por vezes bem longos
dedicados ao Brasil ou a intelectuais brasileiros; na verdade, de forma a mais
variada, o Brasil fixou-se na poesia caboverdiana". (Claridade, p.XXVIII).
A distância imposta pela
configuração geográfica não impediu a circulação de alguns romances
brasileiros, mais particularmente aqueles de características neo-realistas,
entre os escritores das ilhas. É o próprio Baltasar Lopes, em declaração
proferida em 1956, que esclarece como se deu o contato literário dos
caboverdianos com alguns dos nossos escritores: "Há pouco mais de vinte
anos, eu e um grupo reduzido de amigos começámos a pensar no nosso problema,
isto é, no problemas de Cabo Verde. Preocupava-nos sobretudo o problema da
formação social destas ilhas, o estudo das raízes de Cabo Verde. Precisávamos
de certezas sistemáticas que só nos podiam vir, como auxílio metodológico e
como investigação, de outras latitudes. Ora aconteceu que por aquelas alturas
nos caíram nas mãos, fraternalmente juntas, em sistema de empréstimo, alguns
livros que consideramos essenciais pro doma nostra. Na ficção, o José Lins do
Rego d'O Menino do Engenho, do Banguê; o Jorge Amado do Jubiabá e Mar Morto; o
Amândio Fontes d'Os corumbas; o Marques Rebelo d'O caso da mentira, que conhecemos
por Ribeiro Couto. Em poesia foi um alumbramento a "Evocação do
Recife", de Manuel Bandeira, que, salvo um ou outro pormenor, eu
visualizava com as suas figuras dramáticas, na minha vila da Ribeira Brava. O António Rodrigues, que ainda cheguei a conhecer, e
tinha a cara do Padre Vieira das ilustrações dos livros escolares. E a moça
nuinha no banho fora surpreendida nos tanques da Ribeira de João, logo acima do
trapiche da Pequena; em poesia, outro alumbramento foi Jorge de Lima, em que o
sinhàzismo de 'Nega Fulô' e o super-realismo do 'Menino impossível' emparceiram
na nossa receptividade com Jorge de Lima da 'Túnica impossível', com as tosses,
as asmas, máquinas de costura, que precisam dormir, e com o tema, ilhéu e tão
nosso, do avião que matou a saudade dos nossos filhos vagabundos. Claro que o
avião, para a nossa temática, é proteiforme, podendo ser até o veleiro das
travessias entre as ilhas de certos poemas de Jorge Barbosa'"(In FERREIRA,
M. (org.). Claridade, p. XXIX e XXX).
O reconhecimento desse
encontro por parte dos claridosos revela. para além do engajamento ideológico,
uma práxis artística que a um só tempo identifica as literatura brasileira e
caboverdiana e as afasta do modelo do colonizador.
Menino de engenho e Chiquinho
são obras de denúncia, pois nelas se verifica, por meio da narração e das falas
das personagens, uma crítica à ordem social estabelecida. Observam-se
Menino de engenho é publicado
em 1932 e narra a história do menino Carlos que deixa a cidade de Recife depois
da morte da mãe e vai viver no engenho de seu avô materno, na Paraíba.
Apontado pela crítica
consagrada como um documento sociológico, esse romance de José Lins do Rego é
expressão da brasilidade que identifica nosso povo não apenas pelo tema e
feição regionalista, mas também pela linguagem que revela o poder que organiza
as relações humanas e define o destino dos homens.
O destino – "esta
força arbitrária" – apresenta-se na narrativa como um tema a ser
decodificado pela consciência infantil que procura pôr ordem nas múltiplas
experiências vividas no engenho Santa Rosa. Aos poucos, Carlinhos vai tomando
contato com as injustiças sociais e percebendo que elas é que lhe garantem os
privilégios: "Depois mandaram-me para a aula de um outro professor, com
outros meninos, todos de gente pobre. Havia para mim um regime de exceção. Não
brigavam comigo. Existia um copo separado para eu beber água, e um tamborete de
palhinha para 'o neto do Coronel Zé Paulino'. Os outros meninos
sentavam-se em caixões de gás. Lia-se a lição em voz alta. A tabuada era cantada em coro, com os pés balançando,
num ritmo que ainda hoje tenho nos ouvidos. Nas sabatinas nunca levei um bolo,
mas quando acertava, mandavam que desse nos meus competidores. Eu me
sentia bem com todo esse regime de miséria. Os meninos não tinham raiva de mim.
Muitos deles eram moradores do engenho. Parece que ainda os vejo, com seus
bauzinhos de flandres, voltando a pé para casa, a olharem para mim, de bolsa a
tiracolo, na garupa do cavalo branco que me levava e trazia da escola"
(Menino de engenho, p.33-4).
Publicado quinze anos depois do romance brasileiro,
Chiquinho aparece em 1947 em forma de livro, embora os capítulo
"Bibia" e "Infância" tenham sido publicados nos números um
e três da revista Claridade.
As três partes que constituem
a obra ("Infância", "São Vicente" e "As águas")
revelam a trajetória percorrida por Chiquinho. Como narrador-personagem, narra
as diversas situações vividas em companhia de sua família no Caleijão, na ilha
de São Nicolau. Como Carlinhos, de Menino de engenho, Chiquinho observa as
relações familiares, a pobreza da região onde vive, o drama dos lavradores que
se tornam escravos das constantes secas e a emigração de seus patrícios para a
América.
Depois dos estudos no liceu
de São Nicolau, transfere-se para São Vivente, onde passa a freqüentar o seminário
e conviver diariamente com os colegas do Grêmio. Andrezinho, o líder da turma,
tem uma proposta de trabalho: "Para ele, os nossos problemas tinham uma
tonalidade específica, que resultava do 'cerco do atlântico' e do 'drama
ancestral da formação étnica'. O que se impunha era reorganizar completamente
nossas peculiaridades. Na vida administrativa. Na estrutura social. Na arte.
[...] Andrezinho deu a fórmula: enquadramento do nosso caso nas aspirações,
sempre as mesmas, sob qualquer latitude, da alma humana." (Chiquinho, p.
73).
Em outras palavras, a
consciência do narrador amplia-se para além do drama vivido pela comunidade
enraizada em torno da casinho do Caleijão. Na óptica de Chiquinho, o problema
da sobrevivência ultrapassa a sua ilha de origem para se estender a todo o
arquipélago.
Na formação da personalidade
do menino do engenho Santa Rosa não estão apenas as brincadeiras e outras
aventuras proibidas que os recantos do latifúndio do avô José Paulino lhe
possibilitam. Antes de ingressar na escola, o cultivo de sua imaginação faz-se
pelas histórias da Velha Totonha. "Que talente ela possuía para contar as
suas histórias, com um jeito admirável de falar em nome de todos os
personagens! Sem nem um dente na boca, e com
uma voz que dava todos os tons às palavras. As suas histórias para mim valiam tudo." (Menino de engenho, p.
50).
A convivência íntima de
Carlinhos com as negras da senzala contribuem para ampliar o reino fabuloso da
sua imaginação de menino: "Eu vivia em conversa com ela [Galdina], atrás das
suas histórias da costa da áfrica". (Menino de engenho, p. 58).
A essas histórias
acrescentam-se as conversas das costureiras do engenho que além dos bordados
desfiam os enredos que constituem a vida miúda dos trabalhadores do eito, as
aventuras dos grandes do cangaço como Antônio Silvino.
Situação semelhante vive
Chiquinho que antes de entrar para o seminário
Aplica-se aos dois textos o
conceito de Walter Benjamin de que "a experiência que passa de pessoa a
pessoa é a fonte a que recorreram todos os narradores. E, entre as narrativas
escritas, as melhores são as que menos se distinguem das histórias orais contadas
pelos inúmeros narradores anônimos".
Carlinhos, no engenho Santa
Rosa resiste ao ABC que tia Maria amorosamente tenta ensinar-lhe, mas deixa-se
seduzir pelas palestras que os mestres de ofício vão-lhe contando enquanto
executam seus trabalhos de carpintaria e tanoagem: "O que, porém, mais me
prendia aos meus amigos, eram as suas conversas e confissões. O Seu Rodolfo
sabia de muita coisa. Vivia consertando engenhos desde menino. E de toda parte
trazia uma história" (Menino de engenho, p. 69).
José Lins do Rego e Baltasar
Lopes procuram apropriar-se das tradições orais para imprimirem às suas
histórias o "vôo de imaginação" que caracteriza a matéria literária e
dá a elas a fisionomia particular que distingue o texto brasileiro do texto
caboverdiano. Dessa forma, a pobreza e a miséria que afligem os camponeses de
São Nicolau e os lavradores do eito são as mesmas. A fartura da casa-grande
brasileira equivale ao comedimento e segurança da casinha do Caleijão; à
expectativa da cheia do rio Paraíba corresponde à chegada das águas no chão
seco da ilha. No entanto, a fertilidade da terra brasileira não pode
corresponder aos barcos de pesca de baleias, nem a evasão caboverdiana equivale
aos movimentos migratórios do Nordeste brasileiro.
Assim, as semelhanças e
diferenças aqui apontadas ultrapassam a concepção tradicional do comparativismo
francês, em que se cria uma dívida impagável de um autor em relação a seu
precedente. Esse medo rondou o espírito de Manuel Lopes e Jorge Barbosa,
fazendo com que declarassem enfaticamente que a literatura caboverdiana havia
encontrado seu próprio caminho.
António
de Névada
http://www.ciberkiosk.pt/arquivo/ciberkiosk4/entrevistaseinqueritos/antonionevada.htm
Da Claridade à geração novíssima de
representação
cultural e nacional.
Marcada desde o início por uma condição errante e
bilingue, a literature cabo-verdiana é, também por isso, um complexo discursivo
dotado de
capacidade
crítica (e desde logo autocrítica) em relação às exigências e ficções de uma identidade
dominantemente exprimida num idioma outro e
produzida
em espaços por vezes também outros.
António
de Névada, m'nine d'Soncente (nascid e criód), por acaso nascido em Lisboa, e
não tanto por acaso, mas ainda assim acidentalmente,
residente há
uma década em
mítica, recupera uma certa ficção
de pátria na língua portuguesa que,
enquanto escrita,
desalojada que é do quotidiano pela omnipresença do crioulo. Daí a sensação, no
limiar da «estranheza», que experimenta o leitor
dos seus versos - de que os que
publicamos neste número de Ciberkiosk são bem representativos -, os quais são
declinados num português que oscila
entre a dicção grave e nobre que
poderíamos associar a um clássico
«local»,
eis o que não é de determinação fácil, tanto mais que esta poesia parece
interiorizar os dados algo «baralhados» da situação pós-colonial. A
poesia de Névada é cabo-verdiana
sem responder contudo a um programa etnológico; é africana sem rejeitar a
negociação do seu estatuto
(não)periférico com os supostos centros da produção (e da
tradição) poética ocidental; é culta, numa profunda fidelidade à matriz popular
de quase toda
a cultura cabo-verdiana; é tão épica
quanto metafísica, propondo-se
morte.
Ciberkiosk
dá neste número guarida à palavra poética e dialogal de António de Névada, desejando que este seja
apenas o começo de uma relação profícua
com as literaturas pós-coloniais
de língua portuguesa e não só (pensamos, obviamente, neste contexto, no caso do
crioulo). E julga ter começado bem.
Ciberkiosk
agradece pois a António de Névada a disponibilidade
revelada para esta pré-publicação e entrevista. Resta esclarecer que a
entrevista foi
conduzida
por Osvaldo Manuel Silvestre.
Ciberkiosk.
Comecemos pela indispensável apresentação: quem é António de Névada? (Ou
seja: onde e quando nasceu, onde estudou, onde vive?).
António de Névada. A
auto-apresentação envolta toda ela por este sabor
irónico, leva-me,
interrogações de vária
ordem. E para começar, vou citar um trecho que não foge ao tom algo sarcástico
que sustenta o texto, o conto Fragmentos de Um
Acto, a que pertence. E diz:
(...)
eu, filho de Garda e Didial, das restrições da vinha, vinho murcho ou pragas da
vida, filho também das costelas do tempo,
dos
templos ou famintos templos. Guardião deste pedaço, ou sinal da perplexidade,
eu, filho, tal vos tenho dito, das pregas do templo e
do
cheiro da cana ou caniço, maio
tardio, achadas bravas sobre os lombos, derramarei a minha voz obsessiva pelos
cantos, narrador impróprio que sou
porque
assim me conceberam.
...
E pergunto - ó dignidade insituável - que vazio nos suporta e nos abençoa, se cada dádiva estende-se pela horta toda
povoando as nossas
fraquezas?
E se o milheiral e o vento consomem a vida, a gravidez e o
acto de parir?
Essa
citação poderá ser considerada uma representação (recordo que representar também
apresenta) porquanto o eu, o narrador, fala
"porta-voz",
melhor, de um emissário se trata.
o
homem que
cultiva
sobre a terra estéril,
e sobre ela ajoelha-se
para louvar ou barafustar,
para louvar ou possuir
o dom dos deuses.
E assim sendo, passemos à
indispensável apresentação: nasci no ano de mil novecentos e sessenta e sete no
sétimo dia do mês de Setembro. A minha mãe
não terá sido propriamente uma boa
parideira, ou seja, ela não foi, na idade fértil, uma mulher de parto fácil. O
primeiro filho morreu-lhe na sequência
de complicações durante o
parto, o segundo nasceu duma cesariana, e eu, o filho terceiro, vim nascer a
d'Soncente (nascid e criód) ter nascido casualmente em
Lisboa, para regressar com menos de três meses de idade à terra berço.
Vivi toda a minha infância e adolescência
licenciei-me
Como
me formei?
-
junto aos meus tenho bebido a consciência da humildade. E por
aí me tenho pautado.
Ciberkiosk.
Com um livro publicado em 1993 (Acto Primeiro ou o Desígnio das Paixões) e
outro a sair em breve (Esteira Cheia), V. integra a novíssima
geração
literária cabo-verdiana. Entende que o conceito é sustentável?
Queremos
dizer: existe uma literatura cabo-verdiana que se possa atribuir a uma «geração» novíssima? A existir ela, como a
caracterizaria?
No
seu caso, como se situa em relação à história literária cabo-verdiana?
Lembremos
aqui um poema do seu primeiro livro - «Melancolia» - em que se diz: «Qual
quixotismo / nos abarca as velas doentes / nem Nhô Balta nem Tio
Tiofe
/ nem Nhô Roque nem Corsino?» Será pertinente
articular este panteão pessoal com a pergunta
anterior? Isto é, serão estes quatro nomes as suas
referências
fundamentais na literatura cabo-verdiana?
António de Névada.
Tendo começado a publicar em finais da década de oitenta,
eu poderei integrar,
eventualmente, a novíssima geração literária caboverdiana (o Prof. P.
Laranjeira já havia assim referido em relação a
Vera
Duarte e a Névada). E digo eventualmente porque não me parece sustentável, e só
o tempo a seu tempo o dirá, considerar que existe uma
literatura
caboverdiana que se possa atribuir a uma geração novíssima. A
literatura caboverdiana tem encontrado uma linha criadora própria, e dado
mostras de vitalidade, e há efectivamente autores novíssimos com qualidades e
com propostas também elas interessantes, que abrangem e recriam concepções
estéticas diversas. Sem querer aqui ajuizar, por não ser, como é óbvio,
das pessoas mais indicadas para o fazer, e não ser essa a finalidade quando
aprecio a arte e me debruço, espontaneamente, à tarefa crítica, ainda assim,
devo aqui citar alguns nomes como sendo: Vera Duarte (Amanhã Amadrugada, 1993),
Mario Lúcio Sousa (Sob os Signos da Luz, 1994; e Nascimento dum Mundo, 1998), Vadinho
Velhinho (Relâmpagos em Terra,1995; e Adeus Loucura Adeus, 1998), autores que
começaram a publicar a partir ou no limiar da segunda metade da década de
oitenta, e que são de alguma forma significativos.
Tenho mantido presente que nenhum poeta, ou artista de
qualquer arte, detém, solitariamente, o seu completo significado.
E é nessa medida que só
poderemos avaliar uma
geração literária se a enquadrarmos no contexto histórico a que ela pertence,
antes disso tudo é prematuro. Ou seja, como
afirmei
acima, só o tempo a seu tempo o dirá. Sem esquecer,
porém, que o acto de criar, essa forma de avaliar o amontoar dos tempos, a
Arte, a sua
verdadeira dimensão,
adimensional, tem na intemporaneidade a sua
E
é importante acrescentar o seguinte: se abordarmos os novos (entendendo que o
novo se refere aos predecessores dos novíssimos), é fácil constatar
que, em larga medida, está ainda
por apurar a importância (e ela não sera pequena), o que traz e acrescenta à
literatura caboverdiana, a geração
liderada
por João Varela, Corsino Fortes, Arménio Vieira e Oswaldo Osório.
São
todos poetas, os mencionados, o que não será coincidência, se relembrarmos que na literatura caboverdiana,
é
o género literário que mais elevado grau de maturidade atingiu.
Em
1993, aquando da publicação do Acto Primeiro, eu escrevia: quando disse que os
poetas caboverdianos, cujas publicações fazem parte dos meus ditos
"livros de cabeceira" são Arménio Vieira, Corsino
Fortes, João Varela, não queria com isso dizer que outros poetas caboverdianos
não me interessam.
Aliás, poetas há absolutamente imprescindíveis, e a
poesia daqueles levar-me-ia, mesmo que inconscientemente, a procurar a poesia
destes. E como
não me deliciar ao ler os
pré-claridosos e os claridosos, os "pais" da literatura caboverdeana,
para não falar na geração mais nova?
E
acrescentava: Os poetas mencionados, porquanto se encontram em plena
"força criativa", concerteza terão trabalhos a dar a conhecer das
suas obras
em
plena construção. Mas penso que isso não pode
constituir inibição para os nomear aqui. Se falássemos da prosa, não poderia deixar de mencionar
Baltazar
Lopes (sem esquecer Oswaldo Alcântra) ou Aurélio Gonçalves. Mas
não quero sopesar separadamente as influências dos discursos poético e
prosaico.
E
nem o farei em relação a outra arte. Qualquer que seja a arte no nosso tempo,
tempo complexo o nosso, não poderá deixar de ser o movimento dessa
variedade.
E não devemos pensar que poderemos criar ou desenhar gravuras
isoladas, estabelecer rupturas. Sabemos sim de um todo que nos
movimenta. E
não
interessa encontrar mas sim procurar.
Além
de Nhô Balta e Tio Tiofe, Nhô Rôque e Corsino, para erguer um panteão pessoal
seria imprescindível referir Arménio Vieira, e também a nossa
literatura
oral e a literatura cantada. O imaginário mitológico popular recorda-nos, desde
a infância, que, esquecidos ao sabor dos gafanhotos,
ainda
assim, desafiamos os deuses e teimamos em partilhar e recriar esse universo. Essa
literatura oral, os contos tradicionais, ajudam-nos, no
desespero,
a reinventar os sonhos.
A
música assegurou há muito um lugar de destaque na
literatura do meu país, e ela faz parte do quotidiano e da essência do meu
povo. Apreendi com a
música os primeiros acordes da
verdadeira poesia, apreendi com a música que o sublime da arte está na vocação
do inexprimível. E a poesia anónima do
povo, o músico anónimo da noite
caboverdiana, da serenata, trovadores
minhas
referências fundamentais na literatura caboverdiana. Este ultimo autor, dono de
uma enorme subtileza satírica, seguindo a toada tecida por
nomes
adopta uma escrita corredia,
composições
de Teófilo Chantre?
Ciberkiosk. A uma primeira leitura, a sua poesia impressiona por aquilo
a que o poeta Mário Fonseca chamou sedução da palavra, a qual na sua obra
pressupõe
o recurso a um registo elevado ou digno do português. Duas perguntas sobre
isto: 1) Esse registo elevado do português é de aquisição
pessoal e literária
ou tem de algum modo a ver com uma preocupação pedagógica,
escola?
2) Como se lhe coloca a questão do crioulo? Língua sem
possibilidades literárias? Demasiado confinada a um micro-espaço linguístico
e por isso de difícil tradução, no
caso literário, condenando uma eventual literatura em crioulo a um destino
paroquial (esta era aliás, se não
erramos,
a posição de um Baltasar Lopes)? Língua a conciliar com o
português, seguindo o exemplo de Corsino?
António de Névada. Devo
afirmar, com sinceridade, que o fascínio ou a sedução da palavra (que poderá
pressupor o registo elevado do português) é
entendido, em
primeiro lugar,
utensílio maior da
sua arte, que é a linguagem (a palavra) escrita ou falada. E por ser de
aquisição pessoal, não é inconsequente pensarmos que o
despertar desse
fascínio, pela palavra, advém dos amantes da poesia e da literariedade, que eu
tive a sorte de encontrar ao longo da minha formação.
tem
como ferramenta a língua portuguesa. Na linguagem escrita
utilizo com maior destreza o português. Entanto, na linguagem falada
acontece o
contrário, a minha
língua materna, a língua caboverdiana (o crioulo) alcança alguma supremacia. É
ciente dessa aparente contradição que me situo em
relação às questões
que se levantam à
Baltazar
Lopes, afirmou, de forma categórica, que "o crioulo de Cabo Verde
apresenta uma vitalidade que torna impossível a sua «erradicação»
de fala comum, e até uma
viabilidade literária incontestável, a contrastar com a magreza da sua
estrututa morfológica". Ou não teria ele dado o
contributo
que deu na investigação linguística do crioulo.
E
vou transcrever de seguida, para confrontarmos com a opinião científica
anterior, a afirmação duma mulher do povo: "O meu nome é Cesária e canto a
morna porque
porque se o fizer em inglês, em
francês ou mesmo em português não vou fazê-lo bem. O crioulo é o meu sangue, a
minha raiz".
Assim
constatamos que muitas
composições da nossa literatura cantada têm sido traduzidas directamente do
crioulo para o francês ou inglês, embora na sua
generalidade, tais
traduções, feitas um pouco à pressa, pecam por não conseguirem penetrar na veia
poética dos textos originais.
Acerca
da dificuldade de tradução, proponho as coisas
fez
das endechas a Bárbara Escrava!
O
bilinguismo
necessário grau de
maturidade, que permita ter, sem equívocos, na lingual escrita todos os
inumeráveis recursos da língua falada, da nossa elocução
oral.
A acontecer, quando chegar o tempo, deverá ser com naturalidade. E a língua portuguesa ficará, também ela, dignificada e
enriquecida.
Ciberkiosk.
No poema «Aonde jazem os
os seus versos convocam são
deveras congruentes com as suas referências literárias, que
que fornece a epígrafe ao livro
- a Ezra Pound (e
Timóteo
Tio Tiofe, de modo, digamos, algo desequilibrado, em favor
das europeias. Sem querermos ressuscitar velhas polémicas sobre
cabo-verdianidade e
africanidade, considera-se, ainda assim, um poeta africano? Ou será que, na
situação pós-colonial, a questão não faz sentido
para si?
António de Névada. O âmago filosófico duma poesia está intimamente ligado
à
realidade
histórica e cultural no qual se insere o corpus poético do autor.
É
inegável! A nossa mundividência, que nos dá uma especificidade própria,
prova,
também, que a cultura caboverdiana, a caboverdianidade ou tudo aquilo
que
nos define em essência é determinado pelo elemento africano.
Sou
caboverdiano, um ilhéu africano, é óbvio, e nessa medida não posso ser
coisa
nenhuma senão, antes de mais nada, um poeta africano. É tão profundo
quanto
imensurável! E assumo, sem complexos, os meus mestres, os autores das
obras
de arte que marcam as minhas concepções estéticas, independentemente
das
origens (geográficas ou culturais), das restrições territoriais (que não
existem
na arte), dos eventuais desequilíbrios, e muito menos por receios em
ressuscitar
velhas polémicas.
E
se não há credo nem raça para as vicissitudes da vida e nascemos na
encruzilhada
de todos os caminhos, e se a raiz do dorso é carne é osso, no
alvoroço,
então, a gratidão e a afronta são amparadas com firmeza na mais
atroz
das nossas vivências: sal d'nha corp ê c'ma tambor na d'susper
d'SánJon.
Ciberkiosk.
No universo de carência e sofrimento dos seus versos é possível
reconhecer
uma referência constante a Cabo Verde. No entanto, a nomeação
referencial
é evitada e antes objecto de uma metaforização contínua, como
nos
versos seguintes, do poema «Deusa»: «Gemem gemidos rasgados / e cinza
paisagem
/ deixa cair pétalas de basalto / em crateras vivas». Num certo
sentido,
esta poesia não podia ser mais cabo-verdiana (como o é, em
alternativa,
no poema «Captô», em que recupera, digamos, o romanceiro das
ilhas),
e no entanto, na sua retoricidade intensa, ela adopta, de modo algo
ostensivo,
uma atitude de indiferença em relação à agenda emancipatória da
literatura
cabo-verdiana produzida pela geração que «não quis ir para
Pasárgada».
A sua poesia, digamo-lo assim, não seria pensável há 20 anos
atrás,
de tal modo se afasta da temática do engagement, estando por isso,
nessa
data, fatalmente condenada a uma acusação global de «formalismo».
Concorda?
António de Névada.
A geração que «não quis ir para Pasárgada» teve a sua
razão
de existir, no contexto de denúncia, assumindo um discurso liberto da
doutrinação
luso-tropicalista.
Hoje,
quando leio Ovídio Martins não posso deixar de sentir emoção pelo seu
espírito
inconformista e pelo lirismo dos seus versos. E se de alguma forma,
a minha poesia denota uma atitude de
indiferença em relação à agenda dessa
geração
(a emancipação é já um dado adquirido), não é de todo anormal que
assim
seja. Mas denotar isso de modo algo ostensivo é acidental.
Não
concordo com a afirmação final.
E
convém não nos esquecermos que os dois primeiros volumes de Exemplos de
João
Vário, Exemplo Geral (1966) e Exemplo Relativo (1968), anunciam, com
quase
duas décadas de antecedência, um novo processo, que rompendo com as
convenções,
propunha novos caminhos à poesia caboverdiana. A essa data já o
impensável
acontecia?
Há
vinte e picos anos atrás, na Carta a Bia d'Ideal, Corsa de David
associava-se
às críticas sofridas então por Junzin!
Ciberkiosk.
A sua poesia tende para a forma extensa, quer se trate do verso
ou
do poema. Essa forma extensa articula-se com uma dicção grave, que vai
como
que salmodiando o carácter sagrado do seu universo poético - que pode
ser
a «gestação do pilão» na qual «a densidade é um poema». São para si
igualmente
sagrados o texto e o mundo? Ou tem um precedência sobre o outro?
Ou
não aceita sequer as coordenadas desta pergunta?
António de Névada.
semeadura,
a terra cavada, rasgada, lavrada, é uma terra seca, crua, que não
foi,
há muito, amolecida pela água. E curvando ao ritmo das sementes,
largando-as
uma a uma ao semeio, ele, o homem, crê que cumpre, com
abnegação,
o seu dever. E espera e crê!
Ano
após ano, propor, assim, o pão e o vinho, não é temperar a hóstia e o
salmo?
É
evidente que tudo isto tem o seu quê de sagrado. Não o acto mas o ânimo
que
o sustenta! E não pode passar imperceptível ao lado da sensibilidade sem
despertar
a perplexidade.
Vejamos:
no acto de sepultar a semente, a morte não será de uma omnipresença
atroz?
Não
será legítimo que o caboverdiano se veja confrontado, inevitavelmente,
com
questões de ordem ontológica? Acentuo que a poesia lavra ou pretende
lavrar
a própria alma, e que, por excelência, a mente é o instrumento e o
campo
de toda a lavoura.
Eu
até não me importava de encontrar cara a cara com O sagrado, livre de
qualquer
admonenda, pois até tinha algumas questões incómodas para Lhe pôr.
Faço
minhas estas palavras ditas por um velhote da minha cidade. Por
sinal,
dizia-se
que o homem não era muito "católico" das ideias.
Em
horas mais propícias haverá muito a acrescentar à questão do sagrado que
carrega
nas faces as rugas místicas da religiosidade. Essa religiosidade do
meu
universo poético que deve ser entendida no sentido de religare, de unir
o
homem à sua ancestralidade:
São
nuvens?
Não!
São almas nossas.
São
árvores?
Não!
São nossos cadáveres.
A
Bíblia é uma grande obra estética e literária, tanto pela sua carga
poética,
como pela sua importância histórica. E tenho sido um leitor assíduo
de
alguns dos livros nela contidos. Nomeadamente o livro dos Salmos.
Ciberkiosk.
Quer o seu livro publicado, quer o ainda inédito, organizam-se
rigorosamente
em três partes, buscando um fôlego épico para abordar o seu
universo.
O título do seu segundo livro, contudo - Esteira Cheia ou o Abismo
das
Coisas - parece sugerir que o mundo a cantar é tão pleno quanto ausente
(o
que é capaz de ser um sentimento definidor da cabo-verdianidade). O seu
projecto
de uma épica lírica, sobretudo conseguido
deixa
de evocar Corsino Fortes, poeta presente nos seus dois livros. Assim
como
a celebração de um «abismo das coisas» permite uma aproximação à
vertente
metafísica da obra de um João Vário. Aceita situar-se numa relação
privilegiada
com esta ascendência poética?
António de Névada.
Aceito, com naturalidade, tal ascendência poética.
Ciberkiosk.
Quer-nos falar sobre as razões que o levaram a intentar um texto
de teor mais proximamente épico,
António de Névada. É óbvio que alguns dos meus mestres são autores de
épicas
contemporâneas
de inspiração Homérica. Esteira Cheia não está alheia ao
ensejo
que terá movido tais concepções estéticas. Em meados de noventa e
cinco
na Carta ao tio Djom à volta de Esteira Cheia ou Abismo das Coisas, eu
dizia
que esta havia atingido a maturidade: (...) Há sempre uma grande
melancolia
que envolve a peça de arte e o autor. E quando ele (o autor) vê a
peça
encadernada, já impressa ou retirada do cavalete, é como se a própria
alma
transfigurada se apercebesse de que essa separação corporiza o
inacabado,
é uma pausa à semelhança da morte...
A
estrutura do livro (que se assemelha, de certa forma, à estrutura épica, e
que
eu designaria por drama ou polifonia poética) subdividida em Prelúdio,
Canções
1ª, 2ª e 3ª (cada uma composta em três cantos) e Coro (ou rapsódia
final),
é aquela que melhor sustenta os intentos desta proposta poética.
Fazendo
uma analogia com a classificação das óperas, não há aqui o
antagonismo
entre a música pura e o texto dramático, ou seja, a melodia (a
tessitura
ou tecedura textual) e o próprio texto, indissociáveis (porque
como
uma síntese de angústias metafísicas), coexistem e viabilizam o poema.
A
canção primeira (Meditações) de Esteira Cheia tem por epígrafe palavras
ditas por John Coltrane. Trata-se de
um reconhecimento. Esse grande
compositor
compreende (abraça) o religare, procurando de forma obsessiva,
incansável
e mesmo agônica a ancestralidade. É esse o lugar de A Love
Supreme,
Transition, Meditations, obras fundamentais, que alicerçam, também,
a
minha concepção do belo.
Resta-me
acrescentar que o epos, o mito vivente, que sustenta esta proposta
poética,
nada mais é do que o sentido efémero das coisas, a angústia, no
sentido
mais amplo, os pedaços desgarrados do eu doendo, a dimensão humana.
Daí
a premissa de me lançar, também eu, à procura obsessiva e agônica do
mundo
e do lugar no mundo.
Ciberkiosk.
Para terminar, de que modo é que a poesia portuguesa lhe é
relevante?
Ou seja, como se relaciona com ela: como com uma literatura
estrangeira,
no mesmo plano, digamos, da francesa ou inglesa? E que poetas
portugueses
leu ou lê?
António de Névada. Se
a pergunta é feita abordando o conceito de
nacionalidade,
direi que me relaciono com a poesia portuguesa como uma
poesia
que pertence a uma literatura estrangeira. Não no mesmo plano,
neste
país, tenho, de certa forma, um apreço por esta bela cidade que é
Coimbra,
aqui nasceu o meu primeiro filho, mas ainda assim, sou e sinto-me
estrangeiro
em Portugal.
A
poesia caboverdiana, a literatura do meu país, é uma literatura da língua
portuguesa.
E àquilo que digo numa resposta anterior, direi mais: a minha
pátria
é, também, a língua portuguesa.
É
justamente por aí que eu começo, por onde iniciei a descoberta da poesia
portuguesa:
devorei nos primeiros anos da minha adolescência toda a obra
poética
de Pessoa. Visitei com deslumbramento o universo dramático de Antero
de
Quental e a poética de Camões. Tenho lido uma boa parte dos poetas
portugueses
deste e do passado século, e sou um leitor assíduo de Jorge de
Sena, Mário de Sá-Carneiro, Al
Berto. E Herberto Helder e Nuno Júdice têm-me
marcado
profundamente.
Situação Linguística
Estas duas línguas moldam,
embora de maneira diferente, toda a história e toda a visão do povo
cabo-verdiano. Deve-se notar que a Lp passou a existir
A história secular dessas
duas línguas
Não obstante, o estatuto
linguístico das duas línguas continua sendo muito diferente. Com efeito,
enquanto a Lp é língua oficial e do ensino, da literatura, dos mídia e das
situações formais de comunicação, o Ccv é língua de comunicação na família,
língua das tradições orais, principal suporte musical, numa palavra, língua da
oralidade e das situações informais de comunicação.
Esta situação fez com que a
Lp fosse sempre considerada como língua de prestígio e o Ccv como língua de
amizade e do coração. Tratando-se de situações informais de comunicação, o Ccv,
sobretudo junto da elite letrada, teve quase sempre um estatuto de menoridade,
chegando mesmo o seu uso a ser considerado desprestigiante. E isto,
particularmente devido à falta de um alfabeto e de uma escrita estandardizados,
à inexistência, durante muito tempo, de uma gramática escrita e à sua ausência
tanto na administração como no sistema formal de ensino.
A situação de diglossia, no
sentido atribuído por Ch. Ferguson (3), era o que melhor se adaptava e se
adapta ainda ao contexto linguístico do País.
Para além da diglossia, há
também o problema da dialectologia. Cabo Verde é um arquipélago de dez ilhas,
sendo nove habitadas. O povoamento
deu-se em épocas diferentes, as primeiras ilhas no século XV e as últimas no
final do século XVIII. A distância entre as ilhas é pequena (entre 10 e 45
minutos nos pequenos aviões), mas durante muito tempo a comunicação era escassa
e a mobilidade social era quase nula. Daí que a situação geográfica e social
favorecia a formação de variedades dialectais e sociolectais.
Até a manhã da Independência
Nacional, ocorrida em Julho de
2 . Contradições do xadrez
sociolinguístico
A relação entre a Lp e o Ccv,
não sendo totalmente harmoniosa, foi no entanto pacífica, do século XV ao
século XIX, altura em que o sistema do ensino formal, ministrado exclusivamente
em português, conferiu, por um lado, um grande prestígio à língua portuguesa e,
por outro lado, passou não só a marginalizar, como também a menosprezar a
língua crioula.
Notícias históricas dizem que
antes do século XIX a importância do Ccv era tal que um escritor anónimo, em
1784, chegou a afirmar que dos brancos estantes em Santiago “raros (são)
os que sabem falar a língua portuguesa com perfeição, e só vão seguindo o
estilo de falar da terra, que é uma corruptela tão rústica que não se pode
escrever” (4). Nessa altura, alguns puristas e cultores do português
escreviam para o rei de Portugal alertando-o pelo facto de um grande número de
portugueses se terem já acostumado ao “estilo da terra” e, por
isso, pouco a pouco, vão deixando de lado a prática da língua portuguesa.
Não há dúvida de que a larga
prática e preferência não só dos negros e mestiços, mas também dos próprios brancos
em relação ao “estilo da terra”, entenda-se Ccv, era grande e tudo
indicava que um futuro promissor estava reservado ao Ccv. Porém, por mais
estranho que possa parecer, o alargamento do ensino formal no século XIX e a
criação do Seminário-Liceu de S.Nicolau, na segunda metade deste mesmo século
(1867) constituíram, por um lado, os principais entraves ao desenvolvimento do
Ccv e, por outro lado, criaram as condições estruturais e institucionais para a
afirmação e o desenvolvimento da Lp. A partir de então, o desenvolvimento das
duas línguas passou a processar-se num contexto de contradições e de competição
desigual, no âmbito político, cultural e linguístico.
2.1. Contradições do foro
político
Já vimos que, até ao século
XIX, o desenvolvimento tanto da Lp como do Ccv se processaram de forma quase
que espontânea, sem nenhum projecto programático explícito.
Com o alargamento do sistema
de ensino formal, os que determinavam os destinos da sociedade cabo-verdiana
deram-se conta de que a dominação, para ser completa e eficaz, para além da
vertente política e económica, tinha que ser também cultural. Nesta base, o
desenvolvimento do Ccv seria, na interpretação do discurso colonial de então,
um atentado à ideia unitária do Império português. Aliás, num Congresso de
Antropologia Colonial (1934), um dos congressistas, referindo-se à situação
linguística preocupante da então Colónia, diz que até os filhos de Portugal
“animam este uso aprendendo o crioulo logo que chegam da Europa, usando-o
no trato doméstico e educando os seus filhos a falarem quase com a exclusão do
português”. Continuando, o mesmo congressista afirma: “o crioulo
[...] não favorece a ideia unitária do Império” (5). Nesta base, urgia,
de um lado, declarar guerra ao crioulo e, de outro lado, criar as condições
estruturais e institucionais que favorecessem a afirmação da língua portuguesa.
Assim sendo, o uso do Ccv
passou a ser proibido na administração e nos estabelecimentos de ensino, tendo
por legitimação um conjunto de anátemas proferidas a seu respeito, podendo
estas ser resumidas no seguinte:
“ridículo crioulo,
idioma o mais perverso, corrupto e imperfeito; gíria ridícula, composto
monstruoso de antigo português e das línguas da Guiné que aquele povo tanto
preza e os mesmos brancos se comprazem a imitar; miscelânea de português
antigo, de castelhano e francês, sem regras algumas de gramática; língua... que
carece de três letras –scilicet, não se acha nela F, nem L, nem R, coisa
digna de espanto porque assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei e, desta maneira
vivem sem justiça e desordenadamente” (6).
Do lado da Lp, por seu turno,
foi reforçado o ensino, particularmente junto da elite intelectual e foram
criadas mais instituições, tanto do ensino primário como do secundário, na
então Colónia de Cabo Verde, e atribuíram-se bolsas de estudos, como prémio,
aos filhos da classe intelectual privilegiada, para estudos na então Metrópole.
A política linguística de
então visava fundamentalmente promover a Lp e marginalizar o Ccv. No
pós-Independência (a partir de 1975), a situação melhorou relativamente à
política de afirmação e valorização do Ccv, sem no entanto ter podido colocá-lo
no seu devido lugar. Com efeito, à vontade política, claramente expressa nos
diversos Programas de governação faltava o suporte económico e técnico capaz de
tirar o Ccv do subdesenvolvimento em que se encontrava. Nesta base, a Lp que
possuía já os principais instrumentos linguísticos e estruturais para a sua
afirmação e desenvolvimento – como escrita estandardizada, dicionários,
gramática, material didáctico, suporte literário, professores formados,
estabelecimento de ensino -, foi assumida, livremente, como língua oficial. O
Ccv, por sua vez, sendo uma língua largamente oral, sem alfabeto nem escrita
estandardizados, sem gramática escrita nem dicionários, sem professores
formados nem instituições minimamente capazes de assegurar o seu ensino, foi
declarado apenas como língua nacional.
2.2 - Contradições do foro
cultural
Elas decorrem da própria
situação histórica em que se processou o desenvolvimento das duas línguas. O
discurso colonial convenceu a elite letrada e a classe economicamente
favorecida de que a Lp era sinónimo de saber, de educação e de prestígio. As
próprias massas populares, ao constatarem que a Lp era a língua dos espaços
importantes de comunicação, como a administração pública, os tribunais, a
religião, os mídia, convenceram-se, elas também, de que a Lp era a língua de
cultura e o Ccv apenas a sua língua de casa e de família.
Mesmo no pós-Independência, a
atitude da maioria dos cabo-verdianos, frente às duas línguas, na prática, era
e é muito parecida: uma simboliza o prestígio e o saber e a outra representa a
marca identitária e o suporte principal das tradições culturais. Assim, os
políticos, escritores, jornalistas, funcionários públicos optaram pelo uso da
Lp em todas as situações formais de comunicação. Porém, para as situações
informais de comunicação, toda a gente, do campo à cidade, utiliza, geralmente,
o Ccv. Não obstante, as massas populares, os artistas musicais, em geral, os
tradicionalistas, a elite intelectual, bem como ainda todos os que fazem parte
da civilização da oralidade – e que são a maioria do povo cabo-verdiano
-, utilizam, no seu dia-a-dia, o Ccv. Tendo constatado tudo isto, o grande
escritor brasileiro Jorge Amado declarou em 1986 que
que não deixa de ser
significativo é que os próprios políticos, jornalistas e activistas sociais, em
“situações limites” onde é urgente que a comunicação passe no próprio
momento da elocução e com a carga semântica desejada, por mais literatas ou
elitistas que sejam, passam a utilizar o Ccv. Isto acontece, por exemplo, em
campanhas eleitorais ou em situações de catástrofe, por ocasião de erupções
vulcânicas, ou ainda durante o período de uma determinada epidemia. Muitas
vezes ainda, em “spots” televisivos de grande interesse social,
económico ou político, o texto aparece na televisão em português, mas a voz-off
é ouvida em crioulo.
Por tudo isto, a língua de comunicação
Resumindo esta situação,
alguém chegou a dizer que
2.3. - Contradições do foro
linguístico
Se o discurso colonial caracterizou
o Ccv, primeiro como deturpação do português e como algaraviada sem regras nem
gramática e depois como simples dialecto da Lp, no pós-Independência o Ccv,
apesar ter ascendido ao estatuto de língua nacional, continua a enfrentar
gravíssimos problemas de desenvolvimento.
número dos que utilizavam o
próprio Ccv para dizer que ele não tinha gramática diminuiu; porém,
inventaram-se outros argumentos para atrasar o seu processo evolutivo.
Alguns escritores de renome
diziam que não precisavam e não precisam do Ccv para escrever os seus livros. O
que não deixa de ser curioso é que um ou outro desses mesmos escritores dizia
que para a literatura: só o português, mas para falar com a filha: só o
crioulo. Outros defensores do português passaram a argumentar que, sendo o Ccv
a língua forte, em termos de comunicação informal, o seu desenvolvimento
representaria, não um atentado à unidade do Império, como se dizia na época
colonial, mas um atentado à língua portuguesa que só uma minoria da população
dominava. Ora, se o povo já sabe o crioulo, então é preciso investir no
português que ele não sabe ou não domina.
Alguns políticos e
intelectuais ainda achavam que sendo Cabo Verde um país pobre e em vias de
desenvolvimento, não seria o crioulo a ser utilizado quando se deseja pedir
milho ou arroz ao estrangeiro. Para eles, seria mais inteligente e mais
económico fazer-se o investimento no português que, para além de ser
“língua de civilização”, possui a vantagem de dispor de
instrumentos pedagógicos como: a escrita estandardizada, a gramática, os
manuais, os professores e o suporte literário.
Um outro argumento ainda em
desabono do Ccv tem sido a questão dialectal. O povoamento das ilhas em épocas
diferentes e a situação geográfica (arquipélago de dez ilhas, sendo nove
habitadas) , a pouca mobilidade social, particularmente no período colonial,
forjaram variedades linguísticas em cada ilha. Se todas as ilhas são apegadas à
respectiva expressão local, qual poderá ser a variedade ou a variante a ser
implementada como língua do ensino? Para eles, também, a melhor solução seria
ainda o português.
Um outro argumento contra o
desenvolvimento do Ccv dizia que só os que não sabem a língua portuguesa, só os
que não conhecem as vantagens sociais, económicas e culturais dessa grande
língua de civilização é que propugnam pelo desenvolvimento do Ccv.
Finalmente, o argumento que
se julga mais “moderno” diz que, se a língua da
“globalização” é o inglês, torna-se, então, inútil o investimento
no Ccv.
Todos estes argumentos
desencontrados dão razão aos autores de Éloge de
“Notre Histoire [...]
naufragée dans l’Histoire coloniale [...] n’est pas totalement
accessible aux historiens. Leur méthodologie ne leur donne accès qu’à
Diríamos que, para os autores
de l’Éloge de
2.4. Em Defesa do Ccv
São as próprias contradições
do meio sociolinguístico que forneciam e fornecem argumentos aos defensores do
Ccv, aos que detêm a visão artística e antropológica da humanidade. Com efeito:
•O bilinguismo,
É convencidos do valor
patrimonial tanto da Lp como do Ccv que muitas vozes se levantaram em defesa de
ambas as línguas, particularmente do Ccv que tem sido objecto de desprezo e de
marginalização. Assim, vários patriotas têm defendido a causa do crioulo umas
vezes de forma polémica; frequentemente com trabalhos de cunho literário ou
musical; algumas vezes com seminários, colóquios, estudos ou reflexões; outras
vezes com experiência piloto de ensino.
A conclusão que se pode tirar
é que tanto a Lp como sobretudo o Ccv têm direito de cidadania
É dos contornos dessa
política de valorização das duas línguas que mais abaixo trataremos.
- Perspectivas para a
construção de um verdadeiro bilinguismo
Pela importância do crioulo,
como suporte identitário e instrumento insubstituível para a integração no todo
nacional; pela importância do português como suporte de uma parte da visão do
mundo que temos e como instrumento eficaz quer para o diálogo inter-cultural,
quer para a integração de Cabo Verde na comunidade internacional, a situação
linguística que melhor servirá ao país será aquela onde o bilinguismo é um dado
real e não uma simples miragem. Por isso, a política linguística, sem descurar
o ensino de línguas importantes para o concerto das nações, como é o caso do
inglês e do francês, deve apostar seriamente na transformação do português, que
já é língua oficial, em língua veicular e na transformação progressiva do
crioulo em língua co-oficial. Estas duas transformações devem constituir os
dois objectivos fundamentais da política linguística. Não se trata de
transformar o português em língua materna nem do crioulo em língua
internacional. Se isto, porventura, um dia acontecer, Cabo Verde só teria a
ganhar. Por enquanto, o que se pretende é fazer com que o português seja
aprendido com rigor, por todas as crianças na idade escolar e por todos os
estudantes durante a fase académica. O que se pretende é que a sociedade
cabo-verdiana, se não na totalidade, pelo menos de uma forma expressiva e
representativa possa estar preparada para codificar e descodificar a língua
portuguesa, nos diversos domínios do seu emprego, nas diversas funções que
exerce. Para lá chegarmos, não há outro caminho senão a democratização efectiva
da educação e a aposta consequente num ensino de qualidade.
Quanto à transformação
gradual do crioulo em língua co-oficial, o que se pretende não é simplesmente a
adopção de um decreto ou a publicação de uma lei. A co-oficialização do crioulo
significa fazer com que ele esteja presente no ensino (como matéria e como
instrumento), na administração, nos diplomas legais, nas sessões parlamentares,
nas comunicações ao País dos Órgãos de soberania, nos mass-média, na
literatura, enfim, em todas as situações formais de comunicação, dentro do País
como na diáspora.
Os custos tanto do português
veicular” como do “crioulo oficial” são avultados. Alguns,
talvez mesmo muitos bons cabo-verdianos, preferirão perpetuar a situação actual
, isto é deixar o português para a comunicação formal e o crioulo para a
comunicação informal. Para estes, Albert Memmi responderia:
“se résigner à écrire dans une autre langue que celle
de la majorité de la nation, c’est perpétuer le fossé entre lui et la
rue, entre le menu peuple et les privilégiés de l’argent ou de la culture.
Les conséquences n’en sont pas seulement d’ordre moral: la mise à
l’écart culturelle de la majorité d’un peuple a, très probablement,
des résultats socialement et économiquement néfastes ... (et le dilemme
persiste): on choisit une langue européenne pour éviter des dommages immédiats
et pour aller vite; mais ce choix entraîne de nouveaux dommages, qui ne peuvent
être réparés que par le temps”.
Não nos contentemos em, de um
lado, evitar pequenos problemas imediatos e, de outro lado e a longo prazo,
preparar o fosso da desgraça. A construção do bilinguismo terá os seus custos,
mas vale a pena um tal investimento. Vale a pena porque o que está em causa é a
nossa dignidade nacional e a nossa integração internacional; vale a pena porque
é o próprio desenvolvimento integrado que o reclama, que o exige.
Nada de pânico. Não se vai
construir o bilinguismo em detrimento de outras exigências fundamentais como o
pão, a saúde e a habitação. O bilinguismo é para servir o homem e não
vice-versa. Por isso, a sua construção será progressiva e de acordo com as
possibilidades do país real que temos. A operação deverá ser realista,
progressiva e pragmática.
A construção do bilinguismo
não pode processar-se no escuro, no caos ou no vazio. Torna-se indispensável a
formulação de princípios, a definição da metodologia, a criação de estruturas,
a fixação de metas, o estabelecimento das etapas.
É sobejamente sabido que o
ser, o estar e o devir cabo-verdianos possuem, fundamentalmente, duas
gramáticas, dois códigos, dois sistemas linguísticos. Em nome do realismo, mas
também da autenticidade, não podemos nem negar, nem subestimar a nossa
história, a nossa antropologia diglóticas. Em nome desse mesmo realismo
aceitamos, transformamos e valorizamos o mundo que criamos ou que perfilhamos,
de acordo com o nosso ritmo, a nossa visão, as nossas possibilidades e
potencialidades.
Este sentido do real
conduz-nos ao desenvolvimento e ao exercício da filosofia pragmática. Esta
exige que a nossa acção parta do real, no momento oportuno, com um calendário
bem determinado, com a selecção adequada dos “inputs” e garantia
antecipada do “output” desejado ou programado.
Sendo notório que a
antropologia das ilhas fala sobretudo o crioulo e escreve fundamentalmente o
português, tudo indica que a busca de complementaridade entre os dois sistemas
linguísticos deixa de ser uma conveniência para se transformar numa exigência.
Nem substituição, nem sobreposição, nem competição. Apenas complementaridade.
Uma complementaridade onde se ouve a voz do transnacional e se sente o pulsar
do nacional, num concerto harmonioso, integrador e respeitador.
- Conclusão
Qualquer medida de política
linguística tem que estar enquadrada dentro de uma determinada visão. Ora, no dealbar
de um novo milénio, a visão que se pretende para o nosso desenvolvimento é a de
um Cabo Verde virado para a participação de todos os seus filhos ; um Cabo
Verde onde o progresso não é concebido apenas em termos económicos, mas numa
perspectiva de qualidade de vida, de justiça, de equidade e de respeito pelos
direitos da pessoa humana, sejam eles linguísticos ou cívicos ; um Cabo
Verde que reconhece o pluralismo cultural e o aceita como modo de vida normal e
como fonte de riqueza, de desenvolvimento e de bem-estar ; um Cabo Verde
capaz de produzir ciência e técnica tanto em crioulo como em português ;
um Cabo Verde onde haja um contexto favorável ao desenvolvimento integrado, à
preservação da identidade, ao exercício da cidadania e ao diálogo intercultural.
Toda esta visão deve ter como pano de fundo o bilinguismo crioulo-português,
mas sem exclusividade, já que hoje o inglês e o francês , quer se queira ou
não, são instrumentos importantes para o concerto das nações. A aposta de Cabo
Verde deve ser no crioulo como língua nacional e co-oficial, no português como
língua co-ficial e veicular, no inglês e francês como línguas internacionais,
para as relações interculturais, a nível planetário.
Se o discurso colonial
prejudicou o Ccv para que a Lp saísse engrandecido, hoje o discurso do
humanismo e da arte libertadora exige que cada coisa seja colocada no devido
lugar para que o exercício da cidadania seja uma vivência e não uma miragem. E
porque hoje é moda falar-se da globalização ; e porque
“Quanto mais noção
temos da globalidade, mais ficamos conscientes das identidades locais, e mais
as protegemos : é esse o paradoxo da aldeia global. O hiperlocal é
complemento inevitável do hiperglobal”.
Notas:
Manuel VEIGA, Le créole du
Cap-Vert : étude grammaticale descriptive et contrastive, thèse de
doctorat du 3ème cycle, Université d’Aix-en-Provence, octobre 1998, pp.
7-26.
António CARREIRA, O crioulo
de Cabo Verde – surto e expansão, Gráfica EUROPAM, Lisboa, 1982, pp.
62-63.
Charles FERGUSON, Diglossia,
Word, 1959, vol. 15, pp. 325-340.
António CARREIRA, Notícia
Corográfica e Chronológica do Bispado de Cabo Verde, ICL, Lisboa, 1985, p.27.
Manuel FERREIRA, A Aventura
Crioula, 2ª Edição, Plátano Editora, Lisboa, 1973, pp. 127-133.
Idem 2, Ibidem, pp. 62-63
J. Bernabé, P. Chamoiseau,
R.Confiant, Éloge de
Derrick de Kerckhove, A Pele
da Cultura, Relógio d’Água, Lisboa, 1997, p.243. Título original: The
Skin of Culture.
Lisboa, Abril de 1999
Uma das caracterizações deste romance é feita pelo poeta e
ensaísta José Luís Hopffer Almada quando afirma (1):
“[...] Manuel Veiga publica na segunda metade dos anos
80, Odju d’Agu, o primeiro romance em língua cabo-verdiana. Romance de
iniciação aos meandros da nossa língua no que ela contém de riqueza metafórica
e analógica, consubstanciada em ditos, provérbios, adivinhas, reelaboração de
estórias, crenças e costumes tradicionais. Odju d’Agu é, à semelhança do moderno romance africano, uma feliz
recriação da oralidade, e da espiritualidade a ela subjacente, pelas técnicas
do romance moderno.
[...] No que respeita ao seu
conteúdo, Odju d’Agu é assim a história da viagem iniciática das
personagens [...] pelo mundo das suas origens enquanto país, e enquanto país
africano. [...] o romance Odju d’Agu constitui assim como que uma
reformulação de todos os pressupostos estético-ideológicos da claridosidade,
pela sua negação, por um lado, particularmente do lusotropicalismo, e pela sua
complementação, por outro lado, pela inserção de toda a problemática social do
morgadio, do racismo, da africanidade, de uma certa negritude crioula e de toda
a idiossincrasia santiaguense na saga literária caboverdiana. E é neste
aspecto, a par do facto de ter sido integralmente escrito em Crioulo, que
reside a inquestionável importância de Odju d’Agu. Não é pois descabida a
aserção do professor Gerald Moser, segundo a qual Odju d’Agu é
comparável, em certos aspectos, a Piligrim’s Progress ou a Roots”.
Vejamos um extracto do livro
- na versão do ALUPEC, alfabeto unificado, recentemente aprovado, a título
experimental -, que tipifica e encerra a obra, através das palavras do narrador
principal, o já velho “kontador di stória”, Palu di Djódja (um
autêntico griot africano), que, dirigindo-se ao público jovem que o escutava,
como que numa passagem de testemunho, disse (2):
“Es stória ki nhos obi
é sima un livru ki N skrebe y ki N dexa pa nhos lé. Ku txeu pasaji, na poku
létra, el é un padás di nha povu y di mi própi, midjór óbra ki N skrebe y ki,
nin pa mi, ka da pa persebe mutu dretu. Azagua riba di azagua, noti riba-l
noti, N ba ta skrebe ku létra di sangi y ku pónta di nha kurason txeu stória di
nha vida y di nha povu.Na mê di gritus di mudjeris prenha, di kriansas
bandofadu y di soldadus maltratadu, nha kurason fridu ba ta pinga, góta pa
góta, es bokadu di stória ki, na sinku azagua, sén bês kontadu, forma,
finalmenti, un sinfonia dizafinadu, pamodi rítimu bira diferenti, instrumentu
muda di kórda, létra perde sentidu. Y, sô ku konta otu kusa y na otu konpasu,
éra ramedi. Mas, mi nha pérna dja bira fraku, nha vós dja bira roku y,
alendumás, nha sol dja sa ta ba ta kanba”.
Notas:
Ver “A Ficção
Cabo-verdiana pós-Independência”, in Cabo Verde – Insularidade e
Literatura, Khartala, Paris, 1998, pp. 180-181.
Ver Odju d’Agu, ICL,
Praia, 1987.
UMA LEITURA DE DIÁRIO DAS
ILHAS DE MANUEL VEIGA
Eutrópio Lima da Cruz
INTRODUÇÃO
Nas condições ainda precárias
e difíceis em que se desenvolve
Ora, salvos os planos da
comparação e mutatis mutandis, estou querendo visualizar - e convidaria esta
ilustre plateia a fazê-lo comigo - a felicidade do Manuel Veiga por esta sua 5a
obra dada à estampa. O escritor é aquele que escreve, passe o pleonasmo.
Escreve e tira da gaveta, publicando e disponibilizando para os outros o seu
engenho e arte. A actividade exponentiza-se quando ele traz agregada a
consciência da missão. Missão de serviço, ligando a consciência em paralelo com
tantos artistas que assim procederam nos mais variados domínios de criatividade
e expressão, apetecendo-me evocar por exemplo o genial Beethoven para quem a
colocação de cada semifusa numa partitura adquiria tal significado nos fins do
século XVIII e início do séc. XIX, em certa contraposição com escassos períodos
antecedentes em que a produção artística consistia e quase que se resumia a uma
espécie de arte pro arte, arte pela arte. Essa consciência é tão veementemente
apreendida e vivida por outros génios que se seguiram quase contemporaneamente
àquele vulto, reconhecendo-se na obra dele, tão veemente, dizia, que Richard
Wagner por exemplo não se contém e rasga a hipérbole de que Deus criou o mundo
para que Beethoven compusesse a 9a Sinfonia, a tal da Fraternidade Universal.
Couberam-me a honra e o
prazer, por amável convite do Autor, de proceder à apresentação pública do
DIÁRIO DAS ILHAS, de Manuel Veiga, convite a que acedi imediatamente primeiro
porque se me tornava impossível declinar Manuel Veiga, segundo por ter tido a
instantânea percepção de que também sou viajante na nau de todos os tempos, com
obrigação por conseguinte de algo fazer, na modéstia do possível, para o
sucesso da viagem. Por isto, vamos de imediato ao que interessa, aqui e agora.
DIÁRIO DAS ILHAS - “
Antes de mais, entremos na Nau para a viagem a que o poeta nos convida ou
melhor, nos apresenta: ...” . Assim com estas palavras acabadas de citar,
começa o Autor no 1o dia ao estabelecer os umbrais, o pórtico de entrada para o
desenrolar de uma viagem que vai durar séculos, uma viagem de séculos, tecida
por um único ideário global, o ideário da nossa história com a força da sua
lembrança.
Já na 2a linha da obra, o
Autor faz saber que vamos entrar na Nau e viajar a convite do poeta que assim
se exprime, em excertos citados:
“ Era antigamente/ a
primeira nau de escravos/ no rumo do Arquipélago/ rápida
navegando/ sob o impulso dos alísios...” .
A viagem vai-se desenrolar
por um período simbólico de 50 dias, a cada dia correspondendo um diário de
bordo, um relato. O relator é o Jorge, assim familiar e coloquialmente tratado,
o poeta Jorge Barbosa, cuja entrada em cena equivale ao eclipse do
Autor-introdutor, ainda que por vezes se possa ser tentado a reencontrá-los um
sobreposto ao outro.
Desculpar-me-ão e
compreenderão que, antes de tecer qualquer outros comentários, situe o fio
condutor do trabalho de Manuel Veiga, o que apenas ser-me-á possível fazer se
respigar esse fio condutor e a sua ossatura, com recurso ao próprio Autor. Ou
mais propriamente, ao relator, o poeta.
“ Cabo Verde começou com
uma nau [diz ele], não uma nau qualquer” . Era uma nau negreira, de
escravos, mas também de capitães-mores. Uma nau sem identidade porque a sua
história estava ainda no início, nos pórticos de entrada, já que Cabo Verde
ainda não era, estava para ser. Essa nau inicia uma viagem que nós agora
voltamos a fazer porém retrospectivamente, uma vez que se trata de uma viagem
que já é história. “ Era antigamente...” .
A nau dirige-se ao Arquipélago. Navega rapidamente, tem
pressa, vai investida de uma missão. E “ nessa hora então/ nessa hora
inicial começou a cumprir-se/ este destino ainda de todos nós” .
Interessava era a chegada, frisa o Autor. A chegada era condição preliminar
para que tivesse tido razão de ser e sentido o viajar “ sob o impulso dos
alísios” ou seja, viajar movido pela “ vã glória de mandar” ,
como diria Camões ou ainda para implantar a Fé e o Império, como diz ainda o
mesmo poeta. Esses desígnios encontram-se visualmente estampados e
materializam-se na própria modelação e compleição física da nau com - e cita-se
- “ algo de grandeza nos mastros altos/ com vergas em cruzes” .
Mais, Jorge Barbosa retrata poeticamente a nau como “ insubmersível/ e
inquebrável/ a nau sustinha no balanço / o peso dos tufões e das ondas” ,
ela que vinha de velas enfunadas ao sopro salgado das brisas, velas essas que
mantinham o contorno do peito dos pombos, na expressão sempre do poeta. Estes
constituem apenas alguns excertos do poema Relato da Nau, onde Jorge Barbosa,
em cada palavra, em cada verso e numa alegoria, encadeia a história de
sofrimento mas também de resistência. O
poema é mais extenso e contundente, quando refere terríveis tempestades
experimentadas pela nau e que provocam baixas no carregamento escravo de que
ela é portadora. Todavia, ela não soçobra. Antes, é reparada para novas
viagens. Assim como também os escravos não morrem todos, restando vivos ainda
em número suficiente para testemunhar a sua própria história e prosseguir a
saga a que foram votados, saga essa que apontava para um horizonte e um amanhã
de liberdade e dignidade. Aliás, tornam-se constantes na obra duas coisas:
primeiro, cada situação crítica contracena com o seu reverso cujas notas mais
salientes são constituídas exactamente pelas repercussões, da liberdade e da
dignidade; segundo, é mais do que um artifício literário que o relato de cada
dia da viagem no processo histórico desse destino ainda de todos nós, faça a
deixa para o dia seguinte. Essa deixa repete-se à guisa de um refrão no último
parágrafo de 49 dos 50 dias relatados em diários, incutindo esperança.
A trama encontra-se ainda apenas no início, dando já todavia
o relato do 1o dia de viagem, notícia dos elementos que vão ser constantes,
isto é: a escravatura, a arrogância e a petulância, a Fé e o Império pela Cruz
e pela Espada, o sofrimento e a resistência, a emergência de nova realidade
social, cultural e política a coroar a luta de séculos.
Estes arquétipos são todos reconhecíveis
a olho nu no Relato da Nau, poema fundamental para que se entre no âmago da
viagem e dos relatos de bordo diários que a viagem inspirou.
Os elementos opressores deste
processo são violentamente escalpelizados num circuito anímico em que o poeta-relator
e o relator que por vezes se lhe sobrepõe e dá notícias da sua actividade,
fazem ambos efectivamente massa e corpo com o périplo, anunciando-se como vozes
conscientes da caminhada. É que tais elementos implicaram sobremaneira,
interferências e desvirtuamentos, muito difíceis de remediar, sanar e
ultrapassar, com destinos de criaturas humanas de Kukuli, heterónimo de África,
mais do que simpático, constituindo uma forma plástica de exprimir a
necessidade ínsita de originalidade, autonomia e referenciação.
discurso prossegue com a
viagem da nau peregrina. O diário de bordo engorda com novos factos e novas
referências que vão urdindo a trama onde, num rasteio em diagonal, podemos
identificar pontos e teses de convergência, dos quais se isolam alguns,
enunciando-se ainda que em tópicos, quais sejam:
•a entrada do escriba
Jorge Barbosa no arsenal arquivístico e secular da nossa história, arrumando
códice após códice, não obstante a perda de alguns elementos mas restando ainda
o suficiente para os seus intentos e propósitos. Os versos constituíram o
trabalho do 1o dia do diário de bordo da nau, prosseguindo em prosa o seu
diário por assunção cultural, de direito próprio, com consciência de missão
explicitamente confessa, tudo isto contrastando com o desempenho forasteiro dos
que “ descobrem” as ilhas que ele passa a tratar como baías;
•o escriba-vate contempla o mar e saca dele vivências múltiplas e
multifacetadas, entre as quais a partida das naus, da primeira e de outras que
se seguiram, para o negro Continente, o Kukuli, estabelecendo-se o Norte e o
Sul da nossa história, servindo as baías de placa giratória na encruzilhada do
Atlântico; •o encontro do Jorge Barbosa com Nho Nacho, o Ali-Ben-Ténpu,
ambos passando em revista teses fundamentais da vida das ilhas, das baías,
conquanto que nem sempre coincidindo no enfoque das problemáticas e nas saídas
preconizadas para a solução das mesmas; •o florescimento económico da
Ribeira, à custa da destruição da base social e cultural de Kukuli, cuja mesologia
simbolizada no portentoso baobá, viu-se ameaçada mas nem por isso soçobrando.
Outra mesologia nasceria, a que Jorge Barbosa chamaria “ conflito numa
alma só/ de duas almas contrárias/ buscando-se, amalgamando-se/ numa secular
fusão” entre “ o clima tropical e o espelho de Portugal” .
Esta consciência aflorada
Nesse périplo e nos registos,
emerge que o escriba-vate decide cantar. E sobretudo amar nossa nudez, a dos
montes, o nosso “ environnement” , “ nos contorcionismos
extáticos de séculos” . Aceita o realismo umas vezes com amor, outras
vezes com dor mas jamais com ódio;
•o escriba-vate assiste
à organização da jurisdição temporal das baías e da responsabilidade espiritual
das mesmas, no desempenho compaginado da Cruz e da Espada; •a primeira
viagem a Kukuli, primeiro elo de uma cadeia trágica, a escravatura; a chegada insucedida
ao porto que o Autor chama “ da Desgraça” com ancoragem de estranha
nau em noite aziaga e por isso portadora de insónias; o desembarque no porto
chamado “ dos Caçadores” e a primeira caçada de negros, em
cumprimento de um plano hediondo. É uma sexta-feira, dia de semana que se torna
aziago. Numa sexta-feira, a da Paixão, a nau alcança Kukuli; numa sexta-feira,
a nau regressa à Ribeira com a missão cumprida. Dali para frente nem Kukuli nem
a Ribeira seriam como dantes. É a Hora Zero. Se o poeta se deprime e as
palavras lhe movem greve, ele acha consolo no Afro Pedro Cardoso, com a sua
“ Ode à África” ; •há frustrações e interrogações nos
kukulenses trazidos como mercadorias e escambo e parece que os espíritos dos
antepassados e a resistência do baobá terão soçobrado. Confronto vai dar lugar
a reencontro; no chão da Ribeira vai nascer algo de diferente, árvore enraizada
“ no chão arsinário dessas baías centenárias...” ; •os
kukulenses têm como única liberdade o sonho que tempo vai urdindo. Acusando o
toque do desenraizamento, uma tragédia na verdadeira e plena acepção do termo,
não se sentem todavia totalmente estranhos na Ribeira, têm alguma condição para
lutar e criar aquilo que o autor chama “ uma nova mesologia” ;
•a luta vai ser renhida, entre um Norte, impulsionador dos alísios da
dominação e da força da ambição, e um Sul vencido mas não convencido porque
escudado na razão e na Moral da Tradição; •a proveta do tempo trabalha
incessantemente e o caldeamento laboratorial da Ribeira se transforma numa
marcha cada vez mais irreversível; •assiste-se, após a Hora Zero, ao
nascimento de um outro mundo onde o cadinho do tempo vai reelaborando nova
filosofia, novos sistemas, códigos, símbolos, universos de valores,
interpretação do real, codificação e descodificação de mensagens, etc. O futuro
vai ser um parto difícil mas real, de uma mãe negra e de um pai branco, na
expressão do escriba-relator do diário de bordo; •há uma intercomunicação
nascente onde o branco se obriga à humilhação de ter de se aproximar do universo
semiológico do negro. Começa o Pidgin, limitado mas com gérmens para com o
tempo ganhar estatuto, crioulizar-se e desenvolver-se; •pela ladinização
vem a miscigenação religiosa e a afirmação dos aqui chamados “ Caminhos
da Transcendência” , com também nova mesologia religiosa; •o
desmoronamento precoce do efémero fausto da Ribeira; •o baobá,
confrontado com a seiva do pinheiro, transforma-se numa nova planta resistente
e sábia, o tamarindeiro; •o contágio da nova realidade ultrapassa a
Ribeira, espalha-se pelas ribeiras desta ilha de Santiago - a Baía do Milho - e
alastra-se a todas as outras nove baías, sujeitos do fenómeno em
comparticipação, baías “ com mastros e velas, com têmperas do
tamarindeiro e das lavas do vulcão” ; •marinheiros do Norte e lavradores
do Sul, água salgada e terra vermelha, eis a nova convivência ecológica onde a
miscigenação sanguínea comporta também a interpenetração cultural. Há uma nova
“ arquitectura da comunicação” no dizer do Autor, onde a
hierarquização dos elementos não significa a subalternização das partes mas
antes destaca o engenho, o labor e a arte da parte politicamente deprimida, de
cujo lado está a razão; •corporiza-se a morfologia do ritmo e a sintaxe
do som, com expressão máxima na língua; •o ordenamento jurídico nos
sistemas de administração da Justiça e o papel do pelourinho, eis demais
elementos; •emerge aquilo a que o Autor chama “ civilização
baiana” , entenda-se cabo-verdiana, uma nova história igual a si própria;
•o tamarindeiro galga, infesta cutelos, achadas e ribeiras da Baía; os
baianos edificam o seu próprio eco-sistema; é a nova largada; •mas os
alísios não se conformam nem desistem, antes recrudescem com hegemonia,
etnocentrismo e assimilacionismo, sobretudo depois que os grandes deste mundo ratearam
entre si Kukuli pela Conferência de Berlim; •entra em cena a arma da
consciência, com o aparecimento no palco de um novo sujeito, Abel, o
Libertador, leia-se, Amílcar Cabral, cuja missão consistiu na organização do
seu povo “ para mondar as ervas daninhas” , no dizer do vate e
fazer medrar nova mesologia. Para tanto, com outros colegas de luta, cria o seu
MPC-DB, o Movimento para a Conquista da Dignidade Baiana. A travessia do
deserto da luta vai transformar-se no toque liberto do clarim em manhã triunfante.
A alusão é por demais evidente ao PAIGC e à gesta da Independência Nacional;
•entra em cena o Ali-Ben-Ténpu com o signo da oralidade e faz
concorrência ao relato escrito, trabalho até aqui realizado pelo nosso escriba;
Jorge Barbosa passa a palavra a Nho Nacho, carisma e sabedoria popular, forte
na vertente previsão do futuro que é uma das facetas da capacidade profética;
•os deuses da Acrópole ou seja a potência colonial valem-se de todos
recursos e expedientes inclusivamente da PSA - Polícia de Segurança Alísia -
para tolher o processo baiano. Mas debalde, porquanto a força da razão estava
do nosso lado; •a morte de Abel, assassinado, premissa de aceleração do
processo libertador; •a festa dos cravos pelo 25 de Abril de 1974;
•o nascimento da menina Julinha, a Independência Nacional; é a chuva de
Julho para a esperança de colheita em Outubro, diz o Autor. O ovo resulta da
histórica fecundação tendo como óvulo a Bandeira da Liberdade e como
espermatozóide o Hino da Dignidade; •um dia Ali-Ben-Ténpu continuará
contando a saga destas ilhas; •por fim Manuel Veiga despe as próprias
máscaras ele que habilmente navegara endossando as máscaras poéticas de Jorge
Barbosa numa aliciante viagem a bordo de uma nau chamada “ Cabo
Verde” , com um diário de bordo escrito em 50 capítulos. E a chave de
qualquer enigma se patenteia, sendo o próprio Manuel Veiga a fornecer-nos a
decifração:
- Palu di Djódja do romance
Odju d’Agu, mergulha nas raízes da sua sócio-cultura e fá-lo
na língua cabo-verdiana;
- Jorge Barbosa do Relato da
Nau escreve o seu Diário das Ilhas
- finalmente o Ali-Ben-ténpu,
cuja pronúncia ainda por escrever se encontra, porque
mergulhado no futuro ainda em gestação, dará conta dos
últimos desafios da saga onde a diglossia não deverá ser
entendida como sinónimo de bilinguismo.
Remata Manuel Veiga, trata-se de três narrações, sendo
diferentes na forma. A primeira, obviamente um romance, o primeiro por sinal na
língua cabo-verdiana, o Odju d’Agu; a segunda narração, em forma
romanesca, resultando no Diário das Ilhas; a terceira narração no domínio do
porvir.
A esta altura da viagem, minhas senhoras e meus senhores,
peço imensas desculpas e compreensão por ter de alguma forma dado a palavra
mais ao Autor do que a mim mesmo como apresentador e avançado o trabalho que
pertenceria a cada um dos presentes e a quanto mais vão ler o Diário das Ilhas.
Compreendam-me, porquanto eu próprio tive a necessidade de ler em voz alta
ainda que apenas os enunciados e tópicos, primeiro para me aperceber de que de
facto estive sonhando mas efectivamente viajando na nau do tempo, a nossa nau,
portanto muito para além do mero ónus onírico-fingidor do poeta; segundo,
experimentei também a necessidade de interiorizar que, lendo o ïDiário das
Ilhasï, talqualmente lendo Jorge Barbosa, encontrava-me lendo a mim próprio no
meu próprio signo. E isto em virtude dda
caboverdianidade que as obras se impregnam.
Imploro por conseguinte a
vossa benevolência para uma ou outra consideração em torno do trabalho ora dado
à estampa, sobre aspectos estético-formais e alguns outros.
Antes de mais, no que
concerne ao género literário. Estamos inquestionavelmente no domínio da ficção.
Todavia, cautela. Não se trata de uma ficção pura e simples mas antes, de uma
reelaboração ficcional - permitam-me a expressão assente num realismo
histórico. Manuel Veiga não é historiador nem se vislumbra na obra essa
intenção específica e disciplinar. Ele é antes um escritor, um plumitivo que no
caso vertente, consegue o hibridismo feliz entre história e ficção. Esta, a
ficção, assume-se nas asas da sua liberdade e provoca ousadas laborações e
projecções. A liberdade do manuseio do género literário está patente como um
requisito elementar, um dado adquirido e uma constante. Mas a matriz
contenutística do Diário das Ilhas, por sua vez, não constituindo história
pura, não deixa todavia de ser histórica. Faz antes incursões com amplo
recurso, amplo e magistral recurso ao arsenal da história das baías, leia-se,
das ilhas.
Não será da minha
responsabilidade e lavra a catalogação desta obra romanesca como sendo um
romance histórico, ela cuja pedalada, cujo fôlego, cuja amplitude ultrapassa há
muito e de longe o mero conto. Como catalogar então, e em que faixa, o Diário
das Ilhas? Esta tarefa não nos ocupa aqui e agora em linearidade crítica, pelo
que endossamo-la a quantos irão retratar-se na obra bem como a quantos dela
venham a ocupar-se, isso sim, com a especificidade do crivo técnico-literário.
Interessa-nos tão somente reter que a liberdade do procedimento faz de Manuel
Veiga um explorador literário da existência das ilhas, da nossa existência. E um explorador com arte e mestria. Essa exploração
literária é bem hábil na tecitura da trama e dos
ligames históricos com os rumos, parcelas e Continentes em que a nossa
experiência se deu e se afirmou, continuando o processo
A via adoptada,
inquestionavelmente legítima porque tão livre quanto o sonho mormente o sonho
que venceu pela liberdade, tal via faz de Manuel Veiga
um titular e um credor do direito de ser compreendido. É que, di-lo Milan
KUNDERA citado pelo próprio Manuel Veiga, “ o
romance é um espaço imaginário onde ninguém é possuidor da verdade e onde cada
um tem o direito de ser compreendido” . Continua KUNDERA, “ o romancista não é nem um historiador nem um profeta
: é um explorador de existência” E esta é por sua vez “ o campo das
possibilidades humanas” .
Manuel
Veiga é um artista explorador destes meandros. E a questão agudiza-se quando faz
com este pano de fundo, com a
actividade literária e o seu poder transformador do verbo a tornar exponencial
a História, a nossa História, não deixamos de ficar estarrecidos com a
compreensão que o Autor revela das coisas. Ponhamos de lado por instantes o
poder transfigurador do verbo e fixemo-nos na compreensão da matriz histórica.
Esta revela-se ampla, profunda e colhedora do filão essencial de uma
existência, do fio ou dos fios condutores essenciais do processo histórico
operado nas baías. Se nos reportamos ao relativamente grande baú da nossa
história com António Carreira e quantos mais insignes nos têm dado voz e vez na
compreensão de nós mesmos e da nossa COISA, e se por outro lado tecermos nexo
com o material que Manuel Veiga manuseia, torna-se perceptível e impressionante
como o Autor do Diário das Ilhas, viajando na pátina do tempo, se transforma
num colhedor de essências, leia-se, desse filão essencial, perpassa e rastreia
a nossa História com ardente e lúcida paixão - passe o paradoxo da contradição
num lampejo que varre séculos de dor e de esperança. O rastreio é total e só
impressiona que em tão pequeno espaço se diga tanto e tanta essencialidade da
nossa existência. Mas retomemos o fio que nos ocupava. Ressalvá-lo-emos bem
claro, o Diário das Ilhas não é um manual de história, seu autor e os vates aí
consignados não se configuram historiadores. O rastreio faz-se na estação
antropo-sócio-cultural. E é então que a História ganha dimensão exponencial
para além da mera crónica, se humaniza, se projecta, se transfigura pelo poder
do verbo. Para Manuel Veiga, a prioridade da acentuação vai para a estação de
rastreio, descodificação e transfiguração. E isto, pelo poder do verbo; os
temas essenciais da caboverdianidade, deles enunciámos já alguns ao ensaiarmos
a leitura em diagonal pelo enunciado de tópicos. A leitura do Diário das Ilhas
induzirá facilmente a esses temas. E o leitor, mesmo imperceptivelmente, vai
ter que se deixar arrastar na correnteza da intelecção dos temas. Por outro
lado, a intensidade humana com que as coisas jorram em pressão dá bem a
entender a ânsia parturiente e a unção pessoal do investimento igualmente
pessoal que o Autor aqui faz. Manuel Veiga perdoar-me-á a metáfora da ânsia de
parto;
igualmente impressionante se
torna como Manuel Veiga, na esteira de Jorge Barbosa, manuseia o poder da
semiótica e das máscaras. Um fizera-o através da sua poesia musculada de
simplicidade e de tanta profundidade com amplo recurso á poesia-simulacro com
símbolos, metáforas, alegorias. De tal forma que o diário de bordo do 1o dia da
viagem da nau, sem querer, saiu uma poesia, o "Relato da Nau" que dá
o mote no Pórtico desta obra. Outro, o Manuel Veiga, inunda-nos com uma prosa
poética - existiria ela? - também eivada de recursos imagísticos numa linguagem
naturalmente fluente, eivada de tropismos com símbolos, metáforas, alegorias,
tudo convergindo numa formidável libertação de energias secularmente acumuladas
e sedimentadas. Não parece tratar-se de pura coincidência, mormente quando nos apercebemos
do que significa para Manuel Veiga aquele nosso vate-relator dos diários de
bordo, Jorge Barbosa, figura que ao longo da obra, dissemo-lo já, sobrepõe-se
com o próprio relator que dele fala, isto é Manuel Veiga. Não será que devamos
ler nesta libertação de energias o próprio génio baiano, apesar de
momentaneamente parecerem periclitar de hipnotizados tanto o seu carácter como
a sua têmpera, normalmente bem capazes de se indignarem?
Outra nota digna de registo
ainda que sumária é a condição de Manuel Veiga como linguista, que não será sem
consequências no acto como ele alcandora o surgimento e o desenvolvimento da
língua cabo-verdiana como um dos maiores e mais expressivos indicadores do
nosso processo afirmativo de janelas sempre abertas
Muito pouco mais
acrescentaríamos a quanto já dissemos sobre a consciência de si que o Autor tem
como um servidor que se coloca à disposição e cumpre com a sua arte uma notável
função social. Essa consciência revela-se já também explícita para o vate dos
diários de bordo.
As vivências e referências
colectivas não beneficiam de arte colectiva na sua elaboração ou reelaboração
técnica. O povo escreverá colectivamente a sua epopeia com e como gesta. Mas a
elaboração técnica literária colectiva não lhe é apanágio. Ora, o mecanismo
funciona de outro jeito e num circuito - diria - inverso, isto é:
colectivamente o povo lê, relê, reconhece-se, retrata-se, acha-se identificado
ou não com o trabalho sobre produzido. Mas ele próprio não é nem pode ser autor
literário colectivo fora das faixas da estrita oralidade. Ele terá sim
consciência na apreensão e na aplicação a si mesmo dos fenómenos de laboração
técnico-literária por outrem produzidos. Sei dos riscos, calculados, a que não
me exponho, sei do escorregadiço que não seria enveredar por esta teoria da
questão. Perdoem todavia se estiver desfocado. Feliz pois da Nação que tem tais
vozes a se disponibilizarem em serviço e investimento pessoal, para mais, com
amor dedicado. Di-lo a dedicatória. O que Veiga interpreta, colhe e interpreta
de Jorge Barbosa, aplica-se ao seu povo tanto em sentido literal como típico.
Com estes entendimentos, será
imperativo que o Diário das Ilhas surta o seu efeito cultural e pedagógico
junto do povo das Baías seu destinatário e objecto, seja junto dos nossos
infantes, adolescentes, jovens, adultos, círculos académicos, aconchego da
cultura em círculo de base familiar, etc., etc. Particularmente nos círculos
familiares, entre um e outro episódio de novela, com a permissão desta. Ou
então, em momento que se venha a reputar mais propício. Perdoem o aparte. O
trabalho de leitura e assimilação facilita-se imensamente pela estruturação do
Diário das Ilhas em 50 capítulos curtos, com sugestivos títulos cada um deles,
glosando quase sempre o último parágrafo réstias de autoconfiança, esperança e
afirmação. E a propósito, não tarde o dia em que sobre o Diário das Ilhas
surja, surja não, se faça, também nossa longa metragem, encontrando respaldo em
procedimentos internacionalmente consagrados. A nossa argumentística não é tão
desaparelhada nem desinteressante como isso. Pois, podem crer, no dia em que
isso se decidisse, motu proprio nacional e por assunção ou por interesse
estrangeiro com cultura e negócio à mistura, não restam dúvidas de que o guião
argumentístico teria já trabalho algo de bastante facilitado.
O Diário das Ilhas, Manuel
Veiga dedica-o, di-lo expressamente, cita-se, “ ao povo heróico das ilhas
que me legou um nome, uma pátria, uma cultura” . O peso específico é
grande, de cada um destes legados, aliás constituindo razões suficientes para o
doloroso mas reconfortante périplo que não foi a viagem da nossa nau, como
podemos depreender dos seus diários de bordo. E não exageraríamos nem
atraiçoaríamos os vates se extrapolássemos os enunciados do nome, da pátria e
da cultura, deles sacando, inferindo paradigmas e parâmetros comportamentais
dinâmicos para a nossa postura no palco da História. Sofrimento, exclusão,
escravatura, arranque violento, criminoso e trágico do húmus kukulense, eis
algumas dicas do passado, juntamente com o cortejo de outros males que
induziram ou trouxeram por arrastamento. Kukuli perdoa. Mas não esquece.
Conserva a bordo suficiente capacidade de indignação. A resistência com os
gérmens da afirmação em toda a linha acabaram por vencer. Não porém sem deslizes e reparos. As independências
nacionais kukulenses e baiana estão aí para o comprovar, não por elas em si
próprias mas por usos limitados e algo derrapantes que eventualmente terão
proporcionado. Todavia e na sua essência, constituem
ciclos, momentos e desafios, gestas inigualáveis e termos de referência para a
prossecução das viagens com eventuais correcções de rumo. Hesoooooõoooookkkkjjjkkoooooooooje
a ciência da navegação está disponível em todo o lado. Por satélites e
demais avanços tecnológicos. Também via Internet, se calhar.
Não vá por conseguinte qualquer capitão arrogar-se
exclusivisticamente e com timão de ferro a condução da nau, que terá de ser
comparticipada nos seus múltiplos envolvimentos. As independências constituem
testemunhos de vitória. O nascimento da Julinha a 5 de Julho de 1975 é nosso
testemunho e ‘testamento para um dia claro” (perdoe-me o Dr. França
o uso deste título de um dos seus poemas, que espero não fazer
despropositadamente). Testemunho, testamento e paradigma de um ciclo novo nas
vidas. Espero bem que não constitua mero acaso a apresentação pública deste
livro paradigmático quando o País se encontra ainda na quadra da celebração do
seu vigésimo segundo aniversário como independente. A Julinha vai numa idade
interessante em que, nas suas concepções e mundivisões, tudo se espraia aos pés
dela, a esperança credita-lhe gérmens de realização e sucesso, percalços
varrem-se do seu ideário, do seu imaginário, das suas representações, do seu
universo, dos seus tropismos, todos movidos pela força da lembrança como pelo
ardor do porvir que ela crê ser certeza. Todavia, as possibilidades de
derrapagens e mesmo bem perigosas, não se encontram automaticamente
escorraçadas da nau em cuja viagem são colectivas as possibilidades de salvação
como de perdição. A nau das baías é pequena mas nela cabem todos os baianos
E Kukuli, que vai ser dele? E
no momento seguinte, que é que se vai operar quando Kukuli, os baobá de Kukuli,
ainda não deixaram de estremecer nos seus fundamentos, vítimas de novos e
novíssimos estilos bem mais subtis, sofisticados e sofistas de cobiça,
marginalização internacional e rateio, insanáveis conflitos intestinos, cegos e
desvairados apetites de poder ... ... enfim, a espiral de males parece até
repetir-se, parece até determinar o afro-pessimismo, o Kukuli-pessimismo. E nós
as baías, mais uma vez, que estamos ao lado? Já o processo histórico ditara que
Norte e Sul, no dizer do vate, elaborassem com a proveta do tempo um processo
próprio no nosso próprio laboratório. Pois bem, a resistência, a inserção, a
abertura, vão ter que ser terçadas como armas e bagagens da nossa nau
Finalmente, o escritor
sabe-se e confessa-se envolvido num ciclo em três etapas da historiografia
cabo-verdiana potenciada pela arte literária. Ou seja, ele próprio armadilha-se
numa única história com três histórias. Na primeira, Palu di Djódja
protagoniza-se dando um mergulho bem fundo nas raízes do tempo sócio-cultural.
Esse mergulho corporiza-se no romance Odju d’Agu, em língua
cabo-verdiana. É o Prólogo. Na segunda, Jorge Barbosa é o vate com o Diário das
Ilhas em português, que ora nos ocupa. É o Logos. Na terceira história, a
oratura do Ali-Ben-Ténpu, leia-se Nho Nacho, recebe o testemunho tanto de Palu
di Djódja como de Jorge Barbosa sem que a diglossia se confunda com o
bilinguismo. Esta terceira está por vir, como Epílogo. Três narrações, como
no-lo-diz o próprio Manuel Veiga, que diferentes na forma, são complementares
no sentido. Com efeito, todas elas fazem parte da saga baiana. Completam-se
tanto nas letras da poesia escrita pelo vate do Diário das Ilhas como nas
palavras da oratura pronunciadas por Palu di Djódja e por Nho Nacho.
Personagens como Pedrinho, Mamadu e Regina do Odju d’Agu reencarnam-se em
Abel o Libertador e Julinha, isto é,
romance Odju d’Agu,
Prólogo: só compreendido mais tarde. O Diário das Ilhas, Logos: compreendido
logo, será talvez estimado por uns e quiçá odiado por outros. E a parte do
ali-Ben-Ténpu, Epílogo, ainda por escrever? Que dizer dela?
Nada a dizer a respeito, porquanto ainda se encontra nas malhas do futuro,
logo, da possibilidade, da viagem que prossegue.
A voz do ali-Ben-Ténpu terá
de completar o Diário das Ilhas com a terceira parte a partir de 5 de Julho de
1975, de 19 de Fevereiro de 1990, de 13 de Janeiro de 1991 e de outros ciclos
que forem dados a viver às ilhas baianas. A viagem continua sob o signo das
estrelas.
Prólogo, Logos. Falta o
Epílogo. Tenha, pois Manuel Veiga vida, saúde e predisposição para elaborar o
Epílogo e assim completar as premonições da sua TRILOGIA.
Manuel Veiga
Arquitectactada no tempo e no
espaço das nossas ilhas atlânticas - que o poeta chamou “a pátria do meio
do mar” -, a crioulidade de que hoje nos orgulhamos é produto e é também
projecto de uma insularidade que acabou sendo fecunda.
Com efeito, de um certo caos
inicial emergiu e emerge um logos social; de um determinado vazio cultural se
processou uma ordem antropológica, cada vez mais rica e polifacética; das
cinzas do anseio afogado e da angústia que tortura nasceu e nasce a esperança
libertadora; do estatuto de dominado o nosso povo passou a ser senhor do seu
próprio destino.
Nesse longo caminhar da nossa
história tivemos por companheira inseparável uma insularidade madrasta que,
forçada pelas circunstâncias, acabaria por compreender e aceitar o papel de uma
mãe, exigente embora, mas sem deixar de, algumas vezes, ser carinhosa também.
Caprichosa ou acolhedora, a insularidade das nossas ilhas manifesta-se de
múltiplas maneiras: ela é geográfica como climática, histórica como política,
antropológica como existencial.
Note-se que o universo da
insularidade extravasa o sentimento de solidão e nostalgia, emergente do
acanhado espaço geográfico das ilhas, para incorporar outros aspectos
resultantes tanto da dialéctica entre a imensidade do mar arquipelágico e a
pequenez das ilhas retalhadas que as ondas “afogam e afagam”, como
também entre a grandeza do sonho ilhéu que não se conforma com a medida da ilha
e os problemas sociais, políticos e culturais de que a mesma tem sido vítima.
Aliás, a fome existencial do
ilhéu ultrapassa os limites da estreita fronteira contornada pelo mar para se
projectar na procura do mais além. O visível não lhe chega, ele tem a
necessidade do imaginário. Este, por sua vez, não sacia totalmente a sua sede,
ele se sente atraído pelo real existente ... que transborda a medida da ilha.
A insularidade islenha é,
pois, o resultado da luta e dos desafios que nascem no próprio chão das ilhas;
ela é também um projecto inacabado cujos traços ganham forma e conteúdo no
confronto e reencontro da água com a terra , do homem com o mar.
Com efeito, a pequenez
territorial, a falta de água e a exiguidade de recursos naturais estão na base
de flagelos como a seca periódica, a fome, as epidemias (anteriormente sem solução)
e o subdesenvolvimento, de uma maneira geral. Por outro lado, a imensidade do
mar “que ... dilata sonhos e ... sufoca desejos”, com o seu “
... cântico /estranho / ... / que não se cala em nós!” . (1)
Essa insularidade tão
peculiar das ilhas é magnificamente retratada pelo poeta Ovídio Martins quando,
em plena época colonial escreve:
“Árvores/ sem carne/
terra/ de Fogo/ Homens bloqueados/ (espantosamente bloqueados) / Irmãos no
catacismo periódico/ de falta de água / Já sem forças/ para mandarem/ calar
o mar” .(2)
desespero do poeta, porém, um
dia, no pós-independência, se transformará em esperança e , avançando
“ilha a ilha”, é o mesmo que vem segredar-nos que, afinal, “O
nosso destino estamos a cumprí-lo: Dar a Cabo Verde outro mar, outro céu, outro
homem” E para exorcisar os flagelos da insularidade, tornando-a fecunda,
com estrumes e fertilizantes trazidos de longe ou recriados no próprio chão do
Arquipélago, um outro poeta da espernaça, com toda a força do seu estro
telúrico, proclama, como que jurando à Bandeira da Dignidade, já no céu das
ilhas flutuando:
“Mesmo que o céu não
chova/ E o sol e a lua/ Sejam cordas partidas no violão da ilha/ ...
Mesmo que o vento/ Vergue/ No eixo da terra e nos mastros da alma/
Os ossos e séculos de sangue e secura/ Mesmo sendo! já não somos/ Os
flageldados do Vento leste”.(3)
Este poema faz lembrar o
desabafo e a ousadia de um outro poeta da insularidade que, em plena dominação
colonial - quando a Bandeira da Liberdade ainda estava à distância -, com
convicção, proclamava:
“Somos os flagelados do vento leste!/ Morremos e
ressuscitamos todos os anos/para desespero dos que nos impedem/ a
caminhada/ Teimosamente continuamos de pé/ num desafio aos deuses e
aos homens/ E as estiagens já não nos metem medo/ Porque descobrimos a
origem das coisas”. (4)
Vista desta maneira, a
insularidade é geográfica e climática, mas também histórica e política.
Não podia ser fácil a
formação de uma sociedade a partir de mundos e de universos tão diferentes como
os que no recuado século XV, e no chão do arquipélago, se confrontaram. Esses
condicionalismos histórico-culturais corporizaram uma nova forma de
insularidade que é política, mas também é antropológica e é existencial. A este
propósito, Pierre Rivas afirma que, para o ilhéu cabo-verdiano,
“.... l'insularité
géographique devient insularité existentielle, qu'on peut lire comme métaphore
de la négritude, lieu d'exil loin de la patrie africaine, prison coloniale ou
idiossyncrasie ilienne”.(5)
É, pois, esse drama que levou
o poeta do Ambiente a pintar a insularidade das ilhas com letras de sangue
vertido de milhares de pedras feridas no deserto da história e com a seiva de
algumas árvores apenas, curtindo a seca e resistindo ao flagelo das lestadas.
Esse sofrimento e essa resistência são reais e é deles que emerge a crioulidade
insuflada de sonhos, acariciada com os tentàculos do pelourinho, mas
regorgitando a vida.
ilhéu existe, pois, porque
resiste. E nisto consiste o seu drama, mas também o seu mérito.
E, resistindo sempre, o homem
cabo-verdiano acabaria por dar-se conta de que, no ambiente das ilhas,
tornava-se necessário e inevitável o “Conflito numa alma só/ de duas
almas contrárias/ buscando-se, amalgamando-se/ numa secular fusão”.(6)
Relacionado com a
criatividade literária, o tema da insularidade ganha expressão particularmente
através do sentimento e desejo de evasão experimentados pelos
“claridosos”, como também pelo ideário programático de
“fincar os pés no chão” que sintetiza o seu programa literário e o
ideário telúrico que os acompanharia pela vida fora.
Posteriormente, a literatura
cabo-verdiana, embora reconhecendo o elevado sentido do “projecto
claridoso”, acabaria por alargar o horizonte do seu ideário.
Se na década de 40, 50 e 60
havia já alguns indícios, é particularmente a partir dos anos 70 que começa a
ganhar corpo uma literatura nova, com o centro de gravidade
A visão localizada do mundo,
condicionada pela insularidade e veiculada apenas pelo canal do sonho e da
evasão, é posta
“Um ritmo vital
próprio, perfeitamente nuançado aflora hoje no complexo do sentir humano: a
psique atlântica. O infinito azul que nos rodeia, a distância que nos envolve e
beija, sublimaram de sonho a longa simbiose dos sangues [...] E fluindo sempre
para o diferenciado, rasga-nos a vida novo ciclo”. (7)
Porém, como foi dito, é
sobretudo a partir da década de setenta que um novo projecto literário moldado
com a massa e o fermento da alma universal ganha maior expressão. É assim que
T.T.Tiofe (João Varela), falando de escritores do período 75/76, diz:
“[...] não se trata de
poetas de Cabo Verde que escrevem poesia cabo-verdiana mas de poetas de Cabo
Verde que escrevem poesia”.(8)
Igualmente, um Ovídio
Martins, por exemplo, escreve: “eu nasci na ponta da praia por isso trago
todos os mares do mundo” e um Arménio Vieira do Eleito do Sol, completa o
raciocínio ao considerar-se “ [...] homem de todas as raças”.
Como se tudo isto não
bastasse para retratar o novo chão cultural emergente nas ilhas, Vera Duarte,
uma voz femenina da nova largada, vem reafirmar que o processo da nossa cultura
e literatura perspectiva-se em vários sentidos e para vários horizontes:
“A minha ancestralidade
plasmada sobre a baía e o porto grande que se abre ao infinito gerou-me [...]. Manhana
pela manhana montada em meu cavalinho doirado, irei pelo mundo à procura do
sentido da vida”. (9)
Neste processo, uma nova
cultura, uma nova crioulidade têm inaugurado um espaço igualmente aberto. Tudo
indica que hoje a caboverdianidade tende a abrir-se ao mundo e o seu intento
consiste muito mais na procura do humanismo do que em celebrar uma fechada
identidade.
A literatura caboverdiana é
cúmplice do humanismo desejado. É por isso que se para caracterizar a época
“claridosa” numa única palavra escolheríamos a palavra
insularidade, para caracterizar o novo ciclo literário optaríamos pelo signo
humanismo.
Notas
Jorge Barbosa, “O
Mar”, Poesia I, ICL, Praia, 1989, p. 72. Publicado pela 1ª vez
Ovídio Martins, “A
Seca” Caminhada, 1962. Retomado em 100 Poemas, p. 15
(3)Corsino Fortes, “A
Lestada de Lés a Lés” Árvore & Tambor, ICL, Praia, 1986, p. 121.
(4) Idem 2, Ibidem
(5) Pierre Rivas,
“Insularité et Déracinement dans la poesie cap-verdienne”, in
colóquio de Literaturas Africanas de Expressão Oficial Portuguesa, Paris,
Fundação C.Gulbenkian, 1984.
(6) Idem 1,
“Povo”, Poesia I, ICL, Praia, 1989, p. 71. Publicado pela 1ª vez no
livro Arquipélago, 1935
(7) Jaime de Figueiredo, in
cinta de apresentação do livro Arquipélago de J.Barbosa, 1935.Mais tarde citado
por Teixeira de Sousa em “Um Texto Quase Esquecido” in Pré-Textos,
nº 0, 1990.
(8) “Arte e Artefactos
Poéticos
(9) Vera Duarte, Manhã Amadrugada,Vega, Lisboa, 1993.
BLOCO DE NOTAS (Urbano Bettencourt)
l. Cabo Verde - Insularidade
e Literatura (Manuel Veiga (Coord.)),
Paris, Éditions Karthala,
1998
Manuel Veiga, escritor e
investigador do crioulo cabo-verdiano, foi o coordenador deste livro de ensaios
que as Éditions Karthala publicaram no ano passado numa versão em Português e
noutra em Francês.
No seu conjunto, o livro pretende-se
uma abordagem abrangente da realidade cultural cabo-verdiana, de que a
literatura será uma das componentes fortes, como expressão transfigurada de um
processo histórico-social, embora muito menos conhecida do que a componente
musical (que alguém já referiu como um dos três M da identidade cabo-verdiana,
ao lado do Mar e do Milho). Neste sentido, compreende-se a pluralidade dos
ensaístas aí presentes, traduzindo a diversidade dos olhares e dos campos de
observação, organizados em quatro grandes capítulos ou áreas temáticas
(designação que, reconheço, é pouco adequada ao último deles): o "Ciclo do
Mar" (onde a perspectivação histórica se liga à insularidade "como
uma das principais colunas da literatura cabo-verdiana"); o "Ciclo do
Milho" ( que põe em evidência a centralidade deste cereal na alimentação e
na representação cultural e simbólica do arquipélago); "Tradições Orais e
Literatura" (espécie de "guião histórico" da literatura
cabo-verdiana, recuando aos seus primórdios e demarcando alguns dos seus
períodos, antes e depois de "Claridade", em ligação também com um
olhar sobre a oratura, o universo das tradições orais que desempenham um papel
de relevo na expressão da crioulidade); a última parte reúne uma série de notas
de leitura, apontamentos críticos sobre algumas das mais recentes propostas
narrativas e poéticas, mas sem perder de vista as pontes que possam estabelecer
com os "clássicos" da moderna literatura do país.
"Cabo Verde -
Insularidade e Literatura" é um livro que permite ao leitor uma visão de
conjunto extremamente enriquecedora e iluminadora. Visto de fora, de outras
latitudes também elas insulares, é ainda um livro que não pode deixar de
abrir-se a algumas leituras laterais, pelo que revela quanto aos evidentes
benefícios resultantes dessa metodologia de aproximação multidisciplinar, mas
também, e muito principalmente, pela atitude descomplexada de afirmação de uma
realidade própria e consequente empenhamento na sua divulgação.
2ª ed., Centro Cultural
Português, Praia e Mindelo
Pode-se chegar à história de
Blimundo através do violino de Travadinha, nesse disco único em que a sua
criatividade e inventiva demonstram como se (des/re)faz a música tradicional de
Cabo Verde: uma melodia que parece chegar dos confins da terra e do corpo e a
que a voz de Ana Firmino vem imprimir um ainda mais acentuado tom de
encantamento e mistério.
Mas essa é apenas a canção do
conto tradicional caboverdiano em que se narra a história do boi Blimundo,
possante boi de trapiche, irreverente e amante da liberdade, que desafia a
autoridade e o poder do Senhor Rei, incapaz de vencê-lo pela força dos seus
exércitos. E só um rapazinho, munido de cabaça de água, saco de milho torrado e
cavaquinho, será capaz de atrair Blimundo à cilada mortal montada por Senhor
Rei, cantando-lhe essa canção que acena com a (ilusória) promessa do seu
casamento com a Vaquinha da Praia.
Há nesta história de David e
Golias alguns tópicos e motivos que poderão, eventualmente, reenviar a outros
contos populares e mesmo a contextos culturais e literários diversos (o poder
encantatório da música, a paixão que faz desviar caminhos e vontade, a astúcia
sobrepondo-se à força); mas há, sobretudo, um forte investimento simbólico que
arranca das circunstâncias concretas e históricas para "falar" das
dicotomias opressor e oprimido, força de trabalho e posse da riqueza,
escravidão e liberdade, amor e traição. E mesmo o milho, a música e a água com
que a personagem infantil se apresta para a viagem passam obviamente como três
factores de forte carga cultural, identitária.
"A História de
Blimundo" constitui ainda uma manifestação de apreço e respeito pela
cultura popular, o reconhecimento da sua vitalidade.
Cabo Verde - Encontro com escritores
Michel Laban, Porto, Fundação
Engº António de Almeida,1992
Mais de duas dezenas de
escritores e criadores culturais cabo-verdianos em diálogo com Michel Laban. O
resultado é esta obra em dois volumes, em que, pela voz dos seus mais directos
intervenientes, se traça o percurso literário e cultural do arquipélago no
período de cinquenta anos que começa em 1936, ano da "Claridade",
revista da "proclamação da independência cultural de Cabo Verde"
(Gabriel Mariano).
Reconheça-se, porém, o que
poderá haver de redutor em referenciar nestes termos um livro que abrange
outras questões, de ordem histórica, social, linguística, e que acaba por
abarcar um período mais vasto do que esse, dado que ao conhecimento do leitor
são igualmente trazidos os contributos precursores mais relevantes e mesmo
elementos contextuais de uma escrita particularmente atenta ao seu próprio
contexto físico e humano - a justificar até o o reparo de Mário Fonseca a
Michel Laban: "um outro motivo de inconforto intelectual é a ausência, nas
suas perguntas, de qualquer referência à nossa cultura de carácter popular, à
nossa literatura popular em crioulo e em português... ao mundo dos contos e
lendas da literatura oral cabo-verdiana. Não acredito que se possa compreender
a história cultural de Cabo Verde sem ter em conta os domínios acima referidos,
apenas a título indicativo."
Dos depoimentos dos dois
fundadores de "Claridade" ainda ouvidos por Michel Laban - Baltasar
Lopes (entretanto falecido) e Manuel Lopes - o deste último refere a sua
experiência açoriana de onze anos no Faial. Experiência incómoda do ponto de
vista físico, em virtude de uma "difícil e morosa adaptação ao clima dos
Açores, excessivamente húmido em contraste com o de Cabo Verde", mas, por
certo, bem mais profícua a outros níveis: sócio fundador do Núcleo Cultural da
Horta, Manuel Lopes publicou ali o ensaio "Os meios pequenos e a
cultura" (1951) e em Angra do Heroísmo os "Poemas de quem ficou"
(1949), graças ao papel intermediário de Pedro da Silveira que o levou até ao
editor Manuel Joaquim de Andrade, a quem se deve, entre muitas outras coisas, o
facto de ter sido o editor do jovem Vitorino Nemésio.
Elga Vilela Costa
Originally published in Ciberkiosk : http://www.ciberkiosk.pt/arquivo/ciberkiosk5/ensaios/elga.htm
(dead link)
caso de Cabo Verde está, desde há anos, marcado, na sua
mais profunda intimidade, pelo fenómeno da emigração. Um impulso de massas como
este sempre representou para o povo caboverdiano uma realidade dramática que a
própria terra explica sem se precisar de grandes e elaboradas palavras:
basta-nos olhar e viver naquelas ilhas.
Para muitos caboverdianos,
estas movências são o sonho de toda uma vida; este desejo, ou mesmo desespero,
de conhecer outros (outros tudo:
mundos, gentes, costumes, hábitos, cheiros, cores...) torna-se, muitas vezes,
objectivo de vida. Tudo isto é compreensível se atentarmos na dramática imagem
de um povo que anseia, a toda a hora, pela vinda das chuvas que por vezes levam
intermináveis anos a chegar. Por aqui se explica e se compreende o desejo de
querer partir.
Contudo, ninguém pode afirmar
que haja emigrações felizes, mesmo que bem sucedidas, pois implicam consequentemente
uma ruptura, uma distância em relação a uma identidade, um penoso processo de
adaptação, um ajustamento. Muitos conformam-se em viver longe mas sob a
inspiração de Cabo Verde. E é exactamente aqui que assentarei estas breves
linhas sobre Cabo Verde. É justamente nesta cortante e dolorosa dualidade de
viver longe e querer sempre SENTIR Cabo Verde que centrarei o meu trabalho.
Sonhar com a vida para lá do
mar leva à saída, mas viver com a terra no coração leva, inevitavelmente, ao
regresso. E é um regresso sempre desejado: pelo que saíu, que finalmente recupera a "alma" e se
re-identifica, pisando aquele chão sagrado, e pelo que ficou, que recebe agora as novidades vindas do "além", do
para lá das ondas, do "outro lado", de outros mundos. Sempre foi
assim: o homem, tanto o que corajosamente partiu como o que resignada ou
livremente ficou, está tão indissoluvelmente ligado à natureza que dificilmente
se poderá separar daquele chão que eternamente o prende.
Eis porque surgem os poetas e
ficcionistas que proclamam a HORA DA DEFESA: a defesa da terra, do homem de e
E assim se começa a lutar e
aparece, em 1936, no Arquipélago de Cabo Verde, o primeiro número da Revista
Literária e Cultural "Claridade". "Claridade" tinha, de
facto, a dupla feição literária e de cultura, de investigação sociológica:
cantava-se um povo e explorava-se o fio da mentalidade crioula.
As tertúlias claridosas
tinham por objectivo traçar directrizes genéricas, sem programações
específicas; a intenção era escrever Cabo Verde; o propósito era o de
"fincar os pés na terra". Não havia regras para o fazer: cada um
expunha as suas ideias à sua maneira pessoal, contribuindo individualmente para
mergulhar na terra e fazer sair à luz do dia o cheiro mais próprio, mais
autêntico e mais real daquele povo.
Manuel Lopes será
provavelmente o escritor crioulo mais tocado pela acção agreste daquela
natureza que se "impregna" na alma do caboverdiano, dando-lhe uma
postura apática, onde a resignação (marca distintiva da morabeza) se explica
pela profunda ligação e amor puro à terra.
Manuel Lopes conhece
intimamente a alma do seu povo, de tal forma que transpõe para os seus textos
figuras e situações quotidianas perfeitamente reais (o que, aliás, define o
traço estético do seu discurso). Conhece perfeitamente toda a fragilidade do
ilhéu caboverdiano perante a natureza de quem depende inteiramente; conhece o
terrível contraste entre os sonhos de felicidade e a triste realidade da luta
pela vida. Fala-nos, com extremo realismo, da tristeza, do medo, da saudade, do
desânimo e da frustração, num tal discurso que nos enriquece o conhecimento do
conteúdo humano caboverdiano. Diz, como poucos, o medo constante que o povo
sente relativamente às secas prolongadas que assolam as ilhas; o sonho
permanente e o desejo irresistível de ir a outros mundos; e, simultaneamente,
diz também o amor desmedido que o povo sente pela sua terra, e o desejo de
aprofundar e ligar a alma do homem à raíz daqueles solos.
Este "chamamento do
caboverdiano à sua terra" sempre foi o mote cimeiro de toda a escrita de
Manuel Lopes. Se não, vejamos:
"...Que teu irmão que
ficou
Sonhou coisas maiores ainda,
mais ricas e belas que aquelas que conheceste...
Crispou as mãos à beira do mar
e teve saudades estranhas, de terras estranhas,
com bosques, com rios, com outras montanhas
- bosques de névoa, rios de prata, montanhas de oiro -
que nunca viram teus olhos
no mundo que percorreste..."
Crioulo e outros poemas, 1964
Eis o que pretende este
sensível escritor, e tantos outros da sua Geração: convidar o povo a apostar na
terra, evitar que a sua "alma se perca em outras paragens", promover
a união entre os homens para que, juntos, possam "construir" o
remédio para sarar tão grave ferida de uma Mãe que vê seus filhos partir:
"Amar a Mãe-Terra e a Mãe-água com toda a força e pureza do Amor, compreendê-las
como o menino compreende a linguagem da mãe e a canção de embalar e a profunda
significação do embalo daqueles braços, e neles aprende a conhecer a segurança
e a protecção contra as ameaças desconhecidas." (Chuva Braba)
A fé na união dos homens
apostados em seguir um Destino comum - o de ficar e lutar pela terra -
sustentou os "pesados" alicerces de uma Geração que tinha nas mãos e
na pena a dura tarefa de dar voz a um povo ainda calado pela dor de sofrimentos
seculares. E se toda a Geração Claridosa foi pródiga no "lançamento"
de palavras, há muito desejosas de serem escritas, Manuel Lopes soube dar vida
e voz às situações da própria condição humana, denunciar problemas e
sentimentos, apresentar realidades sociais e comportamentais, sempre apartando
os (quase) inevitáveis juízos de valor. Daí o seu reconhecido realismo empregue
nas suas obras: conhecer as suas personagens e conhecer um caboverdiano, é
igual - as personagens não se "disfarçam", não fogem à real
representação de este ou aquele caboverdiano. Está tudo lá: a paisagem, a vida,
o sentir, o agir, o problema e a solução.
próprio Manuel Lopes define o
que aqui tento expôr acerca da sua escrita (e cito): "As melhores páginas
impressas são as experiências daqueles poucos homens que viveram a vida mais
intensamente que o homem comum, que o sentiram, e meditaram com mais
penetração, e se consumiram para nos trazer a mais íntima ressonância das suas
horas mais altamente vividas".
José Osório de Oliveira - A Poesia de Cabo Verde - 1954
Francisco Salinas
Destroços de que continente;
de que cataclismos,
de que sismos,
de que mistérios?...
(Jorge BARBOSA, Arquipélago)
1.- Introdução
A ilha, espaço enclausurado,
numa clausura que é física mas também afectiva, psicológica e vital, é prisão e
lugar de segurança, esquife e berço, útero e sepulcro, centro do mundo onde
convergem os eixos da verticalidade e da horizontalidade, o axis mundi que liga
miticamente o Céu com a terra; é o lugar da partida e destino da viagem, porque
o ilhéu precisa sair desse espaço ofegante e limitado para se abrir ao mundo e
aos outros. Como indica Dina Salústio, "l’insularité est à
l’origine de l’un des traits les plus marquant de l’îlien:
l’évasion qui l’envoie, avec un semblent de fuite, à la rencontre
d’autres êtres, d’autres horizons, d’autres continents et
villes" (1).
A ilha reúne, por um lado, o
espaço perfeitamente delimitado e simbolicamente uno e, por outro, abre-se à pluralidade,
à disgregação em que se projecta quando convertida na multiplicidade do
arquipélago; ela concilia no seu significado os elementos contraditórios
derivados do carácter bifronte e ambíguo de todos os símbolos, como demostrou
Bachelard: segurança e perigo; acção e repouso; alfa e omega do sujeito
individual e colectivo.
A literatura cabo-verdiana,
pelo menos aquela que se produziu até os anos sessenta, funda-se sobre a ideia
da insularidade, do desejo, gorado, e da tensão dialéctica entre o partir
querendo ficar e o ficar querendo partir. Há, portanto, um desarraigo
existencial, comum a qualquer ilhéu, que perpassa o discurso poético
cabo-verdiano, por isso, em palavras de Pierre Rivas, "insularité et
déracinement sont les deux structures constitutives et antagonistes de
l’identité capverdienne mais, au delà, les éléments d’une typologie
des littératures insulaires, des civilisations créolophones et même du statut
des littératures africaines" (2).
Não admira, pois, que um
breve percurso pela literatura cabo-verdiana nos ponha à frente de uma série de
referentes, de que os títulos são o elemento significativamente marcado. Essa
visão panorâmica da literatura de Cabo Verde mostrar-nos-á como é que o
cabo-verdiano e o discurso literário das suas produções culturais convertem a
sua circunstância biográfica e histórica (a condição de ilhéu), incontornável
aliás para qualquer habitante das ilhas, no elemento definidor e definitório de
toda uma poética que, desde os inícios desta literatura em finais do séc. XIX e
primeira metade do séc. XX, vai desenhando toda uma geografia poética e vital
do "ser" cabo-verdiano.
Pensemos, a este respeito, em
títulos como: Jardim das Hespérides (1926) e Hespérides. Fragmentos de um poema
perdido em triste e miserando naufrágio (1930) de Pedro Cardoso; Jardim das
Hespérides (1929), Hesperitanas (1933) ou Alma Arsinária (1951) de José Lopes;
Arquipélago (1935) ou Caderno de um Ilhéu (1956) de Jorge Barbosa; Linha do
Horizonte (1951) de Aguinaldo Fonseca, para nos referirmos ao campo da poesia.
Se pensarmos na ficção,
títulos como Ilhéu de Contenda (1978) de Teixeira de Sousa, Ilhéu dos Pássaros
(1982) de Orlanda Amarilis ou Levedando a Ilha de Mª Margarida Mascarenhas
completaríamos toda essa isotopia da ilha que atravessa, e pour cause, o
discurso literário cabo-verdiano.
2.- As ilhas Hespérides e o
Éden mítico.
Um dos aspectos que mais tem
chamado a atenção dos estudiosos da literatura cabo-verdiana, pela
originalidade de que se reveste, é o chamado período hesperitano ou período
arsinário: aquele momento literário anterior à Claridade (embora se prolongue
em boa medida além dessa circunstância histórico-cultural) em que se formula a
literatura cabo-verdiana.
Com efeito, a criação do mito
das Ilhas Hespérides de que fala Estrabão veio, no dizer de Manuel Ferreira,
"preencher um vazio e dar sentido à componente histórica do fundamento
pátrio alicerçado nas ilhas e não na Metrópole europeia. O mito que funcionou
como corrector do equilíbrio pendular social e psicológico. Ainda mito criador
do espaço da felicidade" (3). Em chave similar, Pires Laranjeira afirma
que "os poetas criaram o mito poético para escaparem idealmente à
limitação da pátria portuguesa, exterior ao sentimento ou desejo de uma pátria
interna, íntima, simbolicamente representada pela lenda da Atlântida, de que
resultou também o nome ‘atlantismo hesperitano’ por oposição ao
continentalismo africano ou europeu" (4).
Na criação deste mito
funciona, como tem sido sublinhado, uma componente ideológica que pretende
ligar as ilhas de Cabo Verde ao continente e à cultura europeias, riscando,
tanto quanto possível, a componente africana que mesmo só pela situação
geográfica, correspondia ao arquipélago (5).
Com efeito, a cultura
clássica a que remete o mito das ilhas Hespérides, ou a própria definição do
mito ligada ao continente submerso da Atlântida (em que se incluem as ilhas
Açores, a Madeira e as Canárias), fazem com que o mito hesperitano permita
ligar a cultura cabo-verdiana ao "mundo que o português criou" numa
prolongação natural, embora adaptada aos "trópicos", da cultura da
metrópole. Ora bem, tal e como se infere da citação de Manuel Ferreira, a
originalidade deste mito (desconhecido no espaço português) singulariza a
literatura cabo-verdiana, confere-lhe qualquer coisa de diferente e de
original, dá-lhe a marca de um discurso-outro, revelador de um mundo também
diferente que autonomizava, em boa medida, o discurso literário cabo-verdiano,
do discurso literário português no interior do qual o discurso crítico oficial
o situava e ao que de facto estava unido, não só pela língua como pelos
referentes literários presentes na obra destes poetas.
mito hesperitano não é, ou
não é só, o feliz achado expressivo de um poeta, mas abrange a quase totalidade
dos escritores e está presente no discurso crítico que modela a recepção destas
obras da parte dos destinatários naturais desta literatura.
Talvez tenha sido a
componente ideológica que jubjaz ao movimento hesperitano, a sua inclusão e
surgimento num determinado contexto político-social (os primeiros anos do
salazarismo e a proclamação do lusotropicalismo como a "única"
teorização politicamente correcta da altura) a que explicou a acusação de
evasionismo (6) que tem acompanhado o discorrer crítico deste interessantíssimo
período da literatura cabo-verdiana que é, no fundo, o movimento fundador duma
literatura em língua portuguesa autónoma e independente doutras literaturas que
também se exprimem na mesma língua.
Ora, o mito hesperitano pode
ser também lido em chave mítica como "nostalgia do Paraíso" que, no
dizer de Eliade, é "desejo de reencontrar o estado de liberdade e
beatitude de antes da ‘queda’, a vontade de restaurar a comunicação
entre a Terra e o Céu; numa palavra, abolir tudo o que foi modificado na
própria estrutura do Cosmos e na forma de existir do homem a seguir à ruptura
primeva" (7). É evidente que a presença das ilhas como "paraíso"
ou Éden onde voltar, não só está presente nos poetas deste período, como também
reaparece noutros momentos literários posteriores, em autores como Corsino
Fortes ou Mário Lúcio.
Pedro Cardoso e José Lopes (o
mais "oficial" dos poetas cabo-verdianos e auto-nomeado "vate
hesperitano") são os mais notáveis poetas hesperitanos, constituindo o
umbral que dá o passo à literatura claridosa, considerada, essa
indiscutivelmente que sim, a primeira literatura autenticamente cabo-verdiana.
3.- Jorge Barbosa: o mar e a
viagem.
Embora em sentido restrito
Jorge Barbosa não possa ser considerado um poeta hesperitano (8), a sua poesia também
não fica longe da mitologia que conformou esse grupo heterogéneo da literatura
anterior à Claridade e, assim, praticamente sem solução de continuidade,
chegamos à obra de Jorge Barbosa (1902-1971), que, já no seu primeiro livro
(Arquipélago, 1935), define o marco da literatura cabo-verdiana, "pois é a
partir dela que se pode falar de cabo-verdianidade, isto é, da
consciencialização das realidades étnico-sociais e culturais da terra
cabo-verdiana, dando lugar a uma literatura que rompe com os modelos europeus,
especialmente portugueses" (9).<Bilde: jbarbosa.jpg (16732 bytes)> A
primeira ilha cultural fica estabelecida assim: a literatura cabo-verdiana
deixa de pertencer ao continente europeu (embora não totalmente, porque, como
já vimos, o mito hesperitano está profundamente ligado a uma tradição europeia
clássica) e vira-se para um novo continente, para o Brasil da Semana Moderna e
dos poetas como Manuel Bandeira, Ribeiro Couto ou Jorge de Lima (10).
Portanto, inicia-se uma
viagem, porque "a ilha concêntrica, girando à volta de si mesma,
saturando-se no seu isolamento, ganha dinâmica no confronto com o mar. Por um
lado, prolongamento da terra, ponte entre as várias ilhas, formando um só corpo
-o arquipélago. Por outro, o mar bravo, oceânico, caminho do emigrante e sonho
da distância" (11). E a pergunta que nós fazemos é se as ilhas não
implicam sempre uma viagem, se não está o desejo de partir (de sair da prisão
do espaço delimitado e ofegante da ilha) implícito na própria ideia e na
idiossincrasia do ilhéu? É por isso que a viagem, real ou imaginária, física ou
mental é o nódulo organizador da poesia de Jorge Barbosa. A ânsia de partir
(com todo o sentimento de saudade e ao mesmo tempo de esperança) forma parte da
visão do mundo do ilhéu e, portanto, converte-se no elemento definidor desta
poética. Mas há um desejo voluntarioso de acção, de movimento, uma viagem que
não é errância sem destino, é objectivo previamente definido para onde se
caminha, embora não se possam esquecer os ecos literários que a evasão
finissecular tenha nesta poesia (daí que a ruptura com os modelos europeus não
seja tão forte como se poderia deduzir das citações anteriores).
No primeiro livro de Jorge
Barbosa aparecem poemas como "Irmão" em que a viagem à América
aparece como a solução aos problemas sociais do arquipélago. Através de um
sujeito lírico que foge da terra nessas "pobres ilhas nossas / és o homem
da enxada / abrindo levadas à água das ribeiras férteis/ [...] / onde às vezes
a chuva mal chega / onde às vezes a estiagem é uma aflição / e um cenário
trágico de fome!" vão aparecendo espaços concretos e bem definidos:
América, o paraíso do cabo-verdiano onde resolver os seus problemas económicos
(e é sob este ponto de vista que é encarada a partida para América) mas que se vai
convertendo, a pouco e pouco, num sonho, e o poema, que mantém o tom do
discurso empenhado do neo-realismo, transita para a descrição de um estado de
alma do sujeito preso da melancolia, da apatia que reflecte a
"pasmaceira" ("saudade fina" defini-la-ia Oswaldo
Alcântara) do ilhéu: "essas Aventuras pelos Oceanos / já não existem... /
Existem apenas / nas histórias que contas do passado, / com o canhoto
atravessado na boca / e risos alegres / que não chegam a esconder / a tua /
melancolia...". Logo dessa queda do sujeito no mundo do sonho e da
melancolia, retoma-se a linha realista e empenhada numa chamada à solidariedade
fraterna do cabo-verdiano.
Em "poema do Mar",
do mesmo livro, define poeticamente, e de maneira muito clara, esse desejo de
partir tendo que ficar: "O Mar! / [...] / deixando nos olhos dos que
ficaram / a nostalgia resignada de países distantes" e o mar acaba por ser
a imagem "criadora" da evasão (12): "Este convite de toda a hora
/ que o Mar nos traz para a evasão / Esse desespero de querer partir / e ter
que ficar!".
Portanto, na poesia de Jorge
Barbosa, como na de muitos outros poetas cabo-verdianos, a condição de ilhéu
leva implícita a ideia da viagem: viagem exterior a um destino concreto, ligada
ao discurso neo-realista, viagem ao interior do próprio sujeito numa procura de
conhecimento, viagem quimérica e impossível na origem de uma frustração
existencial ofegante.
Do ponto de vista da
maturidade poética de Jorge Barbosa interessa salientar o seu Caderno de um
Ilhéu (13) nomeadamente a sua segunda parte, centrada toda ela na viagem e no
mar que, sendo um livro controverso, no que ao valor literário diz respeito,
representa uma prova da madurez poética de seu autor.
No poema "Prelúdio"
faz apelo ao achamento das ilhas e a uma ideia forte que norteia a concepção do
mundo hesperitano: uma espécie de destino trágico: "nessa hora então /
nessa hora inicial / começou a cumprir-se / este destino ainda de todos
nós". Porém, para Elsa Rodrigues dos Santos, "‘esse destino
ainda de todos nós’ não se trata de determinismo, de fado que se cumpre
como predestinação, característico da epopeia. Ele é sinónimo de acto
colonizador inaugurado nessa ‘hora inicial’" (14).
A viagem que se propõe (15)
como tema ao longo destes textos não é tanto uma viagem física de que a poesia
é o seu reflexo ou a sua literaturização quanto uma viagem imaginária, mais no
mundo do desejo do que na sua concretização: "Fui afinal o livro do ponto
/ onde todos os dias deixava melancolicamente / a minha assinatura e a minha
renúncia, / que fez com que todas as minhas viagens / nunca passassem do cais
da ilha de S. Vicente..." (Do poema "Viagens"). Nestes versos
resume as suas viagens imaginárias, mas que, sendo viagens implicam o
conhecimento e, portanto, "exigem" do sujeito o regresso à casa, a
essa nova Ítaca vista com os olhos da experiência acumulada: "Leva-me
contigo / navio // Mas torna-me a trazer" porque, embora haja um pequeno
navio "que nunca partiu, que nunca partirá", as viagens dos outros acabam
por ser apropriadas pelo sujeito:
"A poesia está é na sala
de verificação / no dia em que chegam passageiros à ilha / e nessa sugestão de
outros climas / que ficam por um instante no ambiente" (do poema
"Alfândega").
A sombra de Jorge Barbosa e a
sua presença ao longo de três décadas na literatura cabo-verdiana foi
configurando o discurso evasionista e pasargadista dos escritores
cabo-verdianos numa poética que tem o mar como centro e a viagem como eixo
estruturante duma escrita original.
3.- A construção do discurso
poético cabo-verdiano na imprensa periódica.
Como em muitas das
literaturas emergentes, a imprensa periódica tem-se revelado como o meio
privilegiado para a difusão das produções culturais. No caso de Cabo Verde não
podia também deixar de ser assim se tivermos em conta que o nível cultural das
ilhas na época colonial era, possivelmente, muito superior ao de outras
colónias que tinham maiores e melhores meios económicos, mas que, na estratégia
colonial estavam menos viradas para a cultura.
Instituições como o
Seminário-Liceu de São Nicolau, o liceu Gil Eanes, as Academias são-vicentinas,
uma rica tradição de associaciativismo cultural (16), a ida para Portugal de
alguns dos naturais das ilhas para tirarem cursos na Universidade portuguesa,
fizeram com que se criasse uma massa crítica de leitores que é um dos
fundamentos da literatura cabo-verdiana.
Perante a impossibilidade de
dar conta cabal deste aspecto, resolvemos fazer uma pequena aproximação a uma
das publicações mais marcantes, embora desigual, na história contemporânea da
literatura e da imprensa de Cabo Verde, estamo-nos a referir ao Boletim Cabo
Verde, dirigido por Bento Levy e que teve desde a sua fundação e durante mais
de uma década uma considerável presença da literatura nas suas páginas (17).
Já em 1950 (18) Gabriel
Mariano reivindica a figura de Eugénio Tavares porque, em oposição a outros
poetas, esses "não tinham ouvido a voz do Atlântico à roda das
ilhas". E é o próprio Gabriel Mariano que introduz uma particular visão do
terra-longismo cabo-verdiano: "A Terra-Longe, / irmão, / está na tua
terra".
Trata-se da Terra-longe mais
como um estado de ânimo do que uma situação física de exílio e o desejo de
partida para se libertar da opressiva realidade circunstancial das ilhas é um desideratum
convertido numa tópica linha de força deste discurso poético. Como indica
Teixeira de Sousa, "o sonho de evasão dos poetas mais representativos -
Jorge Barbosa e outros- poderia então realizar-se dentro das próprias ilhas,
primeiras do mar. O isolamento atlântico passaria a ser mera figura retórica da
geração romântica por força das circunstâncias" (19). Porque aquilo que
predomina é a evasão interior, a viagem ao centro do próprio sujeito que é
conhecimento tal e como a exprime Aguinaldo Fonseca: "Mamã / dá-me a tua
benção, porque vou partir / Meu barco é um sonho de coisas futuras / [...] /
Onde está o mapa. Vou traçar o meu rumo / Europa... Ásia ...
América... / Qual será o meu rumo? / Mas que coisa estranha? - / Afinal
o mundo é tão pequenino / [...] / Mamã / Já não vou partir / vou ficar aqui /
Esta terra é pobre mas é a minha terra".
Repare-se, neste texto de
Aguinaldo Fonseca, na dominância do possessivo de primeira pessoa (meu)
mostrando o empenhamento do sujeito na sua própria viagem, a sucessão de
interrogações, por sua vez, a mostrar as dúvidas de um eu cindido num espaço
cheio de dúvidas, do incógnito e perigoso indefinido, do vazio e do inconcreto.
A poesia pode, neste poeta,
ser sinónimo ou substituir, da fuga física das ilhas e, portanto, abrir-se a um espaço de liberdade. O próprio Aguinaldo Fonseca diz
"cada poema que escrevo / é uma fuga para além de mim" (20).
Assim, fica na ilha, não com
a revolta do preso que luta pela liberdade, mas com a melancolia do que não
pode ser alterado; o sujeito fica fechado em si próprio, dividido entre o
desejo de partir e um outro desejo mais poderoso de ficar (por vezes como
expressão de uma impossibilidade indolente).
Manuel Serra exprime-o num
poema intitulado "Evasão", dedicado a Jorge Barbosa: "A fuga já
foi marcada / mas é sempre, sempre, adiada / a hora da minha partida"
(21). Portanto, o partir não se vê como caminho a percorrer/descubrir, antes
aparece como fuga da prisão em que as ilhas se converteram, porque o "mar
largo" é para Manuel Serra, um "longo cativeiro / das nossas ilhas
morenas / [...] / cadeias que nos isolam do mundo" (22), sendo assim que o
mar é libertação de uma cadeia, mas uma libertação que não é só por se tratar
do caminho para a viagem, mas porque ele pode ser o final, o descanso apetecido
de que nos fala um poema de Pedro da Silveira(23):
"E lá para o fim se
nenhum paquete me quiser a bordo, / de proa feita ao Oeste, no rumo das ilhas,
/ para a viagem de quem volta de caminho vazio /
pequeno no morto que fui, nu
mar paralisa o eu, prendido
na impossibilidade, (ou recusa?) de partir, como vemos neste poema de M.ª
Madalena: "Teria de aqui ficar a vida toda / À espera de partir? /[...] /
Olhando o mar / esperando o navio que há-de chegar A morte que há-de vir?"
(25)
mar é caminho de liberdade,
mas é também prisão e assim é visto por vários dos poetas, alguns dos quais já
assinalámos: "Prisioneiro do destino e do mar / contemplo as grades da
minha prisão / o cenário habitual / - azul rolante- cemitério de ilusões"
(26).
Entre o partir e o ficar, o
sujeito lírico de muita desta poesia fica como que paralisado, na indecisão que
representa o desconhecido, do medo ao imprevisto e ao imprevisível, o desejo de
ficar prendido à terra, elemento sólido que nos une à raiz, ao eixo da
verticalidade que representam "essas ilhas perdidas / onde as montanhas
vermelhas / se erguem aos céus / como uma súplica" (27).
Quer a decisão de partir,
quer a de ficar que encontramos nos poetas que se revelam em fins de cinquenta
deixa de ser algo iniludível, é ao sujeito que corresponde a decisão da viagem
/ fuga, tal e como é exprimido por Arménio Vieira: "ver o navio suspender
as âncoras / desejar com ele partir / (podes fazê-lo) e ficar parado na areia /
e vê-lo partir" (28).
Em resumo, nos poetas que se
revelam na imprensa cabo-verdiana entre os anos 40 e os anos 60, o mar é o
centro da sua poética, sempre ligado a um desejo / impossibilidade de partida.
O mar organiza o mundo (29), a começar pelo mundo próximo das ilhas, com uma
intencionalidade quase épica, como no poema "arquipélago" de João de
Deus Lopes da Silva (30): "Dez ilhas / dez fragmentos / de não sei que
continente / que um cataclismo / arrojou no Atlântico // [...] // Dez ilhas /
Dez ilhas / dum gigante heróico // Dez noites vibrantes / no coro duma
epopeia".
Vamos encontrar temas como o
terra-longismo (31), a viagem que é o núcleo da poesia de Jorge Barbosa (32);
viagens que podem ser imaginárias e quiméricas como a de Pedro Silveira (33):
uma ilha ao longe, / azulada vaga / -saudade triste que se prolonga / num barco
apenas imaginado". É finalmente o naufrágio existencial, longe da ilha, de
um sujeito perdido no mundo hostil da grande cidade como vemos no poema de Cais
de Pedra de Nuno Miranda: "o ilhéu naufragado em mar ao largo / o de alma
em meio à multidão apressada / passando...".
5.- O reencontro com a
África. Corsino Fortes.
mito hesperitano formulado
nos termos em que acabámos de ver, entra em crise definitiva em fins dos anos
cinquenta, princípios dos sessenta. Cabo Verde já não é a Atlântida submersa,
já não é o resultando da experiência portuguesa nos trópicos, já não é o
prolongamento da cultura europeia noutro continente. Cabo Verde tem, como
violentamente proclamou Onésimo Silveira, uma vocação africana, um destino de
liberdade fora do jugo colonial (34). A poesia reflectirá, então, esse desejo
de liberdade (poesia heróica e prometeica), unida a uma sensibilização
africanista que aparece muito bem exposta
Não vamos tratar o tema da
poesia de Corsino Fortes que tem levantado várias perspectivas investigadoras
(35), mas não queremos deixar de referir a importância que o mar e a ilha têm
na elaboração deste discurso original.
seu segundo livro Árvore
& Tambor (36) arranca com a "Proposição & Prólogo" incluindo três
poemas em que os próprios títulos se erigem em palavra-tema na acepção de
Guiraud. "ILHA", assim nomeada, sem artigo, tomada no seu sentido
abstracto, é nomeada/definida, no primeiro verso, com dois substantivos de luz
(Sol e Relâmpago) e com dois substantivos da natureza (semente e raiz), os
quatro remetem-nos para o universo simbólico do masculino, do gerador de vida,
a luz criadora e absoluta do Sol, a luz e a violência do relâmpago, enquanto
que força/energia do masculino, a semente-sémen e raiz que se afunde na terra
gerando a vida.
Mas, a seguinte proposição
neste nomear da ilha remete-nos para o feminino: Tambor de som que floresce e
cabeça calva de Deus: os elementos do redondo, do côncavo, sempre ligados ao
lado feminino. Portanto, a ilha reune em si o masculino e o feminino, a vida em
definitivo, ela é o centro do mundo (cabeça calva de Deus).
Se repararmos num poema como
"De Boca Concêntrica na Roda do Sol", a ilha é aí o centro (centro do
mundo e centro da "mensagem"), mas não, ou não só a ilha fortemente
delimitada e identificada com uma realidade extra-poética (Cabo Verde), mas uma
ilha que reunindo os valores afectivos da sua antropomorfização se erige no
espaço clausurado -a ilha é tambor, mas também possui o tambor que chama desde
o seu interior, desde o seu "coração"-, espaço a explodir num
imaginário em que as fronteiras convidam a extravasar os seus limites.
Nesse espaço fechado,
isolado, que é a ilha, a pureza e a inocência são, por enquanto, possíveis- e
daí a valorização do tempo da infância -"no peito das crianças"- como
o tempo mítico e mágico em que a cisão do homem e o mundo não se tinha
produzido; a ilha como metáfora de um novo mundo que se cria/vivifica com o grito
luminoso do tambor que se explicita.
A África nomeada no poema,
como noutros do autor, ela espaço também enclausurado porque tem
"portas", vê alargado o seu significado pelo tambor, um tambor -e não
se pode esquecer a sua ocorrência desde o próprio título- cuja carga
significativa se desdobra nas sugestões do não-dito, mas presente no imaginário
do destinatário. E é que o tambor é música e, portanto, poesia, mas é também a
raíz que remete para uma ancestralidade convertida em seiva frutificadora e é,
ainda, a concretização do redondo, em cuja base se sustenta a ideia da
Mãe-Terra -e por extensão a da Mãe-África-. África é, pois, a Mãe geradora de
vida, mas é também, no reverso de todo símbolo, a Mãe Devoradora que transforma
o sangue em semente.
No discurso de Corsino Fortes
é evidente o pendor épico da sua escrita poética, e a visão/expressão do
carácter ilhéu muito além daquilo a que nos tinham habituado os poetas
anteriores. O compromisso social, que foi levemente mostrado é actualizado pelo
texto corsiniano que concretiza, em palavras de Ana Mafalda Leite "o
imperativo histórico de reformar Cabo Verde, em termos épicos e míticos",
a construção de um país/outro que nasça, através da palavra poética -que é
geradora de energia- que se pode construir e, de facto, se constrói num real
poético que o texto desenvolve.
A ilha está presente ao longo
de todos os poemas, a ilha como regresso e fundamentalmente como expressão do
redondo e, portanto, do feminino e matricial, "o poema -escreve Mafalda
Leite - apresenta-se como engendrador de uma importante simbólica de formas
redondas, onde a circularidade do universo que se constrói, ao tomar a sua
dinâmica própria, ganha a forma esférica de um cosmos" (38):
Ilha-mulher-Mãe, desenham algumas das balizas significativas dos poemas
corsinianos, num livro que ultrapassa a realidade concreta de Cabo Verde e
universaliza a sua literatura.
6.- Conclusão
Neste artigo tentámos mostrar
alguns aspectos que ao longo deste século têm ido configurando a poesia
cabo-verdiana. Arquipélagos físicos de fomes e secas, mas vivos arquipélagos de
palavras poéticas e proféticas de uma cultura que já não é resistência, mas
signo de criatividade. Ilhas de solidão e grades do destino, mas também, luz
que irradia uma zona mal iluminada das literaturas de língua portuguesa.
Se tivermos de definir a
poética cabo-verdiana através de afirmações muito gerais, diríamos que é o mar
e, em consequência, o facto de serem ilhéus, que tem feito com que a literatura
cabo-verdiana nem quisesse, nem pudesse, libertar-se dessa ambígua e produtiva
(em termos literários) situação de exílio, uma insularidade geográfica que, em
palavras de Pierre Rivas, "devient insularité existentielle qu’on
peut lire comme metaphore de la negritude, lieu d’exil loin de la patrie
africaine, prison coloniale [...], ou idiosyncrasie ilienne" (39). A
viagem que é marca da condição do ilhéu, é metáfora da proposta que fazemos de
penetrar nesse mundo poético, tão distante e tão subgerente numa nova viagem de
leitores a acompanhar, no silêncio, a viagem dos criadores pelo mundo da
palavra em liberdade.
NOTAS
SALÚSTIO, Dina,
"Insularité, évasion et résistence" in VEIGA, Manuel (org.),
Insularité et littérature aux îles du Cap-Vert, Paris, Karthala, 1997, p. 36.
RIVAS, Pierre, "Insularité
et déracinement dans la poésie capverdienne" in Actes du Colloque: La
littérature africaine de langue portugaise, Paris, Fond. C. Gulbenkian, 1985,
p. 291.
FERREIRA, Manuel, O Discurso
no Percurso Africano I, Lisboa, Plátano Editora, 1989, p. 193.
LARANJEIRA, Pires,
Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, Lisboa, Universidade Aberta,
1995, p. 181.
Terá de ser o polémico ensaio
de Onésimo SILVEIRA (Consciencialização na Literatura caboverdiana, Lisboa,
Edições da Casa dos Estudantes do Império, 1963) que coloca em termos
político-ideológicos a africanidade de Cabo Verde, superando um certo
barlaventismo que dominava na produção claridosa.
O sentido pejorativo que se
tem dado ao termo "evasionismo" deve-se a uma confusa apreciação de
que os textos assim definidos (e mesmo assim definidos pelos seus autores) não
tinham presente a realidade social, económica ou política das ilhas, ou não
reflectiam essa realidade. É óbvio, primeiro, que o carácter de literatura
empenhada que normalmente define as literaturas africanas, nomeadamente aquelas
que se desenvolvem em processos coloniais, não tem que ser critério excluente;
por outro lado, muitos dos textos que fazem referência ao
"evasionismo", têm uma forte componente de compromisso cívico. Aliás,
o adjectivo evasionista é aplicado, também, ao movimento claridoso.
ELIADE, Mircea, Mitos, Sonhos
e Mistérios, Lisboa, Edições 70, 1989, p. 60.
Embora não se trate de um
trabalho de periodização literária, consideramos que a pretensa ruptura literária
entre os poetas hesperitanos e os claridosos não é tão forte nem tão evidente
para que se possa afirmar com autoridade de que estamos à frente de duas
gerações ou de dois grupos literários.
Vide Elsa Rodrigues dos
SANTOS, As Máscaras Poéticas de Jorge Barbosa e a Mundividência Cabo-Verdiana,
Lisboa, Edt. Caminho, 1989, pp. 40-41.
Para as relações da
literatura caboverdiana com a literatura brasileira, Vide, entre outros,
SALINAS PORTUGAL, Francisco, "O Brasil na construção do imaginário
(literário) caboverdiano" in O Texto nas Margens. Ensaios de literaturas
em língua portuguesa, Santiago de Compostela, Edç. Laiovento, 1997, pp. 71-95.
SANTOS, Elsa Rodrigues dos,
ob. cit., p. 68.
"La mer c’est
l’arrière-pays, elle représente la seule et unique possibilité
d’évasion" (CABRAL, Nelson Eurico, "Jorge Barbosa: la mer et
l’exil" in Notre Librairie, nº 112, Paris, Clef, 1993, p. 28).
BARBOSA, Jorge, Caderno de um
Ilhéu, Lisboa, Agência Geral do Ultramar, 1956 (prémio Camilo Pessanha).
Ob. cit., p. 88.
Ibid., pp. 82 e ss.
Cabo Verde. Boletim de
propaganda e informação. Editado na Praia. Asno 1, Nº 1- Outubro, 1949.
Director Bento Levy. Em 1962 (nº 157), passa a denominar-se Cabo verde. Boletim
Documental e de Cultura. Ano XIV (Nova Fase), nº 1-157 (Outubro 1922). A
publicação mantém-se até 1965. As citações dos textos transcritos do Cabo Verde
serão identificadas pela sigla CV, seguido do número, mês e ano.
CV, nº 11, Agosto 1950.
CV, nº14,
Novembro 1950.
CV, nº 37,
Outubro 1952.
CV, nº 55, Abril.,
1954.
CV, nº 59,
Agosto, 1954.
"Última fala do
ausente", CV, nº 77, Fevereiro, 1956.
Cfr. Aguinaldo Fonseca, CV,
nº 105, Junho 1958.
CV, nº
116, Maio de 1959.
Cfr. Mário Fonseca, CV, nº
126, Março, 1960.
Poema de Yolanda MORAZZO,CV, nº
154, Julho, 1962.
Arménio VIEIRA, "Contenção e renúncia", CV, nº
153, Junho, 1962.
Como se pode ver no poema "Linha d’água" de
Virgínia Melo, in CV, nº 142, Julho 1961.
in CV, nº 42, Março, 1953. Vid. também o poema
""Brava" de Mª Helena (CV, nº 28, Janeiro 195
Vid. Daniel AZEVEDO, in CV,
nº 141, Junho 1961.
Vide como exemplo:
"convite à viagem", longuíssimo poema em 11 quadras publicado em CV,
nº 67, Abril, 1955.
CV, nº 86,
Novembro, 1956.
"Os
jovens da nossa geração pensam que Cabo Verde é um caso de regionalismo
africano. Esta inversão dos termos do
problema [em relação aos claridosos] decorre do influxo do renascimento
africano, que revitaliza todos os campos de actividade e todos os momentos de
espiritualidade do homem negro ou negrificado" (SILVEIRA, Onésimo, ob.
cit., p. 22).
Queremos
referir de modo especial os trabalhos de Ana Mafalda LEITE (Vid. A Modalização Épica nas Literaturas Africanas,
Lisboa, Vega , 1996. Esta obra analisa, na perspectiva indicada no título, a
obra Pão & Fonema).
FORTES, Corsino, Árvore &
Tambor, Lisboa, ICL/Pub. Dom Quixote, 1986.
Vide LEITE, Ana Mafalda,
"Prefácio" à edição de Árvore & Tambor ... ob. cit., p. 18.
Ibid., p. 11.
RIVAS, Pierre, ob. cit., p.
292.
José Luís Pires Laranjeira
A formação e o
desenvolvimento das literaturas africanas de língua portuguesa, desde o
primeiro livro impresso, em 1849, até à actualidade, passaram pela construção
do ideal nacional no discurso. No discurso literário, o nacionalismo foi a
antecipação da nacionalidade, modo específico de a escrita se naturalizar como
própria de uma Nação-Estado
Encontrando-se o estudo das
literaturas africanas ainda numa fase de reconhecimento e estabilização, a
divisão em fases estético-literárias, mais do que em relação a outras
literaturas decisivamente estabelecidas, apresenta-se como muito provisória,
isto é, mais como tentativa de teorização baseada quer nos factos textuais e
contextuais, quer noutras teorizações não menos precárias. Refazemos aqui o
esquema periodológico (de fases) que empreendemos no manual escrito para a
Universidade Aberta (de Portugal), intitulado Literaturas africanas de
expressão portuguesa (1995).
Podemos estabelecer duas
épocas fundamentais: a Época Colonial, desde o aparecimento de esparsos e
escassos textos, antes de 1849, não necessariamente literários nem africanos,
mas relacionados com África, até às independências dos países, em 1975; a Época
Pós-colonial, em que a literatura se vai libertando da lei da vida colonial,
para se assumir como decisivamente emancipada, desde as independências, até à
actualidade. Tendo em conta essas duas grandes divisões periodológicas, de
carácter histórico e literário, mas sobretudo desde 1849, quando foi publicado
o primeiro livro impresso em África (mais precisamente em Angola),
Espontaneidades da minha alma, poemas de Maia Ferreira, consideramos que se
sucederam seis fases.
Consideremos a literatura
angolana como paradigmática, isto é, como um modelo de irradiação a partir do
qual podemos estabelecer fases aplicáveis às outras, evidentemente de um modo
não mecânico, tendo em atenção que cada uma tem o seu percurso específico, se
bem que no contexto colonial de domínio português, interessando delimitar os
contornos comuns que, textual e contextualmente, as explicam e aproximam, tanto
como das literaturas portuguesa e brasileira, mais do que de outras. Trata-se
aqui de um esquema, de uma proposta muito esquemática de sintetização de
processos, movimentos e tendências, ainda sem fazer aproximações eficazes e
pormenorizadas aos períodos da literatura brasileira e mesmo portuguesa. Duas
características nos permite tal operação tendo por modelo a literatura
angolana: por um lado, a quantidade e variedade de obras; por outro, a
continuidade de produção ao longo das décadas, sobretudo a partir dos anos 30 deste
século. Além disso, tanto Moçambique como Cabo Verde, sobretudo estes espaços,
mas também São Tomé e Príncipe (e não a Guiné-Bissau, em razão do sistemático
deserto cultural, segundo uma concepção moderna), sempre que a sua produção se
revelou inovadora, terão contribuído para uma modificação do sistema literário
na sua permanente evolução. Não se perderá de vista o facto de Cabo Verde
constituir um arquipélago muito diferenciado, impondo, portanto, uma dialéctica
das fases parcialmente em conjunção, mas, sobretudo, em desfasamento (em
notório afastamento?) com as dos outros espaços. É normal que o início das
fases seja considerado com a publicação de um livro fundamental (e não somente
por intermédio de um mero texto isolado), de uma antologia, de uma revista ou
sempre que se declare qualquer nova alteração da ordem estética. Assim se
compreende que o fim das fases (sua extinção ou exaustão) surja através da
publicação de um derradeiro livro, mas podendo considerar-se que as
características dessa fase sobrevivam, num livro inexpressivo ou em textos
dispersos, para além do surgimento de outra ordenação estético-líterária.
Convém ainda ter em conta que, por exemplo, certos processos realistas, como a
prática da descrição objectivante ou a inclusão de frases de uma língua
africana no texto em português, característicos do oitocentismo, são
intensificados e passam a predominar em certos autores ou movimentos do século
XX, podendo, por isso, concluir-se que traços do regionalismo, do casticismo ou
da africanidade passaram a ser tomados como determinantes de novas estéticas
com vista ao aprofundamento nacionalista dos textos.
A primeira fase,
estendendo-se, em Angola, até 1881, antecedendo, portanto, a saída da noveleta
Nga mutúri (1882), de Alfredo Troni, caracteriza-se pelo Baixo-romantismo
(aplicamos aqui, para uso generalizado, a expressão de Fátima Mendonça relativa
a Moçambique), de clara adopção portuguesa, embora também com contributos
franceses e ingleses. O seu populismo cultural pode chamar-se exógeno, na
medida em que as apetências populares, em formas e temas, dizem respeito à
herança cultural lusíada, apresentada como paradigma a seguir com inequívoco
deslumbramento, cedendo o passo às coisas angolanas somente em termos de
encomiástica referencialidade espacial ou onomástica, não propriamente social,
histórica ou política, o que apenas aconteceria mais tarde, por exemplo, com a
Mensagem. De algum modo, é como se uma ideologia de apreço pela aristocracia
(visível no agrado com que se dedicam poemas ao grupo possidente, com
deferências para os monárquicos) convivesse descomplexadamente com, por
exemplo, formas poéticas hauridas nas barcarolas venezianas, nos lieds
germânicos ou nas modinhas brasileiras, ao mesmo tempo que se usa a medida
popular portuguesa da redondilha maior.
Já na segunda fase, que se
espraia pelas décadas de 80 e 90 do século XIX, tanto em Angola como
Segue-se a terceira fase, do
Regionalismo Africano. No início do século XX, em 1901, em Angola, a
intervenção colectiva de um grupo de intelectuais que se manifestou contra um
artigo colonialista de jornal, reunindo colaborações sob o título de Voz
d’Angola - clamando no deserto (1901), abriu uma frente de reivindicação
da igualdade e fraternidade, precursora dos direitos humanos, definível como
nativismo (início do Regionalismo), quer dizer, de uma postura decisivamente
consciente de anseios autonomistas, reagindo às guerras de ocupação movidas
pela potência colonizadora.
Qualquer modo de Regionalismo
Africano (1901-194l), seja o nativismo ou o tipicismo, é também um modo de
africanidade dos primeiros momentos (por localista que seja), antecedendo a
decisiva assunção da africanidade negritudinista, esta muito mais radical
segundo a prática pan-africanista de Césaire, Du Bois e Padmore.
primeiro Regionalismo
Africano, o do nativismo, visível na "Ode a África" e na actividade
jornalística do Manduco de Pedro Cardoso (Cabo Verde), em "Surge et
ambula" e outros poemas de Rui de Noronha (Moçambique), em poemas vários
de Marcelo da Veiga (São Tomé e Príncipe), ou em António de Assis Júnior
(Angola), transforma-se numa subtil, mas decidida, primeira
"insurgência" anti-metropolitana. Caracteriza-se ideologicamente por
um autonomismo supraclassista, com origem nos ideais republicanos, maçónicos,
logo se associando a um pan-africanismo moderado, permitindo aceder, por essa
mistura subversiva, à modernidade possível, vazada num conservadorismo formal e
retórico.
Essa "insurgência"
intelectual sofre um rude golpe com a ditadura do Estado Novo, chefiada por
Salazar, que marca o fim da chamada "imprensa livre" e abre um lapso
de tempo, de
Por outro lado, deparamos com
um outro tipicismo mais localista e regionalista, portanto, telúrico, de
integração continental (de africanidade, sim, mas não necessariamente manifesta
e veemente), a que anda associado algum orgulho negróide, alguma, ténue,
"personalidade africana", que se pode caracterizar politicamente como
protonacionalista, de um geo-estrategismo de grande alcance cultural (veja-se o
exemplo da Claridade (1936) cabo-verdiana) ou, pelo menos, propondo modestas
vias ideologicamente reformistas e esteticamente conservadoras, como no caso da
primeira poesia de Geraldo Bessa Victor (logo depois optando por contribuir
para uma estética da luso-tropicalidade freyriana). Estamos, no caso
cabo-verdiano da Claridade, perante uma verdadeira criação de crioulidade (de
assunção de uma diferença não-portuguesa), ou, em direcção distinta, de entrada
no funil de estrangulamento histórico (da estreita portugalidade).
A quarta fase, do Casticismo
(1942-1960), surgiu na sequência de aprofundamento da opção anti-colonial, como
corolário lógico de uma actividade literária que compreendia o esforço de
consciencialização como serviço cívico ou, se é possível a contradição,
enquanto ética social com fundamentos na história e na cultura imperecível de
um povo. A sua introdução verifica-se com o livro do são-tomense Francisco José
Tenreiro, Ilha de nome santo (1942), integrado na colecção coimbrã do Novo
Cancioneiro, no movimento do Neo-realismo português. O Casticismo (termo que
adoptamos pela primeira vez) pode, então, ser definível como a procura da
permanente herança dos povos, da sua intra-história, profunda, imperecível,
dialéctica, criadora e transformadora, para lá do efémero, segundo uma
concepção próxima da que Miguel de Unamuno nos legou nos seus ensaios sobre o
casticismo castelhano visto como tradição não académica e erudita, mas popular
e antiga, carregada de futuro.
Num primeiro momento, esse
Casticismo afinal tão ansiosamente buscado, apresentou-se sob as vestes do
Sócio-realismo (1942-1950/60) baseado no marxismo ou na sua versão acrescida (a
do marxismo-leninismo), em que, quer em Portugal, quer nas colónias, foi
determinante o papel desempenhado por activistas brancos conotados com o
Partido Comunista Português. O Sócio-realismo (designação relativa às
literaturas africanas igualmente cunhada por nós no presente trabalho) foi a
expressão africana de um modo de renovação da herança negro-realista, associada
sobretudo ao que o Neo-Realismo português possibilitou e ainda à absorção do
Modernismo e do romance social do Brasil. Não temos conhecimento de indícios de
que o Naturalismo brasileiro (sobretudo este, pela sua pujança, e não o
português) tenha sido recebido atempadamente pelos africanos. Ninguém parece
ter dado pel' O cortiço, de Aluísio Azevedo, à data a que nos reportamos. Com o
Sócio-realismo, atravessado, de imediato, pela Negritude, estão em foco as
classes e o mundo do trabalho, da produção de riquezas coloniais (com seus
contratados, serviçais, agricultores, operários, mas também pastores, além de
grupos restritos e outros, marginais), através de processos discursivos virados
para a sugestão de concretude social e quotidiana, em que o pormenor, a notação
descritiva, tem grande relevo. Basta referir a segunda fase da obra de Castro
Soromenho (Angola), a primeira fase da obra de Agostinho Neto e António Jacinto
(Angola), de José Craveirinha (Moçambique) e de Francisco José Tenreiro (São
Tomé e Príncipe), ou a obra de Luís Romano e Teixeira de Sousa (Cabo Verde), e
de Noémia de Sousa (Moçambique), para verificarmos a assunção de uma postura de
classe proletária que tende a colar-se à pele mais generalizante da categoria
do colonizado.
colonizado é uma categoria
ainda mais generalizante do que a do negro, mas, por isso, os escritores
africanos de língua portuguesa, nos anos 50, assumiram a Negritude (1949-1959)
como realização cultural do pan-africanismo, sobretudo os que estavam morando
fora de África, cultuando com orgulho a raça, as culturas tradicionais
(tribais), relativas ao mato e ao campo, numa estética do retorno ideal às
origens, de reencontro com um passado grandioso, utopia da felicidade, à
semelhança de uma recuperação rousseauniana. Agostinho Neto, em Angola,
Aguinaldo Fonseca,
Inaugura-se uma quinta fase,
de Resistência (1961-1974), com a entrada na década de 60 e o início da luta
armada de libertação nacional, despoletada, em primeiro lugar em Angola,
passando a ser produzida uma literatura não de todo circunstancial, primeiro
angolana e, depois, moçambicana e guineense, por escritores tanto com inferior
nível de escolarização como com estudos superiores, cuja orientação ideológica
e política é expressamente anti-colonialista, que engloba, para além de um
específico corpus de guerrilha, também, a partir de 1969, uma temática e um
discurso de Ghetto, relativos estes ao curto período final do colonialismo
português. Essa literatura cria textualmente a nacionalidade, antes da sua
existência política.
Tomando a designação de
Resistência de Barbara Harlow, já usada por nós no livro Literaturas africanas
de expressão portuguesa (1995, p. 227), nela incluímos, sublinhe-se de novo,
nesse primeiro momento, uma temática de guerrilha, cujas características, para
além das já mencionadas, são o posicionamento anti-imperialista
(anti-norte-americano sobretudo, mas também anti-apartheid), o nacionalismo (a
declarada formação textual da nação, aliás já antecipada em textos do
Casticismo, por exemplo, do angolano Agostinho Neto e do moçambicano José
Craveirinha), a espacialização das "zonas libertadas" e do exílio,
com recursos discursivos provenientes do panfletarismo. Como representantes
desse discurso poético e romanesco encontramos Pepetela e Costa Andrade, entre
outros, em Angola, Kaoberdiano Dambará,
Na segunda metade dos anos
60, nas cidades coloniais, sob uma implacável censura, conseguem alguns
escritores publicar, em periódicos e livros, certos textos que camuflam alusões
revolucionárias com a capa do mais inocente lirismo amoroso, telúrico ou
festivo. O angolano Arnaldo Santos, com Tempo de munhungo (1968), livro de
crónicas-contos, é um dos primeiros a aludir ao tempo cinzento, colonialfascista,
que, então, era dado viver. Tratava-se de uma estratégia textual de ghetto, em
que, no hinterland, os escritores aludiam à revolta individual (em conotação
com a revolução colectiva), às vezes sob a máscara de um existencialismo
mitigado, estranho, quase incompreensível nesse contexto de leitura. Pela
primeira vez, houve sinais da leitura do Concretismo ou do movimento Práxis
brasileiros, em renovação formal compreendida numa estética da sugestão e da
alusão, de que são exemplos significativos um João-Maria Vilanova, David
Mestre, Jofre Rocha e José Luandino Vieira, em Angola, Corsino Fortes,
Passa-se à sexta fase, decisivamente diferente, da
Contemporaneidade (1975-1998), com as independências dos quatro países em 1975
(a Guiné-Bissau declarara a sua, já em 1973), acarretando uma transformação
radical nas estruturas de poder, da sociedade, da economia e da cultura, em que
se verificou uma mudança não menos radical no percurso das literaturas.
Caracteriza-se tal fase, num primeiro momento (1975-1985),
em que o patriotismo inflama o estro literário e os ânimos cívicos, por nela
vigorar certo estalinismo ideológico e estético (com as nuances próprias de
cada país e sobremodo pelo contexto africano pós-colonial), em que, por vezes,
se combinam loas hagiográficas aos heróis da revolução e cânticos de exortação
contra os agressores internos e externos, estes mediando guerras civis através
daqueles. Esta estética do orgulho pátrio tem expressão num Jorge Macedo, no
romance Geografia da coragem (1980), ou na poesia de Garcia Bires (ambos de
Angola), tanto como na poesia de Rui Nogar ou na narrativa de Lina Magaia
(ambos de Moçambique).
A superação dos traumas políticos, ideológicos e literários
tomou-se possível somente após a primeira década de independência política
(recorde-se a questão, empolada ou não, com ou sem adequação teónca, da
subserviência das literaturas africanas perante modelos alienígenas, europeus
ou não).
Assim, a superação do estigma
colonial, a pós-colonialidade estética (1986-1996), ocorre com o degelo da
Guerra Fria levada a quente a alguns pontos do planeta. Fundamenta-se, por um
lado, numa reacção anti-jdanovista, anti-comunista, e, por outro, na
correlativa ânsia de democratismo burguês, gerando uma atomização, repercutindo
em variadas fragmentações esteticistas (de tipo neo-simbolista, neo-concretista,
neo-surrealísta, etc.), que o existencialismo ou o misticismo ajudaram a
consolidar.
Seria interessante, noutro
espaço, destrinçar a medida em que os revérberos de esteticismos vários são
também estilhaços de uma propensão estética advinda do natural
multiculturalismo de base étnica dessas novas nações e sociedades. Pensamos, a
avaliar pela obra de Germano de Almeida e de Vasco Martins (os dois de Cabo
Verde) ou de Mia Couto, Eduardo White, Luís Carlos Patraquim e Nelson Saúte
(todos de Moçambique), tanto como de José Eduardo Agualusa e João Maimona
(ambos de Angola), que se trata, finalmente, de exorcizar os derradeiros
fantasmas e medos de cruentas guerras e ameaças de perda de independência,
para, nalguns casos, como em Maimona, partir em busca de discursos
originalíssimos no contexto dessas literaturas.
Por outro lado, escritores
corno Aíto Bonfim e Sacramento Neto (de São Tomé e Príncipe) persistem na
revisão crítica dos fantasmas e das ameaças concretas, decerto por o presente
reavivar traumas do passado, enquanto um João Melo (de Angola), sobretudo este,
alia a experimentação original a uma quase-notícia do quotidiano e a, ainda e
sempre, exasperantes retomas de obsessões, que muito bem conhecemos, do tempo
colonial.
Podemos dizer que, no momento
em que escrevemos, se assiste a uma liquidação (ao repensar literário) dos
antigos mitos, sonhos, realidades e utopias, estando a escrever-se, na
narrativa, um novo capítulo da história dessas cinco literaturas, que é,
possivelmente, o da perplexidade e da incerteza contemporâneas, verificável nas
obras de José Eduardo Agualusa, Germano de Almeida, Pepetela e Mia Couto. Resta
saber, face às contingências e solicitações da instituição literária, na
contemporaneidade pós-colonial, se as literaturas africanas se deslumbrarão com
a sociedade do espectáculo ou se hão-de inscrever na continuidade de um
casticismo intemporal, tendo a capacidade de engendrar e de expressar novas
utopias e esclarecimentos.
Bibliografia
LARANJEIRA, Pires,
Literaturas africanas de expressão portuguesa, Lisboa, Universidade Aberta,
1995.
REIS, Carlos, O conhecimento
da literatura. Introdução aos estudos literários, 2ª ed., Coimbra, 1997, pp.
407-486.
UNAMUNO, Miguel de, En torno
al casticismo, Madrid, Alianza, 1986.
Santo Antônio da
Platina/Jataizinho (PR), Agosto de 1997
Marie-Christine Hanras

Evoquer l’œuvre
de Manuel Lopes conduit bien évidemment à aborder la littérature capverdienne
et à poser deux questions préalables : qu’entend-on par littérature
capverdienne et quand est-elle née ? La réponse généralement admise est 1936 :
avec la revue Claridade naît la
littérature capverdienne. Claridade,
c’est-à-dire clarté, lumière, était un mouvement culturel fondé pour témoigner
de la vie de et dans l’archipel du Cap-Vert. Certes une littérature
existait déjà, mais elle n’était pas totalement — voire pas du tout
— engagée sur le chemin de la créolité, elle n’était pas vraiment
imprégnée de la terre et des traditions capverdiennes (1) . C’était
plutôt une littérature coloniale, une littérature d’outre-mer. Avec Claridade va apparaître une littérature
moderne, régionaliste, qui annonce, 39 ans avant la proclamation de
l’indépendance du Cap-Vert, une littérature nationale. Les trois
fondateurs de la revue, Jorge Barbosa, Baltasar Lopes da Silva et Manuel dos
Santos Lopes, n’ont publié ni programme ni manifeste, ils ont simplement
présenté des sujets de thématique capverdienne : la langue et la société
créoles, le batuque et la morna, la sécheresse et
l’émigration, etc. Aujourd’hui, 63 ans après, que
reste-t-il de cet élan courageusement pré-nationaliste (2) ? Jorge Barbosa et
Baltasar Lopes da Silva ont disparu, le premier en 1971, le second en 1989,
Manuel dos Santos Lopes est donc le dernier (3) à propager ce que nous
appellerons la foi claridade...
outrance verbale, peut-être, mais nous allons tenter de nous en expliquer.
Notre propos est double : démontrer que malgré le temps et
l’éloignement Manuel Lopes est resté fidèle à son pays et à ses idées, et
montrer comment à travers cette fidélité son œuvre a retenu, malgré
certaines critiques et quelques réserves, l’attention des écrivains des
générations post-claridosas.
Manuel Lopes s’est essayé à l’écriture avant 1936 : ses premiers
écrits ont été publiés dans le Novo
Almanach de Lembranças luso-brasileiro entre 1927 et 1930, mais lui-même
considère qu’il est né plus tard à la littérature (4) , probablement en
1931 lorsque ses premières rubriques paraissent dans le journal Notícias de Cabo Verde. Les sujets
qu’il y traite sont effectivement capverdiens : Mindelo, le poète Eugénio
Tavares, la jeunesse capverdienne..., la thématique annonce les idées que
développeront les claridosos. En 1932 il publie son premier livre
: Paúl, qui est aussi le premier
livre de prose littéraire publié au Cap-Vert. Il s’agit d’une
chronique d’une trentaine de pages où il décrit les beautés de la vallée
de Paúl dans l’île de Santo Antão. Ensuite paraissent des articles, des poèmes...
C’est à cette époque aussi qu’il découvre la littérature moderniste
brésilienne : Manuel Bandeira, José Américo de Almeida, Raquel de Queiroz,
Jorge Amado, .... Une littérature qui va provoquer l’enthousiasme du
petit groupe d’amis auquel il se joint souvent pour réfléchir à la
situation de l’archipel et de ses habitants. Une littérature qui va
ouvrir la voie à leur littérature : Baltasar Lopes da Silva propose que chacun
écrive des poèmes, des chroniques, des études, des contes, etc. et il ne devra
être question que des problèmes capverdiens. Claridade était née. Manuel Lopes en
sera le premier directeur.
La déclaration de la guerre
en 1939 et la fermeture de l’entreprise italienne où il est télégraphiste
vont marquer un tournant décisif dans la vie de Manuel Lopes. Il s’installe
dans l’île de Santo Antão, île agricole qui sera le théâtre de bien des
contes et romans à venir. Petit propriétaire terrien, entouré de paysans, il
découvre la terre. Le changement est radical pour lui qui vivait dans le milieu
maritime du Porto Grande de Mindelo. Il ne publie rien, mais il
observe et prend beaucoup de notes. Après trois numéros, Claridade ne paraît plus : la guerre, la dispersion des
collaborateurs et le manque d’argent sont les principales raisons de
cette interruption que personne ne souhaitait. En 1941, une autre catastrophe s’abat sur
l’archipel : une sécheresse terrible va provoquer la famine et la mort de
plus de 24.000 Capverdiens. Impuissant, marqué profondément par ce drame,
Manuel Lopes retourne à Mindelo où
Nous avons délibérément
choisi de nous attarder sur la période de non-production (apparente) littéraire
de Manuel Lopes, c’est-à-dire le laps de temps allant du numéro 3 de Claridade (1937) au départ pour Horta,
car elle nous semble décisive. Pendant ces années de silence,
l’œuvre s’élabore, chaque ouvrage est à la fois conçu et vécu
: Manuel Lopes observe et prend des notes, il enregistre. C’est la genèse
d’une œuvre qui prendra forme un peu plus tard lorsque, éloigné
malgré lui, il aura assimilé : il revivra alors des moments et des émotions du
passé, il fera renaître des personnages, il décrira des paysages et des scènes
de la vie quotidienne. C’est en cela qu’il est fidèle à son pays,
car il témoigne pour le Cap-Vert, et fidèle à ses idées, car la thématique est
capverdienne, claridosa. Pendant
53 ans il va reproduire des images, des bruits, des faits, vus, entendus, vécus
avant 1944.
Tour à tour poète, conteur, chroniqueur, critique, essayiste, romancier
(5) , Manuel Lopes a une production littéraire variée, mais toujours tournée
vers un lieu et une époque. Comme si pendant 53 ans, prisonnier de souvenirs
obsédants, il n’avait pas prêté attention à ce qui l’entourait :
d’autres paysages, d’autres personnes... Nous savons qu’il
n’en est rien, car Manuel Lopes est un esprit curieux, ouvert sur le
monde et soucieux de la condition humaine. Force nous est pourtant de
constater, en faisant l’inventaire de ses œuvres, qu’il a
toujours écrit en pensant au Cap-Vert, plus précisément aux îles de São Vicente
et Santo Antão à l’époque où il y vivait. C’est d’ailleurs ce
qui frappe le lecteur : l’action de ses contes et romans se situe
toujours dans l’une des deux îles citées, pendant un laps de temps assez
court au début des années 1940, et les personnages se retrouvent d’un
ouvrage à l’autre (6) . La question qui se pose alors est : pourquoi ce
procédé ? Peut-être pour exorciser le passé, mais sans pour autant tout
oublier. Ayant quitté le Cap-Vert dans des circonstances dramatiques, il se
devait de témoigner, il devait célébrer le courage et la détermination du
peuple capverdien dans sa lutte quotidienne pour la vie. Ses témoignages les
plus forts sont certainement ses deux romans : Chuva Braba (1956) et surtout Os
Flagelados do Vento Leste (1960). Ses écrits sont autant de preuves
d’attachement, de fidélité, et l’on peut se demander si sa
production littéraire aurait été aussi orientée vers le Cap-Vert s’il ne
l’avait pas quitté ? L’éloignement n’a-t-il pas exacerbé les
sentiments d’un homme si fortement attaché, engagé envers son pays ? Nous
ne le pensons pas. Manuel Lopes n’aurait pas dévié de sa route et il
n’a pas quitté la voie claridosa.
Il nous en a d’ailleurs donné une preuve supplémentaire avec Falucho Ancorado, recueil de poésie
publié en 1997 sur lequel nous reviendrons. Mais avant nous voudrions tenter de préciser le rôle de
l’écrivain auprès de ses cadets.
Au long de ce modeste essai, nous avons employé les mots : foi,
fidélité, attachement, engagé. Ces mots, qui appartiennent au registre de la noblesse morale,
traduisent le sens de l’honneur et de la probité de celui qui a mis sa
pensée au service d’une cause : le Cap-Vert. Avec courage
et détermination, malgré l’éloignement, Manuel Lopes a continué à
collaborer à Claridade tout en
apportant sa contribution à différentes publications des Açores et du
Portugal...
Nous avons déjà évoqué sa participation active à la vie culturelle et
surtout littéraire des Açores dans notre étude Manuel Lopes. Um Itinerário Iniciático (1995), nous n’y
reviendrons donc pas. Rappelons toutefois qu’un an après son arrivée à
Horta, le journal A Ilha de Ponta
Delgada commençait la publication d’une série d’articles sur la
littérature moderne capverdienne et sur Manuel Lopes bien sûr. La plupart de
ces articles était de Pedro da Silveira, journaliste et poète appartenant au
groupe A Ilha, qui écrivait en 1950 :
« O que vamos buscar aos caboverdeanos, ilhéus como nós e também súbditos
de Portugal, é uma como que lição de atitude, uma indicação do caminho a tomar.
Apoiados no exemplo dos escritores claridosos
(...) lançámo-nos também à tarefa de descobrir
o nosso arquipélago (7) . » La présence de Manuel Lopes a probablement
encouragé les jeunes poètes açoriens, d’autant plus qu’entre-temps
la revue Claridade a publié quatre
numéros, après dix ans d’interruption, renforçant ainsi l’influence
des claridosos qui s’étaient vus
rejoints par la jeune génération : Arnaldo França, Nuno de Miranda, Teixeira de
Sousa... Influencée par le néo-réalisme portugais, cette jeune génération avait
lancé sa propre revue en 1944 : Certeza,
deux numéros étaient sortis, le troisième fut saisi par la censure. Certes plus
marqués sur le plan politique que leurs aînés, ces jeunes gens n’avaient
cependant pas l’agressivité de la génération suivante qui va créer le Suplemento Cultural en 1958 : la censure
l’interdira dès le second numéro (8). Contestataires, les collaborateurs
du Suplemento Cultural accusent les claridosos de se montrer passifs et
résignés, et la critique de plus en plus virulente va devenir querelle. Parmi
les plus acerbes, citons Ovídio Martins, très engagé politiquement, et Onésimo
Silveira, auteur d’un essai publié en 1963 : Consciencialização na Literatura Caboverdiana qui va consommer la
rupture. N’épargnant personne, Onésimo Silveira dénigre toute la
production des claridosos, leur
reprochant en particulier l’évasionisme de leurs écrits et
l’appartenance à un régionalisme européen, alors que les jeunes
revendiquaient l’héritage africain. De Manuel Lopes, seul Chuva Braba lui paraît intéressant, il
est vrai que le héros du roman refuse d’émigrer ce qui ne pouvait que
plaire à ce défenseur de la cause anti-évasioniste. Pourtant malgré ces
divergences d’opinions, Ovídio Martins et Onésimo Silveira avaient tous
deux collaboré aux derniers numéros de Claridade
en mai 1958 et décembre 1960... Manuel Lopes, pas plus que Jorge Barbosa et Baltasar
Lopes nous semble-t-il, ne répondit pas publiquement à toutes ces attaques. La
réconciliation ne vint que beaucoup plus tard, en 1986, lors du Symposium
organisé pour le Cinquantenaire de la revue Claridade.
Cependant il apparaît que les années 1960 marquent un temps d’arrêt pour Claridade : la revue ne paraît plus, ses
collaborateurs de la première génération, c’est-à-dire les fondateurs, ne
publient rien de nouveau. L’année 1960 voit la sortie du dernier numéro
de Claridade et la dernière
publication importante de Manuel Lopes avant longtemps : Os Flagelados do Vento Leste. Par contre d’autres revues
paraissent, éphémères, sauf Cabo Verde,
un bulletin « officiel » qui existe depuis 1949 et qui offre en
particulier de 1962 à 1965 la possibilité de collaborer aux écrivains
capverdiens, et ils sont nombreux et de toutes les générations. Mais si la
lutte pour l’indépendance et l’accession à cette indépendance
(1975) donnent des poètes très différents des claridosos comme Arménio Vieira, Corsino Fortes, Oswaldo Osório,
etc., certains écrivains restent très proches de la thématique claridosa, en particulier parmi les
auteurs de contes et nouvelles ou romans, genres littéraires où Manuel Lopes a
plus précisément mis en pratique ses idées. Nous ne citerons que quelques-uns
des ficcionistas qui ont ainsi suivi
ses traces. Tout d’abord, rappelons les noms de collaborateurs de Claridade, mais Claridade deuxième phase : de 1947 à 1949, ou troisième phase : de
1958 à 1960, c’est-à-dire après que Manuel Lopes a exposé ses principes
littéraires dans une rubrique intitulée Tomadas
de vista et publié le conte Um galo
que cantou na Baía... Nous trouvons ainsi António Aurélio Gonçalves, Nuno
de Miranda et aussi Henrique Teixeira de Sousa qui aujourd’hui encore
contribue à enrichir la littérature capverdienne. Puis, nous n’oublierons
pas Onésimo Silveira, le fauteur de troubles des années 1960, qui a lui aussi
récemment publié un roman dans la ligne claridosa,
A saga das As-Secas das Graças de Nossenhor
(1991), ainsi présenté par les Publications Europa-América : « O presente
romance é o primeiro de um ciclo que se reparte por três situações e momentos
diferentes da vivência típica das ilhas de Cabo Verde. » Enfin nous
citerons Félix Monteiro pour sa déclaration au Diário Popular (Lisbonne) le 4 juillet 1963 : « A vitalidade
do movimento claridoso é mais notória na ficção do que na poesia (10) . »
D’autres auteurs n’ont pas participé à la revue Claridade mais ils en sont les héritiers
directs. C’est le cas de Manuel Ferreira, portugais mais tout acquis à la
cause créole, auteur d’œuvres authentiquement capverdiennes, de Luís
Romano, de Orlanda Amarílis, de Teobaldo Virgínio... Curieusement, ces derniers
appartiennent à la diaspora capverdienne, comme Manuel Lopes, ils ont quitté le
Cap-Vert mais ils lui sont restés fidèles.
Immédiatement après l’indépendance, la revue Raízes (1977-1981) a réuni toutes les générations, mais c’est
Ponto & Vírgula (1983-1987)
fondée par Leão Lopes, Germano Almeida et Rui Fuigueiredo qui est pour nous le
dernier relais : les claridosos
(Baltasar Lopes, Félix Monteiro, António Aurélio Gonçalves...) y participent,
Manuel Lopes est sensible à cette revue qui présente de nombreux et différents
aspects de la vie au Cap-Vert, avec humour de surcroît. Les auteurs des quinze
dernières années sont nettement différents, certes ils sont eux aussi les
héritiers de Claridade, mouvement
fondateur de l’indépendance culturelle, mais la poésie s’oriente
vers une thématique plus moderne tendant vers l’universalité : citons par
exemple José Luís Hopffer Almada et Vadinho Velhinho. La prose est marquée par
un roman d’un style très nouveau : O
Testamento do Senhor Napumoceno da Silva Araújo (1989) de Germano Almeida. Et il convient d’évoquer la
production littéraire en créole de Manuel Veiga ou Tomé Varela. La fiction en
général s’est détachée des thèmes si souvent évoqués par Manuel Lopes :
la sécheresse, la faim... pour se tourner davantage vers des sujets
d’actualité, des sujets s’intéressant aussi bien à des questions
internes à l’archipel qu’externes. La littérature
d’aujourd’hui est l’aboutissement des actions menées depuis
1936 : conquête d’une culture autonome, accession à l’indépendance
politique, reconnaissane d’une identité nationale.
Tous furent cependant
unanimes en 1986 lors du Symposium organisé pour le Cinquantenaire de Claridade : il s’est bien agi de
la part du peuple et du gouvernement capverdiens d’une reconnaissance
officielle du rôle prépondérant joué par le mouvement depuis un demi-siècle. Ce
fut une semaine de rencontres et de réconciliations, nous l’avons dit
plus haut, un moment intense au cours duquel les jeunes et les moins jeunes ont
rendu hommage aux deux fondateurs présents : Baltasar Lopes et Manuel Lopes.
L’influence de Claridade
est donc indéniable. Le rôle de Jorge Barbosa et de Baltasar Lopes s’est
exercé directement dans l’archipel qu’ils n’ont que rarement
quitté. Manuel Lopes a vu quant à lui sa mission sublimée par
l’éloignement. Son œuvre, rééditée dans les années 1980, entièrement
tournée vers son pays d’origine n’a pas laissé les jeunes
générations indifférentes et nous voudrions conclure cet essai en présentant
une nouvelle preuve d’attachement du poète à sa terre : le recueil Falucho Ancorado (11) .
Trente-sept ans après Os
Flagelados do Vento Leste, roman publié en 1960, dix-huit ans après
« Marcos », poème publié en mai 1979 dans la revue Colóquio/Letras (et annoncé comme
appartenant à l’anthologie en préparation Falucho Ancorado), dix-huit ans également après « Cebola
Branca », conte publié en novembre 1979 dans la même revue (et également
annoncé comme appartenant à une anthologie en préparation : Mato Inglês e Outros Contos), Manuel
Lopes offre donc à ses lecteurs un nouveau titre : Falucho Ancorado.
Il s’agit d’un recueil réunissant des poèmes écrits tout au
long de la vie de l’auteur, 71 ans de poésie. Il se compose de quatre
parties. « Antemanhã » regroupe des poèmes de jeunesse, tous écrits à
São Vicente entre 1926 et 1935, c’est-à-dire avant Claridade. « Cais de Quem Ficou » présente des poèmes
datés de l’époque claridosa à
1964. « Caminhadas » nous fait suivre l’itinéraire
professionnel du poète appelé à exercer son métier de télégraphiste
successivement au Cap-Vert, à Mindelo, puis aux Açores à partir de 1944 et
enfin au Portugal où il vit encore aujourd’hui sans avoir oublié sa terre
natale : le dernier poème (dernier par la date : 1980) de cette troisième
partie s’intitule « Sherazade no Mato Inglês », lieu situé dans
l’île de São Vicente. La quatrième et dernière partie « Poética de
Edumir » a pour auteur le double de Manuel Lopes, Eduardo Miranda Reis,
dont Edumir est l’acronyme; le jeune Eduardinho des contes « As
Férias de Eduardinho », « O Sim da Rosa Caluda », etc., vient
conclure ce recueil qui retrace l’itinéraire d’un homme de foi, un
homme qui n’a renié ni son pays, ni son engagement littéraire et culturel
: « O programa da Claridade era
fincar os pés na terra caboverdiana » déclarait-il en 1959 au Diário Ilustrado (Lisbonne).
Falucho Ancorado
: tout un programme car « la felouque est ancrée » dans les eaux du
Porto Grande (dont la photographie en noir et blanc illustre la couverture),
son ancre est symbole de fermeté et de fidélité, fidélité à sa terre, à ses
idées et aussi à sa poésie puisque nous retrouvons, parmi des inédits, de
nombreux poèmes déjà publiés mais pour la plupart réécrits, corrigés dans un
souci inlassable de perfection.
Falucho Ancorado
a été publié à l’occasion du 90e anniversaire du poète,
anniversaire célébré à Mindelo, et notre souhait est que bientôt nous soit
donné le plaisir de découvrir le recueil de contes annoncé en 1979 : Mato Inglês e Outros Contos.
Nantes, mars 1999.
Université de Rennes 2-Haute Bretagne.
Notas:
(1) Signalons toutefois
l’émergence d’une certaine préoccupation de l’identité
culturelle et nationale chez quatre poètes capverdiens de la seconde moitié du
xixe siècle : Januário Leite, Eugénio Tavares, José Lopes et Pedro
Cardoso.
(2) En 1936, la dictature
salazariste ne permettait pas aux ressortissants portugais de s’exprimer
librement. La censure et la police politique veillaient. Les claridosos se sont donc montrés
courageux en proclamant leur fierté d’être capverdiens, en revendiquant
une identité propre.
(3) Nous parlons ici des
trois fondateurs, car certains collaborateurs de la revue vivent et écrivent
encore !
(4) Comme nous mentionnions ses écrits parus dans le Novo Almanach, il déclara : Escrevi esses poemas antes de nascer para a
literatura (juillet 1985).
(5) Nous ne parlerons pas ici de Manuel Lopes peintre, car ce
n’est pas notre propos.
(6) A ce sujet, voir notre étude : Marie-Christine Hanras, Manuel Lopes, Um Itinerário Iniciático,
Institut capverdien du livre et du Disque, Praia, 1995.
(7) Cité par Urbano Bettencourt, De
Cabo Verde aos Açores - à luz da « Claridade » (conférence),
Mindelo, 1998, p.32. Nous avions également abordé la question dans notre
communication A literatura caboverdiana
vista dos Açores, au cours du Symposium sur la culture et la littérature
capverdiennes (Cinquantenaire de la revue Claridade)
à Mindelo en novembre 1986. (Les actes n’ont pas été publiés).
(8) L’Afrique portugaise est en rébellion. Amílcar Cabral a fondé
le PAIGC (Parti Africain pour l’Indépendance de
(9) Voir Gabriel Mariano, Cultura
Caboverdeana (essais), éd. Vega, Lisbonne, 1991. Préface de Alberto
Carvalho. Gabriel Mariano fut l’un des collaborateurs du Suplemento Cultural et de Claridade.
(10) Cet article est reproduit dans le Bulletin Cabo Verde n° 13-15 d’octobre-décembre 1963.
(11) Manuel Santos-Lopes, Falucho
Ancorado, éd. Cosmos, Lisbonne, 1997. Préface de Alberto Carvalho. Bien que
publié en 1997, ce recueil vient de sortir en librairi
João Vário
Venho falar-vos dum poeta, a
quem a última obra publicada, Porcos em Delírio, que vai reter a nossa atenção,
acaba de dar, pela sua envergadura, um lugar muito especial na poesia do nosso
país, um lugar que, em minha opinião, ele ocupa sozinho.
Explico-me: trata-se dum
poeta que, um tanto ou quanto fora dos cânones da nossa poética de hoje,
pratica um surrealismo tardio para fazer uma poesia de forte cariz satírico.
Uma poesia percorrida por uma ironia que coloca o mundo num páteo de chacota
delirante ou moralizante, num eixo de riso perdido, amiúde amargurado, por
vezes amargamente devastador, feroz, mas cuja inteligência ou perspicácia
subjacentes parecem advertir-nos de que, se não concordamos com o essencial, é
porque não estamos hoje suficientemente atentos às coisas desta vida ou da
nossa terra, a muito infortúnio nosso e a peias cruciais. E que, em definitivo,
tende a acrescentar nas entrelinhas, o que nelas se observa não nos merece ou
não merecemos o que certa gente delas faz. E o irrisório, a mazela galopante,
frequentemente destabilizadora e insensata, o mau desempenho generalizado de
muitos protagonistas da coisa pública e de muitos fazedores de opinião é
gritante, inaceitável, inadmissível.
Este livro, Porcos em
Delírio, é um pouco estranho na sua ressonância, no padejo do seu texto e na
sua rota. Um livro arrojado e alarmante nos seus propósitos e na sua semântica,
já que, em jeito que alguns dirão panfletário, anuncia e denuncia no poema de
que retira o título
Os porcos estão em liberdade.
(…)
Grunhem com uma elegância
inusitada, pêlos escovados a preceito e a dicção amenizada. (...)
comportamento naturalmente
mudou. Os porcos exigiam lama e merda diferentes.
(…) (p.560)
Apesar da míngua de água,
milho, folhas e outros víveres, os porcos pareciam felizes com a sua desgraça
Dormiam, fornicavam, respiravam o ar comum, repleto de oxigénio e bicharocos
inofensivos, escutavam, anestesiados e apalermados, a rádio porcina, muita
música e conversa Enfim compraziam-se na fatalidade de um destino feito de
servidão, arroto fácil, sexo pregado na testa e um langor tresmalhado. (pp.55-54)
É difícil não ver nesta
alegoria algo que diz respeito a este arquipélago de Jorge Carlos Fonseca
(JCF), antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros, advogado e homem político,
que, para usar a fibra irónica muito do seu gosto e já que há neste livro muita
referência à política, a partidos políticos e ao poder, se dirá que já comeu a
três mesas, três manjedouras, porque foi sucessivamente de 3 partidos,
incluindo o que esteve no poder e o que está actualmente no poder.
Sem me deter nesse tipo de
considerações, porque, ao fim e ao cabo, o que conta aqui é a abordagem
poética, cabe, entretanto, notar que é significativo que o livro fale como fala
desta sociedade, em que se instalaram, ao que parece por um tempo
indeterminado, desde a sua base até ao topo, três figuras que eu designarei por
os discutidores da merdinha enfeitada (pessoas que, em vez de se ocuparem de
questões importantes ou relevantes, se comprazem na discussão de coisas
insignificantes, com intenso afinco, como se nisso estivessem envolvidas razões
do Estado), os matadores do burrinho do bispo (pessoas que se empenham em
desfazer coisas, em matar estruturas que, coitadinhas, não fizeram ou não fazem
mal a ninguém, nem à sociedade civil nem ao Estado, e até são, pelo contrário,
úteis) e os passadores de pau (pessoas que empregam o seu tempo a enganar o
próximo, a 'passar pau', como se diz).
Estas três figuras do
quotidiano relacional utilitário, os discutidores da merdinha enfeitada, os
matadores do burrinho do bispo e os passadores de pau , instalaram-se, repito, em
todos os escalões da sociedade, mas, particularmente no topo. Não é que sejam
figuras novas. Na realidade, o que se regista com surpresa é a sua avassaladora
e descarada proliferação. Quer dizer, predominam actualmente sem vergonha e, ao
contrário das 4 figuras centrais do nosso imaginário colectivo popular -
gongon, catchorrona, canilinha e capotona - que são, em última análise,
benignas figuras, estas de que aqui falo são manifestamente malignas
Não é fácil escrever um livro
que, mantendo-se como este, em larga medida, uma grande obra poética, porque
nos traz pelo menos 4 quatro grandes poemas, dos maiores da nossa poesia,
aparece também como um rápido manual de terapêutica, possivelmente sobretudo
preventiva, para males sociais. Um livro raro entre nós.
Não sintonizo com tudo o que lá está, mas percebo por
que lá está aquilo que não aprecio ou não louvo. E aceito
essa versão da incomodidade. Se ela não é toda a verdade, pode pelo
menos prevenir ou dificultar que o resto venha a corporizar-se, a instalar-se
definitivamente na via pública, parece dizer-nos o
autor.
Porquanto, certo é que quem
não gosta que lhe sejam mostrados o mal ou o desacerto da maneira
Um livro,
que é, em larga medida, uma grande obra poética, dizia eu. Que é isso, afinal?
Em 1984, em
Não se ignora que a
excelência é coisa quase maldita na arte e na literatura, porque de discutível
ou frágil caracterização. Quem quer incontestáveis certezas no tocante à
excelência parece que só as pode ter noutros horizontes - no desporto, por
exemplo. Este atleta é o melhor, porque correu mais rápido do que os outros, ou
saltou mais alto ou mais longe, lançou o peso ou o disco mais longe, etc. O
cronómetro e o metro são irrefutáveis aferidores da excelência. No campo da
estética, as equações de Birkoff não são de nenhum auxílio, são de toda
evidência inoperantes para avaliar a beleza. Quantificar, medir, como em
ciência, ajudam a instalar a objectividade, promovem a reprodutibilidade do
juízo, norteando os critérios e protegendo as regras e os parâmetros. O dolo, a
displicência, o erro, o erro involuntário, em primeiro lugar, podem ser
esconjurados, precavendo-nos contra a interminável controvérsia infundada ou
embirrada.
Aqueles que sabem tudo isso,
quando julgam a arte, a literatura, a poesia, o que decidimos fazer a propósito
do livro de JCF, não são os mais felizes, mas são decerto os que estão mais
prontos a baixar a voz, a dar mostras de prudência, humildade e comedimento. O
que não quer dizer, porque é outra matéria, falta de convicção ou renuncia à
pertinência e ao escrutínio abalizado. Como abalizado?
Só os ingénuos, os fanfarrões
e os ignorantes podem pretender analisar obras de arte sem terem adquirido
previamente informação ou formação adequadas. Como já o frisei algures, uma das
características da criação artística e literária modernas ou contemporâneas é
que exigem isso mesmo. Ninguém com algum sizo se atreve a dar opinião sobre um
problema de biologia, de matemática ou de física, se não tiver uma formação
apropriada ou especializada. Sente-se que algo de semelhante ocorre com muita
arte e literatura do nosso tempo (nomeadamente a poesia, a música e a pintura).
É preciso ser-se iniciado nelas para poder fazer uma apreciação válida,
criteriosa, ou ajudar a sensibilidade a amar sem lamentáveis enganos. Isto
revela duas coisas, a meu ver: não o velho sonho de alguns de a arte se ter
aproximado da ciência (Xenakis, por exemplo, sustenta que a música é ou pode
ser uma ciência), mas, primeiro, que o criador moderno percorre caminhos mais
árduos, aparentemente mais rigorosos do que os seus predecessores; segundo, que
esses caminhos são cada vez menos balizados pelas emoções e mais pela razão que
de certa forma fiscaliza o que possa haver de gratuito naquela, como a imaginação
do criador de ciência. Assim sendo, como em ciência, cujo produto também pode
ser estético (Einstein dizia, cito de memória, que de duas teorias igualmente
plausíveis, escolhia a que lhe dava o mesmo prazer estético que uma sonata de
Mozart ou uma partitura de Bach), a obra literária ou artística recusou à
emoção o seu primeiro tributo integral, que ofereceu de preferência à razão e à
busca aturada do equilíbrio e da harmonia, virados para um objecto que, na sua
organização, na sua feitura, se se revela pupilo da emoção, sê-lo-à a
posteriori, como a obra científica, porque levantado do indizível pela
perseverança instrumentada (para não dizer escrutínio instrumentado), que
mediu, quantificou, quase inconscientemente, para a fazer nascer, crescer, impor-se
como irrevogável ou irrecusável ente natural, resultado de regras invisíveis,
porém naturais (porque nascidas da imaginação criadora), porém
'especializadas', pelo que só o especialista as detectará eventualmente.
Tenho por mim que o aqui fica
talvez na prática explique por que só agora, após anos de tentativas e de
esconderijos ou de jogos de cabra-cega, a grandeza de JCF se manifeste com
Porcos em Delírio, ou a de Oswaldo Osório com Os Loucos Poemas de Amor e Outras
Estações Inacabadas, ou a de Manuel Figueira com os trabalhos plásticos dos
anos recentes, isto para citar casos que me interpelam. Já tenho dito a amigos
meus que escreverei sobre o tema sob o título Porquê só agora? Conhecemos numa
certa medida as emboscadas e as peripécias que a maturidade urde para os
criadores, pelo que é dos seus mecanismos que mais me interessará ver se
percebo alguma coisa.
Mas, nesta apresentação, a
questão mais imediata e facilmente respondível será por que evocar, a propósito
da poesia do arquipélago e de JCF, os problemas de crítica de há pouco?
Porque para pôr os pontos em
dados ii, que se vão seguir, pode-se começar por lamentar que continue a haver
muita desenvoltura no escasso esforço de reflexão que se vai produzindo sobre a
nossa coisa literária.
Há poucos anos alguém dava
uma lista de nomes de poetas universais destas terras: um desvario! Muitos dos
autores citados, se levarem a sério a afirmação, que vinha dum universitário
caboverdeano emigrado, docente numa universidade dum país escandinavo, correm o
risco de nunca aprenderem a fazer poesia, coisa de que ainda precisarão por
muito tempo, ao que indica a análise dos respectivos versos.
Mas não é por esse caminho
das vicissitudes da miopia crítica e do elogio dos falsos valores que vale a
pena prosseguir, já que mesmo os que fazem declarações do tipo supramencionado
parecem, por vezes, admitir pelo menos o óbvio pressuposto seguinte: a
qualidade estética não cai do céu. Tão pouco, evidentemente, emerge por
determinação do crítico.
Nesta perspectiva, uma coisa
me parece poder dizer-se: a poesia caboverdeana de hoje é no geral mais
complexa, mais culta do que a do passado. Julgo que um livro como este de JCF,
não falo tanto do conteúdo como da forma, não seria de esperar nestas ilhas da
parte de poetas de há 50 anos.
Publica-se mais poesia, hoje.
A população duplicou ou triplicou. Também o número de grandes poetas;
terá passado de 2 para 9, ouso avançar. Um número aparentemente modesto, mas pode-se estimar satisfatório dada a
população do país, também ela reduzida, não o esqueçamos. Note-se que, ao que
se revela, há cerca de 60 escritores inscritos na Associação dos Escritores
Caboverdeanos, talvez num total de 80-90 escritores, incluindo possivelmente os
da diáspora. Um número igualmente modesto, por certo proporcional ao pequeno
número de habitantes destas terras, em que não há uma cultura e crítica
universitárias. Somos um povo que estuda pouco, não persevera na criação
literária e artística, não sente geralmente (salvo 23 excepções)
responsabilidade profissional de criar assiduamente para deixar uma obra.
Dizia, há instantes, que
creio que os poetas de hoje têm duma maneira geral uma cultura mais
universalista do que os seus predecessores. É provável que estes tivessem uma maior
informação em antropologia social ou cultural (ou em ciências humanas?) do que
aqueles. Não basta isso naturalmente para fazer boa literatura ou boa poesia e
é possível, ao fim e ao cabo, que o aumento do número de grandes poetas, tal
como no caso de exemplos desportivos, seja urna manifestação da lei das
probabilidades, evidenciando-se com o aumento da população.
Mas esses escritores
caboverdeanos do passado recente, que estavam muito interessados em
antropologia cultural e descuraram, de certo modo, muita poesia do seu tempo,
talvez tenham, em definitivo, feito a boa escolha, porque isso aparentemente
lhes terá permitido inventar rapidamente, por assim dizer, uma poesia de
imediato carácter nacional, uma poesia caboverdeana. Reconheça-se, entretanto,
que a estrutura é relativamente simples (excepto no caso de Osvaldo Alcântara).
Refira-se que, por essa altura, estavam a trabalhar T. S. Eliot, Ezra Pound,
Perse, Kavafis, os surrealistas. Pouco ou nada disso, nenhum eco praticamente
dessas poéticas se ouve na poesia dos seus contemporâneos destas ilhas. Em
contrapartida, os poetas, que se lhe seguiram, estudaram e utilizam na sua
oficina os instrumentos dos surrealistas. E destes empregam sobretudo o mais
belo que os mestres modelaram e levaram às últimas consequências-a metáfora, a
álgebra superior da metáfora, como escreveu Ortega y Gasset. No caso de JCF
pode-se inferir que há um profundo amor pelos surrealistas, um amor dir-se-ia
exclusivo e que dura até agora. Basta ver como ele cita quase todos os grandes
nomes do movimento e como escreve sem realmente sair das técnicas surrealistas
(por exemplo, além da metáfora, a palavra choque, as associações imprevisíveis,
o efeito inusitado, o apuramento do poema em prosa), o que geralmente já
ninguém faz de forma tão exclusiva, presentemente. Por isso, falei sem sentido
pejorativo, bem entendido, de surrealismo tardio. (Repare-se que os poetas de
hoje dão mostras de terem assimilado as contribuições técnicas das correntes
maiores da poesia do nosso tempo, designadamente o simbolismo, o surrealismo, o
expressionismo, a poesia concreta, como, de resto, os pintores, os escultores,
os músicos, os cineastas, porém usam-nas praticamente na mesma dose, por assim
dizer, de tal modo que já não se pode afirmar que este é surrealista, esse é
expressionista, aquele é simbolista. Mas JCF é ostensivamente surrealista).
Diga-se, em abono da verdade,
que os homens, que forjam há uma trintena de anos a nossa poesia, estão atentos
a muito do que se faz neste século. Assim, não surpreende que a poesia
caboverdeana de hoje se apresente mais exigente, mais diversa, mais variada,
duma construção geralmente mais ambiciosa.
Neste contexto, queria
insistir sobre dois aspectos, que se me afiguram essenciais em Porcos em
Delírio: a importância do léxico e aquilo a que eu chamaria o peso da
inteligência na arquitectura duma obra literária ou artística. Antes de o fazer
evocarei uma recordação. Quando eu era estudante de medicina em Lisboa, tive
como professor, no último ano do curso, um dos raros portugueses com trabalhos
científicos conhecidos fora do seu país. Chamava-se ele João Cid dos Santos e
era filho dum cientista português, também de renome internacional, Reynaldo dos
Santos. Cid dos Santos tinha vários assistentes e adquirira o hábito de confiar
certas aulas teóricas a primeiros assistentes que nelas abordavam questões de
que tinham alguma experiência directa.
Lembro-me especialmente duma
lição dum desses primeiros assistentes sobre a coagulação do sangue, ainda hoje
um dos mais complexos fenómenos da biomedicina. Como era seu costume nesses
casos, Cid dos Santos sentou-se entre nós, os alunos, no anfiteatro, para
ouvir. No fim disse mais ou menos isto: "eis uma lição que eu seria
incapaz de fazer; não possuo este tipo de inteligência, que um assunto desta
natureza exige; falo sobretudo de minúcias, de detalhes, que importa dominar
para fazer uma tal prelecção". Fiquei surpreendido e deslumbrado.
Na sua modéstia e bom senso
esse comentário anunciava, aos jovens que nós éramos, uma verdade fundamental,
muitas vezes escamoteada: "quem quer que sejamos é bom reconhecermos que
há dons que nos ultrapassam, que não possuímos".
Porcos em Delírio é um livro
que eu seria incapaz de escrever, creio. Um livro com alguma grande poesia, já
o disse. Seria incapaz de o escrever, porque não possuo o tipo de inteligência
inquisitiva, de forte pendor cáustico ou sarcástico, que o organiza, o vigia,
doma esse seu singular material poético e o distribui dessa forma endiabrada
pelos versos, fazendo dum léxico inusitado matéria prima da reflexão, que
implica algum distanciamento, e colhendo no seu devir ou na sua integração o
motivo mais imediato para o trabalhar numa perspectiva de propagação ou de
cadência infatigável ou, pelo menos, sem um término explícito ou determinado.
Sem pausa, pois, mesmo rugosa, para a candura ou a pacificação. (A palavra puxa
a palavra e é o léxico que o diz ou lembra, e o poeta verifica e cristaliza
essa multiplicação em toda a sua cumplicidade de parteiro ou sua transe de iluminado.)
Quando há uma voz assim, há em geral um estilo específico e, quando há um
estilo, há uma pressurosa inteligência a trabalhar em toda a largura da página.
Disso dá conta o êxtase do leitor, que sou eu, e a propedêutica, fascinada, do
vasculhador da arquitectura geral da obra, que também sou, enquanto crítico,
para além de companheiro de armas e dessas lides de fazer poesia.
Assim, pois, estou a falar da
existência neste livro dum vocabulário peculiar, de palavras que não vejo
noutros livros de poetas nossos, em suma, dum tom original.
Vejamos mais de perto o que
move o nosso autor.
É um poeta que cuida, à sua
maneira, do estatuto do amor e da zombaria, e que, porque tem uma certa ideia
do contrato social, molesta a suficiência e a asneira pública, provavelmente
sobretudo desde que se tornou maratonista. Um homem de que um dos maiores prazeres, segundo declara espontânea e
sinceramente durante um interrogatório da polícia, é
apreciar a solenidade de uma
longa marcha de lombrigas (p.88)
suicida-se amiúde em
acrobacias e escritos de amor e paixão
e também
ensina e publica estudos sobre o
delito e a pena (p. 89)
e como tem
a paixão irremediavelmente
inscrita na alma (p. 86)
é também
capaz de escrever cartas de amor
e de paixão, trezentas e noventa e nove ao todo (p.88)
São, em definitivo,
tentativas de eternidade possível (p. 88)
Este poeta prolixo pode, talvez por isso mesmo,
comprometer-se com o silêncio, como ele diz, o que lhe permite publicar uma
coisa destrambelhada, mas vigorosamente sua, O Silêncio Acusado de Alta Traição
e de Incitamento ao mau Hálito Geral.
Em 1991-1994 completamente embriagado pela liberdade
veste-se de verde, tornaa-se sisudo e ministro (p.87)
Temos aqui um dos mais belos
versos da poesia caboverdeana. E um resumo da arte de poetar de JCB
embriagado pela liberdade,
veste-se de verde (perguntem-lhe por que é que o verde e o roxo são as cores
que amiúde aparecem no poema).
A primeira impressão perante
este verso é seguramente a surpresa pela inesperada reunião de conceitos e
palavras que parecem avessas a um tal casamento: torna-se sisudo e ministro.
Por razões do oficio, nada há habitualmente de menos sisudo do que um ministro.
seu léxico é feito de mais
palavras concretas do que abstractas, palavras concretas (orgasmo, esperma,
sexo, seio, lábio, touro, mulher, cidade, roxo, verde, pêlo), que no geral
tendem a tecer uma situação de estranheza, quase de delírio emocional ou um
enredo narrativo de índole finalmente abstracta, o que não é a menor surpresa
desta poética. (Pode-se talvez pôr na conta da criação desse clima de
estranheza ou de provocação a paginação inversa e os vários poemas riscados,
quase todos, de resto, insignificantes.) Uma outra surpresa é que, sendo
desbragado ou, por vezes, furiosamente irracional o que conta ou aponta, esta
poesia é organizada segundo um ponto de vista que a articula com uma notável
clareza, uma esforçada limpidez e, descobre-se ulteriormente, é duma manifesta
coerência ou racionalidade na sua textura, para lá da metáfora desaforada,
mofina, por vezes espalhafatosa, mas geralmente bem vestida, luxenta, bela, não
raro até perfumada.
Estamos a seguir uma das
virtudes desta poesia, dum poeta, que nesses seus versos
declara-se inocente,
totalmente inocente, vendo-se inclusivamente obrigado a enfrentar o touro
convicto (87) ( ora essa! vejam lá, o touro convicto!)
Aguça o apetite, pelo crime,
pela bola e pelo vinho (87)
Quer a sua cidade da Praia,
de vagina célere, insubmissa e com dentes de fora, arreganhados. Uma vagina que
aloje a América, toda a Guang Dong, Paris, as
avenidas de Kuala Lampur, ou
Mun, para não falar das capitais LP (p. 81).
Mas nunca há-de aceitar que
chamem à sua cidade, a essa vagina, vagina navegável (p.81)
Um poeta que prefere a vagina
doce, rebeldemente anti-herói (p.71)
que pisca o olho a uma jovem
imaginária "pernas e coxas de maizena" a qual lhe responde:
"Amo-te com um amor de
baleia prostituta", (p.69)
um amante que se sentiu obrigado
a comprar e a ler o livro "Beijar e amar sem mestre" (p.69)
um poeta que não sabe
se os ossos respiram docemente
pó catálogos amores mijados
uma pulga inadimplente
às vezes atrevida malandrota! ( p.65).
um poeta que escreve poemas
electrónicos, que pode tropeçar
no charco impressionantemente
fétido
de viúvas semanalmente
canibais (p.21)
Fico por aqui. É de morrer a
rir a coisa toda. Mas magnífica.
Mas sendo o que é,
estranha-se que, tendo amaldiçoado, e bem, quer dizer com toda a razão, as
palavras "prontes", e "digamos" e a expressão "com
eficácia, eficiência e efectividade" (p.84), o poeta não tenha também
amaldiçoado do mesmo passo portanto, essa bengala vergonhosa e irritante de todos
os dias dos impotentes do discurso coerente.
Porcos em Delírio é um livro,
cujo título o poeta discutiu apaixonadamente com René Char, que ele hospedou
"no quarto sul de sua casa na Achada de Santo António durante vinte e sete
dias e vinte e sete noites" (p.86), confia-nos num dos seus mais
desconcertantes poemas e um dos mais bem elaborados, dos melhores trechos da
nossa poesia, o qual é longa e rebarbativamente chamado Biografia sumária do
autor, escrita por um antigo inimigo, hoje, depois da morte, seu admirador
confesso. Bastariam este poema e 3 outros desta colectânea - À cidade da Praia,
Porcos em delírio, Anúncio (oferta de mulher), melhor: borrão de mulher - para
darem a JCF um lugar cimeiro na poesia de Cabo Verde. Aí está a espaços todo o
esplendor do seu verbo irrequieto, provocador, argumentativo, a sua
originalidade, de que os ingredientes são, recapitulando sumariamente, o léxico
peculiar (melhor: o que faz dele), a ironia desenfreadamente analítica (que não
recusa uma forte pitada de erotismo), baseada no paradoxo e na congruência, que
pode ser de segunda leitura, dando o estilo próprio de que falei.
Ocorre-me neste momento um
episódio de há 2-3 semanas: uma minha empregada desapareceu durante uma dezena
de dias, após os quais telefonou para me dizer que, se eu, entretanto, não
tinha arranjado ninguém, ela iria retomar o trabalho em minha casa; que esteve
doente e que, durante esse tempo, tinha pensado em enviar-me alguém para a
substituir, mas porque "que quem vê caras não vê corações", ela não o
fez.
Vêem-se caras, mas não se
vêem corações, uma expressão muito usada nesta nossa terra e não só, mas de que
me esquecera. Lembro-me dela a propósito de JCF. Encontrei-o há anos, creio que
em 1975, no Ministério dos Negócios Estrangeiros na Praia. Fiquei com a imagem
dum indivíduo bastante afável e de certa urbanidade. No ano passado, na
capital, por conseguinte 22 anos após o ter perdido de vista, inesperadamente
convidou-me para almoçar. Reforcei, então, essa imagem de
afabilidade e urbanidade. Estaria longe de pensar que um tal cavalheiro
escrevia este tipo de poesia levada da breca. Dir-me-ão que uma coisa não
exclui a outra. Mais quand même!
Decididamente, vêem-se caras,
mas não se vêem corações. Tanto melhor, neste caso. É a lição a reter deste meu
curto apólogo.
Mindelo, 4 de dezembro 1998
Cinema,animação, feiras, exposições
Festival dos Oceanos Anima
Lisboa Segunda-feira, 14 de
Agosto de 2000
Festival dos Oceanos já
começou para animar Lisboa até ao final do mês. Em torno da ideia do futuro, na
qual se centra este festival, haverá cinema, animação, feiras, actividades
náuticas e exposições.
Nas "Noites de
Viagem" é exibido, desde ontem, o filme "A Nova Lisboa 345 anos
Depois do Terramoto", um projecto de Edgar Pêra, na Doca de Santo Amaro
(junto ao edifício da Associação Naval de Lisboa). É uma história passada em
Lisboa, no ano 2100, quando a Natureza já tomou conta da cidade e grandes
florestas cobrem uma Lisboa transfigurada. A engenharia genética ou uma
catástrofe radioactiva produziram espécies mutantes anfíbias que atravessam um
Tejo despoluído. Há pássaros gigantes a sobrevoar a cidade, alguns deles,
conduzidos por lisboetas humanos. Nas duas margens, a história inverteu-se e
encontramo-nos num universo paralelo em que os diferentes continentes
"descobriram" Lisboa e a Europa. As exibições deste filme serão às 22h30, às 23h e às 23h30. E o acesso é
livre.
No Mercado Marítimo aberto na
rua Augusta das 10h às 19h, será possível encontrar diversos produtos
relacionados com o mar recriados pelas mãos de artistas plásticos, livros que
nos contam histórias e memórias, gravuras e cartas de navegar e artes vindas de
outros mares. Um espaço que é também visitado por actores e habitantes
insólitos que surpreendem os visitantes.
Festival dos Oceanos oferece-nos
também uma Feira Gastronómica com sabores e iguarias de vários continentes,
numa travessia de oceanos com 10 portos diferentes para satisfazer apetites.
Lisboa é o ponto de partida,
seguindo-se paragens nos Açores, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné, Índia,
Macau, São Tomé e Timor.
Também os
mais pequenos terão lugar de destaque nesta festa que animará Lisboa. Todos os dias, das 11h às 18h, podem divertir-se nos
Jardins da Vieira Portuense, em Belém, num espaço que recebeu o nome de
"Navegaçons", lugar de interacção dramático-musical criado a partir
da construção de cinco instrumentos musicais gigantes: o Kissange, o Berimbau,
o Mukaripu, o Bongopã e a Pandeireita.
Chamadas a ouvir histórias
raras e desconhecidas, músicas novas e diferentes, convidadas a fazer todas as
viagens, as crianças transformam-se em protagonistas destas
"Navegaçons". As histórias de encantar também estão presentes e há um
"Peixinho Vermelho" que convida a aprender os saberes e os valores de
outras culturas. Não faltará arte circense.
A Marinha Portuguesa
associa-se ao Festival dos Oceanos possibilitando visitas a barcos , como o
Navio Escola Sagres, a Fragata D. Fernando II e Glória, às corvetas Pereira D'
Eça e João Roby e ao submarino Albacora. Estas visitas serão possíveis na Doca
da Marinha, enquanto o Tejo receberá, em festa, demonstrações e regatas de
diversas modalidades como vela ligeira, canoagem, windsurf ou motas de água.
Duas exposições ocupam também
lugar neste Festival dos Oceanos: "Memórias de Viagem" - que
apresenta uma visão estrangeira sobre Lisboa e Portugal no século XVIII através
de um conjunto de peças ligadas às artes plásticas e à literatura - na sala de
Exposições do Palácio Foz e "100 Anos 100 Barcos", no Museu da
Marinha - um percurso sobre os 100 navios e embarcações das Marinhas Mercante,
de Guerra, de Recreio e de Pesca - que reflecte a história dos últimos 100 anos
Orlanda Amarílis è nata a Santa Catarina, isola di Santiago, nel 1924.
Si trasferirà poi nell’Isola di São Vicente dove fin da giovanissima
prenderà parte alla vita intellettuale di Mindelo. Qui, nel 1945, conoscerà e
sposerà lo scrittore portoghese Manuel Ferreira e con lui si recherà prima a
Panjim (Goa), dove risiederà per circa sei anni, poi in Portogallo, a Lisbona,
dove tuttora risiede. È una delle più personali e rappresentative scrittrici
dell’arcipelago di Capo Verde, la cui opera ha arricchito la letteratura
capoverdiana apportandovi una visione femminile della realtà. La sua carriera
letteraria inizia nel 1944, con una collaborazione sulla rivista
“Certeza”. Ha finora pubblicato tre libri di racconti: Cais do
Sodré té Salamansa (1974), Ilhéu dos pássaros (1983) e A casa dos mastros
(1989), oltre ad alcuni volumi di letteratura per l’infanzia. In italiano
è stata pubblicata un’antologia dei suoi racconti dal titolo Soncente,
Racconti d’oltremare (Rimini - San Marino, Guaraldi-AIEP, 1995). Suoi lavori appaiono inoltre su
riviste e si raccolte antologiche di vari paesi. Thonon-les-bains è tratto da
Ilhéu dos pássaros.
. http://www.sagarana.net/rivista/numero2/thonon.html
http://www.africaexpert.org/nav/countries/country8.html
www.instituto-camoes.pt/cvc/bvc/bibbreve/006/bb06.pdf
ferreiras bok om afro lit port
Amarilis, Orlanda Disillusion Heinemann Book African Women's Writing SC
HEI 34-39
Orlanda Amarílis nasceu na Ilha de Santiago. Na
Universidade de Lisboa fez o curso de Inspecção Escolar e o curso de Ciências
Pedagógicas.
Entre 1976 e 1978, pertenceu à
direcção da Associação Portuguesa de Escritores.
Colaborou com produções suas nas seguintes publicações: Certeza, Heraldo (de
Goa), Colóquio/Letras e África, entre outras.
Obra:
Cais-do-Sodré té Salamansa, 1974
Ilhéus dos Pássaros, 1982
A Casa dos Mastros, 1989
Facécias e Peripécias, 1990
http://www.fflch.usp.br/posgraduacao/administracao/defesa/mest_let.html
Clarice Lispector e Orlanda Amarilis: solidão e resistência (mestrado)
Candidata: Heloisa Corrêa Moura
Programa: Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa
Orientadora: Profa. Dra. Nádia Battella Gotlib
Banca: Professoras Maria Apparecida de Campos Brando Santilli e Elisa Guimarães
Pinto
Data/Local: 17/09/2001 às 14h30 - Sala de Defesas, 116
A AMARILIS Orlanda Soncente, Melting Pot, Guaraldi AIEP , Rep. Di
San Marino, 1995
Attraverso storie talora realistiche, più spesso sconfinanti nel fantastico e
nel simbolico, il libro ci mostra l’universo dell’arcipelago di
Capo Verde, evocandone il paesaggio, la gente, la vita quotidiana.
Orlanda Amarilis è nata nell’isola di Santiago a Capo Verde in una
famiglia di letterati (il padre ha curato il primo dizionario
creolo-portoghese), ha studiato prima a Capo Verde, poi a Goa (ex Indie
Portoghesi) per laurearsi infine in pedagogia a Lisbona. Ha svolto attività
culturali in molti paesi africani, in America, in Europa. Ora vive a Lisbona
dove insegna lingue africane all’Università.
& O MAIS - jornal de artes e letras
Número 3 - Julho/Agosto 1994, 16 páginas, cor:
branco/couché.
Director: Luís Carmelo e Joaquim Tavares.
Design: matriz de Joaquim Tavares.
Tema principal: O destino (responsável: redacção).
Principal/capa: "Destino: o grande ditador
?" (pg.3 a 12).
Entrevista inédita de Rui Gustavo a Amália
Rodrigues: "Vivo um contentamento descontente"(pgs. 8/9).
Suplemento: "Um olhar
sobre Cabo Verde" (apoio da DRCA e ME). Participação de Artur Goulart e
Orlanda Amarilis sobre pintura de Júlio Resende.
Como perspectiva a questão do
bilinguismo
É hoje consensual que a Claridade foi o momento decisivo na
tomada de consciência da identidade cultural cabo-verdiana. Como se relaciona
com o legado dos homens da Claridade?
Em seu entender, a independência política de Cabo Verde deu azo a uma ruptura
cultural de alcance idêntico ao da Claridade,
ou não?
Como vê o panorama actual da
literatura cabo-verdiana?
Quais são, em sua opinião, as
funções que a literatura desempenha (ou, se assim entender, deve desempenhar)
Indique as 5 obras que,
independentemente do seu género, considere serem as obras maiores da literatura
cabo-verdiana.
David Hopffer Almada
1 - Antes de responder,
concretamente, à questão posta, devo dizer que, do meu ponto de vista, ainda
não existe, verdadeiramente, o bilinguismo
Acho que o "Crioulo", ou melhor, a Lingua Cabo-verdiana possui já
capacidades para se tornar numa lingua literária
Utilizo, nas minhas produções, o "Crioulo" e o "Português"
porque considero-as e assumo-as como sendo ambas minhas "linguas". No
entanto, predominantemente, utilizo o "Português" por me ter habituado,
desde cedo a escrever em português e por as situações formais meterem
encaminhado nesse sentido.
2 - Relaciono-me perfeitamente, e bem, com o legado dos "Claridosos".
No entanto, a vivência no mundo que nos cerca, e a interpretação dialética dos
tempos históricos exigem que o momento presente nos inspire novos valores, nos
faça outras exigências e nos aponte diferentes caminhos. A Independência
política terá estado, num primeiro momento (nos primeiros anos) tentado a
produzir "alguma" ruptura cultural, que, felizmente, nunca se deu !
No entanto, ela deu mais e maior consistência à consciência nacional, ao
revigoramento da identidade nacional e a assumpção, pelo cabo-verdiano, da
autenticidade da sua própria cultura, com todos os seus valores. Só nesse aspecto,
se poderá admitir a referência a uma ruptura cultural.
3 - O panorama actual da literatura cabo-verdiana, não sendo óptimo, deve ser
encarado com optimismo. É que já foi mais desolador. A crítica ainda funciona
muito pouco (na verdade, quase que não funciona !), as editoras começam a
aparecer, a movimentar-se e agitar-se e a divulgação começa a fazer parte das
actividades de promoção dalgumas entidades públicas (ex. ICLD, ora IPC) e
privadas (AEC e outras Editoras Avulsas) e Centros Culturais (designadamente o
Português e o Francês).
4 - A literatura, quanto a mim, deve desempenhar,
5 - É sempre difícil catalogar - classificando valorativamente -obras de
literatura, até pela subjectividade e temeridade que isso encerra. Correndo, no
entanto, esses e outros riscos todos - apontaria as seguintes:
-"CHIQUINHO", de Baltazar Lopes
-"ILHÉU DE CONTENDA", de Teixeira de Sousa
-"O TESTAMENTO DO SR.NAPUMOCENO DA SILVA ARAÚJO", de Germano Almeida
-"INTRODUÇÃO Á GRAMÁTICA DO CRIOULO", de Manuel Veiga
-"HISTÓRIA GERAL DE CABO VERDE"-Obra colectiva de uma Equipa Técnica
Luso-Cabo-verdiana.
Dados biobibliográficos:
NOME: DAVID HOPFFER ALMADA
DATA DE NASCIMENTO: 19 -12- 1945
Nacionalidade: cabo-verdiana
Profissão: advogado e consultor juridico
Principais funções desempenhadas:
Ministro da Justiça desde a Independência Nacional (
Presidente da Comissão da Reforma Administrativa (
Ministro da Informação, Cultura e Desportos de
Ministro da Justiça, por acumulação, entre 1988 e 1989
Deputado à Assembleia Nacional desde 1981 até princípio de 1996.
FORMAÇÃO ACADÉMICA:
Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra (Portugal), no ano
lectivo de 1972/73.
OUTRAS INFORMAÇÕES :
-Foi co-Fundador e Director do Jornal “Alerta”, em 1974;
-É Membro-Fundador da “Associação dos Escritores Cabo-Verdianos”,
de que é Presidente desde Novembro de 1996;
-É Membro-Fundador da “Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra
- Tem poemas publicados em Livros, revistas e Jornais;
-Tem dois Livros publicados: Canto a cabo Verde (poesia) e Caboverdianidade e
Tropicalismo (Ensaio);
-Consta da “Antologia dos Poetas Cabo-Verdianos”, organizado por
Luis Romano, da “Across Atlantic”, organizado por Maria Allen, e
“Mirabilis de Veias ao Sol” organizado pelo Movimento Pró-Cultura;
-É Membro-Fundador e Presidente da “Ad-JUS-Associação de Juristas dos Países
de Lingua Portuguesa”, criada em
-Participou, como Observador Internacional da ONU, indicado pela Acção Mundial
dos Parlamentos, nas 1ªs Eleições Legislativas e Presidenciais de Moçambique
(em Outubro de 1994);
-Condecorado com a “ORDEM DE LEÃO”, pela República do Senegal;
-Condecorado com a “ORDEM DO CRUZEIRO DO SUL”, pela República
Federativa do BRASIL.
1 - Todas as necessidades, sejam
afectivas, históricas, económicas e culturais, apontam no sentido de o
bilinguismo passar a ser de facto uma realidade
bilinguismo, em si, é um
capital importante, mas, infelizmente,
Por outro lado, se toda a
gente fala crioulo, seja o de Barlavento, seja o de Sotavento, a ausência de instrumentos
como o alfabeto, a gramática e outros elementos de cultivo da lingua, constitui
um handicap para os falantes do crioulo que, possivelmente, com essa aquisição,
seriam capazes de produzir obras escritas na língua materna. Por esse facto,
talvez o crioulo ocupe um espaço muito reduzido na nossa literatura escrita,
com relativamente poucas obras publicadas e pouco lidas.
Devo referir que já existem
propostas de gramática e de escrita do crioulo, mas, quanto a mim, carecem de
mais estudos, contribuições e aprofundamento, por forma a dar às autoridades
competentes suportes suficientes para a imposição oficial de fórmulas
consensuais.
Julgo que se o ensino do
português não for repensado, corre-se o risco de ver marginalizada toda a
população que não tem meios próprios ou capacidade para a aquisição dessa
língua, aumentando as dificuldades de promoção do indivíduo e a melhor
compreensão do mundo através do português.
Da Independência até à data,
as sucessivas constituições e governos têm reconhecido a todos os cidadãos o
direito à educação, o que tem implicado a massificação do ensino com o
lançamento no sistema, de professores sem formação adequada, principalmente no
ensino básico, boa parte dos quais não fala o português padrão correcto, mas
sim um português acrioulado que é inevitavelmente transmitido aos ensinandos.
Penso que seria grave não se
atender, por razões metodológicas ou outras, ao desenvolvimento pleno da
aprendizagem da língua portuguesa que, entre outras razões, nos possibilita
outros espaços de conhecimento, a inserção real no mundo lusófono e todas as
vantagens que isso terá também para o desenvolvimento e promoção do crioulo.
Para corrigir a situação
acima referida, Cabo Verde terá que apostar seriamente num bilinguismo sério
que, quanto a mim, se entrosa melhor e de forma mais útil na herança cultural
multiforme do nosso povo.
Eu tenho um crioulo falado
bonito, constantemente enriquecido com os novos vocábulos e expressões do
português e doutras línguas. Dá-me prazer falá-lo no dia a dia, mas na escrita
uso o português porque fui habituada a pensar e a escrever nessa língua e,
pessoalmente, não considero o crioulo, na fase actual de desenvolvimento, uma
língua com autonomia e capacidade para satisfazer as minhas necessidades de
escrita.
Por outro lado, escrever em
crioulo implicaria ter que aceitar um alfabeto e aprender uma gramática, ainda
em fase preliminar de estudos, o que não é estimulante nesse sentido.
Uma outra razão por que não
tenciono aprender a escrever em crioulo é a impossibilidade de ser lida por
outros falantes que não sejam cabo-verdianos, enquanto que o português, à
partida, dá-me essa hipótese num universo muito mais vasto.
2 – A minha
relação com o legado dos homens da Claridade
Tive o privilégio de ter
feito a aprendizagem da literatura cabo-verdiana à volta de mestres claridosos
como Baltazar Lopes, Aurélio Gonçalves, Jorge Barbosa, quer enquanto
professores, quer enquanto pessoas das minhas relações familiares.
Os escritores claridosos ganharam
a força que lhes permitiu produzir boa e moderna literatura, na mesma linha que
outros jovens escritores por esse mundo fora. Inspiraram-se na realidade
objectiva cabo-verdiana da época e, sem dúvida, constituirão sempre referência
obrigatória na nossa literatura.
Aprecio os claridosos e acho
espectacular que num período tão curto de produção literária, tenham moldado um
referencial e imposto um estilo, capazes de atrair estudiosos e conquistar
seguidores.
Apesar da minha admiração
pelos claridosos, não me considero identificada como seguidora da sua escrita.
Penso que a Independência de
Cabo Verde provocou as rupturas culturais naturais e inevitáveis atinentes ao
processo, com o ganho de uma nova dinâmica, através da dignificação do povo
cabo-verdiano, de maior abertura ao mundo, de novo dinamismo no exercício do
pensamento, da perda de vários medos, do contacto mais facilitado com novas
formas estéticas literárias a nível mundial e, sobretudo, por ter possibilitado
aos estudantes cabo-verdianos o contacto descomplexado com a nossa literatura
e, obviamente, a literatura claridosa.
Tudo isto terá influenciado
as novas gerações de escritores e, dentro de algum tempo, penso que já se
poderá falar, sem arrogância e saudosismo, por um lado, e timidez, por outro,
de um novo quadro literário.
3- A Independência possibilitou
a oportunidade de se criarem estruturas para a edição e divulgação de livros. O
Instituto Cabo-verdiano do Livro foi o primeiro passo para isso e até agora é a
editora com maior volume de edições.
Têm aparecido outras editoras
e, no conjunto, têm capacidade para dar resposta à procura.
No entanto, os financiamentos
são escassos, o que limita a publicação.
A crítica num país muito
pequeno e com uma população muito jovem como a nossa, tem necessariamente uma
configuração própria. Uma das marcas da nossa crítica é ela ser sempre rodeada
de muitos cuidados e cautelas, apresentando-se revestida de uma estética
própria.
No entanto, se por um lado, a
ausência de crítica objectiva dificulta o amadurecimento do escritor, por outro
lado, no nosso contexto, acho bonito e generoso o cuidado com que se fala de
uma obra, como se se quisesse, acima de tudo, proteger e acarinhar quem
escreve. O que eu quero dizer é que nós, este povo tão pequeno, em termos
numéricos, confundimos naturalmente a pessoa do escritor com a coisa escrita e
aí fica difícil organizarmos frontalmente uma apreciação totalmente isenta.
Conto com a Escola Superior
de Educação
4 - A literatura acontece e
desempenha o papel que a sociedade, a todos os níveis, lhe solicitar.
Quanto a mim, a função que mais
valorizo é a capacidade de servir de ponte de comunicação entre as várias
gerações, povos e culturas.
5 - Tenho alguma dificuldade em
falar de obras "maiores" seja na literatura, seja noutra área
qualquer. Entretanto, considero referências com um certo relevo na nossa
literatura, os seguintes escritores: Manuel Lopes, António Aurélio Gonçalves,
Baltazar Lopes, Jorge Barbosa (todos da geração dos claridosos), Arménio Vieira
e Germano Almeida ( pós-claridosos ).
Dados biobibliográficos:
Dina Salústio (Bernardina de
Oliveira Salústio)
Natural de Santo Antão, Cabo Verde, 27/03/41
Residência: CP 73 - Praia, Santiago
Publicações:
"Mornas eram as
noites" - livro de contos– 1994 – ICLD - Praia
"A Louca de
Serrano" - romance – 1998 – Spleen Edições - Praia
"A Estrelinha Tlim
Tlim" - livro infantil com ilustrações de Júlio Resende –1998
Edição: Instituto Camões, Centro Cultural Português, Instituto Cabo-verdiano do
Livro e do Disco. Composição Printer Portuguesa - Lisboa
Participação na obra
colectiva "Cabo Verde e a Insularidade" – Centro Cultural
Francês, 1998.
Crónicas, contos e poesias em
jornais e revistas.
Nacionais :
Tribuna, Mudjer, Ponto &
Vírgula, A Semana, Voz di Povo, Pré - textos, Fragmentos, Ekos do Paul,
Brochura Santo Antão, 12 anos de Desenvolvimento. ..
Estrangeiras:
Suécia,1998 - Halva Värdens
Litteratur (1 conto)
Holanda,1994 - Mickgrant - (1 poema)
Itália, 1998 – Publicação da RAI Uno, com participantes do Salone del
Libro, de Perugia, 1997 (1 conto)
França, 1992 - Revue Noire, nº11 (1 texto sobre Cabo Verde)
Brasil, 1998 - Universidade Federal do Rio de Janeiro – Tese de mestrado
apresentada pela professora brasileira (Sonia Santos), em 1998, sobre escrita
africana no feminino: "A Oportunidade do Grito", tendo por tema de
análise alguns dos meus escritos dispersos e o livro "Mornas eram as
Noites".
Prémios:
1994 - 1º Prémio de
Literatura Infanto-juvenil, pelo Instituto Cabo-verdiano do Livro e do Disco
1999 - 3º Prémio de Literatura Infanto-juvenil num concurso literário promovido
pelo Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa para os Países Africanos de
Língua Oficial Portuguesa.
Memória e identidade nos contos de Teixeira de Sousa (para uma antropologia da literatura) Maria R. Turano
http://www.fflch.usp.br/dlcv/posgraduacao/ecl/pdf/via04/via04_19.pdf
berço do crioulo foi
Santiago, por ter sido a primeira ilha povoada. A última ilha habitada foi a de
S. Vicente, no século passado. As restantes conheceram ocupação humana ao longo
dos séculos XVI e XVII. A cronologia do povoamento do arquipélago explica em
parte as nuances do crioulo, de ilha para ilha. Em parte apenas, porquanto o
factor mais importante das mesmas nuances reside na insularidade e dificuldade
de contacto entre as populações. Assim, temos duas grandes variantes do
crioulo, ou seja, a variante de Sotavento (Santiago, Maio, Fogo e Brava) e a de
Barlavento (Santo Antão, S. Vicente, S. Nicolau, Sal e Boa Vista). As duas
variantes distanciam-se tanto uma da outra como o espanhol do português. Este
distanciamento não se verifica apenas entre os falares de Sotavento e de
Barlavento. Até mesmo entre as ilhas de cada um daqueles grupos existem
tipismos linguísticos. Semelhante heterogeneidade da fala é quase uma
fatalidade geografico-cultural, pois sobrevive meio milénio após o início do
povoamento do arquipélago. Sendo assim, não se pode falar na existência duma
língua perfeitamente caracterizada
crioulo de cada ilha em separado possui sem dúvida
capacidades expressivas para ser utilizado como veículo comum de molde a
permitir uniformidade gráfica e até mesmo semântica em alguns casos. Por
exemplo, a palavra mofino tem nos
grupos de Sotavento e Barlavento sentidos diferentes.
Sem unidade linguística não pode existir uma literatura de
expressão crioula, donde a obrigatoriedade do uso do português na ficção, na
poesia e no ensaio. De resto, não esqueçamos que o português é a língua-mãe do
crioulo, tal como o latim o é das línguas dos países do antigo império romano. Ha consequências culturais do expansionismo
imperialista que são irreversíveis. A língua é uma delas.
A identidade cultural
expressa pelo movimento Claridade (1936), ainda em pleno contexto colonial, foi
um ante-grito do Ipiranga da independência nacional. Costuma dizer-se que Cabo
Verde foi nação antes de ser estado, uma vez que a sua elite mais progressiva
descobriu que as ilhas possuíam valores culturais próprios, os quais nem eram
África, nem eram Europa. A interacção das idiossincrasias (África versus
Europa) resultou numa terceira identidade que hoje povoa o arquipélago. Esta
síntese processada a partir de teses diversas foi a grande trouvaille dos homens da revista Claridade, aos quais me vim juntar
(1947) como elemento da segunda vaga. As minhas obras filiam-se por conseguinte
no modelo implantado pelo referido escol, talvez com uma ligeira diferença no
que concerne à visão dos problemas sócio-económicos de Cabo Verde.
Resido há 24 anos em
Portugal, encontrando-me algo afastado da evolução da intelligentsia cabo-verdiana. Todavia, pelas curtas visitas
efectuadas de onde em onde e pelo material escrito que me chega às mãos, posso
concluir que a literacia
As funções que a literatura
desempenha
Chiquinho (romance) de Baltasar Lopes
da Silva, Ambiente (poesia) de Jorge
Barbosa, Flagelados do Vento Leste
(romance) de Manuel Lopes, Ilhéu de
Contenda (romance) de Teixeira de Sousa, O Testamento do Senhor Nepomuceno (romance) de Germano Almeida.
1.Na produção literária quase
sempre utilizo a língua portuguesa. Uma ou outra experiência poética em crioulo
surgiu-me como inconsistente, de uma perspectiva literária. Assim, pelo menos
até agora, o crioulo é a minha língua de comunicação oral normal, sendo o
português o veículo de comunicação por escrito.
Sobre o futuro? Não sendo
estudioso da linguística, estou impossibilitado de contrariar ou corroborar a
ideia da possibilidade de o crioulo vir a ser, por mérito próprio, língua
literária dominante. Tenho dúvidas, muitas dúvidas.
2.Creio ser evidente não ser eu legatário da Claridade. Aliás, estou em crer que a ruptura com os claridosos
praticamente apenas se deu ao nível da poesia. No que respeita à prosa de
ficção, salvo um ou outro caso (por exemplo, "O eleito do sol", de
Arménio Vieira), há uma linha de continuidade de um ponto de vista dos
processos de construção narrativa.
A independência política de
Cabo Verde só aparentemente implicou uma ruptura cultural (falo sobretudo de
literatura). A verdade é que os anos pós- independência trouxeram,
sobremaneira, produção panfletária sem alcance estético, único critério do
literário. A ruptura começou há pouco tempo e ela é visível na poesia.
3.Os apoios estatais são
escassos, raros e selectivos (apoia-se a obra ou o autor que não incomoda
politicamente). A edição é um acto de imensa coragem e paciência de chinês.
Mais facilmente se apoia um rebolado gratuito de nádegas do que uma iniciativa
cultural, técnica ou científica séria. A crítica é incipiente. Estuda-se pouco. Escarnece-se da inteligência e do saber.
Com raras excepções,
funcionam
Sou muito,
muito céptico relativamente a qualquer utilidade da literatura. Acredito muito pouco na sua força. Em todo o caso,
Com poucas excepções (o caso
de Germano Almeida), os autores cabo-verdianos são pouco produtivos, Não há,
pois, muitas grandes obras literárias. Prefiro dar-lhe três nomes: Arménio
Vieira, Mário Fonseca, João Vário (na poesia).
Dados Biobibliográficos:
NOME : Jorge Carlos de
Almeida Fonseca
DATA DE NASCIMENTO: :20 de Outubro de 1950
NATURALIDADE: Freguesia de N.Senhora da Luz, S.Vicente
NACIONALIDADE: Cabo-verdiana
RESIDÊNCIA HABITUAL: Praia
Livros publicados:
"O silêncio acusado de
alta traição e de incitamento ao mau hálito geral", Spleens, Praia, 1995;
"Porcos em
delírio", Artiletra, Praia, 1998.
Participação em antologias, obras sobre escritores e/ou literatura
cabo-verdiana :
Jogos Florais 12 de Setembro
1976, I.C.L., Praia, 1976(participa com os poemas "Saxofone de
espuma"; "Poema de amanhã"; "Ferro & alumínio &
cimentos &pozolana & chuva se vier"; Poema do destemor";
"Poesiaaa, ombrooo armaaas"; "Para ti,
amor-se-dicionários")
Antologia Barlavento,
1985?(Algarve, Portugal)
Mirabilis - De veias ao Sol,
org.de José Luís Hopffer Almada, 2a ed., I.P.C., Praia, 1998.
Entrevistado em "Cabo
Verde - Encontro com escritores",II, de Michel Laban, ed.da Fundação Eng.António de Almeida, Lisboa, 1992
Referido, e com publicação de
um poema, traduzido para inglês ("Matemática da liberdade"),
Recenseado
Recenseado
Participação poética em revistas e jornais:
Vozdipovo
Artiletra
Voz di Letra
Folhas Verdes
Fragmentos
Raízes
Pré-Textos
Nô Pintcha
Sopinha do Alfabeto
África (revista portuguesa)
1.O bilinguismo
Ccv, pelo seu turno, é língua da
oralidade, da amizade e das situações informais de comunicação. O quotidiano das pessoas tem como suporte de comunicação
o Ccv. Apesar de tudo, só muito recentemente foi adoptado um alfabeto
estandardizado, o ALUPEC, através do Decreto-Lei nº67/98, de 31 de Dezembro;
possui uma literatura ainda nascente; não é ensinado de forma sistemática e
sistematizada; só nos últimos tempos começou a ser dotado de estudos
gramaticais abrangentes; é pouco usado em situações formais de comunicação;
apesar de ter o estatuto de língua nacional e de ser reconhecido como marca
fundamental da nossa identidade, é ainda considerado, particularmente pela
elite intelectual, como uma língua menor.
Não há dúvidas, portanto, de
que a situação é de diglossia. Há no entanto uma vontade cada vez maior de
inverter a situação, isto é, de construir um verdadeiro bilinguismo onde o Ccv
terá o estatuto de língua nacional e co-oficial e a Lp o de língua co-oficial e
(cada vez mais) veicular. Isto significa que as duas línguas acabarão por ter
um estatuto equiparado, igualmente prestigiadas e usadas, livremente, tanto em
situações formais como nas informais de comunicação.
Que o Ccv já tem capacidade
literária, já ninguém duvida. Se vai ser língua literária dominante, ninguém sabe.
O melhor ainda seria de compartilhar com a Lp o domínio da literatura, sem
pretensões de dominação, apenas como parceira.
Eu utilizo tanto o Ccv como a Lp nas situações formais como
nas informais de comunicação e isto porque considero-me realmente bilingue e é
o real bilinguismo que desejo também para o meu povo.
2. Relaciono-me de maneira
pacífica e interessada com o legado claridoso. Os homens de Claridade deram um contributo
inestimável tanto às letras como à cultura cabo-verdianas. Com o advento da
Independência nacional, o ideário claridoso de fincar os pés no chão permaneceu, mas com uma visão mais ampla do
humanismo. A mudança mais significativa deve ser quanto à temática e quanto ao
espírito de revolta e de contestação que só de forma encoberta ou indirecta se
pode descobrir na literatura claridosa.
3. Tendo em conta a demografia
(cerca de 350.000 h) e o PIB (muito baixo), pode-se considerar que o panorama
literário cabo-verdiano é satisfatório neste momento. Não obstante, a crítica
(que é uma segunda literatura) continua escassa. E isto porque a reflexão sobre
a literatura é sempre posterior à existência dessa mesma literatura. Em segundo
lugar, o facto de sermos um pequeno País onde praticamente todos se conhecem,
não facilita uma visão objectiva e imparcial da literatura que aqui se faz.
Quanto à edição, existe hoje
um parque editorial razoável (ICLD, Ilhéu Editora, Spleen Edições, AEC-Editora,
Calabedotche, Poemas de Sábado...). Há no entanto alguns problemas com a
publicação dado que o mecenato ainda é pouco visível. Há também a exiguidade do
mercado que não facilita. Basta dizer que pouquíssimos títulos têm uma tiragem de
mais de 1000 exemplares.
A divulgação é complicada. Os
livros publicados
Quanto aos apoios estatais,
eles existem, mas ainda são reduzidíssimos.
Cultural – na medida em
que, em algum sentido, é suporte, veículo e instrumento do ser e do estar do
nosso povo;
Artística – visto que a
palavra e o ritmo se conjugam para criar uma harmonia que agrada ou que cativa
tanto os sentidos como também o espírito;
Social – tendo em conta
que ela contribui para a mudança de mentalidade e de situações que não
favorecem o ser e o estar do HOMEM;
Pedagógica e instrumental :
tendo presente que ela ajuda a apreender como também a transformar o real do
ambiente local como do universal.
É difícil escolher cinco
obras maiores da nossa literatura deixando de lado muitas outras que também são
significativas. Para ser menos injusto, prefiro falar de algumas obras que me
marcaram e isto tanto na fase claridosa como pós-claridosa.
Fase Claridosa: O conjunto da
obra poética de Jorge Barbosa; Chiquinho,
de Baltasar Lopes; Chuva Braba, de
Manuel Lopes ...
Fase Pós-Claridosa: Ilhéu de Contenda, de Teixeira de Sousa;
O Eleito do Sol, de Arménio Vieira; Árvore & Tambor, de Corsino Fortes; Son di ViraSon, de Cacá Barbosa; Nascimento de um Mundo, de Mário Lúcio.
Sem falsa modéstia, creio que Odju
d’Agu merece também um lugar de destaque. E isto se tivermos em conta
as apreciações de Dulce Duarte (1), Luís Romano (2), Gerald Moser (3), Russel
Hamilton (4), Jürgen Lang (5), Pires
Laranjeira (6) e José Luís Hopffer Almada (7).
Ver Jornal Voz di Povo, Praia, 23/5/87.
(2) Ver Revista Fragmentos, n ºs
3/4, Praia, 1988.
(3) Ver World Literature Today, USA,
1988.
(4) Ver Jornal Tribuna, nº18 (50),
Praia, 1989.
(5) Ver revista Papia, nº2,
Universidade de Brasília, Brasil, 1991.
(6) Ver Cabo Verde – Insularidade e
Literatura, Karthala, Paris, 1998, pp. 180-182
Do meu ponto de vista, a questão do bilinguismo
À pergunta se "o crioulo
possui capacidades expressivas para vir a tomar-se a língua literária dominante
Tenho utilizado, na escrita
(como na fala), português e crioulo. A minha preferência vai, porém, para o
crioulo (também na fala). Sendo esta língua uma criação do povo cabo-verdiano e
voz da nação (pois, é materna!), decorre daí a razão fundamental da minha
preferência, mesmo sabendo do diminuto público leitor que esta preferência
acarreta (quer porque a população cabo-verdiana é reduzida, quer porque a
população leitora nacional é ainda muito mais diminuta, quer ainda porque se
trata de uma língua usada no presente quase somente por cabo-verdianos, por
múltiplas razões e vicissitudes). Será uma forma de eu testemunhar,
indirectamente, aos meus concidadãos (e não só) que reconheço e acredito no
valor e alcance da língua nacional. Por um lado. Por
outro lado, julgo que a minha preferência poderá ser entendida como uma
dedicação e empenhamento pessoais no sentido de trabalhar a língua e de, assim,
contribuir para melhorar e aumentar, cada vez mais, a sua capacidade
expressiva: será uma forma de melhor veicular a cultura do povo, de mais servir
a nação e de favorecer (com especificidades próprias) um maior enriquecimento
(por que não?) da humanidade, de que a nação caboverdiana é parte.
0 meu relacionamento com o
legado dos homens da Claridade é de
veneração, respeito e atenção, como o de um aluno honesto que pretende aprender
muito mais aprofundando os conhecimentos do professor, eventualmente corrigir
possíveis falhas do mestre e, se calhar, ultrapassar a postura e ensinamentos
deste que a evolução do tempo, da história e dos valores possa proporcionar.
Por outras palavras, um relacionamento que pugna pela mudança sem esquecer e, muito menos, ignorar os importantes
contributos desses homens na inventariação e aprofundamento da identidade
cabo-verdiana, que assim se enriquece e fortalece cada dia mais.
Julgo que a
"ruptura" cultural operada no meu país com a independência política
deste seja de um alcance mais alargado e profundo do que ao da Claridade: assumiu-se clara e
definitivamente como país, como Estado e como nação, quebraram-se grilhões e
soltaram-se muitas amarras; a nação inteira se libertou e se despertou para o
início de uma vida nova, para uma assunção muito mais consequente da sua
própria realidade. Isso tudo não podia deixar de Ter
implicações sérias e profundas, a todos os níveis, quase ao estilo de uma
revolução.
Do ponto de vista criativo, o
panorama da literatura cabo-verdiana parece-me mais animador do que já foi, pelo
menos em termos de diversidade e quantidade, embora se tenha a sensação de que,
da independência a esta parte, se esteja à procura de novos caminhos e novos
rumos. Em termos de qualidade, há também de tudo. Apesar de ser mais difícil um
pronunciamento objectivo sobre esse aspecto, arrisco-me a dizer que a situação
também é encorajadora. Do ponto de vista institucional, pode-se considerar que
a evolução é positiva, apesar dos magros recursos. Com efeito, até à
independência, não havia no país nenhuma editora de livros. Actualmente existem
seis. Naturalmente, a divulgação do livro aumentou significativamente, embora
ainda bastante aquém do que seria desejável. Apoios estatais e do empresariado
nacional, inexistentes antes da independência, suportam hoje quase a totalidade
das edições
As funções que a literatura
terá vindo a desempenhar
Considero obras maiores da
literatura cabo-verdiana, entre outras, as cinco seguintes: Chiquinho (romance) de Baltasar Lopes, Os flagelados do vento leste (romance)
de Manuel Lopes, O eleito do sol
(romance) de Arménio Vieira, 0 testamenlo
do Sr. Napumoceno da Silva Araújo (romance) de Germano Almeida e Nascimento de um mundo (poesia) de Mário
Lúcio Sousa.
Dados biobibliográficos:
Tomé Varela da Silva (T. V. da Silva, nome literário),
nascido a 19.12.1950, na localidade de Bom-Pau, freguesia de S. Lourenço dos
Órgãos, concelho de Santa Cruz, ilha de Santiago - Cabo Verde, licenciado em
Filosofia pela Faculdade de Filosofia de Braga da Universidade Católica
Portuguesa, pai de dois filhos (ambos rapazes), divorciado, funcionário público
(quadro da Cultura), actualmente (desde 1994) Chefe da Casa Civil do Presidente
da República, residente
Livros publicados: Finasons di Ña Nasia Gomi, “Tradisons Oral di Kauberdi”, Institutu Kauberdianu di
Libru, Praia, 1985; Kumuñon
d’Áfrika: onti osi mañan, “Poesia”, Instituto
Caboverdiano do Livro, Praia, 1986; Na
bóka noti, volumi 1, “Tradisons Oral di Kauberdi”, Institutu
Kauberdianu di Libru, s/l [Praia], 1987;
Kardisantus, “Poesia”, Institutu Kauberdianu di Libru, s/l
[Praia], 1987; Ña Bibiña Kabral. bida y
óbra (ku koIaborason di H. Santos
y A. Semedo), “Tradisons Oral”, Institutu Kauberdianu di Libru, s/l
[Praia], 1988; Natal y kontus, “Ficção”,
Institutu Kauberdianu di Libru, Praia, 1988; Escada de luz, “Poesia”, Instituto Caboverdiano do
Livro e do Disco, Praia, 1989; Ña Gida
Mendi: simenti di onti na con di mañan, “Tradições Orais”,
Instituto Caboverdiano do Livro, Praia, 1990; Tenpu di tenpu, “Tradições Orais”, Instituto
Caboverdiano do Livro e do Disco, s/l [Praia], 1992; Na altar di nha petu (poesia), AEC Editora, s/l [Praia], 1997; Konparason di konbérsu, “Tradições
Orais”, Instituto Caboverdiano do Livro e do Disco, Praia, 1997.
Colaboração em: 1) Revistas.
Ponto & Vírgula - revista de
intercâmbio, nº 7, Jan../Fev., 1984; Artiletra
- jornal-revista de educação, ciência e cultura, nº 5/6, Jul./Agos., 1992; Pré-Textos - ideias & cultura, nº especial,
Jun., 1994; Fragmentos - revista de
letras, artes e cultura, nº 11 -15, Dez., 1997; Kultura, nº 1, 1997, nº 2, 1998; 2) Livros: Cabo Verde - insularidade e literatura, Karthala,
Paris, 1997; Descoberta das ilhas de Cabo
Verde, Arquivo Histórico Nacional/Missão Francesa de Cooperação e de Acção
Cultural, Praia, 1998.
1.Uma coisa é certa: pensamos
em crioulo, e o nosso humor é bem
Utilizo o português, porque é a língua que mais domino. Mas se
dominasse melhor o inglês seria também
2.O relacionamento foi sempre bom:
é necessário passar pelos mestres para se ter a conciência como escritor .
Tanto mais que o meu relacionamento também foi e é fisico: conheci pessoalmente
Baltazar Lopes, António Aurélio, Félix Monteiro, Manuel Lopes. O meu primeiro
romance ainda foi baseado em muito do imaginário da Claridade. Não há dúvida
que foi a primeira época de ouro da cultura caboverdiana, muito dificil de se
repetir nos tempos actuais, e que faz inveja a qualquer criador, pela
solidariedade, pela complementação das ideias, pelo ideal da descoberta, pelo
pioneirismo, pela personalidade.
Mas não acho que a independência de Cabo Verde tenha contribuido para uma
ruptura, embora tentativas politicas tenham minado uma melhor saúde nessa
relação. O pós independência foi a continuação normal da Claridade. Tudo flui,
tudo é transitório e impermanente, tudo é interdependente. Pensar de outra
maneira é alienção intelectual.
3. A crítica em cabo-Verde não
existe, salvo um ou dois casos isolados, sem grande projecção. Existe sim uma
critica arrogante e frustrante por parte de intelectuais ou criadores com mal
de notoriedade. Existe sim uma megalomania das letras, muito à moda latina, e
uma dissicação de evidências, tal como se faz normalmente na poesia.
Quanto á edição, não há dúvida que para a pequenez de Cabo-Verde, tem-se
portado bem. A divulgação do livro é pobre por falta de meios e ideias de
promoção, tanto mais que a maior parte da população vive o dia a dia á busca de
dinheiro para sobreviver, incluindo as classes mais abastadas, essas que deviam
comprar e não compram.Quanto aos apoios do Estado, nada sei muito bem, mas
creio que tudo é por meio de “panelinhas” “coisas á
toa”, “indice de massas”, etc.
4. O que é que a literatura
desempenha? O prazer da leitura primeiro. A dignificação do espirito, se for
boa literatura, o amelhoramento da personalidade nesta vasta jornada da vida. O
que mais?Tudo o resto é academismo, próprio para gente sem imaginação, que só
servem para empatar o progresso do acto criador.
5.
Canto da Manhã Futura de
Baltazar Lopes
2- Noite de Vento de António Aurélio Gonçalves
3- Ilhéu de Contenda de Teixeira de Sousa
4- Chuva Brava de Manuel Lopes
5- Poemas, de Jorge Barbosa
(em resumo, os grandes clássicos da Claridade)
Dados Biobibliográficos:
Vasco Martins nasceu em
Portugal em 1956. Aos 9 anos, junta-se à família paterna, na ilha de S.Vicente,
Cabo-Verde.
Escreveu dois romances,
“A Verdadeira Dimensão”,
e “Tempos da Moral moral”,
dois livros de poemas“Universo da
Ilha”, e “Navegam os
Olhares com o Voo do Pássaro”, e um livro de contos, “S de
Sonhos”
É também músico, sendo hoje
um dos mais relevantes da música caboverdiana (sobre esta sua faceta, veja-se a
apresentação de Vasco Martins na Entrevista concedida a Ciberkiosk).
1.
Penso que o bilinguismo
Na língua falada há um uso
popular e generalizado do crioulo e um uso mais selectivo do português. A
linguagem escrita processa-se quase integralmente em português, reservando-se a
utilização do crioulo para alguma criação literária.
Dificilmente o crioulo poderá
tornar-se língua literária dominante
E por várias outras razões
das quais poderei destacar duas: a natural negação do escritor ao confinamento
físico do crioulo quando o uso do português lhe permite virtualmente chegar a
duzentos milhos de seres falantes da mesma língua; e ainda as prevalecentes
dificuldades de escrita e leitura do crioulo, sobretudo o de Santiago, a maior
ilha do arquipélago.
Eu utilizo o português porque
ele constitui a minha matriz cultural. Efectivamente toda a minha cultura
literária, e não só, ancora-se no português, que adquiri no berço e ao longo de
todos os meus aprendizados. A minha alma cria em português e coerentemente essa
criação só pode exteriorizar-se em idêntica língua.
2.
Considero-me um pouco como uma discípula da Claridade, cujos nomes mais
proeminentes cheguei a ter como professores. O legado cultural da Claridade
constitui para mim uma fonte permanente de conhecimentos, de enriquecimento
espiritual e de deleite.
Incontornavelmente o
movimento Claridoso constitui o momento decisivo de tomada de consciência da
identidade caboverdiana que inclusivamente ajudou a formar e a fixar ao
revela-la de forma extremamente disânima.
Penso que com a independência
política, que teve os seus precursores também em obras de pós-claridosos como
"o povo das ilhas quer um poema diferente para o povo das ilhas" de
Ovídio Martins e "consciencialização na literatura caboverdiana" de
Onésimo Silveira, dizia, com a independência se consolidou uma ruptura cultural
face ao movimento claridoso de alcance inestimável.
Essa ruptura tem como
paradigmas obras como "O Eleito do Sol" de Arménia Vieira ou "O
Meu Poeta" de Germano Almeida, sendo igualmente de realçar a emergência de
vozes de mulheres no panorama literário caboverdiano posto que a Claridade não
registou qualquer presença feminina.
Penso contudo que o alcance
de tal ruptura, face à verificada com a Claridade só poderá validamente ser
aferida com um maior decurso de tempo, pelo que não me sinto habilitada a
valorá-la em termos comparativos.
3.
Tendo em atenção o reduzido das nossas dimensões, seja em termos físicos, seja
em termos de população seja mesmo em termos de recursos, vivemos um período de
excepcional pujança editorial.
Efectivamente nos últimos
anos vem-se assistindo a uma grande actividade editorial, tendo sido lançadas
diversas obras e estando várias outras à espera de edição e/ou de
financiamento.
Sem dúvidas que a separação
do trigo e do joio só se fará com o incontornável decurso do tempo, mas o
número de títulos dados à estampa é impressivo.
Dentro da relativa escassez
dos recursos de que dispõe, o Estado, em sentido amplo, tem dado algum apoio à
actividade editorial.
funcionamento da critica é
extremamente claudicante entre nós que bem se compreende se tivermos em atenção
a idiossincrasia do homem caboverdiano e sobretudo o papel inibidor que o
reduzido das nossas dimensões físicas tem sobre o potencial crítico.
Falece por completo uma
política de divulgação do livro sendo este talvez o aspecto mais preocupante do
actual panorama literário caboverdiano.
É que se tivermos em conta
que Cabo Verde ainda tem um índice razoável de analfabetismo entre a sua
população, algum analfabetismo funcional e fracos hábitos de leitura, a
ausência de uma política global e concertada de divulgação do livro
repercute-se de forma extremamente negativa no panorama literário.
4.
Deixando de lado qualquer polémica (importante) sobre os fins da literatura e
se a literatura deve ser um fim em si, penso que
Seja de identidade nacional
do período claridoso, seja de independência nacional no período pós-claridade,
seja ainda dos direitos e liberdades do cidadão com a abertura democrática,
apanágio da actualidade, num processo não excludente, antes de enriquecimento
contínuo.
Sobretudo os escritores têm
ajudado a desvendar o inconsciente colectivo, a fixar a memória colectiva e a
própria história do povo caboverdiano permitindo assim a paulatina formação de
uma consciência histórica, referencial de base para qualquer povo e qualquer
época.
"O Escravo" de Evaristo d’Almeida
"Chiquinho" de Baltasar Lopes
"Flagelos do Vento Leste" de Manuel Lopes
"Arquipélago" de Jorge Barbosa
"O enterro do Sr. Napumoceno da Silva Araújo" de Germano Almeida
Alguns dados biobibliográficos de VERA DUARTE:
1. nome: Vera Valentina Benrós de Melo
2. data e local de nascimento: 2 de Outubro de 1954 na
cidade do Mindelo, ilha de
3. local de residência actual: cidade da
4. obras publicadas: Amanhã Amadrugada, livro de poemas
publicado em Lisboa em 1993
5. principais publicações literárias com colaboração: Suplemento Cultural do
Jornal Voz di Povo, Revistas Ponto e Vírgula, Raízes, Mudjer, Pré-Textos,
Fragmentos, Jornal Cultural Artiletra e algumas revistas no exterior.
G. T Didial http://www.ciberkiosk.pt/arquivo/ciberkiosk6/espectaculos/didial.htm
Clara Andermatt apresentou, no
Centro Cultural do Mindelo a coreografia Uma História da Dúvida, após ter dado
ao público desta cidade uma protoversão da obra, alguns meses antes ("uma
amostra pública informal", no dizer dela). Trata-se dum trabalho na esteira
do que a coreógrafa portuguesa vem fazendo do seu interesse por Cabo Verde,
suas gentes, sua cultura, e que já levou à produção, nomeadamente de Dançar
Cabo Verde (com Paulo Ribeiro) (1994) e de Anomalias Magnéticas (1995), e a uma
acção de formação na área da dança no nosso país estendida ao campo da música,
do video/cinema e guarda-roupa.
Vi Dançar Cabo Verde numa
transmissão feita pela televisão cabo-verdiana em 1997 e fiquei deslumbrado.
Uma História da Dúvida é um bailado diferente, mas seguramente mais ambicioso,
o que parece normal, já que, ao que se entende, indica uma evidente
determinação da artista de se ultrapassar, de fazer progredir a sua linguagem
coreográfica.
Tem-se defendido a ideia de que
a criação contemporânea em vários domínios - pintura, escultura, literatura,
cinema, incluindo jazz e mesmo teatro - estagna desde há algum tempo, já que
não tem geralmente aparecido (talvez há uns 30 anos) nenhuma grande linha de
verdadeira invenção, enquanto, durante o mesmo período, a dança tem estado,
pelo contrário, em plena renovação, tem mostrado um espantoso esforço de
constante evolução com criações excepcionais. Não será exagero (o futuro
di-lo-à certamente melhor do que eu) contar Andermatt entre essa plêiade de
artistas que desenvolvem em maior ou menor grau essa actividade inovadora e em
que, curiosamente, o número de mulheres é significativo: desde a veterana, a
genial Martha Graham, até às novas gerações, podia-se citar mais duma dúzia
delas, mas limito-me a lembrar apenas alguns nomes - as americanas Lucinda
Childs, Trisha Brown, Carolyn Carlson, Jermifer Müller, a alemã Pina Bausch, as
belgas Ana Teresa de Keersmaeker, Michèle De Mey, Nicole Mossoux, as francesas
Régine Chopinot e Karina Suporta. No caso de Cabo Verde, há
um nome a reter, Ivete Moreno, já que, graças a ela, a nossa dança, que terá
menos de 20 anos, vai chegando à maturidade.
Uma História da Dúvida pareceu-me um espectáculo com
5 momentos de grande beleza, de manifesto equilíbrio e darei possivelmente a
impressão de estar a ser provocador dizendo que bastaria a obra contar apenas
com estes 5 momentos. Porquê? Porque há fragmentos espúrios que parecem
excrescências, aditamentos ou pausas desnecessários. Assim, pode-se considerar
que este espectáculo põe a famigerada questão de saber quando uma obra deve
terminar. Naturalmente, dirão, uma obra artística termina, quando o seu autor
tal decide. Não é tão simples como isso ou, melhor, a resposta não é tão
straightforward como isso.
Este bailado revela uma concepção do espectáculo como
uma espécie de polifonia, mas dir-se-ia que a complexidade é vista como um
cesto de regularidades destroçadas e que se assiste, ao fim e ao cabo, a uma
partitura de grande fôlego que claudica pelo meio. E, se se quiser citar
exemplos de outras disciplinas, lembrar-se-ão as várias versões mais ou menos
longas, entre outros aspectos, que Pierre Boulez fez da sua obra Pli selon Pli,
inspirada em Mallarmé, o manuscrito do extenso poema Waste Land, de T. S.
Eliot, que Ezra Pound, considerado il miglior fabbro (o melhor artesão) por
Eliot, reduz consideravelmente, versão que o interessado aceita e publica como
definitiva. Pensava nisso há meses, depois de ler A Família Trago, romance do
nosso compatriota Germano de Almeida. Há nele páginas a mais; e, designadamente,
o livro que, de resto, tem coisas admiráveis, termina várias páginas antes de o
escritor se ter dado conta disso, antes de ter decidido acabá-lo.
Goethe dizia a Eckermann que há criadores que têm
vocação para longas obras e outros cuja vocação é para obras curtas ou
relativamente breves. E não reconhecer isso é correr o risco de remar contra os
seus próprios dons e fracassar. Tal distinção não significa hierarquia ou
critério de valor: a excelência não se mede pelas dimensões da obra criada. (Neste
contexto, é bom notar que Camus, por exemplo, é um autor geralmente de curtas
obras primas, enquanto que Thomas Mann escreveu sobretudo extensas obras;
Maurice Béjart é um coréografo de excelentes obras no geral de longa duração,
enquanto Merce Cunningham privilegia bailados muito menos longos ou amiúde de
média duração, mas de comparável excelência.)
Ao fazer a objecção, acima mencionada, à Clara
Andermatt, ela reconheceu prontamente que o espectáculo poderia ser mais curto
por razões de equilíbrio e que um amigo íntimo já chamou a sua atenção para o
facto de o seu talento parecer exprimir-se melhor em trabalhos de curta e média
duração do que nos de longa duração.
Uma História da Dúvida é precedida por um filme do
cineasta Ruy Otero, cuja função de prefácio não entendi muito bem e é tão
barulhento como a própria obra coreográfica. Porque é verdade: esta obra de
Andermatt é ruidosa e não se percebe a razão de tanto ruído. Chega-se a evocar
Jerome Robbins que, nos anos 60-70, fez bailados, magníficos, sem companhamento
sonoro algum. Robbins, decerto mais conhecido do grande público como coreógrafo
do filme West Side Story (de Robert Wise, música de Leonard Bemstein e Stephen
Sondheim, 1961), terá provavelmente marcado o ballet com estas experiências.
Ocorre-me, neste contexto, fazer uma pergunta de cuja
pertinência não estou seguro: a omnipresença do gesto (vidé mais abaixo) não
torna ainda mais perceptível esse carácter ruidoso do espectáculo?
E aqui cabe sublinhar quanto surpreende a composição
musical utilizada, que lembra um pouco as pesquisas efectuadas há anos pelo
grupo de Darmstadt, que, pode-se afirmá-lo, dos três parâmetros essenciais da
música - ritmo, melodia, harmonia -, manifestamente dava a sua preferência a um
ou outro, uma preferência, que levava à frequente exclusão dos restantes e a
uma certa dissonância. Num encontro com o público em Bruxelas em 1991, ouvi o
compositor Helmut Lachemann, que seguiu essa escola de Darmstadt, dizer que não
pretendia fazer obra estética, que a beleza na música não era um objectivo seu.
(Pelo que se sabe da sua última obra, a ópera A Menina dos Fósforos,
apresentada em Hamburgo em 1997, ele deve ter mudado recentemente de opinião.)
Algo de parecido se lê na declaração feita por João Lucas, o compositor, que
concebeu a música do espectáculo, cuja direcção também assegurou, ao jornal
lisboeta Público (agosto de 1998): "o objectivo foi, a partir de material
de origem popular, conduzir o processo de forma a criar objectos sonoros em que
a coisa mais importante não fosse a beleza da música, mas antes a conjugação
tímbrica de vários instrumentos». Curiosa afirmação, que explicará, talvez em
parte, a agressão auditiva, que a composição não raramente representou, e que,
quanto a mim, pediu apaziguamento que, felizmente, chegou por fim com um
trecho, de propósito e natureza diferentes, de bom equilíbrio (os três
parâmetros citados - harmonia, ritmo, melodia - aí estão em proporções
adequadas, dir-se-ia), I am a professional, do jovem compositor cabo-verdiano
Orlando Pantera.
Do elenco da obra de Andermatt fazem parte 8
bailarinos (um espanhol e sete bailarinos caboverdianos, "recrutados após
exaustiva selecção na Praia e no Mindelo, segundo critérios aliados à
personalidade, fisicalidade, energia e musicalidade"), além de 7 músicos
também cabo-verdianos (principalmente tocadores de violino, violão, viola,
cavaquinho, tambores). Dizem ou gritam, ao longo da sua performance, enquadrada
por um cenário de 3 andares (uma parede de metal e um cais de madeira de valor
emblemático, da autoria do arquitecto Carlos Gomes) um texto elaborado a partir
de respostas dadas pela população a quatro questões que eles puseram: "O
que é o amor? O que é a dúvida? O que é o futuro? O mundo acabará amanhã?
O cais tem um valor emblemático, anotei. Na verdade,
diz Clara Andermatt, que tem escrito vários textos: "Isto não é um
espectáculo. É um processo que constrói encontros, chegadas e partidas".
Segundo todas as evidências, ela quer que se entenda o cenário nessa
perspectiva.
Os críticos que escreveram sobre Uma História da
Dúvida ressaltaram o relativo pouco uso da dança nesta peça, sobretudo para uma
coreógrafa que,
Falei atrás de 8 bailarinos. Que dançam, como dei a
entender, relativamente pouco. No entanto, a companhia tem bailarinos de
qualidade: há um dançarino e um tocador de cavaquinho, que atravessam a cena
'equatorialmente', numa espécie de reinvenção, sublime, do pas de deux; num
trecho balético magistral dançarinos descem da estrutura de madeira e põem-se a
dançar sobre o estrado; há uma estilização da morna com os dançarinos e os
tocadores evoluindo sobre a cena, um momento a um tempo barroco (um barroco
dir-se-ia felliniano) e burlesco, dum lirismo incontestável, uma estilização da
morna que passará indubitavelmente à história, assim como a estilização, penso,
do funaná realizada por António Tavares, num outro espectáculo, Fou-Naná, visto
também aqui no Mindelo e de que falarei mais adiante.
Há, entre esses intérpretes de talento, sobretudo um
dançarino, cujo andar sobre a cena é já balético. Isto levou-me subitamente a
uma recordação que me ficou de Rudolf Nureyev. Antes devo confessar uma
obsessão: Quando oiço dizer que um artista, um desportista, enfim, que alguém é
o melhor do mundo na respectiva disciplina, embora não ignore, naturalmente,
quanto de subjectivo possa impregnar tais afirmações, procuro observar o
elogiado em acção, para, entre outras razões, ir tendo uma ideia dos
ponderáveis citérios consensuais da excelência. (Daí o meu interesse pelos
campeonatos do mundo de atletismo, os campeonatos do mundo de futebol, os jogos
olímpicos, além dos modelos que me escolhi em arte e literatura. E não se
espante o leitor com esta aparentemente insólita intrusão - tudo, está em tudo,
como diria a sábia voz.) Nos anos 70, Nureyev era tido por muitos especialistas
como o maior dançarino vivo. E eu, que tenho passado grande parte da minha vida
a ver bailados, esperava ansiosamente a oportunidade de assistir a um
espectáculo com ele. Essa oportunidade tive-a
este andar é já balético, um movimento balético de
grande classe; não surpreende que seja o melhor dançarino do momento". O
espectáculo, que se seguiu, não fez senão confirmar esse singular sentimento.
Clara Andermatt tem estado em contacto com a
realidade caboverdeana desde 1994. Fez cá workshops, trabalhando com dançarinos
e músicos. Uma compatriota sua, a coreógrafa Conceição Nunes, tem realizado
algo de semelhante. E, no ano passado, falei duma obra, Da Maçã de Adão às
Virilhas, que ela concebeu a partir da sua experiência da cultura do
arquipélago e foi apresentada durante o Festival Mindelact 98 (Artiletra 28:
XIX-XX, 1998). Estas duas artistas vão deixando rastos na paisagem balética, em
particular, e, suponho, cultural, em geral, destas terras. Chegam, cooperam e
partem, regressando algum tempo depois. Com projectos, ideias e obras acabadas,
por vezes, propostas de novas trocas. Um cabo-verdiano, António Tavares,
residente em Portugal, tem tido um itinerário análogo. Vejamos como.
António Tavares inicia-se na dança,
Da nossa conversa, retive com peculiar interesse a
sua reflexão sobre como, na ausência de crítica informada do que ia concebendo
no país (para todos o que se fazia era bom), sentiu a necessidade de
interlocutores para avaliarem e discutirem com algum proveito profissional para
ele o seu trabalho. Apraz ouvir isto da boca dum artista cabo-verdiano, já que
a ausência de crítica abalizada é das carências cruciais destas ilhas e que,
nos variados domínios da criação, raros são os que se apercebem disso, havendo,
em verdade, muita miopia, crónica farsa do elogio mútuo e guerra à opinião
desfavorável.
A peça Fou-Naná, que apresentou no Mindelo, trazia um
elenco de 4 intérpretes (um português, dois caboverdeanos, uma moçambicana),
além dele próprio, todos com uma prestação relevante. Notei principalmente a
graça e técnica apurada de Célia Alturas, a presença feminina na Companhia, a
moçambicana, docente também ela. "A peça é predominantemente povoada por
homens, isolando a única figura feminina", escreve Tavares, que acrescenta
que "Fou-Naná é uma expressão recriada por nós que significa:
Mulher-ilhéu, norte da rosa dos ventos; Mulher da bicha da água (fila que se
forma para a aquisição de água), rabidante (vendedeira ambulante) da vida,
Virgem Louca. Essa mulherficção que nos fala das memórias que dançam na solidão
das ilhas". Com esta obra pretende homenagear o escritor António Aurélio
Gonçalves, porque "dedicou os seus escritos às mulheres e ao quotidiano
cabo-verdeano - ponto comum e fio condutor em todos os meus trabalhos".
Pode-se compreender esta posição do artista, mas o que não se compreende muito
bem é o emprego, como prólogo, da voz de Aurélio Gonçalves, dizendo algo que
nada tem a ver com o espectáculo. Ou, pelo menos, não compreendi.
Voltando a Célia Alturas: ela destaca-se
especialmente num belo solo, que fascina pela harmonia coreográfica, apesar de
certas exuberâncias e arrojos por vezes de gosto algo discutível. A forma como
António Tavares articula, ao longo de todo o palco, os bailarinos, incluindo
ele próprio, releva de um "geometrismo", ora luminoso ou linear, ora
um tanto obscuro ou barroco, mas, no geral, esteticamente convincente, com
combinações de movimentos e gestos frequentemente atravessados por uma força e
lirismo duma complexidade, que lembra a tradição das danças folclóricas do
nosso continente, que possui certamente das danças mais belas, barrocas e
complexas do mundo.
Com excelente música de Artur Fernandes, a cuja
composição, ouvida em Nocturno, uma peça apresentada no Mindelact 98, tive
ocasião de me referir, e brilhante participação de músicos cabo-verdianos
convidados - Julinho da Concertina e Nenê Ferrinho - a peça atinge o seu melhor
momento com a já mencionada estilização do funaná. Um grande e inesquecível
momento de dança!
A cena, praticamente nua ou quase isenta de décor,
lavrada episodicamente por frágeis evocaçoes materiais ou por objectos
particulares, casa-se bem com a sobriedade do guarda-roupa e a geral linha
narrativa das partituras musicais e coreográficas.
Em resumo, o que se viu aponta para uma forte
linguagem pessoal que se afirma. Isso também creio ter descortinado em excertos
que pude seguir, na televisão, da sua criação de maior fôlego, ao que parece,
até hoje, Blimundo, que, apresentada na EXPO 88, não se pode trazer a Cabo
Verde, porque, diz Tavares, não se arranja financiamento para fazer deslocar
todo o pessoal e o material envolvidos no espéctáculo.
Assim, as relações entre cabo-verdeanos e portugueses
na área da dança, através das vias acabadas de referir, e outras menos
directas, como sejam encontros de dança em Portugal ou trocas informais, em que
têm participado grupos nossos, têm sido estéticamente eficazes, o que é
evidente até em trabalhos de jovens coreógrafos, nomeadamente dos grupos
Bibinha Cabral (Praia), Raíz de Polon (Praia) e Estrelas de Cabo Verde
(Mindelo). Tudo isso poderá pedir dentro de poucos anos estudo detalhado.
Entretanto, é curioso verificar que, enquanto, no
bailado, o intercâmbio Portugal/Cabo Verde tem produzido obras notáveis (e.g.,
Dançar Cabo Verde, Uma História da Dúvida, Blimundo), no cinema essa
colaboração só tem dado até agora filmes sem grande valor estético. São longas
metragens de ficção, cujo único mérito assinalável é serem documentos
interessantes sobre um ou outro aspecto da vida do arquipélago. Mas essa é
outra história, uma história de relações perigosas, de que talvez me ocuparei
oportunamente.
De notar, para terminar, que os coreógrafos, de que
estivemos a falar (Clara Andermatt, Conceição Nunes, António Tavares), parecem
ter em comum um marcado humor, um certo pendor para a escrita, apreciam o
intercâmbio, a interdisciplinaridade, ou seja a mistura dos géneros (e.g., a
música, o video, a dança, o teatro).
Espace insulaire et diversité dans la littérature
capverdienne
Version complète d'une communication présentée dans le cadre
des « semaines sociologiques » de l'Université Lusofona de Lisbonne
(mars 1994)
Avner Camus, PEREZ, «L'Univers de l'île et les îles de
l'Univers - Espace et Insularité dans la littérature capverdienne ».
Où donc, mais où est-il, le lieu - je le porte en mon coeur -[...]
...Combien n'y eut-il pas déjà de ces lieux des espaces qui
furent au dedans de moi! Bien des vents sont comme mon fils.
Rainer Maria RILKE (« les élégies de Duino » et
« les sonnets à Orphée », in « Poésie »2, Seuil, 1972)
Un homme au visage buriné.
Une impression d'urgence dans une démarche lente. La grève d'une plage. La trace d'un pas. Des pieds nus sur le sable humide. A sa droite, une jetée rocailleuse. Au loin, horizon bleu-verdâtre. A gauche,
Cette scène aurait pu se
dérouler sur n'importe quelle plage des neuf îles habitées de l'Archipel du
Cap-Vert: Baia das Gatas, São Francisco, Tarrafal, Quebra Canela, Mosteiros...
Ce savoir de l'île, le poète, l'écrivain, le « possède » lui aussi. Il en est également « possédé». Ce savoir-appartenance dont il est l'un
des dépositaires devient un savoir obsédant. Il lui appartient et le
hante.
L'espace de l'île qui est son
habitation et qui l'habite !...
La conscience d'une spécificité
de l'espace insulaire capverdien est présente dès les prémisses d'une matière
littéraire orale ou écrite dans l'Archipel. Cette idée, au cours des
différentes phases d'affirmation de cette littérature, est devenue un fait de
parole, l'expression d'un langage, la marque d'une écriture, constitutifs du
monde de la création dans les îles atlantiques. Comment cette reconnaissance de l'univers circulaire de l'île - univers
enfermant, qui appelle le large, l'évasion,
l'océan porteur, la fuite de ces lambeaux de terre ferme -
s'est-il transmué en désir d'ancrage ? Quelle est l'énigme de ce besoin
d'enracinement des « pieds » ou des mains obstinées qui souhaitent s'accrocher
du bout des ongles à
« Atirar-me-ei ao chão e
prenderei nas mãos convulsas ervas e pedras de sangue »
Cette déclaration du besoin
d'existence sur ces roches nues, désertes, sèches, constitue un objet
d'interrogation, car, c'est alors même que les lignes de l'horizon maritime, enveloppant
l'île, attirent, aimantent, qu'elles sont repoussées et qu'elles inquiètent. Et
c'est cette inquiétude qui renvoie à la terre-nourrice. A l'univers de l'île.
En un mot le poète, l'écrivain est, si l'on peut dire, hanté par la question:
comment faire d'un bout d'espace, une île. De l'île, un archipel. De l'archipel
un appel à l'horizon du monde. De ce monde où l'on s'exile, une invite au
retour... dans l'île... comme un écho nécessaire, un nouvel appel pressant... La question serait: comment dessiner dans ce mouvement
quelque peu circulaire, une identité ouverte aux vents porteurs ? De quelle
manière constituer un monde « archipélique » à l'échelle de la planète, qui se
définirait comme dans la poésie de l'antillais St John Perse, par « une dialectique
mouvement-stasis ». Telle serait, à notre sens, le
caractère essentiel de l'expression littéraire capverdienne. C'est autour de
cette nouvelle problématisation centrée sur l'espace de l'insularité, ou plutôt
comme le dit le poète mauricien J.E.Maunick, sur le caractère « insulé» de la
production culturelle capverdienne, que nous insisterons. Cela pour essayer,
vingt ans après les indépendances, à la suite de nombreuses tentatives
d'identification au modèle issu des années trente (« Claridade », mouvement
identitaire marquant de la littérature capverdienne) ou son rejet dans les
années soixante - parallèlement aux mouvements de la négritude de l'espace
francophone ( mouvement « anti-évasion ») -, de tenter une nouvelle approche
qui nous semble au centre de l'ouverture moderne de cette littérature. Et ainsi
de relire les textes: poésie ou prose, comprenant également les essais. Il nous
faudra réappréhender cet ensemble composite à la lumière de cette grille qui
voudrait tracer une approche à la fois topographique et ontologique de cette
littérature. Cela nous mènerait à cerner ce que l'on pourrait appeler une
spécificité, une posture particulière de la littérature insulaire et qui serait
autre chose qu'une identité fermée, ou une simple miscégénation, un banal
syncrétisme, fût-il « luso-tropical», mais bien au contraire une sorte
d'universel-particulier qui a fait que du plus profond isolement de l'archipel
atlantique, des voix singulières ont pu se « synchroniser » (comme le dit le
personnage Chiquinho du roman homonyme de Baltasar Lopes) avec le reste de
l'univers.
En effet, l'univers de l'île
dessiné par l'écrivain est souvent caractérisé par une perpétuelle inquiétude
quant à sa viabilité, à sa perdurabilité, en cela il se métamorphose en « être
au monde ». Il appelle, intègre, imbrique les éléments universels des contrées
pays ou continents proches ou lointains: Brésil, Afrique, mais aussi Caraïbes,
et enfin Europe: France, et bien sûr, Portugal. Les tenants de la «
capverdianité » entretenant avec ce dernier une relation qui peut, à l'instar
des autres, se définir par une sorte d'insularité partagée.
C'est ce qui a pu permettre
d'instaurer ce rapport dialectique du Même et de l'Autre.
Rapport problématique parfois,
et qui a contribué à ce que, une fois de plus Maunick a tenté de saisir à
travers ce qu'il nomme cet « être insulé »:
« Je dis « insulé » parce
que je pense que c 'est autant le lieu que l'être y étant né qui définissent
l'insularité... (ce terme) dit mieux la métamorphose de l'être en île. On né insulaire on devient insulé»
(Edouard Maunick, «
entretien », Le Courrier de l'Unesco, mars 1994) .
C'est cette accroche
insulaire qui va d'un « état d'îlien » à une condition « insulée », que nous
tenterons d'approcher. Ce passage, cette tentative sans cesse reprise de bâtir
un pont entre un état et une condition renouvelée, nous semble décrire ce qui
s'est tramé dans ses moments forts comme tout au long du cheminement de
l'expression littéraire dans l'archipel atlantique. L'espace de l'île tant de
fois chanté, décrit minutieusement, ménagé par l'artiste, est là pour rappeler
ce souci « d'habitation » d'une terre brisée, déchirée, craquelée. Le poète, l'écrivain enjoint « d'habiter sa demeure »,
avant de dire de fabriquer le devenir.
Cette préoccupation de faire un
« lieu » de cet espace, de l'occuper c'est-à-dire d'y faire émerger un sens
autant que des existences, est présente dès l'éclosion de cette littérature.
Nous pourrions redire ici la
formule de Heidegger: « c'est seulement quand nous pouvons habiter que nous
pouvons construire » et il ajoute: « Le rapport de l 'homme à des lieux et, par
des lieux, à des espaces réside dans l'habitation. La relation de l'homme et de
l'espace n 'est rien d 'autre que l 'habitation pensée dans son être » («Bâtir,
habiter, penser » in « Essais et conférences », 1954, Paris, 1958).
Mais avant d'ouvrir ces pistes,
un retour rapide aux grands moments de cette littérature s'impose. Nous
tenterons de lire ces étapes sous le prisme de la topique que nous privilégions:
à savoir, l'île, son espace, l'univers insulaire, le désir d'y inscrire sa
«demeure ».
I - MATRICES GÉOPOÉTIQUES ET GÉOPOLITIQUES DE
La vocation atlantique du Cap-Vert
s'est révélée dès la découverte de l'Archipel en 1460/62. Îles-relais pour le
commerce des marchandises comme d'esclaves, elles constituèrent très tôt un
carrefour important sur les routes atlantiques entre l'Afrique, l'Europe et le
Nouveau Monde. Point de croisement où se sont joints groupes de population,
cultures, langues, religions aux profils les plus variés. Cette configuration
particulière a régulièrement retenu l'attention des observateurs qui ont vu
dans le processus de formation du pays un ensemble qualifié d'inédit et
constituant un véritable « laboratoire humain original capverdien ». La
symbiose de peuples mêlés qui produira une langue, une culture « sui
generis » contribuera à cet effort permanent de viabilité des éléments les
plus divers. A cet effort se joindra une nouvelle énergie requise pour
contrecarrer la rudesse de l'environnement naturel: roche volcanique dominante,
relief contrasté dans chaque île et d'une île à l'autre, désert sahélien et
donc sécheresse, climat insulaire macronésien. Ménager un espace salubre et
équilibré dans lequel puissent se déployer une vie sereine et une culture
propre à intégrer la diversité sur ces bouts de terre émergés, devient le défi
de chacun. Le sociologue et ethnologue brésilien Gilberto Freyre (« ce messie
qui nous a déçus» a dit Baltasar Lopes) rapporte cette boutade d'un ami:
"ceci est moins un archipel qu'un grand problème».
Si la terre ingrate laisse tout de même l'espoir d'être
domptée, la mer, elle, inquiète et fait traverser dans les imaginaires son lot
de mystères et de menaces.
Dès les premières expéditions de découverte, navires et
équipages anxieux abordent ces nouvelles rotondités que sont les îles, avec
appréhension. Les mythes apparaissent qui
viennent soutenir la conviction qu'il existait des monstres marins entourant
ces circonférences telluriques. Mais le désir d'atteindre le « pays de l'or »
était plus fort.
La littérature s'est depuis
longtemps emparée de ces mythes, désignant ces lieux, les apprivoisant en leur
donnant une forme rassurante rendant ainsi une valeur positive aux ondes
Atlantides secrètes. Homère le premier donne un nom à des îles mythiques de
l'Occident. Il place ses « Makaron nesoî », près de l'océan vers le Couchant.
Ptolémée appelle ce groupe d'îles: « îles des
Bienheureux ». La littérature a eu pour fonction de donner une origine humaine
ou extra humaine au mystère de ces lambeaux de terre laissés comme perdus dans
l'océan. Lorsque le premier pied les a foulées, elles devaient déjà relever
d'une existence antérieure. Telle fut la réappropriation initiale des premiers
poètes et prosateurs capverdiens.
Si l'on fixe à la fin du
XIXème siècle le début de cette littérature, l'élaboration des tous premiers
textes poétiques d'expression portugaise ou créole, sera précisément réalisée
autour de la recherche comme de l'affirmation d'une origine perdue à découvrir.
Elle puisera largement dans la sphère symbolique des mythes. Ce ressourcement
par les mythes a eu des échos jusqu'à la période moderne, et a même traversé le
« mouvement le plus cohérent » de la littérature capverdienne: « Claridade »,
des années 30 à 50/60, qui transformera l'origine mythique en recherche de
l'origine historique.
à primeira ilha
nem homens nus
nem mulheres nuas
espreitando
inocentes e medrosos
detras da vegetação...
Nessa hora
então
Nessa hora
inicial
começou a
cumprir-se
este destino de todos nos »
Caderno de um Ilheu, 1956
(Quand le découvreur est arrivé
sur la première île/ Pas même un homme nu/ Pas même une femme nue/ guettant/
innocents et craintifs/ derrière la végétation/ A cette heure alors/A cette
heure initiale/ commença à s'accomplir/ Notre destin à tous)
Cependant, pendant la période
dite « pré-Claridosa », les poètes et prosateurs n'ont pas hésité, eux, a
redonné une magnificence aux îles désolées qu'ils contemplaient, en utilisant
les mythes les plus reculés dans le temps. Ils sont allés chercher leur source
d'inspiration bien au-delà, en amont des origines du peuplement effectif, issu
de l'épopée portugaise des découvertes du XVème siècle. Recherchant une matrice
extérieure à l'aventure maritime européenne, - et qui pouvait en quelque sorte
constituer une « matrie originelle » permettant d'occuper l'espace imaginaire
et symbolique de l'île -, Ils en ont fait un lieu où le Père de la
« patrie » (en l'occurrence portugais), se verrait non pas exclu, mais
lui-même engagé dans une « indifférence » originelle. Ces auteurs ont
dans le même temps, loué la patrie portugaise et déclaré leur amour à la
patrie-matrie-terre capverdienne: les vers de Pedro Cardoso et ceux de José
Lopes (cités par Manuel Ferreira, « Préface a l'édition fac-similé de «
Claridade », 1986) sont là pour en témoigner:
« Nasci na ilha de
Fogo ] Que me honra a mais subida
Sou pois caboverdeano... ] Ser
neto de Portugal »
Se filho de Cabo Verde... ]
(Je suis né dans l'île de Fogo/
Je suis bien capverdien/ Si je suis fils du Cap-Vert/ Quel honneur supplémentaire
d'accéder à/ L'état de petit-fils du Portugal)
Dans le paradis premier,
nourrice des formes d'existence de l'île, ce retour à la genèse anté-découverte
peut s'entendre comme une recherche du « troisième genre » avant toute forme,
et qui donnera naissance aux formes différenciées futures de l'espace
insulaire. Une sorte de « Khorâ » - réceptacle-nourrice -, la « Khorâ
» de Platon, qu'il définit (difficilement) dans le texte du « Timée ». Texte
qui développe précisément le mythe de l'Atlantide repris par ces mêmes auteurs
capverdiens pré-claridosos.
Ce courant littéraire, repéré et
analysé de brillante façon, par le regretté Manuel Ferreira (à qui il faut ici
rendre hommage), a été désigné par ce dernier de: courant « hesperitain de la
littérature capverdienne ». Trois titres et deux auteurs font l'objet de
l'étude de Manuel Ferreira:
« Hesperitanas » « Jardim das
Hesperides » de José Lopes et « Hesperidas » de Pedro Cardoso écrivain et poète
de langue créole originaire de l'île de Fogo. Ferreira cite ces vers extraits
de ces oeuvres. José Lopes:
«Terra que os Atlantes
ocupavam nos seculos passados...
« antigo e imenso
continente Hesperio
De que o Atlântico é
cemitério...
« Tal foi a Atlântida...
Hoje o seu misterio...
« Das vastas extensões assim
submersas
Então ficaram estas nossas
ilhas...
Chamadas pois ilhas Hesperitanas
« Já, pois vistes, Irmãos
Caboverdeanos
que as nossas lindas e queridas
ilhas
contam a historia dos remotos
anos
Da Atlântida, da qual elas são
filhas.
« Nos pisamos, nos filhos e
habitantes
Talvez a mesma terra que os
Atlantes »
« Terre que les Atlantes/
occupèrent aux siècles passés.../ ancien et immense continent des Hespérides/
Qui possède l'Atlantique pour cimetière.../ Telle fut l'Atlandide.../ Aujourd'hui
son mystère// Des vastes pans ainsi submergés/ restèrent alors ces îles qui
sont les nôtres.../ qu'on appela donc les îles « Hespéritaines »/ Tu
peux constater, Frère Capverdien/ que nos belles et très chères îles/ racontent
l'histoire du temps passé// De l'Atlandide, elles sont les filles./ De cette
même terre certainement que celle des Atlantes.. »
Et Pedro Cardoso:
« Descendeis delas, que, de Hespero filhas tinham no seu jardim as nossas
ilhas ».
« Vous en êtes issues, vous
nos îles, qu'Hespéro a engendrées comme ses filles dans son jardin... »
Manuel Ferreira note que
la désignation « Claridade » s'est faite en partie et presque contre une
proposition de Jaime de Figueiredo, pressenti comme directeur de la nouvelle
revue, car ce dernier avait proposé le titre de « Atlanta » à Baltasar
Lopes qui le rejeta car, semble-t-il, il marquait trop l'identification à la
mythologie Atlantide . Ferreira aurait été surpris de découvrir que l'une des
toutes dernières publications de Baltasar Lopes lui-même, avant sa disparition,
est un recueil de nouvelles intitulées: « Os trabalhos e os dias », allusion ou
référence directe à l'oeuvre d'Hésiode dans laquelle sont décrites « les îles
des Bienheureux, aux bords des tourbillons profonds de l 'océan, héros fortunés,
pour qui le sol fécond porte trois fois l'an une florissante et douce récolte..
».
Eduardo Coelho
(Assistente Convidado de LAEP
Faculdade de Filosofia de Braga)
As Literaturas Africanas de
Língua Portuguesa, já desde o século XIX, indiciam um procedimento estético
demonstrativo de que a essência da arte é sempre uma «vanguarda» não programada
e em que a axiologia tempo/espaço faz da literatura, quer enquanto poíesis quer
enquanto mímesis, um espaço psicológico/mítico, mas também um espaço
público/histórico. Com efeito, quer uma visão mais regionalista ou cosmopolita,
ou noutra dicotomia, uma visão mais nacionalista ou universalista, levou os
escritores africanos a compreenderem que a herança cultural nativa e
alienígena, enquanto fruto de uma determinada mundivivência, não poderia ser
excluída do processo de criação artística.
Assim, se devem considerar as
literaturas africanas mais filhas da consciência de uma cultura do que de uma
raça, sem que isso represente qualquer indício de perda da sua autonomia ou
identidade, tendo até em conta que o ponto de viragem para o seu
desenvolvimento se deve ao contributo dos sucessivos modernismos e realismos,
enquanto movimentos estéticos empenhados na redefinição do Homem na primeira
metade do século XX. Deve notar-se que desde os finais do século passado os
escritores negros norte-americanos, como por exemplo Stephen CRANE (1871-1900),
entre outros, inserido na obra The Black Riders and Other Lines, nos transmitem
imagens acutilantes, dramáticas que a seguir transcrevemos do Inglês,
acompanhada da tradução poética de Herberto Helder (1996)
Corsino António Fortes (Mindelo
- C/V, 1933), licenciado em Direito (Lisboa, 1966), é um dos poetas
caboverdianos, a partir dos finais da década de 60, com maior densidade lírica,
até pelo facto de ter escolhido a estrutura épica, nas obras publicadas, Pão
& Fonema (1974) e Árvore & Tambor (1986). Não se trata de poesia épica
extensa como a que vemos retratada nas epopeias gregas e latina ou do
Renascimento. Ana Mafalda Leite explica a vulgarização da epopeia em miniatura
neste século, citando Frye: «Nos tempos modernos a epopeia em miniatura
tornou-se bastante comum: os poemas de Eliot, de Edith Sitwell, e muitos cantos
de Pound lhe pertencem»(5). Não é necessário sequer citar nomes de escritores estrangeiros,
pois a própria Mensagem de Pessoa com a sua tripartição e o seu sentido épico
se desenvolve a partir de «Brasão» - primeiros passos da Nacionalidade,
passando pelo «Mar Português», - o domínio do Mar até ao significado
profético-messiânico de «O Encoberto». Não pretendemos desenvolver qualquer
análise nessa linha, mas somente relacionar Corsino com a tradição clássica a
quem não faltou o «honesto estudo» com longa experiência misturado, como ao
nosso Humanista do século XVI.
Já na Antiguidade, Catulo, poeta
que Virgílio muito admirou, preferiu o poema épico breve com grande valor
etopeico - o epílio, onde o Veronense proporciona, sobretudo através do símile,
a importância ritual. de certos aspectos da cultura romana bem como da sua
complexidade psicológica passional, no enquadramento da época - em pleno
período de emancipação da mulher romana, da cultura e do homem do seu tempo (
basta para chegar a essa conclusão fazer uma leitura apenas genotextual das
Cartas de S. Paulo, nomeadamente na segunda parte da primeira aos Coríntios,
sobre o matrimónio e virgindade).
Também Corsino cultivou o verso
curto, o versículo (que pode manifestar ab initio uma propensão discursiva para
a eloquência sagrada, mas também de síntese etiológica e cosmogónica, quase
oracular como nas civilizações antigas) e se socorreu de ritmos diversos,
habilmente trabalhados, como na antiguidade os diferentes tipos de estrutura
versificatória, no caso caboverdiano ( o da morna-compasso a 4/4 em geral; a
coladeira-compasso 2/4; o funaná-compasso a 2/4 e a mazurca-compasso a 3/4 ) o
que também denota a miscigenação da música popular, de Cabo Verde de
influências africanas e europeias, com sabor trovadoresco(6). Partindo do
pressuposto de que a música negra é, de facto, a arte do silêncio que pelo seu
aspecto mágico-encantatório e se revela como produto específico de determinado
ambiente psicobiológico, no caso de Cabo Verde para a criação da morna e
expressão da morabeza, é fácil explicar a economia do discurso linguístico-literário
de Corsino. Um dos poemas que podemos apontar como expressão da
morabeza/saudade e fortemente sonorizado, é «Pesadèle na terra de gente ou
Pesadèle em trânsito» dividido em "LODE SQERDE" e "LODE
DREITA", a primeira que termina com o apelo oralizante em crioulo e a
segunda na fantasmagoria do crioulo que na "note de Lixboa" vê no
comboio a cabra «Ta c'mê terra ta c'mê terra ta c'me terra / Ta c'mê terra ta
c'mê terra ta c'me terra» (p. 30 -32), poema em que o ritmo evolui progressiva
e alucinantemente na sugestão dos pregões da rua e do movimento do combóio
abafado no "pouca - terra, pouca -terra ...."
A par de um ritmo / espaço de
amplitude do verso, umas vezes longo, outras curto, Fortes valeu-se de um
vocabulário latinizante, não por mera erudição, mas para com ele estabelecer
imprevisíveis jogos semânticos em conjugação com o crioulo autóctone de forma a
arquetipizar a especificidade do homem crioulo, simbiótico do ponto de vista
genético, social e glossológico. O título da obra, Pão & Fonema, que
Mesquitela Lima descodifica como a Odisseia de um Povo [Cf. Estudo Analítco, p.
69, que se segue aos três cantos] pelo direito à terra e à liberdade, é
sintomático da necessidade de exprimir por esse binómio Pão& Fonema algo
fulcral para a existência do homem caboverdiano, como homo socialis.
No paroxismo do Império Romano,
os romanos limitavam-se a pedir pão e divertimentos gratuitos - panem et
circenses (7), em plena desagregação do Império Português [( do mítico V
Império de Gonçalo Anes (Bandarra), do jesuíta António Vieira, missionário,
diplomata e visionário da Clauis Prophetarum e do intelectualismo pessoano para
quem « Deus quer, o homem sonha, a obra nasce», mas faltou «cumprir-se
Portugal!» (poema «O Infante»)], os caboverdianos reivindicam vigorosamente o
pão e a liberdade - o Pão & Fonema, à medida do que o homem sonha e da obra
que quer que nasça. O mensageiro da consciência nacional foi, sem dúvida,
Abílio Duarte, vindo da Guiné na década de 50, cujas ressonâncias se estenderam
à literatura que evolui da caboverdianidade de Baltasar Lopes, para a assunção
da caboverdianitude, nos finais dessa década, progressivamente de Gabriel
Mariano, a Onésimo Silveira e Ovídio Martins, entre outros.
Se os circenses mantinham
alienados os romanos, vendo o seu império a arruinar-se, o Fonema de Fortes
desalienará os caboverdianos, permitindo-lhe a conquista da identidade
linguística e política, o patriciado. Assim os canta o poeta nas hipálages «voz
solarenga» e «goela olímpica», «vestidos de toga / Falando crioulo / Nas
grandes salas de audiência» (p. 34), da parte IV do poema «Postais do mar
alto». Corsino recupera, deste modo, o sentido original de patrícios (do lat.
patriciu- o que tem direito de cidadania) que, em Roma, tinham assento no Senado
e ao mesmo tempo, como Píndaro, canta as «vitórias da cultura» do seu povo,
mesmo quando já jogou «.... orim nas vigas / dos arranha-céus por construir»
(p. 34). Diríamos até que a tripartição da obra de Fortes é semelhante também à
estruturação das Odes de Píndaro: primeiro a referência as raízes míticas, no
caso do Caboverdiano ao Tchon de Pove Tchon de Pedra- a terra mítica
Herperitana a que o homem umbilicalmente está ligado, depois a odisseia do Mar
& Matrimónio, tal como em Píndaro as glórias ou odisseia do atleta
olímpico, e em terceiro lugar o Pão & Património - o que o caboverdiano
fará «Konde note ftcha ftchode / E palmanhã manchê», isto é, quando amanhecer e
se extinguir a noite colonial, tendo erguido a nação, que renasce, após o
esforço olímpico, aguardado por todos (disso nos dá conta a reiteração verbal
«Aguardam-te» introduz quatro estrofes sucessivas, no final do poema
«Emigrante» (p. 39-41). Na verdade, há um nexo perfeito dos vocábulos
solarenga, olímpica, patrícios e toga, os dois primeiros imprimindo atributos
aristocráticos às gentes caboverdianas, como as gens fundadoras da Roma, no
sentido genesíaco uma vez que as ilhas não estavam habitadas aquando da sua
descoberta, os outros dois reiteram substantivamente essa mesma ideia de recusa
à servitude suportada pela expressividade aliterativa e pleonástica dos versos
«Ouvidos de ilhéu ouviram / a voz». Diríamos até que o Mare Nostrum dos Romanos
dá lugar ao Mar Arquipelágico Caboverdiano, fulcro da relação insular das 10
ilhas.
Estamos, portanto, perante uma
dicotomia conceptual da existência humana, com cerca de 20 séculos de permeio
da história da Humanidade, do ponto de vista psicológico, político e social: a
primeira decadente e a segunda ascendente ou consciencializante. Descrevendo a
luta desmedida do Caboverdiano com a terra vulcânica do seu torrão natal,
coberta pela camada ténue de húmus, recorre, mais uma vez à etimologia: crepe
da terra (p. 17) (do lat. crispu-, latinismo que Camões emprega na descrição do
promontório do Cabo das Tormentas no episódio do Adamastor de « crespos os
cabelos» Os Lusíadas, V, 39) e a pozolana (p. 13) (do lat. Puteolanu, pelo it.
pozzolana - pó de origem vulcânica) Também, neste contexto, os vocábulos
corporizam a oposição das forças telúricas ao homem caboverdiano, tal como em
Camões, o Adamastor personifica a luta do homem com as forças da natureza. A
envolvente imaginação talassórica de Corsino também se concretiza na
metaforização cinética em «celhas de espuma» (p. 13) (do lat. cilia, pl. de
cilium - pálpebra), adensando um certo complexo retiniano da insularidade, do
apelo da Tellus Mater e que, também, como no conflito interior, passional, de
Adamastor, são motivo de sofrimento «e, por mais dobradas mágoas, / Me anda
Thetis cercando destas águas» (Os Lusíadas, V, 59). O Adamastor do caboverdiano
é a terra crespa, pela qual tem um carinho muito grande, é o ciclo do mar e a
"noite colonial", este último que urge passar como um Cabo das
Tormentas e também o dilema de «Corpo, qu'ê nêgo, sa ta bái; Coraçom, qu'ê
fôrro, sa ta fica... - O corpo , que é escravo, vai; o coração, que é livre,
fica» (Epígrafe do romance caboverdiano, publicado integralmente em 1947, de
Baltasar Lopes Chiquinho).
Qual um «gnomo» (p. 33) (do gr.
gnómon - o que interpreta os oráculos), Pitonisa ou qual arúspice interpretando
o voo das aves, o épico ritualiza e interpreta «o sarilho dos corvos na
falésia» e «Os corvos passeiam pelos pátios da ilha» (pp. 23 e 28 - o vocábulo
corvo é recorrente em vários poemas), ( sarilho vem do lat. sericulu-
dobadoura, movimento circular) anunciando o «pão novo» (p. 23) ou então os
passos das crianças que vão «Curva da mão / Que acena / Planta dos pés que
partem» (p. 28), isto «Enquanto soletram / a geografia das serras + caminhos de
ferro d'Europa». Este cinetismo / visualismo acentua-se pela utilização dos
latinismos «volutas de poeira» (p. 23) e da expressiva imagem da «voragem / Dos
calcanhares» (p. 23), ( respectivamente, do lat. uoluta- «ornato espiralado»;
uoragine - «coisa que devora»), referindo-se ao homem em postura marcial na
conquista do pão. Esse mesmo dinamismo ganha o verbo pulsar (do lat. pulsare -
impelir, vibrar) no poema com o título «Do nó de ser ao onús de crescer» (p.
45), em que o próprio título assenta numa espécie de complexo do nó górdio a
sugerir a ideia da necessidade de acção, mas gigantesca, no presente, ainda
numa luta desigual. Observe-se, no entanto que esta ideia já está patente na
terceira parte do Chiquinho de Baltasar Lopes, na página 279, nas ameaças dos
olhos desvairados das mulheres: « - Esta terra precisa que lhe dêm um
jeito...». É, segundo nos parece, já uma nota do anti - evasionismo
protagonizado pelas Matres e que Corsino, acentua no poema «Emigrante»,
dirigindo-se ao homem caboverdiano a quem exorta também a plantar o «polegar
sobre a ilha» (p. 39), acrescentando «Vai E planta / na boca d'Amilcar morto /
Este punhado de agrião / E solver golo a golo / uma fonética de frescura / E
com as vírgulas da rua / com as sílabas de porta em porta / Varrerás antes da noite
/ Os caminhos que vão / até às escolas nocturnas / Que toda a partida é
alfabeto que nasce / todo o regresso é nação que soletra» (p. 40). O imperativo
semântico presente no verbo solver (do lat. soluere - desunir, libertar)
provoca mesmo o efeito de uma atitude marcial mediata, e que até numa pura
mímesis textual nos remete para a ideia do «sol ver», isto é, alcançar a
liberdade, demonstrando que é a semântica a dominar o poema. Tal como o agrião
brota espontaneamente da terra, assim a libertação tem de partir da luta
simbolizada
A pesquisa da identidade, que
passa pela linguagem do quotidiano, é, com efeito, a legitimidade da sua luta.
No momento, talvez seja apenas ele, o épico, a ouvir os sons da terra, mas
incita o ilhéu e a ilhota a ouvirem «noite alta» que «o batuque não para / nas
nossas ancas de donzela» (p. 46) Quer a terra gemente ou germinante, quer as
«ancas de donzela» devem ser compreendidos no âmbito do quadro da sexualidade
cósmica e humana, isto é, renovadora e genesíaca. E em crescendo, novamente, se
referem os tambores, a viola «do exílio» e «No violão do trovador / Um coração
de napalm / Agora povo agora pulso / agora pão agora poema» (p. 46),
reiterando-se a mesma estrofe na primeira estrofe da página seguinte. Agora é
outro o valor mais alto que se levanta: o pulsar, o vibrar numa perspectiva
endógena, intrínseca à emancipação de uma cultura e de um povo direccionados
numa perpectiva exógena do reconhecimento desse estatuto de Povo e Nação livre.
Pão & Fonema documenta ainda
um importante recurso linguístico à expressão jurídica e que se enquadra nessa
reivindicação do direito a patrício de Cabo Verde, uma terra em que «O milho é
datio pro solvendi» (p. 47 e o sublinhado é nosso). O princípio jurídico era
tanto mais expressivo quando sabemos que o milho é, de facto, a base da
alimentação dos Caboverdianos. Daí que o poeta refira o canto «pelo rosto da
terra / o tal litro de sangue / Sem penhor E sem usura» (p. 59) (do lat.,
respectivamente, pignore - objecto para pagamento de uma dívida; usura -
juros), ao deixar de haver lugar para o «dolo» (p. 56) (do gr. dólos - astúcia,
pelo latim dolu- artifício de defraudar), tudo isto numa atitude de fidúcia (p.
15) (do lat. fiducia -confiança), do rosto esperançado sem a presença do timbre
do «selo branco» (p. 47) numa alusão directa à exploração e administração
portuguesa. Aliás outro aspecto significativo da linguagem do poeta é,
primeiramente, o aspecto jurídica, pela referência a «comarca» (p. 7) e também
o aspecto simbólico pela alusão à «testa do mundo» (p. 23), imagem mítica
hesperitana e hiperbólica da paixão telúrica, que neste último poema, pelo
processo da antropomorfização as ilhas são membros, o mundo «o meridiano de
permeio» e o vento é gordo com sabor a fiambre hálito «de pão novo». É neste
meandro de imagens que, no poema «Nova Largada», a comoção do predicador atinge
o clímax no verso interjectivo «oh ídolo de pouca terra» (p. 26), como que
extasiado pela possibilidade de encontrar a mítica Pasárgada dentro da própria
ilha. Daí que se estabeleça um conflito, uma espécie de hipoteca do «litro de
sangue» (p. 26) dos que partem «De coração a bombordo» no dilema do partir e
querer ficar, «Naquela homilia / De terra & sangue / Em transfusão / O
peito já louco de marulho / De coração a bombordo» (p. 27).
Esta imagem épica da odisseia do
caboverdiano, do partir - voltar, extremamente sintética, não fica sob ponto de
vista da sua expressividade aquém da que Camões nos proporciona no
enquadramento da «Partida das Naus», depois da vigília na ermida de Belém, em
que se referem as esposas, as mães, vozes anónimas e as palavras simbólicas do
Velho e na estância 3 do canto V, pela tripla repetição do verbo
"ficar" na partida das naus. A partida das naus é fortemente
referencializada no plano da relação humano / sagrado.
Os versos «... homilia/ De terra
& sangue / Em transfusão» (p. 27) têm o mesmo pendor sacralizador e
messiânico de outros que se encontram ao longo do poema. Nele visionamos o
fonema como anúncio, semelhante ao de Cristo quando afirma « Eu sou o caminho a
verdade e a vida» (Jo 14, 6-7) e só aquele que acredita na transfusão do fruto
da terra e do trabalho do homem encontra esse Caminho, Verdade e Vida e, no
contexto do poema, passa pelo anúncio de que a «mítica Pasárgada» está ali no
meio deles, ou seja dentro da própria ilha. Não se trata em sentido bíblico de
uma teofania dos deuses ancestrais, mas de uma parúsia em que estão presentes
os elementos sagrados: as palavras, a terra, o sangue, o martelo, a bigorna, o
fio de prumo, isto é, o princípio gassetiano de que «o homem e ele e a sua
circunstância».
Serão «As naus da descoberta»
que três crianças, como num ritual de iniciação e de ruptura anti-épica
lusíada, «dobram / os degraus da comarca» e «Arrancam da carne» (p. 52). Ritual
esse que parte do individual para o colectivo. Daí o sentido épico do poema «Há
navio morto na cidade» (p. 52), onde a progressão vai de «Uma criança atravessa
a ilha entre tambores», «Duas crianças contornam ... / Com um canto de galo».
Há uma correlação semântica entre o estatuto iniciático conferido às crianças,
ao canto do galo que anuncia a madrugada e a simbologia cosmogónica do vocábulo
«OVO» maiusculado do último poema (pp. 59-62) ou de outras imagens genesíacas
como o trigo e o milho, este, «irmão uterino» (p. 54) do primogénito da ilha,
todos símbolos da renovação do ciclo da natureza. É essa, a verdadeira parúsia
para o Caboverdiano entrando triunfante na cidade [dos Homens] onde estão
presentes os tambores festivos.
Efectivamente, no final do Canto
III, no poema «O pilão e a mó de pedra» (p. 55), símbolos da ruralidade se
apresentam «tal táboa E seu tabernáculo» como lugar do contacto íntimo de «Este
homem E a sua fêmea /... / O sol na boca grávida» e no seu «O diálogo o
dialecto» são para eles «O alarme na boca revolta / O grito da artéria sobre o
mapa» ( p. 55). Quer a táboa, quer o tabernáculo são conotadores o primeiro de
mesa/cama/fecundação (como
São de P. Neruda os três versos
de Navegaciones y Regresos que servem de epígrafe a Pão & Fonema: «Aquí
nadie se queda inmóvil. / Mi pueblo es movimiento. / Mi patria es un camino».
Neles se alude à busca da pátria pelo povo
Estamos, em
relação a Corsino Fortes, na esteira do lirismo social que tem as suas raízes na
Seara Nova e Vértice órgãos do neo-realismo coimbrão. No último poema do Canto
Primeiro, o predicador exasperado recusa modelos estéticos obscurantistas «De
sol a sol / 'm grit´Rimbaud ô Maiakovsky / largâ-me da mon» (p. 20), o
primeiro, autor das Illuminations uma espécie de poeta «maldito» (8), o
segundo, conhecido poeta oficial do regime da Revolução russa de 1917. Mas
talvez seja de admitir a ressonância do telurismo torguiano ou da irreverência
de Joaquim Namorado no poema inédito «Port-Wine» (JL, 5/1/87) em que exorta o
seu povo a libertar-se [sinedoquicamente, o sujeito dirige-se aos portugueses,
na imagem dos vinicultores do Douro, para quem o seu vinho é a transfusão do
tal litro de sangue. Leia-se o poema na sequência da proibição governamental de
plantar outras castas de vinha, nomeadamente a americana, mais produtiva e
menos sujeita a intempéries, e que se foi motivo de repressão policial em 14 de
Maio de 1939, causando dois mortos, na zona da Beira Litoral *Aveiro]
No poema
"Carta de Bia d'Ideal" (p. 9) que começa com o hipocorístico «Junzin»
de João Vário/João Varela ( poeta com o pseudónimo T. Thio Thiofe) vemos que o
poeta se sente mais Corsa de David do que Corsino Fortes, demonstrando que a
sua poética, toda ela está impregnada do ritmo popular em que predomina o
«violão do trovador» (p. 46). Neste ponto há a consciência de artista que
define a sua arte poética, admitindo no entanto, no final do poema, conhecer a
poética monumental de Saint John Perse, nascido nas Antilhas e radicado em Bordéus,
cuja nostalgia pela terra natal se manifesta pela busca exigente de imagens
telúricas, pela amplitude de visão de mitos e pela presença constante do
sagrado. Além de leitor atento de Perse, também o foi de Pound, Octávio Paz e
T. Eliot. Será, no entanto, o poeta e diplomata francês que servirá de ponto de
referência para a afirmação da sua individualidade pela modificação do próprio
tecido da linguagem, crioulo irmanado com o português, como se quisesse criar
uma linguagem, como veremos a seguir, reservada, por si só à sua épica/poesia,
lugar onde as palavras no dizer do moçambicano José Craveirinha «só precisam de
quem as toque / ao mesmo ritmo para serem / todas irmãs» (9).
No plano
estrutural dos poemas afigura-se-nos alguma semelhança na mancha tipográfica,
aos poemas de «Ladeira Leste» [1962-1968] de Octavio Paz, quer no poema «A
Figueira Religiosa» em que os versos têm uma disposição ziguezagueante, além da
forte componente telúrica da linguagem coadjuvada pelo versículo oracular, de
ritmo curto, em poemas como «O dia em Udaipur», «Golden Lotuses», «Aldeia» «A
exclamação» e «Juventude» (10).
É de facto,
na segunda parte do poema «De boca a barlavento», que Corsino define a sua Arte
Poética. O predicador define que «todo o poema: / geometria de sangue &
fonema / Escuto Escuta» (p. 8). Será através desta dialéctica que o mesmo pode
transmitir o modo de se exprimir poeticamente, ou mais apropriada e
esteticamente «viajar com pés de Portinari» (pintor brasileiro deste século do
realismo social) (p. 47) ou descendo os navios com o viajante italiano
Cadamosto pelas terras de pozolana, sugerindo-nos uma progressão de uma
caboverdianitude agressiva para a serena (11): a via emotiva, sensitiva e/ou
intelectiva, em que «Um pilão fala»; «tambores / erguem /.../ Um coração»; «mão
doméstica / Que solfeja». É o poeta transformado em profeta «receptáculo
disponível à assunção de diversa identidade»(12) e também um «fingidor»
pessoano cindindo-se entre o coração e as «calhas da razão» (Cf. Poema
«Autopsicografia» de Fernando Pessoa).
No poema «De
rosto a sotavento», fecha-se o círculo do mar e das ilhas, proliferando agora
os símbolos genesíacos da terra, o SOL, a árvore e o OVO, isto é, refaz-se o
círculo da geografia caboverdiana, da mátria / pátria arquipelágica de que é
necessário reencontrar os verdadeiros elos de ligação. É a este canto órfico da
terra a que o poeta aspira no sentido
Fonema é para
Corsino, no dizer de Ana Mafalda Leite a «reivindicação do próprio acto da
escrita e da realização poética - 'poiesis' - enquanto novo acto
estético-cultural na tradição literária caboverdiana.» (13) tal como o regista
na epígrafe de Árvore & Tambor, a segunda obra de Corsino, colhida na obra
de Neruda Navegaciones y Regressos : «Y cuanto más, y cuanto, / amé, pequeña
pátria, quanto gané o me dieron / fue sólo para í, para adornarte, / para
cantar tu tierra de delgada cintura».
O Poema de Fortes é um discurso
em ruptura da conceptualização da anterior tradição poética, quer dos
Claridosos, quer da geração da Certeza (1944): do fatalismo e resignação, do
evasionismo e terralongismo, da saudade e da morabeza, da seca e da fome,
embora não os erradique completamente da sua obra.
Entre 1962 e 1974, houve de
facto uma contribuição e alargamento das perspectivas poéticas: Ovídio Martins
no tema anti-evasionista, António Nunes e Onésimo Silveira com o apelo ao
elemento cultural africano e a reivindicação política com Gabriel Mariano. O
primeiro e o último poeta, agora referidos, são evocados, respectivamente, no
poema «Toda a terra» (p. 49) - um hino à terra, ao telurismo do qual os poetas
se não podem desligar, e no poema «Nova largada» (p. 26) - onde se reafirma a
pesquisa da identidade e a legitimidade da luta .
Ana Mafalda Leite (14),
acentuando a modalização épica de Pão & Fonema, afirma que o maravilhoso se
manifesta desde o título pela sua essência profética do ponto de vista
linguístico em que se nota «uma constante valorização da voz em detrimento da
letra». A própria tríade da estrutura da obra, bem como a inserção do numeral
quer no título do poema «Três versículos...» (p. 17) e sua subdivisão em três
partes, quer no poema «Há navio morto na cidade» ( p. 52) em que três crianças
acedem à comarca e «Arrancam da carne / (...) / As naus da descoberta», são uma
espécie de chegada antecipada à Terra Prometida - «Idade do Ouro», a quem numa
leitura hipotextual, sacralizadora, pertence o reino dos Céus. Convém notar que
os vocábulos do título Pão & Fonema não definem apenas ideias mas
sacralizam-nas e daí tornar-se necessária a leitura como resultado do trabalho
de escrita hipertextual, tendo em conta as circunstâncias em que foi escrito,
sobretudo o canto II em Angola de
Não há dúvida de que tal como em
Neruda [ Canto Geral é o "Retrato das lutas e vitórias da América"
(p. 10), onde o poeta falando do Chile e da Argentina escreve «Mas o povo e o
trigo uniram-se: então / alisou-se a cabeça da terra, pentearam-se / os cabelos
enterrados da luz, a agonia / transpôs as portas livres, derrubadas, do / vento
/ e, da poeira do caminho, dignidades / submersas, escolas, inteligências, /
rostos, ergueram-se, um a um, no pó / até se tornarem unidades estreladas,
estátuas da luz, puras pradarias.» (15)], também em Corsino o geno e hipertexto
se encontram na «potência fálica da terra + a potência famélica do povo / É o
povo de coração em marcha sob a bandeira de Pidjiguiti»(16). Tal como o Canto
Geral «Nasceu/ da ira como uma brasa, como os territórios de bosques
incendiados .... /Sou, finalmente, livre entre os seres» (17) também o Pão
& Fonema nasceu de «tod' aquel negoce dnha sangue ultramarine» (p. 58),
negando-lhe a identidade pessoal e nacional. É necessário não esquecer que o
ano de 1936, em que surge o movimento da Claridade, é também o da implantação
em Abril, na ilha de Santiago, pelo Decreto-Lei 26539, da colónia penal do
Tarrafal. Apesar da derrota de Hitler, Salazar resistiu nove anos às pressões
internacionais e só em 26 de Janeiro de 1954 o encerrou para o reabrir em 1961
para aí encarcerar os nacionalistas angolanos. É significativo que o Chiquinho
de Baltasar Lopes fique aureolado com essa imagem «... não havendo calma no
Tarrafal ... a proa era a América» (p. 299)
A «Proposição» de Pão &
Fonema , tal como acontece em toda a poesia épica, condensa o tema e neste caso
evolui da temática telúrica do Canto I para a do II Canto onde se faz a
caracterização do mundo ilhéu, em que «Ano a ano / crânio a crânio / Rostos
contornam / o olho da ilha» (p. 3). Mar & Matrimónio detem a temática da
largada individual em oposição à colectiva já que «Ano a ano / crânio a crânio
/ Tambores rompem a promessa da terra» (p. 3). A propósito da simbologia dos
tambores (vocábulo repetido de forma sistemática ao longo da obra), Vasco
Serra, personagem de A Chaga (1972) do escritor angolano Castro Soromenho, diz
a Eduardo Sales: « o negro refugiou-se nas associações secretas e nos movimentos
profético-messiânicos. (...) O tambor é a grande voz da África. Nunca me
esqueci do que me disse um africano que conheci em Benguela: "Só se
conhece a África depois de se compreenderem todos os toques dos tambores.
Quando se deixarem de ouvir os tambores, a África estará morta" (18).
O canto II é o canto da diáspora
em que o homem das Ilhas tem de sair e num processo de transculturação dar-se-á
conta da sua situação e ressurgirá já homem preparado para a luta. Ao
contrário, o canto I e III aludem, respectivamente, à odisseia permanente do
homem caboverdiano, da ilha e suas características e os novos bens da pátria,
da transformação resultante dessa expatriação do canto II, em que o último
poema «Emigrante» (p. 39), a partir da primeira estrofe, remete para o futuro
do tempo total ligado à maternidade e geração de um espaço nascente: «O grito
das mães leva-te / agora / À sétima esquina/onde a ilha naufraga / onde a ilha
festeja / A sua dor de filha / E a tua dor de parturiente». É nesta fusão que a
ilha se torna parturiente e espaço de evasão em todo o tempo existencial do
caboverdiano. Numa linha hipotextual são aqueles em cujo rosto explode o
cansaço «no sangue das formigas» (p. 41), isto é «Rostos-e-proas-da-não-viagem»
(p. 39), os que nunca partiram, mas para os quais o épico visiona uma espécie
de Aurea Mediocritas ou a magna quies nos «novos campos de pastorícia» (p. 41).
Uma vez que o poeta escuta e
incita a escutar os sons da terra, o pilão, os tambores e o marulho, é esta
relação íntima entre fazer / criar / dizer, na expressão de Ana Mafalda Leite
que permite deduzir a « seguinte homologia: criação poética = dizer = fazer a
recriação das ilhas» (18) e por isso «Há mãos que cantam / no rosto da página /
O fonema / que estala / de pão & opala» (p. 59) pois é impossível
amortalhar a sua fome já que se está num tempo «Entre a táboa dos decretos / E
a vírgula morta das portarias» (p. 60). É neste eixo semântico que o primeiro
poema do segundo livro Árvore & Tambor , com o título Ilha, assenta « Sol &
semente: raiz & relâmpago / Tambor de som / Que floresce / a cabeça calva
de Deus». Tudo são símbolos genesíacos a apontar para a recriação do homem,
criação de Deus, já que no poema «Tchuva» o enunciador nos dá uma imagem de
abandono «Nem mar nem céu / nem Criste ca sabê / Boca ta nascê na bô pulse
braçode / E Deus já morrê» (Pão & Fonema, p. 19) como que ansiando por
encontrar os numes dos antepassados negros, numa mitologia de raiz africana em
contraposição com a religião cristã.
Não falta também a Pão & Fonema
a etopeia, isto é, os caracteres e os traços do quotidiano dos caboverdianos,
normalmente através de belas metáforas surrealistas, não da paródia, mas do
dramatismo das mesmas. Por exemplo no «Conto» ( p. 15 ), a mãe velha «... é
ilha nua / Por Dezembro rasgando / o seu inverno de chita» ( p. 16), imagem do
despojamento da ilha e na sua singularidade simbólica / poética é a expressão
de uma realidade colectiva e até biográfica. Também quando se trata de referir
homens do mesmo ofício como «Junzin» / João Vário, que aliás foi uma espécie de
guia intelectual visto que Corsino recomeçou os seus estudos aos 20 anos, em
razão das dificuldades económicas da familia, se queixa que «há muito / Que não
bebes a água / da nossa secura» ( p. 9), mas que no ano seguinte publica O
primeiro livro de Notcha. Também os exilados políticos são referidos como
«Recode d'Umbertona» e os amigos «tod'esse pove de Rua de Craca» (p. 11)
enviando «mantenhas» (saudações) da Bibia, Bena; Garda, Vavaia e Everybody.
«Postais do mar alto» (p. 33),
poema dividido em sete partes, tantos quantos os dias da semana, dá-nos
verdadeiros «sketches» da aventura do homem crioulo, mas que até certo ponto
também representa o percurso do poeta, pela referência ao, colonato de Cabiri
(Angola) onde o poeta esteve, mas onde se entrecuzam novamente aspectos da
etopeia os nomes familiares/ populares de «Djone / Bana / Morais / Goy / Djosa
/ Frank / Morgode/ Palaba e Salibana» (p. 35) cuja identidade se define pelos
hipocorísticos, alcunhas ou nomes da rua em oposição à identidade imposta pelo
«selo branco nos documentos» (p. 35). A problematização não é a cor, embora
invocativo da «Crioula!», mas a condição humana e cultural, ponto crucial do
Canto III centrado nessa definição de uma identidade territorial, histórica,
cultural e afectiva, logo enunciada no primeiro poema a partir de pressupostos
anti-evasionistas do homem em atitude marcial em luta pelo património dada pela
progressão semântica de «Agora povo» = Nação; «agora pão» = trabalho; «agora
poema» = esperança, em que «o batuque não pára» = som pleno da Mãe África, e
sugerida pelo estilo oracular, tornando o poema um canto de consciencialização,
mas predicado numa semântica contida e de fortes referências culturais em
detrimento das alusões ideológicas e políticas.
Terminamos esta proposta de
leitura transcrevendo versos do primeiro poema do Canto Geral, de Neruda,
segundo ele o seu livro mais importante, comparando o Corsino que mergulha
teluricamente n '«A terra / aspira / teu falo verde» (p. 40), com Pablo em
cujos versos palpita a « Terra minha sem nome [....] / o teu aroma subiu em mim
pelas raízes / até à taça em que bebia, até à mais débil / palavra em minha
boca ainda não nascida» (20).
Concluimos com apenas mais uma
pequena observação: a negritude serena de Corsino Fortes assemelha-se ao
sentido do equilíbrio épico do compositor da Ilíada que não nos horroriza com
as mais atrozes imagens da terrível queda de Troía, mas sabiamente definiu
caracteres helénicos masculinos e femininos no enquadramento da areté. Do mesmo
modo Corsino, na sua pequena epopeia, soube encontrar esse sentido de
equilíbrio na fidúcia com que interpretava os sinais dos tempos na dimensão de
poeta caboverdiano, depositário, como acontece com outros escritores, da
identidade cosmogónica e sacralizadora do povo a que pertence e cuja história
do «passado escravo» e recente situação colonial perfeitamente conhece.
Nota: a indicação das páginas,
ao longo do texto que se referem a Pão & Fonema, é a da 2ªedição. As
restantes indicações de páginas estão devidamente contextuadas, pela referência
às obras em que se integram.
Notas
1. Francisco TENREIRO, Obra
Poética, IN-CM, 1991, p. 82.
2.Também Eu Sou a América,
(Poemas de Escritores Negros Norte-Americanos), Introdução, Selecção, Tradução
e Notas de Hélio Osvaldo ALVES, Editora Pedra Formosa, Guimarães, 1997, p. 143.
3. Eloísa ÁLVAREZ, História da
Literatura Espanhola, Edições Asa, Porto, 1994, p. 275.
4. Terêncio, Heautontimorumenos,
77..
5. Ana M. LEITE, A Modalização
Épica nas Literaturas Africanas, Vega, Lisboa, 1995, p. 128, nota 1.
6. João Lopes FILHO, Vozes da
Cultura Cabo-verdiana, Ulmeiro, Lisboa 1998, p. 122.
7. Juvenal, 10, 81.
8. José CRAVEIRINHA Karingana ua
Karingana, Edições 70, Lisboa, 1982, p. 151.
9. Tzvetan TODOROV, Simbolismo e
interpretação, Edições 70, Lisboa, 1980, pp. 78 -79, onde escreve a propósito
do livro referido: «encontramos dificuldades de duas ordens. As primeiras
comparáveis ao fim e ao cabo, as de Nerval, advêm de problemas respeitantes ao
referente. As frases que compõem o texto são bastante compreensíveis, mas o
objecto que evocam nunca é nomeado».
10. Octavio PAZ, Antologia
Poética, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1998, pp. 83-101.
11. Empregamos estes conceitos na
acepção de Louis - Vicent Thomas e de acordo com o significado que lhe confere
Salvato TRIGO na nota 14 da página 48 do seu estudo Luandino Vieira o Logoteta,
Brasília Editora, Porto, 1981.
12. Ana M. LEITE, o., c., p.
132.
13. Ana M. LEITE, o.,c., p. 122.
14. Ana M. LEITE, o., c., p.
130.
15. Pablo NERUDA, Canto Geral,
Campo das Letras, Porto, 1998, p. 221.
16. Corsino FORTES, Árvore &
Tambor, Publicações Dom Quixote, Lisboa 1986, p. 70.
17. Pablo NERUDA, Canto Geral,
Campo das Letras, Porto, 1998, p. 587.
18. Castro SOROMENHO, A Chaga,
Sá da Costa, 2ª edição, 1979, pp. 191-192.
19. Ana M. LEITE, o., c., p.
133.
20. Pablo NERUDA, Canto Geral,
Campo das Letras, Porto, 1998, p. 16.
Corsino Fortes
(http://www.ciberkiosk.pt/arquivo/ciberkiosk6/pagina1/corsinoele.htm)
Ex.mo Senhor Presidente da Mesa,
Ex.mo Senhor Moderador,
Ilustres Convidados,
Caros Confrades,
Minhas Senhoras e meus Senhores
Queira permitir-nos, Senhor
Professor Carlos Reis, que enderecemos as nossas congratulações à Ex.ma
Autarca, Presidente da Câmara Municipal de Sintra, Dra. Edite Estrela, e a toda
a sua nomenclatura política, diplomática, cultural e logística, que potenciou
uma vez mais a realização deste Fórum, ora de poetas que festejam, "sem
grades na carne, sem algemas no espírito", a pluralidade da língua comum:
a grandeza cultural e solidária de um sonho que, ano a ano, vem transformando
Sintra numa das capitais do mundo da lusofonia.
Reportando-nos aos três poetas
que motivam as intervenções deste painel, a nossa incidência vai primeiro para
Luís de Camões, aquele que emblematicamente ficou cativo da sua escrava,
libertando-se épica e liricamente da lei da morte como o egrégio construtor do
humanismo lusófono.
Este humanismo que, servindo de
substrato à comunidade dos países de língua portuguesa, concita-nos a pensar,
hoje, noutros fazedores de história e construtores da nossa sociologia política
como Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Samora Machel, aqueles que // libertaram o
pão da palavra da casca da colónia e cicatriz fascista // e trouxeram ao solo
da língua um novo amor // dando-lhe a dimensão histórica de um país sem
fronteiras.
Todos eles ensinaram-nos a amar
e a valorar a densidade e a nobreza do homem anónimo, aquele que, na sua
singularidade, espelha a personalidade colectiva de um povo.
É esta figura de homem anónimo,
fraterno e solidário na construção do quotidiano, que o seguinte poema focaliza.
NÃO HÁ FONTE
QUE NÃO BEBA
DA FRONTE DESTE HOMEM
Nas rugas deste homem
Circulam
estradas de todos os pés que
emigram
Quebram-se
vivas ! as ondas de todas
pátrias
Anulam-se
de perfil ! as chinas de todas
muralhas
Na mão bíblica
No humor bíblico deste homem
crepitam de joelhos
Desertos & catedrais
Onde
deus & demónio
jogam
noite e dia
a sua última cartada
E do pó da ilha à mó de pedra
Não há relâmpago
Que não morda a nudez deste
homem
Nudez de liberta!
Que a dor germina
E o espaço exulta
E pela ogiva
ogiva do olho
Não há poente
Que não seja
Uma oração de sapiência
Sobre a face deste homem
o povo ergueu a praça pública
E os tambores transportam
O rosto deste homem
Até à boca das ribeiras
E ao redor
os vulcões respeitam
o silêncio deste homem
II
Não há chuva
Que não lamba o osso de tal
homem
À porta da ilha
Diz o sal de toda a saliva
O sol ondula oceanos no sangue
deste homem
Oh cereal altivo ! vertical
& probo
Ainda ontem
antes do meio-dia
O vento punha velas na viola
deste homem
Hoje !
A viola
De tal dor é sumarenta
E projecta
sobre as almas
a seiva
De uma árvore imensa
Oh oceanos ! que ladram à boca
das tabernas
Se o sangue deste homem
é tambor no coração da ilha
O coração deste homem
é corda no violão do mundo
E os joelhos
rodas que vão ! hélices que
sobem
com ilhas no interior
III
Sombras sobre a colina Rosto
sobre o povoado
Quando
pastor & gado jogam à
cabra-cega
E chifres de sol
projectam
cidadelas no ocidente
O poente galopa a maré-alta
E ergue
"À taça da noite
Sobre as têmporas deste
homem"
Oh noite verde ! oh noite
violada
Que a noite não apague
A memória das cicatrizes
E cicatrizes de ontem
Sejam
Sementes de hoje
Para sementeira E floresta de
amanhã
Como Noé
As espécies conhecem
A sílaba E a Substância deste
homem
Não há milho
Que não ame o umbigo deste homem
Não há raiz
Que não rasgue a carne deste
homem
E na fome pública deste homem
Cresce
a ave no voo E a gema na casca
Cresce
o cabo d'enxada E a cintura da
terra
Cresce
a porta do sol E o alfabeto da pedra
verde
Não há fonte
Que não beba da fronte de tal
homem
Que
A erecção deste homem é redonda
E tem o peso da terra grávida
Francisco José Tenreiro, poeta
da ilha do nome Santo, legou-nos uma das mais belas sinfonias do património
literário do mundo lusófono. Nela aprendemos a emergência do amor universal na
coreografia libertária e na fratemidade da negritude sãotomense.
De S. Tomé a Cabo Verde e de
coração em Africa, diremos o poema
DO NÓ DE SER AO ÓNUS DE CRESCER
ILHA
Do nó de ser ao ónus de crescer
Do dia ao diálogo
Da promoção à substância
Romperam-se
As artérias
Em teu património
Agora povo agora pulso
agora pão agora poema
Ilha
Ilhéu ilhota
noite
noite alta
E o batuque não pára
Em nossas ancas
AGORA POVO AGORA
Que as colinas nascem
na omoplata dos homens
Com um cântico na aorta
Árvore & tambor tambor &
sangue
Punho
pulso de terra erguida
Agora
No crânio da Boa Vista
Naufragam mastros e caravelas
E
O mar é rosto que advoga
Entre os tambores e as ilhas em
matrimónio
Agora povo agora pulso
Agora pão agora poema
Ilha
Ilhéu ilhota
noite
noite alta
E o batuque não pára
nas nossas ancas de donzela
AGORA PULSO AGORA
Que todo o pão é exequível
Depois da árvore antes do tambor
Depois da fonte antes do fonema
Antes da gengiva
dente e embrião
Que morde
Na mó de pedra
lasca e lisa
O tegumento na sua casca
Agora
Que a ilha cresce na viola do
exílio
E
No violão do trovador
Um coração de napalm
Agora povo agora pulso
agora pão agora poema
Ilha
Ilhéu ilhota
noite
noite alta
E o batuque não pára
Em nossas ancas
AGORA PÃO AGORA
Que o pilão viaja com pés de
Portinari
Ultrapassando o abcesso
Das ribeiras em viagem
Com hélices de pedra
Ao redor da pedra
E teias de aranha no poente da
boca
Agora
Que navios descem
Cadamosto
As terras de pozolana
Carregados de cio E selo branco
E ressonam
Osso osso de caprino sono
E
O milho é datio pro solvendi
Com o timbre de moeda na retina
A usura dos mercados debaixo da
língua
Agora povo agora pulso
Agora pão agora poema
Ilha
Ilhéu ilhota
noite
noite alta
E o batuque não pára
nas nossas ancas de donzela
AGORA POEMA AGORA
Que do marulho
às pedras de sílaba longa
Os joelhos rompem
ilhas da tua boca
O violão da unha
a viola e o vento
Viola do tempo ao tempo grávida
De sub
ou
de substância
E todo o fósforo Que soma
A árvore do teu lábio
Ao tambor de tal tâmara
E
Do som E da saliva
Volva o ovo o colmo
Que te apelidam
Do fonema ao fruto
Dedo a dedo polegar e seiva
Na tosse tosse da carne óssea
Tossindo verde
De gema-fogo no poço dos
joelhos...
Agora povo agora pulso
agora pão
agora poema agora
Minhas senhoras e meus senhores:
O terceiro mote vem de Osvaldo
Alcântara, o pseudónimo poético de Baltazar Lopes, que apela a que os poetas se
casem com a respiração do mundo. A esse respeito adiantaremos:
Há beleza e desafio no
despojamento da paisagem lunar do Arquipélago de Cabo Verde, onde, segundo o
escritor Aurélio Gonçalves, "a pedra é artigo que nunca falta"; isto
é, na nudez desértica da ilha, o silêncio e as dunas são confessionários aonde
a pedra é sacerdote.
Desde a nascença, a criança
caboverdiana estabelece um pacto telúrico entre a pedra e a planta do pé: um
pacto quase matrimónio, que pontua, que vivencia toda a sua existência; já que
a ilha, no seu equilíbrio, na sua exiguidade, é menor que a planta do pé do habitante.
Do continente à ilha, da
maternidade ao mito, parece-nos que com hélices vulcânicas o arquipélago
partiu, ilha a ilha, do maciço africano, numa corrida de estafeta entre os três
continentes, e encontra-se há quinhentos anos entre o Atlântico Norte e o
Atlântico Sul, oferecendo mãos e serviços à Divisão Internacional do Trabalho.
Não é impunemente que o poeta e
ensaísta Gabriel Mariano encontrou na psique do homem da ilha um navio de pedra
à procura de rumo. E para Baltazar Lopes, a viagem do emigrante é redonda na
sua ilhenitude, tendo como ponto de partida e chegada a bússola de Cabo Verde.
Então, se o emigrante,
arquitecto ou artesão, é aquele que regressa antes da partida, levando no
estômago uma ribeira de pedras soltas, afirma-se, nesta aldeia global, como uma
telha no tecto do mundo.
É esta mesma ribeira de pedras
soltas que vem fecundando o que de autêntico nos oferece grande parte da
produtividade de muitos escritores e poetas caboverdianos que viveram e vivem
longe do solo pátrio. Lembremos aqui Manuel Lopes, o escritor de Os flagelados
do vento leste, Teixeira de Sousa, autor de Ilhéu de Contenda, que vêm
escrevendo a mais significante da sua obra fora do arquipélago.
Hoje não sabemos se as ilhas
ficam dentro ou fora de Cabo Verde. Na verdade, para além das ilhas de
Barlavento e de Sotavento, temos ainda a ilha de Portugal, a de Angola, a da
França, a da Holanda, a de Boston, etc. Faz sentido neste fim de século e fim
de milénio, que escultores caboverdianos levantem na Cidade da Praia um monumento
de duas mil pedras como símbolo da unidade da nossa diáspora de vela grande.
Para nós, o que errónea e
ensaisticamente se aferiu de evasionismo na vida e na literatura caboverdianas,
não é senão o potenciar de uma procura genesíaca e responsável da diferenciação
e da completude; a herança e capacidade evolutiva
do poder-dever entre gerações;
isto é, a consciência histórica de que o arquipélago, entre a independência e a
interdependência, está em movimento: é um monumento inacabado.
Há quinhentos anos que as naus
da descoberta, que hoje se comemora, fizeram, africanamente, aguada nos seios
da ilha. E no cadinho das pedras do poder e das pedras do pelourinho, entre
duas fracturas humanas desenraizadas, foi, antropologicamente, nascendo a flor
mestiça da nossa aventura crioula.
Assim, quando no mote, inspirado
no poema de Osvaldo Alcântara, este concita a que os poetas se casem com a
respiração do mundo, pensamos que semanticamente a pedra da ilha é o pulmão por
onde o arquipélago respira, já que, entre a pedra e a planta do pé, começa a
raiz da energia biológica e cósmica da aventura crioula.
Vejamos como tentam as pedras
respirar
I
NO OMBRO DA MINHA MÃE
A PEDRA DA MULTIDÃO
Ilhas em arco ! arco-íris de
pedra
Pedras que do ombro partem
Pedras que partem dos pés do
arquipélago
Assim viúvas... assim noivas...
assim virgens
A cavalo do vento
A cavalo da vida
À procura dos dias & das
nuvens vagabundas
Entre dois rostos ! duas ilhas
Não há pensamento
Que não seja
Esta multidão de pedra &
vento
Esta península que corre
Pela cabeça calva de Deus
À procura dos globos brancos
vermelhos
Do arquipélago inacabado
Multidão ! se teu pai trazia às
costas
o sol as salinas o deserto de
Sahel
A minha mãe era então
Uma pirâmide longínqua
No saxofone de pedra
Da minha avó
E de barlavento a sotavento
A avó ia dizendo àquela infância
Afasta-te da taberna
muito ! pouco
Mas não do tabernáculo
Ali! mora
o desvario da violência
Onde nascem
violinos violas violões
Sons que já foram deuses
E ainda habitam
os pedregulhos do coração
Além é o sítio do sémen &
sementeira
Onde ! as pedras foram violadas
Pela maternidade de Agosto
Pela raiz & colmo de
Setembro
E pelo Outubro da nossa
cesariana
Ó pedra de amor ó pedra de amigo
Todos os dias ! mãos de Deus
Colocam uma rocha
nas ancas &
seios de cada ilha
Todos os dias ! braços do
arquipélago
Colocam um rochedo
no ombro de cada homem
E grávidas ! pejadas de pedra
E belas ! como penínsulas
As mulheres lavram
As mulheres abalam
a pobreza na colina
a miséria no monte
a desgraça na montanha
II
PEDRA DE IDENTIDADE
Todas as manhãs ! "a ilha
levanta a corola da saia"
Para que o mar nos proteja
Das pedras ! que levam &
trazem
o arquipélago a reboque
Entre a sistole e a diástole
Do "Vale do Amanhecer"
Todas as tardes ! as pedras
Enobrecem as nossas raízes
E tecem nos nossos pés
O seu império de miragens
E com a música de milénios
gota a gota nos ouvidos
As pedras olham-se ! prenhes
Do sol vermelho das palavras...
Há fogo nas pedras novas
Há luz nas pedras velhas
E amor & ódio
No cotovelo do abraço delas
Como ! se não fosse lar
o lugar do vento
o lugar da ilha! Onde
O desespero da paixão repousa
Todas as noites ! as pedras
levitam
nos nossos sonhos
a balança do Profeta! Quando
O sismo da esperança
atinge
4033 km2 de terramoto
E os ouvidos iluminam
nos corredores do medo
O vulcão das nossas têmporas
E saltam pedras
para fora das ruínas
Como ostras
para dentro das pérolas
Se aqui ! no ar
nos pés do arquipélago
As ilhas param
para ver as rochas passar
Do deserto das pedras à deserção
da pobreza
Gabriel ! antes da meia-noite
Ninguém sabia das pedras em
romaria
E com aquela música de milénio
gota a gota nos ouvidos
As pedras fermentam
osso a osso
O alvoroço da tabanca + a
Febre da mazurca e la-
baredas da contra-dança
E das pedras nascem proas de
falo & vagem
Assim faluchos de marear
E dragoeiros que ondulam
Úteros
raízes & navios
De terra arável
Todos
da raça e povo de Sema Lopi
Todos
do povo e nação de Manuel de
Novas…
Anjos & anjos de pedra
que levam & trazem
Na coladeira da vida
&
No batuque da alma
O hino ! como morna
E o funaná ! como bandeira
E das trovas d'Eugénio
E das crónicas d'Aurélio
pedras caíam
pedras batiam
No solo da pátria
Como ! presentes natalícios
III
PÁSCOA DE PEDRA
Assim! nasço & vou
Nos pés das pedras que nos
perseguem
Assim ! nasceste & estás
Nas mãos das pedras que nos
interrompem
Deambulavam perto
Os acrobatas da Pedra Rolada
E o deserto bebia pelas dunas
As ondas do crepúsculo
E a ruína das catedrais
E se perguntamos às pedras
uterinas
& consanguíneas
Da fortuna do mar...
Na boca das pedras: a pedagogia
do marulho
Do marulho à dor ! da erosão ao
amor
Mas onde ? onde encontrar
No deserto da fala
A pedra sonora
A língua de pedra
Que salpica de verde
A lucidez da nossa loucura
Mas onde ? onde encontrar
A pedra mãe ! a pedra amante
A primavera de pedra
No verão que nos devora
A montante da infância
A jusante da velhice
isto é
A pedra da cicatriz
A pedra da primeira memória
A leveza
que ergue no coração
esta chuva de pedra
A pedra que foge
Da mão do engenheiro
&
Do pé do arquitecto
E constrói
No terraço da alma
a ogiva
De uma salva de palmas.
Para terminar, Senhor Presidente
e Ex.ma Audiência, fazemos votos de que deste Fórum partam pombas de paz, de
tolerância e fratemidade, para os irmãos da Guiné-Bissau e de Angola e, no que
conceme ao martirizado povo Maubere, diremos como ontem que as mães
afro-luso-brasileiras se juntem às mães da comunidade internacional e abram
portas às mães de Timor Leste para que Xanana Gusmão entre e fale português com
a sua oitava pátria recém-nascida nos braços.
Virgínia Bazzetti Boechat*
E diz a ilha a cada letra do alfabeto
que chove Do olho da arte nasce o oásis do artesão (Corsino Fortes, Árvore
& tambor) O poeta Corsino Fortes traz em sua obra uma realização poética considerada
inovadora e de valor singular para a trajetória cultural de Cabo Verde. Em seus
dois livros publicados, Pão& fonema(1974) e Árvore & tambor(1986), a
consciência acerca da realidade caboverdiana encontra-se expressa dentro de uma
nova proposta temática e formal, que faz de seu texto uma representativa
ruptura com os paradigmas literários portugueses e uma nova leitura da própria
tradição cultural do Arquipélago. Sua poética, como aponta Carmen Lucia Tindó
Secco (1999), "representou um grande salto para uma linguagem
verdadeiramente comprometida com o universo ilhéu"
A poesia de Corsino Fortes
traz esse novo arquipélago, remontado em texto, a que Ana Mafalda Leite chamou
de "o cosmos redondo", pela importância simbólica das formas
arredondadas e "circularidade do universo que se constrói", um espaço
que "ao tomar a sua dinâmica própria, ganha a forma esférica de um
cosmos"
No espaço desse novo cosmos
toda imagem é fluida, como a seiva e o sangue a que se refere de maneira recorrente.
Ocorre o que pode ser definido como uma constante "transfusão" entre
as imagens formadas, por sua vez, pela fusão de elementos. Também seriam as
imagens filhas mestiças das "coisas da ilha", e em eterno nascimento?
A idéia da fusão, na poesia de Corsino Fortes, e da aliança proposta,
inclusive, muitas vezes pela forma "&" ou pelo "E"
maiúsculo, é uma constante. A mesma "transfusão" se faz entre partes
das palavras, através da aliteração. Nesse cosmos, qualquer dimensão espacial
também é fluida e se torna relativa no esforço pela renovação. A celebração do
novo Arquipélago, em Árvore & tambor,atinge seu grau de plenitude no Canto
Segundo, sob o título de "Hoje chovia a chuva que não chove" (pp.
43-56). Trata-se do próprio florescimento, da frutificação pela chuva; é todo
um cosmos em deleite por esse renascimento. Segundo Ana Mafalda Leite "não
pára de chover no poema, o alfabeto inteiro chove de "a" a
"z"
A ilha não é mais o espaço
para a seca e a fome, já que traz o renascimento "sobre o velho rosto que
floresce!", negando o antigo "drama do `se' na boca da
sementeira". E, se "achuva que fala & canta/ numa caneca de
folha" cai na dimensão do Arquipélago, a ilha então é também um grande
espaço para a dança, o canto e o amor, numa festa de viola, funanáe cópula, que
gerará a criança a quem o poeta empresta voz para que diga: "Sou a
semente/ Por onde sonha/ A cabeça do arquipélago". Na geração desse
universo novo, a ilha passa a ser o lugar em que brota a fartura. A resistência,
representada pela cabra, se une à volta da água e monta um mundo sem espaço
para a fome, já que a ilha pode dar leite na dimensão da Via Láctea: No rosto
oblongo da gota As ilhas são cabras as cabras são ilhas com úberes na Via
Láctea O poema reinventa o Arquipélago ao mesmo tempo em que o contexto é
também de renovação do país e de redescoberta dos valores de Cabo Verde. A
referência ao cometa Halley deixa em seus versos a marca da época de nascimento
desse novo cosmos: y) ................................ A nordeste! o cometa
Halley nos acena Como nação que se festeja Aliando o trabalho estético ao
compromisso social, Corsino Fortes devolve ao povo, através da poesia, uma nova
cartografia insular de infinitas possibilidades, provando que há a capacidade de
transformação, mas que o trabalho também é infinito, não termina em
"z", se estende como apelo para além do poema, à dimensão da pátria
caboverdiana: z) Labor & mão: mão de labor Dirá a semente
............................................ Amanhã também é ilha
Na árvore de cada vida... E as enxadas dormiram Na veia cava dos homens
1Carmen Lucia Tindó Ribeiro Secco (coordenadora), "Mar, memória e
metapoesia na lírica caboverdiana" (introdução), Antologia do mar na
poesia africana de língua portuguesa do século XX, 1999, v. II,p. 17.
2 Dina Salústio, "Insularidade na literatura cabo-verdiana",
InManuel Veiga (coordenador), Cabo Verde: insularidade e literatura, 1998, p.
36.
3Carmen Lucia Tindó Ribeiro Secco, op. cit., pp. 40-42. Os poemas aqui
citados, excetuando-se os de Corsino Fortes, foram retirados desta edição.
4Corsino
Fortes, Árvore & tambor, 1986, pp. 25-26. Seus poemas aqui citados foram
retirados desta edição.
5Ana
Mafalda Leite, "Árvore & tambor ou a
reinvenção da terra cabo-verdiana", Introdução a Corsino Fortes (1986),
pp.11-12.
6Eucanaã
Ferraz, Drummond: um poeta na cidade, 1994, p. 6.
7Ana Mafalda Leite,op. cit., p.11.
8Dina Salústio, op. cit, p. 34.
9Ana Mafalda Leite, op. cit., p. 12.
10Ana Mafalda Leite,idem, p. 14.
11 Bibliografia: FERRAZ, Eucanaã. Drummond: um poeta na cidade. Rio de Janeiro: UFRJ, Fac. de Letras, 1994.
1 2FORTES, Corsino. Árvore & tambor. Praia: Instituto Caboverdeano
do Livro;
13Lisboa: Publicações Dom Quixote,1986.
14 GOMES, Simone Caputo. Uma recuperação de raiz: Cabo Verde na obra de
Daniel Filipe.Praia: Instituto Caboverdeano do Disco e do Livro, 1993.
15 LEITE, Ana Mafalda. A modalização épica nas literaturas africanas.
Lisboa: Vega, 1995. ___.
16 "Árvore & tambor ou a reinvenção da terra
cabo-verdiana". In: FORTES, Corsino. Árvore & tambor.Praia: Instituto
Caboverdeano do Livro;
17 Lisboa: Publicações Dom Quixote,1986.
18 MARIANO, Gabriel. Culturacaboverdeana: ensaios. Lisboa: Vega, 1991.
19 SALÚSTIO, Dina.
"Insularidade na literatura cabo-verdiana". In: VEIGA, Manuel
(coordenador). CaboVerde: insularidade e literatura.
20 Paris: Karthala, 1998. SECCO, Carmen Lucia Tindó Ribeiro
(coordenador). Antologia do mar na poesia africana de língua portuguesa do
século XX.Volume II: Cabo Verde.
21Rio de
Janeiro: Fac. de Letras UFRJ, 1999.
22 VEIGA, Manuel.
"Introdução". In: ___ (coordenador). Cabo Verde:
insularidade e literatura.
23 Paris:
Karthala, 1998.
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Osvaldo Manuel Silvestre
Título: Anais (nº 1)
Director: J. M. Varela
Periodicidade: quadrimestral
Edição de: Academia de Estudos
de Culturas Comparadas
Local e data de edição: Mindelo,
Cabo Verde, Abril 1999
1. De Cabo Verde, mais propriamente
do Mindelo, chega-nos o número inaugural de Anais, publicação da recém-criada
Academia de Estudos de Culturas Comparadas (AECCOM). Academia e Anais, ambas
são dirigidas por João M. Varela que no texto de «Abertura» da revista nos
apresenta o programa de uma e outra. O programa, diga-se desde já, é ambicioso
e coloca-se sob o signo da Universidade que, embora ainda inexistente, vem
sendo uma reivindicação crescente da intelligentsia cabo-verdiana, ultimamente
já com tradução no discurso político local. Para se perceber o impulso
responsável pela criação da AECCOM e de Anais, convirá recorrer a algumas das
palavras de J.M.Varela no referido texto de abertura:
«Vai-se tornando evidente que
uma sociedade sem Universidade é algo completamente diferente duma sociedade
com Universidade. Essencialmente, porque aquela, ao contrário desta, resumindo
em poucas palavras um longo postulado, não sabe em geral escolher modelos ou
não aprendeu a escolher padrões de conhecimento relativamente comprovados (que tenham
sido sujeitos à verificação e reprodutibilidade), ou sistemas de interpretação
crítica adequados, que possam impregnar, no longo termo, a cultura, mesmo
quotidiana, do cidadão comum. Este é o caso da sociedade cabo-verdiana» (p. 5).
A luta pela criação da
Universidade
Anais é assim uma revista que se
diria equacionar uma situação de transição paradigmática, não podendo contudo
esquecer que tal situação ocorre num país do Terceiro Mundo, com todos os
bloqueios que lhe são inerentes. Ou seja: se a referida transição necessita de
ser pensada, ela não pode pôr entre parêntesis o facto de que todos os
adquiridos do processo de construção nacional neste quase 25 anos – nos
domínios das infraestruturas físicas ou da saúde, educação e assistência social
– não são, justamente, adquiridos, já pela situação terceiro-mundista do
país, já pelo desgaste a que a lógica liberal conduz toda a dimensão
assistencial, mesmo em países do Primeiro Mundo. Significa isto que Cabo Verde,
e é este um dos tópicos recorrentes na leitura de Anais, se arrisca a dar um
salto qualitativo que, entre as conquistas positivas que venha a trazer,
acarrete também uma penalização da herança positiva da Primeira República.
Estas antinomias e ansiedades, rastreáveis em vários textos da revista (por
exemplo, no que José Vicente Lopes assina sobre «A transição para a democracia
na África Lusófona»), acabam por atribuir à criação da Universidade um papel
entre o vanguardista e o salvífico, como aliás seria inevitável que sucedesse
numa sociedade ainda marcada por um alto índice de iliteracia. Se as palavras
já citadas de J. M. Varela não fossem suficientemente esclarecedoras disso,
poder-se-ia recorrer a uma outra citação sua, na qual o autor nos diz que «Num
país do Terceiro Mundo como o nosso (...) a tese, que cabe defender, é que só a
investigação científica e implementações tecnológicas podem ajudar a
desenvolver os problemas de desenvolvimento» (p. 7). O problema, que é o
clássico double bind dos países em desenvolvimento, consiste em saber 1) como
pode um país de recursos escassos e amplas carências básicas afectar meios à
investigação científica, quando esta não produz mais-valias senão
mediatamente?; 2) estando um país dessa tipologia razoavelmente «condenado» a
produzir não ciência fundamental mas «aplicada», não o conduz essa opção ao
velho ciclo da dependência dos grandes centros (ocidentais) de produção da
ciência fundamental de que derivam as referidas aplicações? Sendo a resposta a
esta questão em Portugal a que sabemos, o caso cabo-verdiano não oferece
excessivas dúvidas quanto ao seu futuro perfil.
O contexto em que se prepara a
desejável criação da universidade
A questão que se coloca então é
a de saber se a universidade que Anais deseja conquistará a autonomia
suficiente para levar a cabo um papel tão amplamente emancipador; ou, ainda, se
uma tal universidade não tenderá a esgotar ou, noutra perspectiva, a colonizar
o espaço público que, enquanto forum ou ágora privilegiada da cidadania,
tenderá naturalmente (e de modo talvez inevitável num país do Terceiro Mundo) a
identificar-se, se não mesmo a coincidir, com a universidade. Por outras
palavras, que julgo subentendidas no texto de J. M. Varela e nos de outros
colaboradores da revista: poderá a universidade rebocar a sociedade
cabo-verdiana rumo à emancipação político-cultural sem, no processo, se
substituir em excesso às forças sociais que, no exterior da universidade, lutam
pelo seu inalienável direito ao reconhecimento? E não será isso pedir-lhe
demais? Registe-se, entretanto, que todas estas questões partem do pressuposto,
reconhecível em Anais, de que uma Universidade de Cabo Verde não deverá ser
apenas um centro de produção de tecno-ciência, mas sim uma escola de cidadania;
e que, para que lhes possamos dar uma resposta minimamente válida, será da
maior conveniência que a universidade possa enfim passar do plano dos desejos
ao da realidade efectiva.
2. De acordo com o texto
de abertura, a AECCOM organiza-se em 3 grandes «áreas de prospecção ou
investigação científica distribuídas pelos seguintes DEPARTAMENTOS» (p. 5;
atente-se no registo «organicamente universitário» destas palavras): 1.
Departamento de Cultura e Humanidades; 2. Departamento de Cultura e Res
Publica; 3. Departamento de Multiculturalidade e Diáspora (ausente do primeiro
número de Anais). A intenção, expressamente declarada, é a de permitir que «o
espírito científico que for permeando a sociedade, graças à Universidade,
esteja apropriadamente enquadrado pela vertente cultural» (p. 5). Uma tal
orgânica departamental responde ao ideal neo-humanista de uma sutura do fosso
entre as «duas culturas», sugerindo que só um saber desse tipo poderá
desempenhar as funções estratégicas que se atribuem à universidade em geral e
Tudo isto – programa,
intenções boas, etc – não seria sustentável sem uma resposta convincente
à decisiva questão da massa crítica indispensável à constituição de uma
universidade. Anais é, quanto a isso, uma revista inteiramente esclarecedora,
já pelos âmbitos abordados, já pela alta proficiência dos estudos que a
integram, já pelo escrúpulo colocado no respeito dos protocolos exteriores das
publicações académicas. Assinale-se pois a congruência deste perfil de sóbria e
exigente erudição com um título tão responsabilizador e ambicioso como Anais,
cujo modelo de paginação e sequência nos promete uma revista de referência
– e eis-nos perante uma publicação única nos PALOP e, ao seu modo, em
todo o universo da lusofonia.
A revista abre, aliás, com um
texto do seu director que de certo modo dá o tom a tudo o que se segue. O
texto, intitulado «A Investigação Científica. Métodos e Enquadramento», é uma
rigorosa reflexão epistemológica produzida por um racionalista crítico de
ascendência popperiana, sempre disponível para recorrer aos critérios de
falsificação do autor de A Miséria do Historicismo para efeitos de demarcação
da ciência em relação à não-ciência (e não falta mesmo, em registo muito
próximo de Popper, este mais interessado na psicanálise, a negação do estatuto
científico à psiquiatria).
Destacarei dois pontos,
começando por aquilo que é a súmula, deveras estimulante, da reflexão do autor:
«(...) há três etapas ou posturas na produção ou evolução do raciocínio
científico, que traduzem três éticas, por assim dizer: uma ética hermenêutica:
há coisas que não se podem interpretar, porque os nossos meios de aquisição do
saber não o permitem, e é preciso reconhecê-lo sem rodeios; uma ética
heurística: de nada serve levantar problemas ou atacar questões que ultrapassam
os nossos meios de investigação, e uma ética epistemológica: os propósitos, os
meios, os objectivos devem ser constantemente avaliados para serem retidos ou
rejeitados, eventualmente, sans parti pris (...) ou sem estados de alma»
(pp.17-18). Registe-se, neste saber de experiência feito, aquela típica (e
correctiva) deflação de expectativas legada por Popper à epistemologia
contemporânea.
Um segundo ponto, este de ordem
simultaneamente epistémica e antropológica, tem a ver com os trabalhos de campo
do autor na área da Antropologia Médica. Diz-nos Varela que durante uma dessas
investigações no Lesoto, dedicada a «entrevistar os terapeutas tradicionais
para obter em primeira mão informações sobre o seu sistema de classificação de
doenças, seus sintomas e terapêutica» (p. 10), um terapeuta tradicional lhe
afirmou de súbito ser capaz de tornar as pessoas invisíveis. Por um momento, a
impessoalidade científica do antropólogo (um dos mitos fundadores da
antropologia, como se sabe) foi abalada, tendo Varela, muito consciente do seu
«erro», reagido asperamente, dizendo «"Por quem me toma? Como é capaz de
acreditar que vou engolir uma patranha dessa natureza"?» (p. 11). Ao que o
indivíduo em causa terá respondido, em tom violento, que seria capaz de tornar
o investigador invisível naquele preciso momento. Esta história de exemplo
– que, agrupada a outras, permite a Varela afirmar que a ciência é
essencialmente uma educação do olhar, já que «o olho humano vê coisas que não
existem» (p. 11) – é assaz esclarecedora daquilo a que podíamos chamar a
difícil conciliação do racionalismo crítico com o relativismo cultural. A perda
de serenidade, ou compostura, do observador perante as manifestações do Outro
da Razão (o irracionalismo, a razão primitiva, o pensamento selvagem), vem
demonstrar-nos que face à universalidade da Razão Crítica (ou científica: as
palavras são aqui sinónimas, como aliás na grande tradição herdada da
Aufklärung) tudo o resto são «curiosidades de etnólogo». O texto de Varela,
como essa tradição de que parte, funda-se assim numa «divisão social e cultural
das disciplinas» - ou, noutra perspectiva, numa disciplinação dos objectos e
dos saberes -, que reserva para nós, os observadores, a epistemologia, e guarda
para os observados a antropologia que deles faz objectos «locais» de ciência. A
perda de compostura do observador é pois o limiar sintomático, e por isso
sensível, da referida articulação disciplinar: o antropólogo sabe que o objecto
é assim e deve ser aceite como tal, isto é, dentro das fronteiras epistémicas
que o definem e situam; e contudo, o sabê-lo não elimina o seu desagrado por o
objecto ser como é, sobretudo quando ele manifesta ostensivamente – pela
linguagem – o seu ser. E isto porque, ao dizer-se sem censura, o objecto
extravasa os limites da sua aceitabilidade, ou, se se quiser, da sua (escassa)
decência epistemológica. A Razão, como é manifesto, não consegue assistir
impassível ao espectáculo da indiferença pela sua universalidade que o
pensamento primitivo – ou o objecto «local» - activam.
O texto de J.M.Varela
articula-se de modo notório, neste ponto, com aquele que é um dos textos mais
interessantes do volume, o de Arsénio Firmino de Pina, na secção
«Autoradiografia duma actividade profissional: como fiz o que pude», texto
intitulado «Cultura, Política e Cuidados de Saúde – Experiência de um
Pediatra no Continente Africano». Saúde-se desde já a ideia de criação desta
secção, já que o texto em causa nos esclarece amplamente sobre o alcance cívico
dela, na medida em que nos permite conhecer o admirável trabalho de edificação de
uma nação levado a cabo pela geração que o autor integra. Uma vez que tal
geração não parece disponível para produzir as Memórias que deve ao povo
cabo-verdiano, esta secção poderá contribuir para minorar os danos de um tal
silêncio.
Firmino de Pina começa por
narrar a história da luta contra a carência assistencial no âmbito pediátrico à
data da independência, avançando no final com o elenco – absolutamente
eloquente – das estatísticas dos sucessos resultantes de mais de duas
décadas de trabalho. Passa então a descrever o seu labor noutros países da
África Central, como conselheiro técnico principal da OMS
«O que intriga quem não teve a
vivência desses países africanos é a persistência desses tabus, preconceitos e
assassínios rituais; na realidade, embora haja leis que as proíbam, estas
raramente se cumprem por os dirigentes e intelectuais, na sua grande maioria,
também, acreditarem nisso, ou, quando não acreditam, pouco actuam com medo de
vinganças (algumas vezes concretizadas, por envenenamento) por contestarem ou
negarem a tradição e os costumes, aproximando-se dos europeus. Tive a
oportunidade de falar, detidamente, com dois amigos de um desses países (...)
sobre o assunto, mas tive de desistir porque acreditavam, piamente, nisso e não
me consideravam africano» (p. 95).
Estas palavras acabam por,
dir-se-ia que inevitavelmente, introduzir a vexata quaestio da definição
geo-cultural de Cabo Verde, já que a discrepância de atitudes em relação às práticas
em pauta levaria os africanos a negar aos cabo-verdianos um estatuto plenamente
africano. Como nos diz o autor, «Na realidade, independentemente da cor da
nossa pele, os africanos de gema não nos consideram seus pares» (p. 95, itálico
meu). Atente-se na expressão «africanos de gema» e no que ela parece significar
de uma extraterritorialidade da cultura cabo-verdiana. O texto de Firmino de
Pina, em boa verdade não faz senão acentuar essa extraterritorialidade,
contribuindo para lançar mais «achas para a fogueira» da discussão sobre a
tipologia da «africanidade» de Cabo Verde: um país não animista e fortemente
católico, crioulizado, etc, é menos africano – e mesmo, eventualmente,
não-africano - que um dos da África Central? A discussão, décadas depois da
teorização da negritude, não deixa de ser cansativamente anacrónica para agora
a relançarmos. Mas não há dúvida de que o apelo final do autor a que os
intelectuais africanos sejam «consequentes», nos coloca de novo na encruzilhada
do racionalismo crítico com o relativismo cultural: por outras palavras, qual é
a fronteira entre a compreensão e admissão da diferença cultural e a abdicação
perante os custos «humanos» dessa diferença (sobretudo para um médico pediatra
que vê crianças serem mortas em práticas rituais de suposto efeito curativo)?
Qual a margem de negociação entre a Razão Crítica e o Pensamento Selvagem? Será
possível, ou desejável, conciliar, nos países em causa, relativismo cultural
com discursos e práticas governamentais de teor iluminista (onde os haja)? O
mais interessante dos textos de J.M.Varela e Arsénio Firmino de Pina é
justamente a adopção intransigente de uma posição em que a abertura ao
relativismo cultural (abertura sempre problemática, como vimos) não redunda em
legitimação do status quo, nem sequer em reivindicação de uma qualquer condição
de excepção para a cultura política africana (no mais alargado sentido de
«política»), argumento recorrente nos discursos de e sobre africanos. Estamos
sim perante dois notáveis exemplos de uma intelectualidade africana consequente
e intransigente na assunção de todas as consequências do seu posicionamento
crítico.
3. Diga-se que todos os
textos de Anais afinam por idêntico posicionamento. António Correia e Silva, em
«Para uma sociologia histórica de uma cidade-porto. As especificidades do
Mindelo no contexto das cidades cabo-verdianas», debruça-se sobre esse «objecto
epistemológico privilegiado» da sociologia histórica de Cabo Verde (mas também
problemático, dado o seu carácter transitivo) que são as cidades-porto, cidades
«que conferem [ao] arquipélago dimensão cosmopolita» (p. 19). A sua análise
pode talvez resumir-se nesta citação: «Da observação histórica dos vários casos
de integração de Cabo Verde nas redes de circulação atlântica, acima aludidos,
parece legítimo erigir-se uma assunção como hipótese: a dinâmica atlântica
intervém sobre o arquipélago de forma pontual e quase cirúrgica, dele
arrebatando para o mundo dos tráfegos não mais do que um porto e o seu
prolongamento terrestre imediato» (p. 20). A sua análise corrobora esta
hipótese, tornando clara a situação de dependência das cidades-porto da
conjuntura internacional e, com elas, do próprio arquipélago.
A questão da inserção de Cabo
Verde na dinâmica global é ainda o tema dominante do texto de Manuel Varela
Neves, «As Ilhas Maurícias e as ilhas de Cabo Verde. Notas sobre liberalismo e
Estado Providência». É este um texto dominado pela ansiedade própria de uma
transição de modelos: o autor, que perfilha um liberalismo moderado, dirá que a
situação aconselha «o bom senso e a prudência, evitando o desmantelamento da
pouca providência que resta em nome dos dogmas neoliberais em naufrágio» (p.
55), chamando a atenção para alguns sinais de crise na economia cabo-verdiana
dos anos 90 («um crescimento errante, um avolumar excessivo da dívida pública,
essencialmente da dívida interna, uma drástica diminuição das reservas
externas», p. 52). E propõe como modelo de desenvolvimento para Cabo Verde as
Ilhas Maurícias, cuja experiência, seguida com crescente interesse em todo o
mundo, permitiria «entender que a inserção requer uma estratégia, um modelo,
uma gestão» (p. 51).
Menos conjunturalmente motivado,
o estudo de João Estêvão - «A transição económica, a acção do Estado e o
contexto insular: algumas considerações sobre o caso de Cabo Verde» - é uma das
mais sólidas peças de scholarship do volume, oferecendo uma interpretação
macroestrutural, apoiada numa reflexão doutrinária, da economia cabo-verdiana e
da sua transição para uma economia de mercado. Como António Correia e Silva ou
Manuel Varela Neves, também Estêvão acaba por se fixar na análise dos bloqueios
resultantes do facto de a extroversão ser o elemento decisivo da transição nas
pequenas economias insulares. Como nos diz a certa altura, «As relações com o
exterior são decisivas para o funcionamento das economias insulares devido,
principalmente, à inadequação entre as estruturas da oferta e da procura. A
importância dessas relações leva Bernard Poirine a falar de uma lei geral do
desenvolvimento económico insular. Segundo essa lei, quanto menor o tamanho de
uma economia insular mais ela deve abrir-se ao exterior para atingir um
determinado nível de desenvolvimento económico» (p. 69). Mais adiante,
abordando o conflito entre a dimensão escassa do mercado interno e a dimensão
óptima da produção, bem como a associação da pequena dimensão com a distância,
afirma o autor: «O problema é relativamente complicado: se o conflito entre a
dimensão do mercado interno e a dimensão óptima da produção impede que a
estratégia de desenvolvimento seja baseada na dinâmica do mercado interno, a
distância em relação aos mercados internacionais torna mais difícil o
aproveitamento das possibilidades criadas pela abertura ao comércio
internacional. Ou seja, enquanto que a pequena dimensão empurra a economia para
uma maior integração internacional, a distância tende a limitar os benefícios
dessa integração. Mas a forma mais adequada para reduzir a distância é,
precisamente, a intensificação das relações com o exterior. E aqui a acção do
Estado é decisiva» (pp. 69-70).
Esta indispensável acção do
Estado, na promoção e regulação do desenvolvimento, na regulação da conjuntura
ou na salvaguarda do bem-estar social (dimensões abordadas por Estêvão no
último ponto do seu estudo), é ainda reconhecível na área energética, sobretudo
quando se trate de pensar alternativas na área das energias renováveis, matéria
abordada por Ruy Spencer Lopes dos Santos em «Vicissitudes e perspectivas das
energias renováveis em países e regiões de pequenas dimensões e reduzida
população».
Uma posição de também alguma
ansiedade em relação a um excessivo emagrecimento do papel do Estado é
reconhecível no texto, já referido, de José Vicente Lopes, «O Estado e a
transição para a democracia na África lusófona». Trata-se de um excelente
esboço de uma história da luta pela emancipação dos povos das ex-colónias
portuguesas e, depois, da construção dos respectivos Estados. O autor analisa
as doutrinas postas em prática nos vários países, da concepção radical de
Samora Machel segundo a qual «era preciso matar a tribo para que a nação
pudesse nascer» (p. 38) até ao caso cabo-verdiano, em que o facto de se tratar
de um arquipélago e de a consciência de nação ser anterior à luta de libertação
fez com que o país, como aliás S. Tomé e Príncipe, escapasse aos traumas da
formação do Estado-Nação. Para Vicente Lopes, o problema político central
4. Refira-se por fim que
Anais inclui ainda, além de noticiário cultural, entrevistas aos galardoados
com os prémios Micadinaia, atribuídos pela AECCOM a 3 personalidades
mindelenses nas áreas da cultura, do urbanismo ou desenvolvimento físico da
cidade, e do mundo empresarial; e ainda um texto, neste número de Humberto
Duarte Fonseca, sobre «Alguns aspectos de problema da poluição. Ligação com
parâmetros meteorológicos e notas sobre cabo Verde», incluído na secção
patrimonial «O nosso espólio científico», secção na qual se pretende republicar
«trabalhos de investigadores cabo-verdianos do passado».
Parece, pois, evidente que Anais
responde, como no início se disse, a um programa que em rigor se deveria
designar como sendo «de intervenção cívica» na sociedade cabo-verdiana num
momento crucial do seu processo de inserção no contexto internacional. Esse
programa pressupõe, como vimos, a criação da universidade que desde já Anais
antecipa. Em rigor, Anais é a primeira publicação dessa futura universidade.
Resta-nos esperar que honre o seu nome, mantendo-se com a qualidade deste número
por longos anos.
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