On Capeverdean literature

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About Orlanda Amarilis. 2

A desmistificação da emigração Cabo-verdiana na obra de Orlanda Amarílis Kathryn Bishop-Sanchez  2

A POÉTICA CRIOULA DE SÉRGIO FRUSONI 8

Baltasar Lopes. 12

Brasil e Cabo Verde: um diálogo entre José Lins do Rego e Baltasar Lopes. 12

«O Caboverdiano vê-se confrontado, inevitavelmente, com questões de ordem.. 15

ontológica». 15

O crioulo e o Português no processo de afirmação em Cabo Verde. 21

Manuel Veiga. 21

Odju d’agu, de Manuel Veiga. 28

Insularidade fecunda. 36

A escrita da terra em Manuel Lopes e na Claridade. 41

Entre a fugida e a viagem: a poética da "ilha". 43

A construção do ideal nacional e a constituição de novas literaturas em África. 51

Manuel Lopes toujours fidèle à Claridade. 55

Vêem-se caras mas não se vêem corações: no lançamento do livro porcos em delírlo de Jorge Carlos Fonseca. 59

Inquérito a escritores de Cabo Verde. 67

Respostas ao inquérito. 67

Dina Salústio. 69

Teixeira de Sousa. 71

Jorge Carlos Fonseca. 72

Manuel Veiga. 73

Tomé Varela. 74

Vasco Martins. 76

Vera Duarte (Escritora) 77

Dina Salústio : A Louca de Serrano por Adelaide Batista. 78

Clara Andermatt, António Tavares e os outros: a dança contemporânea e as relações (não perigosas) entre Portugal e Cabo Verde. 93

L'univers de l'ile et les iles de l'univers. 96

MYTHES ET LÉGENDES - LE MOMENT « ATLANDIDE ». 99

Jorge Barbosa:« Quando o descobridor chegou. 99

Corsino Fortes: O épico da Caboverdianitude serena?. 101

Corsino Fortes e a tradição clássica. 102

CORSINO FORTES, PABLO NERUDA & SAINT- JOHN PERSE.. 105

PÃO & FONEMA : IDENTIDADE POÉTICA E BUSCA DA PÁTRIA.. 106

Intervenção na II festa da língua Portuguesa. 110

Ilha & Poema: celebração do arquipélago na poesia de Corsino Fortes. 118

UMA PUBLICAÇÃO PARA OS ANAIS DE CABO VERDE.. 121

 

About Orlanda Amarilis

Inquietos olhares: A construção do processo de identidade nacional nas obras de Lídia Jorge e Orlanda Amarílis (Jane Tutikian)

http://www.fflch.usp.br/dlcv/posgraduacao/ecl/pdf/via02/via02_07.pdf

 

Orlanda Amarílis, literatura de migrante (Benjamin Abdala Junior)

http://www.fflch.usp.br/dlcv/posgraduacao/ecl/pdf/via02/via02_06.pdf

 

PhD dissertation on female authors from English speaking countries, Cape Verde (Dina Salústio, Orlanda Amarilis) and Mozambique: http://www.library.uu.nl/digiarchief/dip/diss/2003-0310-101002/inhoud.htm

 

Micro-universes and Situated Critical Theory: Postcolonial and Feminist Dialogues in a Comparative Study of Indo-English and Lusophone Women Writers (pdf-file)

 

 

A desmistificação da emigração Cabo-verdiana na obra de Orlanda Amarílis Kathryn Bishop-Sanchez

 

1. O livro de contos Cais-do-Sodré té Salamansa (1974) de Orlanda Amarílis (1) insere-se na tradição literária cabo-verdiana de uma maior tomada de consciência nacional que parece ter-se divulgado a partir do primeiro número da revista Claridade, de 1936 (2). É lugar comum considerar-se que os escritores do arquipélago da última metade do século XX decidiram "romper com os arquétipos europeus e orientar a sua actividade criadora para as motivações da raiz cabo-verdiana." (Ferreira 37)   (3). Este movimento de desapego em relação à literatura europeia marca o início de uma literatura moderna cabo-verdiana na qual a realidade de Cabo Verde se torna a temática principal. Surge então na literatura uma consciência da autenticidade da cultura nacional, a caboverdianidade (4); os problemas específicos do arquipélago (a fome, as secas, a emigração, a pobreza, a nostalgia do exilado…) encontram-se no centro das narrativas. O crítico norte-americano Gerald Moser comenta o evento da literatura moderna cabo-verdiana da maneira seguinte (5):

 

•Criaram-se os alicerces de uma literatura nacional entre 1935 e 1960. Nesta época, um pequeno grupo de intelectuais juntou-se à volta do poeta Jorge Barbosa, em Mindelo, porto principal das Ilhas. Inspirados pelo exemplo de escritores brasileiros contemporâneos, muitos deles provindo do Nordeste do Brasil (região comparável pela sua pobreza e pelas secas a Cabo Verde), os escritores cabo-verdianos começaram a produzir uma escrita especificamente sua, apoiando-se na observação atenta do falar, das tradições e da maneira de viver das pessoas comuns e correntes das Ilhas. (p.2)

 

Os autores cabo-verdianos começaram, portanto, a empenhar-se em representar o ‘chão crioulo’. Influenciados também provavelmente pelo modelo dos neo-realistas portugueses, os escritores de Cabo Verde começaram a aperfeiçoar a arte do retrato social. Desta perspectiva, o leitor atento não pode deixar de se dar conta da importância do tema da emigração na produção literária cabo-verdiana. As condições económicas das ilhas ajudam a explicar a emigração como constante da realidade cabo-verdiana, e, por extensão, a importância da emigração como tema literário. Sem pretender fazer aqui uma enumeração exaustiva das referências à emigração na literatura do arquipélago, gostaria no entanto de referir alguns dos aspectos da emigração cabo-verdiana tal como surge nas obras literárias.

 

O arquipélago cabo-verdiano, circundado pelas águas hostis do Oceano Atlântico, tem vindo a ser representado ciclicamente como uma prisão para quem não pode partir; como um refúgio para a população protegida e satisfeita que nele habita; e como um porto de partida para quem consegue emigrar. Do mesmo modo, na poesia e na prosa cabo-verdianas aparece frequentemente a dicotomia do mar que cerca o arquipélago: por um lado, o mar protege, mas também separa; por outro lado, o mar representa o único caminho da liberdade. A poesia de Jorge Barbosa, assim como a novela Chiquinho de Baltazar Lopes, entre outros, ilustram estas interpretações literárias do mar e do arquipélago. Quer se trate da evocação do desejo de evasão, quer se trate da dor no momento da partida - ‘a hora di bai’ - a emigração marca de maneira inconfundível a escrita nacional.

 

Porém, a questão da emigração como linha temática na literatura cabo-verdiana não é despida de polémica. Em 1963, o escritor e crítico Onésimo Silveira denunciou o aspecto ‘evasionista’ da literatura cabo-verdiana no seu artigo "Consciencialização na literatura cabo-verdiana" (6):

 

•Uma das notas dominantes da literatura criada por este Movimento [de Claridade], quer na poesia quer na novelística, foi o evasionismo. Com esta atitude espiritual propuseram-se os componentes do Movimento exprimir uma dada situação de existência do povo cabo-verdiano, decorrente do condicionamento geográfico e telúrico do arquipélago, e que conceberam como o drama da evasão do ilhéu… Focando o drama da evasão, a dualidade "querer partir e ter que ficar" ou "querer ficar e ter que partir’ - conforme a filosofia evasionista de cada um - acabaram por simplificar, arbitrariamente, este complexo problema e por oferecer uma imagem estereotipada do homem cabo-verdiano, renunciando conscientemente a buscar as raízes psicológicas e sociais do facto emigratório. (pp.245-46)

 

Neste ensaio, uma visão romantizada e simplificada da emigração cabo-verdiana é claramente alvo de crítica. Silveira condena tal interpretação da emigração das ilhas, atribuindo-a às decepções dos escritores "avassalados pela frustração resultante do desejo irrealizado de conhecer e viver em meios mais fortemente ocidentalizados que o meio cabo-verdiano."(p.246). Além disso, a sua crítica denuncia a imagem transtornada da emigração na literatura cabo-verdiana, indicando que só se costumava reflectir "nas obras dos claridosos o facto de emigração para as Américas e jamais a emigração degradante para terras como S. Tomé e Príncipe". Da mesma maneira, o ensaísta critica os estereótipos, assim como "a atitude estéril dos claridosos perante as grandes crises que, na década de quarenta, trouxeram a morte a milhares de cabo-verdianos." (248). Segundo Silveira, a romantização da emigração e a consequente deturpação da realidade projectam uma imagem infiel da vida cabo-verdiana.

 

Passemos agora à primeira colecção de contos de Orlanda Amarílis (7) que, pelas imagens que nos transmite da emigração, nos interessa particularmente neste estudo. Publicada uma década depois do ensaio de Onésimo Silveira, a colecção Cais-do-Sodré té Salamansa ilustra uma perspectiva da emigração distinta da literatura evasionista dos claridosos denunciada por Silveira: a contista pinta de facto uma imagem menos idealizada da emigração cabo-verdiana e "alarga o seu discurso à diáspora cabo-verdiana em Lisboa." (Ferreira 125) (8)

 

Em Cais-do-Sodré té Salamansa, Amarílis apresenta uma visão nostálgica da terra natal e simultaneamente uma tomada de consciência nacional cabo-verdiana. Temos de sublinhar que esta sensibilidade não é apresentada a partir das ilhas cabo-verdianas, como era frequentemente a tendência dos claridosos, mas é desenvolvida a partir de longe, no estrangeiro. Além disso, não se trata de um evocação utópica de um mundo melhor sem tê-lo conhecido previamente. Tanto os protagonistas descritos nos contos como a própria autora têm amplo conhecimento dos dois mundos, a vida insular e a vida no continente.

 

Neste estudo, limitar-nos-emos à análise de um dos contos incluídos na colecção Cais-do-Sodré té Salamansa, "Desencanto", que testemunha da visão pouco romantizada da emigração que apresenta Orlanda Amarílis.

 

conto "Desencanto", situado simbolicamente no meio da colecção, apresenta o mal-estar do cabo-verdiano (sobre)vivendo longe das ilhas natais. Em comparação com a tradição evasionista do movimento de Claridade, os eventos e os sentimentos provocados pela experiência da emigração são apresentados sem idealização romântica neste conto. Não se trata de imagens falsamente paradisíacas de terras desconhecidas ou da "terra-longe" denunciadas por Silveira; a autora sugere, pelo contrário, uma perspectiva intimamente ligada à realidade do emigrado, sem tentar poetizá-la nem transformá-la. Estamos nitidamente no início de uma fase mais madura da literatura cabo-verdiana, mais céptica em relação aos mitos da emigração dos cabo-verdianos.

 

No conto "Desencanto", como aparece de forma explícita em pelo menos dois outros contos de Amarílis (p.9), a vida lisboeta que é posta em evidência é a dos lugares públicos de circulação constante de passageiros: a protagonista do conto mora na linha Lisboa/Cascais e viaja até ao Cais-do-Sodré para depois apanhar o barco que a levará ao outro lado do Tejo. É nesta viagem quotidiana que toda a história se desenvolve.

 

Para enfatizar os movimentos da protagonista, Amarílis destaca a pressa da cabo-verdiana ao longo do trajecto a partir de casa até ao seu destino. Focalizando a sua corrida, o seu "pisar rápido e nervoso", apontando que ela "voa…apressada" ao descer as escadas até a rua que alcança "em quatro passadas", pondo em evidência a corrida até o comboio, a narração obriga-nos a sentir o ritmo sobressaltado da existência da cabo-verdiana em Lisboa. Veja-se mais este exemplo: "sai apressada do eléctrico…corre e arqueja um pouco. O comboio está a chegar à estação. Não o pode perder. Não pode…Afoga-se num mar de suor. Esbraceja num último esforço. Enfim. Foi por um triz." (p.60).


Na viagem de comboio, o movimento apressado continua. A narração enfatiza a velocidade do comboio, que só pára em certas estações: "este é rápido. Desliza e apita nas estações onde não pára hoje e todos os dias." (p.61). Na chegada à outra margem do Tejo, a pressa é de novo evocada: "Daqui a pouco com mais um esticão será outra etapa outra corrida para o escritório sobranceiro à praça larga suja de papéis e folhas secas." (p.62). Todos estes elementos sublinham o ritmo rápido da viagem que, por analogia, é representativo do ritmo de vida veloz e cansativo numa sociedade moderna.

 

Nesta narrativa, Amarílis inclui retratos significativos da multidão que acompanha o emigrado nesta luta diária para chegar ao lugar de trabalho. A imagem da sociedade assim criada deixa-nos entrever com clareza o meio ao qual a protagonista tenta adaptar-se e no qual quer sentir-se integrada. Ao longo da viagem, vemos que os transportes públicos estão sempre superlotados, o que permite sublinhar o contacto obrigatório e inevitável de cada passageiro com um grupo de viajantes habituais. No eléctrico, e depois no comboio, a protagonista deve fazer face aos transportes sempre cheios: "A bicha nunca mais finda e o eléctrico ronca de papo-cheio." (p.57). No comboio daquela hora de ponta a protagonista não consegue encontrar um lugar sentado e faz a viagem em pé: "De pé, continua a ler os títulos em letras gordas." (p.61). Ao chegar ao Cais-do-Sodré, ela sai "empurrada pelos outros" (p.61), o que sublinha de novo a pressa e a agressividade dos viajantes nessa fase da viagem. E o tumulto prolonga-se na última etapa do seu trajecto, na travessia do Tejo: "O barquinho das mil e uma noites vomita uma mole de gente e engole-a por sua vez para a levar à outra banda." (p.62). O Cais-do-Sodré, lugar de movimento constante devido às chegadas e partidas de comboios e à proximidade dos barcos cacilheiros, representa um lugar de agitação. É um cruzar incessante de pessoas, na maioria desconhecidas entre si, e em transição no vai-vém perpétuo da cidade moderna. É neste meio que a cabo-verdiana é obrigada a reflectir sobre a sua posição na sociedade moderna, da qual tenta seguir, inquietamente, o ritmo.

 

Esta corrida constante nos transportes públicos, como ficou atrás evocado, repete simbolicamente o ritmo agitado da vida da protagonista. Com a mudança constante de trabalhos ["corrida de empregos" (p.60)], a sua vida tem sido um "escorregar constante" (p.60). A comparação da sua vida com um ‘escorregar’ sugere ao leitor que os eventos escapam ao seu controle. A rapidez da vida e as suas inconstâncias projectam-na num mundo hostil, sem amigos, sem apoio, numa existência que lhe escapa.

 

Esta agitação da sociedade moderna lisboeta contrasta com as lembranças de uma vida sossegada na sua terra natal: a "cidade parada" (p.58) do arquipélago ressurge na memória da protagonista e estabelece um ponto de comparação com a sua vida actual em Lisboa. É então que ela se indaga sobre a sua condição de mulher mestiça no estrangeiro: "Voltar para quê? Para vegetar atrás das persianas da cidade parada e espreitar as mulheres trazendo a água do Madeiral em latas à cabeça ou os homens puxando as zorras com os sacos para a casa Morais?" (p.58). Neste excerto percebemos o sentimento de desapego e desdém que a protagonista sente para com a sua terra natal. Ela elimina a possibilidade de voltar a Cabo Verde: agora, acostumada à vida mais civilizada, a vida menos progressista das ilhas não lhe parece ter muita atracção.

 

Tudo no conto tende a apresentar-nos o lado impessoal e monótono de uma sociedade moderna. As relações humanas com os companheiros de viagem (do edifício, do Cais-do-Sodré, da paragem do eléctrico,…) não vão além de um cumprimento banal: "Bom dia. Passou bem?" A repetição do mesmo cumprimento pronunciado distraidamente por pessoas diferentes reforça a impessoalidade das relações humanas neste trajecto. A protagonista, apesar de reconhecida e cumprimentada, permanece uma pessoa anónima. Na narrativa não se revela nenhuma informação sobre a sua identidade. Ao chegarmos ao fim do conto, nem sequer sabemos o seu nome. Os companheiros de viagem da cabo-verdiana podem reconhecê-la, mas não há nenhuma intimidade entre eles. Por sua vez, a protagonista tenta adivinhar mentalmente a identidade dos companheiros cujos gestos e olhares observa com atenção: "Viúvo? Casado? Uma ruga vinca-se-lhe entre as sobrancelhas arranjadas." (p.63). São contactos estéreis, despidos de interesse e calor humanos, os que a protagonista tem com os seus companheiros de viagem quotidianos.

 

Em cada etapa da viagem da protagonista surgem-lhe pensamentos que mostram que a sua existência é totalmente indiferente para as outras pessoas concentradas nas suas próprias vidas. Presenciamos claramente esta indiferença na viagem de comboio até ao Cais-do-Sodré: "Procura lugar com os olhos. Os outros vêem-na indiferente. O cavalheiro magrinho da frente lê concentrado o jornal da manhã." (p.61). Nesta cena, à indiferença sentida acrescenta-se a falta de reconhecimento público, posto este último em relevo pela comparação que ela faz mentalmente entre a sua vida e a dos heróis descritos nos jornais. O seu sacrifício diário, por mais importante que lhe possa parecer a ela pessoalmente, passa despercebido. Vemo-la reflectir: "Não será ela também uma heroína de todos os dias neste ciclo de etapas cronometradas de onde não pode fugir?" (p.61). Nesta sociedade impessoal e fria, ela sente-se abafada, a viver nos confins de uma monótona rotina. A impressão de ser prisioneira num sistema do qual não pode sair, e de ter que cumprir com "etapas cronometradas", reforça a ideia de sufocação.

 

Podemos afirmar, depois dos comentários e exemplos referidos atrás, que a sua integração nesta sociedade citadina é apenas superficial. Apesar de compartilhar exteriormente a mesma experiência que os companheiros de viagem, ela não esquece nem esconde as suas origens; e sente-se só dentro desta sociedade. A compreensão da sua solidão é causa de grande tristeza. Ao alcançar as docas da outra margem do Tejo, vemo-la só dentro da multidão: "resvala por entre as gentes, estranha solitária no seu casaco de quadrados." (p.64). Projecta-se-nos assim a imagem de uma mulher sozinha (10), estrangeira numa terra alheia.

 

Apesar da agitação e do movimento dos passageiros, sobressai a monotonia da viagem, que podemos atribuir à monotonia das relações sociais na sociedade moderna. Na página 58 lemos: "sempre as mesmas caras todas as manhãs. Sempre as mesmas." A senhora do casaco claro, a aprendiza de cabeleireiro, a mulherzinha da alcofa, a escriturária…fazem parte do seu ritual diário. Mas, tal como a protagonista, eles todos são anónimos e são apenas designados pelos seus ofícios.

 

Esta monotonia põe em relevo a impressão de vazio que a protagonista sente na sua vida lisboeta. Tal como ela, os companheiros de viagem parecem levar uma vida sem calor humano onde as pessoas, autómatos, vivem o mesmo ritual insignificante diariamente. Isso transparece na descrição da saída do comboio, onde ela se deixa levar pela multidão no Cais-do-Sodré : "Empurrada pelos outros atravessa a gare. Um autómato de passos certos. Alcança a porta envidraçada da saída e desce as escadas." (p.61). Esta monotonia prolonga-se até ao lugar de trabalho, onde ela é obrigada a "ouvir a mesma conversa todos os dias." (p.60) Tudo aquilo que se refere ao trabalho, à viagem, aos transportes, aos companheiros de viagem, sublinha a monotonia de sua existência de "autómato".

 

Neste conto, Amarílis evoca a insatisfação que a protagonista sente em todas as facetas da sua vida. Como referiu o crítico Fernando Mendonça, ela descreve com talento "a inadaptação que o cabo-verdiano sofre fora do seu ambiente insular." (p. 47) (11) Esta insatisfação na sua vida em geral ressurge nas suas tentativas de estabelecer relações sociais e pessoais. As relações evocadas no conto, como já se sugeriu, não vão além de um nível superficial. São relações humanas incompletas, despidas de sentido profundo e verdadeiro.

 

Vejamos alguns exemplos concretos. Amarílis evoca a dado momento a relação que a protagonista teve com um homem casado que a enganou. A cabo-verdiana tenta afastar esta lembrança, esperando poder esquecer o tocar insincero do amante: "Se pudesse limpar da cara a sensação das carícias que ele lhe fazia. Costumava passar-lhe a mão pela face e prescrutar-lhe bem fundo nos olhos à espera de não sei de quê. Malandro. Sempre gostava de saber o que é que ele queria." (p.63). Ela fica com dúvidas para as quais, numa vida sem sentido, não tem resposta que a satisfaça. As suas inquietações e frustrações remetem-na para a miséria da sua existência triste e medíocre.

 

mal-estar cultural que lhe nasce ciclicamente das relações humanas é o que provoca o sentimento de perda da sua dignidade. Tal tema ocupa uma posição proeminente e parece carregar-se de sugestões. Num dos episódios evocados no conto, é claramente implicado que ela ocupou anteriormente uma posição de submissão no emprego. Reflectindo sobre este trabalho retrospectivamente ela admite: "já estava a adaptar-se à vida de pau mandado." (p.59). No trabalho, a sua inexperiência, a falta de conhecimentos e uma educação insuficiente provocaram nela um sentimento de inferioridade: "nunca conseguiu enfrentar os clientes sabidos e desnudaram-na com os olhos lascivos. Quando isso acontecia corava e tremia. Nem sabia já para onde se voltar." (p.59). A experiência que ela vai adquirindo no mercado do trabalho reforça a sua consciência das suas humildes origens de mulher das ilhas cabo-verdianas, passado do qual não se pode desfazer.

 

No episódio atrás-referido, os homens parecem arrogar-se o direito de olhar para a protagonista mestiça com "olhos lascivos". Podemos ler na atitude degradante dos homens frente a esta mulher das ilhas simultaneamente uma manifestação do desequilíbrio racial e da diferença entre os sexos (12). Da mesma maneira, o último encontro relatado nesta narrativa sublinha a relação de forças desigual que existe entre as raças nesta mundividência. Isso é claro no comentário que alguém dirige ao "homem do chapéu preto": "Malandro, estás a fazer-te prá mulata" (64). A seguir as duas pessoas "riem baixo". Esta simples conversa entre dois estranhos leva a protagonista a reflectir mais seriamente sobre a sua condição de mulher mestiça e emigrante na sociedade portuguesa: "esse riso é uma afronta. Sempre a fugir de andar com os patrícios de cor para não a confundirem e afinal é um branco que lhe vem lembrar a sua condição de mestiça." (p.64). Tentando evitar a companhia de outros cabo-verdianos, ela não consegue contudo esconder as suas origens.

 

A ideia de alienação das raças e de insatisfação social por causa da cor corresponde, como se sabe, ao tema contemporâneo da negritude. Richard A. Preto-Rodas refere-se claramente a este conceito quando, ao princípio do seu estudo Negritude as a Theme in the Poetry of the Portuguese-Speaking World, afirma o seguinte:

 

•Apesar de adoptar as maneiras sociais e ideias culturais do grupo social dominante, o poeta negro dá-se progressivamente conta que a sua integração na sociedade europeia (i.e. dos brancos) é apenas parcial e que o seu lugar inferior provém igualmente da sua cor. Não importa o grau de assimilação do vestir, da linguagem, do comportamento social, ele é principalmente um advogado ou um senador preto, ou, politicamente, um preto francês ou americano. Contanto que seja preto (ou mestiço), a assimilação total está fora de alcance." (p.2) (13)

Preto-Rodas expõe a seguir que a posição do negro na sociedade europeia será sempre insatisfatória, dado que à medida que se assimila à sociedade, ele "se dissocia de seus compatriotas por causa de suas preferências sociais e culturais, assim como da comunidade branca por causa de sua cor." (p.2)

 

É este fenómeno bipartido da assimilação superficial na sociedade ‘dos brancos’, por um lado, e do afastamento cultural do país de origem, por outro, que Amarílis põe em cena no conto "Desencanto". A protagonista não pode mudar a sua condição de mestiça, nem esconder a sua identidade verdadeira; portanto, não vai nunca poder fazer integralmente parte da sociedade acolhedora. Mendonça comentou este isolamento repetidas vezes sugerido na obra de Amarílis, isolamento que é evocado neste passo pela protagonista de "Desencanto": "É em Lisboa que verdadeiramente [os emigrados] se sentem insulados e, na maior parte das vezes, insulados pela própria cor. Isso parece trazer-lhes um desencanto permanente…"(p.47).

 

fim do conto pinta uma triste imagem da realidade de uma cabo-verdiana no estrangeiro: num cruzamento entre duas culturas e sociedades, ela já não pertence à sociedade das ilhas, mas ao mesmo tempo a sua aprovação na sociedade europeia permanece incompleta. Podemos considerar a totalidade da narrativa da viagem neste conto como uma cena onde é exposta ou representada a vida do emigrado. A protagonista, representando toda e qualquer mulher e, até certo ponto, todo e qualquer homem, emigrante no estrangeiro, interroga-se sobre a sua condição e as possibilidades que se lhe oferecem. "Pensara em voltar. A madrinha bem a aconselhara. Não. Não podia ser. Ter de se adaptar de novo começar tudo de princípio. Como se fosse possível uma coisa assim." (p.58)

 

Neste conto, como se tornou já evidente, sobressaem a insatisfação com a vida em Lisboa, o lado impessoal dos contactos humanos, e a solidão do emigrado longe da terra natal. A integração da protagonista cabo-verdiana na sociedade é superficial, apesar da familiaridade com uma rotina estabelecida. Mulher mestiça, ela não pertence a esta terra e sofre com a sua desadaptação sem remédio; mas ao mesmo tempo vemos que ela tenta esquecer as origens cabo-verdianas e que elimina a possibilidade de um retorno às ilhas.

 

A conclusão do texto é significativa: "Oh céus! É uma cigana errante, sem amigos, sem afeições, desgarrada entre tanta cara conhecida." (p. 64) Este último comentário corresponde ao crescendo final, o "peso inteiro que se culmina ao fim do conto"(p.81) (14). Longe de dar forma a uma romantização da emigração cabo-verdiana, notamos que este conto põe em relevo a insatisfação com a vida, ou, como o indica claramente o título, o "desencanto" geral com a experiência da emigração. Daí a sua importância. Em vez de continuar a repetir os mitos da emigração cabo-verdiana, a obra de Orlanda Amarílis tem o enorme mérito de evocar com talento a experiência real dos cabo-verdianos na metrópole.

 

Notas

Amarílis, Orlanda. Cais-do-Sodré té Salamansa. Coimbra: Centelha, 1974.Com o evento da independência cabo-verdiana, os autores associados aos movimentos literárias dos anos 40, 50 e 60 puderam começar a publicar as suas obras. Orlanda Amarílis publica a sua primeira colecção de contos naquele ano.

 

A revista Claridade foi publicada intermitentemente entre 1936 e 1960. Para a maior parte dos críticos, a revista e o movimento de Claridade marcam o início da literatura do país. Ver a este propósito, Brookshaw David. "The emergence of Cape Verdean literature." The Postcolonial Literature of Lusophone Africa. Evanston, Illinois: Northwestern U P, 1996. 179-233.

 

Ferreira, Manuel. Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa. Vol. 1. Biblioteca Breve. Portugal: Livraria Bertrand, 1977. 2 vols.

 

Para um estudo aprofundado deste movimento, ver Araújo, Norman. A Study of Cape Verdean Literature. Boston: publicado pelo autor, 1966.

 

Moser, Gerald. Changing Africa: the First Literary Generation of Independent Cape Verde. Philadelphia: American Philosophical Society, 1992. Texto original: "The foundations for a national literature were laid between 1935 and 1960. At that time, a small group of intellectuals gathered around the poet Jorge Barbosa in Mindelo, the principal harbor of the Islands. Inspired by the example of contemporary Brazilian writers, many of whom came from a similarly dry, impoverished region, the northeastern Hump of South America, they began to evolve specifically Cape Verdean writing by closely observing the speech, traditions and way of life of the common folk of the Islands."

 

Silveira, Onésimo. "Consciencialização na literatura caboverdiana." Critical Perspectives on Lusophone Literature from Africa. Ed. Burness, Donald. Washington: Three Continents Press, 1981. 242-67.

 

Há de facto poucas escritoras cabo-verdianas. Orlanda Amarílis é a primeira escritora com livro publicado. Maria Margarida Mascarenhas e Aydeia Avelino Pires são também entre as (raras) escritoras de origem cabo-verdiana.

 

Ferreira, Manuel, e Gerald Moser. Bibliografia das literaturas africanas de expressão portuguesa. Lisboa: Casa da Moeda, 1983.

 

Nesta colecção Cais-do-Sodré té Salamansa, "Cais-do-Sodré" e "Nina" são os outros dois contos nesta categoria.

Frequentemente na obra de Orlanda Amarílis evoca-se a solidão das mulheres, vivendo nas ilhas ou no estrangeiro. Ver a este propósito: Santilli, Maria Aparecida. "As mulheres-sós de Orlanda Amarílis." Cadernos de Literatura 17 (1984): 37-41.

 

Mendonça, Fernando. "Orlanda Amarílis, uma escritora de Cabo Verde." Vértice 44.461 (1984): 44-53.

 

Ver a este propósito o estudo seguinte de Gregory McNab que analisa as relações entre mulheres-objectos e homens-sujeitos nos contos "Thanon-les-Bains" e "Salamansa": McNab, Gregory. "The Subjection of Women in Two Stories by Orlando Amarílis." Luso-Brazilian Review 24.1 (1987): 59-87.

 

Ver: Preto-Rodas, Richard A. Negritude as a Theme in the Poetry of the Portuguese-Speaking World. Florida: U of Florida P, 1970. Texto original: "Despite his assuming the social mannerisms and cultural ideals of the dominant social group, however, the Negro poet gradually realizes that he is only partially integrated into the European (i.e., white) society and that his subaltern place is a result of his color. No matter how fully he has become assimilated in dress, language, and social comportment, he remains primarily a Negro lawyer or senator or, politically, a French or American Negro. As long as he is black (or brown) total assimilation seems to remain beyond reach…dissociated from other Negroes by his social and cultural preferences and from the white community by his color."

 

Éjxenbaum, B. M. "O. Henry and the Theory of the Short Story." The New Short Story Theories. Ed. Charles E. May. Athens: Ohio UP, 1994. 81-88.

 

A POÉTICA CRIOULA DE SÉRGIO FRUSONI

 http://www.unb.br/il/liv/public/frusoni.htm

Simone Caputo Gomes Universidade Federal Fluminense

                                    

A obra de Sérgio Frusoni, poeta caboverdiano que optou pela adoção do crioulo como língua literária, merece um estudo específico que, pelas dificuldades até então encontradas no trabalho com os textos na língua originária de Cabo Verde, ainda não foi feito.

Filho de Giuseppe Frusoni e Erminia Bonucci, Sérgio nasce no Mindelo, S. Vicente, a 10-08-1901, e morre em Lisboa, em 1975. Autor de vários contos em crioulo divulgados na Rádio Barlavento, notabiliza-se como poeta crioulo, mas apresenta a maioria dos poemas em duas versões, em língua crioula e em língua portuguesa, o que dá à recolha de sua produção um importante status quanto aos estudos literários.

Mesquitela Lima, que faz um estudo antropológico da obra de Frusoni, para nossa felicidade, recolheu boa parte dos poemas soltos em pedaços de papel que o poeta eventualmente conservava e, na maioria das vezes, perdia (LIMA 1992).

Assim, um corpus significativo de produção bilingüe1 de Sérgio Frusoni pode hoje ser examinado pelo pesquisador das áreas de Língua e Literatura, e nossa intervenção se dará neste segundo nível.

Enquanto conjunto de obra, a poética de Sérgio Frusoni acompanha a movimentação da Literatura Caboverdiana em torno de temas básicos à cultura como o apego à terra, a fome, o drama partir-ficar(também chamado terra-longismo). Mas acrescenta-lhes o sensualismo, o humor, o auto-biografismo e a constatação da situação da mulher na sociedade crioula.

Conferindo originalidade à obra de Frusoni percebemos a técnica do poema-retrato e o enfoque do quotidiano do povo crioulo, nas atividades simples do dia-a-dia.

Não admira, pois, que seus textos sejam expressos em crioulo, pois este é o veículo de comunicação da camada de população retratada, que não tinha acesso à língua portuguesa.

O crioulo constitui o elemento cultural que mais assume, fixa e expressa os valores culturais caboverdianos, a cultura caboverdiana enquanto comunidade de memória, com um sentimento de identidade que conjuga todo o Arquipélago e se estende à diáspora, gerando uma consciência de grupo bem demarcada. Mesquitela Lima discute, com base nesses argumentos, o fato de ainda não ter sido outorgado ao crioulo o estatuto de língua e propõe que ele se denomine caboverdiano (ao invés de crioulo)2, para melhor caracterizar a sociedade que dá a conhecer.

Contudo, as polêmicas língua ou dialeto, crioulo ou caboverdiano, não nos ocuparão no momento. O que interessa é examinar os principais temas e processos que fazem da obra de Sérgio Frusoni um grande momento de Poesia, e de Poesia Caboverdiana.

Frusoni adota para seus textos o crioulo da Ilha de S. Vicente, e o nosso critério de adoção de uma forma escrita para o crioulo foi escolher o caminho mais fácil: conservar a grafia usada pelo poeta (como sabemos, a dificuldade de adotar uma forma escrita para o crioulo persiste, e sobre isto nos pode dar importante depoimento uma especialista, a Dra. Dulce Almada Duarte).

Um preâmbulo sobre alguns aspectos do crioulo de Cabo Verde para os que fazem os primeiros contactos com a Literatura Caboverdiana nos parece ainda necessário.

O fenômeno do bilingüismo não afeta globalmente a sociedade caboverdiana; nem todos os caboverdianos falam o português, muito mais utilizado na camada culta e rudimentarmente falado nas camadas populares. Como o português nunca foi uma língua de domínio efetivo e global (foi muito mais uma língua de domínio administrativo-político), o crioulo continuou sendo o instrumento de comunicação oral privilegiado. Além disto, não existe um só crioulo: a insularidade provocou formas dialetais ou linguagens regionais-insulares.

Frusoni é, pois, praticamente, um dos principais escritores que dão ao crioulo dignidade poética escrita, visto que no seu tempo a língua originária transmitia fundamentalmente mornas e coladeiras.

Influenciada pelo movimento da Claridade, que pensa a sociedade e a cultura como diferenciadas de um modelo colonial, a produção poética de Sérgio Frusoni recolhida por Mesquitela Lima compõe-se de 78 poemas, dos quais 15 sonetos (4 em português, 1 em inglês), escritos no crioulo de S. Vicente e acompanhados das respectivas traduções literárias em Língua Portuguesa, elaboradas pelo poeta. A maior parte dos poemas não apresenta métrica ou rima, à exceção dos sonetos, que não examinaremos, pelo motivo acima apontado. Muitos dos poemas em crioulo foram utilizados como letras de morna. Seus temas básicos são, como já enunciamos, a fome, cenas do quotidiano de S. Vicente, o apego à terra, a emigração/evasão (por melhores condições de vida) e o regresso (para acabar na miséria), a problemática do mar (que não é a mesma em todas as ilhas).

Com o intuito de publicar em vida o livro Sanvicente crioulo, Frusoni, logo no poema "Presentaçom", assume sua identidade de caboverdiano e sanvicentino:

 

Quem mi ê? Um fidje de Sanvcênte.

Nascide, crióde, lá na ponta d' Praia.

Lá ondê que mar tâ sparajá debóxe de bôte,

moda barra dum saia.

 

Cs' ê que m' crê? Cantá nha terra!

Companhal na sê dor;

na nôbréza d' sê alma;

na pobréza d' sê vida!

 

 

 Tradução:

Quem eu sou? Um filho de São Vicente.

nascido, criado, lá na Ponta da Praia.

Lá onde o mar se espreguiça debaixo dos botes,

como a barra duma saia.

O que eu quero? Cantar a minha terra!

Acompanhá-la na sua dor;

na nobreza da sua alma;

na pobreza da sua vida!

 

Esta é a proposta da obra. Os poemas autobiográficos "Nha coraçôm", "Mnine d' Sanvicente", "Pracinha", "Igreja D'Nossióra da Luz" continuam a delinear o retrato do poeta caboverdiano e de sua amada terra:

 

Nha coraçôm ê dum rapaz de vint'óne:

êl tâ rí, êl tâ chorá, consoante êl crê.

Se dá'l pa cantá, êl ê italióne,

pa quêl sangue quêl herdá quand' m'nascê:

 

Se dá'l pâ chorá, êl ê caboverdeóne

 

(Meu coração é dum rapaz de vinte anos:

ri, chora, consoante ele quer.

Se lhe dá para cantar, é italiano,

por aquele sangue que herdou quando nasci

 

Se lhe dá para chorar, é caboverdeano)

 

No poema "Mnine d'Sanvicente", Frusoni alude a suas saídas de Cabo Verde, ao tema da emigração-regresso, tão cantado pela Literatura do Arquipélago:

 

E j'a m' bá e já m' bem;

já m' torná bá e torná bem;

e alí'm lí, de pê na tchôm,

 

sem um vintem, sem um tstôm,

tâ crê torná bá...

ma pa torná bem...

 

(Já fui e já regressei;

já tornei a ir e tornei a regressar;

aqui estou, de pés no chão,

sem um vintém, sem um tostão,

a querer ir...

e tornar a regressar...)

 

A técnica do retrato condensado atinge líricos momentos no "flash" da Pracinha e da Igreja, cartões postais do Mindelo:

 

 

Igreja               Igreja

Cambra               Câmara

Rua da Luz           Rua da Luz

Camim d' cimter      Caminho do cemitério

 

Dalí ond'ê que m' tâ             Daqui onde estou

m' ti t' oióbe, nha Igrejinha:   vejo-te, minha Igrejinha

semp caiadinha d' brónc          sempre caiadinha de branco

por dentre e por fóra,           por dentro e por fora,

semp tâ figurá                   sempre a fazer figura,

embora bidjinha!                 embora velhinha!

 

 

Os costumes da terra (como a culinária), as fontes de sobrevivência, a seca e a chuva, a fome, a pobreza, terão expressão nos poemas "Rebêra", "Dia de féria", "Pâ quês pardalim", "Lembróme", "Infancia" e "Calôte , fidje de pôbréza, praga de nôs terra". O Porto Grande e a chuva são focalizados em paralelo no primeiro texto, correlacionando a abundância da água e da lama, tão necessárias ao cultivo, especialmente do milho, à abundância de barcos, tão importante para a economia da ilha:

 

 

M' câ sabê de bô,                   Não sei de ti,

nem de fórça dêsse láma             nem da força dessa lama

que bo ti tâ carregá pa mar.        que carregas para o mar.

Sô m' sabê cma vapor                Só sei que os vapores

já pitá na baía,                    já apitaram na baía

cma aligria d'ága já rebentá na ar. e que a alegria da água

                                       [á rebentou no ar...]

 

O milho assado, o rabo de porco e o feijão malaguetado, a cachupa e o pãozinho de milho (midje assóde, rabim de tchuc, fejón malaguetóde, catchupa, pômzinha de midje) inscrevem-se em alguns poemas enquanto pratos típicos da cultura caboverdiana

Em contraste, o sofrimento das crianças por causa da fome é retratado no poema "Infancia", num resgate da memória que persiste no poema "Lembróme".

 

Lembróme bô perfil:                Lembra-me o teu perfil:

nocênte (...)                      inocente (...)

Ma que já tá trazê,                Mas que já trazia

sargide na pêle                    serzida na pele

dôr ma sufrimênte,                 a dor e o sofrimento,

sina de nôs pôve...                sina do nosso povo...

 

Fôme cá prêsta! Fôme ê bjôm!       A fome não presta! Fome é

                                          [um horror!]

                                  

Ma ants fôme do qui pêste ma guérra!  Mas antes fome do que

                                          [peste na guerra!]

                                             

Fôme ta minguóne, ta incudjine,   A fome mingua-nos,

                                             [encolhe-nos]     

ma quem ta morrê fête menine,     mas quem morre feito

                                            [criança]                 

ta torná nascê fête menine,       volta a nascer feito

                                            [criança]

de lá de barriga de terra!        de lá da barriga da terra                                               

 

No poema "Pâ quês pardalim" Frusoni focaliza a mulher que, depois de desmaiar de fome, preocupa-se com um saco onde levava restos de cachupa e tocos de pão. Interpelada (em português) por que não comeu o farnel, ela diz:

 

E...e côsa que m' tá levá...  E...e o que é que eu levava...

 quês...pardalim                 àqueles...àqueles pardaizi-

                                         [nhos]

-Pardais?

-Sim...

Quês...quês...dôs fidjim...de meu...  àqueles...àqueles...dois filhinhos...meus...

 

A mulher, retratada ora na sua situação de abandono, em virtude da emigração do marido, ora no trabalho, ora em situações humorísticas, ou em sua sensualidade ("marmél de bô pêite/ ta pedí dentada d'ôme" - os marmelos do teu peito/a pedir dentada de homem), constitui um tema constante na obra de Sérgio Frusoni.

No texto "Quand um palavra sô tâ dzê tude côsa" Frusoni ridiculariza a mulher que regressa de rápida viagem a Lisboa com hábitos e até pronúncia diferentes. Uma só palavra condensará a crítica do povo a esse tipo de personagem: PACIÊNCIA!

 

Um dia nh'Augusta infermêra,

desembarcá tâ bem d'Lisboa:   (desembarcou, vinha de Lisboa)

luva, cartêra,

cabel caracolóde

cara pintóde

ta pscá confundi parcença.   (procurando confundir a figura)

 

Um mudjêr q'tava ta passá,

pará tâ spial,

cabá el sucdí cabeçá el dzê:

_Nh' Augusta, nh' armôm, PACIENÇA!.. (ah!, Meu irmão,

                                      PACIÊNCIA!...)

 

No poema-sketch (técnica recorrente em sua obra) "Pai d'Fidje", o poeta mostra a mulher que reza para que o marido viciado ganhe no jogo, para que seus filhos não passem fome e ela não apanhe:

 

Spiá pa fidje, quem? Ele? Adéh!

importal lá s'ês t'andá sfarrapóde,

ô sem cmê! Alá'l sentóde

na jôgue, êss ê que'l crê!...

 

Scompôl? Brigá ma êl? Cónta d' nada!

Remêde ê rezá, cmáde!

E pdí Nossiôr pa fazel ganhá,

pamóde s'êl perdê, êl tíntchóme d'pancada...

 

A situação quase permanente da mulher só, em virtude do abandono ou emigração do marido, ou do afastamento do filho que parte para trabalhar longe é constantemente referida em poemas como "Sirvice de criada ca tá dá têmpe pa nada" e "A volta":

 

Sim, êl há d'voltá.            Sim, há-de voltar.

E cs'ê qu' m há dzê?           E que lhe direi?

Cma m'speral?                  Que o esperei?

Cma m' sofrê?...               Que sofri?

 

S'el ca creditá?               E se ele não acreditar?

Cs' ê qu' m há fazê?           Que hei-de fazer?

M' há mostral fidje,           Mostro-lhe a criança?

ô m' ha fcá calóde?            ou fico calada?

 

E s' êl bem el stranhá casa;   E se ele vem e estranha a

                                       [casa?]

esse nha magréza;              esta minha magreza

esse portôm abêrte,            este portão aberto,

ma esse lume pagóde?...        e este lume apagado?...

 

E s'stude bem dá cêrte?        E se tudo vier a dar certo?

S'el cabá d' entrá             se acabar de entrar

êl corrê pa mim?...            e correr para mim?

M' há pô tâ tchorá,            Hei-de chorar,

ô m' há pô tâ rí?...           ou hei-de rir?...

 

Este belíssimo texto dá a medida da dramaticidade da emigração em terras caboverdianas. Os poemas "Contratóde" (que fala da partida do contratado, escravo do século vinte, por força do regime colonial), "Navì ta bá, navì ta bêm" (Navio que vai, navio que vem), "Na terra strónhe" (Em terra estranha),"Despedida", "Chamada de mar", "Diante de mar de sanvicente", "Volta d'imigrante antigo" enquadram-se no ciclo do terra-longismo (partida/regresso, o querer partir e ter de ficar/e vice-versa), tão bem teorizado por Manuel Ferreira (FERREIRA 1972).

Por outro lado, o chamado da terra, a caboverdianidade, a anti-evasão expressa veementemente por Ovídio Martins em Língua Portuguesa: Não vou para Pasárgada! reverbera em outros textos como "Nha terra", "Cabvêrde", "Pa diante é qu'ê camim":

 

Ma lì qu' m'nascê                   Mas aqui é que nasci

lì qu' m' criá!                     aqui é que me criei!

Êsse mar, êsse cêu, ma êsse tchôm,  Este mar, este céu, este

                                                      [chão]

Lì qu'm'ha morrê!                  Aqui é que hei-de morrer!

 

Idêa d'imbarcá                     Ideia de embarcar

nunca passóme pâ cabéça (...)   nunca me passou pela cabeça

Antes fcá pa lì tâ gozá dêsse mar    Antes ficar por cá a

                                           [gozar deste mar]

ma dêsse cêu.                         e deste céu.

 

Conhecendo  e amando Cabo Verde, é fácil entender o sentimento de Sérgio Frusoni.

                                                                                                                                                NOTAS

 

1. Considero a tradução literária dos textos para o português como um corpus poético à parte.

 

2. Ibidem, p. 26.

BIBLIOGRAFIA

 

FERREIRA, Manuel. 1972. O círculo do mar e o terra-longismo em Chiquinho de Baltasar Lopes. Colóquio-Letras 5.66-70.

LIMA, Mesquitela. 1992. A poética de Sérgio Frusoni: uma leitura antropológica. Lisboa/Praia: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa/Instituto Caboverdiano do Livro e do Disco.

 

Baltasar Lopes

Brasil e Cabo Verde: um diálogo entre José Lins do Rego e Baltasar Lopes

 http://www.geocities.com/ail_br/brasilecaboverde.html

Marcia Garcia Dias

Embora a partir da década de oitenta se verifique um número significativo de trabalhos que põem em foco as relações interliterárias voltadas para as literaturas não-canônicas, as relações culturais entre Brasil e Cabo Verde são bem anteriores e para efeito desta comunicação vamos situá-las na década de trinta.

Manuel Ferreira, no seu longo prefácio à edição comemorativa dos cinqüentas anos da publicação do primeiro número de Claridade (março de 1936/ março de 1986), procura analisar os elementos que, na sua opinião, constituem uma explicação lógica para o aparecimento desta revista no arquipélago.

Dentre os "elementos exógenos", aponta primeiramente a presença dos escritores portugueses Augusto Casimiro, António Pedro e José Osório de Oliveira; depois assinala a contribuição da revista Presença; considera ainda o contato com alguns jornais portugueses e, finalmente, a contribuição da literatura brasileira. Nas palavras do próprio Manuel Ferreira: "Aliás, desde o princípio deste século, para não irmos mais longe, a presença brasileira é por vezes notória na literatura caboverdiana. as referências são constantes, quer em obras literárias quer na Imprensa. E elas vêm das formas mais diversas. Desde as dedicatórias de escritores caboverdianos, nomeadamente José Lopes, a personalidades brasileiras, transcrições de poemas por vezes bem longos dedicados ao Brasil ou a intelectuais brasileiros; na verdade, de forma a mais variada, o Brasil fixou-se na poesia caboverdiana". (Claridade, p.XXVIII).

A distância imposta pela configuração geográfica não impediu a circulação de alguns romances brasileiros, mais particularmente aqueles de características neo-realistas, entre os escritores das ilhas. É o próprio Baltasar Lopes, em declaração proferida em 1956, que esclarece como se deu o contato literário dos caboverdianos com alguns dos nossos escritores: "Há pouco mais de vinte anos, eu e um grupo reduzido de amigos começámos a pensar no nosso problema, isto é, no problemas de Cabo Verde. Preocupava-nos sobretudo o problema da formação social destas ilhas, o estudo das raízes de Cabo Verde. Precisávamos de certezas sistemáticas que só nos podiam vir, como auxílio metodológico e como investigação, de outras latitudes. Ora aconteceu que por aquelas alturas nos caíram nas mãos, fraternalmente juntas, em sistema de empréstimo, alguns livros que consideramos essenciais pro doma nostra. Na ficção, o José Lins do Rego d'O Menino do Engenho, do Banguê; o Jorge Amado do Jubiabá e Mar Morto; o Amândio Fontes d'Os corumbas; o Marques Rebelo d'O caso da mentira, que conhecemos por Ribeiro Couto. Em poesia foi um alumbramento a "Evocação do Recife", de Manuel Bandeira, que, salvo um ou outro pormenor, eu visualizava com as suas figuras dramáticas, na minha vila da Ribeira Brava. O António Rodrigues, que ainda cheguei a conhecer, e tinha a cara do Padre Vieira das ilustrações dos livros escolares. E a moça nuinha no banho fora surpreendida nos tanques da Ribeira de João, logo acima do trapiche da Pequena; em poesia, outro alumbramento foi Jorge de Lima, em que o sinhàzismo de 'Nega Fulô' e o super-realismo do 'Menino impossível' emparceiram na nossa receptividade com Jorge de Lima da 'Túnica impossível', com as tosses, as asmas, máquinas de costura, que precisam dormir, e com o tema, ilhéu e tão nosso, do avião que matou a saudade dos nossos filhos vagabundos. Claro que o avião, para a nossa temática, é proteiforme, podendo ser até o veleiro das travessias entre as ilhas de certos poemas de Jorge Barbosa'"(In FERREIRA, M. (org.). Claridade, p. XXIX e XXX).

O reconhecimento desse encontro por parte dos claridosos revela. para além do engajamento ideológico, uma práxis artística que a um só tempo identifica as literatura brasileira e caboverdiana e as afasta do modelo do colonizador.

Menino de engenho e Chiquinho são obras de denúncia, pois nelas se verifica, por meio da narração e das falas das personagens, uma crítica à ordem social estabelecida. Observam-se em José Lins do Rego e Baltasar Lopes uma confiança na palavra artística como veículo de transformações sociais e o emprego de procedimentos semelhantes na organização estrutural dos respectivos romances.

Menino de engenho é publicado em 1932 e narra a história do menino Carlos que deixa a cidade de Recife depois da morte da mãe e vai viver no engenho de seu avô materno, na Paraíba.

Apontado pela crítica consagrada como um documento sociológico, esse romance de José Lins do Rego é expressão da brasilidade que identifica nosso povo não apenas pelo tema e feição regionalista, mas também pela linguagem que revela o poder que organiza as relações humanas e define o destino dos homens.

O destino – "esta força arbitrária" – apresenta-se na narrativa como um tema a ser decodificado pela consciência infantil que procura pôr ordem nas múltiplas experiências vividas no engenho Santa Rosa. Aos poucos, Carlinhos vai tomando contato com as injustiças sociais e percebendo que elas é que lhe garantem os privilégios: "Depois mandaram-me para a aula de um outro professor, com outros meninos, todos de gente pobre. Havia para mim um regime de exceção. Não brigavam comigo. Existia um copo separado para eu beber água, e um tamborete de palhinha para 'o neto do Coronel Zé Paulino'. Os outros meninos sentavam-se em caixões de gás. Lia-se a lição em voz alta. A tabuada era cantada em coro, com os pés balançando, num ritmo que ainda hoje tenho nos ouvidos. Nas sabatinas nunca levei um bolo, mas quando acertava, mandavam que desse nos meus competidores. Eu me sentia bem com todo esse regime de miséria. Os meninos não tinham raiva de mim. Muitos deles eram moradores do engenho. Parece que ainda os vejo, com seus bauzinhos de flandres, voltando a pé para casa, a olharem para mim, de bolsa a tiracolo, na garupa do cavalo branco que me levava e trazia da escola" (Menino de engenho, p.33-4).

Publicado quinze anos depois do romance brasileiro, Chiquinho aparece em 1947 em forma de livro, embora os capítulo "Bibia" e "Infância" tenham sido publicados nos números um e três da revista Claridade.

As três partes que constituem a obra ("Infância", "São Vicente" e "As águas") revelam a trajetória percorrida por Chiquinho. Como narrador-personagem, narra as diversas situações vividas em companhia de sua família no Caleijão, na ilha de São Nicolau. Como Carlinhos, de Menino de engenho, Chiquinho observa as relações familiares, a pobreza da região onde vive, o drama dos lavradores que se tornam escravos das constantes secas e a emigração de seus patrícios para a América.

Depois dos estudos no liceu de São Nicolau, transfere-se para São Vivente, onde passa a freqüentar o seminário e conviver diariamente com os colegas do Grêmio. Andrezinho, o líder da turma, tem uma proposta de trabalho: "Para ele, os nossos problemas tinham uma tonalidade específica, que resultava do 'cerco do atlântico' e do 'drama ancestral da formação étnica'. O que se impunha era reorganizar completamente nossas peculiaridades. Na vida administrativa. Na estrutura social. Na arte. [...] Andrezinho deu a fórmula: enquadramento do nosso caso nas aspirações, sempre as mesmas, sob qualquer latitude, da alma humana." (Chiquinho, p. 73).

Em outras palavras, a consciência do narrador amplia-se para além do drama vivido pela comunidade enraizada em torno da casinho do Caleijão. Na óptica de Chiquinho, o problema da sobrevivência ultrapassa a sua ilha de origem para se estender a todo o arquipélago.

Na formação da personalidade do menino do engenho Santa Rosa não estão apenas as brincadeiras e outras aventuras proibidas que os recantos do latifúndio do avô José Paulino lhe possibilitam. Antes de ingressar na escola, o cultivo de sua imaginação faz-se pelas histórias da Velha Totonha. "Que talente ela possuía para contar as suas histórias, com um jeito admirável de falar em nome de todos os personagens! Sem nem um dente na boca, e com uma voz que dava todos os tons às palavras. As suas histórias para mim valiam tudo." (Menino de engenho, p. 50).

A convivência íntima de Carlinhos com as negras da senzala contribuem para ampliar o reino fabuloso da sua imaginação de menino: "Eu vivia em conversa com ela [Galdina], atrás das suas histórias da costa da áfrica". (Menino de engenho, p. 58).

A essas histórias acrescentam-se as conversas das costureiras do engenho que além dos bordados desfiam os enredos que constituem a vida miúda dos trabalhadores do eito, as aventuras dos grandes do cangaço como Antônio Silvino.

Situação semelhante vive Chiquinho que antes de entrar para o seminário em São Vicente alimenta as suas fantasias infantis com as histórias contadas pela velha rosa Calita e pelos trabalhadores das lavras de milho.

Aplica-se aos dois textos o conceito de Walter Benjamin de que "a experiência que passa de pessoa a pessoa é a fonte a que recorreram todos os narradores. E, entre as narrativas escritas, as melhores são as que menos se distinguem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores anônimos".

Carlinhos, no engenho Santa Rosa resiste ao ABC que tia Maria amorosamente tenta ensinar-lhe, mas deixa-se seduzir pelas palestras que os mestres de ofício vão-lhe contando enquanto executam seus trabalhos de carpintaria e tanoagem: "O que, porém, mais me prendia aos meus amigos, eram as suas conversas e confissões. O Seu Rodolfo sabia de muita coisa. Vivia consertando engenhos desde menino. E de toda parte trazia uma história" (Menino de engenho, p. 69).

José Lins do Rego e Baltasar Lopes procuram apropriar-se das tradições orais para imprimirem às suas histórias o "vôo de imaginação" que caracteriza a matéria literária e dá a elas a fisionomia particular que distingue o texto brasileiro do texto caboverdiano. Dessa forma, a pobreza e a miséria que afligem os camponeses de São Nicolau e os lavradores do eito são as mesmas. A fartura da casa-grande brasileira equivale ao comedimento e segurança da casinha do Caleijão; à expectativa da cheia do rio Paraíba corresponde à chegada das águas no chão seco da ilha. No entanto, a fertilidade da terra brasileira não pode corresponder aos barcos de pesca de baleias, nem a evasão caboverdiana equivale aos movimentos migratórios do Nordeste brasileiro.

Assim, as semelhanças e diferenças aqui apontadas ultrapassam a concepção tradicional do comparativismo francês, em que se cria uma dívida impagável de um autor em relação a seu precedente. Esse medo rondou o espírito de Manuel Lopes e Jorge Barbosa, fazendo com que declarassem enfaticamente que a literatura caboverdiana havia encontrado seu próprio caminho.

 

«O Caboverdiano vê-se confrontado, inevitavelmente, com questões de ordem

ontológica»

António de Névada

http://www.ciberkiosk.pt/arquivo/ciberkiosk4/entrevistaseinqueritos/antonionevada.htm 

Da Claridade à geração novíssima de 90, a literatura cabo-verdiana percorreu neste século um longo caminho, quer enquanto levantamento antropológico e afirmação identitária, quer, mais recentemente, como desejo de uma «liberdade livre», não sobredeterminada pelas exigências daquele programa de

representação cultural e nacional.

Marcada desde o início por uma condição errante e bilingue, a literature cabo-verdiana é, também por isso, um complexo discursivo dotado de

capacidade crítica (e desde logo autocrítica) em relação às exigências e ficções de uma identidade dominantemente exprimida num idioma outro e

produzida em espaços por vezes também outros.

António de Névada, m'nine d'Soncente (nascid e criód), por acaso nascido em Lisboa, e não tanto por acaso, mas ainda assim acidentalmente, residente há

uma década em Coimbra, é pois, podíamos dizer, um cabo-verdiano assaz típico. Estrangeiro em Portugal, como em todo o lugar exterior à sua ilha

mítica, recupera uma certa ficção de pátria na língua portuguesa que, como em grande número de escritores do seu país, só cobra contudo existência

enquanto escrita, desalojada que é do quotidiano pela omnipresença do crioulo. Daí a sensação, no limiar da «estranheza», que experimenta o leitor

dos seus versos - de que os que publicamos neste número de Ciberkiosk são bem representativos -, os quais são declinados num português que oscila

entre a dicção grave e nobre que poderíamos associar a um clássico como Dante ou a um moderno como Eliot, transpostos localmente. O que seja este

«local», eis o que não é de determinação fácil, tanto mais que esta poesia parece interiorizar os dados algo «baralhados» da situação pós-colonial. A

poesia de Névada é cabo-verdiana sem responder contudo a um programa etnológico; é africana sem rejeitar a negociação do seu estatuto

(não)periférico com os supostos centros da produção (e da tradição) poética ocidental; é culta, numa profunda fidelidade à matriz popular de quase toda

a cultura cabo-verdiana; é tão épica quanto metafísica, propondo-se como registo elegíaco de um universo habitado pelos espectros da carência e da

morte.

Ciberkiosk dá neste número guarida à palavra poética e dialogal de António  de Névada, desejando que este seja apenas o começo de uma relação profícua

com as literaturas pós-coloniais de língua portuguesa e não só (pensamos, obviamente, neste contexto, no caso do crioulo). E julga ter começado bem.

Ciberkiosk agradece pois a António de Névada a disponibilidade revelada para esta pré-publicação e entrevista. Resta esclarecer que a entrevista foi

conduzida por Osvaldo Manuel Silvestre.

Ciberkiosk. Comecemos pela indispensável apresentação: quem é António de Névada? (Ou seja: onde e quando nasceu, onde estudou, onde vive?).

António de Névada. A auto-apresentação envolta toda ela por este sabor irónico, leva-me, como um auto-retrato, ao encontro de questões várias ou

interrogações de vária ordem. E para começar, vou citar um trecho que não foge ao tom algo sarcástico que sustenta o texto, o conto Fragmentos de Um

Acto, a que pertence. E diz:

(...) eu, filho de Garda e Didial, das restrições da vinha, vinho murcho ou pragas da vida, filho também das costelas do tempo, como todos os tempos são

dos templos ou famintos templos. Guardião deste pedaço, ou sinal da perplexidade, eu, filho, tal vos tenho dito, das pregas do templo e do

cheiro da cana ou caniço, maio tardio, achadas bravas sobre os lombos, derramarei a minha voz obsessiva pelos cantos, narrador impróprio que sou

porque assim me conceberam.

... E pergunto - ó dignidade insituável - que vazio nos suporta e nos abençoa, se cada dádiva estende-se pela horta toda povoando as nossas

fraquezas? E se o milheiral e o vento consomem a vida, a gravidez e o acto de parir?

Essa citação poderá ser considerada uma representação (recordo que representar também apresenta) porquanto o eu, o narrador, fala como se de um

"porta-voz", melhor, de um emissário se trata. Como se exaltasse a consumação e o volume da vida, cantando

o homem que

cultiva sobre a terra estéril,

e sobre ela ajoelha-se

para louvar ou barafustar,

para louvar ou possuir

o dom dos deuses.

E assim sendo, passemos à indispensável apresentação: nasci no ano de mil novecentos e sessenta e sete no sétimo dia do mês de Setembro. A minha mãe

não terá sido propriamente uma boa parideira, ou seja, ela não foi, na idade fértil, uma mulher de parto fácil. O primeiro filho morreu-lhe na sequência

de complicações durante o parto, o segundo nasceu duma cesariana, e eu, o filho terceiro, vim nascer a Portugal. Eis pois a causalidade dum m'nine

d'Soncente (nascid e criód) ter nascido casualmente em Lisboa, para regressar com menos de três meses de idade à terra berço.

Vivi toda a minha infância e adolescência em Cabo Verde. Fiz a escolaridade primária e completei o liceu em Mindelo, a cidade do Monte-Cara. E

licenciei-me em Engenharia Electrotécnica pela Universidade de Coimbra, cidade onde vivo há pouco mais de uma década.

Como me formei?

- junto aos meus tenho bebido a consciência da humildade. E por aí me tenho pautado.

 

Ciberkiosk. Com um livro publicado em 1993 (Acto Primeiro ou o Desígnio das Paixões) e outro a sair em breve (Esteira Cheia), V. integra a novíssima

geração literária cabo-verdiana. Entende que o conceito é sustentável?

Queremos dizer: existe uma literatura cabo-verdiana que se possa atribuir a uma «geração» novíssima? A existir ela, como a caracterizaria?

No seu caso, como se situa em relação à história literária cabo-verdiana?

Lembremos aqui um poema do seu primeiro livro - «Melancolia» - em que se diz: «Qual quixotismo / nos abarca as velas doentes / nem Nhô Balta nem Tio

Tiofe / nem Nhô Roque nem Corsino Será pertinente articular este panteão pessoal com a pergunta anterior? Isto é, serão estes quatro nomes as suas

referências fundamentais na literatura cabo-verdiana?

 

António de Névada. Tendo começado a publicar em finais da década de oitenta,

eu poderei integrar, eventualmente, a novíssima geração literária caboverdiana (o Prof. P. Laranjeira já havia assim referido em relação a

Vera Duarte e a Névada). E digo eventualmente porque não me parece sustentável, e só o tempo a seu tempo o dirá, considerar que existe uma

literatura caboverdiana que se possa atribuir a uma geração novíssima. A literatura caboverdiana tem encontrado uma linha criadora própria, e dado mostras de vitalidade, e há efectivamente autores novíssimos com qualidades e com propostas também elas interessantes, que abrangem e recriam concepções estéticas diversas. Sem querer aqui ajuizar, por não ser, como é óbvio, das pessoas mais indicadas para o fazer, e não ser essa a finalidade quando aprecio a arte e me debruço, espontaneamente, à tarefa crítica, ainda assim, devo aqui citar alguns nomes como sendo: Vera Duarte (Amanhã Amadrugada, 1993), Mario Lúcio Sousa (Sob os Signos da Luz, 1994; e Nascimento dum Mundo, 1998), Vadinho Velhinho (Relâmpagos em Terra,1995; e Adeus Loucura Adeus, 1998), autores que começaram a publicar a partir ou no limiar da segunda metade da década de oitenta, e que são de alguma forma significativos.

Tenho mantido presente que nenhum poeta, ou artista de qualquer arte, detém, solitariamente, o seu completo significado. E é nessa medida que só

poderemos avaliar uma geração literária se a enquadrarmos no contexto histórico a que ela pertence, antes disso tudo é prematuro. Ou seja, como

afirmei acima, só o tempo a seu tempo o dirá. Sem esquecer, porém, que o acto de criar, essa forma de avaliar o amontoar dos tempos, a Arte, a sua

verdadeira dimensão, adimensional, tem na intemporaneidade a sua alma primeira.

E é importante acrescentar o seguinte: se abordarmos os novos (entendendo que o novo se refere aos predecessores dos novíssimos), é fácil constatar

que, em larga medida, está ainda por apurar a importância (e ela não sera pequena), o que traz e acrescenta à literatura caboverdiana, a geração

liderada por João Varela, Corsino Fortes, Arménio Vieira e Oswaldo Osório.

São todos poetas, os mencionados, o que não será coincidência, se relembrarmos que na literatura caboverdiana, como já foi afirmado, a poesia

é o género literário que mais elevado grau de maturidade atingiu.

Em 1993, aquando da publicação do Acto Primeiro, eu escrevia: quando disse que os poetas caboverdianos, cujas publicações fazem parte dos meus ditos

"livros de cabeceira" são Arménio Vieira, Corsino Fortes, João Varela, não queria com isso dizer que outros poetas caboverdianos não me interessam.

Aliás, poetas há absolutamente imprescindíveis, e a poesia daqueles levar-me-ia, mesmo que inconscientemente, a procurar a poesia destes. E como

não me deliciar ao ler os pré-claridosos e os claridosos, os "pais" da literatura caboverdeana, para não falar na geração mais nova?

E acrescentava: Os poetas mencionados, porquanto se encontram em plena "força criativa", concerteza terão trabalhos a dar a conhecer das suas obras

em plena construção. Mas penso que isso não pode constituir inibição para os nomear aqui. Se falássemos da prosa, não poderia deixar de mencionar

Baltazar Lopes (sem esquecer Oswaldo Alcântra) ou Aurélio Gonçalves. Mas não quero sopesar separadamente as influências dos discursos poético e prosaico.

E nem o farei em relação a outra arte. Qualquer que seja a arte no nosso tempo, tempo complexo o nosso, não poderá deixar de ser o movimento dessa

variedade. E não devemos pensar que poderemos criar ou desenhar gravuras isoladas, estabelecer rupturas. Sabemos sim de um todo que nos movimenta. E

não interessa encontrar mas sim procurar.

Além de Nhô Balta e Tio Tiofe, Nhô Rôque e Corsino, para erguer um panteão pessoal seria imprescindível referir Arménio Vieira, e também a nossa

literatura oral e a literatura cantada. O imaginário mitológico popular recorda-nos, desde a infância, que, esquecidos ao sabor dos gafanhotos,

ainda assim, desafiamos os deuses e teimamos em partilhar e recriar esse universo. Essa literatura oral, os contos tradicionais, ajudam-nos, no

desespero, a reinventar os sonhos.

A música assegurou há muito um lugar de destaque na literatura do meu país, e ela faz parte do quotidiano e da essência do meu povo. Apreendi com a

música os primeiros acordes da verdadeira poesia, apreendi com a música que o sublime da arte está na vocação do inexprimível. E a poesia anónima do

povo, o músico anónimo da noite caboverdiana, da serenata, trovadores como Eugénio Tavares, B.Léza, Manuel d'Novas são também parte integrante das

minhas referências fundamentais na literatura caboverdiana. Este ultimo autor, dono de uma enorme subtileza satírica, seguindo a toada tecida por

nomes como TiGoy, faz do sarcasmo do povo das ilhas o seu córtex, a sua medula nervosa (exemplo seguido, mais recentemente por Germano Almeida, que

adopta uma escrita corredia, como se procurasse, na prosa, o ritmo da coladeira). E já que falamos de novíssimos, que dizer da poeticidade das

composições de Teófilo Chantre?

 

Ciberkiosk. A uma primeira leitura, a sua poesia impressiona por aquilo a que o poeta Mário Fonseca chamou sedução da palavra, a qual na sua obra

pressupõe o recurso a um registo elevado ou digno do português. Duas perguntas sobre isto: 1) Esse registo elevado do português é de aquisição

pessoal e literária ou tem de algum modo a ver com uma preocupação pedagógica, em Cabo Verde, no que toca aos registos linguísticos usados na

escola? 2) Como se lhe coloca a questão do crioulo? Língua sem possibilidades literárias? Demasiado confinada a um micro-espaço linguístico

e por isso de difícil tradução, no caso literário, condenando uma eventual literatura em crioulo a um destino paroquial (esta era aliás, se não

erramos, a posição de um Baltasar Lopes)? Língua a conciliar com o português, seguindo o exemplo de Corsino?

António de Névada. Devo afirmar, com sinceridade, que o fascínio ou a sedução da palavra (que poderá pressupor o registo elevado do português) é

entendido, em primeiro lugar, como uma consequência natural: pensarmos que o poeta, sendo um artesão, deve dominar com destreza, e alguma excelência, o

utensílio maior da sua arte, que é a linguagem (a palavra) escrita ou falada. E por ser de aquisição pessoal, não é inconsequente pensarmos que o

despertar desse fascínio, pela palavra, advém dos amantes da poesia e da literariedade, que eu tive a sorte de encontrar ao longo da minha formação.

Como acontece com a generalidade dos escritores caboverdianos, a quase totalidade da minha criação literária, principiante que sou nessas lides,

tem como ferramenta a língua portuguesa. Na linguagem escrita utilizo com maior destreza o português. Entanto, na linguagem falada acontece o

contrário, a minha língua materna, a língua caboverdiana (o crioulo) alcança alguma supremacia. É ciente dessa aparente contradição que me situo em

relação às questões que se levantam à volta da língua caboverdiana. 

Baltazar Lopes, afirmou, de forma categórica, que "o crioulo de Cabo Verde apresenta uma vitalidade que torna impossível a sua «erradicação» como meio

de fala comum, e até uma viabilidade literária incontestável, a contrastar com a magreza da sua estrututa morfológica". Ou não teria ele dado o

contributo que deu na investigação linguística do crioulo.

E vou transcrever de seguida, para confrontarmos com a opinião científica anterior, a afirmação duma mulher do povo: "O meu nome é Cesária e canto a

morna porque em Cabo Verde há muita miséria e a música representa o sentir e a dor do meu povo. Canto a pobreza e a saudade dos que partem, em crioulo,

porque se o fizer em inglês, em francês ou mesmo em português não vou fazê-lo bem. O crioulo é o meu sangue, a minha raiz".

Assim como a "diáspora" caboverdiana, a Cesária tem levado o crioulo a todos os cantos do mundo. E se percorrermos a discografia da Diva d'pê na tchon,

constatamos que muitas composições da nossa literatura cantada têm sido traduzidas directamente do crioulo para o francês ou inglês, embora na sua

generalidade, tais traduções, feitas um pouco à pressa, pecam por não conseguirem penetrar na veia poética dos textos originais.

Acerca da dificuldade de tradução, proponho as coisas como se estivéssemos em frente ao espelho, e aconselho a leitura da tradução que Eugénio Tavares

fez das endechas a Bárbara Escrava!

O bilinguismo em Cabo Verde é inevitável. E o verdadeiro destino do crioulo será a idoneidade: possuirmos uma gramática da língua caboverdiana, com

necessário grau de maturidade, que permita ter, sem equívocos, na lingual escrita todos os inumeráveis recursos da língua falada, da nossa elocução

oral. A acontecer, quando chegar o tempo, deverá ser com naturalidade. E a língua portuguesa ficará, também ela, dignificada e enriquecida.

Ciberkiosk. No poema «Aonde jazem os santos», afirma-se: «Aqui rebusco a bentidade / porque os santos encarnam / deuses Gregos». Os deuses gregos que

os seus versos convocam são deveras congruentes com as suas referências literárias, que em Acto Primeiro ou o Desígnio das Paixões vão de Goethe -

que fornece a epígrafe ao livro - a Ezra Pound (e em Esteira Cheia incluem Platão, Eliot, Nuno Júdice). Estas referências são contrabalançadas por

Timóteo Tio Tiofe, de modo, digamos, algo desequilibrado, em favor das europeias. Sem querermos ressuscitar velhas polémicas sobre

cabo-verdianidade e africanidade, considera-se, ainda assim, um poeta africano? Ou será que, na situação pós-colonial, a questão não faz sentido

para si?

António de Névada. O âmago filosófico duma poesia está intimamente ligado à

realidade histórica e cultural no qual se insere o corpus poético do autor.

É inegável! A nossa mundividência, que nos dá uma especificidade própria,

prova, também, que a cultura caboverdiana, a caboverdianidade ou tudo aquilo

que nos define em essência é determinado pelo elemento africano.

Sou caboverdiano, um ilhéu africano, é óbvio, e nessa medida não posso ser

coisa nenhuma senão, antes de mais nada, um poeta africano. É tão profundo

quanto imensurável! E assumo, sem complexos, os meus mestres, os autores das

obras de arte que marcam as minhas concepções estéticas, independentemente

das origens (geográficas ou culturais), das restrições territoriais (que não

existem na arte), dos eventuais desequilíbrios, e muito menos por receios em

ressuscitar velhas polémicas.

E se não há credo nem raça para as vicissitudes da vida e nascemos na

encruzilhada de todos os caminhos, e se a raiz do dorso é carne é osso, no

alvoroço, então, a gratidão e a afronta são amparadas com firmeza na mais

atroz das nossas vivências: sal d'nha corp ê c'ma tambor na d'susper

d'SánJon.

Ciberkiosk. No universo de carência e sofrimento dos seus versos é possível

reconhecer uma referência constante a Cabo Verde. No entanto, a nomeação

referencial é evitada e antes objecto de uma metaforização contínua, como

nos versos seguintes, do poema «Deusa»: «Gemem gemidos rasgados / e cinza

paisagem / deixa cair pétalas de basalto / em crateras vivas». Num certo

sentido, esta poesia não podia ser mais cabo-verdiana (como o é, em

alternativa, no poema «Captô», em que recupera, digamos, o romanceiro das

ilhas), e no entanto, na sua retoricidade intensa, ela adopta, de modo algo

ostensivo, uma atitude de indiferença em relação à agenda emancipatória da

literatura cabo-verdiana produzida pela geração que «não quis ir para

Pasárgada». A sua poesia, digamo-lo assim, não seria pensável há 20 anos

atrás, de tal modo se afasta da temática do engagement, estando por isso,

nessa data, fatalmente condenada a uma acusação global de «formalismo».

Concorda?

António de Névada. A geração que «não quis ir para Pasárgada» teve a sua

razão de existir, no contexto de denúncia, assumindo um discurso liberto da

doutrinação luso-tropicalista.

Hoje, quando leio Ovídio Martins não posso deixar de sentir emoção pelo seu

espírito inconformista e pelo lirismo dos seus versos. E se de alguma forma,

a minha poesia denota uma atitude de indiferença em relação à agenda dessa

geração (a emancipação é já um dado adquirido), não é de todo anormal que

assim seja. Mas denotar isso de modo algo ostensivo é acidental.

Não concordo com a afirmação final.

E convém não nos esquecermos que os dois primeiros volumes de Exemplos de

João Vário, Exemplo Geral (1966) e Exemplo Relativo (1968), anunciam, com

quase duas décadas de antecedência, um novo processo, que rompendo com as

convenções, propunha novos caminhos à poesia caboverdiana. A essa data já o

impensável acontecia?

Há vinte e picos anos atrás, na Carta a Bia d'Ideal, Corsa de David

associava-se às críticas sofridas então por Junzin!

 

Ciberkiosk. A sua poesia tende para a forma extensa, quer se trate do verso

ou do poema. Essa forma extensa articula-se com uma dicção grave, que vai

como que salmodiando o carácter sagrado do seu universo poético - que pode

ser a «gestação do pilão» na qual «a densidade é um poema». São para si

igualmente sagrados o texto e o mundo? Ou tem um precedência sobre o outro?

Ou não aceita sequer as coordenadas desta pergunta?

António de Névada. Em Cabo Verde quando o homem se verga para uma nova

semeadura, a terra cavada, rasgada, lavrada, é uma terra seca, crua, que não

foi, há muito, amolecida pela água. E curvando ao ritmo das sementes,

largando-as uma a uma ao semeio, ele, o homem, crê que cumpre, com

abnegação, o seu dever. E espera e crê!

Ano após ano, propor, assim, o pão e o vinho, não é temperar a hóstia e o

salmo?

É evidente que tudo isto tem o seu quê de sagrado. Não o acto mas o ânimo

que o sustenta! E não pode passar imperceptível ao lado da sensibilidade sem

despertar a perplexidade.

Vejamos: no acto de sepultar a semente, a morte não será de uma omnipresença

atroz?

Não será legítimo que o caboverdiano se veja confrontado, inevitavelmente,

com questões de ordem ontológica? Acentuo que a poesia lavra ou pretende

lavrar a própria alma, e que, por excelência, a mente é o instrumento e o

campo de toda a lavoura.

Eu até não me importava de encontrar cara a cara com O sagrado, livre de

qualquer admonenda, pois até tinha algumas questões incómodas para Lhe pôr.

Faço minhas estas palavras ditas por um velhote da minha cidade. Por sinal,

dizia-se que o homem não era muito "católico" das ideias.

Em horas mais propícias haverá muito a acrescentar à questão do sagrado que

carrega nas faces as rugas místicas da religiosidade. Essa religiosidade do

meu universo poético que deve ser entendida no sentido de religare, de unir

o homem à sua ancestralidade:

São nuvens?

Não! São almas nossas.

São árvores?

Não! São nossos cadáveres.

 

A Bíblia é uma grande obra estética e literária, tanto pela sua carga

poética, como pela sua importância histórica. E tenho sido um leitor assíduo

de alguns dos livros nela contidos. Nomeadamente o livro dos Salmos.

Ciberkiosk. Quer o seu livro publicado, quer o ainda inédito, organizam-se

rigorosamente em três partes, buscando um fôlego épico para abordar o seu

universo. O título do seu segundo livro, contudo - Esteira Cheia ou o Abismo

das Coisas - parece sugerir que o mundo a cantar é tão pleno quanto ausente

(o que é capaz de ser um sentimento definidor da cabo-verdianidade). O seu

projecto de uma épica lírica, sobretudo conseguido em Esteira Cheia, não

deixa de evocar Corsino Fortes, poeta presente nos seus dois livros. Assim

como a celebração de um «abismo das coisas» permite uma aproximação à

vertente metafísica da obra de um João Vário. Aceita situar-se numa relação

privilegiada com esta ascendência poética?

António de Névada. Aceito, com naturalidade, tal ascendência poética.

Ciberkiosk. Quer-nos falar sobre as razões que o levaram a intentar um texto

de teor mais proximamente épico, em Esteira Cheia?

António de Névada. É óbvio que alguns dos meus mestres são autores de épicas

contemporâneas de inspiração Homérica. Esteira Cheia não está alheia ao

ensejo que terá movido tais concepções estéticas. Em meados de noventa e

cinco na Carta ao tio Djom à volta de Esteira Cheia ou Abismo das Coisas, eu

dizia que esta havia atingido a maturidade: (...) Há sempre uma grande

melancolia que envolve a peça de arte e o autor. E quando ele (o autor) vê a

peça encadernada, já impressa ou retirada do cavalete, é como se a própria

alma transfigurada se apercebesse de que essa separação corporiza o

inacabado, é uma pausa à semelhança da morte...

A estrutura do livro (que se assemelha, de certa forma, à estrutura épica, e

que eu designaria por drama ou polifonia poética) subdividida em Prelúdio,

Canções 1ª, 2ª e 3ª (cada uma composta em três cantos) e Coro (ou rapsódia

final), é aquela que melhor sustenta os intentos desta proposta poética.

Fazendo uma analogia com a classificação das óperas, não há aqui o

antagonismo entre a música pura e o texto dramático, ou seja, a melodia (a

tessitura ou tecedura textual) e o próprio texto, indissociáveis (porque

como uma síntese de angústias metafísicas), coexistem e viabilizam o poema.

A canção primeira (Meditações) de Esteira Cheia tem por epígrafe palavras

ditas por John Coltrane. Trata-se de um reconhecimento. Esse grande

compositor compreende (abraça) o religare, procurando de forma obsessiva,

incansável e mesmo agônica a ancestralidade. É esse o lugar de A Love

Supreme, Transition, Meditations, obras fundamentais, que alicerçam, também,

a minha concepção do belo.

Resta-me acrescentar que o epos, o mito vivente, que sustenta esta proposta

poética, nada mais é do que o sentido efémero das coisas, a angústia, no

sentido mais amplo, os pedaços desgarrados do eu doendo, a dimensão humana.

Daí a premissa de me lançar, também eu, à procura obsessiva e agônica do

mundo e do lugar no mundo.

Ciberkiosk. Para terminar, de que modo é que a poesia portuguesa lhe é

relevante? Ou seja, como se relaciona com ela: como com uma literatura

estrangeira, no mesmo plano, digamos, da francesa ou inglesa? E que poetas

portugueses leu ou lê?

António de Névada. Se a pergunta é feita abordando o conceito de

nacionalidade, direi que me relaciono com a poesia portuguesa como uma

poesia que pertence a uma literatura estrangeira. Não no mesmo plano,

evidentemente, que a literatura inglesa ou francesa. Vivo há alguns anos

neste país, tenho, de certa forma, um apreço por esta bela cidade que é

Coimbra, aqui nasceu o meu primeiro filho, mas ainda assim, sou e sinto-me

estrangeiro em Portugal.

A poesia caboverdiana, a literatura do meu país, é uma literatura da língua

portuguesa. E àquilo que digo numa resposta anterior, direi mais: a minha

pátria é, também, a língua portuguesa.

É justamente por aí que eu começo, por onde iniciei a descoberta da poesia

portuguesa: devorei nos primeiros anos da minha adolescência toda a obra

poética de Pessoa. Visitei com deslumbramento o universo dramático de Antero

de Quental e a poética de Camões. Tenho lido uma boa parte dos poetas

portugueses deste e do passado século, e sou um leitor assíduo de Jorge de

Sena, Mário de Sá-Carneiro, Al Berto. E Herberto Helder e Nuno Júdice têm-me

marcado profundamente.

 

O crioulo e o Português no processo de afirmação em Cabo Verde

Manuel Veiga

Situação Linguística

Em Cabo Verde, a situação linguística caracteriza-se pela presença de duas línguas: o crioulo cabo-verdiano (daqui para frente Ccv) e a língua portuguesa (referida no texto por Lp).

 

Estas duas línguas moldam, embora de maneira diferente, toda a história e toda a visão do povo cabo-verdiano. Deve-se notar que a Lp passou a existir em Cabo Verde desde a época do povoamento das ilhas, isto é, desde 1462. O Ccv, pelo seu lado, sendo o resultado de uma reestruturação e de uma autonomização linguísticas, a partir do português popular do século XV e de algumas línguas da Costa ocidental da África (1), começa a ter contornos bem definidos, segundo o ponto de vista de alguns historiadores, cerca de cem anos após o achamento das ilhas (2). Isto significa que a Lp tem cerca de cinco séculos de presença em Cabo Verde e o Ccv cerca de quatro séculos.

 

A história secular dessas duas línguas como meio de comunicação e como principal suporte e veículo cultural do povo das ilhas confere a ambos o estatuto de património cultural, hoje comummente aceite.

 

Não obstante, o estatuto linguístico das duas línguas continua sendo muito diferente. Com efeito, enquanto a Lp é língua oficial e do ensino, da literatura, dos mídia e das situações formais de comunicação, o Ccv é língua de comunicação na família, língua das tradições orais, principal suporte musical, numa palavra, língua da oralidade e das situações informais de comunicação.

 

Esta situação fez com que a Lp fosse sempre considerada como língua de prestígio e o Ccv como língua de amizade e do coração. Tratando-se de situações informais de comunicação, o Ccv, sobretudo junto da elite letrada, teve quase sempre um estatuto de menoridade, chegando mesmo o seu uso a ser considerado desprestigiante. E isto, particularmente devido à falta de um alfabeto e de uma escrita estandardizados, à inexistência, durante muito tempo, de uma gramática escrita e à sua ausência tanto na administração como no sistema formal de ensino.

 

A situação de diglossia, no sentido atribuído por Ch. Ferguson (3), era o que melhor se adaptava e se adapta ainda ao contexto linguístico do País.

 

Para além da diglossia, há também o problema da dialectologia. Cabo Verde é um arquipélago de dez ilhas, sendo nove habitadas. O povoamento deu-se em épocas diferentes, as primeiras ilhas no século XV e as últimas no final do século XVIII. A distância entre as ilhas é pequena (entre 10 e 45 minutos nos pequenos aviões), mas durante muito tempo a comunicação era escassa e a mobilidade social era quase nula. Daí que a situação geográfica e social favorecia a formação de variedades dialectais e sociolectais.

 

Até a manhã da Independência Nacional, ocorrida em Julho de 1975, a situação de diglossia e a de dialectologia permaneceram quase que intactas. No pós-Independência, impunha-se dignificar o estatuto do crioulo e socializar a dialectologia, isto é, aumentar o nível de compreensão interdialectal. Uma nova era para o desenvolvimento linguístico despontava no horizonte. Entretanto, tornava-se e torna-se necessário conhecer todas as contradições do processo sociolinguístico para que o desenvolvimento preconizado seja integral e intracultural.

 

2 . Contradições do xadrez sociolinguístico

A relação entre a Lp e o Ccv, não sendo totalmente harmoniosa, foi no entanto pacífica, do século XV ao século XIX, altura em que o sistema do ensino formal, ministrado exclusivamente em português, conferiu, por um lado, um grande prestígio à língua portuguesa e, por outro lado, passou não só a marginalizar, como também a menosprezar a língua crioula.

 

Notícias históricas dizem que antes do século XIX a importância do Ccv era tal que um escritor anónimo, em 1784, chegou a afirmar que dos brancos estantes em Santiago “raros (são) os que sabem falar a língua portuguesa com perfeição, e só vão seguindo o estilo de falar da terra, que é uma corruptela tão rústica que não se pode escrever” (4). Nessa altura, alguns puristas e cultores do português escreviam para o rei de Portugal alertando-o pelo facto de um grande número de portugueses se terem já acostumado ao “estilo da terra” e, por isso, pouco a pouco, vão deixando de lado a prática da língua portuguesa.

 

Não há dúvida de que a larga prática e preferência não só dos negros e mestiços, mas também dos próprios brancos em relação ao “estilo da terra”, entenda-se Ccv, era grande e tudo indicava que um futuro promissor estava reservado ao Ccv. Porém, por mais estranho que possa parecer, o alargamento do ensino formal no século XIX e a criação do Seminário-Liceu de S.Nicolau, na segunda metade deste mesmo século (1867) constituíram, por um lado, os principais entraves ao desenvolvimento do Ccv e, por outro lado, criaram as condições estruturais e institucionais para a afirmação e o desenvolvimento da Lp. A partir de então, o desenvolvimento das duas línguas passou a processar-se num contexto de contradições e de competição desigual, no âmbito político, cultural e linguístico.

 

2.1. Contradições do foro político

Já vimos que, até ao século XIX, o desenvolvimento tanto da Lp como do Ccv se processaram de forma quase que espontânea, sem nenhum projecto programático explícito.

Com o alargamento do sistema de ensino formal, os que determinavam os destinos da sociedade cabo-verdiana deram-se conta de que a dominação, para ser completa e eficaz, para além da vertente política e económica, tinha que ser também cultural. Nesta base, o desenvolvimento do Ccv seria, na interpretação do discurso colonial de então, um atentado à ideia unitária do Império português. Aliás, num Congresso de Antropologia Colonial (1934), um dos congressistas, referindo-se à situação linguística preocupante da então Colónia, diz que até os filhos de Portugal “animam este uso aprendendo o crioulo logo que chegam da Europa, usando-o no trato doméstico e educando os seus filhos a falarem quase com a exclusão do português”. Continuando, o mesmo congressista afirma: “o crioulo [...] não favorece a ideia unitária do Império” (5). Nesta base, urgia, de um lado, declarar guerra ao crioulo e, de outro lado, criar as condições estruturais e institucionais que favorecessem a afirmação da língua portuguesa.

 

Assim sendo, o uso do Ccv passou a ser proibido na administração e nos estabelecimentos de ensino, tendo por legitimação um conjunto de anátemas proferidas a seu respeito, podendo estas ser resumidas no seguinte:

 

“ridículo crioulo, idioma o mais perverso, corrupto e imperfeito; gíria ridícula, composto monstruoso de antigo português e das línguas da Guiné que aquele povo tanto preza e os mesmos brancos se comprazem a imitar; miscelânea de português antigo, de castelhano e francês, sem regras algumas de gramática; língua... que carece de três letras –scilicet, não se acha nela F, nem L, nem R, coisa digna de espanto porque assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei e, desta maneira vivem sem justiça e desordenadamente” (6).

Do lado da Lp, por seu turno, foi reforçado o ensino, particularmente junto da elite intelectual e foram criadas mais instituições, tanto do ensino primário como do secundário, na então Colónia de Cabo Verde, e atribuíram-se bolsas de estudos, como prémio, aos filhos da classe intelectual privilegiada, para estudos na então Metrópole.

 

A política linguística de então visava fundamentalmente promover a Lp e marginalizar o Ccv. No pós-Independência (a partir de 1975), a situação melhorou relativamente à política de afirmação e valorização do Ccv, sem no entanto ter podido colocá-lo no seu devido lugar. Com efeito, à vontade política, claramente expressa nos diversos Programas de governação faltava o suporte económico e técnico capaz de tirar o Ccv do subdesenvolvimento em que se encontrava. Nesta base, a Lp que possuía já os principais instrumentos linguísticos e estruturais para a sua afirmação e desenvolvimento – como escrita estandardizada, dicionários, gramática, material didáctico, suporte literário, professores formados, estabelecimento de ensino -, foi assumida, livremente, como língua oficial. O Ccv, por sua vez, sendo uma língua largamente oral, sem alfabeto nem escrita estandardizados, sem gramática escrita nem dicionários, sem professores formados nem instituições minimamente capazes de assegurar o seu ensino, foi declarado apenas como língua nacional.

 

 

2.2 - Contradições do foro cultural

Elas decorrem da própria situação histórica em que se processou o desenvolvimento das duas línguas. O discurso colonial convenceu a elite letrada e a classe economicamente favorecida de que a Lp era sinónimo de saber, de educação e de prestígio. As próprias massas populares, ao constatarem que a Lp era a língua dos espaços importantes de comunicação, como a administração pública, os tribunais, a religião, os mídia, convenceram-se, elas também, de que a Lp era a língua de cultura e o Ccv apenas a sua língua de casa e de família.  

 

Mesmo no pós-Independência, a atitude da maioria dos cabo-verdianos, frente às duas línguas, na prática, era e é muito parecida: uma simboliza o prestígio e o saber e a outra representa a marca identitária e o suporte principal das tradições culturais. Assim, os políticos, escritores, jornalistas, funcionários públicos optaram pelo uso da Lp em todas as situações formais de comunicação. Porém, para as situações informais de comunicação, toda a gente, do campo à cidade, utiliza, geralmente, o Ccv. Não obstante, as massas populares, os artistas musicais, em geral, os tradicionalistas, a elite intelectual, bem como ainda todos os que fazem parte da civilização da oralidade – e que são a maioria do povo cabo-verdiano -, utilizam, no seu dia-a-dia, o Ccv. Tendo constatado tudo isto, o grande escritor brasileiro Jorge Amado declarou em 1986 que em Cabo Verde “a vida decorre em crioulo”.

 

que não deixa de ser significativo é que os próprios políticos, jornalistas e activistas sociais, em “situações limites” onde é urgente que a comunicação passe no próprio momento da elocução e com a carga semântica desejada, por mais literatas ou elitistas que sejam, passam a utilizar o Ccv. Isto acontece, por exemplo, em campanhas eleitorais ou em situações de catástrofe, por ocasião de erupções vulcânicas, ou ainda durante o período de uma determinada epidemia. Muitas vezes ainda, em “spots” televisivos de grande interesse social, económico ou político, o texto aparece na televisão em português, mas a voz-off é ouvida em crioulo.

 

Por tudo isto, a língua de comunicação em Cabo Verde é o Ccv, mas a língua de prestígio é a Lp.

 

Resumindo esta situação, alguém chegou a dizer que em Cabo Verde, a língua que governa é a Lp e a que reina é o Ccv.

 

2.3. - Contradições do foro linguístico

Se o discurso colonial caracterizou o Ccv, primeiro como deturpação do português e como algaraviada sem regras nem gramática e depois como simples dialecto da Lp, no pós-Independência o Ccv, apesar ter ascendido ao estatuto de língua nacional, continua a enfrentar gravíssimos problemas de desenvolvimento.

 

número dos que utilizavam o próprio Ccv para dizer que ele não tinha gramática diminuiu; porém, inventaram-se outros argumentos para atrasar o seu processo evolutivo.

 

Alguns escritores de renome diziam que não precisavam e não precisam do Ccv para escrever os seus livros. O que não deixa de ser curioso é que um ou outro desses mesmos escritores dizia que para a literatura: só o português, mas para falar com a filha: só o crioulo. Outros defensores do português passaram a argumentar que, sendo o Ccv a língua forte, em termos de comunicação informal, o seu desenvolvimento representaria, não um atentado à unidade do Império, como se dizia na época colonial, mas um atentado à língua portuguesa que só uma minoria da população dominava. Ora, se o povo já sabe o crioulo, então é preciso investir no português que ele não sabe ou não domina.

 

Alguns políticos e intelectuais ainda achavam que sendo Cabo Verde um país pobre e em vias de desenvolvimento, não seria o crioulo a ser utilizado quando se deseja pedir milho ou arroz ao estrangeiro. Para eles, seria mais inteligente e mais económico fazer-se o investimento no português que, para além de ser “língua de civilização”, possui a vantagem de dispor de instrumentos pedagógicos como: a escrita estandardizada, a gramática, os manuais, os professores e o suporte literário.

 

Um outro argumento ainda em desabono do Ccv tem sido a questão dialectal. O povoamento das ilhas em épocas diferentes e a situação geográfica (arquipélago de dez ilhas, sendo nove habitadas) , a pouca mobilidade social, particularmente no período colonial, forjaram variedades linguísticas em cada ilha. Se todas as ilhas são apegadas à respectiva expressão local, qual poderá ser a variedade ou a variante a ser implementada como língua do ensino? Para eles, também, a melhor solução seria ainda o português.

 

Um outro argumento contra o desenvolvimento do Ccv dizia que só os que não sabem a língua portuguesa, só os que não conhecem as vantagens sociais, económicas e culturais dessa grande língua de civilização é que propugnam pelo desenvolvimento do Ccv.

 

Finalmente, o argumento que se julga mais “moderno” diz que, se a língua da “globalização” é o inglês, torna-se, então, inútil o investimento no Ccv.

 

Todos estes argumentos desencontrados dão razão aos autores de Éloge de la Créolité (7) quando citando E. GLISSANT escrevem:

 

“Notre Histoire [...] naufragée dans l’Histoire coloniale [...] n’est pas totalement accessible aux historiens. Leur méthodologie ne leur donne accès qu’à la Chronique coloniale. Notre Chronique est dessous les dates, dessous les faits répertoriés: nous sommes Paroles sous l’écriture. Seule la connaissance romanesque, la connaissance littéraire, bref, la connaissance artistique, pourra nous déceler, nous percevoir, nous ramener évanescents aux réanimations de la conscience ... [Seule] la vision intérieure et l’acceptation de notre créolité nous permettrons d’investir ‘ces zones impénétrables du silence où le cri s’est dilué. C’est en cela que la littérature nous restituera à la durée’, à l’espace-temps continu, c’est en cela qu’elle s’émouvra de son passé et qu’elle sera historique”.

 

Diríamos que, para os autores de l’Éloge de la Créolité, a verdadeira história dos crioulos e, portanto, do Ccv também, só pode ser apreendida pelos que têm uma visão cultural, artística e antropológica da humanidade. Do mesmo modo, a sua afirmação só poderá ter lugar mediante esta mesma visão. Isto significa que a afirmação da crioulidade, em grande parte, estará dependente do papel que as letras, a arte a a cultura, em geral, desempenharem nos espaços crioulófonos.

 

2.4. Em Defesa do Ccv

São as próprias contradições do meio sociolinguístico que forneciam e fornecem argumentos aos defensores do Ccv, aos que detêm a visão artística e antropológica da humanidade. Com efeito:

 

•O bilinguismo, em Cabo Verde, está presente apenas numa franja muito reduzida da nossa sociedade – a elite letrada -, e, mesmo neste caso, o seu bilinguismo é sobretudo oral, na medida em que muito poucos letrados escrevem em crioulo; •A vida, em Cabo Verde decorre em crioulo e este está presente em todas as situações informais de comunicação, tanto junto da elite letrada, dos políticos como da grande massa popular; •Nos casos em que a comunicação deve ser eficaz e imediata, como nas campanhas eleitorais, nas ocasiões de catástrofe e em vários “spots” publicitários a mais valia do Ccv é comummente reconhecida; •Em todos os géneros musicais do país, a língua veicular e suporte cultural é sobretudo o Ccv, e isto tanto na morna, na coladeira, no batuque ou no funaná; •Possuindo Cabo Verde uma cultura da oralidade, quase todas as suas tradições culturais estão moldadas no Ccv; •Alguns escritores de nomeada dizem não precisar do crioulo para a literatura, mas confessam não serem capazes de usar o português na família, particularmente no convívio com os filhos, significando isto que no espaço familiar a língua privilegiada para esses mesmos escritores é o Ccv; •A convivência oral entre a Lp e o Ccv, durante vários séculos, nunca conduziu ao desaparecimento de qualquer uma dessas duas línguas. Não se percebe, pois, que a convivência escrita, que representa uma percentagem muito pequena do nosso quotidiano, possa significar uma ameaça para a Lp; •Sendo a crioulidade uma das marcas fundamentais da identidade do nosso povo, não se percebe a marginalização do Ccv no processo de desenvolvimento desse mesmo povo.

 

É convencidos do valor patrimonial tanto da Lp como do Ccv que muitas vozes se levantaram em defesa de ambas as línguas, particularmente do Ccv que tem sido objecto de desprezo e de marginalização. Assim, vários patriotas têm defendido a causa do crioulo umas vezes de forma polémica; frequentemente com trabalhos de cunho literário ou musical; algumas vezes com seminários, colóquios, estudos ou reflexões; outras vezes com experiência piloto de ensino.

 

A conclusão que se pode tirar é que tanto a Lp como sobretudo o Ccv têm direito de cidadania em Cabo Verde. Impõe-se, portanto, uma política linguística, antes de complementaridade do que de exclusão.

 

É dos contornos dessa política de valorização das duas línguas que mais abaixo trataremos.

 

- Perspectivas para a construção de um verdadeiro bilinguismo

Pela importância do crioulo, como suporte identitário e instrumento insubstituível para a integração no todo nacional; pela importância do português como suporte de uma parte da visão do mundo que temos e como instrumento eficaz quer para o diálogo inter-cultural, quer para a integração de Cabo Verde na comunidade internacional, a situação linguística que melhor servirá ao país será aquela onde o bilinguismo é um dado real e não uma simples miragem. Por isso, a política linguística, sem descurar o ensino de línguas importantes para o concerto das nações, como é o caso do inglês e do francês, deve apostar seriamente na transformação do português, que já é língua oficial, em língua veicular e na transformação progressiva do crioulo em língua co-oficial. Estas duas transformações devem constituir os dois objectivos fundamentais da política linguística. Não se trata de transformar o português em língua materna nem do crioulo em língua internacional. Se isto, porventura, um dia acontecer, Cabo Verde só teria a ganhar. Por enquanto, o que se pretende é fazer com que o português seja aprendido com rigor, por todas as crianças na idade escolar e por todos os estudantes durante a fase académica. O que se pretende é que a sociedade cabo-verdiana, se não na totalidade, pelo menos de uma forma expressiva e representativa possa estar preparada para codificar e descodificar a língua portuguesa, nos diversos domínios do seu emprego, nas diversas funções que exerce. Para lá chegarmos, não há outro caminho senão a democratização efectiva da educação e a aposta consequente num ensino de qualidade.

 

Quanto à transformação gradual do crioulo em língua co-oficial, o que se pretende não é simplesmente a adopção de um decreto ou a publicação de uma lei. A co-oficialização do crioulo significa fazer com que ele esteja presente no ensino (como matéria e como instrumento), na administração, nos diplomas legais, nas sessões parlamentares, nas comunicações ao País dos Órgãos de soberania, nos mass-média, na literatura, enfim, em todas as situações formais de comunicação, dentro do País como na diáspora.

 

Os custos tanto do português veicular” como do “crioulo oficial” são avultados. Alguns, talvez mesmo muitos bons cabo-verdianos, preferirão perpetuar a situação actual , isto é deixar o português para a comunicação formal e o crioulo para a comunicação informal. Para estes, Albert Memmi responderia:

 

“se résigner à écrire dans une autre langue que celle de la majorité de la nation, c’est perpétuer le fossé entre lui et la rue, entre le menu peuple et les privilégiés de l’argent ou de la culture. Les conséquences n’en sont pas seulement d’ordre moral: la mise à l’écart culturelle de la majorité d’un peuple a, très probablement, des résultats socialement et économiquement néfastes ... (et le dilemme persiste): on choisit une langue européenne pour éviter des dommages immédiats et pour aller vite; mais ce choix entraîne de nouveaux dommages, qui ne peuvent être réparés que par le temps”.

 

Não nos contentemos em, de um lado, evitar pequenos problemas imediatos e, de outro lado e a longo prazo, preparar o fosso da desgraça. A construção do bilinguismo terá os seus custos, mas vale a pena um tal investimento. Vale a pena porque o que está em causa é a nossa dignidade nacional e a nossa integração internacional; vale a pena porque é o próprio desenvolvimento integrado que o reclama, que o exige.

 

Nada de pânico. Não se vai construir o bilinguismo em detrimento de outras exigências fundamentais como o pão, a saúde e a habitação. O bilinguismo é para servir o homem e não vice-versa. Por isso, a sua construção será progressiva e de acordo com as possibilidades do país real que temos. A operação deverá ser realista, progressiva e pragmática.

 

A construção do bilinguismo não pode processar-se no escuro, no caos ou no vazio. Torna-se indispensável a formulação de princípios, a definição da metodologia, a criação de estruturas, a fixação de metas, o estabelecimento das etapas.

 

É sobejamente sabido que o ser, o estar e o devir cabo-verdianos possuem, fundamentalmente, duas gramáticas, dois códigos, dois sistemas linguísticos. Em nome do realismo, mas também da autenticidade, não podemos nem negar, nem subestimar a nossa história, a nossa antropologia diglóticas. Em nome desse mesmo realismo aceitamos, transformamos e valorizamos o mundo que criamos ou que perfilhamos, de acordo com o nosso ritmo, a nossa visão, as nossas possibilidades e potencialidades.

 

Este sentido do real conduz-nos ao desenvolvimento e ao exercício da filosofia pragmática. Esta exige que a nossa acção parta do real, no momento oportuno, com um calendário bem determinado, com a selecção adequada dos “inputs” e garantia antecipada do “output” desejado ou programado.

 

Sendo notório que a antropologia das ilhas fala sobretudo o crioulo e escreve fundamentalmente o português, tudo indica que a busca de complementaridade entre os dois sistemas linguísticos deixa de ser uma conveniência para se transformar numa exigência. Nem substituição, nem sobreposição, nem competição. Apenas complementaridade. Uma complementaridade onde se ouve a voz do transnacional e se sente o pulsar do nacional, num concerto harmonioso, integrador e respeitador.

- Conclusão

Qualquer medida de política linguística tem que estar enquadrada dentro de uma determinada visão. Ora, no dealbar de um novo milénio, a visão que se pretende para o nosso desenvolvimento é a de um Cabo Verde virado para a participação de todos os seus filhos ; um Cabo Verde onde o progresso não é concebido apenas em termos económicos, mas numa perspectiva de qualidade de vida, de justiça, de equidade e de respeito pelos direitos da pessoa humana, sejam eles linguísticos ou cívicos ; um Cabo Verde que reconhece o pluralismo cultural e o aceita como modo de vida normal e como fonte de riqueza, de desenvolvimento e de bem-estar ; um Cabo Verde capaz de produzir ciência e técnica tanto em crioulo como em português ; um Cabo Verde onde haja um contexto favorável ao desenvolvimento integrado, à preservação da identidade, ao exercício da cidadania e ao diálogo intercultural. Toda esta visão deve ter como pano de fundo o bilinguismo crioulo-português, mas sem exclusividade, já que hoje o inglês e o francês , quer se queira ou não, são instrumentos importantes para o concerto das nações. A aposta de Cabo Verde deve ser no crioulo como língua nacional e co-oficial, no português como língua co-ficial e veicular, no inglês e francês como línguas internacionais, para as relações interculturais, a nível planetário.

 

Se o discurso colonial prejudicou o Ccv para que a Lp saísse engrandecido, hoje o discurso do humanismo e da arte libertadora exige que cada coisa seja colocada no devido lugar para que o exercício da cidadania seja uma vivência e não uma miragem. E porque hoje é moda falar-se da globalização ; e porque em Cabo Verde a globalização na sua acepção intrínseca não é possível sem o devido enquadramento da nossa língua materna, terminaremos concordando com Derrick de Kerckhove quando afirma (8):

 

“Quanto mais noção temos da globalidade, mais ficamos conscientes das identidades locais, e mais as protegemos : é esse o paradoxo da aldeia global. O hiperlocal é complemento inevitável do hiperglobal”.

 

Notas:

Manuel VEIGA, Le créole du Cap-Vert : étude grammaticale descriptive et contrastive, thèse de doctorat du 3ème cycle, Université d’Aix-en-Provence, octobre 1998, pp. 7-26.

António CARREIRA, O crioulo de Cabo Verde – surto e expansão, Gráfica EUROPAM, Lisboa, 1982, pp. 62-63.

Charles FERGUSON, Diglossia, Word, 1959, vol. 15, pp. 325-340.

António CARREIRA, Notícia Corográfica e Chronológica do Bispado de Cabo Verde, ICL, Lisboa, 1985, p.27.

Manuel FERREIRA, A Aventura Crioula, 2ª Edição, Plátano Editora, Lisboa, 1973, pp. 127-133.

Idem 2, Ibidem, pp. 62-63

J. Bernabé, P. Chamoiseau, R.Confiant, Éloge de la Créolité, Galimard, Paris, 1993, pp. 36-38.

Derrick de Kerckhove, A Pele da Cultura, Relógio d’Água, Lisboa, 1997, p.243. Título original: The Skin of Culture.

Lisboa, Abril de 1999

 


 

Odju d’agu, de Manuel Veiga

Uma das caracterizações deste romance é feita pelo poeta e ensaísta José Luís Hopffer Almada quando afirma (1):

 

“[...] Manuel Veiga publica na segunda metade dos anos 80, Odju d’Agu, o primeiro romance em língua cabo-verdiana. Romance de iniciação aos meandros da nossa língua no que ela contém de riqueza metafórica e analógica, consubstanciada em ditos, provérbios, adivinhas, reelaboração de estórias, crenças e costumes tradicionais. Odju d’Agu é, à semelhança do moderno romance africano, uma feliz recriação da oralidade, e da espiritualidade a ela subjacente, pelas técnicas do romance moderno.

[...] No que respeita ao seu conteúdo, Odju d’Agu é assim a história da viagem iniciática das personagens [...] pelo mundo das suas origens enquanto país, e enquanto país africano. [...] o romance Odju d’Agu constitui assim como que uma reformulação de todos os pressupostos estético-ideológicos da claridosidade, pela sua negação, por um lado, particularmente do lusotropicalismo, e pela sua complementação, por outro lado, pela inserção de toda a problemática social do morgadio, do racismo, da africanidade, de uma certa negritude crioula e de toda a idiossincrasia santiaguense na saga literária caboverdiana. E é neste aspecto, a par do facto de ter sido integralmente escrito em Crioulo, que reside a inquestionável importância de Odju d’Agu. Não é pois descabida a aserção do professor Gerald Moser, segundo a qual Odju d’Agu é comparável, em certos aspectos, a Piligrim’s Progress ou a Roots”.

 

Vejamos um extracto do livro - na versão do ALUPEC, alfabeto unificado, recentemente aprovado, a título experimental -, que tipifica e encerra a obra, através das palavras do narrador principal, o já velho “kontador di stória”, Palu di Djódja (um autêntico griot africano), que, dirigindo-se ao público jovem que o escutava, como que numa passagem de testemunho, disse (2):

 

“Es stória ki nhos obi é sima un livru ki N skrebe y ki N dexa pa nhos lé. Ku txeu pasaji, na poku létra, el é un padás di nha povu y di mi própi, midjór óbra ki N skrebe y ki, nin pa mi, ka da pa persebe mutu dretu. Azagua riba di azagua, noti riba-l noti, N ba ta skrebe ku létra di sangi y ku pónta di nha kurason txeu stória di nha vida y di nha povu.Na mê di gritus di mudjeris prenha, di kriansas bandofadu y di soldadus maltratadu, nha kurason fridu ba ta pinga, góta pa góta, es bokadu di stória ki, na sinku azagua, sén bês kontadu, forma, finalmenti, un sinfonia dizafinadu, pamodi rítimu bira diferenti, instrumentu muda di kórda, létra perde sentidu. Y, sô ku konta otu kusa y na otu konpasu, éra ramedi. Mas, mi nha pérna dja bira fraku, nha vós dja bira roku y, alendumás, nha sol dja sa ta ba ta kanba”.

 

Notas:

Ver “A Ficção Cabo-verdiana pós-Independência”, in Cabo Verde – Insularidade e Literatura, Khartala, Paris, 1998, pp. 180-181.

Ver Odju d’Agu, ICL, Praia, 1987.

 

UMA LEITURA DE DIÁRIO DAS ILHAS DE MANUEL VEIGA

Eutrópio Lima da Cruz

 

INTRODUÇÃO

Nas condições ainda precárias e difíceis em que se desenvolve em Cabo Verde a actividade editorial, cada obra dada à estampa e colocada à disposição do cidadão, tem ipso facto relevância acrescida e adquire uma grande densidade na correlação de cada linha com os investimentos e custos comportados. Todavia, a alegria que daí resulta é suficiente e até generosamente compensadora, evocando a parábola bíblica na boca de Jesus Cristo, segundo a qual a mulher carrega grande ansiedade e submete-se às dores do parto. Mas de seguida e dir-se-ia de imediato, acaba ela por esquecer todo o mal por que passou, pontificando nela e na envolvência a alegria de uma nova criatura trazida ao mundo, com consciência de se tratar do cumprimento de uma missão.

 

Ora, salvos os planos da comparação e mutatis mutandis, estou querendo visualizar - e convidaria esta ilustre plateia a fazê-lo comigo - a felicidade do Manuel Veiga por esta sua 5a obra dada à estampa. O escritor é aquele que escreve, passe o pleonasmo. Escreve e tira da gaveta, publicando e disponibilizando para os outros o seu engenho e arte. A actividade exponentiza-se quando ele traz agregada a consciência da missão. Missão de serviço, ligando a consciência em paralelo com tantos artistas que assim procederam nos mais variados domínios de criatividade e expressão, apetecendo-me evocar por exemplo o genial Beethoven para quem a colocação de cada semifusa numa partitura adquiria tal significado nos fins do século XVIII e início do séc. XIX, em certa contraposição com escassos períodos antecedentes em que a produção artística consistia e quase que se resumia a uma espécie de arte pro arte, arte pela arte. Essa consciência é tão veementemente apreendida e vivida por outros génios que se seguiram quase contemporaneamente àquele vulto, reconhecendo-se na obra dele, tão veemente, dizia, que Richard Wagner por exemplo não se contém e rasga a hipérbole de que Deus criou o mundo para que Beethoven compusesse a 9a Sinfonia, a tal da Fraternidade Universal.

 

Couberam-me a honra e o prazer, por amável convite do Autor, de proceder à apresentação pública do DIÁRIO DAS ILHAS, de Manuel Veiga, convite a que acedi imediatamente primeiro porque se me tornava impossível declinar Manuel Veiga, segundo por ter tido a instantânea percepção de que também sou viajante na nau de todos os tempos, com obrigação por conseguinte de algo fazer, na modéstia do possível, para o sucesso da viagem. Por isto, vamos de imediato ao que interessa, aqui e agora.

 

DIÁRIO DAS ILHAS - “ Antes de mais, entremos na Nau para a viagem a que o poeta nos convida ou melhor, nos apresenta: ...” . Assim com estas palavras acabadas de citar, começa o Autor no 1o dia ao estabelecer os umbrais, o pórtico de entrada para o desenrolar de uma viagem que vai durar séculos, uma viagem de séculos, tecida por um único ideário global, o ideário da nossa história com a força da sua lembrança.

 

Já na 2a linha da obra, o Autor faz saber que vamos entrar na Nau e viajar a convite do poeta que assim se exprime, em excertos citados:

 

“ Era antigamente/ a primeira nau de escravos/ no rumo do Arquipélago/ rápida    navegando/ sob o impulso dos alísios...” .

 

A viagem vai-se desenrolar por um período simbólico de 50 dias, a cada dia correspondendo um diário de bordo, um relato. O relator é o Jorge, assim familiar e coloquialmente tratado, o poeta Jorge Barbosa, cuja entrada em cena equivale ao eclipse do Autor-introdutor, ainda que por vezes se possa ser tentado a reencontrá-los um sobreposto ao outro.

 

Desculpar-me-ão e compreenderão que, antes de tecer qualquer outros comentários, situe o fio condutor do trabalho de Manuel Veiga, o que apenas ser-me-á possível fazer se respigar esse fio condutor e a sua ossatura, com recurso ao próprio Autor. Ou mais propriamente, ao relator, o poeta.

 

“ Cabo Verde começou com uma nau [diz ele], não uma nau qualquer” . Era uma nau negreira, de escravos, mas também de capitães-mores. Uma nau sem identidade porque a sua história estava ainda no início, nos pórticos de entrada, já que Cabo Verde ainda não era, estava para ser. Essa nau inicia uma viagem que nós agora voltamos a fazer porém retrospectivamente, uma vez que se trata de uma viagem que já é história. “ Era antigamente...” .

 

A nau dirige-se ao Arquipélago. Navega rapidamente, tem pressa, vai investida de uma missão. E “ nessa hora então/ nessa hora inicial começou a cumprir-se/ este destino ainda de todos nós” . Interessava era a chegada, frisa o Autor. A chegada era condição preliminar para que tivesse tido razão de ser e sentido o viajar “ sob o impulso dos alísios” ou seja, viajar movido pela “ vã glória de mandar” , como diria Camões ou ainda para implantar a Fé e o Império, como diz ainda o mesmo poeta. Esses desígnios encontram-se visualmente estampados e materializam-se na própria modelação e compleição física da nau com - e cita-se - “ algo de grandeza nos mastros altos/ com vergas em cruzes” . Mais, Jorge Barbosa retrata poeticamente a nau como “ insubmersível/ e inquebrável/ a nau sustinha no balanço / o peso dos tufões e das ondas” , ela que vinha de velas enfunadas ao sopro salgado das brisas, velas essas que mantinham o contorno do peito dos pombos, na expressão sempre do poeta. Estes constituem apenas alguns excertos do poema Relato da Nau, onde Jorge Barbosa, em cada palavra, em cada verso e numa alegoria, encadeia a história de sofrimento mas também de resistência. O poema é mais extenso e contundente, quando refere terríveis tempestades experimentadas pela nau e que provocam baixas no carregamento escravo de que ela é portadora. Todavia, ela não soçobra. Antes, é reparada para novas viagens. Assim como também os escravos não morrem todos, restando vivos ainda em número suficiente para testemunhar a sua própria história e prosseguir a saga a que foram votados, saga essa que apontava para um horizonte e um amanhã de liberdade e dignidade. Aliás, tornam-se constantes na obra duas coisas: primeiro, cada situação crítica contracena com o seu reverso cujas notas mais salientes são constituídas exactamente pelas repercussões, da liberdade e da dignidade; segundo, é mais do que um artifício literário que o relato de cada dia da viagem no processo histórico desse destino ainda de todos nós, faça a deixa para o dia seguinte. Essa deixa repete-se à guisa de um refrão no último parágrafo de 49 dos 50 dias relatados em diários, incutindo esperança.

 

A trama encontra-se ainda apenas no início, dando já todavia o relato do 1o dia de viagem, notícia dos elementos que vão ser constantes, isto é: a escravatura, a arrogância e a petulância, a Fé e o Império pela Cruz e pela Espada, o sofrimento e a resistência, a emergência de nova realidade social, cultural e política a coroar a luta de séculos.

 

Estes arquétipos são todos reconhecíveis a olho nu no Relato da Nau, poema fundamental para que se entre no âmago da viagem e dos relatos de bordo diários que a viagem inspirou.

 

Os elementos opressores deste processo são violentamente escalpelizados num circuito anímico em que o poeta-relator e o relator que por vezes se lhe sobrepõe e dá notícias da sua actividade, fazem ambos efectivamente massa e corpo com o périplo, anunciando-se como vozes conscientes da caminhada. É que tais elementos implicaram sobremaneira, interferências e desvirtuamentos, muito difíceis de remediar, sanar e ultrapassar, com destinos de criaturas humanas de Kukuli, heterónimo de África, mais do que simpático, constituindo uma forma plástica de exprimir a necessidade ínsita de originalidade, autonomia e referenciação.

 

discurso prossegue com a viagem da nau peregrina. O diário de bordo engorda com novos factos e novas referências que vão urdindo a trama onde, num rasteio em diagonal, podemos identificar pontos e teses de convergência, dos quais se isolam alguns, enunciando-se ainda que em tópicos, quais sejam:

 

•a entrada do escriba Jorge Barbosa no arsenal arquivístico e secular da nossa história, arrumando códice após códice, não obstante a perda de alguns elementos mas restando ainda o suficiente para os seus intentos e propósitos. Os versos constituíram o trabalho do 1o dia do diário de bordo da nau, prosseguindo em prosa o seu diário por assunção cultural, de direito próprio, com consciência de missão explicitamente confessa, tudo isto contrastando com o desempenho forasteiro dos que “ descobrem” as ilhas que ele passa a tratar como baías; •o escriba-vate contempla o mar e saca dele vivências múltiplas e multifacetadas, entre as quais a partida das naus, da primeira e de outras que se seguiram, para o negro Continente, o Kukuli, estabelecendo-se o Norte e o Sul da nossa história, servindo as baías de placa giratória na encruzilhada do Atlântico; •o encontro do Jorge Barbosa com Nho Nacho, o Ali-Ben-Ténpu, ambos passando em revista teses fundamentais da vida das ilhas, das baías, conquanto que nem sempre coincidindo no enfoque das problemáticas e nas saídas preconizadas para a solução das mesmas; •o florescimento económico da Ribeira, à custa da destruição da base social e cultural de Kukuli, cuja mesologia simbolizada no portentoso baobá, viu-se ameaçada mas nem por isso soçobrando. Outra mesologia nasceria, a que Jorge Barbosa chamaria “ conflito numa alma só/ de duas almas contrárias/ buscando-se, amalgamando-se/ numa secular fusão” entre “ o clima tropical e o espelho de Portugal” .

 

Esta consciência aflorada em Jorge Barbosa constitui fonte de angústia. A tal ponto que as palavras lhe movem greve e o canal da expressão se bloqueia. Mas apenas momentaneamente. Após longa noite, vai amanhecer, algo vai aqui operar-se onde antes Jorge Barbosa, o relator do diário de bordo, assistira atónito à estrondosa explosão vulcânica num cataclismo díspar, o Big-Bang cabo-verdiano que dera à luz, de uma só vez, a dez encantadoras mocinhas, as baías.

 

Nesse périplo e nos registos, emerge que o escriba-vate decide cantar. E sobretudo amar nossa nudez, a dos montes, o nosso “ environnement” , “ nos contorcionismos extáticos de séculos” . Aceita o realismo umas vezes com amor, outras vezes com dor mas jamais com ódio;

 

•o escriba-vate assiste à organização da jurisdição temporal das baías e da responsabilidade espiritual das mesmas, no desempenho compaginado da Cruz e da Espada; •a primeira viagem a Kukuli, primeiro elo de uma cadeia trágica, a escravatura; a chegada insucedida ao porto que o Autor chama “ da Desgraça” com ancoragem de estranha nau em noite aziaga e por isso portadora de insónias; o desembarque no porto chamado “ dos Caçadores” e a primeira caçada de negros, em cumprimento de um plano hediondo. É uma sexta-feira, dia de semana que se torna aziago. Numa sexta-feira, a da Paixão, a nau alcança Kukuli; numa sexta-feira, a nau regressa à Ribeira com a missão cumprida. Dali para frente nem Kukuli nem a Ribeira seriam como dantes. É a Hora Zero. Se o poeta se deprime e as palavras lhe movem greve, ele acha consolo no Afro Pedro Cardoso, com a sua “ Ode à África” ; •há frustrações e interrogações nos kukulenses trazidos como mercadorias e escambo e parece que os espíritos dos antepassados e a resistência do baobá terão soçobrado. Confronto vai dar lugar a reencontro; no chão da Ribeira vai nascer algo de diferente, árvore enraizada “ no chão arsinário dessas baías centenárias...” ; •os kukulenses têm como única liberdade o sonho que tempo vai urdindo. Acusando o toque do desenraizamento, uma tragédia na verdadeira e plena acepção do termo, não se sentem todavia totalmente estranhos na Ribeira, têm alguma condição para lutar e criar aquilo que o autor chama “ uma nova mesologia” ; •a luta vai ser renhida, entre um Norte, impulsionador dos alísios da dominação e da força da ambição, e um Sul vencido mas não convencido porque escudado na razão e na Moral da Tradição; •a proveta do tempo trabalha incessantemente e o caldeamento laboratorial da Ribeira se transforma numa marcha cada vez mais irreversível; •assiste-se, após a Hora Zero, ao nascimento de um outro mundo onde o cadinho do tempo vai reelaborando nova filosofia, novos sistemas, códigos, símbolos, universos de valores, interpretação do real, codificação e descodificação de mensagens, etc. O futuro vai ser um parto difícil mas real, de uma mãe negra e de um pai branco, na expressão do escriba-relator do diário de bordo; •há uma intercomunicação nascente onde o branco se obriga à humilhação de ter de se aproximar do universo semiológico do negro. Começa o Pidgin, limitado mas com gérmens para com o tempo ganhar estatuto, crioulizar-se e desenvolver-se; •pela ladinização vem a miscigenação religiosa e a afirmação dos aqui chamados “ Caminhos da Transcendência” , com também nova mesologia religiosa; •o desmoronamento precoce do efémero fausto da Ribeira; •o baobá, confrontado com a seiva do pinheiro, transforma-se numa nova planta resistente e sábia, o tamarindeiro; •o contágio da nova realidade ultrapassa a Ribeira, espalha-se pelas ribeiras desta ilha de Santiago - a Baía do Milho - e alastra-se a todas as outras nove baías, sujeitos do fenómeno em comparticipação, baías “ com mastros e velas, com têmperas do tamarindeiro e das lavas do vulcão” ; •marinheiros do Norte e lavradores do Sul, água salgada e terra vermelha, eis a nova convivência ecológica onde a miscigenação sanguínea comporta também a interpenetração cultural. Há uma nova “ arquitectura da comunicação” no dizer do Autor, onde a hierarquização dos elementos não significa a subalternização das partes mas antes destaca o engenho, o labor e a arte da parte politicamente deprimida, de cujo lado está a razão; •corporiza-se a morfologia do ritmo e a sintaxe do som, com expressão máxima na língua; •o ordenamento jurídico nos sistemas de administração da Justiça e o papel do pelourinho, eis demais elementos; •emerge aquilo a que o Autor chama “ civilização baiana” , entenda-se cabo-verdiana, uma nova história igual a si própria; •o tamarindeiro galga, infesta cutelos, achadas e ribeiras da Baía; os baianos edificam o seu próprio eco-sistema; é a nova largada; •mas os alísios não se conformam nem desistem, antes recrudescem com hegemonia, etnocentrismo e assimilacionismo, sobretudo depois que os grandes deste mundo ratearam entre si Kukuli pela Conferência de Berlim; •entra em cena a arma da consciência, com o aparecimento no palco de um novo sujeito, Abel, o Libertador, leia-se, Amílcar Cabral, cuja missão consistiu na organização do seu povo “ para mondar as ervas daninhas” , no dizer do vate e fazer medrar nova mesologia. Para tanto, com outros colegas de luta, cria o seu MPC-DB, o Movimento para a Conquista da Dignidade Baiana. A travessia do deserto da luta vai transformar-se no toque liberto do clarim em manhã triunfante. A alusão é por demais evidente ao PAIGC e à gesta da Independência Nacional; •entra em cena o Ali-Ben-Ténpu com o signo da oralidade e faz concorrência ao relato escrito, trabalho até aqui realizado pelo nosso escriba; Jorge Barbosa passa a palavra a Nho Nacho, carisma e sabedoria popular, forte na vertente previsão do futuro que é uma das facetas da capacidade profética; •os deuses da Acrópole ou seja a potência colonial valem-se de todos recursos e expedientes inclusivamente da PSA - Polícia de Segurança Alísia - para tolher o processo baiano. Mas debalde, porquanto a força da razão estava do nosso lado; •a morte de Abel, assassinado, premissa de aceleração do processo libertador; •a festa dos cravos pelo 25 de Abril de 1974; •o nascimento da menina Julinha, a Independência Nacional; é a chuva de Julho para a esperança de colheita em Outubro, diz o Autor. O ovo resulta da histórica fecundação tendo como óvulo a Bandeira da Liberdade e como espermatozóide o Hino da Dignidade; •um dia Ali-Ben-Ténpu continuará contando a saga destas ilhas; •por fim Manuel Veiga despe as próprias máscaras ele que habilmente navegara endossando as máscaras poéticas de Jorge Barbosa numa aliciante viagem a bordo de uma nau chamada “ Cabo Verde” , com um diário de bordo escrito em 50 capítulos. E a chave de qualquer enigma se patenteia, sendo o próprio Manuel Veiga a fornecer-nos a decifração:

 

- Palu di Djódja do romance Odju d’Agu, mergulha nas raízes   da sua sócio-cultura e fá-lo na língua cabo-verdiana;

 

- Jorge Barbosa do Relato da Nau escreve o seu Diário das    Ilhas em português. Por isso é que se falou na sobreposição dos    actores;

 

- finalmente o Ali-Ben-ténpu, cuja pronúncia ainda por escrever    se encontra, porque mergulhado no futuro ainda em gestação,    dará conta dos últimos desafios da saga onde a diglossia não    deverá ser entendida como sinónimo de bilinguismo.

 

Remata Manuel Veiga, trata-se de três narrações, sendo diferentes na forma. A primeira, obviamente um romance, o primeiro por sinal na língua cabo-verdiana, o Odju d’Agu; a segunda narração, em forma romanesca, resultando no Diário das Ilhas; a terceira narração no domínio do porvir.

 

A esta altura da viagem, minhas senhoras e meus senhores, peço imensas desculpas e compreensão por ter de alguma forma dado a palavra mais ao Autor do que a mim mesmo como apresentador e avançado o trabalho que pertenceria a cada um dos presentes e a quanto mais vão ler o Diário das Ilhas. Compreendam-me, porquanto eu próprio tive a necessidade de ler em voz alta ainda que apenas os enunciados e tópicos, primeiro para me aperceber de que de facto estive sonhando mas efectivamente viajando na nau do tempo, a nossa nau, portanto muito para além do mero ónus onírico-fingidor do poeta; segundo, experimentei também a necessidade de interiorizar que, lendo o ïDiário das Ilhasï, talqualmente lendo Jorge Barbosa, encontrava-me lendo a mim próprio no meu próprio signo. E isto em virtude dda caboverdianidade que as obras se impregnam.

 

Imploro por conseguinte a vossa benevolência para uma ou outra consideração em torno do trabalho ora dado à estampa, sobre aspectos estético-formais e alguns outros.

 

Antes de mais, no que concerne ao género literário. Estamos inquestionavelmente no domínio da ficção. Todavia, cautela. Não se trata de uma ficção pura e simples mas antes, de uma reelaboração ficcional - permitam-me a expressão assente num realismo histórico. Manuel Veiga não é historiador nem se vislumbra na obra essa intenção específica e disciplinar. Ele é antes um escritor, um plumitivo que no caso vertente, consegue o hibridismo feliz entre história e ficção. Esta, a ficção, assume-se nas asas da sua liberdade e provoca ousadas laborações e projecções. A liberdade do manuseio do género literário está patente como um requisito elementar, um dado adquirido e uma constante. Mas a matriz contenutística do Diário das Ilhas, por sua vez, não constituindo história pura, não deixa todavia de ser histórica. Faz antes incursões com amplo recurso, amplo e magistral recurso ao arsenal da história das baías, leia-se, das ilhas.

 

Não será da minha responsabilidade e lavra a catalogação desta obra romanesca como sendo um romance histórico, ela cuja pedalada, cujo fôlego, cuja amplitude ultrapassa há muito e de longe o mero conto. Como catalogar então, e em que faixa, o Diário das Ilhas? Esta tarefa não nos ocupa aqui e agora em linearidade crítica, pelo que endossamo-la a quantos irão retratar-se na obra bem como a quantos dela venham a ocupar-se, isso sim, com a especificidade do crivo técnico-literário. Interessa-nos tão somente reter que a liberdade do procedimento faz de Manuel Veiga um explorador literário da existência das ilhas, da nossa existência. E um explorador com arte e mestria. Essa exploração literária é bem hábil na tecitura da trama e dos ligames históricos com os rumos, parcelas e Continentes em que a nossa experiência se deu e se afirmou, continuando o processo em aberto. A prosa é extremamente embebida de poesia, como quem se encontra consciente de estar manejando o paradoxo de um sonho real, se é que se pudesse alguma vez adoptar esta categoria, este figurino.

 

A via adoptada, inquestionavelmente legítima porque tão livre quanto o sonho mormente o sonho que venceu pela liberdade, tal via faz de Manuel Veiga um titular e um credor do direito de ser compreendido. É que, di-lo Milan KUNDERA citado pelo próprio Manuel Veiga, “ o romance é um espaço imaginário onde ninguém é possuidor da verdade e onde cada um tem o direito de ser compreendido” . Continua KUNDERA, “ o romancista não é nem um historiador nem um profeta : é um explorador de existência” E esta é por sua vez “ o campo das possibilidades humanas” .

 

Manuel Veiga é um artista explorador destes meandros. E a questão agudiza-se quando faz como recurso consciente, intencionado, finalizado e perfeitamente compaginado com tendências literárias universalmente consagradas. O próprio cita David Mourão FERREIRA quando este diz que, cita-se, “ ...Assistimos [hoje] à afirmação sem precedentes, de uma ficção que à História recorre - tanto à História recente quanto à História remota - para sobre ela triunfar, e até para modificar ou inflectir, por obra e graça do poder transfigurador do verbo” (fim de citação). His positis, Manuel Veiga está mais que justificado. Mais, ele nem sequer carecia de se justificar. Para que justificar o uso da liberdade? Resta que ele tenha que ser simplesmente compreendido. E se fizermos transposição do raciocínio para aquilo que se tem passado, se passa e vai continuar certamente a passar-se com a 7a arte? Nesta correnteza de pensamento e de entendimento é que encaixaremos as longas metragens fílmicas, citem-se BEN-HUR e quejandos sucessos, de inspiração histórica ou bíblica. Mas não nos aborreçamos, continuando ainda esta toada de justificações. Mais uma vez, faremos recurso ao próprio Manuel Veiga ao citar autores como J.BERNABÉ. P.CHAMOISEAU, R. CONFIANT, como que ainda a justificar o casamento entre História e Ficção pelo poder transfigurador - e já agora, também triunfador - do verbo. Vem aí a citação: “ Notre Histoire ... est naufragée dans l’Histoire coloniale... [elle] n’est pas totalement accessible aux historiens. Leur méthodologie ne leur donne accès qu’à la Chronique coloniale. Notre Chronique est dessous les dates, dessous les faits répertoriés: nous sommes Paroles sous l’écriture” . Eis portanto a chave para a problemática crítica que possa levantar-se sobre a liberdade literária processual em referência. Mais ainda, continuam os Autores, “ Seule la connaissance poétique, la connaissance romanesque, la connaissance littéraire, bref la connaissance artistique, pourra nous déceler, nous percevoir, nous ramener évanescents aux réanimations de la conscience ...” (fim de citação). Eis outra chave para o entendimento do âmago da questão crítica;

 

com este pano de fundo, com a actividade literária e o seu poder transformador do verbo a tornar exponencial a História, a nossa História, não deixamos de ficar estarrecidos com a compreensão que o Autor revela das coisas. Ponhamos de lado por instantes o poder transfigurador do verbo e fixemo-nos na compreensão da matriz histórica. Esta revela-se ampla, profunda e colhedora do filão essencial de uma existência, do fio ou dos fios condutores essenciais do processo histórico operado nas baías. Se nos reportamos ao relativamente grande baú da nossa história com António Carreira e quantos mais insignes nos têm dado voz e vez na compreensão de nós mesmos e da nossa COISA, e se por outro lado tecermos nexo com o material que Manuel Veiga manuseia, torna-se perceptível e impressionante como o Autor do Diário das Ilhas, viajando na pátina do tempo, se transforma num colhedor de essências, leia-se, desse filão essencial, perpassa e rastreia a nossa História com ardente e lúcida paixão - passe o paradoxo da contradição num lampejo que varre séculos de dor e de esperança. O rastreio é total e só impressiona que em tão pequeno espaço se diga tanto e tanta essencialidade da nossa existência. Mas retomemos o fio que nos ocupava. Ressalvá-lo-emos bem claro, o Diário das Ilhas não é um manual de história, seu autor e os vates aí consignados não se configuram historiadores. O rastreio faz-se na estação antropo-sócio-cultural. E é então que a História ganha dimensão exponencial para além da mera crónica, se humaniza, se projecta, se transfigura pelo poder do verbo. Para Manuel Veiga, a prioridade da acentuação vai para a estação de rastreio, descodificação e transfiguração. E isto, pelo poder do verbo; os temas essenciais da caboverdianidade, deles enunciámos já alguns ao ensaiarmos a leitura em diagonal pelo enunciado de tópicos. A leitura do Diário das Ilhas induzirá facilmente a esses temas. E o leitor, mesmo imperceptivelmente, vai ter que se deixar arrastar na correnteza da intelecção dos temas. Por outro lado, a intensidade humana com que as coisas jorram em pressão dá bem a entender a ânsia parturiente e a unção pessoal do investimento igualmente pessoal que o Autor aqui faz. Manuel Veiga perdoar-me-á a metáfora da ânsia de parto;

 

igualmente impressionante se torna como Manuel Veiga, na esteira de Jorge Barbosa, manuseia o poder da semiótica e das máscaras. Um fizera-o através da sua poesia musculada de simplicidade e de tanta profundidade com amplo recurso á poesia-simulacro com símbolos, metáforas, alegorias. De tal forma que o diário de bordo do 1o dia da viagem da nau, sem querer, saiu uma poesia, o "Relato da Nau" que dá o mote no Pórtico desta obra. Outro, o Manuel Veiga, inunda-nos com uma prosa poética - existiria ela? - também eivada de recursos imagísticos numa linguagem naturalmente fluente, eivada de tropismos com símbolos, metáforas, alegorias, tudo convergindo numa formidável libertação de energias secularmente acumuladas e sedimentadas. Não parece tratar-se de pura coincidência, mormente quando nos apercebemos do que significa para Manuel Veiga aquele nosso vate-relator dos diários de bordo, Jorge Barbosa, figura que ao longo da obra, dissemo-lo já, sobrepõe-se com o próprio relator que dele fala, isto é Manuel Veiga. Não será que devamos ler nesta libertação de energias o próprio génio baiano, apesar de momentaneamente parecerem periclitar de hipnotizados tanto o seu carácter como a sua têmpera, normalmente bem capazes de se indignarem?

 

Outra nota digna de registo ainda que sumária é a condição de Manuel Veiga como linguista, que não será sem consequências no acto como ele alcandora o surgimento e o desenvolvimento da língua cabo-verdiana como um dos maiores e mais expressivos indicadores do nosso processo afirmativo de janelas sempre abertas

 

Muito pouco mais acrescentaríamos a quanto já dissemos sobre a consciência de si que o Autor tem como um servidor que se coloca à disposição e cumpre com a sua arte uma notável função social. Essa consciência revela-se já também explícita para o vate dos diários de bordo.

 

As vivências e referências colectivas não beneficiam de arte colectiva na sua elaboração ou reelaboração técnica. O povo escreverá colectivamente a sua epopeia com e como gesta. Mas a elaboração técnica literária colectiva não lhe é apanágio. Ora, o mecanismo funciona de outro jeito e num circuito - diria - inverso, isto é: colectivamente o povo lê, relê, reconhece-se, retrata-se, acha-se identificado ou não com o trabalho sobre produzido. Mas ele próprio não é nem pode ser autor literário colectivo fora das faixas da estrita oralidade. Ele terá sim consciência na apreensão e na aplicação a si mesmo dos fenómenos de laboração técnico-literária por outrem produzidos. Sei dos riscos, calculados, a que não me exponho, sei do escorregadiço que não seria enveredar por esta teoria da questão. Perdoem todavia se estiver desfocado. Feliz pois da Nação que tem tais vozes a se disponibilizarem em serviço e investimento pessoal, para mais, com amor dedicado. Di-lo a dedicatória. O que Veiga interpreta, colhe e interpreta de Jorge Barbosa, aplica-se ao seu povo tanto em sentido literal como típico.

 

Com estes entendimentos, será imperativo que o Diário das Ilhas surta o seu efeito cultural e pedagógico junto do povo das Baías seu destinatário e objecto, seja junto dos nossos infantes, adolescentes, jovens, adultos, círculos académicos, aconchego da cultura em círculo de base familiar, etc., etc. Particularmente nos círculos familiares, entre um e outro episódio de novela, com a permissão desta. Ou então, em momento que se venha a reputar mais propício. Perdoem o aparte. O trabalho de leitura e assimilação facilita-se imensamente pela estruturação do Diário das Ilhas em 50 capítulos curtos, com sugestivos títulos cada um deles, glosando quase sempre o último parágrafo réstias de autoconfiança, esperança e afirmação. E a propósito, não tarde o dia em que sobre o Diário das Ilhas surja, surja não, se faça, também nossa longa metragem, encontrando respaldo em procedimentos internacionalmente consagrados. A nossa argumentística não é tão desaparelhada nem desinteressante como isso. Pois, podem crer, no dia em que isso se decidisse, motu proprio nacional e por assunção ou por interesse estrangeiro com cultura e negócio à mistura, não restam dúvidas de que o guião argumentístico teria já trabalho algo de bastante facilitado.

 

O Diário das Ilhas, Manuel Veiga dedica-o, di-lo expressamente, cita-se, “ ao povo heróico das ilhas que me legou um nome, uma pátria, uma cultura” . O peso específico é grande, de cada um destes legados, aliás constituindo razões suficientes para o doloroso mas reconfortante périplo que não foi a viagem da nossa nau, como podemos depreender dos seus diários de bordo. E não exageraríamos nem atraiçoaríamos os vates se extrapolássemos os enunciados do nome, da pátria e da cultura, deles sacando, inferindo paradigmas e parâmetros comportamentais dinâmicos para a nossa postura no palco da História. Sofrimento, exclusão, escravatura, arranque violento, criminoso e trágico do húmus kukulense, eis algumas dicas do passado, juntamente com o cortejo de outros males que induziram ou trouxeram por arrastamento. Kukuli perdoa. Mas não esquece. Conserva a bordo suficiente capacidade de indignação. A resistência com os gérmens da afirmação em toda a linha acabaram por vencer. Não porém sem deslizes e reparos. As independências nacionais kukulenses e baiana estão aí para o comprovar, não por elas em si próprias mas por usos limitados e algo derrapantes que eventualmente terão proporcionado. Todavia e na sua essência, constituem ciclos, momentos e desafios, gestas inigualáveis e termos de referência para a prossecução das viagens com eventuais correcções de rumo. Hesoooooõoooookkkkjjjkkoooooooooje a ciência da navegação está disponível em todo o lado. Por satélites e demais avanços tecnológicos. Também via Internet, se calhar. Não vá por conseguinte qualquer capitão arrogar-se exclusivisticamente e com timão de ferro a condução da nau, que terá de ser comparticipada nos seus múltiplos envolvimentos. As independências constituem testemunhos de vitória. O nascimento da Julinha a 5 de Julho de 1975 é nosso testemunho e ‘testamento para um dia claro” (perdoe-me o Dr. França o uso deste título de um dos seus poemas, que espero não fazer despropositadamente). Testemunho, testamento e paradigma de um ciclo novo nas vidas. Espero bem que não constitua mero acaso a apresentação pública deste livro paradigmático quando o País se encontra ainda na quadra da celebração do seu vigésimo segundo aniversário como independente. A Julinha vai numa idade interessante em que, nas suas concepções e mundivisões, tudo se espraia aos pés dela, a esperança credita-lhe gérmens de realização e sucesso, percalços varrem-se do seu ideário, do seu imaginário, das suas representações, do seu universo, dos seus tropismos, todos movidos pela força da lembrança como pelo ardor do porvir que ela crê ser certeza. Todavia, as possibilidades de derrapagens e mesmo bem perigosas, não se encontram automaticamente escorraçadas da nau em cuja viagem são colectivas as possibilidades de salvação como de perdição. A nau das baías é pequena mas nela cabem todos os baianos em paz. Não há espaço a bordo para esterilidades, revanchismos, exclusões, perseguições ou descambamentos que valham. O Diário das Ilhas comporta mais esta dimensão, a de um espírito arguto, preventivo e benevolente que vai à frente dos acontecimentos, lançando por isso mesmo sérios avisos à navegação. Tratar-se-á de manifestação do espírito dos antepassados? Diria talvez com Cristo, “ quem pode entender, que entenda”.

 

E Kukuli, que vai ser dele? E no momento seguinte, que é que se vai operar quando Kukuli, os baobá de Kukuli, ainda não deixaram de estremecer nos seus fundamentos, vítimas de novos e novíssimos estilos bem mais subtis, sofisticados e sofistas de cobiça, marginalização internacional e rateio, insanáveis conflitos intestinos, cegos e desvairados apetites de poder ... ... enfim, a espiral de males parece até repetir-se, parece até determinar o afro-pessimismo, o Kukuli-pessimismo. E nós as baías, mais uma vez, que estamos ao lado? Já o processo histórico ditara que Norte e Sul, no dizer do vate, elaborassem com a proveta do tempo um processo próprio no nosso próprio laboratório. Pois bem, a resistência, a inserção, a abertura, vão ter que ser terçadas como armas e bagagens da nossa nau em marcha. Como nos tempos idos e ao longo do processo, só a resistência, a alta frequência da consciência de si, a auto-estima aberta, o estear-se em valores endógenos e sedimentados, só isso poderá fazer só isso poderá fazer também das baías um espaço próprio, um nome, uma nação, uma cultura, uma pátria, tudo isto com estatura e desenvoltura próprias, por isso mesmo um interlocutor respeitável e efectivamente respeitado. Eis algumas dicas extrapoláveis do relato dos diários de bordo, dicas essas prontas a consumir, porquanto ameaças de negação e fagocitação ainda impendem sobre os processos que prosseguem e se acham em aberto. Os antídotos constituem por conseguinte elementos indispensáveis, devendo como tais ser apreendidos para prevenir e sanar eventuais pessimismos e derrapagens ou marginalizações. Elementos de valor para os nossos dias actuais e para os próximos, cujos contornos se delineiam, ainda que por vezes esbatidamente. Permanece intacto o convite para se entrar na nau para a viagem que prossegue. Importa que a bordo ninguém seja mercadoria prescindível. Antes, que todos sejam sujeitos históricos pelo menos no sentido de activos, imprescindível cada um, na saga em marcha. Particularmente a Juventude islenha, terá de fazer como o Jorge Barbosa do Relato da Nau, escrevendo o seu diário de bordo, enraizada no húmus cultural das baías e projectada para confins sem limites. A reescritura dos afãs constitui desafio descomunal. Como descomunal será a recompensa pela libertação do nosso processo histórico, social e cultural. O nascimento da Julinha constitui apenas uma etapa no ciclo das possibilidades. Mas, etapa necessária e imprescindível para que nos momentos seguintes se pudesse pensar e agir em função de novas contextualizações.

 

Finalmente, o escritor sabe-se e confessa-se envolvido num ciclo em três etapas da historiografia cabo-verdiana potenciada pela arte literária. Ou seja, ele próprio armadilha-se numa única história com três histórias. Na primeira, Palu di Djódja protagoniza-se dando um mergulho bem fundo nas raízes do tempo sócio-cultural. Esse mergulho corporiza-se no romance Odju d’Agu, em língua cabo-verdiana. É o Prólogo. Na segunda, Jorge Barbosa é o vate com o Diário das Ilhas em português, que ora nos ocupa. É o Logos. Na terceira história, a oratura do Ali-Ben-Ténpu, leia-se Nho Nacho, recebe o testemunho tanto de Palu di Djódja como de Jorge Barbosa sem que a diglossia se confunda com o bilinguismo. Esta terceira está por vir, como Epílogo. Três narrações, como no-lo-diz o próprio Manuel Veiga, que diferentes na forma, são complementares no sentido. Com efeito, todas elas fazem parte da saga baiana. Completam-se tanto nas letras da poesia escrita pelo vate do Diário das Ilhas como nas palavras da oratura pronunciadas por Palu di Djódja e por Nho Nacho. Personagens como Pedrinho, Mamadu e Regina do Odju d’Agu reencarnam-se em Abel o Libertador e Julinha, isto é, em Amílcar Cabral e na Independência Nacional.

 

romance Odju d’Agu, Prólogo: só compreendido mais tarde. O Diário das Ilhas, Logos: compreendido logo, será talvez estimado por uns e quiçá odiado por outros. E a parte do ali-Ben-Ténpu, Epílogo, ainda por escrever? Que dizer dela? Nada a dizer a respeito, porquanto ainda se encontra nas malhas do futuro, logo, da possibilidade, da viagem que prossegue.

 

A voz do ali-Ben-Ténpu terá de completar o Diário das Ilhas com a terceira parte a partir de 5 de Julho de 1975, de 19 de Fevereiro de 1990, de 13 de Janeiro de 1991 e de outros ciclos que forem dados a viver às ilhas baianas. A viagem continua sob o signo das estrelas.

 

Prólogo, Logos. Falta o Epílogo. Tenha, pois Manuel Veiga vida, saúde e predisposição para elaborar o Epílogo e assim completar as premonições da sua TRILOGIA.

 

 

Insularidade fecunda

Manuel Veiga

 

Arquitectactada no tempo e no espaço das nossas ilhas atlânticas - que o poeta chamou “a pátria do meio do mar” -, a crioulidade de que hoje nos orgulhamos é produto e é também projecto de uma insularidade que acabou sendo fecunda.

 

Com efeito, de um certo caos inicial emergiu e emerge um logos social; de um determinado vazio cultural se processou uma ordem antropológica, cada vez mais rica e polifacética; das cinzas do anseio afogado e da angústia que tortura nasceu e nasce a esperança libertadora; do estatuto de dominado o nosso povo passou a ser senhor do seu próprio destino.

 

Nesse longo caminhar da nossa história tivemos por companheira inseparável uma insularidade madrasta que, forçada pelas circunstâncias, acabaria por compreender e aceitar o papel de uma mãe, exigente embora, mas sem deixar de, algumas vezes, ser carinhosa também. Caprichosa ou acolhedora, a insularidade das nossas ilhas manifesta-se de múltiplas maneiras: ela é geográfica como climática, histórica como política, antropológica como existencial.

 

Note-se que o universo da insularidade extravasa o sentimento de solidão e nostalgia, emergente do acanhado espaço geográfico das ilhas, para incorporar outros aspectos resultantes tanto da dialéctica entre a imensidade do mar arquipelágico e a pequenez das ilhas retalhadas que as ondas “afogam e afagam”, como também entre a grandeza do sonho ilhéu que não se conforma com a medida da ilha e os problemas sociais, políticos e culturais de que a mesma tem sido vítima.

 

Aliás, a fome existencial do ilhéu ultrapassa os limites da estreita fronteira contornada pelo mar para se projectar na procura do mais além. O visível não lhe chega, ele tem a necessidade do imaginário. Este, por sua vez, não sacia totalmente a sua sede, ele se sente atraído pelo real existente ... que transborda a medida da ilha.

 

A insularidade islenha é, pois, o resultado da luta e dos desafios que nascem no próprio chão das ilhas; ela é também um projecto inacabado cujos traços ganham forma e conteúdo no confronto e reencontro da água com a terra , do homem com o mar.

 

Com efeito, a pequenez territorial, a falta de água e a exiguidade de recursos naturais estão na base de flagelos como a seca periódica, a fome, as epidemias (anteriormente sem solução) e o subdesenvolvimento, de uma maneira geral. Por outro lado, a imensidade do mar “que ... dilata sonhos e ... sufoca desejos”, com o seu “ ... cântico /estranho / ... / que não se cala em nós!” . (1)

 

Essa insularidade tão peculiar das ilhas é magnificamente retratada pelo poeta Ovídio Martins quando, em plena época colonial escreve:

 

“Árvores/ sem carne/ terra/ de Fogo/ Homens bloqueados/ (espantosamente bloqueados) / Irmãos no catacismo periódico/ de falta de água / Já sem forças/ para mandarem/ calar o mar” .(2)

 

desespero do poeta, porém, um dia, no pós-independência, se transformará em esperança e , avançando “ilha a ilha”, é o mesmo que vem segredar-nos que, afinal, “O nosso destino estamos a cumprí-lo: Dar a Cabo Verde outro mar, outro céu, outro homem” E para exorcisar os flagelos da insularidade, tornando-a fecunda, com estrumes e fertilizantes trazidos de longe ou recriados no próprio chão do Arquipélago, um outro poeta da espernaça, com toda a força do seu estro telúrico, proclama, como que jurando à Bandeira da Dignidade, já no céu das ilhas flutuando:

 

“Mesmo que o céu não chova/ E o sol e a lua/ Sejam cordas partidas no violão da  ilha/ ... Mesmo que o vento/ Vergue/ No eixo da terra e nos mastros da alma/ Os ossos e séculos de sangue e secura/ Mesmo sendo! já não somos/ Os flageldados do Vento leste”.(3)

 

Este poema faz lembrar o desabafo e a ousadia de um outro poeta da insularidade que, em plena dominação colonial - quando a Bandeira da Liberdade ainda estava à distância -, com convicção, proclamava:

 

“Somos os flagelados do vento leste!/ Morremos e ressuscitamos todos os anos/para  desespero dos que nos impedem/ a caminhada/ Teimosamente continuamos de pé/   num desafio aos deuses e aos homens/ E as estiagens já não nos metem medo/ Porque descobrimos a origem das coisas”. (4)

 

Vista desta maneira, a insularidade é geográfica e climática, mas também histórica e política.

 

Não podia ser fácil a formação de uma sociedade a partir de mundos e de universos tão diferentes como os que no recuado século XV, e no chão do arquipélago, se confrontaram. Esses condicionalismos histórico-culturais corporizaram uma nova forma de insularidade que é política, mas também é antropológica e é existencial. A este propósito, Pierre Rivas afirma que, para o ilhéu cabo-verdiano,

 

“.... l'insularité géographique devient insularité existentielle, qu'on peut lire comme métaphore de la négritude, lieu d'exil loin de la patrie africaine, prison coloniale ou idiossyncrasie ilienne”.(5)

 

É, pois, esse drama que levou o poeta do Ambiente a pintar a insularidade das ilhas com letras de sangue vertido de milhares de pedras feridas no deserto da história e com a seiva de algumas árvores apenas, curtindo a seca e resistindo ao flagelo das lestadas. Esse sofrimento e essa resistência são reais e é deles que emerge a crioulidade insuflada de sonhos, acariciada com os tentàculos do pelourinho, mas regorgitando a vida.

 

ilhéu existe, pois, porque resiste. E nisto consiste o seu drama, mas também o seu mérito.

 

E, resistindo sempre, o homem cabo-verdiano acabaria por dar-se conta de que, no ambiente das ilhas, tornava-se necessário e inevitável o “Conflito numa alma só/ de duas almas contrárias/ buscando-se, amalgamando-se/ numa secular fusão”.(6)

 

Relacionado com a criatividade literária, o tema da insularidade ganha expressão particularmente através do sentimento e desejo de evasão experimentados pelos “claridosos”, como também pelo ideário programático de “fincar os pés no chão” que sintetiza o seu programa literário e o ideário telúrico que os acompanharia pela vida fora.

 

Posteriormente, a literatura cabo-verdiana, embora reconhecendo o elevado sentido do “projecto claridoso”, acabaria por alargar o horizonte do seu ideário.

 

Se na década de 40, 50 e 60 havia já alguns indícios, é particularmente a partir dos anos 70 que começa a ganhar corpo uma literatura nova, com o centro de gravidade em Cabo Verde, mas com um horizonte que extravasa a limitada geografia das nossas ilhas.

 

A visão localizada do mundo, condicionada pela insularidade e veiculada apenas pelo canal do sonho e da evasão, é posta em causa. Já Jaime de Figueiredo, uma das inteligências mais argutas da geração claridosa tinha pressentido o novo ciclo quando afirmou:

 

“Um ritmo vital próprio, perfeitamente nuançado aflora hoje no complexo do sentir humano: a psique atlântica. O infinito azul que nos rodeia, a distância que nos envolve e beija, sublimaram de sonho a longa simbiose dos sangues [...] E fluindo sempre para o diferenciado, rasga-nos a vida novo ciclo”. (7)

 

Porém, como foi dito, é sobretudo a partir da década de setenta que um novo projecto literário moldado com a massa e o fermento da alma universal ganha maior expressão. É assim que T.T.Tiofe (João Varela), falando de escritores do período 75/76, diz:

 

“[...] não se trata de poetas de Cabo Verde que escrevem poesia cabo-verdiana mas de poetas de Cabo Verde que escrevem poesia”.(8)

 

Igualmente, um Ovídio Martins, por exemplo, escreve: “eu nasci na ponta da praia por isso trago todos os mares do mundo” e um Arménio Vieira do Eleito do Sol, completa o raciocínio ao considerar-se “ [...] homem de todas as raças”.

Como se tudo isto não bastasse para retratar o novo chão cultural emergente nas ilhas, Vera Duarte, uma voz femenina da nova largada, vem reafirmar que o processo da nossa cultura e literatura perspectiva-se em vários sentidos e para vários horizontes:

 

“A minha ancestralidade plasmada sobre a baía e o porto grande que se abre ao infinito gerou-me [...]. Manhana pela manhana montada em meu cavalinho doirado, irei pelo mundo à procura do sentido da vida”. (9)

Neste processo, uma nova cultura, uma nova crioulidade têm inaugurado um espaço igualmente aberto. Tudo indica que hoje a caboverdianidade tende a abrir-se ao mundo e o seu intento consiste muito mais na procura do humanismo do que em celebrar uma fechada identidade.

A literatura caboverdiana é cúmplice do humanismo desejado. É por isso que se para caracterizar a época “claridosa” numa única palavra escolheríamos a palavra insularidade, para caracterizar o novo ciclo literário optaríamos pelo signo humanismo.

 

Notas

Jorge Barbosa, “O Mar”, Poesia I, ICL, Praia, 1989, p. 72. Publicado pela 1ª vez em O Arquipélago, 1935.

 

Ovídio Martins, “A Seca” Caminhada, 1962. Retomado em 100 Poemas, p. 15

 

(3)Corsino Fortes, “A Lestada de Lés a Lés” Árvore & Tambor, ICL, Praia, 1986, p. 121.

 

(4) Idem 2, Ibidem

 

(5) Pierre Rivas, “Insularité et Déracinement dans la poesie cap-verdienne”, in colóquio de Literaturas Africanas de Expressão Oficial Portuguesa, Paris, Fundação C.Gulbenkian, 1984.

 

(6) Idem 1, “Povo”, Poesia I, ICL, Praia, 1989, p. 71. Publicado pela 1ª vez no livro Arquipélago, 1935

 

(7) Jaime de Figueiredo, in cinta de apresentação do livro Arquipélago de J.Barbosa, 1935.Mais tarde citado por Teixeira de Sousa em “Um Texto Quase Esquecido” in Pré-Textos, nº 0, 1990.

 

(8) “Arte e Artefactos Poéticos em Cabo Verde – Reflexão sobre os últimos 50 anos de Poesia Cabo-verdiana”, in Actas do Colóquio Internacional sobre Les Littératures Africaines de Langues Portugaise (brochura), Paris, 1984, p. 313.

 

(9) Vera Duarte, Manhã Amadrugada,Vega, Lisboa, 1993.

 

BLOCO DE NOTAS  (Urbano Bettencourt)

l. Cabo Verde - Insularidade e Literatura (Manuel Veiga (Coord.)),

Paris, Éditions Karthala, 1998

 

Manuel Veiga, escritor e investigador do crioulo cabo-verdiano, foi o coordenador deste livro de ensaios que as Éditions Karthala publicaram no ano passado numa versão em Português e noutra em Francês.

 

No seu conjunto, o livro pretende-se uma abordagem abrangente da realidade cultural cabo-verdiana, de que a literatura será uma das componentes fortes, como expressão transfigurada de um processo histórico-social, embora muito menos conhecida do que a componente musical (que alguém já referiu como um dos três M da identidade cabo-verdiana, ao lado do Mar e do Milho). Neste sentido, compreende-se a pluralidade dos ensaístas aí presentes, traduzindo a diversidade dos olhares e dos campos de observação, organizados em quatro grandes capítulos ou áreas temáticas (designação que, reconheço, é pouco adequada ao último deles): o "Ciclo do Mar" (onde a perspectivação histórica se liga à insularidade "como uma das principais colunas da literatura cabo-verdiana"); o "Ciclo do Milho" ( que põe em evidência a centralidade deste cereal na alimentação e na representação cultural e simbólica do arquipélago); "Tradições Orais e Literatura" (espécie de "guião histórico" da literatura cabo-verdiana, recuando aos seus primórdios e demarcando alguns dos seus períodos, antes e depois de "Claridade", em ligação também com um olhar sobre a oratura, o universo das tradições orais que desempenham um papel de relevo na expressão da crioulidade); a última parte reúne uma série de notas de leitura, apontamentos críticos sobre algumas das mais recentes propostas narrativas e poéticas, mas sem perder de vista as pontes que possam estabelecer com os "clássicos" da moderna literatura do país.

 

"Cabo Verde - Insularidade e Literatura" é um livro que permite ao leitor uma visão de conjunto extremamente enriquecedora e iluminadora. Visto de fora, de outras latitudes também elas insulares, é ainda um livro que não pode deixar de abrir-se a algumas leituras laterais, pelo que revela quanto aos evidentes benefícios resultantes dessa metodologia de aproximação multidisciplinar, mas também, e muito principalmente, pela atitude descomplexada de afirmação de uma realidade própria e consequente empenhamento na sua divulgação.

 

2. A História de Blimundo (Leão Lopes (recolha e ilustração))

2ª ed., Centro Cultural Português, Praia e Mindelo

 

Pode-se chegar à história de Blimundo através do violino de Travadinha, nesse disco único em que a sua criatividade e inventiva demonstram como se (des/re)faz a música tradicional de Cabo Verde: uma melodia que parece chegar dos confins da terra e do corpo e a que a voz de Ana Firmino vem imprimir um ainda mais acentuado tom de encantamento e mistério.

 

Mas essa é apenas a canção do conto tradicional caboverdiano em que se narra a história do boi Blimundo, possante boi de trapiche, irreverente e amante da liberdade, que desafia a autoridade e o poder do Senhor Rei, incapaz de vencê-lo pela força dos seus exércitos. E só um rapazinho, munido de cabaça de água, saco de milho torrado e cavaquinho, será capaz de atrair Blimundo à cilada mortal montada por Senhor Rei, cantando-lhe essa canção que acena com a (ilusória) promessa do seu casamento com a Vaquinha da Praia.

 

Há nesta história de David e Golias alguns tópicos e motivos que poderão, eventualmente, reenviar a outros contos populares e mesmo a contextos culturais e literários diversos (o poder encantatório da música, a paixão que faz desviar caminhos e vontade, a astúcia sobrepondo-se à força); mas há, sobretudo, um forte investimento simbólico que arranca das circunstâncias concretas e históricas para "falar" das dicotomias opressor e oprimido, força de trabalho e posse da riqueza, escravidão e liberdade, amor e traição. E mesmo o milho, a música e a água com que a personagem infantil se apresta para a viagem passam obviamente como três factores de forte carga cultural, identitária.

 

"A História de Blimundo" constitui ainda uma manifestação de apreço e respeito pela cultura popular, o reconhecimento da sua vitalidade.

 

Cabo Verde - Encontro com escritores

Michel Laban, Porto, Fundação Engº António de Almeida,1992

Mais de duas dezenas de escritores e criadores culturais cabo-verdianos em diálogo com Michel Laban. O resultado é esta obra em dois volumes, em que, pela voz dos seus mais directos intervenientes, se traça o percurso literário e cultural do arquipélago no período de cinquenta anos que começa em 1936, ano da "Claridade", revista da "proclamação da independência cultural de Cabo Verde" (Gabriel Mariano).

 

Reconheça-se, porém, o que poderá haver de redutor em referenciar nestes termos um livro que abrange outras questões, de ordem histórica, social, linguística, e que acaba por abarcar um período mais vasto do que esse, dado que ao conhecimento do leitor são igualmente trazidos os contributos precursores mais relevantes e mesmo elementos contextuais de uma escrita particularmente atenta ao seu próprio contexto físico e humano - a justificar até o o reparo de Mário Fonseca a Michel Laban: "um outro motivo de inconforto intelectual é a ausência, nas suas perguntas, de qualquer referência à nossa cultura de carácter popular, à nossa literatura popular em crioulo e em português... ao mundo dos contos e lendas da literatura oral cabo-verdiana. Não acredito que se possa compreender a história cultural de Cabo Verde sem ter em conta os domínios acima referidos, apenas a título indicativo."

 

Dos depoimentos dos dois fundadores de "Claridade" ainda ouvidos por Michel Laban - Baltasar Lopes (entretanto falecido) e Manuel Lopes - o deste último refere a sua experiência açoriana de onze anos no Faial. Experiência incómoda do ponto de vista físico, em virtude de uma "difícil e morosa adaptação ao clima dos Açores, excessivamente húmido em contraste com o de Cabo Verde", mas, por certo, bem mais profícua a outros níveis: sócio fundador do Núcleo Cultural da Horta, Manuel Lopes publicou ali o ensaio "Os meios pequenos e a cultura" (1951) e em Angra do Heroísmo os "Poemas de quem ficou" (1949), graças ao papel intermediário de Pedro da Silveira que o levou até ao editor Manuel Joaquim de Andrade, a quem se deve, entre muitas outras coisas, o facto de ter sido o editor do jovem Vitorino Nemésio.

 


A escrita da terra em Manuel Lopes e na Claridade

Elga Vilela Costa

Originally published in Ciberkiosk : http://www.ciberkiosk.pt/arquivo/ciberkiosk5/ensaios/elga.htm (dead link)

caso de Cabo Verde está, desde há anos, marcado, na sua mais profunda intimidade, pelo fenómeno da emigração. Um impulso de massas como este sempre representou para o povo caboverdiano uma realidade dramática que a própria terra explica sem se precisar de grandes e elaboradas palavras: basta-nos olhar e viver naquelas ilhas.

Para muitos caboverdianos, estas movências são o sonho de toda uma vida; este desejo, ou mesmo desespero, de conhecer outros (outros tudo: mundos, gentes, costumes, hábitos, cheiros, cores...) torna-se, muitas vezes, objectivo de vida. Tudo isto é compreensível se atentarmos na dramática imagem de um povo que anseia, a toda a hora, pela vinda das chuvas que por vezes levam intermináveis anos a chegar. Por aqui se explica e se compreende o desejo de querer partir.

Contudo, ninguém pode afirmar que haja emigrações felizes, mesmo que bem sucedidas, pois implicam consequentemente uma ruptura, uma distância em relação a uma identidade, um penoso processo de adaptação, um ajustamento. Muitos conformam-se em viver longe mas sob a inspiração de Cabo Verde. E é exactamente aqui que assentarei estas breves linhas sobre Cabo Verde. É justamente nesta cortante e dolorosa dualidade de viver longe e querer sempre SENTIR Cabo Verde que centrarei o meu trabalho.

Sonhar com a vida para lá do mar leva à saída, mas viver com a terra no coração leva, inevitavelmente, ao regresso. E é um regresso sempre desejado: pelo que saíu, que finalmente recupera a "alma" e se re-identifica, pisando aquele chão sagrado, e pelo que ficou, que recebe agora as novidades vindas do "além", do para lá das ondas, do "outro lado", de outros mundos. Sempre foi assim: o homem, tanto o que corajosamente partiu como o que resignada ou livremente ficou, está tão indissoluvelmente ligado à natureza que dificilmente se poderá separar daquele chão que eternamente o prende.

Eis porque surgem os poetas e ficcionistas que proclamam a HORA DA DEFESA: a defesa da terra, do homem de e em Cabo Verde e a defesa da identidade. Por volta dos anos 30, um conhecido homem das Artes caboverdianas, José Osório de Oliveira, fez sentir a Jorge Barbosa (outro pródigo homem das Letras caboverdianas), através de uma frase lapidar, a necessidade que havia de dar voz àquele povo sofrido (e cito): "Então você é filho de Cabo Verde; vive aqui, neste pedaço doloroso de Terra; nunca viu essa delícia do mundo que é o Mediterrâneo, nem sabe o que é a doçura de uma fonte, e põe-se a cantar esse tema, tratado por tantos poetas que só por sugestão literária pode sentir, quando tem aqui, a seu lado, uma paisagem, um povo cujo drama está a pedir uma voz que o interprete para se fazer cantar!". (1)

E assim se começa a lutar e aparece, em 1936, no Arquipélago de Cabo Verde, o primeiro número da Revista Literária e Cultural "Claridade". "Claridade" tinha, de facto, a dupla feição literária e de cultura, de investigação sociológica: cantava-se um povo e explorava-se o fio da mentalidade crioula.

As tertúlias claridosas tinham por objectivo traçar directrizes genéricas, sem programações específicas; a intenção era escrever Cabo Verde; o propósito era o de "fincar os pés na terra". Não havia regras para o fazer: cada um expunha as suas ideias à sua maneira pessoal, contribuindo individualmente para mergulhar na terra e fazer sair à luz do dia o cheiro mais próprio, mais autêntico e mais real daquele povo.

Manuel Lopes será provavelmente o escritor crioulo mais tocado pela acção agreste daquela natureza que se "impregna" na alma do caboverdiano, dando-lhe uma postura apática, onde a resignação (marca distintiva da morabeza) se explica pela profunda ligação e amor puro à terra.

Manuel Lopes conhece intimamente a alma do seu povo, de tal forma que transpõe para os seus textos figuras e situações quotidianas perfeitamente reais (o que, aliás, define o traço estético do seu discurso). Conhece perfeitamente toda a fragilidade do ilhéu caboverdiano perante a natureza de quem depende inteiramente; conhece o terrível contraste entre os sonhos de felicidade e a triste realidade da luta pela vida. Fala-nos, com extremo realismo, da tristeza, do medo, da saudade, do desânimo e da frustração, num tal discurso que nos enriquece o conhecimento do conteúdo humano caboverdiano. Diz, como poucos, o medo constante que o povo sente relativamente às secas prolongadas que assolam as ilhas; o sonho permanente e o desejo irresistível de ir a outros mundos; e, simultaneamente, diz também o amor desmedido que o povo sente pela sua terra, e o desejo de aprofundar e ligar a alma do homem à raíz daqueles solos.

Este "chamamento do caboverdiano à sua terra" sempre foi o mote cimeiro de toda a escrita de Manuel Lopes. Se não, vejamos:

"...Que teu irmão que ficou
Sonhou coisas maiores ainda,
mais ricas e belas que aquelas que conheceste...
Crispou as mãos à beira do mar
e teve saudades estranhas, de terras estranhas,
com bosques, com rios, com outras montanhas
- bosques de névoa, rios de prata, montanhas de oiro -
que nunca viram teus olhos
no mundo que percorreste..."

Crioulo e outros poemas, 1964

Eis o que pretende este sensível escritor, e tantos outros da sua Geração: convidar o povo a apostar na terra, evitar que a sua "alma se perca em outras paragens", promover a união entre os homens para que, juntos, possam "construir" o remédio para sarar tão grave ferida de uma Mãe que vê seus filhos partir: "Amar a Mãe-Terra e a Mãe-água com toda a força e pureza do Amor, compreendê-las como o menino compreende a linguagem da mãe e a canção de embalar e a profunda significação do embalo daqueles braços, e neles aprende a conhecer a segurança e a protecção contra as ameaças desconhecidas." (Chuva Braba)

A fé na união dos homens apostados em seguir um Destino comum - o de ficar e lutar pela terra - sustentou os "pesados" alicerces de uma Geração que tinha nas mãos e na pena a dura tarefa de dar voz a um povo ainda calado pela dor de sofrimentos seculares. E se toda a Geração Claridosa foi pródiga no "lançamento" de palavras, há muito desejosas de serem escritas, Manuel Lopes soube dar vida e voz às situações da própria condição humana, denunciar problemas e sentimentos, apresentar realidades sociais e comportamentais, sempre apartando os (quase) inevitáveis juízos de valor. Daí o seu reconhecido realismo empregue nas suas obras: conhecer as suas personagens e conhecer um caboverdiano, é igual - as personagens não se "disfarçam", não fogem à real representação de este ou aquele caboverdiano. Está tudo lá: a paisagem, a vida, o sentir, o agir, o problema e a solução.

próprio Manuel Lopes define o que aqui tento expôr acerca da sua escrita (e cito): "As melhores páginas impressas são as experiências daqueles poucos homens que viveram a vida mais intensamente que o homem comum, que o sentiram, e meditaram com mais penetração, e se consumiram para nos trazer a mais íntima ressonância das suas horas mais altamente vividas".

José Osório de Oliveira - A Poesia de Cabo Verde - 1954

 

 


Entre a fugida e a viagem: a poética da "ilha"

Francisco Salinas Portugal (Universidade da Corunha. Galiza-Espanha)

 

Destroços de que continente;

de que cataclismos,

de que sismos,

de que mistérios?...

(Jorge BARBOSA, Arquipélago)

 

1.- Introdução

A ilha, espaço enclausurado, numa clausura que é física mas também afectiva, psicológica e vital, é prisão e lugar de segurança, esquife e berço, útero e sepulcro, centro do mundo onde convergem os eixos da verticalidade e da horizontalidade, o axis mundi que liga miticamente o Céu com a terra; é o lugar da partida e destino da viagem, porque o ilhéu precisa sair desse espaço ofegante e limitado para se abrir ao mundo e aos outros. Como indica Dina Salústio, "l’insularité est à l’origine de l’un des traits les plus marquant de l’îlien: l’évasion qui l’envoie, avec un semblent de fuite, à la rencontre d’autres êtres, d’autres horizons, d’autres continents et villes" (1).

 

A ilha reúne, por um lado, o espaço perfeitamente delimitado e simbolicamente uno e, por outro, abre-se à pluralidade, à disgregação em que se projecta quando convertida na multiplicidade do arquipélago; ela concilia no seu significado os elementos contraditórios derivados do carácter bifronte e ambíguo de todos os símbolos, como demostrou Bachelard: segurança e perigo; acção e repouso; alfa e omega do sujeito individual e colectivo.

 

A literatura cabo-verdiana, pelo menos aquela que se produziu até os anos sessenta, funda-se sobre a ideia da insularidade, do desejo, gorado, e da tensão dialéctica entre o partir querendo ficar e o ficar querendo partir. Há, portanto, um desarraigo existencial, comum a qualquer ilhéu, que perpassa o discurso poético cabo-verdiano, por isso, em palavras de Pierre Rivas, "insularité et déracinement sont les deux structures constitutives et antagonistes de l’identité capverdienne mais, au delà, les éléments d’une typologie des littératures insulaires, des civilisations créolophones et même du statut des littératures africaines" (2).

 

Não admira, pois, que um breve percurso pela literatura cabo-verdiana nos ponha à frente de uma série de referentes, de que os títulos são o elemento significativamente marcado. Essa visão panorâmica da literatura de Cabo Verde mostrar-nos-á como é que o cabo-verdiano e o discurso literário das suas produções culturais convertem a sua circunstância biográfica e histórica (a condição de ilhéu), incontornável aliás para qualquer habitante das ilhas, no elemento definidor e definitório de toda uma poética que, desde os inícios desta literatura em finais do séc. XIX e primeira metade do séc. XX, vai desenhando toda uma geografia poética e vital do "ser" cabo-verdiano.

 

Pensemos, a este respeito, em títulos como: Jardim das Hespérides (1926) e Hespérides. Fragmentos de um poema perdido em triste e miserando naufrágio (1930) de Pedro Cardoso; Jardim das Hespérides (1929), Hesperitanas (1933) ou Alma Arsinária (1951) de José Lopes; Arquipélago (1935) ou Caderno de um Ilhéu (1956) de Jorge Barbosa; Linha do Horizonte (1951) de Aguinaldo Fonseca, para nos referirmos ao campo da poesia.

 

Se pensarmos na ficção, títulos como Ilhéu de Contenda (1978) de Teixeira de Sousa, Ilhéu dos Pássaros (1982) de Orlanda Amarilis ou Levedando a Ilha de Mª Margarida Mascarenhas completaríamos toda essa isotopia da ilha que atravessa, e pour cause, o discurso literário cabo-verdiano.

 

2.- As ilhas Hespérides e o Éden mítico.

Um dos aspectos que mais tem chamado a atenção dos estudiosos da literatura cabo-verdiana, pela originalidade de que se reveste, é o chamado período hesperitano ou período arsinário: aquele momento literário anterior à Claridade (embora se prolongue em boa medida além dessa circunstância histórico-cultural) em que se formula a literatura cabo-verdiana.

 

Com efeito, a criação do mito das Ilhas Hespérides de que fala Estrabão veio, no dizer de Manuel Ferreira, "preencher um vazio e dar sentido à componente histórica do fundamento pátrio alicerçado nas ilhas e não na Metrópole europeia. O mito que funcionou como corrector do equilíbrio pendular social e psicológico. Ainda mito criador do espaço da felicidade" (3). Em chave similar, Pires Laranjeira afirma que "os poetas criaram o mito poético para escaparem idealmente à limitação da pátria portuguesa, exterior ao sentimento ou desejo de uma pátria interna, íntima, simbolicamente representada pela lenda da Atlântida, de que resultou também o nome ‘atlantismo hesperitano’ por oposição ao continentalismo africano ou europeu" (4).

 

Na criação deste mito funciona, como tem sido sublinhado, uma componente ideológica que pretende ligar as ilhas de Cabo Verde ao continente e à cultura europeias, riscando, tanto quanto possível, a componente africana que mesmo só pela situação geográfica, correspondia ao arquipélago (5).

 

Com efeito, a cultura clássica a que remete o mito das ilhas Hespérides, ou a própria definição do mito ligada ao continente submerso da Atlântida (em que se incluem as ilhas Açores, a Madeira e as Canárias), fazem com que o mito hesperitano permita ligar a cultura cabo-verdiana ao "mundo que o português criou" numa prolongação natural, embora adaptada aos "trópicos", da cultura da metrópole. Ora bem, tal e como se infere da citação de Manuel Ferreira, a originalidade deste mito (desconhecido no espaço português) singulariza a literatura cabo-verdiana, confere-lhe qualquer coisa de diferente e de original, dá-lhe a marca de um discurso-outro, revelador de um mundo também diferente que autonomizava, em boa medida, o discurso literário cabo-verdiano, do discurso literário português no interior do qual o discurso crítico oficial o situava e ao que de facto estava unido, não só pela língua como pelos referentes literários presentes na obra destes poetas.

 

mito hesperitano não é, ou não é só, o feliz achado expressivo de um poeta, mas abrange a quase totalidade dos escritores e está presente no discurso crítico que modela a recepção destas obras da parte dos destinatários naturais desta literatura.

 

Talvez tenha sido a componente ideológica que jubjaz ao movimento hesperitano, a sua inclusão e surgimento num determinado contexto político-social (os primeiros anos do salazarismo e a proclamação do lusotropicalismo como a "única" teorização politicamente correcta da altura) a que explicou a acusação de evasionismo (6) que tem acompanhado o discorrer crítico deste interessantíssimo período da literatura cabo-verdiana que é, no fundo, o movimento fundador duma literatura em língua portuguesa autónoma e independente doutras literaturas que também se exprimem na mesma língua.

 

Ora, o mito hesperitano pode ser também lido em chave mítica como "nostalgia do Paraíso" que, no dizer de Eliade, é "desejo de reencontrar o estado de liberdade e beatitude de antes da ‘queda’, a vontade de restaurar a comunicação entre a Terra e o Céu; numa palavra, abolir tudo o que foi modificado na própria estrutura do Cosmos e na forma de existir do homem a seguir à ruptura primeva" (7). É evidente que a presença das ilhas como "paraíso" ou Éden onde voltar, não só está presente nos poetas deste período, como também reaparece noutros momentos literários posteriores, em autores como Corsino Fortes ou Mário Lúcio.

 

Pedro Cardoso e José Lopes (o mais "oficial" dos poetas cabo-verdianos e auto-nomeado "vate hesperitano") são os mais notáveis poetas hesperitanos, constituindo o umbral que dá o passo à literatura claridosa, considerada, essa indiscutivelmente que sim, a primeira literatura autenticamente cabo-verdiana.

 

3.- Jorge Barbosa: o mar e a viagem.

Embora em sentido restrito Jorge Barbosa não possa ser considerado um poeta hesperitano (8), a sua poesia também não fica longe da mitologia que conformou esse grupo heterogéneo da literatura anterior à Claridade e, assim, praticamente sem solução de continuidade, chegamos à obra de Jorge Barbosa (1902-1971), que, já no seu primeiro livro (Arquipélago, 1935), define o marco da literatura cabo-verdiana, "pois é a partir dela que se pode falar de cabo-verdianidade, isto é, da consciencialização das realidades étnico-sociais e culturais da terra cabo-verdiana, dando lugar a uma literatura que rompe com os modelos europeus, especialmente portugueses" (9).<Bilde: jbarbosa.jpg (16732 bytes)> A primeira ilha cultural fica estabelecida assim: a literatura cabo-verdiana deixa de pertencer ao continente europeu (embora não totalmente, porque, como já vimos, o mito hesperitano está profundamente ligado a uma tradição europeia clássica) e vira-se para um novo continente, para o Brasil da Semana Moderna e dos poetas como Manuel Bandeira, Ribeiro Couto ou Jorge de Lima (10).

 

Portanto, inicia-se uma viagem, porque "a ilha concêntrica, girando à volta de si mesma, saturando-se no seu isolamento, ganha dinâmica no confronto com o mar. Por um lado, prolongamento da terra, ponte entre as várias ilhas, formando um só corpo -o arquipélago. Por outro, o mar bravo, oceânico, caminho do emigrante e sonho da distância" (11). E a pergunta que nós fazemos é se as ilhas não implicam sempre uma viagem, se não está o desejo de partir (de sair da prisão do espaço delimitado e ofegante da ilha) implícito na própria ideia e na idiossincrasia do ilhéu? É por isso que a viagem, real ou imaginária, física ou mental é o nódulo organizador da poesia de Jorge Barbosa. A ânsia de partir (com todo o sentimento de saudade e ao mesmo tempo de esperança) forma parte da visão do mundo do ilhéu e, portanto, converte-se no elemento definidor desta poética. Mas há um desejo voluntarioso de acção, de movimento, uma viagem que não é errância sem destino, é objectivo previamente definido para onde se caminha, embora não se possam esquecer os ecos literários que a evasão finissecular tenha nesta poesia (daí que a ruptura com os modelos europeus não seja tão forte como se poderia deduzir das citações anteriores).

 

No primeiro livro de Jorge Barbosa aparecem poemas como "Irmão" em que a viagem à América aparece como a solução aos problemas sociais do arquipélago. Através de um sujeito lírico que foge da terra nessas "pobres ilhas nossas / és o homem da enxada / abrindo levadas à água das ribeiras férteis/ [...] / onde às vezes a chuva mal chega / onde às vezes a estiagem é uma aflição / e um cenário trágico de fome!" vão aparecendo espaços concretos e bem definidos: América, o paraíso do cabo-verdiano onde resolver os seus problemas económicos (e é sob este ponto de vista que é encarada a partida para América) mas que se vai convertendo, a pouco e pouco, num sonho, e o poema, que mantém o tom do discurso empenhado do neo-realismo, transita para a descrição de um estado de alma do sujeito preso da melancolia, da apatia que reflecte a "pasmaceira" ("saudade fina" defini-la-ia Oswaldo Alcântara) do ilhéu: "essas Aventuras pelos Oceanos / já não existem... / Existem apenas / nas histórias que contas do passado, / com o canhoto atravessado na boca / e risos alegres / que não chegam a esconder / a tua / melancolia...". Logo dessa queda do sujeito no mundo do sonho e da melancolia, retoma-se a linha realista e empenhada numa chamada à solidariedade fraterna do cabo-verdiano.

 

Em "poema do Mar", do mesmo livro, define poeticamente, e de maneira muito clara, esse desejo de partir tendo que ficar: "O Mar! / [...] / deixando nos olhos dos que ficaram / a nostalgia resignada de países distantes" e o mar acaba por ser a imagem "criadora" da evasão (12): "Este convite de toda a hora / que o Mar nos traz para a evasão / Esse desespero de querer partir / e ter que ficar!".

 

Portanto, na poesia de Jorge Barbosa, como na de muitos outros poetas cabo-verdianos, a condição de ilhéu leva implícita a ideia da viagem: viagem exterior a um destino concreto, ligada ao discurso neo-realista, viagem ao interior do próprio sujeito numa procura de conhecimento, viagem quimérica e impossível na origem de uma frustração existencial ofegante.

 

Do ponto de vista da maturidade poética de Jorge Barbosa interessa salientar o seu Caderno de um Ilhéu (13) nomeadamente a sua segunda parte, centrada toda ela na viagem e no mar que, sendo um livro controverso, no que ao valor literário diz respeito, representa uma prova da madurez poética de seu autor.

 

No poema "Prelúdio" faz apelo ao achamento das ilhas e a uma ideia forte que norteia a concepção do mundo hesperitano: uma espécie de destino trágico: "nessa hora então / nessa hora inicial / começou a cumprir-se / este destino ainda de todos nós". Porém, para Elsa Rodrigues dos Santos, "‘esse destino ainda de todos nós’ não se trata de determinismo, de fado que se cumpre como predestinação, característico da epopeia. Ele é sinónimo de acto colonizador inaugurado nessa ‘hora inicial’" (14).

 

A viagem que se propõe (15) como tema ao longo destes textos não é tanto uma viagem física de que a poesia é o seu reflexo ou a sua literaturização quanto uma viagem imaginária, mais no mundo do desejo do que na sua concretização: "Fui afinal o livro do ponto / onde todos os dias deixava melancolicamente / a minha assinatura e a minha renúncia, / que fez com que todas as minhas viagens / nunca passassem do cais da ilha de S. Vicente..." (Do poema "Viagens"). Nestes versos resume as suas viagens imaginárias, mas que, sendo viagens implicam o conhecimento e, portanto, "exigem" do sujeito o regresso à casa, a essa nova Ítaca vista com os olhos da experiência acumulada: "Leva-me contigo / navio // Mas torna-me a trazer" porque, embora haja um pequeno navio "que nunca partiu, que nunca partirá", as viagens dos outros acabam por ser apropriadas pelo sujeito:

 

"A poesia está é na sala de verificação / no dia em que chegam passageiros à ilha / e nessa sugestão de outros climas / que ficam por um instante no ambiente" (do poema "Alfândega").

 

A sombra de Jorge Barbosa e a sua presença ao longo de três décadas na literatura cabo-verdiana foi configurando o discurso evasionista e pasargadista dos escritores cabo-verdianos numa poética que tem o mar como centro e a viagem como eixo estruturante duma escrita original.

 

3.- A construção do discurso poético cabo-verdiano na imprensa periódica.

Como em muitas das literaturas emergentes, a imprensa periódica tem-se revelado como o meio privilegiado para a difusão das produções culturais. No caso de Cabo Verde não podia também deixar de ser assim se tivermos em conta que o nível cultural das ilhas na época colonial era, possivelmente, muito superior ao de outras colónias que tinham maiores e melhores meios económicos, mas que, na estratégia colonial estavam menos viradas para a cultura.

 

Instituições como o Seminário-Liceu de São Nicolau, o liceu Gil Eanes, as Academias são-vicentinas, uma rica tradição de associaciativismo cultural (16), a ida para Portugal de alguns dos naturais das ilhas para tirarem cursos na Universidade portuguesa, fizeram com que se criasse uma massa crítica de leitores que é um dos fundamentos da literatura cabo-verdiana.

 

Perante a impossibilidade de dar conta cabal deste aspecto, resolvemos fazer uma pequena aproximação a uma das publicações mais marcantes, embora desigual, na história contemporânea da literatura e da imprensa de Cabo Verde, estamo-nos a referir ao Boletim Cabo Verde, dirigido por Bento Levy e que teve desde a sua fundação e durante mais de uma década uma considerável presença da literatura nas suas páginas (17).

 

Já em 1950 (18) Gabriel Mariano reivindica a figura de Eugénio Tavares porque, em oposição a outros poetas, esses "não tinham ouvido a voz do Atlântico à roda das ilhas". E é o próprio Gabriel Mariano que introduz uma particular visão do terra-longismo cabo-verdiano: "A Terra-Longe, / irmão, / está na tua terra".

 

Trata-se da Terra-longe mais como um estado de ânimo do que uma situação física de exílio e o desejo de partida para se libertar da opressiva realidade circunstancial das ilhas é um desideratum convertido numa tópica linha de força deste discurso poético. Como indica Teixeira de Sousa, "o sonho de evasão dos poetas mais representativos - Jorge Barbosa e outros- poderia então realizar-se dentro das próprias ilhas, primeiras do mar. O isolamento atlântico passaria a ser mera figura retórica da geração romântica por força das circunstâncias" (19). Porque aquilo que predomina é a evasão interior, a viagem ao centro do próprio sujeito que é conhecimento tal e como a exprime Aguinaldo Fonseca: "Mamã / dá-me a tua benção, porque vou partir / Meu barco é um sonho de coisas futuras / [...] / Onde está o mapa. Vou traçar o meu rumo / Europa... Ásia ... América... / Qual será o meu rumo? / Mas que coisa estranha? - / Afinal o mundo é tão pequenino / [...] / Mamã / Já não vou partir / vou ficar aqui / Esta terra é pobre mas é a minha terra".

 

Repare-se, neste texto de Aguinaldo Fonseca, na dominância do possessivo de primeira pessoa (meu) mostrando o empenhamento do sujeito na sua própria viagem, a sucessão de interrogações, por sua vez, a mostrar as dúvidas de um eu cindido num espaço cheio de dúvidas, do incógnito e perigoso indefinido, do vazio e do inconcreto.

 

A poesia pode, neste poeta, ser sinónimo ou substituir, da fuga física das ilhas e, portanto, abrir-se a um espaço de liberdade. O próprio Aguinaldo Fonseca diz "cada poema que escrevo / é uma fuga para além de mim" (20).

 

Assim, fica na ilha, não com a revolta do preso que luta pela liberdade, mas com a melancolia do que não pode ser alterado; o sujeito fica fechado em si próprio, dividido entre o desejo de partir e um outro desejo mais poderoso de ficar (por vezes como expressão de uma impossibilidade indolente).

 

Manuel Serra exprime-o num poema intitulado "Evasão", dedicado a Jorge Barbosa: "A fuga já foi marcada / mas é sempre, sempre, adiada / a hora da minha partida" (21). Portanto, o partir não se vê como caminho a percorrer/descubrir, antes aparece como fuga da prisão em que as ilhas se converteram, porque o "mar largo" é para Manuel Serra, um "longo cativeiro / das nossas ilhas morenas / [...] / cadeias que nos isolam do mundo" (22), sendo assim que o mar é libertação de uma cadeia, mas uma libertação que não é só por se tratar do caminho para a viagem, mas porque ele pode ser o final, o descanso apetecido de que nos fala um poema de Pedro da Silveira(23):

 

"E lá para o fim se nenhum paquete me quiser a bordo, / de proa feita ao Oeste, no rumo das ilhas, / para a viagem de quem volta de caminho vazio / pequeno no morto que fui, nu como nasci, / e levem-me até fora do porto mais próximo: / sejas tu assim, amigo mar, / [...] / a última cama de paz onde me deite". Por isso, o sujeito se encontra no interior da sua radical solidão, "Só / E o navio à minha espera / E eu à espera do navio" (24), numa negação do movimento, da ascensão, da possibilidade de modificar o futuro.

 

mar paralisa o eu, prendido na impossibilidade, (ou recusa?) de partir, como vemos neste poema de M.ª Madalena: "Teria de aqui ficar a vida toda / À espera de partir? /[...] / Olhando o mar / esperando o navio que há-de chegar A morte que há-de vir?" (25)

 

mar é caminho de liberdade, mas é também prisão e assim é visto por vários dos poetas, alguns dos quais já assinalámos: "Prisioneiro do destino e do mar / contemplo as grades da minha prisão / o cenário habitual / - azul rolante- cemitério de ilusões" (26).

 

Entre o partir e o ficar, o sujeito lírico de muita desta poesia fica como que paralisado, na indecisão que representa o desconhecido, do medo ao imprevisto e ao imprevisível, o desejo de ficar prendido à terra, elemento sólido que nos une à raiz, ao eixo da verticalidade que representam "essas ilhas perdidas / onde as montanhas vermelhas / se erguem aos céus / como uma súplica" (27).

 

Quer a decisão de partir, quer a de ficar que encontramos nos poetas que se revelam em fins de cinquenta deixa de ser algo iniludível, é ao sujeito que corresponde a decisão da viagem / fuga, tal e como é exprimido por Arménio Vieira: "ver o navio suspender as âncoras / desejar com ele partir / (podes fazê-lo) e ficar parado na areia / e vê-lo partir" (28).

 

Em resumo, nos poetas que se revelam na imprensa cabo-verdiana entre os anos 40 e os anos 60, o mar é o centro da sua poética, sempre ligado a um desejo / impossibilidade de partida. O mar organiza o mundo (29), a começar pelo mundo próximo das ilhas, com uma intencionalidade quase épica, como no poema "arquipélago" de João de Deus Lopes da Silva (30): "Dez ilhas / dez fragmentos / de não sei que continente / que um cataclismo / arrojou no Atlântico // [...] // Dez ilhas / Dez ilhas / dum gigante heróico // Dez noites vibrantes / no coro duma epopeia".

 

Vamos encontrar temas como o terra-longismo (31), a viagem que é o núcleo da poesia de Jorge Barbosa (32); viagens que podem ser imaginárias e quiméricas como a de Pedro Silveira (33): uma ilha ao longe, / azulada vaga / -saudade triste que se prolonga / num barco apenas imaginado". É finalmente o naufrágio existencial, longe da ilha, de um sujeito perdido no mundo hostil da grande cidade como vemos no poema de Cais de Pedra de Nuno Miranda: "o ilhéu naufragado em mar ao largo / o de alma em meio à multidão apressada / passando...".

 

5.- O reencontro com a África. Corsino Fortes.

mito hesperitano formulado nos termos em que acabámos de ver, entra em crise definitiva em fins dos anos cinquenta, princípios dos sessenta. Cabo Verde já não é a Atlântida submersa, já não é o resultando da experiência portuguesa nos trópicos, já não é o prolongamento da cultura europeia noutro continente. Cabo Verde tem, como violentamente proclamou Onésimo Silveira, uma vocação africana, um destino de liberdade fora do jugo colonial (34). A poesia reflectirá, então, esse desejo de liberdade (poesia heróica e prometeica), unida a uma sensibilização africanista que aparece muito bem exposta em Corsino Fortes: "De manhã! as ilhas / Da minha pátria nascem grávidas / como o arco-íris / na menina do olho // E falam / de afro-pão E afro-guerra".

 

Não vamos tratar o tema da poesia de Corsino Fortes que tem levantado várias perspectivas investigadoras (35), mas não queremos deixar de referir a importância que o mar e a ilha têm na elaboração deste discurso original.

 

seu segundo livro Árvore & Tambor (36) arranca com a "Proposição & Prólogo" incluindo três poemas em que os próprios títulos se erigem em palavra-tema na acepção de Guiraud. "ILHA", assim nomeada, sem artigo, tomada no seu sentido abstracto, é nomeada/definida, no primeiro verso, com dois substantivos de luz (Sol e Relâmpago) e com dois substantivos da natureza (semente e raiz), os quatro remetem-nos para o universo simbólico do masculino, do gerador de vida, a luz criadora e absoluta do Sol, a luz e a violência do relâmpago, enquanto que força/energia do masculino, a semente-sémen e raiz que se afunde na terra gerando a vida.

 

Mas, a seguinte proposição neste nomear da ilha remete-nos para o feminino: Tambor de som que floresce e cabeça calva de Deus: os elementos do redondo, do côncavo, sempre ligados ao lado feminino. Portanto, a ilha reune em si o masculino e o feminino, a vida em definitivo, ela é o centro do mundo (cabeça calva de Deus).

 

Em Corsino Fortes fica longe o evasionismo plangente dos hesperitanos, o europeísmo pasargadista dos claridosos, a reivindicação, demasiado transparente e denotativa, de alguns dos poetas mencionados no Boletim Cabo Verde (embora exista um diálogo intertextual com autores como Gabriel Mariano ou Ovídio Martins (37)).

 

Se repararmos num poema como "De Boca Concêntrica na Roda do Sol", a ilha é aí o centro (centro do mundo e centro da "mensagem"), mas não, ou não só a ilha fortemente delimitada e identificada com uma realidade extra-poética (Cabo Verde), mas uma ilha que reunindo os valores afectivos da sua antropomorfização se erige no espaço clausurado -a ilha é tambor, mas também possui o tambor que chama desde o seu interior, desde o seu "coração"-, espaço a explodir num imaginário em que as fronteiras convidam a extravasar os seus limites.

 

Nesse espaço fechado, isolado, que é a ilha, a pureza e a inocência são, por enquanto, possíveis- e daí a valorização do tempo da infância -"no peito das crianças"- como o tempo mítico e mágico em que a cisão do homem e o mundo não se tinha produzido; a ilha como metáfora de um novo mundo que se cria/vivifica com o grito luminoso do tambor que se explicita.

 

A África nomeada no poema, como noutros do autor, ela espaço também enclausurado porque tem "portas", vê alargado o seu significado pelo tambor, um tambor -e não se pode esquecer a sua ocorrência desde o próprio título- cuja carga significativa se desdobra nas sugestões do não-dito, mas presente no imaginário do destinatário. E é que o tambor é música e, portanto, poesia, mas é também a raíz que remete para uma ancestralidade convertida em seiva frutificadora e é, ainda, a concretização do redondo, em cuja base se sustenta a ideia da Mãe-Terra -e por extensão a da Mãe-África-. África é, pois, a Mãe geradora de vida, mas é também, no reverso de todo símbolo, a Mãe Devoradora que transforma o sangue em semente.

 

No discurso de Corsino Fortes é evidente o pendor épico da sua escrita poética, e a visão/expressão do carácter ilhéu muito além daquilo a que nos tinham habituado os poetas anteriores. O compromisso social, que foi levemente mostrado é actualizado pelo texto corsiniano que concretiza, em palavras de Ana Mafalda Leite "o imperativo histórico de reformar Cabo Verde, em termos épicos e míticos", a construção de um país/outro que nasça, através da palavra poética -que é geradora de energia- que se pode construir e, de facto, se constrói num real poético que o texto desenvolve.

 

A ilha está presente ao longo de todos os poemas, a ilha como regresso e fundamentalmente como expressão do redondo e, portanto, do feminino e matricial, "o poema -escreve Mafalda Leite - apresenta-se como engendrador de uma importante simbólica de formas redondas, onde a circularidade do universo que se constrói, ao tomar a sua dinâmica própria, ganha a forma esférica de um cosmos" (38): Ilha-mulher-Mãe, desenham algumas das balizas significativas dos poemas corsinianos, num livro que ultrapassa a realidade concreta de Cabo Verde e universaliza a sua literatura.

 

6.- Conclusão

Neste artigo tentámos mostrar alguns aspectos que ao longo deste século têm ido configurando a poesia cabo-verdiana. Arquipélagos físicos de fomes e secas, mas vivos arquipélagos de palavras poéticas e proféticas de uma cultura que já não é resistência, mas signo de criatividade. Ilhas de solidão e grades do destino, mas também, luz que irradia uma zona mal iluminada das literaturas de língua portuguesa.

 

Se tivermos de definir a poética cabo-verdiana através de afirmações muito gerais, diríamos que é o mar e, em consequência, o facto de serem ilhéus, que tem feito com que a literatura cabo-verdiana nem quisesse, nem pudesse, libertar-se dessa ambígua e produtiva (em termos literários) situação de exílio, uma insularidade geográfica que, em palavras de Pierre Rivas, "devient insularité existentielle qu’on peut lire comme metaphore de la negritude, lieu d’exil loin de la patrie africaine, prison coloniale [...], ou idiosyncrasie ilienne" (39). A viagem que é marca da condição do ilhéu, é metáfora da proposta que fazemos de penetrar nesse mundo poético, tão distante e tão subgerente numa nova viagem de leitores a acompanhar, no silêncio, a viagem dos criadores pelo mundo da palavra em liberdade.

 

NOTAS

SALÚSTIO, Dina, "Insularité, évasion et résistence" in VEIGA, Manuel (org.), Insularité et littérature aux îles du Cap-Vert, Paris, Karthala, 1997, p. 36.

RIVAS, Pierre, "Insularité et déracinement dans la poésie capverdienne" in Actes du Colloque: La littérature africaine de langue portugaise, Paris, Fond. C. Gulbenkian, 1985, p. 291.

FERREIRA, Manuel, O Discurso no Percurso Africano I, Lisboa, Plátano Editora, 1989, p. 193.

LARANJEIRA, Pires, Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, Lisboa, Universidade Aberta, 1995, p. 181.

Terá de ser o polémico ensaio de Onésimo SILVEIRA (Consciencialização na Literatura caboverdiana, Lisboa, Edições da Casa dos Estudantes do Império, 1963) que coloca em termos político-ideológicos a africanidade de Cabo Verde, superando um certo barlaventismo que dominava na produção claridosa.

O sentido pejorativo que se tem dado ao termo "evasionismo" deve-se a uma confusa apreciação de que os textos assim definidos (e mesmo assim definidos pelos seus autores) não tinham presente a realidade social, económica ou política das ilhas, ou não reflectiam essa realidade. É óbvio, primeiro, que o carácter de literatura empenhada que normalmente define as literaturas africanas, nomeadamente aquelas que se desenvolvem em processos coloniais, não tem que ser critério excluente; por outro lado, muitos dos textos que fazem referência ao "evasionismo", têm uma forte componente de compromisso cívico. Aliás, o adjectivo evasionista é aplicado, também, ao movimento claridoso.

ELIADE, Mircea, Mitos, Sonhos e Mistérios, Lisboa, Edições 70, 1989, p. 60.

Embora não se trate de um trabalho de periodização literária, consideramos que a pretensa ruptura literária entre os poetas hesperitanos e os claridosos não é tão forte nem tão evidente para que se possa afirmar com autoridade de que estamos à frente de duas gerações ou de dois grupos literários.

Vide Elsa Rodrigues dos SANTOS, As Máscaras Poéticas de Jorge Barbosa e a Mundividência Cabo-Verdiana, Lisboa, Edt. Caminho, 1989, pp. 40-41.

Para as relações da literatura caboverdiana com a literatura brasileira, Vide, entre outros, SALINAS PORTUGAL, Francisco, "O Brasil na construção do imaginário (literário) caboverdiano" in O Texto nas Margens. Ensaios de literaturas em língua portuguesa, Santiago de Compostela, Edç. Laiovento, 1997, pp. 71-95.

SANTOS, Elsa Rodrigues dos, ob. cit., p. 68.

"La mer c’est l’arrière-pays, elle représente la seule et unique possibilité d’évasion" (CABRAL, Nelson Eurico, "Jorge Barbosa: la mer et l’exil" in Notre Librairie, nº 112, Paris, Clef, 1993, p. 28).

BARBOSA, Jorge, Caderno de um Ilhéu, Lisboa, Agência Geral do Ultramar, 1956 (prémio Camilo Pessanha).

Ob. cit., p. 88.

Ibid., pp. 82 e ss.

Para este ponto, vid. SEMEDO, Manuel Brito, Caboverdianamente Ensaiando. Vol. I, São Vicente, Ilhéu Editora, 1955, p. 19 (citando artigo de Gabriel Mariano). Sobre este mesmo aspecto, vide também, Manuel FERREIRA, A Aventura Crioula, Lisboa, Plátano Editora, 1985, pp. 250-257.

Cabo Verde. Boletim de propaganda e informação. Editado na Praia. Asno 1, Nº 1- Outubro, 1949. Director Bento Levy. E