On Capeverdean literature

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About Orlanda Amarilis. 2

A desmistificação da emigração Cabo-verdiana na obra de Orlanda Amarílis Kathryn Bishop-Sanchez  2

A POÉTICA CRIOULA DE SÉRGIO FRUSONI 8

Baltasar Lopes. 12

Brasil e Cabo Verde: um diálogo entre José Lins do Rego e Baltasar Lopes. 12

«O Caboverdiano vê-se confrontado, inevitavelmente, com questões de ordem.. 15

ontológica». 15

O crioulo e o Português no processo de afirmação em Cabo Verde. 21

Manuel Veiga. 21

Odju d’agu, de Manuel Veiga. 28

Insularidade fecunda. 36

A escrita da terra em Manuel Lopes e na Claridade. 41

Entre a fugida e a viagem: a poética da "ilha". 43

A construção do ideal nacional e a constituição de novas literaturas em África. 51

Manuel Lopes toujours fidèle à Claridade. 55

Vêem-se caras mas não se vêem corações: no lançamento do livro porcos em delírlo de Jorge Carlos Fonseca. 59

Inquérito a escritores de Cabo Verde. 67

Respostas ao inquérito. 67

Dina Salústio. 69

Teixeira de Sousa. 71

Jorge Carlos Fonseca. 72

Manuel Veiga. 73

Tomé Varela. 74

Vasco Martins. 76

Vera Duarte (Escritora) 77

Dina Salústio : A Louca de Serrano por Adelaide Batista. 78

Clara Andermatt, António Tavares e os outros: a dança contemporânea e as relações (não perigosas) entre Portugal e Cabo Verde. 93

L'univers de l'ile et les iles de l'univers. 96

MYTHES ET LÉGENDES - LE MOMENT « ATLANDIDE ». 99

Jorge Barbosa:« Quando o descobridor chegou. 99

Corsino Fortes: O épico da Caboverdianitude serena?. 101

Corsino Fortes e a tradição clássica. 102

CORSINO FORTES, PABLO NERUDA & SAINT- JOHN PERSE.. 105

PÃO & FONEMA : IDENTIDADE POÉTICA E BUSCA DA PÁTRIA.. 106

Intervenção na II festa da língua Portuguesa. 110

Ilha & Poema: celebração do arquipélago na poesia de Corsino Fortes. 118

UMA PUBLICAÇÃO PARA OS ANAIS DE CABO VERDE.. 121

 

About Orlanda Amarilis

Inquietos olhares: A construção do processo de identidade nacional nas obras de Lídia Jorge e Orlanda Amarílis (Jane Tutikian)

http://www.fflch.usp.br/dlcv/posgraduacao/ecl/pdf/via02/via02_07.pdf

 

Orlanda Amarílis, literatura de migrante (Benjamin Abdala Junior)

http://www.fflch.usp.br/dlcv/posgraduacao/ecl/pdf/via02/via02_06.pdf

 

PhD dissertation on female authors from English speaking countries, Cape Verde (Dina Salústio, Orlanda Amarilis) and Mozambique: http://www.library.uu.nl/digiarchief/dip/diss/2003-0310-101002/inhoud.htm

 

Micro-universes and Situated Critical Theory: Postcolonial and Feminist Dialogues in a Comparative Study of Indo-English and Lusophone Women Writers (pdf-file)

 

 

A desmistificação da emigração Cabo-verdiana na obra de Orlanda Amarílis Kathryn Bishop-Sanchez

 

1. O livro de contos Cais-do-Sodré té Salamansa (1974) de Orlanda Amarílis (1) insere-se na tradição literária cabo-verdiana de uma maior tomada de consciência nacional que parece ter-se divulgado a partir do primeiro número da revista Claridade, de 1936 (2). É lugar comum considerar-se que os escritores do arquipélago da última metade do século XX decidiram "romper com os arquétipos europeus e orientar a sua actividade criadora para as motivações da raiz cabo-verdiana." (Ferreira 37)   (3). Este movimento de desapego em relação à literatura europeia marca o início de uma literatura moderna cabo-verdiana na qual a realidade de Cabo Verde se torna a temática principal. Surge então na literatura uma consciência da autenticidade da cultura nacional, a caboverdianidade (4); os problemas específicos do arquipélago (a fome, as secas, a emigração, a pobreza, a nostalgia do exilado…) encontram-se no centro das narrativas. O crítico norte-americano Gerald Moser comenta o evento da literatura moderna cabo-verdiana da maneira seguinte (5):

 

•Criaram-se os alicerces de uma literatura nacional entre 1935 e 1960. Nesta época, um pequeno grupo de intelectuais juntou-se à volta do poeta Jorge Barbosa, em Mindelo, porto principal das Ilhas. Inspirados pelo exemplo de escritores brasileiros contemporâneos, muitos deles provindo do Nordeste do Brasil (região comparável pela sua pobreza e pelas secas a Cabo Verde), os escritores cabo-verdianos começaram a produzir uma escrita especificamente sua, apoiando-se na observação atenta do falar, das tradições e da maneira de viver das pessoas comuns e correntes das Ilhas. (p.2)

 

Os autores cabo-verdianos começaram, portanto, a empenhar-se em representar o ‘chão crioulo’. Influenciados também provavelmente pelo modelo dos neo-realistas portugueses, os escritores de Cabo Verde começaram a aperfeiçoar a arte do retrato social. Desta perspectiva, o leitor atento não pode deixar de se dar conta da importância do tema da emigração na produção literária cabo-verdiana. As condições económicas das ilhas ajudam a explicar a emigração como constante da realidade cabo-verdiana, e, por extensão, a importância da emigração como tema literário. Sem pretender fazer aqui uma enumeração exaustiva das referências à emigração na literatura do arquipélago, gostaria no entanto de referir alguns dos aspectos da emigração cabo-verdiana tal como surge nas obras literárias.

 

O arquipélago cabo-verdiano, circundado pelas águas hostis do Oceano Atlântico, tem vindo a ser representado ciclicamente como uma prisão para quem não pode partir; como um refúgio para a população protegida e satisfeita que nele habita; e como um porto de partida para quem consegue emigrar. Do mesmo modo, na poesia e na prosa cabo-verdianas aparece frequentemente a dicotomia do mar que cerca o arquipélago: por um lado, o mar protege, mas também separa; por outro lado, o mar representa o único caminho da liberdade. A poesia de Jorge Barbosa, assim como a novela Chiquinho de Baltazar Lopes, entre outros, ilustram estas interpretações literárias do mar e do arquipélago. Quer se trate da evocação do desejo de evasão, quer se trate da dor no momento da partida - ‘a hora di bai’ - a emigração marca de maneira inconfundível a escrita nacional.

 

Porém, a questão da emigração como linha temática na literatura cabo-verdiana não é despida de polémica. Em 1963, o escritor e crítico Onésimo Silveira denunciou o aspecto ‘evasionista’ da literatura cabo-verdiana no seu artigo "Consciencialização na literatura cabo-verdiana" (6):

 

•Uma das notas dominantes da literatura criada por este Movimento [de Claridade], quer na poesia quer na novelística, foi o evasionismo. Com esta atitude espiritual propuseram-se os componentes do Movimento exprimir uma dada situação de existência do povo cabo-verdiano, decorrente do condicionamento geográfico e telúrico do arquipélago, e que conceberam como o drama da evasão do ilhéu… Focando o drama da evasão, a dualidade "querer partir e ter que ficar" ou "querer ficar e ter que partir’ - conforme a filosofia evasionista de cada um - acabaram por simplificar, arbitrariamente, este complexo problema e por oferecer uma imagem estereotipada do homem cabo-verdiano, renunciando conscientemente a buscar as raízes psicológicas e sociais do facto emigratório. (pp.245-46)

 

Neste ensaio, uma visão romantizada e simplificada da emigração cabo-verdiana é claramente alvo de crítica. Silveira condena tal interpretação da emigração das ilhas, atribuindo-a às decepções dos escritores "avassalados pela frustração resultante do desejo irrealizado de conhecer e viver em meios mais fortemente ocidentalizados que o meio cabo-verdiano."(p.246). Além disso, a sua crítica denuncia a imagem transtornada da emigração na literatura cabo-verdiana, indicando que só se costumava reflectir "nas obras dos claridosos o facto de emigração para as Américas e jamais a emigração degradante para terras como S. Tomé e Príncipe". Da mesma maneira, o ensaísta critica os estereótipos, assim como "a atitude estéril dos claridosos perante as grandes crises que, na década de quarenta, trouxeram a morte a milhares de cabo-verdianos." (248). Segundo Silveira, a romantização da emigração e a consequente deturpação da realidade projectam uma imagem infiel da vida cabo-verdiana.

 

Passemos agora à primeira colecção de contos de Orlanda Amarílis (7) que, pelas imagens que nos transmite da emigração, nos interessa particularmente neste estudo. Publicada uma década depois do ensaio de Onésimo Silveira, a colecção Cais-do-Sodré té Salamansa ilustra uma perspectiva da emigração distinta da literatura evasionista dos claridosos denunciada por Silveira: a contista pinta de facto uma imagem menos idealizada da emigração cabo-verdiana e "alarga o seu discurso à diáspora cabo-verdiana em Lisboa." (Ferreira 125) (8)

 

Em Cais-do-Sodré té Salamansa, Amarílis apresenta uma visão nostálgica da terra natal e simultaneamente uma tomada de consciência nacional cabo-verdiana. Temos de sublinhar que esta sensibilidade não é apresentada a partir das ilhas cabo-verdianas, como era frequentemente a tendência dos claridosos, mas é desenvolvida a partir de longe, no estrangeiro. Além disso, não se trata de um evocação utópica de um mundo melhor sem tê-lo conhecido previamente. Tanto os protagonistas descritos nos contos como a própria autora têm amplo conhecimento dos dois mundos, a vida insular e a vida no continente.

 

Neste estudo, limitar-nos-emos à análise de um dos contos incluídos na colecção Cais-do-Sodré té Salamansa, "Desencanto", que testemunha da visão pouco romantizada da emigração que apresenta Orlanda Amarílis.

 

conto "Desencanto", situado simbolicamente no meio da colecção, apresenta o mal-estar do cabo-verdiano (sobre)vivendo longe das ilhas natais. Em comparação com a tradição evasionista do movimento de Claridade, os eventos e os sentimentos provocados pela experiência da emigração são apresentados sem idealização romântica neste conto. Não se trata de imagens falsamente paradisíacas de terras desconhecidas ou da "terra-longe" denunciadas por Silveira; a autora sugere, pelo contrário, uma perspectiva intimamente ligada à realidade do emigrado, sem tentar poetizá-la nem transformá-la. Estamos nitidamente no início de uma fase mais madura da literatura cabo-verdiana, mais céptica em relação aos mitos da emigração dos cabo-verdianos.

 

No conto "Desencanto", como aparece de forma explícita em pelo menos dois outros contos de Amarílis (p.9), a vida lisboeta que é posta em evidência é a dos lugares públicos de circulação constante de passageiros: a protagonista do conto mora na linha Lisboa/Cascais e viaja até ao Cais-do-Sodré para depois apanhar o barco que a levará ao outro lado do Tejo. É nesta viagem quotidiana que toda a história se desenvolve.

 

Para enfatizar os movimentos da protagonista, Amarílis destaca a pressa da cabo-verdiana ao longo do trajecto a partir de casa até ao seu destino. Focalizando a sua corrida, o seu "pisar rápido e nervoso", apontando que ela "voa…apressada" ao descer as escadas até a rua que alcança "em quatro passadas", pondo em evidência a corrida até o comboio, a narração obriga-nos a sentir o ritmo sobressaltado da existência da cabo-verdiana em Lisboa. Veja-se mais este exemplo: "sai apressada do eléctrico…corre e arqueja um pouco. O comboio está a chegar à estação. Não o pode perder. Não pode…Afoga-se num mar de suor. Esbraceja num último esforço. Enfim. Foi por um triz." (p.60).


Na viagem de comboio, o movimento apressado continua. A narração enfatiza a velocidade do comboio, que só pára em certas estações: "este é rápido. Desliza e apita nas estações onde não pára hoje e todos os dias." (p.61). Na chegada à outra margem do Tejo, a pressa é de novo evocada: "Daqui a pouco com mais um esticão será outra etapa outra corrida para o escritório sobranceiro à praça larga suja de papéis e folhas secas." (p.62). Todos estes elementos sublinham o ritmo rápido da viagem que, por analogia, é representativo do ritmo de vida veloz e cansativo numa sociedade moderna.

 

Nesta narrativa, Amarílis inclui retratos significativos da multidão que acompanha o emigrado nesta luta diária para chegar ao lugar de trabalho. A imagem da sociedade assim criada deixa-nos entrever com clareza o meio ao qual a protagonista tenta adaptar-se e no qual quer sentir-se integrada. Ao longo da viagem, vemos que os transportes públicos estão sempre superlotados, o que permite sublinhar o contacto obrigatório e inevitável de cada passageiro com um grupo de viajantes habituais. No eléctrico, e depois no comboio, a protagonista deve fazer face aos transportes sempre cheios: "A bicha nunca mais finda e o eléctrico ronca de papo-cheio." (p.57). No comboio daquela hora de ponta a protagonista não consegue encontrar um lugar sentado e faz a viagem em pé: "De pé, continua a ler os títulos em letras gordas." (p.61). Ao chegar ao Cais-do-Sodré, ela sai "empurrada pelos outros" (p.61), o que sublinha de novo a pressa e a agressividade dos viajantes nessa fase da viagem. E o tumulto prolonga-se na última etapa do seu trajecto, na travessia do Tejo: "O barquinho das mil e uma noites vomita uma mole de gente e engole-a por sua vez para a levar à outra banda." (p.62). O Cais-do-Sodré, lugar de movimento constante devido às chegadas e partidas de comboios e à proximidade dos barcos cacilheiros, representa um lugar de agitação. É um cruzar incessante de pessoas, na maioria desconhecidas entre si, e em transição no vai-vém perpétuo da cidade moderna. É neste meio que a cabo-verdiana é obrigada a reflectir sobre a sua posição na sociedade moderna, da qual tenta seguir, inquietamente, o ritmo.

 

Esta corrida constante nos transportes públicos, como ficou atrás evocado, repete simbolicamente o ritmo agitado da vida da protagonista. Com a mudança constante de trabalhos ["corrida de empregos" (p.60)], a sua vida tem sido um "escorregar constante" (p.60). A comparação da sua vida com um ‘escorregar’ sugere ao leitor que os eventos escapam ao seu controle. A rapidez da vida e as suas inconstâncias projectam-na num mundo hostil, sem amigos, sem apoio, numa existência que lhe escapa.

 

Esta agitação da sociedade moderna lisboeta contrasta com as lembranças de uma vida sossegada na sua terra natal: a "cidade parada" (p.58) do arquipélago ressurge na memória da protagonista e estabelece um ponto de comparação com a sua vida actual em Lisboa. É então que ela se indaga sobre a sua condição de mulher mestiça no estrangeiro: "Voltar para quê? Para vegetar atrás das persianas da cidade parada e espreitar as mulheres trazendo a água do Madeiral em latas à cabeça ou os homens puxando as zorras com os sacos para a casa Morais?" (p.58). Neste excerto percebemos o sentimento de desapego e desdém que a protagonista sente para com a sua terra natal. Ela elimina a possibilidade de voltar a Cabo Verde: agora, acostumada à vida mais civilizada, a vida menos progressista das ilhas não lhe parece ter muita atracção.

 

Tudo no conto tende a apresentar-nos o lado impessoal e monótono de uma sociedade moderna. As relações humanas com os companheiros de viagem (do edifício, do Cais-do-Sodré, da paragem do eléctrico,…) não vão além de um cumprimento banal: "Bom dia. Passou bem?" A repetição do mesmo cumprimento pronunciado distraidamente por pessoas diferentes reforça a impessoalidade das relações humanas neste trajecto. A protagonista, apesar de reconhecida e cumprimentada, permanece uma pessoa anónima. Na narrativa não se revela nenhuma informação sobre a sua identidade. Ao chegarmos ao fim do conto, nem sequer sabemos o seu nome. Os companheiros de viagem da cabo-verdiana podem reconhecê-la, mas não há nenhuma intimidade entre eles. Por sua vez, a protagonista tenta adivinhar mentalmente a identidade dos companheiros cujos gestos e olhares observa com atenção: "Viúvo? Casado? Uma ruga vinca-se-lhe entre as sobrancelhas arranjadas." (p.63). São contactos estéreis, despidos de interesse e calor humanos, os que a protagonista tem com os seus companheiros de viagem quotidianos.

 

Em cada etapa da viagem da protagonista surgem-lhe pensamentos que mostram que a sua existência é totalmente indiferente para as outras pessoas concentradas nas suas próprias vidas. Presenciamos claramente esta indiferença na viagem de comboio até ao Cais-do-Sodré: "Procura lugar com os olhos. Os outros vêem-na indiferente. O cavalheiro magrinho da frente lê concentrado o jornal da manhã." (p.61). Nesta cena, à indiferença sentida acrescenta-se a falta de reconhecimento público, posto este último em relevo pela comparação que ela faz mentalmente entre a sua vida e a dos heróis descritos nos jornais. O seu sacrifício diário, por mais importante que lhe possa parecer a ela pessoalmente, passa despercebido. Vemo-la reflectir: "Não será ela também uma heroína de todos os dias neste ciclo de etapas cronometradas de onde não pode fugir?" (p.61). Nesta sociedade impessoal e fria, ela sente-se abafada, a viver nos confins de uma monótona rotina. A impressão de ser prisioneira num sistema do qual não pode sair, e de ter que cumprir com "etapas cronometradas", reforça a ideia de sufocação.

 

Podemos afirmar, depois dos comentários e exemplos referidos atrás, que a sua integração nesta sociedade citadina é apenas superficial. Apesar de compartilhar exteriormente a mesma experiência que os companheiros de viagem, ela não esquece nem esconde as suas origens; e sente-se só dentro desta sociedade. A compreensão da sua solidão é causa de grande tristeza. Ao alcançar as docas da outra margem do Tejo, vemo-la só dentro da multidão: "resvala por entre as gentes, estranha solitária no seu casaco de quadrados." (p.64). Projecta-se-nos assim a imagem de uma mulher sozinha (10), estrangeira numa terra alheia.

 

Apesar da agitação e do movimento dos passageiros, sobressai a monotonia da viagem, que podemos atribuir à monotonia das relações sociais na sociedade moderna. Na página 58 lemos: "sempre as mesmas caras todas as manhãs. Sempre as mesmas." A senhora do casaco claro, a aprendiza de cabeleireiro, a mulherzinha da alcofa, a escriturária…fazem parte do seu ritual diário. Mas, tal como a protagonista, eles todos são anónimos e são apenas designados pelos seus ofícios.

 

Esta monotonia põe em relevo a impressão de vazio que a protagonista sente na sua vida lisboeta. Tal como ela, os companheiros de viagem parecem levar uma vida sem calor humano onde as pessoas, autómatos, vivem o mesmo ritual insignificante diariamente. Isso transparece na descrição da saída do comboio, onde ela se deixa levar pela multidão no Cais-do-Sodré : "Empurrada pelos outros atravessa a gare. Um autómato de passos certos. Alcança a porta envidraçada da saída e desce as escadas." (p.61). Esta monotonia prolonga-se até ao lugar de trabalho, onde ela é obrigada a "ouvir a mesma conversa todos os dias." (p.60) Tudo aquilo que se refere ao trabalho, à viagem, aos transportes, aos companheiros de viagem, sublinha a monotonia de sua existência de "autómato".

 

Neste conto, Amarílis evoca a insatisfação que a protagonista sente em todas as facetas da sua vida. Como referiu o crítico Fernando Mendonça, ela descreve com talento "a inadaptação que o cabo-verdiano sofre fora do seu ambiente insular." (p. 47) (11) Esta insatisfação na sua vida em geral ressurge nas suas tentativas de estabelecer relações sociais e pessoais. As relações evocadas no conto, como já se sugeriu, não vão além de um nível superficial. São relações humanas incompletas, despidas de sentido profundo e verdadeiro.

 

Vejamos alguns exemplos concretos. Amarílis evoca a dado momento a relação que a protagonista teve com um homem casado que a enganou. A cabo-verdiana tenta afastar esta lembrança, esperando poder esquecer o tocar insincero do amante: "Se pudesse limpar da cara a sensação das carícias que ele lhe fazia. Costumava passar-lhe a mão pela face e prescrutar-lhe bem fundo nos olhos à espera de não sei de quê. Malandro. Sempre gostava de saber o que é que ele queria." (p.63). Ela fica com dúvidas para as quais, numa vida sem sentido, não tem resposta que a satisfaça. As suas inquietações e frustrações remetem-na para a miséria da sua existência triste e medíocre.

 

mal-estar cultural que lhe nasce ciclicamente das relações humanas é o que provoca o sentimento de perda da sua dignidade. Tal tema ocupa uma posição proeminente e parece carregar-se de sugestões. Num dos episódios evocados no conto, é claramente implicado que ela ocupou anteriormente uma posição de submissão no emprego. Reflectindo sobre este trabalho retrospectivamente ela admite: "já estava a adaptar-se à vida de pau mandado." (p.59). No trabalho, a sua inexperiência, a falta de conhecimentos e uma educação insuficiente provocaram nela um sentimento de inferioridade: "nunca conseguiu enfrentar os clientes sabidos e desnudaram-na com os olhos lascivos. Quando isso acontecia corava e tremia. Nem sabia já para onde se voltar." (p.59). A experiência que ela vai adquirindo no mercado do trabalho reforça a sua consciência das suas humildes origens de mulher das ilhas cabo-verdianas, passado do qual não se pode desfazer.

 

No episódio atrás-referido, os homens parecem arrogar-se o direito de olhar para a protagonista mestiça com "olhos lascivos". Podemos ler na atitude degradante dos homens frente a esta mulher das ilhas simultaneamente uma manifestação do desequilíbrio racial e da diferença entre os sexos (12). Da mesma maneira, o último encontro relatado nesta narrativa sublinha a relação de forças desigual que existe entre as raças nesta mundividência. Isso é claro no comentário que alguém dirige ao "homem do chapéu preto": "Malandro, estás a fazer-te prá mulata" (64). A seguir as duas pessoas "riem baixo". Esta simples conversa entre dois estranhos leva a protagonista a reflectir mais seriamente sobre a sua condição de mulher mestiça e emigrante na sociedade portuguesa: "esse riso é uma afronta. Sempre a fugir de andar com os patrícios de cor para não a confundirem e afinal é um branco que lhe vem lembrar a sua condição de mestiça." (p.64). Tentando evitar a companhia de outros cabo-verdianos, ela não consegue contudo esconder as suas origens.

 

A ideia de alienação das raças e de insatisfação social por causa da cor corresponde, como se sabe, ao tema contemporâneo da negritude. Richard A. Preto-Rodas refere-se claramente a este conceito quando, ao princípio do seu estudo Negritude as a Theme in the Poetry of the Portuguese-Speaking World, afirma o seguinte:

 

•Apesar de adoptar as maneiras sociais e ideias culturais do grupo social dominante, o poeta negro dá-se progressivamente conta que a sua integração na sociedade europeia (i.e. dos brancos) é apenas parcial e que o seu lugar inferior provém igualmente da sua cor. Não importa o grau de assimilação do vestir, da linguagem, do comportamento social, ele é principalmente um advogado ou um senador preto, ou, politicamente, um preto francês ou americano. Contanto que seja preto (ou mestiço), a assimilação total está fora de alcance." (p.2) (13)

Preto-Rodas expõe a seguir que a posição do negro na sociedade europeia será sempre insatisfatória, dado que à medida que se assimila à sociedade, ele "se dissocia de seus compatriotas por causa de suas preferências sociais e culturais, assim como da comunidade branca por causa de sua cor." (p.2)

 

É este fenómeno bipartido da assimilação superficial na sociedade ‘dos brancos’, por um lado, e do afastamento cultural do país de origem, por outro, que Amarílis põe em cena no conto "Desencanto". A protagonista não pode mudar a sua condição de mestiça, nem esconder a sua identidade verdadeira; portanto, não vai nunca poder fazer integralmente parte da sociedade acolhedora. Mendonça comentou este isolamento repetidas vezes sugerido na obra de Amarílis, isolamento que é evocado neste passo pela protagonista de "Desencanto": "É em Lisboa que verdadeiramente [os emigrados] se sentem insulados e, na maior parte das vezes, insulados pela própria cor. Isso parece trazer-lhes um desencanto permanente…"(p.47).

 

fim do conto pinta uma triste imagem da realidade de uma cabo-verdiana no estrangeiro: num cruzamento entre duas culturas e sociedades, ela já não pertence à sociedade das ilhas, mas ao mesmo tempo a sua aprovação na sociedade europeia permanece incompleta. Podemos considerar a totalidade da narrativa da viagem neste conto como uma cena onde é exposta ou representada a vida do emigrado. A protagonista, representando toda e qualquer mulher e, até certo ponto, todo e qualquer homem, emigrante no estrangeiro, interroga-se sobre a sua condição e as possibilidades que se lhe oferecem. "Pensara em voltar. A madrinha bem a aconselhara. Não. Não podia ser. Ter de se adaptar de novo começar tudo de princípio. Como se fosse possível uma coisa assim." (p.58)

 

Neste conto, como se tornou já evidente, sobressaem a insatisfação com a vida em Lisboa, o lado impessoal dos contactos humanos, e a solidão do emigrado longe da terra natal. A integração da protagonista cabo-verdiana na sociedade é superficial, apesar da familiaridade com uma rotina estabelecida. Mulher mestiça, ela não pertence a esta terra e sofre com a sua desadaptação sem remédio; mas ao mesmo tempo vemos que ela tenta esquecer as origens cabo-verdianas e que elimina a possibilidade de um retorno às ilhas.

 

A conclusão do texto é significativa: "Oh céus! É uma cigana errante, sem amigos, sem afeições, desgarrada entre tanta cara conhecida." (p. 64) Este último comentário corresponde ao crescendo final, o "peso inteiro que se culmina ao fim do conto"(p.81) (14). Longe de dar forma a uma romantização da emigração cabo-verdiana, notamos que este conto põe em relevo a insatisfação com a vida, ou, como o indica claramente o título, o "desencanto" geral com a experiência da emigração. Daí a sua importância. Em vez de continuar a repetir os mitos da emigração cabo-verdiana, a obra de Orlanda Amarílis tem o enorme mérito de evocar com talento a experiência real dos cabo-verdianos na metrópole.

 

Notas

Amarílis, Orlanda. Cais-do-Sodré té Salamansa. Coimbra: Centelha, 1974.Com o evento da independência cabo-verdiana, os autores associados aos movimentos literárias dos anos 40, 50 e 60 puderam começar a publicar as suas obras. Orlanda Amarílis publica a sua primeira colecção de contos naquele ano.

 

A revista Claridade foi publicada intermitentemente entre 1936 e 1960. Para a maior parte dos críticos, a revista e o movimento de Claridade marcam o início da literatura do país. Ver a este propósito, Brookshaw David. "The emergence of Cape Verdean literature." The Postcolonial Literature of Lusophone Africa. Evanston, Illinois: Northwestern U P, 1996. 179-233.

 

Ferreira, Manuel. Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa. Vol. 1. Biblioteca Breve. Portugal: Livraria Bertrand, 1977. 2 vols.

 

Para um estudo aprofundado deste movimento, ver Araújo, Norman. A Study of Cape Verdean Literature. Boston: publicado pelo autor, 1966.

 

Moser, Gerald. Changing Africa: the First Literary Generation of Independent Cape Verde. Philadelphia: American Philosophical Society, 1992. Texto original: "The foundations for a national literature were laid between 1935 and 1960. At that time, a small group of intellectuals gathered around the poet Jorge Barbosa in Mindelo, the principal harbor of the Islands. Inspired by the example of contemporary Brazilian writers, many of whom came from a similarly dry, impoverished region, the northeastern Hump of South America, they began to evolve specifically Cape Verdean writing by closely observing the speech, traditions and way of life of the common folk of the Islands."

 

Silveira, Onésimo. "Consciencialização na literatura caboverdiana." Critical Perspectives on Lusophone Literature from Africa. Ed. Burness, Donald. Washington: Three Continents Press, 1981. 242-67.

 

Há de facto poucas escritoras cabo-verdianas. Orlanda Amarílis é a primeira escritora com livro publicado. Maria Margarida Mascarenhas e Aydeia Avelino Pires são também entre as (raras) escritoras de origem cabo-verdiana.

 

Ferreira, Manuel, e Gerald Moser. Bibliografia das literaturas africanas de expressão portuguesa. Lisboa: Casa da Moeda, 1983.

 

Nesta colecção Cais-do-Sodré té Salamansa, "Cais-do-Sodré" e "Nina" são os outros dois contos nesta categoria.

Frequentemente na obra de Orlanda Amarílis evoca-se a solidão das mulheres, vivendo nas ilhas ou no estrangeiro. Ver a este propósito: Santilli, Maria Aparecida. "As mulheres-sós de Orlanda Amarílis." Cadernos de Literatura 17 (1984): 37-41.

 

Mendonça, Fernando. "Orlanda Amarílis, uma escritora de Cabo Verde." Vértice 44.461 (1984): 44-53.

 

Ver a este propósito o estudo seguinte de Gregory McNab que analisa as relações entre mulheres-objectos e homens-sujeitos nos contos "Thanon-les-Bains" e "Salamansa": McNab, Gregory. "The Subjection of Women in Two Stories by Orlando Amarílis." Luso-Brazilian Review 24.1 (1987): 59-87.

 

Ver: Preto-Rodas, Richard A. Negritude as a Theme in the Poetry of the Portuguese-Speaking World. Florida: U of Florida P, 1970. Texto original: "Despite his assuming the social mannerisms and cultural ideals of the dominant social group, however, the Negro poet gradually realizes that he is only partially integrated into the European (i.e., white) society and that his subaltern place is a result of his color. No matter how fully he has become assimilated in dress, language, and social comportment, he remains primarily a Negro lawyer or senator or, politically, a French or American Negro. As long as he is black (or brown) total assimilation seems to remain beyond reach…dissociated from other Negroes by his social and cultural preferences and from the white community by his color."

 

Éjxenbaum, B. M. "O. Henry and the Theory of the Short Story." The New Short Story Theories. Ed. Charles E. May. Athens: Ohio UP, 1994. 81-88.

 

A POÉTICA CRIOULA DE SÉRGIO FRUSONI

 http://www.unb.br/il/liv/public/frusoni.htm

Simone Caputo Gomes Universidade Federal Fluminense

                                    

A obra de Sérgio Frusoni, poeta caboverdiano que optou pela adoção do crioulo como língua literária, merece um estudo específico que, pelas dificuldades até então encontradas no trabalho com os textos na língua originária de Cabo Verde, ainda não foi feito.

Filho de Giuseppe Frusoni e Erminia Bonucci, Sérgio nasce no Mindelo, S. Vicente, a 10-08-1901, e morre em Lisboa, em 1975. Autor de vários contos em crioulo divulgados na Rádio Barlavento, notabiliza-se como poeta crioulo, mas apresenta a maioria dos poemas em duas versões, em língua crioula e em língua portuguesa, o que dá à recolha de sua produção um importante status quanto aos estudos literários.

Mesquitela Lima, que faz um estudo antropológico da obra de Frusoni, para nossa felicidade, recolheu boa parte dos poemas soltos em pedaços de papel que o poeta eventualmente conservava e, na maioria das vezes, perdia (LIMA 1992).

Assim, um corpus significativo de produção bilingüe1 de Sérgio Frusoni pode hoje ser examinado pelo pesquisador das áreas de Língua e Literatura, e nossa intervenção se dará neste segundo nível.

Enquanto conjunto de obra, a poética de Sérgio Frusoni acompanha a movimentação da Literatura Caboverdiana em torno de temas básicos à cultura como o apego à terra, a fome, o drama partir-ficar(também chamado terra-longismo). Mas acrescenta-lhes o sensualismo, o humor, o auto-biografismo e a constatação da situação da mulher na sociedade crioula.

Conferindo originalidade à obra de Frusoni percebemos a técnica do poema-retrato e o enfoque do quotidiano do povo crioulo, nas atividades simples do dia-a-dia.

Não admira, pois, que seus textos sejam expressos em crioulo, pois este é o veículo de comunicação da camada de população retratada, que não tinha acesso à língua portuguesa.

O crioulo constitui o elemento cultural que mais assume, fixa e expressa os valores culturais caboverdianos, a cultura caboverdiana enquanto comunidade de memória, com um sentimento de identidade que conjuga todo o Arquipélago e se estende à diáspora, gerando uma consciência de grupo bem demarcada. Mesquitela Lima discute, com base nesses argumentos, o fato de ainda não ter sido outorgado ao crioulo o estatuto de língua e propõe que ele se denomine caboverdiano (ao invés de crioulo)2, para melhor caracterizar a sociedade que dá a conhecer.

Contudo, as polêmicas língua ou dialeto, crioulo ou caboverdiano, não nos ocuparão no momento. O que interessa é examinar os principais temas e processos que fazem da obra de Sérgio Frusoni um grande momento de Poesia, e de Poesia Caboverdiana.

Frusoni adota para seus textos o crioulo da Ilha de S. Vicente, e o nosso critério de adoção de uma forma escrita para o crioulo foi escolher o caminho mais fácil: conservar a grafia usada pelo poeta (como sabemos, a dificuldade de adotar uma forma escrita para o crioulo persiste, e sobre isto nos pode dar importante depoimento uma especialista, a Dra. Dulce Almada Duarte).

Um preâmbulo sobre alguns aspectos do crioulo de Cabo Verde para os que fazem os primeiros contactos com a Literatura Caboverdiana nos parece ainda necessário.

O fenômeno do bilingüismo não afeta globalmente a sociedade caboverdiana; nem todos os caboverdianos falam o português, muito mais utilizado na camada culta e rudimentarmente falado nas camadas populares. Como o português nunca foi uma língua de domínio efetivo e global (foi muito mais uma língua de domínio administrativo-político), o crioulo continuou sendo o instrumento de comunicação oral privilegiado. Além disto, não existe um só crioulo: a insularidade provocou formas dialetais ou linguagens regionais-insulares.

Frusoni é, pois, praticamente, um dos principais escritores que dão ao crioulo dignidade poética escrita, visto que no seu tempo a língua originária transmitia fundamentalmente mornas e coladeiras.

Influenciada pelo movimento da Claridade, que pensa a sociedade e a cultura como diferenciadas de um modelo colonial, a produção poética de Sérgio Frusoni recolhida por Mesquitela Lima compõe-se de 78 poemas, dos quais 15 sonetos (4 em português, 1 em inglês), escritos no crioulo de S. Vicente e acompanhados das respectivas traduções literárias em Língua Portuguesa, elaboradas pelo poeta. A maior parte dos poemas não apresenta métrica ou rima, à exceção dos sonetos, que não examinaremos, pelo motivo acima apontado. Muitos dos poemas em crioulo foram utilizados como letras de morna. Seus temas básicos são, como já enunciamos, a fome, cenas do quotidiano de S. Vicente, o apego à terra, a emigração/evasão (por melhores condições de vida) e o regresso (para acabar na miséria), a problemática do mar (que não é a mesma em todas as ilhas).

Com o intuito de publicar em vida o livro Sanvicente crioulo, Frusoni, logo no poema "Presentaçom", assume sua identidade de caboverdiano e sanvicentino:

 

Quem mi ê? Um fidje de Sanvcênte.

Nascide, crióde, lá na ponta d' Praia.

Lá ondê que mar tâ sparajá debóxe de bôte,

moda barra dum saia.

 

Cs' ê que m' crê? Cantá nha terra!

Companhal na sê dor;

na nôbréza d' sê alma;

na pobréza d' sê vida!

 

 

 Tradução:

Quem eu sou? Um filho de São Vicente.

nascido, criado, lá na Ponta da Praia.

Lá onde o mar se espreguiça debaixo dos botes,

como a barra duma saia.

O que eu quero? Cantar a minha terra!

Acompanhá-la na sua dor;

na nobreza da sua alma;

na pobreza da sua vida!

 

Esta é a proposta da obra. Os poemas autobiográficos "Nha coraçôm", "Mnine d' Sanvicente", "Pracinha", "Igreja D'Nossióra da Luz" continuam a delinear o retrato do poeta caboverdiano e de sua amada terra:

 

Nha coraçôm ê dum rapaz de vint'óne:

êl tâ rí, êl tâ chorá, consoante êl crê.

Se dá'l pa cantá, êl ê italióne,

pa quêl sangue quêl herdá quand' m'nascê:

 

Se dá'l pâ chorá, êl ê caboverdeóne

 

(Meu coração é dum rapaz de vinte anos:

ri, chora, consoante ele quer.

Se lhe dá para cantar, é italiano,

por aquele sangue que herdou quando nasci

 

Se lhe dá para chorar, é caboverdeano)

 

No poema "Mnine d'Sanvicente", Frusoni alude a suas saídas de Cabo Verde, ao tema da emigração-regresso, tão cantado pela Literatura do Arquipélago:

 

E j'a m' bá e já m' bem;

já m' torná bá e torná bem;

e alí'm lí, de pê na tchôm,

 

sem um vintem, sem um tstôm,

tâ crê torná bá...

ma pa torná bem...

 

(Já fui e já regressei;

já tornei a ir e tornei a regressar;

aqui estou, de pés no chão,

sem um vintém, sem um tostão,

a querer ir...

e tornar a regressar...)

 

A técnica do retrato condensado atinge líricos momentos no "flash" da Pracinha e da Igreja, cartões postais do Mindelo:

 

 

Igreja               Igreja

Cambra               Câmara

Rua da Luz           Rua da Luz

Camim d' cimter      Caminho do cemitério

 

Dalí ond'ê que m' tâ             Daqui onde estou

m' ti t' oióbe, nha Igrejinha:   vejo-te, minha Igrejinha

semp caiadinha d' brónc          sempre caiadinha de branco

por dentre e por fóra,           por dentro e por fora,

semp tâ figurá                   sempre a fazer figura,

embora bidjinha!                 embora velhinha!

 

 

Os costumes da terra (como a culinária), as fontes de sobrevivência, a seca e a chuva, a fome, a pobreza, terão expressão nos poemas "Rebêra", "Dia de féria", "Pâ quês pardalim", "Lembróme", "Infancia" e "Calôte , fidje de pôbréza, praga de nôs terra". O Porto Grande e a chuva são focalizados em paralelo no primeiro texto, correlacionando a abundância da água e da lama, tão necessárias ao cultivo, especialmente do milho, à abundância de barcos, tão importante para a economia da ilha:

 

 

M' câ sabê de bô,                   Não sei de ti,

nem de fórça dêsse láma             nem da força dessa lama

que bo ti tâ carregá pa mar.        que carregas para o mar.

Sô m' sabê cma vapor                Só sei que os vapores

já pitá na baía,                    já apitaram na baía

cma aligria d'ága já rebentá na ar. e que a alegria da água

                                       [á rebentou no ar...]

 

O milho assado, o rabo de porco e o feijão malaguetado, a cachupa e o pãozinho de milho (midje assóde, rabim de tchuc, fejón malaguetóde, catchupa, pômzinha de midje) inscrevem-se em alguns poemas enquanto pratos típicos da cultura caboverdiana

Em contraste, o sofrimento das crianças por causa da fome é retratado no poema "Infancia", num resgate da memória que persiste no poema "Lembróme".

 

Lembróme bô perfil:                Lembra-me o teu perfil:

nocênte (...)                      inocente (...)

Ma que já tá trazê,                Mas que já trazia

sargide na pêle                    serzida na pele

dôr ma sufrimênte,                 a dor e o sofrimento,

sina de nôs pôve...                sina do nosso povo...

 

Fôme cá prêsta! Fôme ê bjôm!       A fome não presta! Fome é

                                          [um horror!]

                                  

Ma ants fôme do qui pêste ma guérra!  Mas antes fome do que

                                          [peste na guerra!]

                                             

Fôme ta minguóne, ta incudjine,   A fome mingua-nos,

                                             [encolhe-nos]     

ma quem ta morrê fête menine,     mas quem morre feito

                                            [criança]                 

ta torná nascê fête menine,       volta a nascer feito

                                            [criança]

de lá de barriga de terra!        de lá da barriga da terra                                               

 

No poema "Pâ quês pardalim" Frusoni focaliza a mulher que, depois de desmaiar de fome, preocupa-se com um saco onde levava restos de cachupa e tocos de pão. Interpelada (em português) por que não comeu o farnel, ela diz:

 

E...e côsa que m' tá levá...  E...e o que é que eu levava...

 quês...pardalim                 àqueles...àqueles pardaizi-

                                         [nhos]

-Pardais?

-Sim...

Quês...quês...dôs fidjim...de meu...  àqueles...àqueles...dois filhinhos...meus...

 

A mulher, retratada ora na sua situação de abandono, em virtude da emigração do marido, ora no trabalho, ora em situações humorísticas, ou em sua sensualidade ("marmél de bô pêite/ ta pedí dentada d'ôme" - os marmelos do teu peito/a pedir dentada de homem), constitui um tema constante na obra de Sérgio Frusoni.

No texto "Quand um palavra sô tâ dzê tude côsa" Frusoni ridiculariza a mulher que regressa de rápida viagem a Lisboa com hábitos e até pronúncia diferentes. Uma só palavra condensará a crítica do povo a esse tipo de personagem: PACIÊNCIA!

 

Um dia nh'Augusta infermêra,

desembarcá tâ bem d'Lisboa:   (desembarcou, vinha de Lisboa)

luva, cartêra,

cabel caracolóde

cara pintóde

ta pscá confundi parcença.   (procurando confundir a figura)

 

Um mudjêr q'tava ta passá,

pará tâ spial,

cabá el sucdí cabeçá el dzê:

_Nh' Augusta, nh' armôm, PACIENÇA!.. (ah!, Meu irmão,

                                      PACIÊNCIA!...)

 

No poema-sketch (técnica recorrente em sua obra) "Pai d'Fidje", o poeta mostra a mulher que reza para que o marido viciado ganhe no jogo, para que seus filhos não passem fome e ela não apanhe:

 

Spiá pa fidje, quem? Ele? Adéh!

importal lá s'ês t'andá sfarrapóde,

ô sem cmê! Alá'l sentóde

na jôgue, êss ê que'l crê!...

 

Scompôl? Brigá ma êl? Cónta d' nada!

Remêde ê rezá, cmáde!

E pdí Nossiôr pa fazel ganhá,

pamóde s'êl perdê, êl tíntchóme d'pancada...

 

A situação quase permanente da mulher só, em virtude do abandono ou emigração do marido, ou do afastamento do filho que parte para trabalhar longe é constantemente referida em poemas como "Sirvice de criada ca tá dá têmpe pa nada" e "A volta":

 

Sim, êl há d'voltá.            Sim, há-de voltar.

E cs'ê qu' m há dzê?           E que lhe direi?

Cma m'speral?                  Que o esperei?

Cma m' sofrê?...               Que sofri?

 

S'el ca creditá?               E se ele não acreditar?

Cs' ê qu' m há fazê?           Que hei-de fazer?

M' há mostral fidje,           Mostro-lhe a criança?

ô m' ha fcá calóde?            ou fico calada?

 

E s' êl bem el stranhá casa;   E se ele vem e estranha a

                                       [casa?]

esse nha magréza;              esta minha magreza

esse portôm abêrte,            este portão aberto,

ma esse lume pagóde?...        e este lume apagado?...

 

E s'stude bem dá cêrte?        E se tudo vier a dar certo?

S'el cabá d' entrá             se acabar de entrar

êl corrê pa mim?...            e correr para mim?

M' há pô tâ tchorá,            Hei-de chorar,

ô m' há pô tâ rí?...           ou hei-de rir?...

 

Este belíssimo texto dá a medida da dramaticidade da emigração em terras caboverdianas. Os poemas "Contratóde" (que fala da partida do contratado, escravo do século vinte, por força do regime colonial), "Navì ta bá, navì ta bêm" (Navio que vai, navio que vem), "Na terra strónhe" (Em terra estranha),"Despedida", "Chamada de mar", "Diante de mar de sanvicente", "Volta d'imigrante antigo" enquadram-se no ciclo do terra-longismo (partida/regresso, o querer partir e ter de ficar/e vice-versa), tão bem teorizado por Manuel Ferreira (FERREIRA 1972).

Por outro lado, o chamado da terra, a caboverdianidade, a anti-evasão expressa veementemente por Ovídio Martins em Língua Portuguesa: Não vou para Pasárgada! reverbera em outros textos como "Nha terra", "Cabvêrde", "Pa diante é qu'ê camim":

 

Ma lì qu' m'nascê                   Mas aqui é que nasci

lì qu' m' criá!                     aqui é que me criei!

Êsse mar, êsse cêu, ma êsse tchôm,  Este mar, este céu, este

                                                      [chão]

Lì qu'm'ha morrê!                  Aqui é que hei-de morrer!

 

Idêa d'imbarcá                     Ideia de embarcar

nunca passóme pâ cabéça (...)   nunca me passou pela cabeça

Antes fcá pa lì tâ gozá dêsse mar    Antes ficar por cá a

                                           [gozar deste mar]

ma dêsse cêu.                         e deste céu.

 

Conhecendo  e amando Cabo Verde, é fácil entender o sentimento de Sérgio Frusoni.

                                                                                                                                                NOTAS

 

1. Considero a tradução literária dos textos para o português como um corpus poético à parte.

 

2. Ibidem, p. 26.

BIBLIOGRAFIA

 

FERREIRA, Manuel. 1972. O círculo do mar e o terra-longismo em Chiquinho de Baltasar Lopes. Colóquio-Letras 5.66-70.

LIMA, Mesquitela. 1992. A poética de Sérgio Frusoni: uma leitura antropológica. Lisboa/Praia: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa/Instituto Caboverdiano do Livro e do Disco.

 

Baltasar Lopes

Brasil e Cabo Verde: um diálogo entre José Lins do Rego e Baltasar Lopes

 http://www.geocities.com/ail_br/brasilecaboverde.html

Marcia Garcia Dias

Embora a partir da década de oitenta se verifique um número significativo de trabalhos que põem em foco as relações interliterárias voltadas para as literaturas não-canônicas, as relações culturais entre Brasil e Cabo Verde são bem anteriores e para efeito desta comunicação vamos situá-las na década de trinta.

Manuel Ferreira, no seu longo prefácio à edição comemorativa dos cinqüentas anos da publicação do primeiro número de Claridade (março de 1936/ março de 1986), procura analisar os elementos que, na sua opinião, constituem uma explicação lógica para o aparecimento desta revista no arquipélago.

Dentre os "elementos exógenos", aponta primeiramente a presença dos escritores portugueses Augusto Casimiro, António Pedro e José Osório de Oliveira; depois assinala a contribuição da revista Presença; considera ainda o contato com alguns jornais portugueses e, finalmente, a contribuição da literatura brasileira. Nas palavras do próprio Manuel Ferreira: "Aliás, desde o princípio deste século, para não irmos mais longe, a presença brasileira é por vezes notória na literatura caboverdiana. as referências são constantes, quer em obras literárias quer na Imprensa. E elas vêm das formas mais diversas. Desde as dedicatórias de escritores caboverdianos, nomeadamente José Lopes, a personalidades brasileiras, transcrições de poemas por vezes bem longos dedicados ao Brasil ou a intelectuais brasileiros; na verdade, de forma a mais variada, o Brasil fixou-se na poesia caboverdiana". (Claridade, p.XXVIII).

A distância imposta pela configuração geográfica não impediu a circulação de alguns romances brasileiros, mais particularmente aqueles de características neo-realistas, entre os escritores das ilhas. É o próprio Baltasar Lopes, em declaração proferida em 1956, que esclarece como se deu o contato literário dos caboverdianos com alguns dos nossos escritores: "Há pouco mais de vinte anos, eu e um grupo reduzido de amigos começámos a pensar no nosso problema, isto é, no problemas de Cabo Verde. Preocupava-nos sobretudo o problema da formação social destas ilhas, o estudo das raízes de Cabo Verde. Precisávamos de certezas sistemáticas que só nos podiam vir, como auxílio metodológico e como investigação, de outras latitudes. Ora aconteceu que por aquelas alturas nos caíram nas mãos, fraternalmente juntas, em sistema de empréstimo, alguns livros que consideramos essenciais pro doma nostra. Na ficção, o José Lins do Rego d'O Menino do Engenho, do Banguê; o Jorge Amado do Jubiabá e Mar Morto; o Amândio Fontes d'Os corumbas; o Marques Rebelo d'O caso da mentira, que conhecemos por Ribeiro Couto. Em poesia foi um alumbramento a "Evocação do Recife", de Manuel Bandeira, que, salvo um ou outro pormenor, eu visualizava com as suas figuras dramáticas, na minha vila da Ribeira Brava. O António Rodrigues, que ainda cheguei a conhecer, e tinha a cara do Padre Vieira das ilustrações dos livros escolares. E a moça nuinha no banho fora surpreendida nos tanques da Ribeira de João, logo acima do trapiche da Pequena; em poesia, outro alumbramento foi Jorge de Lima, em que o sinhàzismo de 'Nega Fulô' e o super-realismo do 'Menino impossível' emparceiram na nossa receptividade com Jorge de Lima da 'Túnica impossível', com as tosses, as asmas, máquinas de costura, que precisam dormir, e com o tema, ilhéu e tão nosso, do avião que matou a saudade dos nossos filhos vagabundos. Claro que o avião, para a nossa temática, é proteiforme, podendo ser até o veleiro das travessias entre as ilhas de certos poemas de Jorge Barbosa'"(In FERREIRA, M. (org.). Claridade, p. XXIX e XXX).

O reconhecimento desse encontro por parte dos claridosos revela. para além do engajamento ideológico, uma práxis artística que a um só tempo identifica as literatura brasileira e caboverdiana e as afasta do modelo do colonizador.

Menino de engenho e Chiquinho são obras de denúncia, pois nelas se verifica, por meio da narração e das falas das personagens, uma crítica à ordem social estabelecida. Observam-se em José Lins do Rego e Baltasar Lopes uma confiança na palavra artística como veículo de transformações sociais e o emprego de procedimentos semelhantes na organização estrutural dos respectivos romances.

Menino de engenho é publicado em 1932 e narra a história do menino Carlos que deixa a cidade de Recife depois da morte da mãe e vai viver no engenho de seu avô materno, na Paraíba.

Apontado pela crítica consagrada como um documento sociológico, esse romance de José Lins do Rego é expressão da brasilidade que identifica nosso povo não apenas pelo tema e feição regionalista, mas também pela linguagem que revela o poder que organiza as relações humanas e define o destino dos homens.

O destino – "esta força arbitrária" – apresenta-se na narrativa como um tema a ser decodificado pela consciência infantil que procura pôr ordem nas múltiplas experiências vividas no engenho Santa Rosa. Aos poucos, Carlinhos vai tomando contato com as injustiças sociais e percebendo que elas é que lhe garantem os privilégios: "Depois mandaram-me para a aula de um outro professor, com outros meninos, todos de gente pobre. Havia para mim um regime de exceção. Não brigavam comigo. Existia um copo separado para eu beber água, e um tamborete de palhinha para 'o neto do Coronel Zé Paulino'. Os outros meninos sentavam-se em caixões de gás. Lia-se a lição em voz alta. A tabuada era cantada em coro, com os pés balançando, num ritmo que ainda hoje tenho nos ouvidos. Nas sabatinas nunca levei um bolo, mas quando acertava, mandavam que desse nos meus competidores. Eu me sentia bem com todo esse regime de miséria. Os meninos não tinham raiva de mim. Muitos deles eram moradores do engenho. Parece que ainda os vejo, com seus bauzinhos de flandres, voltando a pé para casa, a olharem para mim, de bolsa a tiracolo, na garupa do cavalo branco que me levava e trazia da escola" (Menino de engenho, p.33-4).

Publicado quinze anos depois do romance brasileiro, Chiquinho aparece em 1947 em forma de livro, embora os capítulo "Bibia" e "Infância" tenham sido publicados nos números um e três da revista Claridade.

As três partes que constituem a obra ("Infância", "São Vicente" e "As águas") revelam a trajetória percorrida por Chiquinho. Como narrador-personagem, narra as diversas situações vividas em companhia de sua família no Caleijão, na ilha de São Nicolau. Como Carlinhos, de Menino de engenho, Chiquinho observa as relações familiares, a pobreza da região onde vive, o drama dos lavradores que se tornam escravos das constantes secas e a emigração de seus patrícios para a América.

Depois dos estudos no liceu de São Nicolau, transfere-se para São Vivente, onde passa a freqüentar o seminário e conviver diariamente com os colegas do Grêmio. Andrezinho, o líder da turma, tem uma proposta de trabalho: "Para ele, os nossos problemas tinham uma tonalidade específica, que resultava do 'cerco do atlântico' e do 'drama ancestral da formação étnica'. O que se impunha era reorganizar completamente nossas peculiaridades. Na vida administrativa. Na estrutura social. Na arte. [...] Andrezinho deu a fórmula: enquadramento do nosso caso nas aspirações, sempre as mesmas, sob qualquer latitude, da alma humana." (Chiquinho, p. 73).

Em outras palavras, a consciência do narrador amplia-se para além do drama vivido pela comunidade enraizada em torno da casinho do Caleijão. Na óptica de Chiquinho, o problema da sobrevivência ultrapassa a sua ilha de origem para se estender a todo o arquipélago.

Na formação da personalidade do menino do engenho Santa Rosa não estão apenas as brincadeiras e outras aventuras proibidas que os recantos do latifúndio do avô José Paulino lhe possibilitam. Antes de ingressar na escola, o cultivo de sua imaginação faz-se pelas histórias da Velha Totonha. "Que talente ela possuía para contar as suas histórias, com um jeito admirável de falar em nome de todos os personagens! Sem nem um dente na boca, e com uma voz que dava todos os tons às palavras. As suas histórias para mim valiam tudo." (Menino de engenho, p. 50).

A convivência íntima de Carlinhos com as negras da senzala contribuem para ampliar o reino fabuloso da sua imaginação de menino: "Eu vivia em conversa com ela [Galdina], atrás das suas histórias da costa da áfrica". (Menino de engenho, p. 58).

A essas histórias acrescentam-se as conversas das costureiras do engenho que além dos bordados desfiam os enredos que constituem a vida miúda dos trabalhadores do eito, as aventuras dos grandes do cangaço como Antônio Silvino.

Situação semelhante vive Chiquinho que antes de entrar para o seminário em São Vicente alimenta as suas fantasias infantis com as histórias contadas pela velha rosa Calita e pelos trabalhadores das lavras de milho.

Aplica-se aos dois textos o conceito de Walter Benjamin de que "a experiência que passa de pessoa a pessoa é a fonte a que recorreram todos os narradores. E, entre as narrativas escritas, as melhores são as que menos se distinguem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores anônimos".

Carlinhos, no engenho Santa Rosa resiste ao ABC que tia Maria amorosamente tenta ensinar-lhe, mas deixa-se seduzir pelas palestras que os mestres de ofício vão-lhe contando enquanto executam seus trabalhos de carpintaria e tanoagem: "O que, porém, mais me prendia aos meus amigos, eram as suas conversas e confissões. O Seu Rodolfo sabia de muita coisa. Vivia consertando engenhos desde menino. E de toda parte trazia uma história" (Menino de engenho, p. 69).

José Lins do Rego e Baltasar Lopes procuram apropriar-se das tradições orais para imprimirem às suas histórias o "vôo de imaginação" que caracteriza a matéria literária e dá a elas a fisionomia particular que distingue o texto brasileiro do texto caboverdiano. Dessa forma, a pobreza e a miséria que afligem os camponeses de São Nicolau e os lavradores do eito são as mesmas. A fartura da casa-grande brasileira equivale ao comedimento e segurança da casinha do Caleijão; à expectativa da cheia do rio Paraíba corresponde à chegada das águas no chão seco da ilha. No entanto, a fertilidade da terra brasileira não pode corresponder aos barcos de pesca de baleias, nem a evasão caboverdiana equivale aos movimentos migratórios do Nordeste brasileiro.

Assim, as semelhanças e diferenças aqui apontadas ultrapassam a concepção tradicional do comparativismo francês, em que se cria uma dívida impagável de um autor em relação a seu precedente. Esse medo rondou o espírito de Manuel Lopes e Jorge Barbosa, fazendo com que declarassem enfaticamente que a literatura caboverdiana havia encontrado seu próprio caminho.

 

«O Caboverdiano vê-se confrontado, inevitavelmente, com questões de ordem

ontológica»

António de Névada

http://www.ciberkiosk.pt/arquivo/ciberkiosk4/entrevistaseinqueritos/antonionevada.htm 

Da Claridade à geração novíssima de 90, a literatura cabo-verdiana percorreu neste século um longo caminho, quer enquanto levantamento antropológico e afirmação identitária, quer, mais recentemente, como desejo de uma «liberdade livre», não sobredeterminada pelas exigências daquele programa de

representação cultural e nacional.

Marcada desde o início por uma condição errante e bilingue, a literature cabo-verdiana é, também por isso, um complexo discursivo dotado de

capacidade crítica (e desde logo autocrítica) em relação às exigências e ficções de uma identidade dominantemente exprimida num idioma outro e

produzida em espaços por vezes também outros.

António de Névada, m'nine d'Soncente (nascid e criód), por acaso nascido em Lisboa, e não tanto por acaso, mas ainda assim acidentalmente, residente há

uma década em Coimbra, é pois, podíamos dizer, um cabo-verdiano assaz típico. Estrangeiro em Portugal, como em todo o lugar exterior à sua ilha

mítica, recupera uma certa ficção de pátria na língua portuguesa que, como em grande número de escritores do seu país, só cobra contudo existência

enquanto escrita, desalojada que é do quotidiano pela omnipresença do crioulo. Daí a sensação, no limiar da «estranheza», que experimenta o leitor

dos seus versos - de que os que publicamos neste número de Ciberkiosk são bem representativos -, os quais são declinados num português que oscila

entre a dicção grave e nobre que poderíamos associar a um clássico como Dante ou a um moderno como Eliot, transpostos localmente. O que seja este

«local», eis o que não é de determinação fácil, tanto mais que esta poesia parece interiorizar os dados algo «baralhados» da situação pós-colonial. A

poesia de Névada é cabo-verdiana sem responder contudo a um programa etnológico; é africana sem rejeitar a negociação do seu estatuto

(não)periférico com os supostos centros da produção (e da tradição) poética ocidental; é culta, numa profunda fidelidade à matriz popular de quase toda

a cultura cabo-verdiana; é tão épica quanto metafísica, propondo-se como registo elegíaco de um universo habitado pelos espectros da carência e da

morte.

Ciberkiosk dá neste número guarida à palavra poética e dialogal de António  de Névada, desejando que este seja apenas o começo de uma relação profícua

com as literaturas pós-coloniais de língua portuguesa e não só (pensamos, obviamente, neste contexto, no caso do crioulo). E julga ter começado bem.

Ciberkiosk agradece pois a António de Névada a disponibilidade revelada para esta pré-publicação e entrevista. Resta esclarecer que a entrevista foi

conduzida por Osvaldo Manuel Silvestre.

Ciberkiosk. Comecemos pela indispensável apresentação: quem é António de Névada? (Ou seja: onde e quando nasceu, onde estudou, onde vive?).

António de Névada. A auto-apresentação envolta toda ela por este sabor irónico, leva-me, como um auto-retrato, ao encontro de questões várias ou

interrogações de vária ordem. E para começar, vou citar um trecho que não foge ao tom algo sarcástico que sustenta o texto, o conto Fragmentos de Um

Acto, a que pertence. E diz:

(...) eu, filho de Garda e Didial, das restrições da vinha, vinho murcho ou pragas da vida, filho também das costelas do tempo, como todos os tempos são

dos templos ou famintos templos. Guardião deste pedaço, ou sinal da perplexidade, eu, filho, tal vos tenho dito, das pregas do templo e do

cheiro da cana ou caniço, maio tardio, achadas bravas sobre os lombos, derramarei a minha voz obsessiva pelos cantos, narrador impróprio que sou

porque assim me conceberam.

... E pergunto - ó dignidade insituável - que vazio nos suporta e nos abençoa, se cada dádiva estende-se pela horta toda povoando as nossas

fraquezas? E se o milheiral e o vento consomem a vida, a gravidez e o acto de parir?

Essa citação poderá ser considerada uma representação (recordo que representar também apresenta) porquanto o eu, o narrador, fala como se de um

"porta-voz", melhor, de um emissário se trata. Como se exaltasse a consumação e o volume da vida, cantando

o homem que

cultiva sobre a terra estéril,

e sobre ela ajoelha-se

para louvar ou barafustar,

para louvar ou possuir

o dom dos deuses.

E assim sendo, passemos à indispensável apresentação: nasci no ano de mil novecentos e sessenta e sete no sétimo dia do mês de Setembro. A minha mãe

não terá sido propriamente uma boa parideira, ou seja, ela não foi, na idade fértil, uma mulher de parto fácil. O primeiro filho morreu-lhe na sequência

de complicações durante o parto, o segundo nasceu duma cesariana, e eu, o filho terceiro, vim nascer a Portugal. Eis pois a causalidade dum m'nine

d'Soncente (nascid e criód) ter nascido casualmente em Lisboa, para regressar com menos de três meses de idade à terra berço.

Vivi toda a minha infância e adolescência em Cabo Verde. Fiz a escolaridade primária e completei o liceu em Mindelo, a cidade do Monte-Cara. E

licenciei-me em Engenharia Electrotécnica pela Universidade de Coimbra, cidade onde vivo há pouco mais de uma década.

Como me formei?

- junto aos meus tenho bebido a consciência da humildade. E por aí me tenho pautado.

 

Ciberkiosk. Com um livro publicado em 1993 (Acto Primeiro ou o Desígnio das Paixões) e outro a sair em breve (Esteira Cheia), V. integra a novíssima

geração literária cabo-verdiana. Entende que o conceito é sustentável?

Queremos dizer: existe uma literatura cabo-verdiana que se possa atribuir a uma «geração» novíssima? A existir ela, como a caracterizaria?

No seu caso, como se situa em relação à história literária cabo-verdiana?

Lembremos aqui um poema do seu primeiro livro - «Melancolia» - em que se diz: «Qual quixotismo / nos abarca as velas doentes / nem Nhô Balta nem Tio

Tiofe / nem Nhô Roque nem Corsino Será pertinente articular este panteão pessoal com a pergunta anterior? Isto é, serão estes quatro nomes as suas

referências fundamentais na literatura cabo-verdiana?

 

António de Névada. Tendo começado a publicar em finais da década de oitenta,

eu poderei integrar, eventualmente, a novíssima geração literária caboverdiana (o Prof. P. Laranjeira já havia assim referido em relação a

Vera Duarte e a Névada). E digo eventualmente porque não me parece sustentável, e só o tempo a seu tempo o dirá, considerar que existe uma

literatura caboverdiana que se possa atribuir a uma geração novíssima. A literatura caboverdiana tem encontrado uma linha criadora própria, e dado mostras de vitalidade, e há efectivamente autores novíssimos com qualidades e com propostas também elas interessantes, que abrangem e recriam concepções estéticas diversas. Sem querer aqui ajuizar, por não ser, como é óbvio, das pessoas mais indicadas para o fazer, e não ser essa a finalidade quando aprecio a arte e me debruço, espontaneamente, à tarefa crítica, ainda assim, devo aqui citar alguns nomes como sendo: Vera Duarte (Amanhã Amadrugada, 1993), Mario Lúcio Sousa (Sob os Signos da Luz, 1994; e Nascimento dum Mundo, 1998), Vadinho Velhinho (Relâmpagos em Terra,1995; e Adeus Loucura Adeus, 1998), autores que começaram a publicar a partir ou no limiar da segunda metade da década de oitenta, e que são de alguma forma significativos.

Tenho mantido presente que nenhum poeta, ou artista de qualquer arte, detém, solitariamente, o seu completo significado. E é nessa medida que só

poderemos avaliar uma geração literária se a enquadrarmos no contexto histórico a que ela pertence, antes disso tudo é prematuro. Ou seja, como

afirmei acima, só o tempo a seu tempo o dirá. Sem esquecer, porém, que o acto de criar, essa forma de avaliar o amontoar dos tempos, a Arte, a sua

verdadeira dimensão, adimensional, tem na intemporaneidade a sua alma primeira.

E é importante acrescentar o seguinte: se abordarmos os novos (entendendo que o novo se refere aos predecessores dos novíssimos), é fácil constatar

que, em larga medida, está ainda por apurar a importância (e ela não sera pequena), o que traz e acrescenta à literatura caboverdiana, a geração

liderada por João Varela, Corsino Fortes, Arménio Vieira e Oswaldo Osório.

São todos poetas, os mencionados, o que não será coincidência, se relembrarmos que na literatura caboverdiana, como já foi afirmado, a poesia

é o género literário que mais elevado grau de maturidade atingiu.

Em 1993, aquando da publicação do Acto Primeiro, eu escrevia: quando disse que os poetas caboverdianos, cujas publicações fazem parte dos meus ditos

"livros de cabeceira" são Arménio Vieira, Corsino Fortes, João Varela, não queria com isso dizer que outros poetas caboverdianos não me interessam.

Aliás, poetas há absolutamente imprescindíveis, e a poesia daqueles levar-me-ia, mesmo que inconscientemente, a procurar a poesia destes. E como

não me deliciar ao ler os pré-claridosos e os claridosos, os "pais" da literatura caboverdeana, para não falar na geração mais nova?

E acrescentava: Os poetas mencionados, porquanto se encontram em plena "força criativa", concerteza terão trabalhos a dar a conhecer das suas obras

em plena construção. Mas penso que isso não pode constituir inibição para os nomear aqui. Se falássemos da prosa, não poderia deixar de mencionar

Baltazar Lopes (sem esquecer Oswaldo Alcântra) ou Aurélio Gonçalves. Mas não quero sopesar separadamente as influências dos discursos poético e prosaico.

E nem o farei em relação a outra arte. Qualquer que seja a arte no nosso tempo, tempo complexo o nosso, não poderá deixar de ser o movimento dessa

variedade. E não devemos pensar que poderemos criar ou desenhar gravuras isoladas, estabelecer rupturas. Sabemos sim de um todo que nos movimenta. E

não interessa encontrar mas sim procurar.

Além de Nhô Balta e Tio Tiofe, Nhô Rôque e Corsino, para erguer um panteão pessoal seria imprescindível referir Arménio Vieira, e também a nossa

literatura oral e a literatura cantada. O imaginário mitológico popular recorda-nos, desde a infância, que, esquecidos ao sabor dos gafanhotos,

ainda assim, desafiamos os deuses e teimamos em partilhar e recriar esse universo. Essa literatura oral, os contos tradicionais, ajudam-nos, no

desespero, a reinventar os sonhos.

A música assegurou há muito um lugar de destaque na literatura do meu país, e ela faz parte do quotidiano e da essência do meu povo. Apreendi com a

música os primeiros acordes da verdadeira poesia, apreendi com a música que o sublime da arte está na vocação do inexprimível. E a poesia anónima do

povo, o músico anónimo da noite caboverdiana, da serenata, trovadores como Eugénio Tavares, B.Léza, Manuel d'Novas são também parte integrante das

minhas referências fundamentais na literatura caboverdiana. Este ultimo autor, dono de uma enorme subtileza satírica, seguindo a toada tecida por

nomes como TiGoy, faz do sarcasmo do povo das ilhas o seu córtex, a sua medula nervosa (exemplo seguido, mais recentemente por Germano Almeida, que

adopta uma escrita corredia, como se procurasse, na prosa, o ritmo da coladeira). E já que falamos de novíssimos, que dizer da poeticidade das

composições de Teófilo Chantre?

 

Ciberkiosk. A uma primeira leitura, a sua poesia impressiona por aquilo a que o poeta Mário Fonseca chamou sedução da palavra, a qual na sua obra

pressupõe o recurso a um registo elevado ou digno do português. Duas perguntas sobre isto: 1) Esse registo elevado do português é de aquisição

pessoal e literária ou tem de algum modo a ver com uma preocupação pedagógica, em Cabo Verde, no que toca aos registos linguísticos usados na

escola? 2) Como se lhe coloca a questão do crioulo? Língua sem possibilidades literárias? Demasiado confinada a um micro-espaço linguístico

e por isso de difícil tradução, no caso literário, condenando uma eventual literatura em crioulo a um destino paroquial (esta era aliás, se não

erramos, a posição de um Baltasar Lopes)? Língua a conciliar com o português, seguindo o exemplo de Corsino?

António de Névada. Devo afirmar, com sinceridade, que o fascínio ou a sedução da palavra (que poderá pressupor o registo elevado do português) é

entendido, em primeiro lugar, como uma consequência natural: pensarmos que o poeta, sendo um artesão, deve dominar com destreza, e alguma excelência, o

utensílio maior da sua arte, que é a linguagem (a palavra) escrita ou falada. E por ser de aquisição pessoal, não é inconsequente pensarmos que o

despertar desse fascínio, pela palavra, advém dos amantes da poesia e da literariedade, que eu tive a sorte de encontrar ao longo da minha formação.

Como acontece com a generalidade dos escritores caboverdianos, a quase totalidade da minha criação literária, principiante que sou nessas lides,

tem como ferramenta a língua portuguesa. Na linguagem escrita utilizo com maior destreza o português. Entanto, na linguagem falada acontece o

contrário, a minha língua materna, a língua caboverdiana (o crioulo) alcança alguma supremacia. É ciente dessa aparente contradição que me situo em

relação às questões que se levantam à volta da língua caboverdiana. 

Baltazar Lopes, afirmou, de forma categórica, que "o crioulo de Cabo Verde apresenta uma vitalidade que torna impossível a sua «erradicação» como meio

de fala comum, e até uma viabilidade literária incontestável, a contrastar com a magreza da sua estrututa morfológica". Ou não teria ele dado o

contributo que deu na investigação linguística do crioulo.

E vou transcrever de seguida, para confrontarmos com a opinião científica anterior, a afirmação duma mulher do povo: "O meu nome é Cesária e canto a

morna porque em Cabo Verde há muita miséria e a música representa o sentir e a dor do meu povo. Canto a pobreza e a saudade dos que partem, em crioulo,

porque se o fizer em inglês, em francês ou mesmo em português não vou fazê-lo bem. O crioulo é o meu sangue, a minha raiz".

Assim como a "diáspora" caboverdiana, a Cesária tem levado o crioulo a todos os cantos do mundo. E se percorrermos a discografia da Diva d'pê na tchon,

constatamos que muitas composições da nossa literatura cantada têm sido traduzidas directamente do crioulo para o francês ou inglês, embora na sua

generalidade, tais traduções, feitas um pouco à pressa, pecam por não conseguirem penetrar na veia poética dos textos originais.

Acerca da dificuldade de tradução, proponho as coisas como se estivéssemos em frente ao espelho, e aconselho a leitura da tradução que Eugénio Tavares

fez das endechas a Bárbara Escrava!

O bilinguismo em Cabo Verde é inevitável. E o verdadeiro destino do crioulo será a idoneidade: possuirmos uma gramática da língua caboverdiana, com

necessário grau de maturidade, que permita ter, sem equívocos, na lingual escrita todos os inumeráveis recursos da língua falada, da nossa elocução

oral. A acontecer, quando chegar o tempo, deverá ser com naturalidade. E a língua portuguesa ficará, também ela, dignificada e enriquecida.

Ciberkiosk. No poema «Aonde jazem os santos», afirma-se: «Aqui rebusco a bentidade / porque os santos encarnam / deuses Gregos». Os deuses gregos que

os seus versos convocam são deveras congruentes com as suas referências literárias, que em Acto Primeiro ou o Desígnio das Paixões vão de Goethe -

que fornece a epígrafe ao livro - a Ezra Pound (e em Esteira Cheia incluem Platão, Eliot, Nuno Júdice). Estas referências são contrabalançadas por

Timóteo Tio Tiofe, de modo, digamos, algo desequilibrado, em favor das europeias. Sem querermos ressuscitar velhas polémicas sobre

cabo-verdianidade e africanidade, considera-se, ainda assim, um poeta africano? Ou será que, na situação pós-colonial, a questão não faz sentido

para si?

António de Névada. O âmago filosófico duma poesia está intimamente ligado à

realidade histórica e cultural no qual se insere o corpus poético do autor.

É inegável! A nossa mundividência, que nos dá uma especificidade própria,

prova, também, que a cultura caboverdiana, a caboverdianidade ou tudo aquilo

que nos define em essência é determinado pelo elemento africano.

Sou caboverdiano, um ilhéu africano, é óbvio, e nessa medida não posso ser

coisa nenhuma senão, antes de mais nada, um poeta africano. É tão profundo

quanto imensurável! E assumo, sem complexos, os meus mestres, os autores das

obras de arte que marcam as minhas concepções estéticas, independentemente

das origens (geográficas ou culturais), das restrições territoriais (que não

existem na arte), dos eventuais desequilíbrios, e muito menos por receios em

ressuscitar velhas polémicas.

E se não há credo nem raça para as vicissitudes da vida e nascemos na

encruzilhada de todos os caminhos, e se a raiz do dorso é carne é osso, no

alvoroço, então, a gratidão e a afronta são amparadas com firmeza na mais

atroz das nossas vivências: sal d'nha corp ê c'ma tambor na d'susper

d'SánJon.

Ciberkiosk. No universo de carência e sofrimento dos seus versos é possível

reconhecer uma referência constante a Cabo Verde. No entanto, a nomeação

referencial é evitada e antes objecto de uma metaforização contínua, como

nos versos seguintes, do poema «Deusa»: «Gemem gemidos rasgados / e cinza

paisagem / deixa cair pétalas de basalto / em crateras vivas». Num certo

sentido, esta poesia não podia ser mais cabo-verdiana (como o é, em

alternativa, no poema «Captô», em que recupera, digamos, o romanceiro das

ilhas), e no entanto, na sua retoricidade intensa, ela adopta, de modo algo

ostensivo, uma atitude de indiferença em relação à agenda emancipatória da

literatura cabo-verdiana produzida pela geração que «não quis ir para

Pasárgada». A sua poesia, digamo-lo assim, não seria pensável há 20 anos

atrás, de tal modo se afasta da temática do engagement, estando por isso,

nessa data, fatalmente condenada a uma acusação global de «formalismo».

Concorda?

António de Névada. A geração que «não quis ir para Pasárgada» teve a sua

razão de existir, no contexto de denúncia, assumindo um discurso liberto da

doutrinação luso-tropicalista.

Hoje, quando leio Ovídio Martins não posso deixar de sentir emoção pelo seu

espírito inconformista e pelo lirismo dos seus versos. E se de alguma forma,

a minha poesia denota uma atitude de indiferença em relação à agenda dessa

geração (a emancipação é já um dado adquirido), não é de todo anormal que

assim seja. Mas denotar isso de modo algo ostensivo é acidental.

Não concordo com a afirmação final.

E convém não nos esquecermos que os dois primeiros volumes de Exemplos de

João Vário, Exemplo Geral (1966) e Exemplo Relativo (1968), anunciam, com

quase duas décadas de antecedência, um novo processo, que rompendo com as

convenções, propunha novos caminhos à poesia caboverdiana. A essa data já o

impensável acontecia?

Há vinte e picos anos atrás, na Carta a Bia d'Ideal, Corsa de David

associava-se às críticas sofridas então por Junzin!

 

Ciberkiosk. A sua poesia tende para a forma extensa, quer se trate do verso

ou do poema. Essa forma extensa articula-se com uma dicção grave, que vai

como que salmodiando o carácter sagrado do seu universo poético - que pode

ser a «gestação do pilão» na qual «a densidade é um poema». São para si

igualmente sagrados o texto e o mundo? Ou tem um precedência sobre o outro?

Ou não aceita sequer as coordenadas desta pergunta?

António de Névada. Em Cabo Verde quando o homem se verga para uma nova

semeadura, a terra cavada, rasgada, lavrada, é uma terra seca, crua, que não

foi, há muito, amolecida pela água. E curvando ao ritmo das sementes,

largando-as uma a uma ao semeio, ele, o homem, crê que cumpre, com

abnegação, o seu dever. E espera e crê!

Ano após ano, propor, assim, o pão e o vinho, não é temperar a hóstia e o

salmo?

É evidente que tudo isto tem o seu quê de sagrado. Não o acto mas o ânimo

que o sustenta! E não pode passar imperceptível ao lado da sensibilidade sem

despertar a perplexidade.

Vejamos: no acto de sepultar a semente, a morte não será de uma omnipresença

atroz?

Não será legítimo que o caboverdiano se veja confrontado, inevitavelmente,

com questões de ordem ontológica? Acentuo que a poesia lavra ou pretende

lavrar a própria alma, e que, por excelência, a mente é o instrumento e o

campo de toda a lavoura.

Eu até não me importava de encontrar cara a cara com O sagrado, livre de

qualquer admonenda, pois até tinha algumas questões incómodas para Lhe pôr.

Faço minhas estas palavras ditas por um velhote da minha cidade. Por sinal,

dizia-se que o homem não era muito "católico" das ideias.

Em horas mais propícias haverá muito a acrescentar à questão do sagrado que

carrega nas faces as rugas místicas da religiosidade. Essa religiosidade do

meu universo poético que deve ser entendida no sentido de religare, de unir

o homem à sua ancestralidade:

São nuvens?

Não! São almas nossas.

São árvores?

Não! São nossos cadáveres.

 

A Bíblia é uma grande obra estética e literária, tanto pela sua carga

poética, como pela sua importância histórica. E tenho sido um leitor assíduo

de alguns dos livros nela contidos. Nomeadamente o livro dos Salmos.

Ciberkiosk. Quer o seu livro publicado, quer o ainda inédito, organizam-se

rigorosamente em três partes, buscando um fôlego épico para abordar o seu

universo. O título do seu segundo livro, contudo - Esteira Cheia ou o Abismo

das Coisas - parece sugerir que o mundo a cantar é tão pleno quanto ausente

(o que é capaz de ser um sentimento definidor da cabo-verdianidade). O seu

projecto de uma épica lírica, sobretudo conseguido em Esteira Cheia, não

deixa de evocar Corsino Fortes, poeta presente nos seus dois livros. Assim

como a celebração de um «abismo das coisas» permite uma aproximação à

vertente metafísica da obra de um João Vário. Aceita situar-se numa relação

privilegiada com esta ascendência poética?

António de Névada. Aceito, com naturalidade, tal ascendência poética.

Ciberkiosk. Quer-nos falar sobre as razões que o levaram a intentar um texto

de teor mais proximamente épico, em Esteira Cheia?

António de Névada. É óbvio que alguns dos meus mestres são autores de épicas

contemporâneas de inspiração Homérica. Esteira Cheia não está alheia ao

ensejo que terá movido tais concepções estéticas. Em meados de noventa e

cinco na Carta ao tio Djom à volta de Esteira Cheia ou Abismo das Coisas, eu

dizia que esta havia atingido a maturidade: (...) Há sempre uma grande

melancolia que envolve a peça de arte e o autor. E quando ele (o autor) vê a

peça encadernada, já impressa ou retirada do cavalete, é como se a própria

alma transfigurada se apercebesse de que essa separação corporiza o

inacabado, é uma pausa à semelhança da morte...

A estrutura do livro (que se assemelha, de certa forma, à estrutura épica, e

que eu designaria por drama ou polifonia poética) subdividida em Prelúdio,

Canções 1ª, 2ª e 3ª (cada uma composta em três cantos) e Coro (ou rapsódia

final), é aquela que melhor sustenta os intentos desta proposta poética.

Fazendo uma analogia com a classificação das óperas, não há aqui o

antagonismo entre a música pura e o texto dramático, ou seja, a melodia (a

tessitura ou tecedura textual) e o próprio texto, indissociáveis (porque

como uma síntese de angústias metafísicas), coexistem e viabilizam o poema.

A canção primeira (Meditações) de Esteira Cheia tem por epígrafe palavras

ditas por John Coltrane. Trata-se de um reconhecimento. Esse grande

compositor compreende (abraça) o religare, procurando de forma obsessiva,

incansável e mesmo agônica a ancestralidade. É esse o lugar de A Love

Supreme, Transition, Meditations, obras fundamentais, que alicerçam, também,

a minha concepção do belo.

Resta-me acrescentar que o epos, o mito vivente, que sustenta esta proposta

poética, nada mais é do que o sentido efémero das coisas, a angústia, no

sentido mais amplo, os pedaços desgarrados do eu doendo, a dimensão humana.

Daí a premissa de me lançar, também eu, à procura obsessiva e agônica do

mundo e do lugar no mundo.

Ciberkiosk. Para terminar, de que modo é que a poesia portuguesa lhe é

relevante? Ou seja, como se relaciona com ela: como com uma literatura

estrangeira, no mesmo plano, digamos, da francesa ou inglesa? E que poetas

portugueses leu ou lê?

António de Névada. Se a pergunta é feita abordando o conceito de

nacionalidade, direi que me relaciono com a poesia portuguesa como uma

poesia que pertence a uma literatura estrangeira. Não no mesmo plano,

evidentemente, que a literatura inglesa ou francesa. Vivo há alguns anos

neste país, tenho, de certa forma, um apreço por esta bela cidade que é

Coimbra, aqui nasceu o meu primeiro filho, mas ainda assim, sou e sinto-me

estrangeiro em Portugal.

A poesia caboverdiana, a literatura do meu país, é uma literatura da língua

portuguesa. E àquilo que digo numa resposta anterior, direi mais: a minha

pátria é, também, a língua portuguesa.

É justamente por aí que eu começo, por onde iniciei a descoberta da poesia

portuguesa: devorei nos primeiros anos da minha adolescência toda a obra

poética de Pessoa. Visitei com deslumbramento o universo dramático de Antero

de Quental e a poética de Camões. Tenho lido uma boa parte dos poetas

portugueses deste e do passado século, e sou um leitor assíduo de Jorge de

Sena, Mário de Sá-Carneiro, Al Berto. E Herberto Helder e Nuno Júdice têm-me

marcado profundamente.

 

O crioulo e o Português no processo de afirmação em Cabo Verde

Manuel Veiga

Situação Linguística

Em Cabo Verde, a situação linguística caracteriza-se pela presença de duas línguas: o crioulo cabo-verdiano (daqui para frente Ccv) e a língua portuguesa (referida no texto por Lp).

 

Estas duas línguas moldam, embora de maneira diferente, toda a história e toda a visão do povo cabo-verdiano. Deve-se notar que a Lp passou a existir em Cabo Verde desde a época do povoamento das ilhas, isto é, desde 1462. O Ccv, pelo seu lado, sendo o resultado de uma reestruturação e de uma autonomização linguísticas, a partir do português popular do século XV e de algumas línguas da Costa ocidental da África (1), começa a ter contornos bem definidos, segundo o ponto de vista de alguns historiadores, cerca de cem anos após o achamento das ilhas (2). Isto significa que a Lp tem cerca de cinco séculos de presença em Cabo Verde e o Ccv cerca de quatro séculos.

 

A história secular dessas duas línguas como meio de comunicação e como principal suporte e veículo cultural do povo das ilhas confere a ambos o estatuto de património cultural, hoje comummente aceite.

 

Não obstante, o estatuto linguístico das duas línguas continua sendo muito diferente. Com efeito, enquanto a Lp é língua oficial e do ensino, da literatura, dos mídia e das situações formais de comunicação, o Ccv é língua de comunicação na família, língua das tradições orais, principal suporte musical, numa palavra, língua da oralidade e das situações informais de comunicação.

 

Esta situação fez com que a Lp fosse sempre considerada como língua de prestígio e o Ccv como língua de amizade e do coração. Tratando-se de situações informais de comunicação, o Ccv, sobretudo junto da elite letrada, teve quase sempre um estatuto de menoridade, chegando mesmo o seu uso a ser considerado desprestigiante. E isto, particularmente devido à falta de um alfabeto e de uma escrita estandardizados, à inexistência, durante muito tempo, de uma gramática escrita e à sua ausência tanto na administração como no sistema formal de ensino.

 

A situação de diglossia, no sentido atribuído por Ch. Ferguson (3), era o que melhor se adaptava e se adapta ainda ao contexto linguístico do País.

 

Para além da diglossia, há também o problema da dialectologia. Cabo Verde é um arquipélago de dez ilhas, sendo nove habitadas. O povoamento deu-se em épocas diferentes, as primeiras ilhas no século XV e as últimas no final do século XVIII. A distância entre as ilhas é pequena (entre 10 e 45 minutos nos pequenos aviões), mas durante muito tempo a comunicação era escassa e a mobilidade social era quase nula. Daí que a situação geográfica e social favorecia a formação de variedades dialectais e sociolectais.

 

Até a manhã da Independência Nacional, ocorrida em Julho de 1975, a situação de diglossia e a de dialectologia permaneceram quase que intactas. No pós-Independência, impunha-se dignificar o estatuto do crioulo e socializar a dialectologia, isto é, aumentar o nível de compreensão interdialectal. Uma nova era para o desenvolvimento linguístico despontava no horizonte. Entretanto, tornava-se e torna-se necessário conhecer todas as contradições do processo sociolinguístico para que o desenvolvimento preconizado seja integral e intracultural.

 

2 . Contradições do xadrez sociolinguístico

A relação entre a Lp e o Ccv, não sendo totalmente harmoniosa, foi no entanto pacífica, do século XV ao século XIX, altura em que o sistema do ensino formal, ministrado exclusivamente em português, conferiu, por um lado, um grande prestígio à língua portuguesa e, por outro lado, passou não só a marginalizar, como também a menosprezar a língua crioula.

 

Notícias históricas dizem que antes do século XIX a importância do Ccv era tal que um escritor anónimo, em 1784, chegou a afirmar que dos brancos estantes em Santiago “raros (são) os que sabem falar a língua portuguesa com perfeição, e só vão seguindo o estilo de falar da terra, que é uma corruptela tão rústica que não se pode escrever” (4). Nessa altura, alguns puristas e cultores do português escreviam para o rei de Portugal alertando-o pelo facto de um grande número de portugueses se terem já acostumado ao “estilo da terra” e, por isso, pouco a pouco, vão deixando de lado a prática da língua portuguesa.

 

Não há dúvida de que a larga prática e preferência não só dos negros e mestiços, mas também dos próprios brancos em relação ao “estilo da terra”, entenda-se Ccv, era grande e tudo indicava que um futuro promissor estava reservado ao Ccv. Porém, por mais estranho que possa parecer, o alargamento do ensino formal no século XIX e a criação do Seminário-Liceu de S.Nicolau, na segunda metade deste mesmo século (1867) constituíram, por um lado, os principais entraves ao desenvolvimento do Ccv e, por outro lado, criaram as condições estruturais e institucionais para a afirmação e o desenvolvimento da Lp. A partir de então, o desenvolvimento das duas línguas passou a processar-se num contexto de contradições e de competição desigual, no âmbito político, cultural e linguístico.

 

2.1. Contradições do foro político

Já vimos que, até ao século XIX, o desenvolvimento tanto da Lp como do Ccv se processaram de forma quase que espontânea, sem nenhum projecto programático explícito.

Com o alargamento do sistema de ensino formal, os que determinavam os destinos da sociedade cabo-verdiana deram-se conta de que a dominação, para ser completa e eficaz, para além da vertente política e económica, tinha que ser também cultural. Nesta base, o desenvolvimento do Ccv seria, na interpretação do discurso colonial de então, um atentado à ideia unitária do Império português. Aliás, num Congresso de Antropologia Colonial (1934), um dos congressistas, referindo-se à situação linguística preocupante da então Colónia, diz que até os filhos de Portugal “animam este uso aprendendo o crioulo logo que chegam da Europa, usando-o no trato doméstico e educando os seus filhos a falarem quase com a exclusão do português”. Continuando, o mesmo congressista afirma: “o crioulo [...] não favorece a ideia unitária do Império” (5). Nesta base, urgia, de um lado, declarar guerra ao crioulo e, de outro lado, criar as condições estruturais e institucionais que favorecessem a afirmação da língua portuguesa.

 

Assim sendo, o uso do Ccv passou a ser proibido na administração e nos estabelecimentos de ensino, tendo por legitimação um conjunto de anátemas proferidas a seu respeito, podendo estas ser resumidas no seguinte:

 

“ridículo crioulo, idioma o mais perverso, corrupto e imperfeito; gíria ridícula, composto monstruoso de antigo português e das línguas da Guiné que aquele povo tanto preza e os mesmos brancos se comprazem a imitar; miscelânea de português antigo, de castelhano e francês, sem regras algumas de gramática; língua... que carece de três letras –scilicet, não se acha nela F, nem L, nem R, coisa digna de espanto porque assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei e, desta maneira vivem sem justiça e desordenadamente” (6).

Do lado da Lp, por seu turno, foi reforçado o ensino, particularmente junto da elite intelectual e foram criadas mais instituições, tanto do ensino primário como do secundário, na então Colónia de Cabo Verde, e atribuíram-se bolsas de estudos, como prémio, aos filhos da classe intelectual privilegiada, para estudos na então Metrópole.

 

A política linguística de então visava fundamentalmente promover a Lp e marginalizar o Ccv. No pós-Independência (a partir de 1975), a situação melhorou relativamente à política de afirmação e valorização do Ccv, sem no entanto ter podido colocá-lo no seu devido lugar. Com efeito, à vontade política, claramente expressa nos diversos Programas de governação faltava o suporte económico e técnico capaz de tirar o Ccv do subdesenvolvimento em que se encontrava. Nesta base, a Lp que possuía já os principais instrumentos linguísticos e estruturais para a sua afirmação e desenvolvimento – como escrita estandardizada, dicionários, gramática, material didáctico, suporte literário, professores formados, estabelecimento de ensino -, foi assumida, livremente, como língua oficial. O Ccv, por sua vez, sendo uma língua largamente oral, sem alfabeto nem escrita estandardizados, sem gramática escrita nem dicionários, sem professores formados nem instituições minimamente capazes de assegurar o seu ensino, foi declarado apenas como língua nacional.

 

 

2.2 - Contradições do foro cultural

Elas decorrem da própria situação histórica em que se processou o desenvolvimento das duas línguas. O discurso colonial convenceu a elite letrada e a classe economicamente favorecida de que a Lp era sinónimo de saber, de educação e de prestígio. As próprias massas populares, ao constatarem que a Lp era a língua dos espaços importantes de comunicação, como a administração pública, os tribunais, a religião, os mídia, convenceram-se, elas também, de que a Lp era a língua de cultura e o Ccv apenas a sua língua de casa e de família.  

 

Mesmo no pós-Independência, a atitude da maioria dos cabo-verdianos, frente às duas línguas, na prática, era e é muito parecida: uma simboliza o prestígio e o saber e a outra representa a marca identitária e o suporte principal das tradições culturais. Assim, os políticos, escritores, jornalistas, funcionários públicos optaram pelo uso da Lp em todas as situações formais de comunicação. Porém, para as situações informais de comunicação, toda a gente, do campo à cidade, utiliza, geralmente, o Ccv. Não obstante, as massas populares, os artistas musicais, em geral, os tradicionalistas, a elite intelectual, bem como ainda todos os que fazem parte da civilização da oralidade – e que são a maioria do povo cabo-verdiano -, utilizam, no seu dia-a-dia, o Ccv. Tendo constatado tudo isto, o grande escritor brasileiro Jorge Amado declarou em 1986 que em Cabo Verde “a vida decorre em crioulo”.

 

que não deixa de ser significativo é que os próprios políticos, jornalistas e activistas sociais, em “situações limites” onde é urgente que a comunicação passe no próprio momento da elocução e com a carga semântica desejada, por mais literatas ou elitistas que sejam, passam a utilizar o Ccv. Isto acontece, por exemplo, em campanhas eleitorais ou em situações de catástrofe, por ocasião de erupções vulcânicas, ou ainda durante o período de uma determinada epidemia. Muitas vezes ainda, em “spots” televisivos de grande interesse social, económico ou político, o texto aparece na televisão em português, mas a voz-off é ouvida em crioulo.

 

Por tudo isto, a língua de comunicação em Cabo Verde é o Ccv, mas a língua de prestígio é a Lp.

 

Resumindo esta situação, alguém chegou a dizer que em Cabo Verde, a língua que governa é a Lp e a que reina é o Ccv.

 

2.3. - Contradições do foro linguístico

Se o discurso colonial caracterizou o Ccv, primeiro como deturpação do português e como algaraviada sem regras nem gramática e depois como simples dialecto da Lp, no pós-Independência o Ccv, apesar ter ascendido ao estatuto de língua nacional, continua a enfrentar gravíssimos problemas de desenvolvimento.

 

número dos que utilizavam o próprio Ccv para dizer que ele não tinha gramática diminuiu; porém, inventaram-se outros argumentos para atrasar o seu processo evolutivo.

 

Alguns escritores de renome diziam que não precisavam e não precisam do Ccv para escrever os seus livros. O que não deixa de ser curioso é que um ou outro desses mesmos escritores dizia que para a literatura: só o português, mas para falar com a filha: só o crioulo. Outros defensores do português passaram a argumentar que, sendo o Ccv a língua forte, em termos de comunicação informal, o seu desenvolvimento representaria, não um atentado à unidade do Império, como se dizia na época colonial, mas um atentado à língua portuguesa que só uma minoria da população dominava. Ora, se o povo já sabe o crioulo, então é preciso investir no português que ele não sabe ou não domina.

 

Alguns políticos e intelectuais ainda achavam que sendo Cabo Verde um país pobre e em vias de desenvolvimento, não seria o crioulo a ser utilizado quando se deseja pedir milho ou arroz ao estrangeiro. Para eles, seria mais inteligente e mais económico fazer-se o investimento no português que, para além de ser “língua de civilização”, possui a vantagem de dispor de instrumentos pedagógicos como: a escrita estandardizada, a gramática, os manuais, os professores e o suporte literário.

 

Um outro argumento ainda em desabono do Ccv tem sido a questão dialectal. O povoamento das ilhas em épocas diferentes e a situação geográfica (arquipélago de dez ilhas, sendo nove habitadas) , a pouca mobilidade social, particularmente no período colonial, forjaram variedades linguísticas em cada ilha. Se todas as ilhas são apegadas à respectiva expressão local, qual poderá ser a variedade ou a variante a ser implementada como língua do ensino? Para eles, também, a melhor solução seria ainda o português.

 

Um outro argumento contra o desenvolvimento do Ccv dizia que só os que não sabem a língua portuguesa, só os que não conhecem as vantagens sociais, económicas e culturais dessa grande língua de civilização é que propugnam pelo desenvolvimento do Ccv.

 

Finalmente, o argumento que se julga mais “moderno” diz que, se a língua da “globalização” é o inglês, torna-se, então, inútil o investimento no Ccv.

 

Todos estes argumentos desencontrados dão razão aos autores de Éloge de la Créolité (7) quando citando E. GLISSANT escrevem:

 

“Notre Histoire [...] naufragée dans l’Histoire coloniale [...] n’est pas totalement accessible aux historiens. Leur méthodologie ne leur donne accès qu’à la Chronique coloniale. Notre Chronique est dessous les dates, dessous les faits répertoriés: nous sommes Paroles sous l’écriture. Seule la connaissance romanesque, la connaissance littéraire, bref, la connaissance artistique, pourra nous déceler, nous percevoir, nous ramener évanescents aux réanimations de la conscience ... [Seule] la vision intérieure et l’acceptation de notre créolité nous permettrons d’investir ‘ces zones impénétrables du silence où le cri s’est dilué. C’est en cela que la littérature nous restituera à la durée’, à l’espace-temps continu, c’est en cela qu’elle s’émouvra de son passé et qu’elle sera historique”.

 

Diríamos que, para os autores de l’Éloge de la Créolité, a verdadeira história dos crioulos e, portanto, do Ccv também, só pode ser apreendida pelos que têm uma visão cultural, artística e antropológica da humanidade. Do mesmo modo, a sua afirmação só poderá ter lugar mediante esta mesma visão. Isto significa que a afirmação da crioulidade, em grande parte, estará dependente do papel que as letras, a arte a a cultura, em geral, desempenharem nos espaços crioulófonos.

 

2.4. Em Defesa do Ccv

São as próprias contradições do meio sociolinguístico que forneciam e fornecem argumentos aos defensores do Ccv, aos que detêm a visão artística e antropológica da humanidade. Com efeito:

 

•O bilinguismo, em Cabo Verde, está presente apenas numa franja muito reduzida da nossa sociedade – a elite letrada -, e, mesmo neste caso, o seu bilinguismo é sobretudo oral, na medida em que muito poucos letrados escrevem em crioulo; •A vida, em Cabo Verde decorre em crioulo e este está presente em todas as situações informais de comunicação, tanto junto da elite letrada, dos políticos como da grande massa popular; •Nos casos em que a comunicação deve ser eficaz e imediata, como nas campanhas eleitorais, nas ocasiões de catástrofe e em vários “spots” publicitários a mais valia do Ccv é comummente reconhecida; •Em todos os géneros musicais do país, a língua veicular e suporte cultural é sobretudo o Ccv, e isto tanto na morna, na coladeira, no batuque ou no funaná; •Possuindo Cabo Verde uma cultura da oralidade, quase todas as suas tradições culturais estão moldadas no Ccv; •Alguns escritores de nomeada dizem não precisar do crioulo para a literatura, mas confessam não serem capazes de usar o português na família, particularmente no convívio com os filhos, significando isto que no espaço familiar a língua privilegiada para esses mesmos escritores é o Ccv; •A convivência oral entre a Lp e o Ccv, durante vários séculos, nunca conduziu ao desaparecimento de qualquer uma dessas duas línguas. Não se percebe, pois, que a convivência escrita, que representa uma percentagem muito pequena do nosso quotidiano, possa significar uma ameaça para a Lp; •Sendo a crioulidade uma das marcas fundamentais da identidade do nosso povo, não se percebe a marginalização do Ccv no processo de desenvolvimento desse mesmo povo.

 

É convencidos do valor patrimonial tanto da Lp como do Ccv que muitas vozes se levantaram em defesa de ambas as línguas, particularmente do Ccv que tem sido objecto de desprezo e de marginalização. Assim, vários patriotas têm defendido a causa do crioulo umas vezes de forma polémica; frequentemente com trabalhos de cunho literário ou musical; algumas vezes com seminários, colóquios, estudos ou reflexões; outras vezes com experiência piloto de ensino.

 

A conclusão que se pode tirar é que tanto a Lp como sobretudo o Ccv têm direito de cidadania em Cabo Verde. Impõe-se, portanto, uma política linguística, antes de complementaridade do que de exclusão.

 

É dos contornos dessa política de valorização das duas línguas que mais abaixo trataremos.

 

- Perspectivas para a construção de um verdadeiro bilinguismo

Pela importância do crioulo, como suporte identitário e instrumento insubstituível para a integração no todo nacional; pela importância do português como suporte de uma parte da visão do mundo que temos e como instrumento eficaz quer para o diálogo inter-cultural, quer para a integração de Cabo Verde na comunidade internacional, a situação linguística que melhor servirá ao país será aquela onde o bilinguismo é um dado real e não uma simples miragem. Por isso, a política linguística, sem descurar o ensino de línguas importantes para o concerto das nações, como é o caso do inglês e do francês, deve apostar seriamente na transformação do português, que já é língua oficial, em língua veicular e na transformação progressiva do crioulo em língua co-oficial. Estas duas transformações devem constituir os dois objectivos fundamentais da política linguística. Não se trata de transformar o português em língua materna nem do crioulo em língua internacional. Se isto, porventura, um dia acontecer, Cabo Verde só teria a ganhar. Por enquanto, o que se pretende é fazer com que o português seja aprendido com rigor, por todas as crianças na idade escolar e por todos os estudantes durante a fase académica. O que se pretende é que a sociedade cabo-verdiana, se não na totalidade, pelo menos de uma forma expressiva e representativa possa estar preparada para codificar e descodificar a língua portuguesa, nos diversos domínios do seu emprego, nas diversas funções que exerce. Para lá chegarmos, não há outro caminho senão a democratização efectiva da educação e a aposta consequente num ensino de qualidade.

 

Quanto à transformação gradual do crioulo em língua co-oficial, o que se pretende não é simplesmente a adopção de um decreto ou a publicação de uma lei. A co-oficialização do crioulo significa fazer com que ele esteja presente no ensino (como matéria e como instrumento), na administração, nos diplomas legais, nas sessões parlamentares, nas comunicações ao País dos Órgãos de soberania, nos mass-média, na literatura, enfim, em todas as situações formais de comunicação, dentro do País como na diáspora.

 

Os custos tanto do português veicular” como do “crioulo oficial” são avultados. Alguns, talvez mesmo muitos bons cabo-verdianos, preferirão perpetuar a situação actual , isto é deixar o português para a comunicação formal e o crioulo para a comunicação informal. Para estes, Albert Memmi responderia:

 

“se résigner à écrire dans une autre langue que celle de la majorité de la nation, c’est perpétuer le fossé entre lui et la rue, entre le menu peuple et les privilégiés de l’argent ou de la culture. Les conséquences n’en sont pas seulement d’ordre moral: la mise à l’écart culturelle de la majorité d’un peuple a, très probablement, des résultats socialement et économiquement néfastes ... (et le dilemme persiste): on choisit une langue européenne pour éviter des dommages immédiats et pour aller vite; mais ce choix entraîne de nouveaux dommages, qui ne peuvent être réparés que par le temps”.

 

Não nos contentemos em, de um lado, evitar pequenos problemas imediatos e, de outro lado e a longo prazo, preparar o fosso da desgraça. A construção do bilinguismo terá os seus custos, mas vale a pena um tal investimento. Vale a pena porque o que está em causa é a nossa dignidade nacional e a nossa integração internacional; vale a pena porque é o próprio desenvolvimento integrado que o reclama, que o exige.

 

Nada de pânico. Não se vai construir o bilinguismo em detrimento de outras exigências fundamentais como o pão, a saúde e a habitação. O bilinguismo é para servir o homem e não vice-versa. Por isso, a sua construção será progressiva e de acordo com as possibilidades do país real que temos. A operação deverá ser realista, progressiva e pragmática.

 

A construção do bilinguismo não pode processar-se no escuro, no caos ou no vazio. Torna-se indispensável a formulação de princípios, a definição da metodologia, a criação de estruturas, a fixação de metas, o estabelecimento das etapas.

 

É sobejamente sabido que o ser, o estar e o devir cabo-verdianos possuem, fundamentalmente, duas gramáticas, dois códigos, dois sistemas linguísticos. Em nome do realismo, mas também da autenticidade, não podemos nem negar, nem subestimar a nossa história, a nossa antropologia diglóticas. Em nome desse mesmo realismo aceitamos, transformamos e valorizamos o mundo que criamos ou que perfilhamos, de acordo com o nosso ritmo, a nossa visão, as nossas possibilidades e potencialidades.

 

Este sentido do real conduz-nos ao desenvolvimento e ao exercício da filosofia pragmática. Esta exige que a nossa acção parta do real, no momento oportuno, com um calendário bem determinado, com a selecção adequada dos “inputs” e garantia antecipada do “output” desejado ou programado.

 

Sendo notório que a antropologia das ilhas fala sobretudo o crioulo e escreve fundamentalmente o português, tudo indica que a busca de complementaridade entre os dois sistemas linguísticos deixa de ser uma conveniência para se transformar numa exigência. Nem substituição, nem sobreposição, nem competição. Apenas complementaridade. Uma complementaridade onde se ouve a voz do transnacional e se sente o pulsar do nacional, num concerto harmonioso, integrador e respeitador.

- Conclusão

Qualquer medida de política linguística tem que estar enquadrada dentro de uma determinada visão. Ora, no dealbar de um novo milénio, a visão que se pretende para o nosso desenvolvimento é a de um Cabo Verde virado para a participação de todos os seus filhos ; um Cabo Verde onde o progresso não é concebido apenas em termos económicos, mas numa perspectiva de qualidade de vida, de justiça, de equidade e de respeito pelos direitos da pessoa humana, sejam eles linguísticos ou cívicos ; um Cabo Verde que reconhece o pluralismo cultural e o aceita como modo de vida normal e como fonte de riqueza, de desenvolvimento e de bem-estar ; um Cabo Verde capaz de produzir ciência e técnica tanto em crioulo como em português ; um Cabo Verde onde haja um contexto favorável ao desenvolvimento integrado, à preservação da identidade, ao exercício da cidadania e ao diálogo intercultural. Toda esta visão deve ter como pano de fundo o bilinguismo crioulo-português, mas sem exclusividade, já que hoje o inglês e o francês , quer se queira ou não, são instrumentos importantes para o concerto das nações. A aposta de Cabo Verde deve ser no crioulo como língua nacional e co-oficial, no português como língua co-ficial e veicular, no inglês e francês como línguas internacionais, para as relações interculturais, a nível planetário.

 

Se o discurso colonial prejudicou o Ccv para que a Lp saísse engrandecido, hoje o discurso do humanismo e da arte libertadora exige que cada coisa seja colocada no devido lugar para que o exercício da cidadania seja uma vivência e não uma miragem. E porque hoje é moda falar-se da globalização ; e porque em Cabo Verde a globalização na sua acepção intrínseca não é possível sem o devido enquadramento da nossa língua materna, terminaremos concordando com Derrick de Kerckhove quando afirma (8):

 

“Quanto mais noção temos da globalidade, mais ficamos conscientes das identidades locais, e mais as protegemos : é esse o paradoxo da aldeia global. O hiperlocal é complemento inevitável do hiperglobal”.

 

Notas:

Manuel VEIGA, Le créole du Cap-Vert : étude grammaticale descriptive et contrastive, thèse de doctorat du 3ème cycle, Université d’Aix-en-Provence, octobre 1998, pp. 7-26.

António CARREIRA, O crioulo de Cabo Verde – surto e expansão, Gráfica EUROPAM, Lisboa, 1982, pp. 62-63.

Charles FERGUSON, Diglossia, Word, 1959, vol. 15, pp. 325-340.

António CARREIRA, Notícia Corográfica e Chronológica do Bispado de Cabo Verde, ICL, Lisboa, 1985, p.27.

Manuel FERREIRA, A Aventura Crioula, 2ª Edição, Plátano Editora, Lisboa, 1973, pp. 127-133.

Idem 2, Ibidem, pp. 62-63

J. Bernabé, P. Chamoiseau, R.Confiant, Éloge de la Créolité, Galimard, Paris, 1993, pp. 36-38.

Derrick de Kerckhove, A Pele da Cultura, Relógio d’Água, Lisboa, 1997, p.243. Título original: The Skin of Culture.

Lisboa, Abril de 1999

 


 

Odju d’agu, de Manuel Veiga

Uma das caracterizações deste romance é feita pelo poeta e ensaísta José Luís Hopffer Almada quando afirma (1):

 

“[...] Manuel Veiga publica na segunda metade dos anos 80, Odju d’Agu, o primeiro romance em língua cabo-verdiana. Romance de iniciação aos meandros da nossa língua no que ela contém de riqueza metafórica e analógica, consubstanciada em ditos, provérbios, adivinhas, reelaboração de estórias, crenças e costumes tradicionais. Odju d’Agu é, à semelhança do moderno romance africano, uma feliz recriação da oralidade, e da espiritualidade a ela subjacente, pelas técnicas do romance moderno.

[...] No que respeita ao seu conteúdo, Odju d’Agu é assim a história da viagem iniciática das personagens [...] pelo mundo das suas origens enquanto país, e enquanto país africano. [...] o romance Odju d’Agu constitui assim como que uma reformulação de todos os pressupostos estético-ideológicos da claridosidade, pela sua negação, por um lado, particularmente do lusotropicalismo, e pela sua complementação, por outro lado, pela inserção de toda a problemática social do morgadio, do racismo, da africanidade, de uma certa negritude crioula e de toda a idiossincrasia santiaguense na saga literária caboverdiana. E é neste aspecto, a par do facto de ter sido integralmente escrito em Crioulo, que reside a inquestionável importância de Odju d’Agu. Não é pois descabida a aserção do professor Gerald Moser, segundo a qual Odju d’Agu é comparável, em certos aspectos, a Piligrim’s Progress ou a Roots”.

 

Vejamos um extracto do livro - na versão do ALUPEC, alfabeto unificado, recentemente aprovado, a título experimental -, que tipifica e encerra a obra, através das palavras do narrador principal, o já velho “kontador di stória”, Palu di Djódja (um autêntico griot africano), que, dirigindo-se ao público jovem que o escutava, como que numa passagem de testemunho, disse (2):

 

“Es stória ki nhos obi é sima un livru ki N skrebe y ki N dexa pa nhos lé. Ku txeu pasaji, na poku létra, el é un padás di nha povu y di mi própi, midjór óbra ki N skrebe y ki, nin pa mi, ka da pa persebe mutu dretu. Azagua riba di azagua, noti riba-l noti, N ba ta skrebe ku létra di sangi y ku pónta di nha kurason txeu stória di nha vida y di nha povu.Na mê di gritus di mudjeris prenha, di kriansas bandofadu y di soldadus maltratadu, nha kurason fridu ba ta pinga, góta pa góta, es bokadu di stória ki, na sinku azagua, sén bês kontadu, forma, finalmenti, un sinfonia dizafinadu, pamodi rítimu bira diferenti, instrumentu muda di kórda, létra perde sentidu. Y, sô ku konta otu kusa y na otu konpasu, éra ramedi. Mas, mi nha pérna dja bira fraku, nha vós dja bira roku y, alendumás, nha sol dja sa ta ba ta kanba”.

 

Notas:

Ver “A Ficção Cabo-verdiana pós-Independência”, in Cabo Verde – Insularidade e Literatura, Khartala, Paris, 1998, pp. 180-181.

Ver Odju d’Agu, ICL, Praia, 1987.

 

UMA LEITURA DE DIÁRIO DAS ILHAS DE MANUEL VEIGA

Eutrópio Lima da Cruz

 

INTRODUÇÃO

Nas condições ainda precárias e difíceis em que se desenvolve em Cabo Verde a actividade editorial, cada obra dada à estampa e colocada à disposição do cidadão, tem ipso facto relevância acrescida e adquire uma grande densidade na correlação de cada linha com os investimentos e custos comportados. Todavia, a alegria que daí resulta é suficiente e até generosamente compensadora, evocando a parábola bíblica na boca de Jesus Cristo, segundo a qual a mulher carrega grande ansiedade e submete-se às dores do parto. Mas de seguida e dir-se-ia de imediato, acaba ela por esquecer todo o mal por que passou, pontificando nela e na envolvência a alegria de uma nova criatura trazida ao mundo, com consciência de se tratar do cumprimento de uma missão.

 

Ora, salvos os planos da comparação e mutatis mutandis, estou querendo visualizar - e convidaria esta ilustre plateia a fazê-lo comigo - a felicidade do Manuel Veiga por esta sua 5a obra dada à estampa. O escritor é aquele que escreve, passe o pleonasmo. Escreve e tira da gaveta, publicando e disponibilizando para os outros o seu engenho e arte. A actividade exponentiza-se quando ele traz agregada a consciência da missão. Missão de serviço, ligando a consciência em paralelo com tantos artistas que assim procederam nos mais variados domínios de criatividade e expressão, apetecendo-me evocar por exemplo o genial Beethoven para quem a colocação de cada semifusa numa partitura adquiria tal significado nos fins do século XVIII e início do séc. XIX, em certa contraposição com escassos períodos antecedentes em que a produção artística consistia e quase que se resumia a uma espécie de arte pro arte, arte pela arte. Essa consciência é tão veementemente apreendida e vivida por outros génios que se seguiram quase contemporaneamente àquele vulto, reconhecendo-se na obra dele, tão veemente, dizia, que Richard Wagner por exemplo não se contém e rasga a hipérbole de que Deus criou o mundo para que Beethoven compusesse a 9a Sinfonia, a tal da Fraternidade Universal.

 

Couberam-me a honra e o prazer, por amável convite do Autor, de proceder à apresentação pública do DIÁRIO DAS ILHAS, de Manuel Veiga, convite a que acedi imediatamente primeiro porque se me tornava impossível declinar Manuel Veiga, segundo por ter tido a instantânea percepção de que também sou viajante na nau de todos os tempos, com obrigação por conseguinte de algo fazer, na modéstia do possível, para o sucesso da viagem. Por isto, vamos de imediato ao que interessa, aqui e agora.

 

DIÁRIO DAS ILHAS - “ Antes de mais, entremos na Nau para a viagem a que o poeta nos convida ou melhor, nos apresenta: ...” . Assim com estas palavras acabadas de citar, começa o Autor no 1o dia ao estabelecer os umbrais, o pórtico de entrada para o desenrolar de uma viagem que vai durar séculos, uma viagem de séculos, tecida por um único ideário global, o ideário da nossa história com a força da sua lembrança.

 

Já na 2a linha da obra, o Autor faz saber que vamos entrar na Nau e viajar a convite do poeta que assim se exprime, em excertos citados:

 

“ Era antigamente/ a primeira nau de escravos/ no rumo do Arquipélago/ rápida    navegando/ sob o impulso dos alísios...” .

 

A viagem vai-se desenrolar por um período simbólico de 50 dias, a cada dia correspondendo um diário de bordo, um relato. O relator é o Jorge, assim familiar e coloquialmente tratado, o poeta Jorge Barbosa, cuja entrada em cena equivale ao eclipse do Autor-introdutor, ainda que por vezes se possa ser tentado a reencontrá-los um sobreposto ao outro.

 

Desculpar-me-ão e compreenderão que, antes de tecer qualquer outros comentários, situe o fio condutor do trabalho de Manuel Veiga, o que apenas ser-me-á possível fazer se respigar esse fio condutor e a sua ossatura, com recurso ao próprio Autor. Ou mais propriamente, ao relator, o poeta.

 

“ Cabo Verde começou com uma nau [diz ele], não uma nau qualquer” . Era uma nau negreira, de escravos, mas também de capitães-mores. Uma nau sem identidade porque a sua história estava ainda no início, nos pórticos de entrada, já que Cabo Verde ainda não era, estava para ser. Essa nau inicia uma viagem que nós agora voltamos a fazer porém retrospectivamente, uma vez que se trata de uma viagem que já é história. “ Era antigamente...” .

 

A nau dirige-se ao Arquipélago. Navega rapidamente, tem pressa, vai investida de uma missão. E “ nessa hora então/ nessa hora inicial começou a cumprir-se/ este destino ainda de todos nós” . Interessava era a chegada, frisa o Autor. A chegada era condição preliminar para que tivesse tido razão de ser e sentido o viajar “ sob o impulso dos alísios” ou seja, viajar movido pela “ vã glória de mandar” , como diria Camões ou ainda para implantar a Fé e o Império, como diz ainda o mesmo poeta. Esses desígnios encontram-se visualmente estampados e materializam-se na própria modelação e compleição física da nau com - e cita-se - “ algo de grandeza nos mastros altos/ com vergas em cruzes” . Mais, Jorge Barbosa retrata poeticamente a nau como “ insubmersível/ e inquebrável/ a nau sustinha no balanço / o peso dos tufões e das ondas” , ela que vinha de velas enfunadas ao sopro salgado das brisas, velas essas que mantinham o contorno do peito dos pombos, na expressão sempre do poeta. Estes constituem apenas alguns excertos do poema Relato da Nau, onde Jorge Barbosa, em cada palavra, em cada verso e numa alegoria, encadeia a história de sofrimento mas também de resistência. O poema é mais extenso e contundente, quando refere terríveis tempestades experimentadas pela nau e que provocam baixas no carregamento escravo de que ela é portadora. Todavia, ela não soçobra. Antes, é reparada para novas viagens. Assim como também os escravos não morrem todos, restando vivos ainda em número suficiente para testemunhar a sua própria história e prosseguir a saga a que foram votados, saga essa que apontava para um horizonte e um amanhã de liberdade e dignidade. Aliás, tornam-se constantes na obra duas coisas: primeiro, cada situação crítica contracena com o seu reverso cujas notas mais salientes são constituídas exactamente pelas repercussões, da liberdade e da dignidade; segundo, é mais do que um artifício literário que o relato de cada dia da viagem no processo histórico desse destino ainda de todos nós, faça a deixa para o dia seguinte. Essa deixa repete-se à guisa de um refrão no último parágrafo de 49 dos 50 dias relatados em diários, incutindo esperança.

 

A trama encontra-se ainda apenas no início, dando já todavia o relato do 1o dia de viagem, notícia dos elementos que vão ser constantes, isto é: a escravatura, a arrogância e a petulância, a Fé e o Império pela Cruz e pela Espada, o sofrimento e a resistência, a emergência de nova realidade social, cultural e política a coroar a luta de séculos.

 

Estes arquétipos são todos reconhecíveis a olho nu no Relato da Nau, poema fundamental para que se entre no âmago da viagem e dos relatos de bordo diários que a viagem inspirou.

 

Os elementos opressores deste processo são violentamente escalpelizados num circuito anímico em que o poeta-relator e o relator que por vezes se lhe sobrepõe e dá notícias da sua actividade, fazem ambos efectivamente massa e corpo com o périplo, anunciando-se como vozes conscientes da caminhada. É que tais elementos implicaram sobremaneira, interferências e desvirtuamentos, muito difíceis de remediar, sanar e ultrapassar, com destinos de criaturas humanas de Kukuli, heterónimo de África, mais do que simpático, constituindo uma forma plástica de exprimir a necessidade ínsita de originalidade, autonomia e referenciação.

 

discurso prossegue com a viagem da nau peregrina. O diário de bordo engorda com novos factos e novas referências que vão urdindo a trama onde, num rasteio em diagonal, podemos identificar pontos e teses de convergência, dos quais se isolam alguns, enunciando-se ainda que em tópicos, quais sejam:

 

•a entrada do escriba Jorge Barbosa no arsenal arquivístico e secular da nossa história, arrumando códice após códice, não obstante a perda de alguns elementos mas restando ainda o suficiente para os seus intentos e propósitos. Os versos constituíram o trabalho do 1o dia do diário de bordo da nau, prosseguindo em prosa o seu diário por assunção cultural, de direito próprio, com consciência de missão explicitamente confessa, tudo isto contrastando com o desempenho forasteiro dos que “ descobrem” as ilhas que ele passa a tratar como baías; •o escriba-vate contempla o mar e saca dele vivências múltiplas e multifacetadas, entre as quais a partida das naus, da primeira e de outras que se seguiram, para o negro Continente, o Kukuli, estabelecendo-se o Norte e o Sul da nossa história, servindo as baías de placa giratória na encruzilhada do Atlântico; •o encontro do Jorge Barbosa com Nho Nacho, o Ali-Ben-Ténpu, ambos passando em revista teses fundamentais da vida das ilhas, das baías, conquanto que nem sempre coincidindo no enfoque das problemáticas e nas saídas preconizadas para a solução das mesmas; •o florescimento económico da Ribeira, à custa da destruição da base social e cultural de Kukuli, cuja mesologia simbolizada no portentoso baobá, viu-se ameaçada mas nem por isso soçobrando. Outra mesologia nasceria, a que Jorge Barbosa chamaria “ conflito numa alma só/ de duas almas contrárias/ buscando-se, amalgamando-se/ numa secular fusão” entre “ o clima tropical e o espelho de Portugal” .

 

Esta consciência aflorada em Jorge Barbosa constitui fonte de angústia. A tal ponto que as palavras lhe movem greve e o canal da expressão se bloqueia. Mas apenas momentaneamente. Após longa noite, vai amanhecer, algo vai aqui operar-se onde antes Jorge Barbosa, o relator do diário de bordo, assistira atónito à estrondosa explosão vulcânica num cataclismo díspar, o Big-Bang cabo-verdiano que dera à luz, de uma só vez, a dez encantadoras mocinhas, as baías.

 

Nesse périplo e nos registos, emerge que o escriba-vate decide cantar. E sobretudo amar nossa nudez, a dos montes, o nosso “ environnement” , “ nos contorcionismos extáticos de séculos” . Aceita o realismo umas vezes com amor, outras vezes com dor mas jamais com ódio;

 

•o escriba-vate assiste à organização da jurisdição temporal das baías e da responsabilidade espiritual das mesmas, no desempenho compaginado da Cruz e da Espada; •a primeira viagem a Kukuli, primeiro elo de uma cadeia trágica, a escravatura; a chegada insucedida ao porto que o Autor chama “ da Desgraça” com ancoragem de estranha nau em noite aziaga e por isso portadora de insónias; o desembarque no porto chamado “ dos Caçadores” e a primeira caçada de negros, em cumprimento de um plano hediondo. É uma sexta-feira, dia de semana que se torna aziago. Numa sexta-feira, a da Paixão, a nau alcança Kukuli; numa sexta-feira, a nau regressa à Ribeira com a missão cumprida. Dali para frente nem Kukuli nem a Ribeira seriam como dantes. É a Hora Zero. Se o poeta se deprime e as palavras lhe movem greve, ele acha consolo no Afro Pedro Cardoso, com a sua “ Ode à África” ; •há frustrações e interrogações nos kukulenses trazidos como mercadorias e escambo e parece que os espíritos dos antepassados e a resistência do baobá terão soçobrado. Confronto vai dar lugar a reencontro; no chão da Ribeira vai nascer algo de diferente, árvore enraizada “ no chão arsinário dessas baías centenárias...” ; •os kukulenses têm como única liberdade o sonho que tempo vai urdindo. Acusando o toque do desenraizamento, uma tragédia na verdadeira e plena acepção do termo, não se sentem todavia totalmente estranhos na Ribeira, têm alguma condição para lutar e criar aquilo que o autor chama “ uma nova mesologia” ; •a luta vai ser renhida, entre um Norte, impulsionador dos alísios da dominação e da força da ambição, e um Sul vencido mas não convencido porque escudado na razão e na Moral da Tradição; •a proveta do tempo trabalha incessantemente e o caldeamento laboratorial da Ribeira se transforma numa marcha cada vez mais irreversível; •assiste-se, após a Hora Zero, ao nascimento de um outro mundo onde o cadinho do tempo vai reelaborando nova filosofia, novos sistemas, códigos, símbolos, universos de valores, interpretação do real, codificação e descodificação de mensagens, etc. O futuro vai ser um parto difícil mas real, de uma mãe negra e de um pai branco, na expressão do escriba-relator do diário de bordo; •há uma intercomunicação nascente onde o branco se obriga à humilhação de ter de se aproximar do universo semiológico do negro. Começa o Pidgin, limitado mas com gérmens para com o tempo ganhar estatuto, crioulizar-se e desenvolver-se; •pela ladinização vem a miscigenação religiosa e a afirmação dos aqui chamados “ Caminhos da Transcendência” , com também nova mesologia religiosa; •o desmoronamento precoce do efémero fausto da Ribeira; •o baobá, confrontado com a seiva do pinheiro, transforma-se numa nova planta resistente e sábia, o tamarindeiro; •o contágio da nova realidade ultrapassa a Ribeira, espalha-se pelas ribeiras desta ilha de Santiago - a Baía do Milho - e alastra-se a todas as outras nove baías, sujeitos do fenómeno em comparticipação, baías “ com mastros e velas, com têmperas do tamarindeiro e das lavas do vulcão” ; •marinheiros do Norte e lavradores do Sul, água salgada e terra vermelha, eis a nova convivência ecológica onde a miscigenação sanguínea comporta também a interpenetração cultural. Há uma nova “ arquitectura da comunicação” no dizer do Autor, onde a hierarquização dos elementos não significa a subalternização das partes mas antes destaca o engenho, o labor e a arte da parte politicamente deprimida, de cujo lado está a razão; •corporiza-se a morfologia do ritmo e a sintaxe do som, com expressão máxima na língua; •o ordenamento jurídico nos sistemas de administração da Justiça e o papel do pelourinho, eis demais elementos; •emerge aquilo a que o Autor chama “ civilização baiana” , entenda-se cabo-verdiana, uma nova história igual a si própria; •o tamarindeiro galga, infesta cutelos, achadas e ribeiras da Baía; os baianos edificam o seu próprio eco-sistema; é a nova largada; •mas os alísios não se conformam nem desistem, antes recrudescem com hegemonia, etnocentrismo e assimilacionismo, sobretudo depois que os grandes deste mundo ratearam entre si Kukuli pela Conferência de Berlim; •entra em cena a arma da consciência, com o aparecimento no palco de um novo sujeito, Abel, o Libertador, leia-se, Amílcar Cabral, cuja missão consistiu na organização do seu povo “ para mondar as ervas daninhas” , no dizer do vate e fazer medrar nova mesologia. Para tanto, com outros colegas de luta, cria o seu MPC-DB, o Movimento para a Conquista da Dignidade Baiana. A travessia do deserto da luta vai transformar-se no toque liberto do clarim em manhã triunfante. A alusão é por demais evidente ao PAIGC e à gesta da Independência Nacional; •entra em cena o Ali-Ben-Ténpu com o signo da oralidade e faz concorrência ao relato escrito, trabalho até aqui realizado pelo nosso escriba; Jorge Barbosa passa a palavra a Nho Nacho, carisma e sabedoria popular, forte na vertente previsão do futuro que é uma das facetas da capacidade profética; •os deuses da Acrópole ou seja a potência colonial valem-se de todos recursos e expedientes inclusivamente da PSA - Polícia de Segurança Alísia - para tolher o processo baiano. Mas debalde, porquanto a força da razão estava do nosso lado; •a morte de Abel, assassinado, premissa de aceleração do processo libertador; •a festa dos cravos pelo 25 de Abril de 1974; •o nascimento da menina Julinha, a Independência Nacional; é a chuva de Julho para a esperança de colheita em Outubro, diz o Autor. O ovo resulta da histórica fecundação tendo como óvulo a Bandeira da Liberdade e como espermatozóide o Hino da Dignidade; •um dia Ali-Ben-Ténpu continuará contando a saga destas ilhas; •por fim Manuel Veiga despe as próprias máscaras ele que habilmente navegara endossando as máscaras poéticas de Jorge Barbosa numa aliciante viagem a bordo de uma nau chamada “ Cabo Verde” , com um diário de bordo escrito em 50 capítulos. E a chave de qualquer enigma se patenteia, sendo o próprio Manuel Veiga a fornecer-nos a decifração:

 

- Palu di Djódja do romance Odju d’Agu, mergulha nas raízes   da sua sócio-cultura e fá-lo na língua cabo-verdiana;

 

- Jorge Barbosa do Relato da Nau escreve o seu Diário das    Ilhas em português. Por isso é que se falou na sobreposição dos    actores;

 

- finalmente o Ali-Ben-ténpu, cuja pronúncia ainda por escrever    se encontra, porque mergulhado no futuro ainda em gestação,    dará conta dos últimos desafios da saga onde a diglossia não    deverá ser entendida como sinónimo de bilinguismo.

 

Remata Manuel Veiga, trata-se de três narrações, sendo diferentes na forma. A primeira, obviamente um romance, o primeiro por sinal na língua cabo-verdiana, o Odju d’Agu; a segunda narração, em forma romanesca, resultando no Diário das Ilhas; a terceira narração no domínio do porvir.

 

A esta altura da viagem, minhas senhoras e meus senhores, peço imensas desculpas e compreensão por ter de alguma forma dado a palavra mais ao Autor do que a mim mesmo como apresentador e avançado o trabalho que pertenceria a cada um dos presentes e a quanto mais vão ler o Diário das Ilhas. Compreendam-me, porquanto eu próprio tive a necessidade de ler em voz alta ainda que apenas os enunciados e tópicos, primeiro para me aperceber de que de facto estive sonhando mas efectivamente viajando na nau do tempo, a nossa nau, portanto muito para além do mero ónus onírico-fingidor do poeta; segundo, experimentei também a necessidade de interiorizar que, lendo o ïDiário das Ilhasï, talqualmente lendo Jorge Barbosa, encontrava-me lendo a mim próprio no meu próprio signo. E isto em virtude dda caboverdianidade que as obras se impregnam.

 

Imploro por conseguinte a vossa benevolência para uma ou outra consideração em torno do trabalho ora dado à estampa, sobre aspectos estético-formais e alguns outros.

 

Antes de mais, no que concerne ao género literário. Estamos inquestionavelmente no domínio da ficção. Todavia, cautela. Não se trata de uma ficção pura e simples mas antes, de uma reelaboração ficcional - permitam-me a expressão assente num realismo histórico. Manuel Veiga não é historiador nem se vislumbra na obra essa intenção específica e disciplinar. Ele é antes um escritor, um plumitivo que no caso vertente, consegue o hibridismo feliz entre história e ficção. Esta, a ficção, assume-se nas asas da sua liberdade e provoca ousadas laborações e projecções. A liberdade do manuseio do género literário está patente como um requisito elementar, um dado adquirido e uma constante. Mas a matriz contenutística do Diário das Ilhas, por sua vez, não constituindo história pura, não deixa todavia de ser histórica. Faz antes incursões com amplo recurso, amplo e magistral recurso ao arsenal da história das baías, leia-se, das ilhas.

 

Não será da minha responsabilidade e lavra a catalogação desta obra romanesca como sendo um romance histórico, ela cuja pedalada, cujo fôlego, cuja amplitude ultrapassa há muito e de longe o mero conto. Como catalogar então, e em que faixa, o Diário das Ilhas? Esta tarefa não nos ocupa aqui e agora em linearidade crítica, pelo que endossamo-la a quantos irão retratar-se na obra bem como a quantos dela venham a ocupar-se, isso sim, com a especificidade do crivo técnico-literário. Interessa-nos tão somente reter que a liberdade do procedimento faz de Manuel Veiga um explorador literário da existência das ilhas, da nossa existência. E um explorador com arte e mestria. Essa exploração literária é bem hábil na tecitura da trama e dos ligames históricos com os rumos, parcelas e Continentes em que a nossa experiência se deu e se afirmou, continuando o processo em aberto. A prosa é extremamente embebida de poesia, como quem se encontra consciente de estar manejando o paradoxo de um sonho real, se é que se pudesse alguma vez adoptar esta categoria, este figurino.

 

A via adoptada, inquestionavelmente legítima porque tão livre quanto o sonho mormente o sonho que venceu pela liberdade, tal via faz de Manuel Veiga um titular e um credor do direito de ser compreendido. É que, di-lo Milan KUNDERA citado pelo próprio Manuel Veiga, “ o romance é um espaço imaginário onde ninguém é possuidor da verdade e onde cada um tem o direito de ser compreendido” . Continua KUNDERA, “ o romancista não é nem um historiador nem um profeta : é um explorador de existência” E esta é por sua vez “ o campo das possibilidades humanas” .

 

Manuel Veiga é um artista explorador destes meandros. E a questão agudiza-se quando faz como recurso consciente, intencionado, finalizado e perfeitamente compaginado com tendências literárias universalmente consagradas. O próprio cita David Mourão FERREIRA quando este diz que, cita-se, “ ...Assistimos [hoje] à afirmação sem precedentes, de uma ficção que à História recorre - tanto à História recente quanto à História remota - para sobre ela triunfar, e até para modificar ou inflectir, por obra e graça do poder transfigurador do verbo” (fim de citação). His positis, Manuel Veiga está mais que justificado. Mais, ele nem sequer carecia de se justificar. Para que justificar o uso da liberdade? Resta que ele tenha que ser simplesmente compreendido. E se fizermos transposição do raciocínio para aquilo que se tem passado, se passa e vai continuar certamente a passar-se com a 7a arte? Nesta correnteza de pensamento e de entendimento é que encaixaremos as longas metragens fílmicas, citem-se BEN-HUR e quejandos sucessos, de inspiração histórica ou bíblica. Mas não nos aborreçamos, continuando ainda esta toada de justificações. Mais uma vez, faremos recurso ao próprio Manuel Veiga ao citar autores como J.BERNABÉ. P.CHAMOISEAU, R. CONFIANT, como que ainda a justificar o casamento entre História e Ficção pelo poder transfigurador - e já agora, também triunfador - do verbo. Vem aí a citação: “ Notre Histoire ... est naufragée dans l’Histoire coloniale... [elle] n’est pas totalement accessible aux historiens. Leur méthodologie ne leur donne accès qu’à la Chronique coloniale. Notre Chronique est dessous les dates, dessous les faits répertoriés: nous sommes Paroles sous l’écriture” . Eis portanto a chave para a problemática crítica que possa levantar-se sobre a liberdade literária processual em referência. Mais ainda, continuam os Autores, “ Seule la connaissance poétique, la connaissance romanesque, la connaissance littéraire, bref la connaissance artistique, pourra nous déceler, nous percevoir, nous ramener évanescents aux réanimations de la conscience ...” (fim de citação). Eis outra chave para o entendimento do âmago da questão crítica;

 

com este pano de fundo, com a actividade literária e o seu poder transformador do verbo a tornar exponencial a História, a nossa História, não deixamos de ficar estarrecidos com a compreensão que o Autor revela das coisas. Ponhamos de lado por instantes o poder transfigurador do verbo e fixemo-nos na compreensão da matriz histórica. Esta revela-se ampla, profunda e colhedora do filão essencial de uma existência, do fio ou dos fios condutores essenciais do processo histórico operado nas baías. Se nos reportamos ao relativamente grande baú da nossa história com António Carreira e quantos mais insignes nos têm dado voz e vez na compreensão de nós mesmos e da nossa COISA, e se por outro lado tecermos nexo com o material que Manuel Veiga manuseia, torna-se perceptível e impressionante como o Autor do Diário das Ilhas, viajando na pátina do tempo, se transforma num colhedor de essências, leia-se, desse filão essencial, perpassa e rastreia a nossa História com ardente e lúcida paixão - passe o paradoxo da contradição num lampejo que varre séculos de dor e de esperança. O rastreio é total e só impressiona que em tão pequeno espaço se diga tanto e tanta essencialidade da nossa existência. Mas retomemos o fio que nos ocupava. Ressalvá-lo-emos bem claro, o Diário das Ilhas não é um manual de história, seu autor e os vates aí consignados não se configuram historiadores. O rastreio faz-se na estação antropo-sócio-cultural. E é então que a História ganha dimensão exponencial para além da mera crónica, se humaniza, se projecta, se transfigura pelo poder do verbo. Para Manuel Veiga, a prioridade da acentuação vai para a estação de rastreio, descodificação e transfiguração. E isto, pelo poder do verbo; os temas essenciais da caboverdianidade, deles enunciámos já alguns ao ensaiarmos a leitura em diagonal pelo enunciado de tópicos. A leitura do Diário das Ilhas induzirá facilmente a esses temas. E o leitor, mesmo imperceptivelmente, vai ter que se deixar arrastar na correnteza da intelecção dos temas. Por outro lado, a intensidade humana com que as coisas jorram em pressão dá bem a entender a ânsia parturiente e a unção pessoal do investimento igualmente pessoal que o Autor aqui faz. Manuel Veiga perdoar-me-á a metáfora da ânsia de parto;

 

igualmente impressionante se torna como Manuel Veiga, na esteira de Jorge Barbosa, manuseia o poder da semiótica e das máscaras. Um fizera-o através da sua poesia musculada de simplicidade e de tanta profundidade com amplo recurso á poesia-simulacro com símbolos, metáforas, alegorias. De tal forma que o diário de bordo do 1o dia da viagem da nau, sem querer, saiu uma poesia, o "Relato da Nau" que dá o mote no Pórtico desta obra. Outro, o Manuel Veiga, inunda-nos com uma prosa poética - existiria ela? - também eivada de recursos imagísticos numa linguagem naturalmente fluente, eivada de tropismos com símbolos, metáforas, alegorias, tudo convergindo numa formidável libertação de energias secularmente acumuladas e sedimentadas. Não parece tratar-se de pura coincidência, mormente quando nos apercebemos do que significa para Manuel Veiga aquele nosso vate-relator dos diários de bordo, Jorge Barbosa, figura que ao longo da obra, dissemo-lo já, sobrepõe-se com o próprio relator que dele fala, isto é Manuel Veiga. Não será que devamos ler nesta libertação de energias o próprio génio baiano, apesar de momentaneamente parecerem periclitar de hipnotizados tanto o seu carácter como a sua têmpera, normalmente bem capazes de se indignarem?

 

Outra nota digna de registo ainda que sumária é a condição de Manuel Veiga como linguista, que não será sem consequências no acto como ele alcandora o surgimento e o desenvolvimento da língua cabo-verdiana como um dos maiores e mais expressivos indicadores do nosso processo afirmativo de janelas sempre abertas

 

Muito pouco mais acrescentaríamos a quanto já dissemos sobre a consciência de si que o Autor tem como um servidor que se coloca à disposição e cumpre com a sua arte uma notável função social. Essa consciência revela-se já também explícita para o vate dos diários de bordo.

 

As vivências e referências colectivas não beneficiam de arte colectiva na sua elaboração ou reelaboração técnica. O povo escreverá colectivamente a sua epopeia com e como gesta. Mas a elaboração técnica literária colectiva não lhe é apanágio. Ora, o mecanismo funciona de outro jeito e num circuito - diria - inverso, isto é: colectivamente o povo lê, relê, reconhece-se, retrata-se, acha-se identificado ou não com o trabalho sobre produzido. Mas ele próprio não é nem pode ser autor literário colectivo fora das faixas da estrita oralidade. Ele terá sim consciência na apreensão e na aplicação a si mesmo dos fenómenos de laboração técnico-literária por outrem produzidos. Sei dos riscos, calculados, a que não me exponho, sei do escorregadiço que não seria enveredar por esta teoria da questão. Perdoem todavia se estiver desfocado. Feliz pois da Nação que tem tais vozes a se disponibilizarem em serviço e investimento pessoal, para mais, com amor dedicado. Di-lo a dedicatória. O que Veiga interpreta, colhe e interpreta de Jorge Barbosa, aplica-se ao seu povo tanto em sentido literal como típico.

 

Com estes entendimentos, será imperativo que o Diário das Ilhas surta o seu efeito cultural e pedagógico junto do povo das Baías seu destinatário e objecto, seja junto dos nossos infantes, adolescentes, jovens, adultos, círculos académicos, aconchego da cultura em círculo de base familiar, etc., etc. Particularmente nos círculos familiares, entre um e outro episódio de novela, com a permissão desta. Ou então, em momento que se venha a reputar mais propício. Perdoem o aparte. O trabalho de leitura e assimilação facilita-se imensamente pela estruturação do Diário das Ilhas em 50 capítulos curtos, com sugestivos títulos cada um deles, glosando quase sempre o último parágrafo réstias de autoconfiança, esperança e afirmação. E a propósito, não tarde o dia em que sobre o Diário das Ilhas surja, surja não, se faça, também nossa longa metragem, encontrando respaldo em procedimentos internacionalmente consagrados. A nossa argumentística não é tão desaparelhada nem desinteressante como isso. Pois, podem crer, no dia em que isso se decidisse, motu proprio nacional e por assunção ou por interesse estrangeiro com cultura e negócio à mistura, não restam dúvidas de que o guião argumentístico teria já trabalho algo de bastante facilitado.

 

O Diário das Ilhas, Manuel Veiga dedica-o, di-lo expressamente, cita-se, “ ao povo heróico das ilhas que me legou um nome, uma pátria, uma cultura” . O peso específico é grande, de cada um destes legados, aliás constituindo razões suficientes para o doloroso mas reconfortante périplo que não foi a viagem da nossa nau, como podemos depreender dos seus diários de bordo. E não exageraríamos nem atraiçoaríamos os vates se extrapolássemos os enunciados do nome, da pátria e da cultura, deles sacando, inferindo paradigmas e parâmetros comportamentais dinâmicos para a nossa postura no palco da História. Sofrimento, exclusão, escravatura, arranque violento, criminoso e trágico do húmus kukulense, eis algumas dicas do passado, juntamente com o cortejo de outros males que induziram ou trouxeram por arrastamento. Kukuli perdoa. Mas não esquece. Conserva a bordo suficiente capacidade de indignação. A resistência com os gérmens da afirmação em toda a linha acabaram por vencer. Não porém sem deslizes e reparos. As independências nacionais kukulenses e baiana estão aí para o comprovar, não por elas em si próprias mas por usos limitados e algo derrapantes que eventualmente terão proporcionado. Todavia e na sua essência, constituem ciclos, momentos e desafios, gestas inigualáveis e termos de referência para a prossecução das viagens com eventuais correcções de rumo. Hesoooooõoooookkkkjjjkkoooooooooje a ciência da navegação está disponível em todo o lado. Por satélites e demais avanços tecnológicos. Também via Internet, se calhar. Não vá por conseguinte qualquer capitão arrogar-se exclusivisticamente e com timão de ferro a condução da nau, que terá de ser comparticipada nos seus múltiplos envolvimentos. As independências constituem testemunhos de vitória. O nascimento da Julinha a 5 de Julho de 1975 é nosso testemunho e ‘testamento para um dia claro” (perdoe-me o Dr. França o uso deste título de um dos seus poemas, que espero não fazer despropositadamente). Testemunho, testamento e paradigma de um ciclo novo nas vidas. Espero bem que não constitua mero acaso a apresentação pública deste livro paradigmático quando o País se encontra ainda na quadra da celebração do seu vigésimo segundo aniversário como independente. A Julinha vai numa idade interessante em que, nas suas concepções e mundivisões, tudo se espraia aos pés dela, a esperança credita-lhe gérmens de realização e sucesso, percalços varrem-se do seu ideário, do seu imaginário, das suas representações, do seu universo, dos seus tropismos, todos movidos pela força da lembrança como pelo ardor do porvir que ela crê ser certeza. Todavia, as possibilidades de derrapagens e mesmo bem perigosas, não se encontram automaticamente escorraçadas da nau em cuja viagem são colectivas as possibilidades de salvação como de perdição. A nau das baías é pequena mas nela cabem todos os baianos em paz. Não há espaço a bordo para esterilidades, revanchismos, exclusões, perseguições ou descambamentos que valham. O Diário das Ilhas comporta mais esta dimensão, a de um espírito arguto, preventivo e benevolente que vai à frente dos acontecimentos, lançando por isso mesmo sérios avisos à navegação. Tratar-se-á de manifestação do espírito dos antepassados? Diria talvez com Cristo, “ quem pode entender, que entenda”.

 

E Kukuli, que vai ser dele? E no momento seguinte, que é que se vai operar quando Kukuli, os baobá de Kukuli, ainda não deixaram de estremecer nos seus fundamentos, vítimas de novos e novíssimos estilos bem mais subtis, sofisticados e sofistas de cobiça, marginalização internacional e rateio, insanáveis conflitos intestinos, cegos e desvairados apetites de poder ... ... enfim, a espiral de males parece até repetir-se, parece até determinar o afro-pessimismo, o Kukuli-pessimismo. E nós as baías, mais uma vez, que estamos ao lado? Já o processo histórico ditara que Norte e Sul, no dizer do vate, elaborassem com a proveta do tempo um processo próprio no nosso próprio laboratório. Pois bem, a resistência, a inserção, a abertura, vão ter que ser terçadas como armas e bagagens da nossa nau em marcha. Como nos tempos idos e ao longo do processo, só a resistência, a alta frequência da consciência de si, a auto-estima aberta, o estear-se em valores endógenos e sedimentados, só isso poderá fazer só isso poderá fazer também das baías um espaço próprio, um nome, uma nação, uma cultura, uma pátria, tudo isto com estatura e desenvoltura próprias, por isso mesmo um interlocutor respeitável e efectivamente respeitado. Eis algumas dicas extrapoláveis do relato dos diários de bordo, dicas essas prontas a consumir, porquanto ameaças de negação e fagocitação ainda impendem sobre os processos que prosseguem e se acham em aberto. Os antídotos constituem por conseguinte elementos indispensáveis, devendo como tais ser apreendidos para prevenir e sanar eventuais pessimismos e derrapagens ou marginalizações. Elementos de valor para os nossos dias actuais e para os próximos, cujos contornos se delineiam, ainda que por vezes esbatidamente. Permanece intacto o convite para se entrar na nau para a viagem que prossegue. Importa que a bordo ninguém seja mercadoria prescindível. Antes, que todos sejam sujeitos históricos pelo menos no sentido de activos, imprescindível cada um, na saga em marcha. Particularmente a Juventude islenha, terá de fazer como o Jorge Barbosa do Relato da Nau, escrevendo o seu diário de bordo, enraizada no húmus cultural das baías e projectada para confins sem limites. A reescritura dos afãs constitui desafio descomunal. Como descomunal será a recompensa pela libertação do nosso processo histórico, social e cultural. O nascimento da Julinha constitui apenas uma etapa no ciclo das possibilidades. Mas, etapa necessária e imprescindível para que nos momentos seguintes se pudesse pensar e agir em função de novas contextualizações.

 

Finalmente, o escritor sabe-se e confessa-se envolvido num ciclo em três etapas da historiografia cabo-verdiana potenciada pela arte literária. Ou seja, ele próprio armadilha-se numa única história com três histórias. Na primeira, Palu di Djódja protagoniza-se dando um mergulho bem fundo nas raízes do tempo sócio-cultural. Esse mergulho corporiza-se no romance Odju d’Agu, em língua cabo-verdiana. É o Prólogo. Na segunda, Jorge Barbosa é o vate com o Diário das Ilhas em português, que ora nos ocupa. É o Logos. Na terceira história, a oratura do Ali-Ben-Ténpu, leia-se Nho Nacho, recebe o testemunho tanto de Palu di Djódja como de Jorge Barbosa sem que a diglossia se confunda com o bilinguismo. Esta terceira está por vir, como Epílogo. Três narrações, como no-lo-diz o próprio Manuel Veiga, que diferentes na forma, são complementares no sentido. Com efeito, todas elas fazem parte da saga baiana. Completam-se tanto nas letras da poesia escrita pelo vate do Diário das Ilhas como nas palavras da oratura pronunciadas por Palu di Djódja e por Nho Nacho. Personagens como Pedrinho, Mamadu e Regina do Odju d’Agu reencarnam-se em Abel o Libertador e Julinha, isto é, em Amílcar Cabral e na Independência Nacional.

 

romance Odju d’Agu, Prólogo: só compreendido mais tarde. O Diário das Ilhas, Logos: compreendido logo, será talvez estimado por uns e quiçá odiado por outros. E a parte do ali-Ben-Ténpu, Epílogo, ainda por escrever? Que dizer dela? Nada a dizer a respeito, porquanto ainda se encontra nas malhas do futuro, logo, da possibilidade, da viagem que prossegue.

 

A voz do ali-Ben-Ténpu terá de completar o Diário das Ilhas com a terceira parte a partir de 5 de Julho de 1975, de 19 de Fevereiro de 1990, de 13 de Janeiro de 1991 e de outros ciclos que forem dados a viver às ilhas baianas. A viagem continua sob o signo das estrelas.

 

Prólogo, Logos. Falta o Epílogo. Tenha, pois Manuel Veiga vida, saúde e predisposição para elaborar o Epílogo e assim completar as premonições da sua TRILOGIA.

 

 

Insularidade fecunda

Manuel Veiga

 

Arquitectactada no tempo e no espaço das nossas ilhas atlânticas - que o poeta chamou “a pátria do meio do mar” -, a crioulidade de que hoje nos orgulhamos é produto e é também projecto de uma insularidade que acabou sendo fecunda.

 

Com efeito, de um certo caos inicial emergiu e emerge um logos social; de um determinado vazio cultural se processou uma ordem antropológica, cada vez mais rica e polifacética; das cinzas do anseio afogado e da angústia que tortura nasceu e nasce a esperança libertadora; do estatuto de dominado o nosso povo passou a ser senhor do seu próprio destino.

 

Nesse longo caminhar da nossa história tivemos por companheira inseparável uma insularidade madrasta que, forçada pelas circunstâncias, acabaria por compreender e aceitar o papel de uma mãe, exigente embora, mas sem deixar de, algumas vezes, ser carinhosa também. Caprichosa ou acolhedora, a insularidade das nossas ilhas manifesta-se de múltiplas maneiras: ela é geográfica como climática, histórica como política, antropológica como existencial.

 

Note-se que o universo da insularidade extravasa o sentimento de solidão e nostalgia, emergente do acanhado espaço geográfico das ilhas, para incorporar outros aspectos resultantes tanto da dialéctica entre a imensidade do mar arquipelágico e a pequenez das ilhas retalhadas que as ondas “afogam e afagam”, como também entre a grandeza do sonho ilhéu que não se conforma com a medida da ilha e os problemas sociais, políticos e culturais de que a mesma tem sido vítima.

 

Aliás, a fome existencial do ilhéu ultrapassa os limites da estreita fronteira contornada pelo mar para se projectar na procura do mais além. O visível não lhe chega, ele tem a necessidade do imaginário. Este, por sua vez, não sacia totalmente a sua sede, ele se sente atraído pelo real existente ... que transborda a medida da ilha.

 

A insularidade islenha é, pois, o resultado da luta e dos desafios que nascem no próprio chão das ilhas; ela é também um projecto inacabado cujos traços ganham forma e conteúdo no confronto e reencontro da água com a terra , do homem com o mar.

 

Com efeito, a pequenez territorial, a falta de água e a exiguidade de recursos naturais estão na base de flagelos como a seca periódica, a fome, as epidemias (anteriormente sem solução) e o subdesenvolvimento, de uma maneira geral. Por outro lado, a imensidade do mar “que ... dilata sonhos e ... sufoca desejos”, com o seu “ ... cântico /estranho / ... / que não se cala em nós!” . (1)

 

Essa insularidade tão peculiar das ilhas é magnificamente retratada pelo poeta Ovídio Martins quando, em plena época colonial escreve:

 

“Árvores/ sem carne/ terra/ de Fogo/ Homens bloqueados/ (espantosamente bloqueados) / Irmãos no catacismo periódico/ de falta de água / Já sem forças/ para mandarem/ calar o mar” .(2)

 

desespero do poeta, porém, um dia, no pós-independência, se transformará em esperança e , avançando “ilha a ilha”, é o mesmo que vem segredar-nos que, afinal, “O nosso destino estamos a cumprí-lo: Dar a Cabo Verde outro mar, outro céu, outro homem” E para exorcisar os flagelos da insularidade, tornando-a fecunda, com estrumes e fertilizantes trazidos de longe ou recriados no próprio chão do Arquipélago, um outro poeta da espernaça, com toda a força do seu estro telúrico, proclama, como que jurando à Bandeira da Dignidade, já no céu das ilhas flutuando:

 

“Mesmo que o céu não chova/ E o sol e a lua/ Sejam cordas partidas no violão da  ilha/ ... Mesmo que o vento/ Vergue/ No eixo da terra e nos mastros da alma/ Os ossos e séculos de sangue e secura/ Mesmo sendo! já não somos/ Os flageldados do Vento leste”.(3)

 

Este poema faz lembrar o desabafo e a ousadia de um outro poeta da insularidade que, em plena dominação colonial - quando a Bandeira da Liberdade ainda estava à distância -, com convicção, proclamava:

 

“Somos os flagelados do vento leste!/ Morremos e ressuscitamos todos os anos/para  desespero dos que nos impedem/ a caminhada/ Teimosamente continuamos de pé/   num desafio aos deuses e aos homens/ E as estiagens já não nos metem medo/ Porque descobrimos a origem das coisas”. (4)

 

Vista desta maneira, a insularidade é geográfica e climática, mas também histórica e política.

 

Não podia ser fácil a formação de uma sociedade a partir de mundos e de universos tão diferentes como os que no recuado século XV, e no chão do arquipélago, se confrontaram. Esses condicionalismos histórico-culturais corporizaram uma nova forma de insularidade que é política, mas também é antropológica e é existencial. A este propósito, Pierre Rivas afirma que, para o ilhéu cabo-verdiano,

 

“.... l'insularité géographique devient insularité existentielle, qu'on peut lire comme métaphore de la négritude, lieu d'exil loin de la patrie africaine, prison coloniale ou idiossyncrasie ilienne”.(5)

 

É, pois, esse drama que levou o poeta do Ambiente a pintar a insularidade das ilhas com letras de sangue vertido de milhares de pedras feridas no deserto da história e com a seiva de algumas árvores apenas, curtindo a seca e resistindo ao flagelo das lestadas. Esse sofrimento e essa resistência são reais e é deles que emerge a crioulidade insuflada de sonhos, acariciada com os tentàculos do pelourinho, mas regorgitando a vida.

 

ilhéu existe, pois, porque resiste. E nisto consiste o seu drama, mas também o seu mérito.

 

E, resistindo sempre, o homem cabo-verdiano acabaria por dar-se conta de que, no ambiente das ilhas, tornava-se necessário e inevitável o “Conflito numa alma só/ de duas almas contrárias/ buscando-se, amalgamando-se/ numa secular fusão”.(6)

 

Relacionado com a criatividade literária, o tema da insularidade ganha expressão particularmente através do sentimento e desejo de evasão experimentados pelos “claridosos”, como também pelo ideário programático de “fincar os pés no chão” que sintetiza o seu programa literário e o ideário telúrico que os acompanharia pela vida fora.

 

Posteriormente, a literatura cabo-verdiana, embora reconhecendo o elevado sentido do “projecto claridoso”, acabaria por alargar o horizonte do seu ideário.

 

Se na década de 40, 50 e 60 havia já alguns indícios, é particularmente a partir dos anos 70 que começa a ganhar corpo uma literatura nova, com o centro de gravidade em Cabo Verde, mas com um horizonte que extravasa a limitada geografia das nossas ilhas.

 

A visão localizada do mundo, condicionada pela insularidade e veiculada apenas pelo canal do sonho e da evasão, é posta em causa. Já Jaime de Figueiredo, uma das inteligências mais argutas da geração claridosa tinha pressentido o novo ciclo quando afirmou:

 

“Um ritmo vital próprio, perfeitamente nuançado aflora hoje no complexo do sentir humano: a psique atlântica. O infinito azul que nos rodeia, a distância que nos envolve e beija, sublimaram de sonho a longa simbiose dos sangues [...] E fluindo sempre para o diferenciado, rasga-nos a vida novo ciclo”. (7)

 

Porém, como foi dito, é sobretudo a partir da década de setenta que um novo projecto literário moldado com a massa e o fermento da alma universal ganha maior expressão. É assim que T.T.Tiofe (João Varela), falando de escritores do período 75/76, diz:

 

“[...] não se trata de poetas de Cabo Verde que escrevem poesia cabo-verdiana mas de poetas de Cabo Verde que escrevem poesia”.(8)

 

Igualmente, um Ovídio Martins, por exemplo, escreve: “eu nasci na ponta da praia por isso trago todos os mares do mundo” e um Arménio Vieira do Eleito do Sol, completa o raciocínio ao considerar-se “ [...] homem de todas as raças”.

Como se tudo isto não bastasse para retratar o novo chão cultural emergente nas ilhas, Vera Duarte, uma voz femenina da nova largada, vem reafirmar que o processo da nossa cultura e literatura perspectiva-se em vários sentidos e para vários horizontes:

 

“A minha ancestralidade plasmada sobre a baía e o porto grande que se abre ao infinito gerou-me [...]. Manhana pela manhana montada em meu cavalinho doirado, irei pelo mundo à procura do sentido da vida”. (9)

Neste processo, uma nova cultura, uma nova crioulidade têm inaugurado um espaço igualmente aberto. Tudo indica que hoje a caboverdianidade tende a abrir-se ao mundo e o seu intento consiste muito mais na procura do humanismo do que em celebrar uma fechada identidade.

A literatura caboverdiana é cúmplice do humanismo desejado. É por isso que se para caracterizar a época “claridosa” numa única palavra escolheríamos a palavra insularidade, para caracterizar o novo ciclo literário optaríamos pelo signo humanismo.

 

Notas

Jorge Barbosa, “O Mar”, Poesia I, ICL, Praia, 1989, p. 72. Publicado pela 1ª vez em O Arquipélago, 1935.

 

Ovídio Martins, “A Seca” Caminhada, 1962. Retomado em 100 Poemas, p. 15

 

(3)Corsino Fortes, “A Lestada de Lés a Lés” Árvore & Tambor, ICL, Praia, 1986, p. 121.

 

(4) Idem 2, Ibidem

 

(5) Pierre Rivas, “Insularité et Déracinement dans la poesie cap-verdienne”, in colóquio de Literaturas Africanas de Expressão Oficial Portuguesa, Paris, Fundação C.Gulbenkian, 1984.

 

(6) Idem 1, “Povo”, Poesia I, ICL, Praia, 1989, p. 71. Publicado pela 1ª vez no livro Arquipélago, 1935

 

(7) Jaime de Figueiredo, in cinta de apresentação do livro Arquipélago de J.Barbosa, 1935.Mais tarde citado por Teixeira de Sousa em “Um Texto Quase Esquecido” in Pré-Textos, nº 0, 1990.

 

(8) “Arte e Artefactos Poéticos em Cabo Verde – Reflexão sobre os últimos 50 anos de Poesia Cabo-verdiana”, in Actas do Colóquio Internacional sobre Les Littératures Africaines de Langues Portugaise (brochura), Paris, 1984, p. 313.

 

(9) Vera Duarte, Manhã Amadrugada,Vega, Lisboa, 1993.

 

BLOCO DE NOTAS  (Urbano Bettencourt)

l. Cabo Verde - Insularidade e Literatura (Manuel Veiga (Coord.)),

Paris, Éditions Karthala, 1998

 

Manuel Veiga, escritor e investigador do crioulo cabo-verdiano, foi o coordenador deste livro de ensaios que as Éditions Karthala publicaram no ano passado numa versão em Português e noutra em Francês.

 

No seu conjunto, o livro pretende-se uma abordagem abrangente da realidade cultural cabo-verdiana, de que a literatura será uma das componentes fortes, como expressão transfigurada de um processo histórico-social, embora muito menos conhecida do que a componente musical (que alguém já referiu como um dos três M da identidade cabo-verdiana, ao lado do Mar e do Milho). Neste sentido, compreende-se a pluralidade dos ensaístas aí presentes, traduzindo a diversidade dos olhares e dos campos de observação, organizados em quatro grandes capítulos ou áreas temáticas (designação que, reconheço, é pouco adequada ao último deles): o "Ciclo do Mar" (onde a perspectivação histórica se liga à insularidade "como uma das principais colunas da literatura cabo-verdiana"); o "Ciclo do Milho" ( que põe em evidência a centralidade deste cereal na alimentação e na representação cultural e simbólica do arquipélago); "Tradições Orais e Literatura" (espécie de "guião histórico" da literatura cabo-verdiana, recuando aos seus primórdios e demarcando alguns dos seus períodos, antes e depois de "Claridade", em ligação também com um olhar sobre a oratura, o universo das tradições orais que desempenham um papel de relevo na expressão da crioulidade); a última parte reúne uma série de notas de leitura, apontamentos críticos sobre algumas das mais recentes propostas narrativas e poéticas, mas sem perder de vista as pontes que possam estabelecer com os "clássicos" da moderna literatura do país.

 

"Cabo Verde - Insularidade e Literatura" é um livro que permite ao leitor uma visão de conjunto extremamente enriquecedora e iluminadora. Visto de fora, de outras latitudes também elas insulares, é ainda um livro que não pode deixar de abrir-se a algumas leituras laterais, pelo que revela quanto aos evidentes benefícios resultantes dessa metodologia de aproximação multidisciplinar, mas também, e muito principalmente, pela atitude descomplexada de afirmação de uma realidade própria e consequente empenhamento na sua divulgação.

 

2. A História de Blimundo (Leão Lopes (recolha e ilustração))

2ª ed., Centro Cultural Português, Praia e Mindelo

 

Pode-se chegar à história de Blimundo através do violino de Travadinha, nesse disco único em que a sua criatividade e inventiva demonstram como se (des/re)faz a música tradicional de Cabo Verde: uma melodia que parece chegar dos confins da terra e do corpo e a que a voz de Ana Firmino vem imprimir um ainda mais acentuado tom de encantamento e mistério.

 

Mas essa é apenas a canção do conto tradicional caboverdiano em que se narra a história do boi Blimundo, possante boi de trapiche, irreverente e amante da liberdade, que desafia a autoridade e o poder do Senhor Rei, incapaz de vencê-lo pela força dos seus exércitos. E só um rapazinho, munido de cabaça de água, saco de milho torrado e cavaquinho, será capaz de atrair Blimundo à cilada mortal montada por Senhor Rei, cantando-lhe essa canção que acena com a (ilusória) promessa do seu casamento com a Vaquinha da Praia.

 

Há nesta história de David e Golias alguns tópicos e motivos que poderão, eventualmente, reenviar a outros contos populares e mesmo a contextos culturais e literários diversos (o poder encantatório da música, a paixão que faz desviar caminhos e vontade, a astúcia sobrepondo-se à força); mas há, sobretudo, um forte investimento simbólico que arranca das circunstâncias concretas e históricas para "falar" das dicotomias opressor e oprimido, força de trabalho e posse da riqueza, escravidão e liberdade, amor e traição. E mesmo o milho, a música e a água com que a personagem infantil se apresta para a viagem passam obviamente como três factores de forte carga cultural, identitária.

 

"A História de Blimundo" constitui ainda uma manifestação de apreço e respeito pela cultura popular, o reconhecimento da sua vitalidade.

 

Cabo Verde - Encontro com escritores

Michel Laban, Porto, Fundação Engº António de Almeida,1992

Mais de duas dezenas de escritores e criadores culturais cabo-verdianos em diálogo com Michel Laban. O resultado é esta obra em dois volumes, em que, pela voz dos seus mais directos intervenientes, se traça o percurso literário e cultural do arquipélago no período de cinquenta anos que começa em 1936, ano da "Claridade", revista da "proclamação da independência cultural de Cabo Verde" (Gabriel Mariano).

 

Reconheça-se, porém, o que poderá haver de redutor em referenciar nestes termos um livro que abrange outras questões, de ordem histórica, social, linguística, e que acaba por abarcar um período mais vasto do que esse, dado que ao conhecimento do leitor são igualmente trazidos os contributos precursores mais relevantes e mesmo elementos contextuais de uma escrita particularmente atenta ao seu próprio contexto físico e humano - a justificar até o o reparo de Mário Fonseca a Michel Laban: "um outro motivo de inconforto intelectual é a ausência, nas suas perguntas, de qualquer referência à nossa cultura de carácter popular, à nossa literatura popular em crioulo e em português... ao mundo dos contos e lendas da literatura oral cabo-verdiana. Não acredito que se possa compreender a história cultural de Cabo Verde sem ter em conta os domínios acima referidos, apenas a título indicativo."

 

Dos depoimentos dos dois fundadores de "Claridade" ainda ouvidos por Michel Laban - Baltasar Lopes (entretanto falecido) e Manuel Lopes - o deste último refere a sua experiência açoriana de onze anos no Faial. Experiência incómoda do ponto de vista físico, em virtude de uma "difícil e morosa adaptação ao clima dos Açores, excessivamente húmido em contraste com o de Cabo Verde", mas, por certo, bem mais profícua a outros níveis: sócio fundador do Núcleo Cultural da Horta, Manuel Lopes publicou ali o ensaio "Os meios pequenos e a cultura" (1951) e em Angra do Heroísmo os "Poemas de quem ficou" (1949), graças ao papel intermediário de Pedro da Silveira que o levou até ao editor Manuel Joaquim de Andrade, a quem se deve, entre muitas outras coisas, o facto de ter sido o editor do jovem Vitorino Nemésio.

 


A escrita da terra em Manuel Lopes e na Claridade

Elga Vilela Costa

Originally published in Ciberkiosk : http://www.ciberkiosk.pt/arquivo/ciberkiosk5/ensaios/elga.htm (dead link)

caso de Cabo Verde está, desde há anos, marcado, na sua mais profunda intimidade, pelo fenómeno da emigração. Um impulso de massas como este sempre representou para o povo caboverdiano uma realidade dramática que a própria terra explica sem se precisar de grandes e elaboradas palavras: basta-nos olhar e viver naquelas ilhas.

Para muitos caboverdianos, estas movências são o sonho de toda uma vida; este desejo, ou mesmo desespero, de conhecer outros (outros tudo: mundos, gentes, costumes, hábitos, cheiros, cores...) torna-se, muitas vezes, objectivo de vida. Tudo isto é compreensível se atentarmos na dramática imagem de um povo que anseia, a toda a hora, pela vinda das chuvas que por vezes levam intermináveis anos a chegar. Por aqui se explica e se compreende o desejo de querer partir.

Contudo, ninguém pode afirmar que haja emigrações felizes, mesmo que bem sucedidas, pois implicam consequentemente uma ruptura, uma distância em relação a uma identidade, um penoso processo de adaptação, um ajustamento. Muitos conformam-se em viver longe mas sob a inspiração de Cabo Verde. E é exactamente aqui que assentarei estas breves linhas sobre Cabo Verde. É justamente nesta cortante e dolorosa dualidade de viver longe e querer sempre SENTIR Cabo Verde que centrarei o meu trabalho.

Sonhar com a vida para lá do mar leva à saída, mas viver com a terra no coração leva, inevitavelmente, ao regresso. E é um regresso sempre desejado: pelo que saíu, que finalmente recupera a "alma" e se re-identifica, pisando aquele chão sagrado, e pelo que ficou, que recebe agora as novidades vindas do "além", do para lá das ondas, do "outro lado", de outros mundos. Sempre foi assim: o homem, tanto o que corajosamente partiu como o que resignada ou livremente ficou, está tão indissoluvelmente ligado à natureza que dificilmente se poderá separar daquele chão que eternamente o prende.

Eis porque surgem os poetas e ficcionistas que proclamam a HORA DA DEFESA: a defesa da terra, do homem de e em Cabo Verde e a defesa da identidade. Por volta dos anos 30, um conhecido homem das Artes caboverdianas, José Osório de Oliveira, fez sentir a Jorge Barbosa (outro pródigo homem das Letras caboverdianas), através de uma frase lapidar, a necessidade que havia de dar voz àquele povo sofrido (e cito): "Então você é filho de Cabo Verde; vive aqui, neste pedaço doloroso de Terra; nunca viu essa delícia do mundo que é o Mediterrâneo, nem sabe o que é a doçura de uma fonte, e põe-se a cantar esse tema, tratado por tantos poetas que só por sugestão literária pode sentir, quando tem aqui, a seu lado, uma paisagem, um povo cujo drama está a pedir uma voz que o interprete para se fazer cantar!". (1)

E assim se começa a lutar e aparece, em 1936, no Arquipélago de Cabo Verde, o primeiro número da Revista Literária e Cultural "Claridade". "Claridade" tinha, de facto, a dupla feição literária e de cultura, de investigação sociológica: cantava-se um povo e explorava-se o fio da mentalidade crioula.

As tertúlias claridosas tinham por objectivo traçar directrizes genéricas, sem programações específicas; a intenção era escrever Cabo Verde; o propósito era o de "fincar os pés na terra". Não havia regras para o fazer: cada um expunha as suas ideias à sua maneira pessoal, contribuindo individualmente para mergulhar na terra e fazer sair à luz do dia o cheiro mais próprio, mais autêntico e mais real daquele povo.

Manuel Lopes será provavelmente o escritor crioulo mais tocado pela acção agreste daquela natureza que se "impregna" na alma do caboverdiano, dando-lhe uma postura apática, onde a resignação (marca distintiva da morabeza) se explica pela profunda ligação e amor puro à terra.

Manuel Lopes conhece intimamente a alma do seu povo, de tal forma que transpõe para os seus textos figuras e situações quotidianas perfeitamente reais (o que, aliás, define o traço estético do seu discurso). Conhece perfeitamente toda a fragilidade do ilhéu caboverdiano perante a natureza de quem depende inteiramente; conhece o terrível contraste entre os sonhos de felicidade e a triste realidade da luta pela vida. Fala-nos, com extremo realismo, da tristeza, do medo, da saudade, do desânimo e da frustração, num tal discurso que nos enriquece o conhecimento do conteúdo humano caboverdiano. Diz, como poucos, o medo constante que o povo sente relativamente às secas prolongadas que assolam as ilhas; o sonho permanente e o desejo irresistível de ir a outros mundos; e, simultaneamente, diz também o amor desmedido que o povo sente pela sua terra, e o desejo de aprofundar e ligar a alma do homem à raíz daqueles solos.

Este "chamamento do caboverdiano à sua terra" sempre foi o mote cimeiro de toda a escrita de Manuel Lopes. Se não, vejamos:

"...Que teu irmão que ficou
Sonhou coisas maiores ainda,
mais ricas e belas que aquelas que conheceste...
Crispou as mãos à beira do mar
e teve saudades estranhas, de terras estranhas,
com bosques, com rios, com outras montanhas
- bosques de névoa, rios de prata, montanhas de oiro -
que nunca viram teus olhos
no mundo que percorreste..."

Crioulo e outros poemas, 1964

Eis o que pretende este sensível escritor, e tantos outros da sua Geração: convidar o povo a apostar na terra, evitar que a sua "alma se perca em outras paragens", promover a união entre os homens para que, juntos, possam "construir" o remédio para sarar tão grave ferida de uma Mãe que vê seus filhos partir: "Amar a Mãe-Terra e a Mãe-água com toda a força e pureza do Amor, compreendê-las como o menino compreende a linguagem da mãe e a canção de embalar e a profunda significação do embalo daqueles braços, e neles aprende a conhecer a segurança e a protecção contra as ameaças desconhecidas." (Chuva Braba)

A fé na união dos homens apostados em seguir um Destino comum - o de ficar e lutar pela terra - sustentou os "pesados" alicerces de uma Geração que tinha nas mãos e na pena a dura tarefa de dar voz a um povo ainda calado pela dor de sofrimentos seculares. E se toda a Geração Claridosa foi pródiga no "lançamento" de palavras, há muito desejosas de serem escritas, Manuel Lopes soube dar vida e voz às situações da própria condição humana, denunciar problemas e sentimentos, apresentar realidades sociais e comportamentais, sempre apartando os (quase) inevitáveis juízos de valor. Daí o seu reconhecido realismo empregue nas suas obras: conhecer as suas personagens e conhecer um caboverdiano, é igual - as personagens não se "disfarçam", não fogem à real representação de este ou aquele caboverdiano. Está tudo lá: a paisagem, a vida, o sentir, o agir, o problema e a solução.

próprio Manuel Lopes define o que aqui tento expôr acerca da sua escrita (e cito): "As melhores páginas impressas são as experiências daqueles poucos homens que viveram a vida mais intensamente que o homem comum, que o sentiram, e meditaram com mais penetração, e se consumiram para nos trazer a mais íntima ressonância das suas horas mais altamente vividas".

José Osório de Oliveira - A Poesia de Cabo Verde - 1954

 

 


Entre a fugida e a viagem: a poética da "ilha"

Francisco Salinas Portugal (Universidade da Corunha. Galiza-Espanha)

 

Destroços de que continente;

de que cataclismos,

de que sismos,

de que mistérios?...

(Jorge BARBOSA, Arquipélago)

 

1.- Introdução

A ilha, espaço enclausurado, numa clausura que é física mas também afectiva, psicológica e vital, é prisão e lugar de segurança, esquife e berço, útero e sepulcro, centro do mundo onde convergem os eixos da verticalidade e da horizontalidade, o axis mundi que liga miticamente o Céu com a terra; é o lugar da partida e destino da viagem, porque o ilhéu precisa sair desse espaço ofegante e limitado para se abrir ao mundo e aos outros. Como indica Dina Salústio, "l’insularité est à l’origine de l’un des traits les plus marquant de l’îlien: l’évasion qui l’envoie, avec un semblent de fuite, à la rencontre d’autres êtres, d’autres horizons, d’autres continents et villes" (1).

 

A ilha reúne, por um lado, o espaço perfeitamente delimitado e simbolicamente uno e, por outro, abre-se à pluralidade, à disgregação em que se projecta quando convertida na multiplicidade do arquipélago; ela concilia no seu significado os elementos contraditórios derivados do carácter bifronte e ambíguo de todos os símbolos, como demostrou Bachelard: segurança e perigo; acção e repouso; alfa e omega do sujeito individual e colectivo.

 

A literatura cabo-verdiana, pelo menos aquela que se produziu até os anos sessenta, funda-se sobre a ideia da insularidade, do desejo, gorado, e da tensão dialéctica entre o partir querendo ficar e o ficar querendo partir. Há, portanto, um desarraigo existencial, comum a qualquer ilhéu, que perpassa o discurso poético cabo-verdiano, por isso, em palavras de Pierre Rivas, "insularité et déracinement sont les deux structures constitutives et antagonistes de l’identité capverdienne mais, au delà, les éléments d’une typologie des littératures insulaires, des civilisations créolophones et même du statut des littératures africaines" (2).

 

Não admira, pois, que um breve percurso pela literatura cabo-verdiana nos ponha à frente de uma série de referentes, de que os títulos são o elemento significativamente marcado. Essa visão panorâmica da literatura de Cabo Verde mostrar-nos-á como é que o cabo-verdiano e o discurso literário das suas produções culturais convertem a sua circunstância biográfica e histórica (a condição de ilhéu), incontornável aliás para qualquer habitante das ilhas, no elemento definidor e definitório de toda uma poética que, desde os inícios desta literatura em finais do séc. XIX e primeira metade do séc. XX, vai desenhando toda uma geografia poética e vital do "ser" cabo-verdiano.

 

Pensemos, a este respeito, em títulos como: Jardim das Hespérides (1926) e Hespérides. Fragmentos de um poema perdido em triste e miserando naufrágio (1930) de Pedro Cardoso; Jardim das Hespérides (1929), Hesperitanas (1933) ou Alma Arsinária (1951) de José Lopes; Arquipélago (1935) ou Caderno de um Ilhéu (1956) de Jorge Barbosa; Linha do Horizonte (1951) de Aguinaldo Fonseca, para nos referirmos ao campo da poesia.

 

Se pensarmos na ficção, títulos como Ilhéu de Contenda (1978) de Teixeira de Sousa, Ilhéu dos Pássaros (1982) de Orlanda Amarilis ou Levedando a Ilha de Mª Margarida Mascarenhas completaríamos toda essa isotopia da ilha que atravessa, e pour cause, o discurso literário cabo-verdiano.

 

2.- As ilhas Hespérides e o Éden mítico.

Um dos aspectos que mais tem chamado a atenção dos estudiosos da literatura cabo-verdiana, pela originalidade de que se reveste, é o chamado período hesperitano ou período arsinário: aquele momento literário anterior à Claridade (embora se prolongue em boa medida além dessa circunstância histórico-cultural) em que se formula a literatura cabo-verdiana.

 

Com efeito, a criação do mito das Ilhas Hespérides de que fala Estrabão veio, no dizer de Manuel Ferreira, "preencher um vazio e dar sentido à componente histórica do fundamento pátrio alicerçado nas ilhas e não na Metrópole europeia. O mito que funcionou como corrector do equilíbrio pendular social e psicológico. Ainda mito criador do espaço da felicidade" (3). Em chave similar, Pires Laranjeira afirma que "os poetas criaram o mito poético para escaparem idealmente à limitação da pátria portuguesa, exterior ao sentimento ou desejo de uma pátria interna, íntima, simbolicamente representada pela lenda da Atlântida, de que resultou também o nome ‘atlantismo hesperitano’ por oposição ao continentalismo africano ou europeu" (4).

 

Na criação deste mito funciona, como tem sido sublinhado, uma componente ideológica que pretende ligar as ilhas de Cabo Verde ao continente e à cultura europeias, riscando, tanto quanto possível, a componente africana que mesmo só pela situação geográfica, correspondia ao arquipélago (5).

 

Com efeito, a cultura clássica a que remete o mito das ilhas Hespérides, ou a própria definição do mito ligada ao continente submerso da Atlântida (em que se incluem as ilhas Açores, a Madeira e as Canárias), fazem com que o mito hesperitano permita ligar a cultura cabo-verdiana ao "mundo que o português criou" numa prolongação natural, embora adaptada aos "trópicos", da cultura da metrópole. Ora bem, tal e como se infere da citação de Manuel Ferreira, a originalidade deste mito (desconhecido no espaço português) singulariza a literatura cabo-verdiana, confere-lhe qualquer coisa de diferente e de original, dá-lhe a marca de um discurso-outro, revelador de um mundo também diferente que autonomizava, em boa medida, o discurso literário cabo-verdiano, do discurso literário português no interior do qual o discurso crítico oficial o situava e ao que de facto estava unido, não só pela língua como pelos referentes literários presentes na obra destes poetas.

 

mito hesperitano não é, ou não é só, o feliz achado expressivo de um poeta, mas abrange a quase totalidade dos escritores e está presente no discurso crítico que modela a recepção destas obras da parte dos destinatários naturais desta literatura.

 

Talvez tenha sido a componente ideológica que jubjaz ao movimento hesperitano, a sua inclusão e surgimento num determinado contexto político-social (os primeiros anos do salazarismo e a proclamação do lusotropicalismo como a "única" teorização politicamente correcta da altura) a que explicou a acusação de evasionismo (6) que tem acompanhado o discorrer crítico deste interessantíssimo período da literatura cabo-verdiana que é, no fundo, o movimento fundador duma literatura em língua portuguesa autónoma e independente doutras literaturas que também se exprimem na mesma língua.

 

Ora, o mito hesperitano pode ser também lido em chave mítica como "nostalgia do Paraíso" que, no dizer de Eliade, é "desejo de reencontrar o estado de liberdade e beatitude de antes da ‘queda’, a vontade de restaurar a comunicação entre a Terra e o Céu; numa palavra, abolir tudo o que foi modificado na própria estrutura do Cosmos e na forma de existir do homem a seguir à ruptura primeva" (7). É evidente que a presença das ilhas como "paraíso" ou Éden onde voltar, não só está presente nos poetas deste período, como também reaparece noutros momentos literários posteriores, em autores como Corsino Fortes ou Mário Lúcio.

 

Pedro Cardoso e José Lopes (o mais "oficial" dos poetas cabo-verdianos e auto-nomeado "vate hesperitano") são os mais notáveis poetas hesperitanos, constituindo o umbral que dá o passo à literatura claridosa, considerada, essa indiscutivelmente que sim, a primeira literatura autenticamente cabo-verdiana.

 

3.- Jorge Barbosa: o mar e a viagem.

Embora em sentido restrito Jorge Barbosa não possa ser considerado um poeta hesperitano (8), a sua poesia também não fica longe da mitologia que conformou esse grupo heterogéneo da literatura anterior à Claridade e, assim, praticamente sem solução de continuidade, chegamos à obra de Jorge Barbosa (1902-1971), que, já no seu primeiro livro (Arquipélago, 1935), define o marco da literatura cabo-verdiana, "pois é a partir dela que se pode falar de cabo-verdianidade, isto é, da consciencialização das realidades étnico-sociais e culturais da terra cabo-verdiana, dando lugar a uma literatura que rompe com os modelos europeus, especialmente portugueses" (9).<Bilde: jbarbosa.jpg (16732 bytes)> A primeira ilha cultural fica estabelecida assim: a literatura cabo-verdiana deixa de pertencer ao continente europeu (embora não totalmente, porque, como já vimos, o mito hesperitano está profundamente ligado a uma tradição europeia clássica) e vira-se para um novo continente, para o Brasil da Semana Moderna e dos poetas como Manuel Bandeira, Ribeiro Couto ou Jorge de Lima (10).

 

Portanto, inicia-se uma viagem, porque "a ilha concêntrica, girando à volta de si mesma, saturando-se no seu isolamento, ganha dinâmica no confronto com o mar. Por um lado, prolongamento da terra, ponte entre as várias ilhas, formando um só corpo -o arquipélago. Por outro, o mar bravo, oceânico, caminho do emigrante e sonho da distância" (11). E a pergunta que nós fazemos é se as ilhas não implicam sempre uma viagem, se não está o desejo de partir (de sair da prisão do espaço delimitado e ofegante da ilha) implícito na própria ideia e na idiossincrasia do ilhéu? É por isso que a viagem, real ou imaginária, física ou mental é o nódulo organizador da poesia de Jorge Barbosa. A ânsia de partir (com todo o sentimento de saudade e ao mesmo tempo de esperança) forma parte da visão do mundo do ilhéu e, portanto, converte-se no elemento definidor desta poética. Mas há um desejo voluntarioso de acção, de movimento, uma viagem que não é errância sem destino, é objectivo previamente definido para onde se caminha, embora não se possam esquecer os ecos literários que a evasão finissecular tenha nesta poesia (daí que a ruptura com os modelos europeus não seja tão forte como se poderia deduzir das citações anteriores).

 

No primeiro livro de Jorge Barbosa aparecem poemas como "Irmão" em que a viagem à América aparece como a solução aos problemas sociais do arquipélago. Através de um sujeito lírico que foge da terra nessas "pobres ilhas nossas / és o homem da enxada / abrindo levadas à água das ribeiras férteis/ [...] / onde às vezes a chuva mal chega / onde às vezes a estiagem é uma aflição / e um cenário trágico de fome!" vão aparecendo espaços concretos e bem definidos: América, o paraíso do cabo-verdiano onde resolver os seus problemas económicos (e é sob este ponto de vista que é encarada a partida para América) mas que se vai convertendo, a pouco e pouco, num sonho, e o poema, que mantém o tom do discurso empenhado do neo-realismo, transita para a descrição de um estado de alma do sujeito preso da melancolia, da apatia que reflecte a "pasmaceira" ("saudade fina" defini-la-ia Oswaldo Alcântara) do ilhéu: "essas Aventuras pelos Oceanos / já não existem... / Existem apenas / nas histórias que contas do passado, / com o canhoto atravessado na boca / e risos alegres / que não chegam a esconder / a tua / melancolia...". Logo dessa queda do sujeito no mundo do sonho e da melancolia, retoma-se a linha realista e empenhada numa chamada à solidariedade fraterna do cabo-verdiano.

 

Em "poema do Mar", do mesmo livro, define poeticamente, e de maneira muito clara, esse desejo de partir tendo que ficar: "O Mar! / [...] / deixando nos olhos dos que ficaram / a nostalgia resignada de países distantes" e o mar acaba por ser a imagem "criadora" da evasão (12): "Este convite de toda a hora / que o Mar nos traz para a evasão / Esse desespero de querer partir / e ter que ficar!".

 

Portanto, na poesia de Jorge Barbosa, como na de muitos outros poetas cabo-verdianos, a condição de ilhéu leva implícita a ideia da viagem: viagem exterior a um destino concreto, ligada ao discurso neo-realista, viagem ao interior do próprio sujeito numa procura de conhecimento, viagem quimérica e impossível na origem de uma frustração existencial ofegante.

 

Do ponto de vista da maturidade poética de Jorge Barbosa interessa salientar o seu Caderno de um Ilhéu (13) nomeadamente a sua segunda parte, centrada toda ela na viagem e no mar que, sendo um livro controverso, no que ao valor literário diz respeito, representa uma prova da madurez poética de seu autor.

 

No poema "Prelúdio" faz apelo ao achamento das ilhas e a uma ideia forte que norteia a concepção do mundo hesperitano: uma espécie de destino trágico: "nessa hora então / nessa hora inicial / começou a cumprir-se / este destino ainda de todos nós". Porém, para Elsa Rodrigues dos Santos, "‘esse destino ainda de todos nós’ não se trata de determinismo, de fado que se cumpre como predestinação, característico da epopeia. Ele é sinónimo de acto colonizador inaugurado nessa ‘hora inicial’" (14).

 

A viagem que se propõe (15) como tema ao longo destes textos não é tanto uma viagem física de que a poesia é o seu reflexo ou a sua literaturização quanto uma viagem imaginária, mais no mundo do desejo do que na sua concretização: "Fui afinal o livro do ponto / onde todos os dias deixava melancolicamente / a minha assinatura e a minha renúncia, / que fez com que todas as minhas viagens / nunca passassem do cais da ilha de S. Vicente..." (Do poema "Viagens"). Nestes versos resume as suas viagens imaginárias, mas que, sendo viagens implicam o conhecimento e, portanto, "exigem" do sujeito o regresso à casa, a essa nova Ítaca vista com os olhos da experiência acumulada: "Leva-me contigo / navio // Mas torna-me a trazer" porque, embora haja um pequeno navio "que nunca partiu, que nunca partirá", as viagens dos outros acabam por ser apropriadas pelo sujeito:

 

"A poesia está é na sala de verificação / no dia em que chegam passageiros à ilha / e nessa sugestão de outros climas / que ficam por um instante no ambiente" (do poema "Alfândega").

 

A sombra de Jorge Barbosa e a sua presença ao longo de três décadas na literatura cabo-verdiana foi configurando o discurso evasionista e pasargadista dos escritores cabo-verdianos numa poética que tem o mar como centro e a viagem como eixo estruturante duma escrita original.

 

3.- A construção do discurso poético cabo-verdiano na imprensa periódica.

Como em muitas das literaturas emergentes, a imprensa periódica tem-se revelado como o meio privilegiado para a difusão das produções culturais. No caso de Cabo Verde não podia também deixar de ser assim se tivermos em conta que o nível cultural das ilhas na época colonial era, possivelmente, muito superior ao de outras colónias que tinham maiores e melhores meios económicos, mas que, na estratégia colonial estavam menos viradas para a cultura.

 

Instituições como o Seminário-Liceu de São Nicolau, o liceu Gil Eanes, as Academias são-vicentinas, uma rica tradição de associaciativismo cultural (16), a ida para Portugal de alguns dos naturais das ilhas para tirarem cursos na Universidade portuguesa, fizeram com que se criasse uma massa crítica de leitores que é um dos fundamentos da literatura cabo-verdiana.

 

Perante a impossibilidade de dar conta cabal deste aspecto, resolvemos fazer uma pequena aproximação a uma das publicações mais marcantes, embora desigual, na história contemporânea da literatura e da imprensa de Cabo Verde, estamo-nos a referir ao Boletim Cabo Verde, dirigido por Bento Levy e que teve desde a sua fundação e durante mais de uma década uma considerável presença da literatura nas suas páginas (17).

 

Já em 1950 (18) Gabriel Mariano reivindica a figura de Eugénio Tavares porque, em oposição a outros poetas, esses "não tinham ouvido a voz do Atlântico à roda das ilhas". E é o próprio Gabriel Mariano que introduz uma particular visão do terra-longismo cabo-verdiano: "A Terra-Longe, / irmão, / está na tua terra".

 

Trata-se da Terra-longe mais como um estado de ânimo do que uma situação física de exílio e o desejo de partida para se libertar da opressiva realidade circunstancial das ilhas é um desideratum convertido numa tópica linha de força deste discurso poético. Como indica Teixeira de Sousa, "o sonho de evasão dos poetas mais representativos - Jorge Barbosa e outros- poderia então realizar-se dentro das próprias ilhas, primeiras do mar. O isolamento atlântico passaria a ser mera figura retórica da geração romântica por força das circunstâncias" (19). Porque aquilo que predomina é a evasão interior, a viagem ao centro do próprio sujeito que é conhecimento tal e como a exprime Aguinaldo Fonseca: "Mamã / dá-me a tua benção, porque vou partir / Meu barco é um sonho de coisas futuras / [...] / Onde está o mapa. Vou traçar o meu rumo / Europa... Ásia ... América... / Qual será o meu rumo? / Mas que coisa estranha? - / Afinal o mundo é tão pequenino / [...] / Mamã / Já não vou partir / vou ficar aqui / Esta terra é pobre mas é a minha terra".

 

Repare-se, neste texto de Aguinaldo Fonseca, na dominância do possessivo de primeira pessoa (meu) mostrando o empenhamento do sujeito na sua própria viagem, a sucessão de interrogações, por sua vez, a mostrar as dúvidas de um eu cindido num espaço cheio de dúvidas, do incógnito e perigoso indefinido, do vazio e do inconcreto.

 

A poesia pode, neste poeta, ser sinónimo ou substituir, da fuga física das ilhas e, portanto, abrir-se a um espaço de liberdade. O próprio Aguinaldo Fonseca diz "cada poema que escrevo / é uma fuga para além de mim" (20).

 

Assim, fica na ilha, não com a revolta do preso que luta pela liberdade, mas com a melancolia do que não pode ser alterado; o sujeito fica fechado em si próprio, dividido entre o desejo de partir e um outro desejo mais poderoso de ficar (por vezes como expressão de uma impossibilidade indolente).

 

Manuel Serra exprime-o num poema intitulado "Evasão", dedicado a Jorge Barbosa: "A fuga já foi marcada / mas é sempre, sempre, adiada / a hora da minha partida" (21). Portanto, o partir não se vê como caminho a percorrer/descubrir, antes aparece como fuga da prisão em que as ilhas se converteram, porque o "mar largo" é para Manuel Serra, um "longo cativeiro / das nossas ilhas morenas / [...] / cadeias que nos isolam do mundo" (22), sendo assim que o mar é libertação de uma cadeia, mas uma libertação que não é só por se tratar do caminho para a viagem, mas porque ele pode ser o final, o descanso apetecido de que nos fala um poema de Pedro da Silveira(23):

 

"E lá para o fim se nenhum paquete me quiser a bordo, / de proa feita ao Oeste, no rumo das ilhas, / para a viagem de quem volta de caminho vazio / pequeno no morto que fui, nu como nasci, / e levem-me até fora do porto mais próximo: / sejas tu assim, amigo mar, / [...] / a última cama de paz onde me deite". Por isso, o sujeito se encontra no interior da sua radical solidão, "Só / E o navio à minha espera / E eu à espera do navio" (24), numa negação do movimento, da ascensão, da possibilidade de modificar o futuro.

 

mar paralisa o eu, prendido na impossibilidade, (ou recusa?) de partir, como vemos neste poema de M.ª Madalena: "Teria de aqui ficar a vida toda / À espera de partir? /[...] / Olhando o mar / esperando o navio que há-de chegar A morte que há-de vir?" (25)

 

mar é caminho de liberdade, mas é também prisão e assim é visto por vários dos poetas, alguns dos quais já assinalámos: "Prisioneiro do destino e do mar / contemplo as grades da minha prisão / o cenário habitual / - azul rolante- cemitério de ilusões" (26).

 

Entre o partir e o ficar, o sujeito lírico de muita desta poesia fica como que paralisado, na indecisão que representa o desconhecido, do medo ao imprevisto e ao imprevisível, o desejo de ficar prendido à terra, elemento sólido que nos une à raiz, ao eixo da verticalidade que representam "essas ilhas perdidas / onde as montanhas vermelhas / se erguem aos céus / como uma súplica" (27).

 

Quer a decisão de partir, quer a de ficar que encontramos nos poetas que se revelam em fins de cinquenta deixa de ser algo iniludível, é ao sujeito que corresponde a decisão da viagem / fuga, tal e como é exprimido por Arménio Vieira: "ver o navio suspender as âncoras / desejar com ele partir / (podes fazê-lo) e ficar parado na areia / e vê-lo partir" (28).

 

Em resumo, nos poetas que se revelam na imprensa cabo-verdiana entre os anos 40 e os anos 60, o mar é o centro da sua poética, sempre ligado a um desejo / impossibilidade de partida. O mar organiza o mundo (29), a começar pelo mundo próximo das ilhas, com uma intencionalidade quase épica, como no poema "arquipélago" de João de Deus Lopes da Silva (30): "Dez ilhas / dez fragmentos / de não sei que continente / que um cataclismo / arrojou no Atlântico // [...] // Dez ilhas / Dez ilhas / dum gigante heróico // Dez noites vibrantes / no coro duma epopeia".

 

Vamos encontrar temas como o terra-longismo (31), a viagem que é o núcleo da poesia de Jorge Barbosa (32); viagens que podem ser imaginárias e quiméricas como a de Pedro Silveira (33): uma ilha ao longe, / azulada vaga / -saudade triste que se prolonga / num barco apenas imaginado". É finalmente o naufrágio existencial, longe da ilha, de um sujeito perdido no mundo hostil da grande cidade como vemos no poema de Cais de Pedra de Nuno Miranda: "o ilhéu naufragado em mar ao largo / o de alma em meio à multidão apressada / passando...".

 

5.- O reencontro com a África. Corsino Fortes.

mito hesperitano formulado nos termos em que acabámos de ver, entra em crise definitiva em fins dos anos cinquenta, princípios dos sessenta. Cabo Verde já não é a Atlântida submersa, já não é o resultando da experiência portuguesa nos trópicos, já não é o prolongamento da cultura europeia noutro continente. Cabo Verde tem, como violentamente proclamou Onésimo Silveira, uma vocação africana, um destino de liberdade fora do jugo colonial (34). A poesia reflectirá, então, esse desejo de liberdade (poesia heróica e prometeica), unida a uma sensibilização africanista que aparece muito bem exposta em Corsino Fortes: "De manhã! as ilhas / Da minha pátria nascem grávidas / como o arco-íris / na menina do olho // E falam / de afro-pão E afro-guerra".

 

Não vamos tratar o tema da poesia de Corsino Fortes que tem levantado várias perspectivas investigadoras (35), mas não queremos deixar de referir a importância que o mar e a ilha têm na elaboração deste discurso original.

 

seu segundo livro Árvore & Tambor (36) arranca com a "Proposição & Prólogo" incluindo três poemas em que os próprios títulos se erigem em palavra-tema na acepção de Guiraud. "ILHA", assim nomeada, sem artigo, tomada no seu sentido abstracto, é nomeada/definida, no primeiro verso, com dois substantivos de luz (Sol e Relâmpago) e com dois substantivos da natureza (semente e raiz), os quatro remetem-nos para o universo simbólico do masculino, do gerador de vida, a luz criadora e absoluta do Sol, a luz e a violência do relâmpago, enquanto que força/energia do masculino, a semente-sémen e raiz que se afunde na terra gerando a vida.

 

Mas, a seguinte proposição neste nomear da ilha remete-nos para o feminino: Tambor de som que floresce e cabeça calva de Deus: os elementos do redondo, do côncavo, sempre ligados ao lado feminino. Portanto, a ilha reune em si o masculino e o feminino, a vida em definitivo, ela é o centro do mundo (cabeça calva de Deus).

 

Em Corsino Fortes fica longe o evasionismo plangente dos hesperitanos, o europeísmo pasargadista dos claridosos, a reivindicação, demasiado transparente e denotativa, de alguns dos poetas mencionados no Boletim Cabo Verde (embora exista um diálogo intertextual com autores como Gabriel Mariano ou Ovídio Martins (37)).

 

Se repararmos num poema como "De Boca Concêntrica na Roda do Sol", a ilha é aí o centro (centro do mundo e centro da "mensagem"), mas não, ou não só a ilha fortemente delimitada e identificada com uma realidade extra-poética (Cabo Verde), mas uma ilha que reunindo os valores afectivos da sua antropomorfização se erige no espaço clausurado -a ilha é tambor, mas também possui o tambor que chama desde o seu interior, desde o seu "coração"-, espaço a explodir num imaginário em que as fronteiras convidam a extravasar os seus limites.

 

Nesse espaço fechado, isolado, que é a ilha, a pureza e a inocência são, por enquanto, possíveis- e daí a valorização do tempo da infância -"no peito das crianças"- como o tempo mítico e mágico em que a cisão do homem e o mundo não se tinha produzido; a ilha como metáfora de um novo mundo que se cria/vivifica com o grito luminoso do tambor que se explicita.

 

A África nomeada no poema, como noutros do autor, ela espaço também enclausurado porque tem "portas", vê alargado o seu significado pelo tambor, um tambor -e não se pode esquecer a sua ocorrência desde o próprio título- cuja carga significativa se desdobra nas sugestões do não-dito, mas presente no imaginário do destinatário. E é que o tambor é música e, portanto, poesia, mas é também a raíz que remete para uma ancestralidade convertida em seiva frutificadora e é, ainda, a concretização do redondo, em cuja base se sustenta a ideia da Mãe-Terra -e por extensão a da Mãe-África-. África é, pois, a Mãe geradora de vida, mas é também, no reverso de todo símbolo, a Mãe Devoradora que transforma o sangue em semente.

 

No discurso de Corsino Fortes é evidente o pendor épico da sua escrita poética, e a visão/expressão do carácter ilhéu muito além daquilo a que nos tinham habituado os poetas anteriores. O compromisso social, que foi levemente mostrado é actualizado pelo texto corsiniano que concretiza, em palavras de Ana Mafalda Leite "o imperativo histórico de reformar Cabo Verde, em termos épicos e míticos", a construção de um país/outro que nasça, através da palavra poética -que é geradora de energia- que se pode construir e, de facto, se constrói num real poético que o texto desenvolve.

 

A ilha está presente ao longo de todos os poemas, a ilha como regresso e fundamentalmente como expressão do redondo e, portanto, do feminino e matricial, "o poema -escreve Mafalda Leite - apresenta-se como engendrador de uma importante simbólica de formas redondas, onde a circularidade do universo que se constrói, ao tomar a sua dinâmica própria, ganha a forma esférica de um cosmos" (38): Ilha-mulher-Mãe, desenham algumas das balizas significativas dos poemas corsinianos, num livro que ultrapassa a realidade concreta de Cabo Verde e universaliza a sua literatura.

 

6.- Conclusão

Neste artigo tentámos mostrar alguns aspectos que ao longo deste século têm ido configurando a poesia cabo-verdiana. Arquipélagos físicos de fomes e secas, mas vivos arquipélagos de palavras poéticas e proféticas de uma cultura que já não é resistência, mas signo de criatividade. Ilhas de solidão e grades do destino, mas também, luz que irradia uma zona mal iluminada das literaturas de língua portuguesa.

 

Se tivermos de definir a poética cabo-verdiana através de afirmações muito gerais, diríamos que é o mar e, em consequência, o facto de serem ilhéus, que tem feito com que a literatura cabo-verdiana nem quisesse, nem pudesse, libertar-se dessa ambígua e produtiva (em termos literários) situação de exílio, uma insularidade geográfica que, em palavras de Pierre Rivas, "devient insularité existentielle qu’on peut lire comme metaphore de la negritude, lieu d’exil loin de la patrie africaine, prison coloniale [...], ou idiosyncrasie ilienne" (39). A viagem que é marca da condição do ilhéu, é metáfora da proposta que fazemos de penetrar nesse mundo poético, tão distante e tão subgerente numa nova viagem de leitores a acompanhar, no silêncio, a viagem dos criadores pelo mundo da palavra em liberdade.

 

NOTAS

SALÚSTIO, Dina, "Insularité, évasion et résistence" in VEIGA, Manuel (org.), Insularité et littérature aux îles du Cap-Vert, Paris, Karthala, 1997, p. 36.

RIVAS, Pierre, "Insularité et déracinement dans la poésie capverdienne" in Actes du Colloque: La littérature africaine de langue portugaise, Paris, Fond. C. Gulbenkian, 1985, p. 291.

FERREIRA, Manuel, O Discurso no Percurso Africano I, Lisboa, Plátano Editora, 1989, p. 193.

LARANJEIRA, Pires, Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, Lisboa, Universidade Aberta, 1995, p. 181.

Terá de ser o polémico ensaio de Onésimo SILVEIRA (Consciencialização na Literatura caboverdiana, Lisboa, Edições da Casa dos Estudantes do Império, 1963) que coloca em termos político-ideológicos a africanidade de Cabo Verde, superando um certo barlaventismo que dominava na produção claridosa.

O sentido pejorativo que se tem dado ao termo "evasionismo" deve-se a uma confusa apreciação de que os textos assim definidos (e mesmo assim definidos pelos seus autores) não tinham presente a realidade social, económica ou política das ilhas, ou não reflectiam essa realidade. É óbvio, primeiro, que o carácter de literatura empenhada que normalmente define as literaturas africanas, nomeadamente aquelas que se desenvolvem em processos coloniais, não tem que ser critério excluente; por outro lado, muitos dos textos que fazem referência ao "evasionismo", têm uma forte componente de compromisso cívico. Aliás, o adjectivo evasionista é aplicado, também, ao movimento claridoso.

ELIADE, Mircea, Mitos, Sonhos e Mistérios, Lisboa, Edições 70, 1989, p. 60.

Embora não se trate de um trabalho de periodização literária, consideramos que a pretensa ruptura literária entre os poetas hesperitanos e os claridosos não é tão forte nem tão evidente para que se possa afirmar com autoridade de que estamos à frente de duas gerações ou de dois grupos literários.

Vide Elsa Rodrigues dos SANTOS, As Máscaras Poéticas de Jorge Barbosa e a Mundividência Cabo-Verdiana, Lisboa, Edt. Caminho, 1989, pp. 40-41.

Para as relações da literatura caboverdiana com a literatura brasileira, Vide, entre outros, SALINAS PORTUGAL, Francisco, "O Brasil na construção do imaginário (literário) caboverdiano" in O Texto nas Margens. Ensaios de literaturas em língua portuguesa, Santiago de Compostela, Edç. Laiovento, 1997, pp. 71-95.

SANTOS, Elsa Rodrigues dos, ob. cit., p. 68.

"La mer c’est l’arrière-pays, elle représente la seule et unique possibilité d’évasion" (CABRAL, Nelson Eurico, "Jorge Barbosa: la mer et l’exil" in Notre Librairie, nº 112, Paris, Clef, 1993, p. 28).

BARBOSA, Jorge, Caderno de um Ilhéu, Lisboa, Agência Geral do Ultramar, 1956 (prémio Camilo Pessanha).

Ob. cit., p. 88.

Ibid., pp. 82 e ss.

Para este ponto, vid. SEMEDO, Manuel Brito, Caboverdianamente Ensaiando. Vol. I, São Vicente, Ilhéu Editora, 1955, p. 19 (citando artigo de Gabriel Mariano). Sobre este mesmo aspecto, vide também, Manuel FERREIRA, A Aventura Crioula, Lisboa, Plátano Editora, 1985, pp. 250-257.

Cabo Verde. Boletim de propaganda e informação. Editado na Praia. Asno 1, Nº 1- Outubro, 1949. Director Bento Levy. Em 1962 (nº 157), passa a denominar-se Cabo verde. Boletim Documental e de Cultura. Ano XIV (Nova Fase), nº 1-157 (Outubro 1922). A publicação mantém-se até 1965. As citações dos textos transcritos do Cabo Verde serão identificadas pela sigla CV, seguido do número, mês e ano.

CV, nº 11, Agosto 1950.

CV, nº14, Novembro 1950.

CV, nº 37, Outubro 1952.

CV, nº 55, Abril., 1954.

CV, nº 59, Agosto, 1954.

"Última fala do ausente", CV, nº 77, Fevereiro, 1956.

Cfr. Aguinaldo Fonseca, CV, nº 105, Junho 1958.

CV, nº 116, Maio de 1959.

Cfr. Mário Fonseca, CV, nº 126, Março, 1960.

Poema de Yolanda MORAZZO,CV, nº 154, Julho, 1962.

Arménio VIEIRA, "Contenção e renúncia", CV, nº 153, Junho, 1962.

Como se pode ver no poema "Linha d’água" de Virgínia Melo, in CV, nº 142, Julho 1961.

in CV, nº 42, Março, 1953. Vid. também o poema ""Brava" de Mª Helena (CV, nº 28, Janeiro 195

Vid. Daniel AZEVEDO, in CV, nº 141, Junho 1961.

Vide como exemplo: "convite à viagem", longuíssimo poema em 11 quadras publicado em CV, nº 67, Abril, 1955.

CV, nº 86, Novembro, 1956.

"Os jovens da nossa geração pensam que Cabo Verde é um caso de regionalismo africano. Esta inversão dos termos do problema [em relação aos claridosos] decorre do influxo do renascimento africano, que revitaliza todos os campos de actividade e todos os momentos de espiritualidade do homem negro ou negrificado" (SILVEIRA, Onésimo, ob. cit., p. 22).

Queremos referir de modo especial os trabalhos de Ana Mafalda LEITE (Vid. A Modalização Épica nas Literaturas Africanas, Lisboa, Vega , 1996. Esta obra analisa, na perspectiva indicada no título, a obra Pão & Fonema).

FORTES, Corsino, Árvore & Tambor, Lisboa, ICL/Pub. Dom Quixote, 1986.

Vide LEITE, Ana Mafalda, "Prefácio" à edição de Árvore & Tambor ... ob. cit., p. 18.

Ibid., p. 11.

RIVAS, Pierre, ob. cit., p. 292.


A construção do ideal nacional e a constituição de novas literaturas em África

José Luís Pires Laranjeira

 

A formação e o desenvolvimento das literaturas africanas de língua portuguesa, desde o primeiro livro impresso, em 1849, até à actualidade, passaram pela construção do ideal nacional no discurso. No discurso literário, o nacionalismo foi a antecipação da nacionalidade, modo específico de a escrita se naturalizar como própria de uma Nação-Estado em germinação. A consciência nacional, no discurso literário, atravessou, assim, diversos estádios de evolução, desde meados do século XIX até à actualidade.

 

Encontrando-se o estudo das literaturas africanas ainda numa fase de reconhecimento e estabilização, a divisão em fases estético-literárias, mais do que em relação a outras literaturas decisivamente estabelecidas, apresenta-se como muito provisória, isto é, mais como tentativa de teorização baseada quer nos factos textuais e contextuais, quer noutras teorizações não menos precárias. Refazemos aqui o esquema periodológico (de fases) que empreendemos no manual escrito para a Universidade Aberta (de Portugal), intitulado Literaturas africanas de expressão portuguesa (1995).

 

Podemos estabelecer duas épocas fundamentais: a Época Colonial, desde o aparecimento de esparsos e escassos textos, antes de 1849, não necessariamente literários nem africanos, mas relacionados com África, até às independências dos países, em 1975; a Época Pós-colonial, em que a literatura se vai libertando da lei da vida colonial, para se assumir como decisivamente emancipada, desde as independências, até à actualidade. Tendo em conta essas duas grandes divisões periodológicas, de carácter histórico e literário, mas sobretudo desde 1849, quando foi publicado o primeiro livro impresso em África (mais precisamente em Angola), Espontaneidades da minha alma, poemas de Maia Ferreira, consideramos que se sucederam seis fases.

 

Consideremos a literatura angolana como paradigmática, isto é, como um modelo de irradiação a partir do qual podemos estabelecer fases aplicáveis às outras, evidentemente de um modo não mecânico, tendo em atenção que cada uma tem o seu percurso específico, se bem que no contexto colonial de domínio português, interessando delimitar os contornos comuns que, textual e contextualmente, as explicam e aproximam, tanto como das literaturas portuguesa e brasileira, mais do que de outras. Trata-se aqui de um esquema, de uma proposta muito esquemática de sintetização de processos, movimentos e tendências, ainda sem fazer aproximações eficazes e pormenorizadas aos períodos da literatura brasileira e mesmo portuguesa. Duas características nos permite tal operação tendo por modelo a literatura angolana: por um lado, a quantidade e variedade de obras; por outro, a continuidade de produção ao longo das décadas, sobretudo a partir dos anos 30 deste século. Além disso, tanto Moçambique como Cabo Verde, sobretudo estes espaços, mas também São Tomé e Príncipe (e não a Guiné-Bissau, em razão do sistemático deserto cultural, segundo uma concepção moderna), sempre que a sua produção se revelou inovadora, terão contribuído para uma modificação do sistema literário na sua permanente evolução. Não se perderá de vista o facto de Cabo Verde constituir um arquipélago muito diferenciado, impondo, portanto, uma dialéctica das fases parcialmente em conjunção, mas, sobretudo, em desfasamento (em notório afastamento?) com as dos outros espaços. É normal que o início das fases seja considerado com a publicação de um livro fundamental (e não somente por intermédio de um mero texto isolado), de uma antologia, de uma revista ou sempre que se declare qualquer nova alteração da ordem estética. Assim se compreende que o fim das fases (sua extinção ou exaustão) surja através da publicação de um derradeiro livro, mas podendo considerar-se que as características dessa fase sobrevivam, num livro inexpressivo ou em textos dispersos, para além do surgimento de outra ordenação estético-líterária. Convém ainda ter em conta que, por exemplo, certos processos realistas, como a prática da descrição objectivante ou a inclusão de frases de uma língua africana no texto em português, característicos do oitocentismo, são intensificados e passam a predominar em certos autores ou movimentos do século XX, podendo, por isso, concluir-se que traços do regionalismo, do casticismo ou da africanidade passaram a ser tomados como determinantes de novas estéticas com vista ao aprofundamento nacionalista dos textos.

 

A primeira fase, estendendo-se, em Angola, até 1881, antecedendo, portanto, a saída da noveleta Nga mutúri (1882), de Alfredo Troni, caracteriza-se pelo Baixo-romantismo (aplicamos aqui, para uso generalizado, a expressão de Fátima Mendonça relativa a Moçambique), de clara adopção portuguesa, embora também com contributos franceses e ingleses. O seu populismo cultural pode chamar-se exógeno, na medida em que as apetências populares, em formas e temas, dizem respeito à herança cultural lusíada, apresentada como paradigma a seguir com inequívoco deslumbramento, cedendo o passo às coisas angolanas somente em termos de encomiástica referencialidade espacial ou onomástica, não propriamente social, histórica ou política, o que apenas aconteceria mais tarde, por exemplo, com a Mensagem. De algum modo, é como se uma ideologia de apreço pela aristocracia (visível no agrado com que se dedicam poemas ao grupo possidente, com deferências para os monárquicos) convivesse descomplexadamente com, por exemplo, formas poéticas hauridas nas barcarolas venezianas, nos lieds germânicos ou nas modinhas brasileiras, ao mesmo tempo que se usa a medida popular portuguesa da redondilha maior.

 

Já na segunda fase, que se espraia pelas décadas de 80 e 90 do século XIX, tanto em Angola como em Cabo Verde, o Realismo, igualmente de inspiração portuguesa, deixa as suas marcas, no caso daquele território, através da notória atitude queirosiana de Alfredo Troni. Tendo em atenção que o negro surge tratado nos textos, se bem que do ponto de vista de um complexo de inferioridade, enquanto indivíduo com possibilidades de ascensão social, com frequência como figura central (em poemas ou na noveleta Nga mutúri), chamamos a esta fase a do Negro-realismo (termo criado para indicar uma realidade literária específica de África, bastante aproximada dos Negrismos americanos). Sob o signo da Conferência de Berlim, estigma colonial que marcará, a ferro e fogo, o continente africano até depois da Primeira Guerra Mundial, esta fase, que vai sensivelmente até 1900, é co-natural à "imprensa livre" e assume o negro (mais particularmente, a negra) como personagem ou figura que aspira à integração na sociedade (não o conseguindo integralmente, por preconceito ou inacabamento do processo). Alfredo Troni e Cordeiro da Matta, em Angola, Costa Alegre, em São Tomé e Príncipe, ou Campos Oliveira, em Moçambique, representam essa faceta de referir a cor da pele com preconceito, ou, então, sem a assumir descomplexadamente, mesmo que se verifique uma aculturação que, em princípio, conduziria a uma hipotética integração plena. Numa concepção irrestrita, mas não ecléctica, de Realismo oitocentista aplicado às colónias, o Negro-realismo abrange efeitos estilísticos e imagéticos pertencentes ao território do parnasianismo, do simbolismo e do decadentismo, entendidos estes como meros epifenómenos na continuação do predomínio daquele.

 

Segue-se a terceira fase, do Regionalismo Africano. No início do século XX, em 1901, em Angola, a intervenção colectiva de um grupo de intelectuais que se manifestou contra um artigo colonialista de jornal, reunindo colaborações sob o título de Voz d’Angola - clamando no deserto (1901), abriu uma frente de reivindicação da igualdade e fraternidade, precursora dos direitos humanos, definível como nativismo (início do Regionalismo), quer dizer, de uma postura decisivamente consciente de anseios autonomistas, reagindo às guerras de ocupação movidas pela potência colonizadora.

 

Qualquer modo de Regionalismo Africano (1901-194l), seja o nativismo ou o tipicismo, é também um modo de africanidade dos primeiros momentos (por localista que seja), antecedendo a decisiva assunção da africanidade negritudinista, esta muito mais radical segundo a prática pan-africanista de Césaire, Du Bois e Padmore.

 

primeiro Regionalismo Africano, o do nativismo, visível na "Ode a África" e na actividade jornalística do Manduco de Pedro Cardoso (Cabo Verde), em "Surge et ambula" e outros poemas de Rui de Noronha (Moçambique), em poemas vários de Marcelo da Veiga (São Tomé e Príncipe), ou em António de Assis Júnior (Angola), transforma-se numa subtil, mas decidida, primeira "insurgência" anti-metropolitana. Caracteriza-se ideologicamente por um autonomismo supraclassista, com origem nos ideais republicanos, maçónicos, logo se associando a um pan-africanismo moderado, permitindo aceder, por essa mistura subversiva, à modernidade possível, vazada num conservadorismo formal e retórico.

 

Essa "insurgência" intelectual sofre um rude golpe com a ditadura do Estado Novo, chefiada por Salazar, que marca o fim da chamada "imprensa livre" e abre um lapso de tempo, de 1926 a 1941, atreito a dois tipos de tipicismo. Por um lado, temos um tipicismo folclorista e costumbrista, evocativo, reconstituidor da vida cultural popular urbana ou do mato, de que a obra de Óscar Ribas (Angola) será o paradigina com inusitados seguidores em tempos mais revolucionários. Este tipicismo de cariz etnográfico tem o contraponto evasionista e mesmo exótico, além de ideologicamente colonialista, na poesia de Tomaz Vieira da Cruz (Angola). Noutros, como João Albasini e Caetano Campo (Moçambique) ou ainda naqueles do chamado "período hesperitano" de Cabo Verde (com José Lopes e outros), se encontrará o apelo, ainda evasivo e esquivo, de uma peculiaridade telúrica e humana que se deseja demarcadora da colonialidade, mas não o ensejando em pertinência. E uma estética da evasão, da hiper-idealização do real, típica, em Africa, de um regionalismo, conquanto "útil", sobretudo estilizador, turístico, para usar uma metáfora depreciativa, ou seja, inconsequente quanto ao nacionalismo.

 

Por outro lado, deparamos com um outro tipicismo mais localista e regionalista, portanto, telúrico, de integração continental (de africanidade, sim, mas não necessariamente manifesta e veemente), a que anda associado algum orgulho negróide, alguma, ténue, "personalidade africana", que se pode caracterizar politicamente como protonacionalista, de um geo-estrategismo de grande alcance cultural (veja-se o exemplo da Claridade (1936) cabo-verdiana) ou, pelo menos, propondo modestas vias ideologicamente reformistas e esteticamente conservadoras, como no caso da primeira poesia de Geraldo Bessa Victor (logo depois optando por contribuir para uma estética da luso-tropicalidade freyriana). Estamos, no caso cabo-verdiano da Claridade, perante uma verdadeira criação de crioulidade (de assunção de uma diferença não-portuguesa), ou, em direcção distinta, de entrada no funil de estrangulamento histórico (da estreita portugalidade).

 

A quarta fase, do Casticismo (1942-1960), surgiu na sequência de aprofundamento da opção anti-colonial, como corolário lógico de uma actividade literária que compreendia o esforço de consciencialização como serviço cívico ou, se é possível a contradição, enquanto ética social com fundamentos na história e na cultura imperecível de um povo. A sua introdução verifica-se com o livro do são-tomense Francisco José Tenreiro, Ilha de nome santo (1942), integrado na colecção coimbrã do Novo Cancioneiro, no movimento do Neo-realismo português. O Casticismo (termo que adoptamos pela primeira vez) pode, então, ser definível como a procura da permanente herança dos povos, da sua intra-história, profunda, imperecível, dialéctica, criadora e transformadora, para lá do efémero, segundo uma concepção próxima da que Miguel de Unamuno nos legou nos seus ensaios sobre o casticismo castelhano visto como tradição não académica e erudita, mas popular e antiga, carregada de futuro.

 

Num primeiro momento, esse Casticismo afinal tão ansiosamente buscado, apresentou-se sob as vestes do Sócio-realismo (1942-1950/60) baseado no marxismo ou na sua versão acrescida (a do marxismo-leninismo), em que, quer em Portugal, quer nas colónias, foi determinante o papel desempenhado por activistas brancos conotados com o Partido Comunista Português. O Sócio-realismo (designação relativa às literaturas africanas igualmente cunhada por nós no presente trabalho) foi a expressão africana de um modo de renovação da herança negro-realista, associada sobretudo ao que o Neo-Realismo português possibilitou e ainda à absorção do Modernismo e do romance social do Brasil. Não temos conhecimento de indícios de que o Naturalismo brasileiro (sobretudo este, pela sua pujança, e não o português) tenha sido recebido atempadamente pelos africanos. Ninguém parece ter dado pel' O cortiço, de Aluísio Azevedo, à data a que nos reportamos. Com o Sócio-realismo, atravessado, de imediato, pela Negritude, estão em foco as classes e o mundo do trabalho, da produção de riquezas coloniais (com seus contratados, serviçais, agricultores, operários, mas também pastores, além de grupos restritos e outros, marginais), através de processos discursivos virados para a sugestão de concretude social e quotidiana, em que o pormenor, a notação descritiva, tem grande relevo. Basta referir a segunda fase da obra de Castro Soromenho (Angola), a primeira fase da obra de Agostinho Neto e António Jacinto (Angola), de José Craveirinha (Moçambique) e de Francisco José Tenreiro (São Tomé e Príncipe), ou a obra de Luís Romano e Teixeira de Sousa (Cabo Verde), e de Noémia de Sousa (Moçambique), para verificarmos a assunção de uma postura de classe proletária que tende a colar-se à pele mais generalizante da categoria do colonizado.

 

colonizado é uma categoria ainda mais generalizante do que a do negro, mas, por isso, os escritores africanos de língua portuguesa, nos anos 50, assumiram a Negritude (1949-1959) como realização cultural do pan-africanismo, sobretudo os que estavam morando fora de África, cultuando com orgulho a raça, as culturas tradicionais (tribais), relativas ao mato e ao campo, numa estética do retorno ideal às origens, de reencontro com um passado grandioso, utopia da felicidade, à semelhança de uma recuperação rousseauniana. Agostinho Neto, em Angola, Aguinaldo Fonseca, em Cabo Verde, Noémia e Craveirinha, em Moçambique, e Tenreiro e Tomás Medeiros, em São Tomé e Príncipe, exemplificam esse movimento de aproximação genuína ao povo africano e sua herança, de uma maneira racista anti-racista, para glosar a expressão de Sartre, no prefácio à antologia de Senghor.

 

Inaugura-se uma quinta fase, de Resistência (1961-1974), com a entrada na década de 60 e o início da luta armada de libertação nacional, despoletada, em primeiro lugar em Angola, passando a ser produzida uma literatura não de todo circunstancial, primeiro angolana e, depois, moçambicana e guineense, por escritores tanto com inferior nível de escolarização como com estudos superiores, cuja orientação ideológica e política é expressamente anti-colonialista, que engloba, para além de um específico corpus de guerrilha, também, a partir de 1969, uma temática e um discurso de Ghetto, relativos estes ao curto período final do colonialismo português. Essa literatura cria textualmente a nacionalidade, antes da sua existência política.

 

Tomando a designação de Resistência de Barbara Harlow, já usada por nós no livro Literaturas africanas de expressão portuguesa (1995, p. 227), nela incluímos, sublinhe-se de novo, nesse primeiro momento, uma temática de guerrilha, cujas características, para além das já mencionadas, são o posicionamento anti-imperialista (anti-norte-americano sobretudo, mas também anti-apartheid), o nacionalismo (a declarada formação textual da nação, aliás já antecipada em textos do Casticismo, por exemplo, do angolano Agostinho Neto e do moçambicano José Craveirinha), a espacialização das "zonas libertadas" e do exílio, com recursos discursivos provenientes do panfletarismo. Como representantes desse discurso poético e romanesco encontramos Pepetela e Costa Andrade, entre outros, em Angola, Kaoberdiano Dambará, em Cabo Verde e Guiné-Bissau (quando as duas colónias tinham um mesmo movimento de libertação actuando nesta última), Sérgio Vieira e Jorge Rebelo, em Moçambique.

 

Na segunda metade dos anos 60, nas cidades coloniais, sob uma implacável censura, conseguem alguns escritores publicar, em periódicos e livros, certos textos que camuflam alusões revolucionárias com a capa do mais inocente lirismo amoroso, telúrico ou festivo. O angolano Arnaldo Santos, com Tempo de munhungo (1968), livro de crónicas-contos, é um dos primeiros a aludir ao tempo cinzento, colonialfascista, que, então, era dado viver. Tratava-se de uma estratégia textual de ghetto, em que, no hinterland, os escritores aludiam à revolta individual (em conotação com a revolução colectiva), às vezes sob a máscara de um existencialismo mitigado, estranho, quase incompreensível nesse contexto de leitura. Pela primeira vez, houve sinais da leitura do Concretismo ou do movimento Práxis brasileiros, em renovação formal compreendida numa estética da sugestão e da alusão, de que são exemplos significativos um João-Maria Vilanova, David Mestre, Jofre Rocha e José Luandino Vieira, em Angola, Corsino Fortes, em Cabo Verde, e Luís Bemardo Honwana e Sebastião Alba, em Moçambique. Sintomáticos, os livros de poemas de David Mestre, Crónica do ghetto (1973), e de Jofre Rocha, Tempo de cicio (1973).

 

Passa-se à sexta fase, decisivamente diferente, da Contemporaneidade (1975-1998), com as independências dos quatro países em 1975 (a Guiné-Bissau declarara a sua, já em 1973), acarretando uma transformação radical nas estruturas de poder, da sociedade, da economia e da cultura, em que se verificou uma mudança não menos radical no percurso das literaturas.

 

Caracteriza-se tal fase, num primeiro momento (1975-1985), em que o patriotismo inflama o estro literário e os ânimos cívicos, por nela vigorar certo estalinismo ideológico e estético (com as nuances próprias de cada país e sobremodo pelo contexto africano pós-colonial), em que, por vezes, se combinam loas hagiográficas aos heróis da revolução e cânticos de exortação contra os agressores internos e externos, estes mediando guerras civis através daqueles. Esta estética do orgulho pátrio tem expressão num Jorge Macedo, no romance Geografia da coragem (1980), ou na poesia de Garcia Bires (ambos de Angola), tanto como na poesia de Rui Nogar ou na narrativa de Lina Magaia (ambos de Moçambique).

 

A superação dos traumas políticos, ideológicos e literários tomou-se possível somente após a primeira década de independência política (recorde-se a questão, empolada ou não, com ou sem adequação teónca, da subserviência das literaturas africanas perante modelos alienígenas, europeus ou não).

 

Assim, a superação do estigma colonial, a pós-colonialidade estética (1986-1996), ocorre com o degelo da Guerra Fria levada a quente a alguns pontos do planeta. Fundamenta-se, por um lado, numa reacção anti-jdanovista, anti-comunista, e, por outro, na correlativa ânsia de democratismo burguês, gerando uma atomização, repercutindo em variadas fragmentações esteticistas (de tipo neo-simbolista, neo-concretista, neo-surrealísta, etc.), que o existencialismo ou o misticismo ajudaram a consolidar.

 

Seria interessante, noutro espaço, destrinçar a medida em que os revérberos de esteticismos vários são também estilhaços de uma propensão estética advinda do natural multiculturalismo de base étnica dessas novas nações e sociedades. Pensamos, a avaliar pela obra de Germano de Almeida e de Vasco Martins (os dois de Cabo Verde) ou de Mia Couto, Eduardo White, Luís Carlos Patraquim e Nelson Saúte (todos de Moçambique), tanto como de José Eduardo Agualusa e João Maimona (ambos de Angola), que se trata, finalmente, de exorcizar os derradeiros fantasmas e medos de cruentas guerras e ameaças de perda de independência, para, nalguns casos, como em Maimona, partir em busca de discursos originalíssimos no contexto dessas literaturas.

 

Por outro lado, escritores corno Aíto Bonfim e Sacramento Neto (de São Tomé e Príncipe) persistem na revisão crítica dos fantasmas e das ameaças concretas, decerto por o presente reavivar traumas do passado, enquanto um João Melo (de Angola), sobretudo este, alia a experimentação original a uma quase-notícia do quotidiano e a, ainda e sempre, exasperantes retomas de obsessões, que muito bem conhecemos, do tempo colonial.

 

Podemos dizer que, no momento em que escrevemos, se assiste a uma liquidação (ao repensar literário) dos antigos mitos, sonhos, realidades e utopias, estando a escrever-se, na narrativa, um novo capítulo da história dessas cinco literaturas, que é, possivelmente, o da perplexidade e da incerteza contemporâneas, verificável nas obras de José Eduardo Agualusa, Germano de Almeida, Pepetela e Mia Couto. Resta saber, face às contingências e solicitações da instituição literária, na contemporaneidade pós-colonial, se as literaturas africanas se deslumbrarão com a sociedade do espectáculo ou se hão-de inscrever na continuidade de um casticismo intemporal, tendo a capacidade de engendrar e de expressar novas utopias e esclarecimentos.

 

Bibliografia

LARANJEIRA, Pires, Literaturas africanas de expressão portuguesa, Lisboa, Universidade Aberta, 1995.

 

REIS, Carlos, O conhecimento da literatura. Introdução aos estudos literários, 2ª ed., Coimbra, 1997, pp. 407-486.

 

UNAMUNO, Miguel de, En torno al casticismo, Madrid, Alianza, 1986.

 

Santo Antônio da Platina/Jataizinho (PR), Agosto de 1997

 

 

Manuel Lopes toujours fidèle à Claridade

Marie-Christine Hanras

 

Evoquer l’œuvre de Manuel Lopes conduit bien évidemment à aborder la littérature capverdienne et à poser deux questions préalables : qu’entend-on par littérature capverdienne et quand est-elle née ? La réponse généralement admise est 1936 : avec la revue Claridade naît la littérature capverdienne. Claridade, c’est-à-dire clarté, lumière, était un mouvement culturel fondé pour témoigner de la vie de et dans l’archipel du Cap-Vert. Certes une littérature existait déjà, mais elle n’était pas totalement — voire pas du tout — engagée sur le chemin de la créolité, elle n’était pas vraiment imprégnée de la terre et des traditions capverdiennes (1) . C’était plutôt une littérature coloniale, une littérature d’outre-mer. Avec Claridade va apparaître une littérature moderne, régionaliste, qui annonce, 39 ans avant la proclamation de l’indépendance du Cap-Vert, une littérature nationale. Les trois fondateurs de la revue, Jorge Barbosa, Baltasar Lopes da Silva et Manuel dos Santos Lopes, n’ont publié ni programme ni manifeste, ils ont simplement présenté des sujets de thématique capverdienne : la langue et la société créoles, le batuque et la morna, la sécheresse et l’émigration, etc. Aujourd’hui, 63 ans après, que reste-t-il de cet élan courageusement pré-nationaliste (2) ? Jorge Barbosa et Baltasar Lopes da Silva ont disparu, le premier en 1971, le second en 1989, Manuel dos Santos Lopes est donc le dernier (3) à propager ce que nous appellerons la foi claridade... outrance verbale, peut-être, mais nous allons tenter de nous en expliquer.

Notre propos est double : démontrer que malgré le temps et l’éloignement Manuel Lopes est resté fidèle à son pays et à ses idées, et montrer comment à travers cette fidélité son œuvre a retenu, malgré certaines critiques et quelques réserves, l’attention des écrivains des générations post-claridosas.

Manuel Lopes s’est essayé à l’écriture avant 1936 : ses premiers écrits ont été publiés dans le Novo Almanach de Lembranças luso-brasileiro entre 1927 et 1930, mais lui-même considère qu’il est né plus tard à la littérature (4) , probablement en 1931 lorsque ses premières rubriques paraissent dans le journal Notícias de Cabo Verde. Les sujets qu’il y traite sont effectivement capverdiens : Mindelo, le poète Eugénio Tavares, la jeunesse capverdienne..., la thématique annonce les idées que développeront les claridosos. En 1932 il publie son premier livre : Paúl, qui est aussi le premier livre de prose littéraire publié au Cap-Vert. Il s’agit d’une chronique d’une trentaine de pages où il décrit les beautés de la vallée de Paúl dans l’île de Santo Antão. Ensuite paraissent des articles, des poèmes... C’est à cette époque aussi qu’il découvre la littérature moderniste brésilienne : Manuel Bandeira, José Américo de Almeida, Raquel de Queiroz, Jorge Amado, .... Une littérature qui va provoquer l’enthousiasme du petit groupe d’amis auquel il se joint souvent pour réfléchir à la situation de l’archipel et de ses habitants. Une littérature qui va ouvrir la voie à leur littérature : Baltasar Lopes da Silva propose que chacun écrive des poèmes, des chroniques, des études, des contes, etc. et il ne devra être question que des problèmes capverdiens. Claridade était née. Manuel Lopes en sera le premier directeur.

La déclaration de la guerre en 1939 et la fermeture de l’entreprise italienne où il est télégraphiste vont marquer un tournant décisif dans la vie de Manuel Lopes. Il s’installe dans l’île de Santo Antão, île agricole qui sera le théâtre de bien des contes et romans à venir. Petit propriétaire terrien, entouré de paysans, il découvre la terre. Le changement est radical pour lui qui vivait dans le milieu maritime du Porto Grande de Mindelo. Il ne publie rien, mais il observe et prend beaucoup de notes. Après trois numéros, Claridade ne paraît plus : la guerre, la dispersion des collaborateurs et le manque d’argent sont les principales raisons de cette interruption que personne ne souhaitait. En 1941, une autre catastrophe s’abat sur l’archipel : une sécheresse terrible va provoquer la famine et la mort de plus de 24.000 Capverdiens. Impuissant, marqué profondément par ce drame, Manuel Lopes retourne à Mindelo où la Western Telegraph Company lui propose de reprendre son métier, mais il doit partir, quitter le Cap-Vert : son poste est aux Açores, à Horta. Ce départ est définitif, il ne reviendra qu’occasionnellement au Cap-Vert. Il va vivre onze ans à Horta, de 1944 à 1955, puis son itinéraire professionnel le conduira à Carcavelos, près de Lisbonne. En retraite depuis 1968, il vit dans la capitale portugaise, entouré de souvenirs du Cap-Vert...

Nous avons délibérément choisi de nous attarder sur la période de non-production (apparente) littéraire de Manuel Lopes, c’est-à-dire le laps de temps allant du numéro 3 de Claridade (1937) au départ pour Horta, car elle nous semble décisive. Pendant ces années de silence, l’œuvre s’élabore, chaque ouvrage est à la fois conçu et vécu : Manuel Lopes observe et prend des notes, il enregistre. C’est la genèse d’une œuvre qui prendra forme un peu plus tard lorsque, éloigné malgré lui, il aura assimilé : il revivra alors des moments et des émotions du passé, il fera renaître des personnages, il décrira des paysages et des scènes de la vie quotidienne. C’est en cela qu’il est fidèle à son pays, car il témoigne pour le Cap-Vert, et fidèle à ses idées, car la thématique est capverdienne, claridosa. Pendant 53 ans il va reproduire des images, des bruits, des faits, vus, entendus, vécus avant 1944.

Tour à tour poète, conteur, chroniqueur, critique, essayiste, romancier (5) , Manuel Lopes a une production littéraire variée, mais toujours tournée vers un lieu et une époque. Comme si pendant 53 ans, prisonnier de souvenirs obsédants, il n’avait pas prêté attention à ce qui l’entourait : d’autres paysages, d’autres personnes... Nous savons qu’il n’en est rien, car Manuel Lopes est un esprit curieux, ouvert sur le monde et soucieux de la condition humaine. Force nous est pourtant de constater, en faisant l’inventaire de ses œuvres, qu’il a toujours écrit en pensant au Cap-Vert, plus précisément aux îles de São Vicente et Santo Antão à l’époque où il y vivait. C’est d’ailleurs ce qui frappe le lecteur : l’action de ses contes et romans se situe toujours dans l’une des deux îles citées, pendant un laps de temps assez court au début des années 1940, et les personnages se retrouvent d’un ouvrage à l’autre (6) . La question qui se pose alors est : pourquoi ce procédé ? Peut-être pour exorciser le passé, mais sans pour autant tout oublier. Ayant quitté le Cap-Vert dans des circonstances dramatiques, il se devait de témoigner, il devait célébrer le courage et la détermination du peuple capverdien dans sa lutte quotidienne pour la vie. Ses témoignages les plus forts sont certainement ses deux romans : Chuva Braba (1956) et surtout Os Flagelados do Vento Leste (1960). Ses écrits sont autant de preuves d’attachement, de fidélité, et l’on peut se demander si sa production littéraire aurait été aussi orientée vers le Cap-Vert s’il ne l’avait pas quitté ? L’éloignement n’a-t-il pas exacerbé les sentiments d’un homme si fortement attaché, engagé envers son pays ? Nous ne le pensons pas. Manuel Lopes n’aurait pas dévié de sa route et il n’a pas quitté la voie claridosa. Il nous en a d’ailleurs donné une preuve supplémentaire avec Falucho Ancorado, recueil de poésie publié en 1997 sur lequel nous reviendrons. Mais avant nous voudrions tenter de préciser le rôle de l’écrivain auprès de ses cadets.

Au long de ce modeste essai, nous avons employé les mots : foi, fidélité, attachement, engagé. Ces mots, qui appartiennent au registre de la noblesse morale, traduisent le sens de l’honneur et de la probité de celui qui a mis sa pensée au service d’une cause : le Cap-Vert. Avec courage et détermination, malgré l’éloignement, Manuel Lopes a continué à collaborer à Claridade tout en apportant sa contribution à différentes publications des Açores et du Portugal...

Nous avons déjà évoqué sa participation active à la vie culturelle et surtout littéraire des Açores dans notre étude Manuel Lopes. Um Itinerário Iniciático (1995), nous n’y reviendrons donc pas. Rappelons toutefois qu’un an après son arrivée à Horta, le journal A Ilha de Ponta Delgada commençait la publication d’une série d’articles sur la littérature moderne capverdienne et sur Manuel Lopes bien sûr. La plupart de ces articles était de Pedro da Silveira, journaliste et poète appartenant au groupe A Ilha, qui écrivait en 1950 : « O que vamos buscar aos caboverdeanos, ilhéus como nós e também súbditos de Portugal, é uma como que lição de atitude, uma indicação do caminho a tomar. Apoiados no exemplo dos escritores claridosos (...) lançámo-nos também à tarefa de descobrir o nosso arquipélago (7) . » La présence de Manuel Lopes a probablement encouragé les jeunes poètes açoriens, d’autant plus qu’entre-temps la revue Claridade a publié quatre numéros, après dix ans d’interruption, renforçant ainsi l’influence des claridosos qui s’étaient vus rejoints par la jeune génération : Arnaldo França, Nuno de Miranda, Teixeira de Sousa... Influencée par le néo-réalisme portugais, cette jeune génération avait lancé sa propre revue en 1944 : Certeza, deux numéros étaient sortis, le troisième fut saisi par la censure. Certes plus marqués sur le plan politique que leurs aînés, ces jeunes gens n’avaient cependant pas l’agressivité de la génération suivante qui va créer le Suplemento Cultural en 1958 : la censure l’interdira dès le second numéro (8). Contestataires, les collaborateurs du Suplemento Cultural accusent les claridosos de se montrer passifs et résignés, et la critique de plus en plus virulente va devenir querelle. Parmi les plus acerbes, citons Ovídio Martins, très engagé politiquement, et Onésimo Silveira, auteur d’un essai publié en 1963 : Consciencialização na Literatura Caboverdiana qui va consommer la rupture. N’épargnant personne, Onésimo Silveira dénigre toute la production des claridosos, leur reprochant en particulier l’évasionisme de leurs écrits et l’appartenance à un régionalisme européen, alors que les jeunes revendiquaient l’héritage africain. De Manuel Lopes, seul Chuva Braba lui paraît intéressant, il est vrai que le héros du roman refuse d’émigrer ce qui ne pouvait que plaire à ce défenseur de la cause anti-évasioniste. Pourtant malgré ces divergences d’opinions, Ovídio Martins et Onésimo Silveira avaient tous deux collaboré aux derniers numéros de Claridade en mai 1958 et décembre 1960... Manuel Lopes, pas plus que Jorge Barbosa et Baltasar Lopes nous semble-t-il, ne répondit pas publiquement à toutes ces attaques. La réconciliation ne vint que beaucoup plus tard, en 1986, lors du Symposium organisé pour le Cinquantenaire de la revue Claridade. Cependant il apparaît que les années 1960 marquent un temps d’arrêt pour Claridade : la revue ne paraît plus, ses collaborateurs de la première génération, c’est-à-dire les fondateurs, ne publient rien de nouveau. L’année 1960 voit la sortie du dernier numéro de Claridade et la dernière publication importante de Manuel Lopes avant longtemps : Os Flagelados do Vento Leste. Par contre d’autres revues paraissent, éphémères, sauf Cabo Verde, un bulletin « officiel » qui existe depuis 1949 et qui offre en particulier de 1962 à 1965 la possibilité de collaborer aux écrivains capverdiens, et ils sont nombreux et de toutes les générations. Mais si la lutte pour l’indépendance et l’accession à cette indépendance (1975) donnent des poètes très différents des claridosos comme Arménio Vieira, Corsino Fortes, Oswaldo Osório, etc., certains écrivains restent très proches de la thématique claridosa, en particulier parmi les auteurs de contes et nouvelles ou romans, genres littéraires où Manuel Lopes a plus précisément mis en pratique ses idées. Nous ne citerons que quelques-uns des ficcionistas qui ont ainsi suivi ses traces. Tout d’abord, rappelons les noms de collaborateurs de Claridade, mais Claridade deuxième phase : de 1947 à 1949, ou troisième phase : de 1958 à 1960, c’est-à-dire après que Manuel Lopes a exposé ses principes littéraires dans une rubrique intitulée Tomadas de vista et publié le conte Um galo que cantou na Baía... Nous trouvons ainsi António Aurélio Gonçalves, Nuno de Miranda et aussi Henrique Teixeira de Sousa qui aujourd’hui encore contribue à enrichir la littérature capverdienne. Puis, nous n’oublierons pas Onésimo Silveira, le fauteur de troubles des années 1960, qui a lui aussi récemment publié un roman dans la ligne claridosa, A saga das As-Secas das Graças de Nossenhor (1991), ainsi présenté par les Publications Europa-América : « O presente romance é o primeiro de um ciclo que se reparte por três situações e momentos diferentes da vivência típica das ilhas de Cabo Verde. » Enfin nous citerons Félix Monteiro pour sa déclaration au Diário Popular (Lisbonne) le 4 juillet 1963 : « A vitalidade do movimento claridoso é mais notória na ficção do que na poesia (10) . » D’autres auteurs n’ont pas participé à la revue Claridade mais ils en sont les héritiers directs. C’est le cas de Manuel Ferreira, portugais mais tout acquis à la cause créole, auteur d’œuvres authentiquement capverdiennes, de Luís Romano, de Orlanda Amarílis, de Teobaldo Virgínio... Curieusement, ces derniers appartiennent à la diaspora capverdienne, comme Manuel Lopes, ils ont quitté le Cap-Vert mais ils lui sont restés fidèles.

Immédiatement après l’indépendance, la revue Raízes (1977-1981) a réuni toutes les générations, mais c’est Ponto & Vírgula (1983-1987) fondée par Leão Lopes, Germano Almeida et Rui Fuigueiredo qui est pour nous le dernier relais : les claridosos (Baltasar Lopes, Félix Monteiro, António Aurélio Gonçalves...) y participent, Manuel Lopes est sensible à cette revue qui présente de nombreux et différents aspects de la vie au Cap-Vert, avec humour de surcroît. Les auteurs des quinze dernières années sont nettement différents, certes ils sont eux aussi les héritiers de Claridade, mouvement fondateur de l’indépendance culturelle, mais la poésie s’oriente vers une thématique plus moderne tendant vers l’universalité : citons par exemple José Luís Hopffer Almada et Vadinho Velhinho. La prose est marquée par un roman d’un style très nouveau : O Testamento do Senhor Napumoceno da Silva Araújo (1989) de Germano Almeida. Et il convient d’évoquer la production littéraire en créole de Manuel Veiga ou Tomé Varela. La fiction en général s’est détachée des thèmes si souvent évoqués par Manuel Lopes : la sécheresse, la faim... pour se tourner davantage vers des sujets d’actualité, des sujets s’intéressant aussi bien à des questions internes à l’archipel qu’externes. La littérature d’aujourd’hui est l’aboutissement des actions menées depuis 1936 : conquête d’une culture autonome, accession à l’indépendance politique, reconnaissane d’une identité nationale.

Tous furent cependant unanimes en 1986 lors du Symposium organisé pour le Cinquantenaire de Claridade : il s’est bien agi de la part du peuple et du gouvernement capverdiens d’une reconnaissance officielle du rôle prépondérant joué par le mouvement depuis un demi-siècle. Ce fut une semaine de rencontres et de réconciliations, nous l’avons dit plus haut, un moment intense au cours duquel les jeunes et les moins jeunes ont rendu hommage aux deux fondateurs présents : Baltasar Lopes et Manuel Lopes.

L’influence de Claridade est donc indéniable. Le rôle de Jorge Barbosa et de Baltasar Lopes s’est exercé directement dans l’archipel qu’ils n’ont que rarement quitté. Manuel Lopes a vu quant à lui sa mission sublimée par l’éloignement. Son œuvre, rééditée dans les années 1980, entièrement tournée vers son pays d’origine n’a pas laissé les jeunes générations indifférentes et nous voudrions conclure cet essai en présentant une nouvelle preuve d’attachement du poète à sa terre : le recueil Falucho Ancorado (11) .

Trente-sept ans après Os Flagelados do Vento Leste, roman publié en 1960, dix-huit ans après « Marcos », poème publié en mai 1979 dans la revue Colóquio/Letras (et annoncé comme appartenant à l’anthologie en préparation Falucho Ancorado), dix-huit ans également après « Cebola Branca », conte publié en novembre 1979 dans la même revue (et également annoncé comme appartenant à une anthologie en préparation : Mato Inglês e Outros Contos), Manuel Lopes offre donc à ses lecteurs un nouveau titre : Falucho Ancorado.

Il s’agit d’un recueil réunissant des poèmes écrits tout au long de la vie de l’auteur, 71 ans de poésie. Il se compose de quatre parties. « Antemanhã » regroupe des poèmes de jeunesse, tous écrits à São Vicente entre 1926 et 1935, c’est-à-dire avant Claridade. « Cais de Quem Ficou » présente des poèmes datés de l’époque claridosa à 1964. « Caminhadas » nous fait suivre l’itinéraire professionnel du poète appelé à exercer son métier de télégraphiste successivement au Cap-Vert, à Mindelo, puis aux Açores à partir de 1944 et enfin au Portugal où il vit encore aujourd’hui sans avoir oublié sa terre natale : le dernier poème (dernier par la date : 1980) de cette troisième partie s’intitule « Sherazade no Mato Inglês », lieu situé dans l’île de São Vicente. La quatrième et dernière partie « Poética de Edumir » a pour auteur le double de Manuel Lopes, Eduardo Miranda Reis, dont Edumir est l’acronyme; le jeune Eduardinho des contes « As Férias de Eduardinho », « O Sim da Rosa Caluda », etc., vient conclure ce recueil qui retrace l’itinéraire d’un homme de foi, un homme qui n’a renié ni son pays, ni son engagement littéraire et culturel : « O programa da Claridade era fincar os pés na terra caboverdiana » déclarait-il en 1959 au Diário Ilustrado (Lisbonne).

Falucho Ancorado : tout un programme car « la felouque est ancrée » dans les eaux du Porto Grande (dont la photographie en noir et blanc illustre la couverture), son ancre est symbole de fermeté et de fidélité, fidélité à sa terre, à ses idées et aussi à sa poésie puisque nous retrouvons, parmi des inédits, de nombreux poèmes déjà publiés mais pour la plupart réécrits, corrigés dans un souci inlassable de perfection.

Falucho Ancorado a été publié à l’occasion du 90e anniversaire du poète, anniversaire célébré à Mindelo, et notre souhait est que bientôt nous soit donné le plaisir de découvrir le recueil de contes annoncé en 1979 : Mato Inglês e Outros Contos.

Nantes, mars 1999.
Université de Rennes 2-Haute Bretagne.

Notas:

(1) Signalons toutefois l’émergence d’une certaine préoccupation de l’identité  culturelle et nationale chez quatre poètes capverdiens de la seconde moitié du xixe siècle : Januário Leite, Eugénio Tavares, José Lopes et Pedro Cardoso.

(2) En 1936, la dictature salazariste ne permettait pas aux ressortissants portugais de s’exprimer librement. La censure et la police politique veillaient. Les claridosos se sont donc montrés courageux en proclamant leur fierté d’être capverdiens, en revendiquant une identité propre.

(3) Nous parlons ici des trois fondateurs, car certains collaborateurs de la revue vivent et écrivent encore !

(4) Comme nous mentionnions ses écrits parus dans le Novo Almanach, il déclara : Escrevi esses poemas antes de nascer para a literatura (juillet 1985).

(5) Nous ne parlerons pas ici de Manuel Lopes peintre, car ce n’est pas notre propos.

(6) A ce sujet, voir notre étude : Marie-Christine Hanras, Manuel Lopes, Um Itinerário Iniciático, Institut capverdien du livre et du Disque, Praia, 1995.

(7) Cité par Urbano Bettencourt, De Cabo Verde aos Açores - à luz da « Claridade » (conférence), Mindelo, 1998, p.32. Nous avions également abordé la question dans notre communication A literatura caboverdiana vista dos Açores, au cours du Symposium sur la culture et la littérature capverdiennes (Cinquantenaire de la revue Claridade) à Mindelo en novembre 1986. (Les actes n’ont pas été publiés).

(8) L’Afrique portugaise est en rébellion. Amílcar Cabral a fondé le PAIGC (Parti Africain pour l’Indépendance de la Guinée et du Cap-Vert) en 1956. La surveillance de la censure et de la PIDE s’intensifie.

(9) Voir Gabriel Mariano, Cultura Caboverdeana (essais), éd. Vega, Lisbonne, 1991. Préface de Alberto Carvalho. Gabriel Mariano fut l’un des collaborateurs du Suplemento Cultural et de Claridade.

(10) Cet article est reproduit dans le Bulletin Cabo Verde n° 13-15 d’octobre-décembre 1963.

(11) Manuel Santos-Lopes, Falucho Ancorado, éd. Cosmos, Lisbonne, 1997. Préface de Alberto Carvalho. Bien que publié en 1997, ce recueil vient de sortir en librairi

 

 

 

Vêem-se caras mas não se vêem corações: no lançamento do livro porcos em delírlo de Jorge Carlos Fonseca

João Vário

 

Venho falar-vos dum poeta, a quem a última obra publicada, Porcos em Delírio, que vai reter a nossa atenção, acaba de dar, pela sua envergadura, um lugar muito especial na poesia do nosso país, um lugar que, em minha opinião, ele ocupa sozinho.

 

Explico-me: trata-se dum poeta que, um tanto ou quanto fora dos cânones da nossa poética de hoje, pratica um surrealismo tardio para fazer uma poesia de forte cariz satírico. Uma poesia percorrida por uma ironia que coloca o mundo num páteo de chacota delirante ou moralizante, num eixo de riso perdido, amiúde amargurado, por vezes amargamente devastador, feroz, mas cuja inteligência ou perspicácia subjacentes parecem advertir-nos de que, se não concordamos com o essencial, é porque não estamos hoje suficientemente atentos às coisas desta vida ou da nossa terra, a muito infortúnio nosso e a peias cruciais. E que, em definitivo, tende a acrescentar nas entrelinhas, o que nelas se observa não nos merece ou não merecemos o que certa gente delas faz. E o irrisório, a mazela galopante, frequentemente destabilizadora e insensata, o mau desempenho generalizado de muitos protagonistas da coisa pública e de muitos fazedores de opinião é gritante, inaceitável, inadmissível.

 

Este livro, Porcos em Delírio, é um pouco estranho na sua ressonância, no padejo do seu texto e na sua rota. Um livro arrojado e alarmante nos seus propósitos e na sua semântica, já que, em jeito que alguns dirão panfletário, anuncia e denuncia no poema de que retira o título

 

Os porcos estão em liberdade. (…)

Grunhem com uma elegância inusitada, pêlos escovados a preceito e a dicção amenizada. (...)

comportamento naturalmente mudou. Os porcos exigiam lama e merda diferentes. (…) (p.560)

 

Apesar da míngua de água, milho, folhas e outros víveres, os porcos pareciam felizes com a sua desgraça Dormiam, fornicavam, respiravam o ar comum, repleto de oxigénio e bicharocos inofensivos, escutavam, anestesiados e apalermados, a rádio porcina, muita música e conversa Enfim compraziam-se na fatalidade de um destino feito de servidão, arroto fácil, sexo pregado na testa e um langor tresmalhado. (pp.55-54)

 

É difícil não ver nesta alegoria algo que diz respeito a este arquipélago de Jorge Carlos Fonseca (JCF), antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros, advogado e homem político, que, para usar a fibra irónica muito do seu gosto e já que há neste livro muita referência à política, a partidos políticos e ao poder, se dirá que já comeu a três mesas, três manjedouras, porque foi sucessivamente de 3 partidos, incluindo o que esteve no poder e o que está actualmente no poder.

 

Sem me deter nesse tipo de considerações, porque, ao fim e ao cabo, o que conta aqui é a abordagem poética, cabe, entretanto, notar que é significativo que o livro fale como fala desta sociedade, em que se instalaram, ao que parece por um tempo indeterminado, desde a sua base até ao topo, três figuras que eu designarei por os discutidores da merdinha enfeitada (pessoas que, em vez de se ocuparem de questões importantes ou relevantes, se comprazem na discussão de coisas insignificantes, com intenso afinco, como se nisso estivessem envolvidas razões do Estado), os matadores do burrinho do bispo (pessoas que se empenham em desfazer coisas, em matar estruturas que, coitadinhas, não fizeram ou não fazem mal a ninguém, nem à sociedade civil nem ao Estado, e até são, pelo contrário, úteis) e os passadores de pau (pessoas que empregam o seu tempo a enganar o próximo, a 'passar pau', como se diz).

 

Estas três figuras do quotidiano relacional utilitário, os discutidores da merdinha enfeitada, os matadores do burrinho do bispo e os passadores de pau , instalaram-se, repito, em todos os escalões da sociedade, mas, particularmente no topo. Não é que sejam figuras novas. Na realidade, o que se regista com surpresa é a sua avassaladora e descarada proliferação. Quer dizer, predominam actualmente sem vergonha e, ao contrário das 4 figuras centrais do nosso imaginário colectivo popular - gongon, catchorrona, canilinha e capotona - que são, em última análise, benignas figuras, estas de que aqui falo são manifestamente malignas

 

Não é fácil escrever um livro que, mantendo-se como este, em larga medida, uma grande obra poética, porque nos traz pelo menos 4 quatro grandes poemas, dos maiores da nossa poesia, aparece também como um rápido manual de terapêutica, possivelmente sobretudo preventiva, para males sociais. Um livro raro entre nós. Não sintonizo com tudo o que lá está, mas percebo por que lá está aquilo que não aprecio ou não louvo. E aceito essa versão da incomodidade. Se ela não é toda a verdade, pode pelo menos prevenir ou dificultar que o resto venha a corporizar-se, a instalar-se definitivamente na via pública, parece dizer-nos o autor.

 

Porquanto, certo é que quem não gosta que lhe sejam mostrados o mal ou o desacerto da maneira como são mostrados nestes poemas não pode, contudo, ignorar que atormentam o nosso espírito, amachucam a nossa vida. E talvez ninguém, quando aturdido por elas, consiga melhor apuramento ou melhor relato dos seus feitos e das suas sequelas que o que a amargura dita. Uma amargura, um desapontamento e uma revolta como as de Porcos em Delírio e as contidas numa entrevista concedida há poucos anos por JCF à revista Artiletra.

 

Um livro, que é, em larga medida, uma grande obra poética, dizia eu. Que é isso, afinal?

 

Em 1984, em Paris, numa comunicação a um Encontro de Escritores dos Países Africanos de Expressão Portuguesa, intitulada Arte Poética e Artefactos Poéticos. Reflexão sobre os últimos 50 anos da Poesia Caboverdeana, fiz um breve balanço, que incluía poucos nomes de monta. Assinalava, então, vozes incipientes - Vera Duarte, Arménio Vieira, Jorge Carlos Fonseca, Oswaldo Osório, este último já com leitores nessa altura. Há seis anos, numa entrevista ao Jornal Voz di Povo, falei de 6 grandes poéticas. Presentemente, há sem dúvida que acrescentar mais duas grandes poéticas, ilustradas pelos livros Os Loucos Poemas de Amor e Outras Estações Inacabadas (1997), de Oswaldo Osório, e Porcos em Delírio (1998), de Jorge Carlos Fonseca, o livro que nos reúne hoje nesta sala. Também importa indicar dois poetas de muito interesse, Vera Duarte (Amanhã AMadrugada) e Mário Lúcio (Nascimento dum Mundo).

 

Não se ignora que a excelência é coisa quase maldita na arte e na literatura, porque de discutível ou frágil caracterização. Quem quer incontestáveis certezas no tocante à excelência parece que só as pode ter noutros horizontes - no desporto, por exemplo. Este atleta é o melhor, porque correu mais rápido do que os outros, ou saltou mais alto ou mais longe, lançou o peso ou o disco mais longe, etc. O cronómetro e o metro são irrefutáveis aferidores da excelência. No campo da estética, as equações de Birkoff não são de nenhum auxílio, são de toda evidência inoperantes para avaliar a beleza. Quantificar, medir, como em ciência, ajudam a instalar a objectividade, promovem a reprodutibilidade do juízo, norteando os critérios e protegendo as regras e os parâmetros. O dolo, a displicência, o erro, o erro involuntário, em primeiro lugar, podem ser esconjurados, precavendo-nos contra a interminável controvérsia infundada ou embirrada.

 

Aqueles que sabem tudo isso, quando julgam a arte, a literatura, a poesia, o que decidimos fazer a propósito do livro de JCF, não são os mais felizes, mas são decerto os que estão mais prontos a baixar a voz, a dar mostras de prudência, humildade e comedimento. O que não quer dizer, porque é outra matéria, falta de convicção ou renuncia à pertinência e ao escrutínio abalizado. Como abalizado?

 

Só os ingénuos, os fanfarrões e os ignorantes podem pretender analisar obras de arte sem terem adquirido previamente informação ou formação adequadas. Como já o frisei algures, uma das características da criação artística e literária modernas ou contemporâneas é que exigem isso mesmo. Ninguém com algum sizo se atreve a dar opinião sobre um problema de biologia, de matemática ou de física, se não tiver uma formação apropriada ou especializada. Sente-se que algo de semelhante ocorre com muita arte e literatura do nosso tempo (nomeadamente a poesia, a música e a pintura). É preciso ser-se iniciado nelas para poder fazer uma apreciação válida, criteriosa, ou ajudar a sensibilidade a amar sem lamentáveis enganos. Isto revela duas coisas, a meu ver: não o velho sonho de alguns de a arte se ter aproximado da ciência (Xenakis, por exemplo, sustenta que a música é ou pode ser uma ciência), mas, primeiro, que o criador moderno percorre caminhos mais árduos, aparentemente mais rigorosos do que os seus predecessores; segundo, que esses caminhos são cada vez menos balizados pelas emoções e mais pela razão que de certa forma fiscaliza o que possa haver de gratuito naquela, como a imaginação do criador de ciência. Assim sendo, como em ciência, cujo produto também pode ser estético (Einstein dizia, cito de memória, que de duas teorias igualmente plausíveis, escolhia a que lhe dava o mesmo prazer estético que uma sonata de Mozart ou uma partitura de Bach), a obra literária ou artística recusou à emoção o seu primeiro tributo integral, que ofereceu de preferência à razão e à busca aturada do equilíbrio e da harmonia, virados para um objecto que, na sua organização, na sua feitura, se se revela pupilo da emoção, sê-lo-à a posteriori, como a obra científica, porque levantado do indizível pela perseverança instrumentada (para não dizer escrutínio instrumentado), que mediu, quantificou, quase inconscientemente, para a fazer nascer, crescer, impor-se como irrevogável ou irrecusável ente natural, resultado de regras invisíveis, porém naturais (porque nascidas da imaginação criadora), porém 'especializadas', pelo que só o especialista as detectará eventualmente.

 

Tenho por mim que o aqui fica talvez na prática explique por que só agora, após anos de tentativas e de esconderijos ou de jogos de cabra-cega, a grandeza de JCF se manifeste com Porcos em Delírio, ou a de Oswaldo Osório com Os Loucos Poemas de Amor e Outras Estações Inacabadas, ou a de Manuel Figueira com os trabalhos plásticos dos anos recentes, isto para citar casos que me interpelam. Já tenho dito a amigos meus que escreverei sobre o tema sob o título Porquê só agora? Conhecemos numa certa medida as emboscadas e as peripécias que a maturidade urde para os criadores, pelo que é dos seus mecanismos que mais me interessará ver se percebo alguma coisa.

Mas, nesta apresentação, a questão mais imediata e facilmente respondível será por que evocar, a propósito da poesia do arquipélago e de JCF, os problemas de crítica de há pouco?

 

Porque para pôr os pontos em dados ii, que se vão seguir, pode-se começar por lamentar que continue a haver muita desenvoltura no escasso esforço de reflexão que se vai produzindo sobre a nossa coisa literária.

 

Há poucos anos alguém dava uma lista de nomes de poetas universais destas terras: um desvario! Muitos dos autores citados, se levarem a sério a afirmação, que vinha dum universitário caboverdeano emigrado, docente numa universidade dum país escandinavo, correm o risco de nunca aprenderem a fazer poesia, coisa de que ainda precisarão por muito tempo, ao que indica a análise dos respectivos versos.

 

Mas não é por esse caminho das vicissitudes da miopia crítica e do elogio dos falsos valores que vale a pena prosseguir, já que mesmo os que fazem declarações do tipo supramencionado parecem, por vezes, admitir pelo menos o óbvio pressuposto seguinte: a qualidade estética não cai do céu. Tão pouco, evidentemente, emerge por determinação do crítico.

 

Nesta perspectiva, uma coisa me parece poder dizer-se: a poesia caboverdeana de hoje é no geral mais complexa, mais culta do que a do passado. Julgo que um livro como este de JCF, não falo tanto do conteúdo como da forma, não seria de esperar nestas ilhas da parte de poetas de há 50 anos.

 

Publica-se mais poesia, hoje. A população duplicou ou triplicou. Também o número de grandes poetas; terá passado de 2 para 9, ouso avançar. Um número aparentemente modesto, mas pode-se estimar satisfatório dada a população do país, também ela reduzida, não o esqueçamos. Note-se que, ao que se revela, há cerca de 60 escritores inscritos na Associação dos Escritores Caboverdeanos, talvez num total de 80-90 escritores, incluindo possivelmente os da diáspora. Um número igualmente modesto, por certo proporcional ao pequeno número de habitantes destas terras, em que não há uma cultura e crítica universitárias. Somos um povo que estuda pouco, não persevera na criação literária e artística, não sente geralmente (salvo 23 excepções) responsabilidade profissional de criar assiduamente para deixar uma obra.

 

Dizia, há instantes, que creio que os poetas de hoje têm duma maneira geral uma cultura mais universalista do que os seus predecessores. É provável que estes tivessem uma maior informação em antropologia social ou cultural (ou em ciências humanas?) do que aqueles. Não basta isso naturalmente para fazer boa literatura ou boa poesia e é possível, ao fim e ao cabo, que o aumento do número de grandes poetas, tal como no caso de exemplos desportivos, seja urna manifestação da lei das probabilidades, evidenciando-se com o aumento da população.

 

Mas esses escritores caboverdeanos do passado recente, que estavam muito interessados em antropologia cultural e descuraram, de certo modo, muita poesia do seu tempo, talvez tenham, em definitivo, feito a boa escolha, porque isso aparentemente lhes terá permitido inventar rapidamente, por assim dizer, uma poesia de imediato carácter nacional, uma poesia caboverdeana. Reconheça-se, entretanto, que a estrutura é relativamente simples (excepto no caso de Osvaldo Alcântara). Refira-se que, por essa altura, estavam a trabalhar T. S. Eliot, Ezra Pound, Perse, Kavafis, os surrealistas. Pouco ou nada disso, nenhum eco praticamente dessas poéticas se ouve na poesia dos seus contemporâneos destas ilhas. Em contrapartida, os poetas, que se lhe seguiram, estudaram e utilizam na sua oficina os instrumentos dos surrealistas. E destes empregam sobretudo o mais belo que os mestres modelaram e levaram às últimas consequências-a metáfora, a álgebra superior da metáfora, como escreveu Ortega y Gasset. No caso de JCF pode-se inferir que há um profundo amor pelos surrealistas, um amor dir-se-ia exclusivo e que dura até agora. Basta ver como ele cita quase todos os grandes nomes do movimento e como escreve sem realmente sair das técnicas surrealistas (por exemplo, além da metáfora, a palavra choque, as associações imprevisíveis, o efeito inusitado, o apuramento do poema em prosa), o que geralmente já ninguém faz de forma tão exclusiva, presentemente. Por isso, falei sem sentido pejorativo, bem entendido, de surrealismo tardio. (Repare-se que os poetas de hoje dão mostras de terem assimilado as contribuições técnicas das correntes maiores da poesia do nosso tempo, designadamente o simbolismo, o surrealismo, o expressionismo, a poesia concreta, como, de resto, os pintores, os escultores, os músicos, os cineastas, porém usam-nas praticamente na mesma dose, por assim dizer, de tal modo que já não se pode afirmar que este é surrealista, esse é expressionista, aquele é simbolista. Mas JCF é ostensivamente surrealista).

 

Diga-se, em abono da verdade, que os homens, que forjam há uma trintena de anos a nossa poesia, estão atentos a muito do que se faz neste século. Assim, não surpreende que a poesia caboverdeana de hoje se apresente mais exigente, mais diversa, mais variada, duma construção geralmente mais ambiciosa.

 

Neste contexto, queria insistir sobre dois aspectos, que se me afiguram essenciais em Porcos em Delírio: a importância do léxico e aquilo a que eu chamaria o peso da inteligência na arquitectura duma obra literária ou artística. Antes de o fazer evocarei uma recordação. Quando eu era estudante de medicina em Lisboa, tive como professor, no último ano do curso, um dos raros portugueses com trabalhos científicos conhecidos fora do seu país. Chamava-se ele João Cid dos Santos e era filho dum cientista português, também de renome internacional, Reynaldo dos Santos. Cid dos Santos tinha vários assistentes e adquirira o hábito de confiar certas aulas teóricas a primeiros assistentes que nelas abordavam questões de que tinham alguma experiência directa.

 

Lembro-me especialmente duma lição dum desses primeiros assistentes sobre a coagulação do sangue, ainda hoje um dos mais complexos fenómenos da biomedicina. Como era seu costume nesses casos, Cid dos Santos sentou-se entre nós, os alunos, no anfiteatro, para ouvir. No fim disse mais ou menos isto: "eis uma lição que eu seria incapaz de fazer; não possuo este tipo de inteligência, que um assunto desta natureza exige; falo sobretudo de minúcias, de detalhes, que importa dominar para fazer uma tal prelecção". Fiquei surpreendido e deslumbrado.

 

Na sua modéstia e bom senso esse comentário anunciava, aos jovens que nós éramos, uma verdade fundamental, muitas vezes escamoteada: "quem quer que sejamos é bom reconhecermos que há dons que nos ultrapassam, que não possuímos".

 

Porcos em Delírio é um livro que eu seria incapaz de escrever, creio. Um livro com alguma grande poesia, já o disse. Seria incapaz de o escrever, porque não possuo o tipo de inteligência inquisitiva, de forte pendor cáustico ou sarcástico, que o organiza, o vigia, doma esse seu singular material poético e o distribui dessa forma endiabrada pelos versos, fazendo dum léxico inusitado matéria prima da reflexão, que implica algum distanciamento, e colhendo no seu devir ou na sua integração o motivo mais imediato para o trabalhar numa perspectiva de propagação ou de cadência infatigável ou, pelo menos, sem um término explícito ou determinado. Sem pausa, pois, mesmo rugosa, para a candura ou a pacificação. (A palavra puxa a palavra e é o léxico que o diz ou lembra, e o poeta verifica e cristaliza essa multiplicação em toda a sua cumplicidade de parteiro ou sua transe de iluminado.) Quando há uma voz assim, há em geral um estilo específico e, quando há um estilo, há uma pressurosa inteligência a trabalhar em toda a largura da página. Disso dá conta o êxtase do leitor, que sou eu, e a propedêutica, fascinada, do vasculhador da arquitectura geral da obra, que também sou, enquanto crítico, para além de companheiro de armas e dessas lides de fazer poesia.

 

Assim, pois, estou a falar da existência neste livro dum vocabulário peculiar, de palavras que não vejo noutros livros de poetas nossos, em suma, dum tom original.

 

Vejamos mais de perto o que move o nosso autor.

 

É um poeta que cuida, à sua maneira, do estatuto do amor e da zombaria, e que, porque tem uma certa ideia do contrato social, molesta a suficiência e a asneira pública, provavelmente sobretudo desde que se tornou maratonista. Um homem de que um dos maiores prazeres, segundo declara espontânea e sinceramente durante um interrogatório da polícia, é

 

apreciar a solenidade de uma longa marcha de lombrigas (p.88)

suicida-se amiúde em acrobacias e escritos de amor e paixão

 

e também

ensina e publica estudos sobre o delito e a pena (p. 89)

e como tem

a paixão irremediavelmente inscrita na alma (p. 86)

é também

capaz de escrever cartas de amor e de paixão, trezentas e noventa e nove ao todo (p.88)

São, em definitivo,

tentativas de eternidade possível (p. 88)

 

Este poeta prolixo pode, talvez por isso mesmo, comprometer-se com o silêncio, como ele diz, o que lhe permite publicar uma coisa destrambelhada, mas vigorosamente sua, O Silêncio Acusado de Alta Traição e de Incitamento ao mau Hálito Geral.

 

Em 1991-1994 completamente embriagado pela liberdade veste-se de verde, tornaa-se sisudo e ministro (p.87)

 

Temos aqui um dos mais belos versos da poesia caboverdeana. E um resumo da arte de poetar de JCB

 

embriagado pela liberdade, veste-se de verde (perguntem-lhe por que é que o verde e o roxo são as cores que amiúde aparecem no poema).

 

A primeira impressão perante este verso é seguramente a surpresa pela inesperada reunião de conceitos e palavras que parecem avessas a um tal casamento: torna-se sisudo e ministro. Por razões do oficio, nada há habitualmente de menos sisudo do que um ministro. Como surpreende o fragmento veste-se de verde. (Que relação com o resto?). Na aparente falta de lógica, no insólito da junção desses conceitos e palavras reside um dos encantos do verso. E JCF, como todo o poeta que conhece a profissão, recorre frequentemente a esse efeito, que, após o espanto, fascina o leitor.

 

seu léxico é feito de mais palavras concretas do que abstractas, palavras concretas (orgasmo, esperma, sexo, seio, lábio, touro, mulher, cidade, roxo, verde, pêlo), que no geral tendem a tecer uma situação de estranheza, quase de delírio emocional ou um enredo narrativo de índole finalmente abstracta, o que não é a menor surpresa desta poética. (Pode-se talvez pôr na conta da criação desse clima de estranheza ou de provocação a paginação inversa e os vários poemas riscados, quase todos, de resto, insignificantes.) Uma outra surpresa é que, sendo desbragado ou, por vezes, furiosamente irracional o que conta ou aponta, esta poesia é organizada segundo um ponto de vista que a articula com uma notável clareza, uma esforçada limpidez e, descobre-se ulteriormente, é duma manifesta coerência ou racionalidade na sua textura, para lá da metáfora desaforada, mofina, por vezes espalhafatosa, mas geralmente bem vestida, luxenta, bela, não raro até perfumada.

 

Estamos a seguir uma das virtudes desta poesia, dum poeta, que nesses seus versos

declara-se inocente, totalmente inocente, vendo-se inclusivamente obrigado a enfrentar o touro convicto (87) ( ora essa! vejam lá, o touro convicto!)

 

Aguça o apetite, pelo crime, pela bola e pelo vinho (87)

 

Quer a sua cidade da Praia, de vagina célere, insubmissa e com dentes de fora, arreganhados. Uma vagina que aloje a América, toda a Guang Dong, Paris, as

avenidas de Kuala Lampur, ou Mun, para não falar das capitais LP (p. 81).

 

Mas nunca há-de aceitar que chamem à sua cidade, a essa vagina, vagina navegável (p.81)

 

Um poeta que prefere a vagina doce, rebeldemente anti-herói (p.71)

 

que pisca o olho a uma jovem imaginária "pernas e coxas de maizena" a qual lhe responde:

"Amo-te com um amor de baleia prostituta", (p.69)

 

um amante que se sentiu obrigado a comprar e a ler o livro "Beijar e amar sem mestre" (p.69)

 

um poeta que não sabe

se os ossos respiram docemente

pó catálogos amores mijados

uma pulga inadimplente

às vezes atrevida malandrota! ( p.65).

 

um poeta que escreve poemas electrónicos, que pode tropeçar

 

no charco impressionantemente fétido

de viúvas semanalmente canibais (p.21)

 

Fico por aqui. É de morrer a rir a coisa toda. Mas magnífica.

 

Mas sendo o que é, estranha-se que, tendo amaldiçoado, e bem, quer dizer com toda a razão, as palavras "prontes", e "digamos" e a expressão "com eficácia, eficiência e efectividade" (p.84), o poeta não tenha também amaldiçoado do mesmo passo portanto, essa bengala vergonhosa e irritante de todos os dias dos impotentes do discurso coerente.

 

Porcos em Delírio é um livro, cujo título o poeta discutiu apaixonadamente com René Char, que ele hospedou "no quarto sul de sua casa na Achada de Santo António durante vinte e sete dias e vinte e sete noites" (p.86), confia-nos num dos seus mais desconcertantes poemas e um dos mais bem elaborados, dos melhores trechos da nossa poesia, o qual é longa e rebarbativamente chamado Biografia sumária do autor, escrita por um antigo inimigo, hoje, depois da morte, seu admirador confesso. Bastariam este poema e 3 outros desta colectânea - À cidade da Praia, Porcos em delírio, Anúncio (oferta de mulher), melhor: borrão de mulher - para darem a JCF um lugar cimeiro na poesia de Cabo Verde. Aí está a espaços todo o esplendor do seu verbo irrequieto, provocador, argumentativo, a sua originalidade, de que os ingredientes são, recapitulando sumariamente, o léxico peculiar (melhor: o que faz dele), a ironia desenfreadamente analítica (que não recusa uma forte pitada de erotismo), baseada no paradoxo e na congruência, que pode ser de segunda leitura, dando o estilo próprio de que falei.

 

Ocorre-me neste momento um episódio de há 2-3 semanas: uma minha empregada desapareceu durante uma dezena de dias, após os quais telefonou para me dizer que, se eu, entretanto, não tinha arranjado ninguém, ela iria retomar o trabalho em minha casa; que esteve doente e que, durante esse tempo, tinha pensado em enviar-me alguém para a substituir, mas porque "que quem vê caras não vê corações", ela não o fez.

 

Vêem-se caras, mas não se vêem corações, uma expressão muito usada nesta nossa terra e não só, mas de que me esquecera. Lembro-me dela a propósito de JCF. Encontrei-o há anos, creio que em 1975, no Ministério dos Negócios Estrangeiros na Praia. Fiquei com a imagem dum indivíduo bastante afável e de certa urbanidade. No ano passado, na capital, por conseguinte 22 anos após o ter perdido de vista, inesperadamente convidou-me para almoçar. Reforcei, então, essa imagem de afabilidade e urbanidade. Estaria longe de pensar que um tal cavalheiro escrevia este tipo de poesia levada da breca. Dir-me-ão que uma coisa não exclui a outra. Mais quand même!

 

Decididamente, vêem-se caras, mas não se vêem corações. Tanto melhor, neste caso. É a lição a reter deste meu curto apólogo.

 

Mindelo, 4 de dezembro 1998

 

 

Cinema,animação, feiras, exposições
Festival dos Oceanos Anima Lisboa Segunda-feira, 14 de Agosto de 2000

Festival dos Oceanos já começou para animar Lisboa até ao final do mês. Em torno da ideia do futuro, na qual se centra este festival, haverá cinema, animação, feiras, actividades náuticas e exposições.

Nas "Noites de Viagem" é exibido, desde ontem, o filme "A Nova Lisboa 345 anos Depois do Terramoto", um projecto de Edgar Pêra, na Doca de Santo Amaro (junto ao edifício da Associação Naval de Lisboa). É uma história passada em Lisboa, no ano 2100, quando a Natureza já tomou conta da cidade e grandes florestas cobrem uma Lisboa transfigurada. A engenharia genética ou uma catástrofe radioactiva produziram espécies mutantes anfíbias que atravessam um Tejo despoluído. Há pássaros gigantes a sobrevoar a cidade, alguns deles, conduzidos por lisboetas humanos. Nas duas margens, a história inverteu-se e encontramo-nos num universo paralelo em que os diferentes continentes "descobriram" Lisboa e a Europa. As exibições deste filme serão às 22h30, às 23h e às 23h30. E o acesso é livre.

No Mercado Marítimo aberto na rua Augusta das 10h às 19h, será possível encontrar diversos produtos relacionados com o mar recriados pelas mãos de artistas plásticos, livros que nos contam histórias e memórias, gravuras e cartas de navegar e artes vindas de outros mares. Um espaço que é também visitado por actores e habitantes insólitos que surpreendem os visitantes.

Festival dos Oceanos oferece-nos também uma Feira Gastronómica com sabores e iguarias de vários continentes, numa travessia de oceanos com 10 portos diferentes para satisfazer apetites.

Lisboa é o ponto de partida, seguindo-se paragens nos Açores, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné, Índia, Macau, São Tomé e Timor.

Também os mais pequenos terão lugar de destaque nesta festa que animará Lisboa. Todos os dias, das 11h às 18h, podem divertir-se nos Jardins da Vieira Portuense, em Belém, num espaço que recebeu o nome de "Navegaçons", lugar de interacção dramático-musical criado a partir da construção de cinco instrumentos musicais gigantes: o Kissange, o Berimbau, o Mukaripu, o Bongopã e a Pandeireita.

Chamadas a ouvir histórias raras e desconhecidas, músicas novas e diferentes, convidadas a fazer todas as viagens, as crianças transformam-se em protagonistas destas "Navegaçons". As histórias de encantar também estão presentes e há um "Peixinho Vermelho" que convida a aprender os saberes e os valores de outras culturas. Não faltará arte circense.

A Marinha Portuguesa associa-se ao Festival dos Oceanos possibilitando visitas a barcos , como o Navio Escola Sagres, a Fragata D. Fernando II e Glória, às corvetas Pereira D' Eça e João Roby e ao submarino Albacora. Estas visitas serão possíveis na Doca da Marinha, enquanto o Tejo receberá, em festa, demonstrações e regatas de diversas modalidades como vela ligeira, canoagem, windsurf ou motas de água.

Duas exposições ocupam também lugar neste Festival dos Oceanos: "Memórias de Viagem" - que apresenta uma visão estrangeira sobre Lisboa e Portugal no século XVIII através de um conjunto de peças ligadas às artes plásticas e à literatura - na sala de Exposições do Palácio Foz e "100 Anos 100 Barcos", no Museu da Marinha - um percurso sobre os 100 navios e embarcações das Marinhas Mercante, de Guerra, de Recreio e de Pesca - que reflecte a história dos últimos 100 anos

 


Orlanda Amarílis è nata a Santa Catarina, isola di Santiago, nel 1924. Si trasferirà poi nell’Isola di São Vicente dove fin da giovanissima prenderà parte alla vita intellettuale di Mindelo. Qui, nel 1945, conoscerà e sposerà lo scrittore portoghese Manuel Ferreira e con lui si recherà prima a Panjim (Goa), dove risiederà per circa sei anni, poi in Portogallo, a Lisbona, dove tuttora risiede. È una delle più personali e rappresentative scrittrici dell’arcipelago di Capo Verde, la cui opera ha arricchito la letteratura capoverdiana apportandovi una visione femminile della realtà. La sua carriera letteraria inizia nel 1944, con una collaborazione sulla rivista “Certeza”. Ha finora pubblicato tre libri di racconti: Cais do Sodré té Salamansa (1974), Ilhéu dos pássaros (1983) e A casa dos mastros (1989), oltre ad alcuni volumi di letteratura per l’infanzia. In italiano è stata pubblicata un’antologia dei suoi racconti dal titolo Soncente, Racconti d’oltremare (Rimini - San Marino, Guaraldi-AIEP, 1995).
Suoi lavori appaiono inoltre su riviste e si raccolte antologiche di vari paesi. Thonon-les-bains è tratto da Ilhéu dos pássaros.
. http://www.sagarana.net/rivista/numero2/thonon.html
http://www.africaexpert.org/nav/countries/country8.html

www.instituto-camoes.pt/cvc/bvc/bibbreve/006/bb06.pdf
ferreiras bok om afro lit port

Amarilis, Orlanda Disillusion Heinemann Book African Women's Writing SC HEI 34-39
Orlanda Amarílis nasceu na Ilha de Santiago. Na Universidade de Lisboa fez o curso de Inspecção Escolar e o curso de Ciências Pedagógicas.

Entre 1976 e 1978, pertenceu à direcção da Associação Portuguesa de Escritores.
Colaborou com produções suas nas seguintes publicações: Certeza, Heraldo (de Goa), Colóquio/Letras e África, entre outras.

Obra:

Cais-do-Sodré té Salamansa, 1974
Ilhéus dos Pássaros, 1982
A Casa dos Mastros, 1989
Facécias e Peripécias, 1990

 

http://www.fflch.usp.br/posgraduacao/administracao/defesa/mest_let.html
Clarice Lispector e Orlanda Amarilis: solidão e resistência (mestrado)
Candidata: Heloisa Corrêa Moura
Programa: Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa

Orientadora: Profa. Dra. Nádia Battella Gotlib
Banca: Professoras Maria Apparecida de Campos Brando Santilli e Elisa Guimarães Pinto
Data/Local: 17/09/2001 às 14h30 - Sala de Defesas, 116


A AMARILIS Orlanda Soncente, Melting Pot, Guaraldi AIEP , Rep. Di San Marino, 1995
Attraverso storie talora realistiche, più spesso sconfinanti nel fantastico e nel simbolico, il libro ci mostra l’universo dell’arcipelago di Capo Verde, evocandone il paesaggio, la gente, la vita quotidiana.

Orlanda Amarilis è nata nell’isola di Santiago a Capo Verde in una famiglia di letterati (il padre ha curato il primo dizionario creolo-portoghese), ha studiato prima a Capo Verde, poi a Goa (ex Indie Portoghesi) per laurearsi infine in pedagogia a Lisbona. Ha svolto attività culturali in molti paesi africani, in America, in Europa. Ora vive a Lisbona dove insegna lingue africane all’Università.

& O MAIS - jornal de artes e letras

Número 3 - Julho/Agosto 1994, 16 páginas, cor: branco/couché.

Director: Luís Carmelo e Joaquim Tavares.

Design: matriz de Joaquim Tavares.

Tema principal: O destino (responsável: redacção).

Principal/capa: "Destino: o grande ditador ?" (pg.3 a 12).

Entrevista inédita de Rui Gustavo a Amália Rodrigues: "Vivo um contentamento descontente"(pgs. 8/9).

Suplemento: "Um olhar sobre Cabo Verde" (apoio da DRCA e ME). Participação de Artur Goulart e Orlanda Amarilis sobre pintura de Júlio Resende.

Inquérito a escritores de Cabo Verde

Como perspectiva a questão do bilinguismo em Cabo Verde? Em seu entender, possui o crioulo capacidades expressivas para vir a tornar-se a língua literária dominante em Cabo Verde? No seu caso, quais as razões da opção pela língua que utiliza (crioulo ou português) na sua produção literária?

É hoje consensual que a Claridade foi o momento decisivo na tomada de consciência da identidade cultural cabo-verdiana. Como se relaciona com o legado dos homens da Claridade? Em seu entender, a independência política de Cabo Verde deu azo a uma ruptura cultural de alcance idêntico ao da Claridade, ou não?

Como vê o panorama actual da literatura cabo-verdiana?

Quais são, em sua opinião, as funções que a literatura desempenha (ou, se assim entender, deve desempenhar) em Cabo Verde?

Indique as 5 obras que, independentemente do seu género, considere serem as obras maiores da literatura cabo-verdiana.

 

Respostas ao inquérito

David Hopffer Almada

1 - Antes de responder, concretamente, à questão posta, devo dizer que, do meu ponto de vista, ainda não existe, verdadeiramente, o bilinguismo em Cabo Verde.

Na verdade, em Cabo Verde, hoje ainda prevalece a seguinte situação: a existência, por um lado, duma lingua (a Cabo-verdiana ou o chamado "Crioulo") falada por toda a gente, e na qual, na feliz expressão de Jorge Amado, "a vida decorre", na cidade e no campo, e em todas as classes sociais, e por outro, a existência doutra (a Portuguesa) que é a lingua oficial, utilizada nas situações formais, em actos oficiais, nas "salas de visita" e entre reduzidíssimos extractos da população.

Acho que o "Crioulo", ou melhor, a Lingua Cabo-verdiana possui já capacidades para se tornar numa lingua literária em Cabo Verde, o que, com certeza, será conseguido com os novos passos que estão dando no sentido da fixação do seu alfabeto, das sua regras gramaticais e para a sua oficialização. Não creio que venha a ser dominante, uma vez que a tendência é, para, com a massificação do ensino,a redução do analfabetismo, o maior acesso à educação, à cultura e à ciência, o cabo-verdiano venha a tornar-se, de facto, bilingue, utilizando, sobretudo na literatura,igualmente, o "Crioulo" e o "Português".

Utilizo, nas minhas produções, o "Crioulo" e o "Português" porque considero-as e assumo-as como sendo ambas minhas "linguas". No entanto, predominantemente, utilizo o "Português" por me ter habituado, desde cedo a escrever em português e por as situações formais meterem encaminhado nesse sentido.
2 - Relaciono-me perfeitamente, e bem, com o legado dos "Claridosos". No entanto, a vivência no mundo que nos cerca, e a interpretação dialética dos tempos históricos exigem que o momento presente nos inspire novos valores, nos faça outras exigências e nos aponte diferentes caminhos. A Independência política terá estado, num primeiro momento (nos primeiros anos) tentado a produzir "alguma" ruptura cultural, que, felizmente, nunca se deu ! No entanto, ela deu mais e maior consistência à consciência nacional, ao revigoramento da identidade nacional e a assumpção, pelo cabo-verdiano, da autenticidade da sua própria cultura, com todos os seus valores. Só nesse aspecto, se poderá admitir a referência a uma ruptura cultural.

3 - O panorama actual da literatura cabo-verdiana, não sendo óptimo, deve ser encarado com optimismo. É que já foi mais desolador. A crítica ainda funciona muito pouco (na verdade, quase que não funciona !), as editoras começam a aparecer, a movimentar-se e agitar-se e a divulgação começa a fazer parte das actividades de promoção dalgumas entidades públicas (ex. ICLD, ora IPC) e privadas (AEC e outras Editoras Avulsas) e Centros Culturais (designadamente o Português e o Francês).

4 - A literatura, quanto a mim, deve desempenhar, em Cabo Verde, aquilo que deve desempenhar em qualquer parte: Sendo uma das principais formas de expressão cultural, deve contribuir para o divulgação da cultura do nosso Povo, o reforço de Identidade nacional e a manifestação da nossa capacidade individual e colectiva para, livremente, exprimirmos os nossos sentimentos, os nossos anseios, as nossas ambições e preocupações..

5 - É sempre difícil catalogar - classificando valorativamente -obras de literatura, até pela subjectividade e temeridade que isso encerra. Correndo, no entanto, esses e outros riscos todos - apontaria as seguintes:

-"CHIQUINHO", de Baltazar Lopes
-"ILHÉU DE CONTENDA", de Teixeira de Sousa
-"O TESTAMENTO DO SR.NAPUMOCENO DA SILVA ARAÚJO", de Germano Almeida
-"INTRODUÇÃO Á GRAMÁTICA DO CRIOULO", de Manuel Veiga
-"HISTÓRIA GERAL DE CABO VERDE"-Obra colectiva de uma Equipa Técnica Luso-Cabo-verdiana.
Dados biobibliográficos:

NOME: DAVID HOPFFER ALMADA
DATA DE NASCIMENTO: 19 -12- 1945
Nacionalidade: cabo-verdiana
Profissão: advogado e consultor juridico
Principais funções desempenhadas:
Ministro da Justiça desde a Independência Nacional (1975 a 1986)
Presidente da Comissão da Reforma Administrativa (1979 a 1983)
Ministro da Informação, Cultura e Desportos de 1986 a 1991
Ministro da Justiça, por acumulação, entre 1988 e 1989
Deputado à Assembleia Nacional desde 1981 até princípio de 1996.

FORMAÇÃO ACADÉMICA:
Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra (Portugal), no ano
lectivo de 1972/73.

OUTRAS INFORMAÇÕES :
-Foi co-Fundador e Director do Jornal “Alerta”, em 1974;
-É Membro-Fundador da “Associação dos Escritores Cabo-Verdianos”, de que é Presidente desde Novembro de 1996;
-É Membro-Fundador da “Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra em Cabo Verde”, de que foi o 1º Presidente ;
- Tem poemas publicados em Livros, revistas e Jornais;
-Tem dois Livros publicados: Canto a cabo Verde (poesia) e Caboverdianidade e Tropicalismo (Ensaio);
-Consta da “Antologia dos Poetas Cabo-Verdianos”, organizado por Luis Romano, da “Across Atlantic”, organizado por Maria Allen, e “Mirabilis de Veias ao Sol” organizado pelo Movimento Pró-Cultura;
-É Membro-Fundador e Presidente da “Ad-JUS-Associação de Juristas dos Países de Lingua Portuguesa”, criada em 1997”;
-Participou, como Observador Internacional da ONU, indicado pela Acção Mundial dos Parlamentos, nas 1ªs Eleições Legislativas e Presidenciais de Moçambique (em Outubro de 1994);
-Condecorado com a “ORDEM DE LEÃO”, pela República do Senegal;
-Condecorado com a “ORDEM DO CRUZEIRO DO SUL”, pela República Federativa do BRASIL.

 

Dina Salústio

1 - Todas as necessidades, sejam afectivas, históricas, económicas e culturais, apontam no sentido de o bilinguismo passar a ser de facto uma realidade em Cabo Verde, o que pressupõe o domínio falado e escrito da língua portuguesa.

bilinguismo, em si, é um capital importante, mas, infelizmente, em Cabo Verde, apenas pequena parte da população o detém, o que coloca de imediato em situação de desigualdade grande parte da população, possivelmente a maioria, que não domina a língua oficial, embora possa compreender o elementar.

Por outro lado, se toda a gente fala crioulo, seja o de Barlavento, seja o de Sotavento, a ausência de instrumentos como o alfabeto, a gramática e outros elementos de cultivo da lingua, constitui um handicap para os falantes do crioulo que, possivelmente, com essa aquisição, seriam capazes de produzir obras escritas na língua materna. Por esse facto, talvez o crioulo ocupe um espaço muito reduzido na nossa literatura escrita, com relativamente poucas obras publicadas e pouco lidas.

Devo referir que já existem propostas de gramática e de escrita do crioulo, mas, quanto a mim, carecem de mais estudos, contribuições e aprofundamento, por forma a dar às autoridades competentes suportes suficientes para a imposição oficial de fórmulas consensuais.

Julgo que se o ensino do português não for repensado, corre-se o risco de ver marginalizada toda a população que não tem meios próprios ou capacidade para a aquisição dessa língua, aumentando as dificuldades de promoção do indivíduo e a melhor compreensão do mundo através do português.

Da Independência até à data, as sucessivas constituições e governos têm reconhecido a todos os cidadãos o direito à educação, o que tem implicado a massificação do ensino com o lançamento no sistema, de professores sem formação adequada, principalmente no ensino básico, boa parte dos quais não fala o português padrão correcto, mas sim um português acrioulado que é inevitavelmente transmitido aos ensinandos.

Penso que seria grave não se atender, por razões metodológicas ou outras, ao desenvolvimento pleno da aprendizagem da língua portuguesa que, entre outras razões, nos possibilita outros espaços de conhecimento, a inserção real no mundo lusófono e todas as vantagens que isso terá também para o desenvolvimento e promoção do crioulo.

Para corrigir a situação acima referida, Cabo Verde terá que apostar seriamente num bilinguismo sério que, quanto a mim, se entrosa melhor e de forma mais útil na herança cultural multiforme do nosso povo.

Eu tenho um crioulo falado bonito, constantemente enriquecido com os novos vocábulos e expressões do português e doutras línguas. Dá-me prazer falá-lo no dia a dia, mas na escrita uso o português porque fui habituada a pensar e a escrever nessa língua e, pessoalmente, não considero o crioulo, na fase actual de desenvolvimento, uma língua com autonomia e capacidade para satisfazer as minhas necessidades de escrita.

Por outro lado, escrever em crioulo implicaria ter que aceitar um alfabeto e aprender uma gramática, ainda em fase preliminar de estudos, o que não é estimulante nesse sentido.

Uma outra razão por que não tenciono aprender a escrever em crioulo é a impossibilidade de ser lida por outros falantes que não sejam cabo-verdianos, enquanto que o português, à partida, dá-me essa hipótese num universo muito mais vasto.

2 – A minha relação com o legado dos homens da Claridade

Tive o privilégio de ter feito a aprendizagem da literatura cabo-verdiana à volta de mestres claridosos como Baltazar Lopes, Aurélio Gonçalves, Jorge Barbosa, quer enquanto professores, quer enquanto pessoas das minhas relações familiares.

Os escritores claridosos ganharam a força que lhes permitiu produzir boa e moderna literatura, na mesma linha que outros jovens escritores por esse mundo fora. Inspiraram-se na realidade objectiva cabo-verdiana da época e, sem dúvida, constituirão sempre referência obrigatória na nossa literatura.

Aprecio os claridosos e acho espectacular que num período tão curto de produção literária, tenham moldado um referencial e imposto um estilo, capazes de atrair estudiosos e conquistar seguidores.

Apesar da minha admiração pelos claridosos, não me considero identificada como seguidora da sua escrita.

Penso que a Independência de Cabo Verde provocou as rupturas culturais naturais e inevitáveis atinentes ao processo, com o ganho de uma nova dinâmica, através da dignificação do povo cabo-verdiano, de maior abertura ao mundo, de novo dinamismo no exercício do pensamento, da perda de vários medos, do contacto mais facilitado com novas formas estéticas literárias a nível mundial e, sobretudo, por ter possibilitado aos estudantes cabo-verdianos o contacto descomplexado com a nossa literatura e, obviamente, a literatura claridosa.

Tudo isto terá influenciado as novas gerações de escritores e, dentro de algum tempo, penso que já se poderá falar, sem arrogância e saudosismo, por um lado, e timidez, por outro, de um novo quadro literário.

3- A Independência possibilitou a oportunidade de se criarem estruturas para a edição e divulgação de livros. O Instituto Cabo-verdiano do Livro foi o primeiro passo para isso e até agora é a editora com maior volume de edições.

Têm aparecido outras editoras e, no conjunto, têm capacidade para dar resposta à procura.

No entanto, os financiamentos são escassos, o que limita a publicação.

A crítica num país muito pequeno e com uma população muito jovem como a nossa, tem necessariamente uma configuração própria. Uma das marcas da nossa crítica é ela ser sempre rodeada de muitos cuidados e cautelas, apresentando-se revestida de uma estética própria.

No entanto, se por um lado, a ausência de crítica objectiva dificulta o amadurecimento do escritor, por outro lado, no nosso contexto, acho bonito e generoso o cuidado com que se fala de uma obra, como se se quisesse, acima de tudo, proteger e acarinhar quem escreve. O que eu quero dizer é que nós, este povo tão pequeno, em termos numéricos, confundimos naturalmente a pessoa do escritor com a coisa escrita e aí fica difícil organizarmos frontalmente uma apreciação totalmente isenta.

Conto com a Escola Superior de Educação em Cabo Verde e as Universidades estrangeiras, como espaços que se ocupem da crítica científica e justa, porque, sem dúvida, ela é fundamental quer para o público, quer para o escritor.

4 - A literatura acontece e desempenha o papel que a sociedade, a todos os níveis, lhe solicitar.

Quanto a mim, a função que mais valorizo é a capacidade de servir de ponte de comunicação entre as várias gerações, povos e culturas.

5 - Tenho alguma dificuldade em falar de obras "maiores" seja na literatura, seja noutra área qualquer. Entretanto, considero referências com um certo relevo na nossa literatura, os seguintes escritores: Manuel Lopes, António Aurélio Gonçalves, Baltazar Lopes, Jorge Barbosa (todos da geração dos claridosos), Arménio Vieira e Germano Almeida ( pós-claridosos ).

Dados biobibliográficos:

Dina Salústio (Bernardina de Oliveira Salústio)
Natural de Santo Antão, Cabo Verde, 27/03/41
Residência: CP 73 - Praia, Santiago

Publicações:

"Mornas eram as noites" - livro de contos– 1994 – ICLD - Praia

"A Louca de Serrano" - romance – 1998 – Spleen Edições - Praia

"A Estrelinha Tlim Tlim" - livro infantil com ilustrações de Júlio Resende –1998 Edição: Instituto Camões, Centro Cultural Português, Instituto Cabo-verdiano do Livro e do Disco. Composição Printer Portuguesa - Lisboa

Participação na obra colectiva "Cabo Verde e a Insularidade" – Centro Cultural Francês, 1998.

Crónicas, contos e poesias em jornais e revistas.

Nacionais :

Tribuna, Mudjer, Ponto & Vírgula, A Semana, Voz di Povo, Pré - textos, Fragmentos, Ekos do Paul, Brochura Santo Antão, 12 anos de Desenvolvimento. ..

Estrangeiras:

Suécia,1998 - Halva Värdens Litteratur (1 conto)
Holanda,1994 - Mickgrant - (1 poema)
Itália, 1998 – Publicação da RAI Uno, com participantes do Salone del Libro, de Perugia, 1997 (1 conto)
França, 1992 - Revue Noire, nº11 (1 texto sobre Cabo Verde)
Brasil, 1998 - Universidade Federal do Rio de Janeiro – Tese de mestrado apresentada pela professora brasileira (Sonia Santos), em 1998, sobre escrita africana no feminino: "A Oportunidade do Grito", tendo por tema de análise alguns dos meus escritos dispersos e o livro "Mornas eram as Noites".

Prémios:

1994 - 1º Prémio de Literatura Infanto-juvenil, pelo Instituto Cabo-verdiano do Livro e do Disco
1999 - 3º Prémio de Literatura Infanto-juvenil num concurso literário promovido pelo Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa para os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa.

 

Teixeira de Sousa

Memória e identidade nos contos de Teixeira de Sousa (para uma antropologia da literatura) Maria R. Turano

http://www.fflch.usp.br/dlcv/posgraduacao/ecl/pdf/via04/via04_19.pdf

 

Como é sabido, o crioulo de Cabo Verde é um falar que resultou da aprendizagem do português pelos escravos trazidos da costa africana. Estes eram oriundos de várias etnias, possuindo obviamente as respectivas línguas, as quais não podiam servir de meios de comunicação entre todos, servos e senhores. Era forçoso que nascesse algo de comum que permitisse intercâmbio oral nos penhascos recém-habitados, daí o surgimento do papiar crioulo que hoje reclama o estatuto de língua nacional. Na gestação do crioulo, poucos vocábulos africanos se impuseram e permaneceram até os nossos dias. A maioria esmagadora dos léxicos do papiamento cabo-verdiano é de origem portuguesa. Só que grande número de vocábulos sofreu distorções tais que apenas os filólogos, em muitos casos, conseguem desmontar as deformações e descobrir os étimos lusos.

berço do crioulo foi Santiago, por ter sido a primeira ilha povoada. A última ilha habitada foi a de S. Vicente, no século passado. As restantes conheceram ocupação humana ao longo dos séculos XVI e XVII. A cronologia do povoamento do arquipélago explica em parte as nuances do crioulo, de ilha para ilha. Em parte apenas, porquanto o factor mais importante das mesmas nuances reside na insularidade e dificuldade de contacto entre as populações. Assim, temos duas grandes variantes do crioulo, ou seja, a variante de Sotavento (Santiago, Maio, Fogo e Brava) e a de Barlavento (Santo Antão, S. Vicente, S. Nicolau, Sal e Boa Vista). As duas variantes distanciam-se tanto uma da outra como o espanhol do português. Este distanciamento não se verifica apenas entre os falares de Sotavento e de Barlavento. Até mesmo entre as ilhas de cada um daqueles grupos existem tipismos linguísticos. Semelhante heterogeneidade da fala é quase uma fatalidade geografico-cultural, pois sobrevive meio milénio após o início do povoamento do arquipélago. Sendo assim, não se pode falar na existência duma língua perfeitamente caracterizada em Cabo Verde, mas sim de falares diversificados e estáticos em cada um dos grupos e sub-grupos atrás referidos.

crioulo de cada ilha em separado possui sem dúvida capacidades expressivas para ser utilizado como veículo comum de molde a permitir uniformidade gráfica e até mesmo semântica em alguns casos. Por exemplo, a palavra mofino tem nos grupos de Sotavento e Barlavento sentidos diferentes.

Sem unidade linguística não pode existir uma literatura de expressão crioula, donde a obrigatoriedade do uso do português na ficção, na poesia e no ensaio. De resto, não esqueçamos que o português é a língua-mãe do crioulo, tal como o latim o é das línguas dos países do antigo império romano. Ha consequências culturais do expansionismo imperialista que são irreversíveis. A língua é uma delas.

A identidade cultural expressa pelo movimento Claridade (1936), ainda em pleno contexto colonial, foi um ante-grito do Ipiranga da independência nacional. Costuma dizer-se que Cabo Verde foi nação antes de ser estado, uma vez que a sua elite mais progressiva descobriu que as ilhas possuíam valores culturais próprios, os quais nem eram África, nem eram Europa. A interacção das idiossincrasias (África versus Europa) resultou numa terceira identidade que hoje povoa o arquipélago. Esta síntese processada a partir de teses diversas foi a grande trouvaille dos homens da revista Claridade, aos quais me vim juntar (1947) como elemento da segunda vaga. As minhas obras filiam-se por conseguinte no modelo implantado pelo referido escol, talvez com uma ligeira diferença no que concerne à visão dos problemas sócio-económicos de Cabo Verde.

Resido há 24 anos em Portugal, encontrando-me algo afastado da evolução da intelligentsia cabo-verdiana. Todavia, pelas curtas visitas efectuadas de onde em onde e pelo material escrito que me chega às mãos, posso concluir que a literacia em Cabo Verde sofreu um progresso considerável, como não teria sido possível no mesmo lapso de tempo acaso não tivesse acontecido o 25 de Abril em Portugal, com a consequente independência política deste arquipélago. Antes da independência havia apenas dois liceus, um no Mindelo e outro na Praia. Hoje, o ensino secundário existe em todas as ilhas. A par da expansão do ensino, o país conta actualmente com mais escritores, mais jornais, mais gráficas, mais licenciados, mais bibliotecas, mais rádios, mais centros culturais, mais prémios literários, mais artes plásticas. Existe em suma um panorama intelectual e artístico, outrora impensável dados os condicionalismos colonialistas.

As funções que a literatura desempenha em Cabo Verde são as mesmas que desempenha em qualquer parte do mundo. Ela é uma imitação da vida nos âmbitos do sonho e da esperança; é mensagem pessoal e colectiva; é sofrimento e catarse ao mesmo tempo.

Chiquinho (romance) de Baltasar Lopes da Silva, Ambiente (poesia) de Jorge Barbosa, Flagelados do Vento Leste (romance) de Manuel Lopes, Ilhéu de Contenda (romance) de Teixeira de Sousa, O Testamento do Senhor Nepomuceno (romance) de Germano Almeida.

 

 

Jorge Carlos Fonseca

1.Na produção literária quase sempre utilizo a língua portuguesa. Uma ou outra experiência poética em crioulo surgiu-me como inconsistente, de uma perspectiva literária. Assim, pelo menos até agora, o crioulo é a minha língua de comunicação oral normal, sendo o português o veículo de comunicação por escrito.

Sobre o futuro? Não sendo estudioso da linguística, estou impossibilitado de contrariar ou corroborar a ideia da possibilidade de o crioulo vir a ser, por mérito próprio, língua literária dominante. Tenho dúvidas, muitas dúvidas.

2.Creio ser evidente não ser eu legatário da Claridade. Aliás, estou em crer que a ruptura com os claridosos praticamente apenas se deu ao nível da poesia. No que respeita à prosa de ficção, salvo um ou outro caso (por exemplo, "O eleito do sol", de Arménio Vieira), há uma linha de continuidade de um ponto de vista dos processos de construção narrativa.

A independência política de Cabo Verde só aparentemente implicou uma ruptura cultural (falo sobretudo de literatura). A verdade é que os anos pós- independência trouxeram, sobremaneira, produção panfletária sem alcance estético, único critério do literário. A ruptura começou há pouco tempo e ela é visível na poesia.

3.Os apoios estatais são escassos, raros e selectivos (apoia-se a obra ou o autor que não incomoda politicamente). A edição é um acto de imensa coragem e paciência de chinês. Mais facilmente se apoia um rebolado gratuito de nádegas do que uma iniciativa cultural, técnica ou científica séria. A crítica é incipiente. Estuda-se pouco. Escarnece-se da inteligência e do saber.

Com raras excepções, funcionam em Cabo Verde a auto-suficiência e/ou o critério da indiferenciação (tudo é bom), sustentado na hipocrisia própria de um espaço pequeno e atravessado por receios e cumplicidades espúrias.

Sou muito, muito céptico relativamente a qualquer utilidade da literatura. Acredito muito pouco na sua força. Em todo o caso, em Cabo Verde, se ela for autêntica - criativa, livre, geradora de espanto - poderá, a prazo, ser contra-referência à mediocridade que, de há muito, assola a vida deste país.

Com poucas excepções (o caso de Germano Almeida), os autores cabo-verdianos são pouco produtivos, Não há, pois, muitas grandes obras literárias. Prefiro dar-lhe três nomes: Arménio Vieira, Mário Fonseca, João Vário (na poesia).

Dados Biobibliográficos:

NOME : Jorge Carlos de Almeida Fonseca
DATA DE NASCIMENTO: :20 de Outubro de 1950
NATURALIDADE: Freguesia de N.Senhora da Luz, S.Vicente
NACIONALIDADE: Cabo-verdiana
RESIDÊNCIA HABITUAL: Praia

Livros publicados:

"O silêncio acusado de alta traição e de incitamento ao mau hálito geral", Spleens, Praia, 1995;

"Porcos em delírio", Artiletra, Praia, 1998.

Participação em antologias, obras sobre escritores e/ou literatura cabo-verdiana :

Jogos Florais 12 de Setembro 1976, I.C.L., Praia, 1976(participa com os poemas "Saxofone de espuma"; "Poema de amanhã"; "Ferro & alumínio & cimentos &pozolana & chuva se vier"; Poema do destemor"; "Poesiaaa, ombrooo armaaas"; "Para ti, amor-se-dicionários")

Antologia Barlavento, 1985?(Algarve, Portugal)

Mirabilis - De veias ao Sol, org.de José Luís Hopffer Almada, 2a ed., I.P.C., Praia, 1998.

Entrevistado em "Cabo Verde - Encontro com escritores",II, de Michel Laban, ed.da Fundação Eng.António de Almeida, Lisboa, 1992

Referido, e com publicação de um poema, traduzido para inglês ("Matemática da liberdade"), em Gerald Moser, "Changing Africa: The first literary generation of independent Cape Verde", 1992

Recenseado em Gerald Moser/Manuel Ferreira, "Bibliografia das literaturas africanas de expressão portuguesa", Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1983

Recenseado em Fernanda Cavacas, "Dicionário de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa", Lisboa(?), 1997(?)

Participação poética em revistas e jornais:

Vozdipovo

Artiletra

Voz di Letra

Folhas Verdes

Fragmentos

Raízes

Pré-Textos

Nô Pintcha

Sopinha do Alfabeto

África (revista portuguesa)

 

 

Manuel Veiga

1.O bilinguismo em Cabo Verde é ainda um projecto em construção. Apesar da existência de duas línguas, o crioulo (Ccv) e o português (Lp), não se pode falar de um real bilinguismo. E isto porque o contexto linguístico é antes caracterizado pela situação de diglossia. Com efeito, as duas línguas têm estatuto diferenciado e são utilizadas em contextos diferentes. É assim que a Lp é língua de prestígio e oficial. Possui todos os instrumentos linguísticos como a escrita, a gramática explícita, uma literatura expressiva e materiais didácticos. É ensinada nas escolas, utilizada nos média e em todas as situações formais de comunicação.

Ccv, pelo seu turno, é língua da oralidade, da amizade e das situações informais de comunicação. O quotidiano das pessoas tem como suporte de comunicação o Ccv. Apesar de tudo, só muito recentemente foi adoptado um alfabeto estandardizado, o ALUPEC, através do Decreto-Lei nº67/98, de 31 de Dezembro; possui uma literatura ainda nascente; não é ensinado de forma sistemática e sistematizada; só nos últimos tempos começou a ser dotado de estudos gramaticais abrangentes; é pouco usado em situações formais de comunicação; apesar de ter o estatuto de língua nacional e de ser reconhecido como marca fundamental da nossa identidade, é ainda considerado, particularmente pela elite intelectual, como uma língua menor.

Não há dúvidas, portanto, de que a situação é de diglossia. Há no entanto uma vontade cada vez maior de inverter a situação, isto é, de construir um verdadeiro bilinguismo onde o Ccv terá o estatuto de língua nacional e co-oficial e a Lp o de língua co-oficial e (cada vez mais) veicular. Isto significa que as duas línguas acabarão por ter um estatuto equiparado, igualmente prestigiadas e usadas, livremente, tanto em situações formais como nas informais de comunicação.

Que o Ccv já tem capacidade literária, já ninguém duvida. Se vai ser língua literária dominante, ninguém sabe. O melhor ainda seria de compartilhar com a Lp o domínio da literatura, sem pretensões de dominação, apenas como parceira.

Eu utilizo tanto o Ccv como a Lp nas situações formais como nas informais de comunicação e isto porque considero-me realmente bilingue e é o real bilinguismo que desejo também para o meu povo.

2. Relaciono-me de maneira pacífica e interessada com o legado claridoso. Os homens de Claridade deram um contributo inestimável tanto às letras como à cultura cabo-verdianas. Com o advento da Independência nacional, o ideário claridoso de fincar os pés no chão permaneceu, mas com uma visão mais ampla do humanismo. A mudança mais significativa deve ser quanto à temática e quanto ao espírito de revolta e de contestação que só de forma encoberta ou indirecta se pode descobrir na literatura claridosa.

3. Tendo em conta a demografia (cerca de 350.000 h) e o PIB (muito baixo), pode-se considerar que o panorama literário cabo-verdiano é satisfatório neste momento. Não obstante, a crítica (que é uma segunda literatura) continua escassa. E isto porque a reflexão sobre a literatura é sempre posterior à existência dessa mesma literatura. Em segundo lugar, o facto de sermos um pequeno País onde praticamente todos se conhecem, não facilita uma visão objectiva e imparcial da literatura que aqui se faz.

Quanto à edição, existe hoje um parque editorial razoável (ICLD, Ilhéu Editora, Spleen Edições, AEC-Editora, Calabedotche, Poemas de Sábado...). Há no entanto alguns problemas com a publicação dado que o mecenato ainda é pouco visível. Há também a exiguidade do mercado que não facilita. Basta dizer que pouquíssimos títulos têm uma tiragem de mais de 1000 exemplares.

A divulgação é complicada. Os livros publicados em Cabo Verde têm colocação e circulação sobretudo na Praia, no Mindelo e no Sal, havendo dificuldade de colocação nas outras ilhas. A divulgação no espaço da CPLP é ainda mais complicado devido a problemas de representação e de transferência bancária.

Quanto aos apoios estatais, eles existem, mas ainda são reduzidíssimos.

4. A literatura, hoje, em Cabo Verde, tem por função:

Cultural – na medida em que, em algum sentido, é suporte, veículo e instrumento do ser e do estar do nosso povo;

Artística – visto que a palavra e o ritmo se conjugam para criar uma harmonia que agrada ou que cativa tanto os sentidos como também o espírito;

Social – tendo em conta que ela contribui para a mudança de mentalidade e de situações que não favorecem o ser e o estar do HOMEM;

Pedagógica e instrumental : tendo presente que ela ajuda a apreender como também a transformar o real do ambiente local como do universal.

É difícil escolher cinco obras maiores da nossa literatura deixando de lado muitas outras que também são significativas. Para ser menos injusto, prefiro falar de algumas obras que me marcaram e isto tanto na fase claridosa como pós-claridosa.

Fase Claridosa: O conjunto da obra poética de Jorge Barbosa; Chiquinho, de Baltasar Lopes; Chuva Braba, de Manuel Lopes ...

Fase Pós-Claridosa: Ilhéu de Contenda, de Teixeira de Sousa; O Eleito do Sol, de Arménio Vieira; Árvore & Tambor, de Corsino Fortes; Son di ViraSon, de Cacá Barbosa; Nascimento de um Mundo, de Mário Lúcio. Sem falsa modéstia, creio que Odju d’Agu merece também um lugar de destaque. E isto se tivermos em conta as apreciações de Dulce Duarte (1), Luís Romano (2), Gerald Moser (3), Russel Hamilton (4), Jürgen Lang (5), Pires Laranjeira (6) e José Luís Hopffer Almada (7).

Ver Jornal Voz di Povo, Praia, 23/5/87.
(2) Ver Revista Fragmentos, n ºs 3/4, Praia, 1988.
(3) Ver World Literature Today, USA, 1988.
(4) Ver Jornal Tribuna, nº18 (50), Praia, 1989.
(5) Ver revista Papia, nº2, Universidade de Brasília, Brasil, 1991.
(6) Ver Cabo Verde – Insularidade e Literatura, Karthala, Paris, 1998, pp. 180-182

 

 

Tomé Varela

Do meu ponto de vista, a questão do bilinguismo em Cabo Verde é ainda apenas um projecto, um projecto de longo prazo, cujos "timings", que implicarão certamente reflexões sérias e ponderações aturadas, estão ainda por se definir. Por enquanto, vai imperando no país uma acentuada diglossia (até quando?), com todas as consequências negativas daí decorrentes.

À pergunta se "o crioulo possui capacidades expressivas para vir a tomar-se a língua literária dominante em Cabo Verde", responderei dizendo, sem hesitar, que, em potência, sim. Com efeito, trata-se de uma língua muito plástica, de grande riqueza imagética, além de, melhor que nenhuma outra língua, possibilitar, mais genuinamente, a expressão do pulsar da alma da nação cabo-verdiana. Entretanto, será necessário ainda muito trabalho e uma boa dose de desalienação para muitas cabeças pensantes e decisores sócio-políticos, além de muito empenho no trabalho de explicitação da estrutura linguística do crioulo e de aplicação patriótica dos escritores (e não só) no exercício da escrita em cabo-verdiano. A nação merece todo este conjunto de "sacrifícios" e a recompensa por estes chegará um dia pelas mãos do futuro.

Tenho utilizado, na escrita (como na fala), português e crioulo. A minha preferência vai, porém, para o crioulo (também na fala). Sendo esta língua uma criação do povo cabo-verdiano e voz da nação (pois, é materna!), decorre daí a razão fundamental da minha preferência, mesmo sabendo do diminuto público leitor que esta preferência acarreta (quer porque a população cabo-verdiana é reduzida, quer porque a população leitora nacional é ainda muito mais diminuta, quer ainda porque se trata de uma língua usada no presente quase somente por cabo-verdianos, por múltiplas razões e vicissitudes). Será uma forma de eu testemunhar, indirectamente, aos meus concidadãos (e não só) que reconheço e acredito no valor e alcance da língua nacional. Por um lado. Por outro lado, julgo que a minha preferência poderá ser entendida como uma dedicação e empenhamento pessoais no sentido de trabalhar a língua e de, assim, contribuir para melhorar e aumentar, cada vez mais, a sua capacidade expressiva: será uma forma de melhor veicular a cultura do povo, de mais servir a nação e de favorecer (com especificidades próprias) um maior enriquecimento (por que não?) da humanidade, de que a nação caboverdiana é parte.

0 meu relacionamento com o legado dos homens da Claridade é de veneração, respeito e atenção, como o de um aluno honesto que pretende aprender muito mais aprofundando os conhecimentos do professor, eventualmente corrigir possíveis falhas do mestre e, se calhar, ultrapassar a postura e ensinamentos deste que a evolução do tempo, da história e dos valores possa proporcionar. Por outras palavras, um relacionamento que pugna pela mudança sem esquecer e, muito menos, ignorar os importantes contributos desses homens na inventariação e aprofundamento da identidade cabo-verdiana, que assim se enriquece e fortalece cada dia mais.

Julgo que a "ruptura" cultural operada no meu país com a independência política deste seja de um alcance mais alargado e profundo do que ao da Claridade: assumiu-se clara e definitivamente como país, como Estado e como nação, quebraram-se grilhões e soltaram-se muitas amarras; a nação inteira se libertou e se despertou para o início de uma vida nova, para uma assunção muito mais consequente da sua própria realidade. Isso tudo não podia deixar de Ter implicações sérias e profundas, a todos os níveis, quase ao estilo de uma revolução.

Do ponto de vista criativo, o panorama da literatura cabo-verdiana parece-me mais animador do que já foi, pelo menos em termos de diversidade e quantidade, embora se tenha a sensação de que, da independência a esta parte, se esteja à procura de novos caminhos e novos rumos. Em termos de qualidade, há também de tudo. Apesar de ser mais difícil um pronunciamento objectivo sobre esse aspecto, arrisco-me a dizer que a situação também é encorajadora. Do ponto de vista institucional, pode-se considerar que a evolução é positiva, apesar dos magros recursos. Com efeito, até à independência, não havia no país nenhuma editora de livros. Actualmente existem seis. Naturalmente, a divulgação do livro aumentou significativamente, embora ainda bastante aquém do que seria desejável. Apoios estatais e do empresariado nacional, inexistentes antes da independência, suportam hoje quase a totalidade das edições em Cabo Verde. A crítica, por sua vez, tão necessária, é, todavia, quase nula, infelizmente. 0 que é simplesmente lamentável, por razões óbvias.

As funções que a literatura terá vindo a desempenhar em Cabo Verde, têm sido várias e, diria mesmo, complexas, no meu entender. Desde informativas, pedagógicas e formativas, a lúdicas, estéticas e éticas. A literatura cabo-verdiana tem reflectido e revelado aspectos interessantes da identidade nacional e tem provocado alguma reflexão (por vezes com assunção, outras vezes nem por isso) sobre essa mesma identidade. A presença do universal, neste particular, tem sido uma constante. Com tudo isso e no meio de tudo isso, tem vindo a contribuir para um aprofundamento e uma elevação, cada vez maiores (ainda que de forma discreta), do homem cabo-verdiano e da sua cultura, no seu intercâmbio com outros homens e respectivas culturas.

Considero obras maiores da literatura cabo-verdiana, entre outras, as cinco seguintes: Chiquinho (romance) de Baltasar Lopes, Os flagelados do vento leste (romance) de Manuel Lopes, O eleito do sol (romance) de Arménio Vieira, 0 testamenlo do Sr. Napumoceno da Silva Araújo (romance) de Germano Almeida e Nascimento de um mundo (poesia) de Mário Lúcio Sousa.

Dados biobibliográficos:

Tomé Varela da Silva (T. V. da Silva, nome literário), nascido a 19.12.1950, na localidade de Bom-Pau, freguesia de S. Lourenço dos Órgãos, concelho de Santa Cruz, ilha de Santiago - Cabo Verde, licenciado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia de Braga da Universidade Católica Portuguesa, pai de dois filhos (ambos rapazes), divorciado, funcionário público (quadro da Cultura), actualmente (desde 1994) Chefe da Casa Civil do Presidente da República, residente em Terra Branca - Praia.

Livros publicados: Finasons di Ña Nasia Gomi, “Tradisons Oral di Kauberdi”, Institutu Kauberdianu di Libru, Praia, 1985; Kumuñon d’Áfrika: onti osi mañan, “Poesia”, Instituto Caboverdiano do Livro, Praia, 1986; Na bóka noti, volumi 1, “Tradisons Oral di Kauberdi”, Institutu Kauberdianu di Libru, s/l [Praia], 1987; Kardisantus, “Poesia”, Institutu Kauberdianu di Libru, s/l [Praia], 1987; Ña Bibiña Kabral. bida y óbra (ku koIaborason di H. Santos y A. Semedo), “Tradisons Oral”, Institutu Kauberdianu di Libru, s/l [Praia], 1988; Natal y kontus, “Ficção”, Institutu Kauberdianu di Libru, Praia, 1988; Escada de luz, “Poesia”, Instituto Caboverdiano do Livro e do Disco, Praia, 1989; Ña Gida Mendi: simenti di onti na con di mañan, “Tradições Orais”, Instituto Caboverdiano do Livro, Praia, 1990; Tenpu di tenpu, “Tradições Orais”, Instituto Caboverdiano do Livro e do Disco, s/l [Praia], 1992; Na altar di nha petu (poesia), AEC Editora, s/l [Praia], 1997; Konparason di konbérsu, “Tradições Orais”, Instituto Caboverdiano do Livro e do Disco, Praia, 1997.

Colaboração em: 1) Revistas. Ponto & Vírgula - revista de intercâmbio, nº 7, Jan../Fev., 1984; Artiletra - jornal-revista de educação, ciência e cultura, nº 5/6, Jul./Agos., 1992; Pré-Textos - ideias & cultura, nº especial, Jun., 1994; Fragmentos - revista de letras, artes e cultura, nº 11 -15, Dez., 1997; Kultura, nº 1, 1997, nº 2, 1998; 2) Livros: Cabo Verde - insularidade e literatura, Karthala, Paris, 1997; Descoberta das ilhas de Cabo Verde, Arquivo Histórico Nacional/Missão Francesa de Cooperação e de Acção Cultural, Praia, 1998.

 

 

Vasco Martins

1.Uma coisa é certa: pensamos em crioulo, e o nosso humor é bem em crioulo. E o humor é um bom barómetro indicativo da espiritualidade de um povo. Assim, é certo que o crioulo pode ter ou já tem capacidades literárias(sobretudo na morna e alguns contos). No entanto, é necessário ter cuidado para a tendência do isolamento dos povos ilhéus. Isto é, se já temos uma lingua internacional, continuemos com ela, ao mesmo tempo que estudamos e aplicamos a nossa lingua crioula. Depois, só o futuro dirá.


Utilizo o português, porque é a língua que mais domino.
Mas se dominasse melhor o inglês seria também em inglês. Porque o que importa é a comunicação, seja em que lingua for. E no mundo inteiro, quer se queira que senão, é o inglês a lingua planetária.Tanto mais que é um maior mercado, já que até agora não existe nem nunca existiu nenhum escritor caboverdiano que vive do que escreve.Talvez se escrevessemos em inglês tivessemos mais hipóteses.A cultura está na lingua, mas não só: o que está dentro do criador é ainda mais superior a qualquer lingua, e o veiculo de transmissão pode ser esta ou aquela lingua.

2.O relacionamento foi sempre bom: é necessário passar pelos mestres para se ter a conciência como escritor . Tanto mais que o meu relacionamento também foi e é fisico: conheci pessoalmente Baltazar Lopes, António Aurélio, Félix Monteiro, Manuel Lopes. O meu primeiro romance ainda foi baseado em muito do imaginário da Claridade. Não há dúvida que foi a primeira época de ouro da cultura caboverdiana, muito dificil de se repetir nos tempos actuais, e que faz inveja a qualquer criador, pela solidariedade, pela complementação das ideias, pelo ideal da descoberta, pelo pioneirismo, pela personalidade.
Mas não acho que a independência de Cabo Verde tenha contribuido para uma ruptura, embora tentativas politicas tenham minado uma melhor saúde nessa relação. O pós independência foi a continuação normal da Claridade. Tudo flui, tudo é transitório e impermanente, tudo é interdependente. Pensar de outra maneira é alienção intelectual.

3. A crítica em cabo-Verde não existe, salvo um ou dois casos isolados, sem grande projecção. Existe sim uma critica arrogante e frustrante por parte de intelectuais ou criadores com mal de notoriedade. Existe sim uma megalomania das letras, muito à moda latina, e uma dissicação de evidências, tal como se faz normalmente na poesia.
Quanto á edição, não há dúvida que para a pequenez de Cabo-Verde, tem-se portado bem. A divulgação do livro é pobre por falta de meios e ideias de promoção, tanto mais que a maior parte da população vive o dia a dia á busca de dinheiro para sobreviver, incluindo as classes mais abastadas, essas que deviam comprar e não compram.Quanto aos apoios do Estado, nada sei muito bem, mas creio que tudo é por meio de “panelinhas” “coisas á toa”, “indice de massas”, etc.


4. O que é que a literatura desempenha? O prazer da leitura primeiro. A dignificação do espirito, se for boa literatura, o amelhoramento da personalidade nesta vasta jornada da vida. O que mais?Tudo o resto é academismo, próprio para gente sem imaginação, que só servem para empatar o progresso do acto criador.


5.

Canto da Manhã Futura de Baltazar Lopes
2- Noite de Vento de António Aurélio Gonçalves
3- Ilhéu de Contenda de Teixeira de Sousa
4- Chuva Brava de Manuel Lopes
5- Poemas, de Jorge Barbosa
(em resumo, os grandes clássicos da Claridade)

Dados Biobibliográficos:

Vasco Martins nasceu em Portugal em 1956. Aos 9 anos, junta-se à família paterna, na ilha de S.Vicente, Cabo-Verde.

Escreveu dois romances, “A Verdadeira Dimensão”, e “Tempos da Moral moral”, dois livros de poemas“Universo da Ilha”, e “Navegam os Olhares com o Voo do Pássaro”, e um livro de contos, “S de Sonhos

É também músico, sendo hoje um dos mais relevantes da música caboverdiana (sobre esta sua faceta, veja-se a apresentação de Vasco Martins na Entrevista concedida a Ciberkiosk).

 

 

Vera Duarte (Escritora)

1.
Penso que o bilinguismo em Cabo Verde é estruturante da alma e do sentir caboverdiano, integra a sua dimensão cultural e faz parte da sua idiossincrasia.

Na língua falada há um uso popular e generalizado do crioulo e um uso mais selectivo do português. A linguagem escrita processa-se quase integralmente em português, reservando-se a utilização do crioulo para alguma criação literária.

Dificilmente o crioulo poderá tornar-se língua literária dominante em Cabo Verde fundamentalmente porque toda a dimensão da cultura literária do homem caboverdiano se sufraga da língua portuguesa.

E por várias outras razões das quais poderei destacar duas: a natural negação do escritor ao confinamento físico do crioulo quando o uso do português lhe permite virtualmente chegar a duzentos milhos de seres falantes da mesma língua; e ainda as prevalecentes dificuldades de escrita e leitura do crioulo, sobretudo o de Santiago, a maior ilha do arquipélago.

Eu utilizo o português porque ele constitui a minha matriz cultural. Efectivamente toda a minha cultura literária, e não só, ancora-se no português, que adquiri no berço e ao longo de todos os meus aprendizados. A minha alma cria em português e coerentemente essa criação só pode exteriorizar-se em idêntica língua.

2.
Considero-me um pouco como uma discípula da Claridade, cujos nomes mais proeminentes cheguei a ter como professores. O legado cultural da Claridade constitui para mim uma fonte permanente de conhecimentos, de enriquecimento espiritual e de deleite.

Incontornavelmente o movimento Claridoso constitui o momento decisivo de tomada de consciência da identidade caboverdiana que inclusivamente ajudou a formar e a fixar ao revela-la de forma extremamente disânima.

Penso que com a independência política, que teve os seus precursores também em obras de pós-claridosos como "o povo das ilhas quer um poema diferente para o povo das ilhas" de Ovídio Martins e "consciencialização na literatura caboverdiana" de Onésimo Silveira, dizia, com a independência se consolidou uma ruptura cultural face ao movimento claridoso de alcance inestimável.

Essa ruptura tem como paradigmas obras como "O Eleito do Sol" de Arménia Vieira ou "O Meu Poeta" de Germano Almeida, sendo igualmente de realçar a emergência de vozes de mulheres no panorama literário caboverdiano posto que a Claridade não registou qualquer presença feminina.

Penso contudo que o alcance de tal ruptura, face à verificada com a Claridade só poderá validamente ser aferida com um maior decurso de tempo, pelo que não me sinto habilitada a valorá-la em termos comparativos.

3.
Tendo em atenção o reduzido das nossas dimensões, seja em termos físicos, seja em termos de população seja mesmo em termos de recursos, vivemos um período de excepcional pujança editorial.

Efectivamente nos últimos anos vem-se assistindo a uma grande actividade editorial, tendo sido lançadas diversas obras e estando várias outras à espera de edição e/ou de financiamento.

Sem dúvidas que a separação do trigo e do joio só se fará com o incontornável decurso do tempo, mas o número de títulos dados à estampa é impressivo.

Dentro da relativa escassez dos recursos de que dispõe, o Estado, em sentido amplo, tem dado algum apoio à actividade editorial.

funcionamento da critica é extremamente claudicante entre nós que bem se compreende se tivermos em atenção a idiossincrasia do homem caboverdiano e sobretudo o papel inibidor que o reduzido das nossas dimensões físicas tem sobre o potencial crítico.

Falece por completo uma política de divulgação do livro sendo este talvez o aspecto mais preocupante do actual panorama literário caboverdiano.

É que se tivermos em conta que Cabo Verde ainda tem um índice razoável de analfabetismo entre a sua população, algum analfabetismo funcional e fracos hábitos de leitura, a ausência de uma política global e concertada de divulgação do livro repercute-se de forma extremamente negativa no panorama literário.

4.
Deixando de lado qualquer polémica (importante) sobre os fins da literatura e se a literatura deve ser um fim em si, penso que em Cabo Verde a literatura tem sobretudo ajudado a formar o que eu chamaria de uma consciência da cidadania, lato senso, sobretudo se tivermos no espírito um conceito de literatura abrangendo livros, jornais e revistas.

Seja de identidade nacional do período claridoso, seja de independência nacional no período pós-claridade, seja ainda dos direitos e liberdades do cidadão com a abertura democrática, apanágio da actualidade, num processo não excludente, antes de enriquecimento contínuo.

Sobretudo os escritores têm ajudado a desvendar o inconsciente colectivo, a fixar a memória colectiva e a própria história do povo caboverdiano permitindo assim a paulatina formação de uma consciência histórica, referencial de base para qualquer povo e qualquer época.


"O Escravo" de Evaristo d’Almeida
"Chiquinho" de Baltasar Lopes
"Flagelos do Vento Leste" de Manuel Lopes
"Arquipélago" de Jorge Barbosa
"O enterro do Sr. Napumoceno da Silva Araújo" de Germano Almeida

Praia, 12 de Fevereiro de 1999

Alguns dados biobibliográficos de VERA DUARTE:
1. nome: Vera Valentina Benrós de Melo Duarte Martins
2. data e local de nascimento: 2 de Outubro de 1954 na cidade do Mindelo, ilha de São Vicente
3. local de residência actual: cidade da Praia, ilha de Santiago
4. obras publicadas: Amanhã Amadrugada, livro de poemas publicado em Lisboa em 1993
5. principais publicações literárias com colaboração: Suplemento Cultural do Jornal Voz di Povo, Revistas Ponto e Vírgula, Raízes, Mudjer, Pré-Textos, Fragmentos, Jornal Cultural Artiletra e algumas revistas no exterior.

 

 

 

Clara Andermatt, António Tavares e os outros: a dança contemporânea e as relações (não perigosas) entre Portugal e Cabo Verde

G. T Didial  http://www.ciberkiosk.pt/arquivo/ciberkiosk6/espectaculos/didial.htm

 

Clara Andermatt apresentou, no Centro Cultural do Mindelo a coreografia Uma História da Dúvida, após ter dado ao público desta cidade uma protoversão da obra, alguns meses antes ("uma amostra pública informal", no dizer dela). Trata-se dum trabalho na esteira do que a coreógrafa portuguesa vem fazendo do seu interesse por Cabo Verde, suas gentes, sua cultura, e que já levou à produção, nomeadamente de Dançar Cabo Verde (com Paulo Ribeiro) (1994) e de Anomalias Magnéticas (1995), e a uma acção de formação na área da dança no nosso país estendida ao campo da música, do video/cinema e guarda-roupa.

Vi Dançar Cabo Verde numa transmissão feita pela televisão cabo-verdiana em 1997 e fiquei deslumbrado. Uma História da Dúvida é um bailado diferente, mas seguramente mais ambicioso, o que parece normal, já que, ao que se entende, indica uma evidente determinação da artista de se ultrapassar, de fazer progredir a sua linguagem coreográfica.

Tem-se defendido a ideia de que a criação contemporânea em vários domínios - pintura, escultura, literatura, cinema, incluindo jazz e mesmo teatro - estagna desde há algum tempo, já que não tem geralmente aparecido (talvez há uns 30 anos) nenhuma grande linha de verdadeira invenção, enquanto, durante o mesmo período, a dança tem estado, pelo contrário, em plena renovação, tem mostrado um espantoso esforço de constante evolução com criações excepcionais. Não será exagero (o futuro di-lo-à certamente melhor do que eu) contar Andermatt entre essa plêiade de artistas que desenvolvem em maior ou menor grau essa actividade inovadora e em que, curiosamente, o número de mulheres é significativo: desde a veterana, a genial Martha Graham, até às novas gerações, podia-se citar mais duma dúzia delas, mas limito-me a lembrar apenas alguns nomes - as americanas Lucinda Childs, Trisha Brown, Carolyn Carlson, Jermifer Müller, a alemã Pina Bausch, as belgas Ana Teresa de Keersmaeker, Michèle De Mey, Nicole Mossoux, as francesas Régine Chopinot e Karina Suporta. No caso de Cabo Verde, há um nome a reter, Ivete Moreno, já que, graças a ela, a nossa dança, que terá menos de 20 anos, vai chegando à maturidade.

 

Uma História da Dúvida pareceu-me um espectáculo com 5 momentos de grande beleza, de manifesto equilíbrio e darei possivelmente a impressão de estar a ser provocador dizendo que bastaria a obra contar apenas com estes 5 momentos. Porquê? Porque há fragmentos espúrios que parecem excrescências, aditamentos ou pausas desnecessários. Assim, pode-se considerar que este espectáculo põe a famigerada questão de saber quando uma obra deve terminar. Naturalmente, dirão, uma obra artística termina, quando o seu autor tal decide. Não é tão simples como isso ou, melhor, a resposta não é tão straightforward como isso.

Este bailado revela uma concepção do espectáculo como uma espécie de polifonia, mas dir-se-ia que a complexidade é vista como um cesto de regularidades destroçadas e que se assiste, ao fim e ao cabo, a uma partitura de grande fôlego que claudica pelo meio. E, se se quiser citar exemplos de outras disciplinas, lembrar-se-ão as várias versões mais ou menos longas, entre outros aspectos, que Pierre Boulez fez da sua obra Pli selon Pli, inspirada em Mallarmé, o manuscrito do extenso poema Waste Land, de T. S. Eliot, que Ezra Pound, considerado il miglior fabbro (o melhor artesão) por Eliot, reduz consideravelmente, versão que o interessado aceita e publica como definitiva. Pensava nisso há meses, depois de ler A Família Trago, romance do nosso compatriota Germano de Almeida. Há nele páginas a mais; e, designadamente, o livro que, de resto, tem coisas admiráveis, termina várias páginas antes de o escritor se ter dado conta disso, antes de ter decidido acabá-lo.

Goethe dizia a Eckermann que há criadores que têm vocação para longas obras e outros cuja vocação é para obras curtas ou relativamente breves. E não reconhecer isso é correr o risco de remar contra os seus próprios dons e fracassar. Tal distinção não significa hierarquia ou critério de valor: a excelência não se mede pelas dimensões da obra criada. (Neste contexto, é bom notar que Camus, por exemplo, é um autor geralmente de curtas obras primas, enquanto que Thomas Mann escreveu sobretudo extensas obras; Maurice Béjart é um coréografo de excelentes obras no geral de longa duração, enquanto Merce Cunningham privilegia bailados muito menos longos ou amiúde de média duração, mas de comparável excelência.)

Ao fazer a objecção, acima mencionada, à Clara Andermatt, ela reconheceu prontamente que o espectáculo poderia ser mais curto por razões de equilíbrio e que um amigo íntimo já chamou a sua atenção para o facto de o seu talento parecer exprimir-se melhor em trabalhos de curta e média duração do que nos de longa duração.

Uma História da Dúvida é precedida por um filme do cineasta Ruy Otero, cuja função de prefácio não entendi muito bem e é tão barulhento como a própria obra coreográfica. Porque é verdade: esta obra de Andermatt é ruidosa e não se percebe a razão de tanto ruído. Chega-se a evocar Jerome Robbins que, nos anos 60-70, fez bailados, magníficos, sem companhamento sonoro algum. Robbins, decerto mais conhecido do grande público como coreógrafo do filme West Side Story (de Robert Wise, música de Leonard Bemstein e Stephen Sondheim, 1961), terá provavelmente marcado o ballet com estas experiências.

Ocorre-me, neste contexto, fazer uma pergunta de cuja pertinência não estou seguro: a omnipresença do gesto (vidé mais abaixo) não torna ainda mais perceptível esse carácter ruidoso do espectáculo?

E aqui cabe sublinhar quanto surpreende a composição musical utilizada, que lembra um pouco as pesquisas efectuadas há anos pelo grupo de Darmstadt, que, pode-se afirmá-lo, dos três parâmetros essenciais da música - ritmo, melodia, harmonia -, manifestamente dava a sua preferência a um ou outro, uma preferência, que levava à frequente exclusão dos restantes e a uma certa dissonância. Num encontro com o público em Bruxelas em 1991, ouvi o compositor Helmut Lachemann, que seguiu essa escola de Darmstadt, dizer que não pretendia fazer obra estética, que a beleza na música não era um objectivo seu. (Pelo que se sabe da sua última obra, a ópera A Menina dos Fósforos, apresentada em Hamburgo em 1997, ele deve ter mudado recentemente de opinião.) Algo de parecido se lê na declaração feita por João Lucas, o compositor, que concebeu a música do espectáculo, cuja direcção também assegurou, ao jornal lisboeta Público (agosto de 1998): "o objectivo foi, a partir de material de origem popular, conduzir o processo de forma a criar objectos sonoros em que a coisa mais importante não fosse a beleza da música, mas antes a conjugação tímbrica de vários instrumentos». Curiosa afirmação, que explicará, talvez em parte, a agressão auditiva, que a composição não raramente representou, e que, quanto a mim, pediu apaziguamento que, felizmente, chegou por fim com um trecho, de propósito e natureza diferentes, de bom equilíbrio (os três parâmetros citados - harmonia, ritmo, melodia - aí estão em proporções adequadas, dir-se-ia), I am a professional, do jovem compositor cabo-verdiano Orlando Pantera.

Do elenco da obra de Andermatt fazem parte 8 bailarinos (um espanhol e sete bailarinos caboverdianos, "recrutados após exaustiva selecção na Praia e no Mindelo, segundo critérios aliados à personalidade, fisicalidade, energia e musicalidade"), além de 7 músicos também cabo-verdianos (principalmente tocadores de violino, violão, viola, cavaquinho, tambores). Dizem ou gritam, ao longo da sua performance, enquadrada por um cenário de 3 andares (uma parede de metal e um cais de madeira de valor emblemático, da autoria do arquitecto Carlos Gomes) um texto elaborado a partir de respostas dadas pela população a quatro questões que eles puseram: "O que é o amor? O que é a dúvida? O que é o futuro? O mundo acabará amanhã?

O cais tem um valor emblemático, anotei. Na verdade, diz Clara Andermatt, que tem escrito vários textos: "Isto não é um espectáculo. É um processo que constrói encontros, chegadas e partidas". Segundo todas as evidências, ela quer que se entenda o cenário nessa perspectiva.

Os críticos que escreveram sobre Uma História da Dúvida ressaltaram o relativo pouco uso da dança nesta peça, sobretudo para uma coreógrafa que, em Dançar Cabo Verde, demonstrou que sabe dirigir dançarinos, que sabe pô-los a bailar; mas a mim o bailado surpreendeu-me por um elemento que Clara Andermatt parece ter levado quase às últimas consequências. Em todo o caso não sei se, desde Nijinsky, que é o dançarino-coreógrafo creditado como tendo-o verdadeiramente instaurado, alguém o tenha desenvolvido a esse ponto. Falo do gesto. (Digo creditado, porque se perderam, como se sabe, as coreografias de Nijinsky. Cf a biografia escrita pela mulher, Romola Nijinsky, Sphere Books, Londres, 1956.) Estaria tentado a afirmar que, em certa medida, História da Dúvida é um fulgurante tratado coreográfico do gesto, o gesto como elemento supremo do bailado, ou seja, decisivamente privilegiado em relação aos outros elementos canónicos da dança. Eis, em meu entender, a importante originalidade deste trabalho de Andermatt, em que a dramaturgia regista colaboração de João Branco.

Falei atrás de 8 bailarinos. Que dançam, como dei a entender, relativamente pouco. No entanto, a companhia tem bailarinos de qualidade: há um dançarino e um tocador de cavaquinho, que atravessam a cena 'equatorialmente', numa espécie de reinvenção, sublime, do pas de deux; num trecho balético magistral dançarinos descem da estrutura de madeira e põem-se a dançar sobre o estrado; há uma estilização da morna com os dançarinos e os tocadores evoluindo sobre a cena, um momento a um tempo barroco (um barroco dir-se-ia felliniano) e burlesco, dum lirismo incontestável, uma estilização da morna que passará indubitavelmente à história, assim como a estilização, penso, do funaná realizada por António Tavares, num outro espectáculo, Fou-Naná, visto também aqui no Mindelo e de que falarei mais adiante.

Há, entre esses intérpretes de talento, sobretudo um dançarino, cujo andar sobre a cena é já balético. Isto levou-me subitamente a uma recordação que me ficou de Rudolf Nureyev. Antes devo confessar uma obsessão: Quando oiço dizer que um artista, um desportista, enfim, que alguém é o melhor do mundo na respectiva disciplina, embora não ignore, naturalmente, quanto de subjectivo possa impregnar tais afirmações, procuro observar o elogiado em acção, para, entre outras razões, ir tendo uma ideia dos ponderáveis citérios consensuais da excelência. (Daí o meu interesse pelos campeonatos do mundo de atletismo, os campeonatos do mundo de futebol, os jogos olímpicos, além dos modelos que me escolhi em arte e literatura. E não se espante o leitor com esta aparentemente insólita intrusão - tudo, está em tudo, como diria a sábia voz.) Nos anos 70, Nureyev era tido por muitos especialistas como o maior dançarino vivo. E eu, que tenho passado grande parte da minha vida a ver bailados, esperava ansiosamente a oportunidade de assistir a um espectáculo com ele. Essa oportunidade tive-a em Nova York em 1973: Nureyev desembarcou no Lincoln Center com a Companhia Nacional do Ballet do Canadá, como convidado desta, que apresentava La Belle au Bois Dormant. Quando Nureyev entrou em cena, fui invadido por uma indescritível impressão: na realidade, dei-me comigo a pensar inopinadamente, ao vê-lo caminhar pelo palco dentro: "mas

este andar é já balético, um movimento balético de grande classe; não surpreende que seja o melhor dançarino do momento". O espectáculo, que se seguiu, não fez senão confirmar esse singular sentimento.

Clara Andermatt tem estado em contacto com a realidade caboverdeana desde 1994. Fez cá workshops, trabalhando com dançarinos e músicos. Uma compatriota sua, a coreógrafa Conceição Nunes, tem realizado algo de semelhante. E, no ano passado, falei duma obra, Da Maçã de Adão às Virilhas, que ela concebeu a partir da sua experiência da cultura do arquipélago e foi apresentada durante o Festival Mindelact 98 (Artiletra 28: XIX-XX, 1998). Estas duas artistas vão deixando rastos na paisagem balética, em particular, e, suponho, cultural, em geral, destas terras. Chegam, cooperam e partem, regressando algum tempo depois. Com projectos, ideias e obras acabadas, por vezes, propostas de novas trocas. Um cabo-verdiano, António Tavares, residente em Portugal, tem tido um itinerário análogo. Vejamos como.

António Tavares inicia-se na dança, em S. Vicente, onde nasceu em 1967 e onde apresentou, com um ou dois grupos criados por ele, alguns bailados. Como me confiou, avançou até onde pôde, até se dar conta de que, para continuar a evoluir, era preciso sair do arquipélago. Foi o que fez e reside em Portugal desde 1991, onde é docente na Escola de Artes e Ofícios do Espectáculo. Tem trabalhado com coreógrafos portugueses e seguido a actividade de (ou colaborado com) artistas de outras nacionalidades, entre os quais o belga Mark Platel.

Da nossa conversa, retive com peculiar interesse a sua reflexão sobre como, na ausência de crítica informada do que ia concebendo no país (para todos o que se fazia era bom), sentiu a necessidade de interlocutores para avaliarem e discutirem com algum proveito profissional para ele o seu trabalho. Apraz ouvir isto da boca dum artista cabo-verdiano, já que a ausência de crítica abalizada é das carências cruciais destas ilhas e que, nos variados domínios da criação, raros são os que se apercebem disso, havendo, em verdade, muita miopia, crónica farsa do elogio mútuo e guerra à opinião desfavorável.

A peça Fou-Naná, que apresentou no Mindelo, trazia um elenco de 4 intérpretes (um português, dois caboverdeanos, uma moçambicana), além dele próprio, todos com uma prestação relevante. Notei principalmente a graça e técnica apurada de Célia Alturas, a presença feminina na Companhia, a moçambicana, docente também ela. "A peça é predominantemente povoada por homens, isolando a única figura feminina", escreve Tavares, que acrescenta que "Fou-Naná é uma expressão recriada por nós que significa: Mulher-ilhéu, norte da rosa dos ventos; Mulher da bicha da água (fila que se forma para a aquisição de água), rabidante (vendedeira ambulante) da vida, Virgem Louca. Essa mulherficção que nos fala das memórias que dançam na solidão das ilhas". Com esta obra pretende homenagear o escritor António Aurélio Gonçalves, porque "dedicou os seus escritos às mulheres e ao quotidiano cabo-verdeano - ponto comum e fio condutor em todos os meus trabalhos". Pode-se compreender esta posição do artista, mas o que não se compreende muito bem é o emprego, como prólogo, da voz de Aurélio Gonçalves, dizendo algo que nada tem a ver com o espectáculo. Ou, pelo menos, não compreendi.

Voltando a Célia Alturas: ela destaca-se especialmente num belo solo, que fascina pela harmonia coreográfica, apesar de certas exuberâncias e arrojos por vezes de gosto algo discutível. A forma como António Tavares articula, ao longo de todo o palco, os bailarinos, incluindo ele próprio, releva de um "geometrismo", ora luminoso ou linear, ora um tanto obscuro ou barroco, mas, no geral, esteticamente convincente, com combinações de movimentos e gestos frequentemente atravessados por uma força e lirismo duma complexidade, que lembra a tradição das danças folclóricas do nosso continente, que possui certamente das danças mais belas, barrocas e complexas do mundo.

Com excelente música de Artur Fernandes, a cuja composição, ouvida em Nocturno, uma peça apresentada no Mindelact 98, tive ocasião de me referir, e brilhante participação de músicos cabo-verdianos convidados - Julinho da Concertina e Nenê Ferrinho - a peça atinge o seu melhor momento com a já mencionada estilização do funaná. Um grande e inesquecível momento de dança!

A cena, praticamente nua ou quase isenta de décor, lavrada episodicamente por frágeis evocaçoes materiais ou por objectos particulares, casa-se bem com a sobriedade do guarda-roupa e a geral linha narrativa das partituras musicais e coreográficas.

Em resumo, o que se viu aponta para uma forte linguagem pessoal que se afirma. Isso também creio ter descortinado em excertos que pude seguir, na televisão, da sua criação de maior fôlego, ao que parece, até hoje, Blimundo, que, apresentada na EXPO 88, não se pode trazer a Cabo Verde, porque, diz Tavares, não se arranja financiamento para fazer deslocar todo o pessoal e o material envolvidos no espéctáculo.

Assim, as relações entre cabo-verdeanos e portugueses na área da dança, através das vias acabadas de referir, e outras menos directas, como sejam encontros de dança em Portugal ou trocas informais, em que têm participado grupos nossos, têm sido estéticamente eficazes, o que é evidente até em trabalhos de jovens coreógrafos, nomeadamente dos grupos Bibinha Cabral (Praia), Raíz de Polon (Praia) e Estrelas de Cabo Verde (Mindelo). Tudo isso poderá pedir dentro de poucos anos estudo detalhado.

Entretanto, é curioso verificar que, enquanto, no bailado, o intercâmbio Portugal/Cabo Verde tem produzido obras notáveis (e.g., Dançar Cabo Verde, Uma História da Dúvida, Blimundo), no cinema essa colaboração só tem dado até agora filmes sem grande valor estético. São longas metragens de ficção, cujo único mérito assinalável é serem documentos interessantes sobre um ou outro aspecto da vida do arquipélago. Mas essa é outra história, uma história de relações perigosas, de que talvez me ocuparei oportunamente.

De notar, para terminar, que os coreógrafos, de que estivemos a falar (Clara Andermatt, Conceição Nunes, António Tavares), parecem ter em comum um marcado humor, um certo pendor para a escrita, apreciam o intercâmbio, a interdisciplinaridade, ou seja a mistura dos géneros (e.g., a música, o video, a dança, o teatro).

 

L'univers de l'ile et les iles de l'univers

 

Espace insulaire et diversité dans la littérature capverdienne

 

Version complète d'une communication présentée dans le cadre des « semaines sociologiques » de l'Université Lusofona de Lisbonne (mars 1994)

 

Avner Camus, PEREZ, «L'Univers de l'île et les îles de l'Univers - Espace et Insularité dans la littérature capverdienne ».

 

                Où donc, mais où est-il, le lieu - je le porte en mon coeur -[...]

 

...Combien n'y eut-il pas déjà de ces lieux des espaces qui furent au dedans de moi! Bien des vents sont comme mon fils.

 

Rainer Maria RILKE  (« les élégies de Duino » et « les sonnets à Orphée », in « Poésie »2, Seuil, 1972)

 

Un homme au visage buriné. Une impression d'urgence dans une démarche lente. La grève d'une plage. La trace d'un pas. Des pieds nus sur le sable humide. A sa droite, une jetée rocailleuse. Au loin, horizon bleu-verdâtre. A gauche, pierres noires, cahutes de boues couleur soufre incrustées à de nouvelles pierres - grises celles-là -, suivies du mont noir et nu. Le sommet accidenté cisèle un visage insigne et creuse au versant, la forme rassurante d'une vallée entr'aperçue. Notre homme, veste et chapeau sombres et courts. Chemise à carreaux effacés en flanelle. Il avance traînant un bidon métallique sur son pantalon retroussé, taché, élimé. Ni pêcheur, ni marcheur, il n'a d'yeux que pour le passage à se frayer. Nul besoin d'envisager son décor ... Il sait l'Île...

 

Cette scène aurait pu se dérouler sur n'importe quelle plage des neuf îles habitées de l'Archipel du Cap-Vert: Baia das Gatas, São Francisco, Tarrafal, Quebra Canela, Mosteiros... Ce savoir de l'île, le poète, l'écrivain, le « possède » lui aussi. Il en est également « possédé». Ce savoir-appartenance dont il est l'un des dépositaires devient un savoir obsédant. Il lui appartient et le hante.

 

L'espace de l'île qui est son habitation et qui l'habite !...

 

La conscience d'une spécificité de l'espace insulaire capverdien est présente dès les prémisses d'une matière littéraire orale ou écrite dans l'Archipel. Cette idée, au cours des différentes phases d'affirmation de cette littérature, est devenue un fait de parole, l'expression d'un langage, la marque d'une écriture, constitutifs du monde de la création dans les îles atlantiques. Comment cette reconnaissance de l'univers circulaire de l'île - univers enfermant, qui appelle le large, l'évasion,

 

l'océan porteur, la fuite de ces lambeaux de terre ferme - s'est-il transmué en désir d'ancrage ? Quelle est l'énigme de ce besoin d'enracinement des « pieds » ou des mains obstinées qui souhaitent s'accrocher du bout des ongles à la Terre-Mère (« Mamãe-Terra »), au point d'en vouloir payer tout le prix de souffrance, au point d'égratigner sa chair de sang ? Dans un poème célèbre, l'auteur capverdien Ovidio Martins le clame:

 

« Atirar-me-ei ao chão e prenderei nas mãos convulsas ervas e pedras de sangue »

 

Cette déclaration du besoin d'existence sur ces roches nues, désertes, sèches, constitue un objet d'interrogation, car, c'est alors même que les lignes de l'horizon maritime, enveloppant l'île, attirent, aimantent, qu'elles sont repoussées et qu'elles inquiètent. Et c'est cette inquiétude qui renvoie à la terre-nourrice. A l'univers de l'île. En un mot le poète, l'écrivain est, si l'on peut dire, hanté par la question: comment faire d'un bout d'espace, une île. De l'île, un archipel. De l'archipel un appel à l'horizon du monde. De ce monde où l'on s'exile, une invite au retour... dans l'île... comme un écho nécessaire, un nouvel appel pressant... La question serait: comment dessiner dans ce mouvement quelque peu circulaire, une identité ouverte aux vents porteurs ? De quelle manière constituer un monde « archipélique » à l'échelle de la planète, qui se définirait comme dans la poésie de l'antillais St John Perse, par « une dialectique mouvement-stasis ». Telle serait, à notre sens, le caractère essentiel de l'expression littéraire capverdienne. C'est autour de cette nouvelle problématisation centrée sur l'espace de l'insularité, ou plutôt comme le dit le poète mauricien J.E.Maunick, sur le caractère « insulé» de la production culturelle capverdienne, que nous insisterons. Cela pour essayer, vingt ans après les indépendances, à la suite de nombreuses tentatives d'identification au modèle issu des années trente (« Claridade », mouvement identitaire marquant de la littérature capverdienne) ou son rejet dans les années soixante - parallèlement aux mouvements de la négritude de l'espace francophone ( mouvement « anti-évasion ») -, de tenter une nouvelle approche qui nous semble au centre de l'ouverture moderne de cette littérature. Et ainsi de relire les textes: poésie ou prose, comprenant également les essais. Il nous faudra réappréhender cet ensemble composite à la lumière de cette grille qui voudrait tracer une approche à la fois topographique et ontologique de cette littérature. Cela nous mènerait à cerner ce que l'on pourrait appeler une spécificité, une posture particulière de la littérature insulaire et qui serait autre chose qu'une identité fermée, ou une simple miscégénation, un banal  syncrétisme, fût-il « luso-tropical», mais bien au contraire une sorte d'universel-particulier qui a fait que du plus profond isolement de l'archipel atlantique, des voix singulières ont pu se « synchroniser » (comme le dit le personnage Chiquinho du roman homonyme de Baltasar Lopes) avec le reste de l'univers.

 

En effet, l'univers de l'île dessiné par l'écrivain est souvent caractérisé par une perpétuelle inquiétude quant à sa viabilité, à sa perdurabilité, en cela il se métamorphose en « être au monde ». Il appelle, intègre, imbrique les éléments universels des contrées pays ou continents proches ou lointains: Brésil, Afrique, mais aussi Caraïbes, et enfin Europe: France, et bien sûr, Portugal. Les tenants de la « capverdianité » entretenant avec ce dernier une relation qui peut, à l'instar des autres, se définir par une sorte d'insularité partagée.

 

C'est ce qui a pu permettre d'instaurer ce rapport dialectique du Même et de l'Autre.

 

Rapport problématique parfois, et qui a contribué à ce que, une fois de plus Maunick a tenté de saisir à travers ce qu'il nomme cet « être insulé »:

 

« Je dis « insulé » parce que je pense que c 'est autant le lieu que l'être y étant né qui définissent l'insularité... (ce terme) dit mieux la métamorphose de l'être en île. On né insulaire on devient insulé»

 

(Edouard Maunick, « entretien », Le Courrier de l'Unesco, mars 1994) .

 

C'est cette accroche insulaire qui va d'un « état d'îlien » à une condition « insulée », que nous tenterons d'approcher. Ce passage, cette tentative sans cesse reprise de bâtir un pont entre un état et une condition renouvelée, nous semble décrire ce qui s'est tramé dans ses moments forts comme tout au long du cheminement de l'expression littéraire dans l'archipel atlantique. L'espace de l'île tant de fois chanté, décrit minutieusement, ménagé par l'artiste, est là pour rappeler ce souci « d'habitation » d'une terre brisée, déchirée, craquelée. Le poète, l'écrivain enjoint « d'habiter sa demeure », avant de dire de fabriquer le devenir.

 

Cette préoccupation de faire un « lieu » de cet espace, de l'occuper c'est-à-dire d'y faire émerger un sens autant que des existences, est présente dès l'éclosion de cette littérature.

 

Nous pourrions redire ici la formule de Heidegger: « c'est seulement quand nous pouvons habiter que nous pouvons construire » et il ajoute: « Le rapport de l 'homme à des lieux et, par des lieux, à des espaces réside dans l'habitation. La relation de l'homme et de l'espace n 'est rien d 'autre que l 'habitation pensée dans son être » («Bâtir, habiter, penser » in « Essais et conférences », 1954, Paris, 1958).

 

Mais avant d'ouvrir ces pistes, un retour rapide aux grands moments de cette littérature s'impose. Nous tenterons de lire ces étapes sous le prisme de la topique que nous privilégions: à savoir, l'île, son espace, l'univers insulaire, le désir d'y inscrire sa «demeure ».

 

I - MATRICES GÉOPOÉTIQUES ET GÉOPOLITIQUES DE LA LITTÉRATURE CAPVERDIENNE

La vocation atlantique du Cap-Vert s'est révélée dès la découverte de l'Archipel en 1460/62. Îles-relais pour le commerce des marchandises comme d'esclaves, elles constituèrent très tôt un carrefour important sur les routes atlantiques entre l'Afrique, l'Europe et le Nouveau Monde. Point de croisement où se sont joints groupes de population, cultures, langues, religions aux profils les plus variés. Cette configuration particulière a régulièrement retenu l'attention des observateurs qui ont vu dans le processus de formation du pays un ensemble qualifié d'inédit et constituant un véritable « laboratoire humain original capverdien ». La symbiose de peuples mêlés qui produira une langue, une culture « sui generis » contribuera à cet effort permanent de viabilité des éléments les plus divers. A cet effort se joindra une nouvelle énergie requise pour contrecarrer la rudesse de l'environnement naturel: roche volcanique dominante, relief contrasté dans chaque île et d'une île à l'autre, désert sahélien et donc sécheresse, climat insulaire macronésien. Ménager un espace salubre et équilibré dans lequel puissent se déployer une vie sereine et une culture propre à intégrer la diversité sur ces bouts de terre émergés, devient le défi de chacun. Le sociologue et ethnologue brésilien Gilberto Freyre (« ce messie qui nous a déçus» a dit Baltasar Lopes) rapporte cette boutade d'un ami: "ceci est moins un archipel qu'un grand problème».

 

Si la terre ingrate laisse tout de même l'espoir d'être domptée, la mer, elle, inquiète et fait traverser dans les imaginaires son lot de mystères et de menaces.

 

Dès les premières expéditions de découverte, navires et équipages anxieux abordent ces nouvelles rotondités que sont les îles, avec appréhension. Les mythes apparaissent qui viennent soutenir la conviction qu'il existait des monstres marins entourant ces circonférences telluriques. Mais le désir d'atteindre le « pays de l'or » était plus fort.

 

MYTHES ET LÉGENDES - LE MOMENT « ATLANDIDE »

La littérature s'est depuis longtemps emparée de ces mythes, désignant ces lieux, les apprivoisant en leur donnant une forme rassurante rendant ainsi une valeur positive aux ondes Atlantides secrètes. Homère le premier donne un nom à des îles mythiques de l'Occident. Il place ses « Makaron nesoî », près de l'océan vers le Couchant. Ptolémée appelle ce groupe d'îles: « îles des Bienheureux ». La littérature a eu pour fonction de donner une origine humaine ou extra humaine au mystère de ces lambeaux de terre laissés comme perdus dans l'océan. Lorsque le premier pied les a foulées, elles devaient déjà relever d'une existence antérieure. Telle fut la réappropriation initiale des premiers poètes et prosateurs capverdiens.

 

Si l'on fixe à la fin du XIXème siècle le début de cette littérature, l'élaboration des tous premiers textes poétiques d'expression portugaise ou créole, sera précisément réalisée autour de la recherche comme de l'affirmation d'une origine perdue à découvrir. Elle puisera largement dans la sphère symbolique des mythes. Ce ressourcement par les mythes a eu des échos jusqu'à la période moderne, et a même traversé le « mouvement le plus cohérent » de la littérature capverdienne: « Claridade », des années 30 à 50/60, qui transformera l'origine mythique en recherche de l'origine historique.

 

Jorge Barbosa:« Quando o descobridor chegou

 

à primeira ilha

nem homens nus

nem mulheres nuas

espreitando

inocentes e medrosos

detras da vegetação...

Nessa hora

então

Nessa hora

inicial

começou a

cumprir-se

este destino de todos nos »

Caderno de um Ilheu, 1956

 

 

(Quand le découvreur est arrivé sur la première île/ Pas même un homme nu/ Pas même une femme nue/ guettant/ innocents et craintifs/ derrière la végétation/ A cette heure alors/A cette heure initiale/ commença à s'accomplir/ Notre destin à tous)

 

Cependant, pendant la période dite « pré-Claridosa », les poètes et prosateurs n'ont pas hésité, eux, a redonné une magnificence aux îles désolées qu'ils contemplaient, en utilisant les mythes les plus reculés dans le temps. Ils sont allés chercher leur source d'inspiration bien au-delà, en amont des origines du peuplement effectif, issu de l'épopée portugaise des découvertes du XVème siècle. Recherchant une matrice extérieure à l'aventure maritime européenne, - et qui pouvait en quelque sorte constituer une « matrie originelle » permettant d'occuper l'espace imaginaire et symbolique de l'île -, Ils en ont fait un lieu où le Père de la « patrie » (en l'occurrence portugais), se verrait non pas exclu, mais lui-même engagé dans une « indifférence » originelle. Ces auteurs ont dans le même temps, loué la patrie portugaise et déclaré leur amour à la patrie-matrie-terre capverdienne: les vers de Pedro Cardoso et ceux de José Lopes (cités par Manuel Ferreira, « Préface a l'édition fac-similé de « Claridade », 1986) sont là pour en témoigner:

 

 « Nasci na ilha de Fogo ] Que me honra a mais subida

 

Sou pois caboverdeano... ] Ser neto de Portugal »

 

Se filho de Cabo Verde... ]

 

(Je suis né dans l'île de Fogo/ Je suis bien capverdien/ Si je suis fils du Cap-Vert/ Quel honneur supplémentaire d'accéder à/ L'état de petit-fils du Portugal)

 

Dans le paradis premier, nourrice des formes d'existence de l'île, ce retour à la genèse anté-découverte peut s'entendre comme une recherche du « troisième genre » avant toute forme, et qui donnera naissance aux formes différenciées futures de l'espace insulaire. Une sorte de « Khorâ » - réceptacle-nourrice -, la « Khorâ » de Platon, qu'il définit (difficilement) dans le texte du « Timée ». Texte qui développe précisément le mythe de l'Atlantide repris par ces mêmes auteurs capverdiens pré-claridosos.

 

Ce courant littéraire, repéré et analysé de brillante façon, par le regretté Manuel Ferreira (à qui il faut ici rendre hommage), a été désigné par ce dernier de: courant « hesperitain de la littérature capverdienne ». Trois titres et deux auteurs font l'objet de l'étude de Manuel Ferreira:

 

« Hesperitanas » « Jardim das Hesperides » de José Lopes et « Hesperidas » de Pedro Cardoso écrivain et poète de langue créole originaire de l'île de Fogo. Ferreira cite ces vers extraits de ces oeuvres. José Lopes:

 

«Terra que os Atlantes

ocupavam nos seculos passados...

« antigo e imenso continente Hesperio

De que o Atlântico é cemitério...

« Tal foi a Atlântida...

Hoje o seu misterio...

« Das vastas extensões assim submersas

Então ficaram estas nossas ilhas...

Chamadas pois ilhas Hesperitanas

«  Já, pois vistes, Irmãos Caboverdeanos

que as nossas lindas e queridas ilhas

contam a historia dos remotos anos

Da Atlântida, da qual elas são filhas.

« Nos pisamos, nos filhos e habitantes

Talvez a mesma terra que os Atlantes »

 

« Terre que les Atlantes/ occupèrent aux siècles passés.../ ancien et immense continent des Hespérides/ Qui possède l'Atlantique pour cimetière.../ Telle fut l'Atlandide.../ Aujourd'hui son mystère// Des vastes pans ainsi submergés/ restèrent alors ces îles qui sont les nôtres.../ qu'on appela donc les îles « Hespéritaines »/ Tu peux constater, Frère Capverdien/ que nos belles et très chères îles/ racontent l'histoire du temps passé// De l'Atlandide, elles sont les filles./ De cette même terre certainement que celle des Atlantes.. »

 

Et Pedro Cardoso: « Descendeis delas, que, de Hespero filhas tinham no seu jardim as nossas ilhas ».

 

« Vous en êtes issues, vous nos îles, qu'Hespéro a engendrées comme ses filles dans son jardin... »

 

 Manuel Ferreira note que la désignation « Claridade » s'est faite en partie et presque contre une proposition de Jaime de Figueiredo, pressenti comme directeur de la nouvelle revue, car ce dernier avait proposé le titre de « Atlanta » à Baltasar Lopes qui le rejeta car, semble-t-il, il marquait trop l'identification à la mythologie Atlantide . Ferreira aurait été surpris de découvrir que l'une des toutes dernières publications de Baltasar Lopes lui-même, avant sa disparition, est un recueil de nouvelles intitulées: « Os trabalhos e os dias », allusion ou référence directe à l'oeuvre d'Hésiode dans laquelle sont décrites « les îles des Bienheureux, aux bords des tourbillons profonds de l 'océan, héros fortunés, pour qui le sol fécond porte trois fois l'an une florissante et douce récolte.. ».

 

 

Corsino Fortes: O épico da Caboverdianitude serena?

 

Eduardo Coelho

(Assistente Convidado de LAEP Faculdade de Filosofia de Braga)

 

 As Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, já desde o século XIX, indiciam um procedimento estético demonstrativo de que a essência da arte é sempre uma «vanguarda» não programada e em que a axiologia tempo/espaço faz da literatura, quer enquanto poíesis quer enquanto mímesis, um espaço psicológico/mítico, mas também um espaço público/histórico. Com efeito, quer uma visão mais regionalista ou cosmopolita, ou noutra dicotomia, uma visão mais nacionalista ou universalista, levou os escritores africanos a compreenderem que a herança cultural nativa e alienígena, enquanto fruto de uma determinada mundivivência, não poderia ser excluída do processo de criação artística.

 

Assim, se devem considerar as literaturas africanas mais filhas da consciência de uma cultura do que de uma raça, sem que isso represente qualquer indício de perda da sua autonomia ou identidade, tendo até em conta que o ponto de viragem para o seu desenvolvimento se deve ao contributo dos sucessivos modernismos e realismos, enquanto movimentos estéticos empenhados na redefinição do Homem na primeira metade do século XX. Deve notar-se que desde os finais do século passado os escritores negros norte-americanos, como por exemplo Stephen CRANE (1871-1900), entre outros, inserido na obra The Black Riders and Other Lines, nos transmitem imagens acutilantes, dramáticas que a seguir transcrevemos do Inglês, acompanhada da tradução poética de Herberto Helder (1996) em Poesia Toda, página 486: «In the desert/I saw a creature, naked, bestial, / Who, squatting upon the ground, / Held his heart in his hands, / And ate of it. / I said,"Is it good, friend?" / "It is bitter - bitter," he answered; / "But I like it"/Because it is bitter, / "And because it is my heart - No deserto, / vi uma criatura nua, brutal, / que de cócoras na terra / tinha o seu próprio coração / nas mãos, e comia ... / Disse-lhe: "É bom, amigo?" / "É amargo - respondeu - , / amargo, mas gosto / porque é amargo / e porque é o meu coração.». Como disse Sartre, a arte é sempre um Humanismo. Ao longo dos séculos o homem, na sua forma básica do corpo, foi quase sempre o mesmo e assim se manterá, a menos que comecem a ser feitas modificações somáticas. O que mudou, o que evoluiu foi a sua Cultura, a sua Civilização e a sua idiossincrasia. Esses são os traços distintivos e identificadores, qualquer que seja o lugar onde tenha nascido. Como fruto complexo de um sistema de correlações, só o compreenderemos no seu contexto histórico, social e cultural. De facto, as circunstâncias históricas que envolveram a geração fundacional de cada uma das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa determinaram discursos atravessados pelo tecido social e político e pelo cunho paidêutico dos mesmos. Só depois se passaria à subversão do discurso linguístico e literário na esteira de Joyce ou Guimarães Rosa, já que, quer um quer o outro, contribuiram decisivamente para a renovação desse mesmo discurso na língua dos antigos dominadores. O realismo socialista que as norteou demonstra bem a preocupação pelo Homem e esta não era apenas pelos negros como o documenta o são-tomense Francisco Tenreiro, no longo poema inserido, em 1953, no caderno Poesia Negra de Expressão portuguesa, «Coração em África» que cogita «na pretidão do mundo que ultrapassa a própria cor da pele»(1), mesmo da Europa por si trilhada. Convém desde já acentuar que esta assunção do Negro coincide com a decadência daquilo a que alguns chamam a Branquitude, tendo em conta os enredados problemas sócio-políticos de que a Europa da Segunda Guerra mundial foi palco. Certamente que aos predicadores subjaz todo um contributo de poetas negros norte-americanos como Langston Huges ou Robert Hayden em caminhada para a libertação do homem pelo homem «encarnando o seu sonho da coisa necessária e bela» (2) e também da literatura hispânico-americana como Nicolás Guillén. Até García de Lorca numa viagem à América (1929/1930) - a década da conceptualização da Negritude dos ideólogos afro-francófonos, se impressionou fortemente com a marginalização dos negros e de outros sectores da sociedade, que aliás o leva a um moderamento enquanto «intelectualiza e surrealiza» a sua poesia um tanto de forma dramática «(Ai Harlem! Ai Harlem! Ai Harlem! / Não há angústia comparável aos teus vermelhos oprimidos, / ao teu sangue estremecido dentro do eclipse escuro, / à tua violência granate surda-muda na penumbra, / ao teu grande rei prisioneiro como uma farda de porteiro.)» (3). Já na literatura latina, quer Cícero com os seus discursos apologéticos e filosóficos, quer Terêncio com o seu teatro, transmitiram a sua forma de compreender o Homem na esteira do grande humanista grego, Menandro, que de forma extraordinária sintetizou esse ideal tão sublime?«Que coisa encantadora é o homem, se for verdadeiramente homem» (frg. 484 Körte) e se preocuparam com a sua humanização. Do primeiro tornou-se paradigmático o princípio do hominem humaniorem facere. O segundo, Lucius Publius Terentius Afer, poeta africano, natural de Cartago, esculpiu em verso o ideal de qualquer humanista «Homo sum: humani nihil a me alienum puto» (4). Neste século, alguns escritores africanos de língua portuguesa demonstraram que o Humanismo Novilatino ganhou matizes consonantes com a realidade geo-sociológica das ex-Províncias Ultramarinas. Referir-nos-emos, neste caso, particularmente, ao poeta caboverdiano Corsino Fortes.

 

 

Corsino Fortes e a tradição clássica

Corsino António Fortes (Mindelo - C/V, 1933), licenciado em Direito (Lisboa, 1966), é um dos poetas caboverdianos, a partir dos finais da década de 60, com maior densidade lírica, até pelo facto de ter escolhido a estrutura épica, nas obras publicadas, Pão & Fonema (1974) e Árvore & Tambor (1986). Não se trata de poesia épica extensa como a que vemos retratada nas epopeias gregas e latina ou do Renascimento. Ana Mafalda Leite explica a vulgarização da epopeia em miniatura neste século, citando Frye: «Nos tempos modernos a epopeia em miniatura tornou-se bastante comum: os poemas de Eliot, de Edith Sitwell, e muitos cantos de Pound lhe pertencem»(5). Não é necessário sequer citar nomes de escritores estrangeiros, pois a própria Mensagem de Pessoa com a sua tripartição e o seu sentido épico se desenvolve a partir de «Brasão» - primeiros passos da Nacionalidade, passando pelo «Mar Português», - o domínio do Mar até ao significado profético-messiânico de «O Encoberto». Não pretendemos desenvolver qualquer análise nessa linha, mas somente relacionar Corsino com a tradição clássica a quem não faltou o «honesto estudo» com longa experiência misturado, como ao nosso Humanista do século XVI.

 

Já na Antiguidade, Catulo, poeta que Virgílio muito admirou, preferiu o poema épico breve com grande valor etopeico - o epílio, onde o Veronense proporciona, sobretudo através do símile, a importância ritual. de certos aspectos da cultura romana bem como da sua complexidade psicológica passional, no enquadramento da época - em pleno período de emancipação da mulher romana, da cultura e do homem do seu tempo ( basta para chegar a essa conclusão fazer uma leitura apenas genotextual das Cartas de S. Paulo, nomeadamente na segunda parte da primeira aos Coríntios, sobre o matrimónio e virgindade).

 

Também Corsino cultivou o verso curto, o versículo (que pode manifestar ab initio uma propensão discursiva para a eloquência sagrada, mas também de síntese etiológica e cosmogónica, quase oracular como nas civilizações antigas) e se socorreu de ritmos diversos, habilmente trabalhados, como na antiguidade os diferentes tipos de estrutura versificatória, no caso caboverdiano ( o da morna-compasso a 4/4 em geral; a coladeira-compasso 2/4; o funaná-compasso a 2/4 e a mazurca-compasso a 3/4 ) o que também denota a miscigenação da música popular, de Cabo Verde de influências africanas e europeias, com sabor trovadoresco(6). Partindo do pressuposto de que a música negra é, de facto, a arte do silêncio que pelo seu aspecto mágico-encantatório e se revela como produto específico de determinado ambiente psicobiológico, no caso de Cabo Verde para a criação da morna e expressão da morabeza, é fácil explicar a economia do discurso linguístico-literário de Corsino. Um dos poemas que podemos apontar como expressão da morabeza/saudade e fortemente sonorizado, é «Pesadèle na terra de gente ou Pesadèle em trânsito» dividido em "LODE SQERDE" e "LODE DREITA", a primeira que termina com o apelo oralizante em crioulo e a segunda na fantasmagoria do crioulo que na "note de Lixboa" vê no comboio a cabra «Ta c'mê terra ta c'mê terra ta c'me terra / Ta c'mê terra ta c'mê terra ta c'me terra» (p. 30 -32), poema em que o ritmo evolui progressiva e alucinantemente na sugestão dos pregões da rua e do movimento do combóio abafado no "pouca - terra, pouca -terra ...."

 

A par de um ritmo / espaço de amplitude do verso, umas vezes longo, outras curto, Fortes valeu-se de um vocabulário latinizante, não por mera erudição, mas para com ele estabelecer imprevisíveis jogos semânticos em conjugação com o crioulo autóctone de forma a arquetipizar a especificidade do homem crioulo, simbiótico do ponto de vista genético, social e glossológico. O título da obra, Pão & Fonema, que Mesquitela Lima descodifica como a Odisseia de um Povo [Cf. Estudo Analítco, p. 69, que se segue aos três cantos] pelo direito à terra e à liberdade, é sintomático da necessidade de exprimir por esse binómio Pão& Fonema algo fulcral para a existência do homem caboverdiano, como homo socialis.

 

No paroxismo do Império Romano, os romanos limitavam-se a pedir pão e divertimentos gratuitos - panem et circenses (7), em plena desagregação do Império Português [( do mítico V Império de Gonçalo Anes (Bandarra), do jesuíta António Vieira, missionário, diplomata e visionário da Clauis Prophetarum e do intelectualismo pessoano para quem « Deus quer, o homem sonha, a obra nasce», mas faltou «cumprir-se Portugal!» (poema «O Infante»)], os caboverdianos reivindicam vigorosamente o pão e a liberdade - o Pão & Fonema, à medida do que o homem sonha e da obra que quer que nasça. O mensageiro da consciência nacional foi, sem dúvida, Abílio Duarte, vindo da Guiné na década de 50, cujas ressonâncias se estenderam à literatura que evolui da caboverdianidade de Baltasar Lopes, para a assunção da caboverdianitude, nos finais dessa década, progressivamente de Gabriel Mariano, a Onésimo Silveira e Ovídio Martins, entre outros.

 

Se os circenses mantinham alienados os romanos, vendo o seu império a arruinar-se, o Fonema de Fortes desalienará os caboverdianos, permitindo-lhe a conquista da identidade linguística e política, o patriciado. Assim os canta o poeta nas hipálages «voz solarenga» e «goela olímpica», «vestidos de toga / Falando crioulo / Nas grandes salas de audiência» (p. 34), da parte IV do poema «Postais do mar alto». Corsino recupera, deste modo, o sentido original de patrícios (do lat. patriciu- o que tem direito de cidadania) que, em Roma, tinham assento no Senado e ao mesmo tempo, como Píndaro, canta as «vitórias da cultura» do seu povo, mesmo quando já jogou «.... orim nas vigas / dos arranha-céus por construir» (p. 34). Diríamos até que a tripartição da obra de Fortes é semelhante também à estruturação das Odes de Píndaro: primeiro a referência as raízes míticas, no caso do Caboverdiano ao Tchon de Pove Tchon de Pedra- a terra mítica Herperitana a que o homem umbilicalmente está ligado, depois a odisseia do Mar & Matrimónio, tal como em Píndaro as glórias ou odisseia do atleta olímpico, e em terceiro lugar o Pão & Património - o que o caboverdiano fará «Konde note ftcha ftchode / E palmanhã manchê», isto é, quando amanhecer e se extinguir a noite colonial, tendo erguido a nação, que renasce, após o esforço olímpico, aguardado por todos (disso nos dá conta a reiteração verbal «Aguardam-te» introduz quatro estrofes sucessivas, no final do poema «Emigrante» (p. 39-41). Na verdade, há um nexo perfeito dos vocábulos solarenga, olímpica, patrícios e toga, os dois primeiros imprimindo atributos aristocráticos às gentes caboverdianas, como as gens fundadoras da Roma, no sentido genesíaco uma vez que as ilhas não estavam habitadas aquando da sua descoberta, os outros dois reiteram substantivamente essa mesma ideia de recusa à servitude suportada pela expressividade aliterativa e pleonástica dos versos «Ouvidos de ilhéu ouviram / a voz». Diríamos até que o Mare Nostrum dos Romanos dá lugar ao Mar Arquipelágico Caboverdiano, fulcro da relação insular das 10 ilhas.

 

Estamos, portanto, perante uma dicotomia conceptual da existência humana, com cerca de 20 séculos de permeio da história da Humanidade, do ponto de vista psicológico, político e social: a primeira decadente e a segunda ascendente ou consciencializante. Descrevendo a luta desmedida do Caboverdiano com a terra vulcânica do seu torrão natal, coberta pela camada ténue de húmus, recorre, mais uma vez à etimologia: crepe da terra (p. 17) (do lat. crispu-, latinismo que Camões emprega na descrição do promontório do Cabo das Tormentas no episódio do Adamastor de « crespos os cabelos» Os Lusíadas, V, 39) e a pozolana (p. 13) (do lat. Puteolanu, pelo it. pozzolana - pó de origem vulcânica) Também, neste contexto, os vocábulos corporizam a oposição das forças telúricas ao homem caboverdiano, tal como em Camões, o Adamastor personifica a luta do homem com as forças da natureza. A envolvente imaginação talassórica de Corsino também se concretiza na metaforização cinética em «celhas de espuma» (p. 13) (do lat. cilia, pl. de cilium - pálpebra), adensando um certo complexo retiniano da insularidade, do apelo da Tellus Mater e que, também, como no conflito interior, passional, de Adamastor, são motivo de sofrimento «e, por mais dobradas mágoas, / Me anda Thetis cercando destas águas» (Os Lusíadas, V, 59). O Adamastor do caboverdiano é a terra crespa, pela qual tem um carinho muito grande, é o ciclo do mar e a "noite colonial", este último que urge passar como um Cabo das Tormentas e também o dilema de «Corpo, qu'ê nêgo, sa ta bái; Coraçom, qu'ê fôrro, sa ta fica... - O corpo , que é escravo, vai; o coração, que é livre, fica» (Epígrafe do romance caboverdiano, publicado integralmente em 1947, de Baltasar Lopes Chiquinho).

 

Qual um «gnomo» (p. 33) (do gr. gnómon - o que interpreta os oráculos), Pitonisa ou qual arúspice interpretando o voo das aves, o épico ritualiza e interpreta «o sarilho dos corvos na falésia» e «Os corvos passeiam pelos pátios da ilha» (pp. 23 e 28 - o vocábulo corvo é recorrente em vários poemas), ( sarilho vem do lat. sericulu- dobadoura, movimento circular) anunciando o «pão novo» (p. 23) ou então os passos das crianças que vão «Curva da mão / Que acena / Planta dos pés que partem» (p. 28), isto «Enquanto soletram / a geografia das serras + caminhos de ferro d'Europa». Este cinetismo / visualismo acentua-se pela utilização dos latinismos «volutas de poeira» (p. 23) e da expressiva imagem da «voragem / Dos calcanhares» (p. 23), ( respectivamente, do lat. uoluta- «ornato espiralado»; uoragine - «coisa que devora»), referindo-se ao homem em postura marcial na conquista do pão. Esse mesmo dinamismo ganha o verbo pulsar (do lat. pulsare - impelir, vibrar) no poema com o título «Do nó de ser ao onús de crescer» (p. 45), em que o próprio título assenta numa espécie de complexo do nó górdio a sugerir a ideia da necessidade de acção, mas gigantesca, no presente, ainda numa luta desigual. Observe-se, no entanto que esta ideia já está patente na terceira parte do Chiquinho de Baltasar Lopes, na página 279, nas ameaças dos olhos desvairados das mulheres: « - Esta terra precisa que lhe dêm um jeito...». É, segundo nos parece, já uma nota do anti - evasionismo protagonizado pelas Matres e que Corsino, acentua no poema «Emigrante», dirigindo-se ao homem caboverdiano a quem exorta também a plantar o «polegar sobre a ilha» (p. 39), acrescentando «Vai E planta / na boca d'Amilcar morto / Este punhado de agrião / E solver golo a golo / uma fonética de frescura / E com as vírgulas da rua / com as sílabas de porta em porta / Varrerás antes da noite / Os caminhos que vão / até às escolas nocturnas / Que toda a partida é alfabeto que nasce / todo o regresso é nação que soletra» (p. 40). O imperativo semântico presente no verbo solver (do lat. soluere - desunir, libertar) provoca mesmo o efeito de uma atitude marcial mediata, e que até numa pura mímesis textual nos remete para a ideia do «sol ver», isto é, alcançar a liberdade, demonstrando que é a semântica a dominar o poema. Tal como o agrião brota espontaneamente da terra, assim a libertação tem de partir da luta simbolizada em Amílcar. Como se sabe, Amílcar Cabral foi um dos líderes africanos que deu o maior contributo teórico à causa do anticolonialismo, pelo seu esboço de um «socialismo africano» liberto dos modelos comunistas, e tentou, por via pacífica, a concessão da independência. Só o massacre de Pidjiguiti, em 3 de Agosto de 1959, o levou a enveredar pela via armada. Dele é a primeira epígrafe de Árvore & Tambor: «Toda a revolução é um acto de cultura», sendo a segunda novamente de P. Neruda. Nos versos acima transcritos é notável a capacidade de condensar a imagem da partida / regresso; dependência / indepêndência. O hiato é mínimo nesta recusa aos caminhos das «escolas nocturnas» à assunção das «vírgulas da rua/com as sílabas», o mesmo é dizer que o homem adquire identidade com o «varrer» uma cultura que lhe é imposta e quer saborear as sílabas crioulas do homem em que domina a parole em oposição a langue imposta.

 

A pesquisa da identidade, que passa pela linguagem do quotidiano, é, com efeito, a legitimidade da sua luta. No momento, talvez seja apenas ele, o épico, a ouvir os sons da terra, mas incita o ilhéu e a ilhota a ouvirem «noite alta» que «o batuque não para / nas nossas ancas de donzela» (p. 46) Quer a terra gemente ou germinante, quer as «ancas de donzela» devem ser compreendidos no âmbito do quadro da sexualidade cósmica e humana, isto é, renovadora e genesíaca. E em crescendo, novamente, se referem os tambores, a viola «do exílio» e «No violão do trovador / Um coração de napalm / Agora povo agora pulso / agora pão agora poema» (p. 46), reiterando-se a mesma estrofe na primeira estrofe da página seguinte. Agora é outro o valor mais alto que se levanta: o pulsar, o vibrar numa perspectiva endógena, intrínseca à emancipação de uma cultura e de um povo direccionados numa perpectiva exógena do reconhecimento desse estatuto de Povo e Nação livre.

 

Pão & Fonema documenta ainda um importante recurso linguístico à expressão jurídica e que se enquadra nessa reivindicação do direito a patrício de Cabo Verde, uma terra em que «O milho é datio pro solvendi» (p. 47 e o sublinhado é nosso). O princípio jurídico era tanto mais expressivo quando sabemos que o milho é, de facto, a base da alimentação dos Caboverdianos. Daí que o poeta refira o canto «pelo rosto da terra / o tal litro de sangue / Sem penhor E sem usura» (p. 59) (do lat., respectivamente, pignore - objecto para pagamento de uma dívida; usura - juros), ao deixar de haver lugar para o «dolo» (p. 56) (do gr. dólos - astúcia, pelo latim dolu- artifício de defraudar), tudo isto numa atitude de fidúcia (p. 15) (do lat. fiducia -confiança), do rosto esperançado sem a presença do timbre do «selo branco» (p. 47) numa alusão directa à exploração e administração portuguesa. Aliás outro aspecto significativo da linguagem do poeta é, primeiramente, o aspecto jurídica, pela referência a «comarca» (p. 7) e também o aspecto simbólico pela alusão à «testa do mundo» (p. 23), imagem mítica hesperitana e hiperbólica da paixão telúrica, que neste último poema, pelo processo da antropomorfização as ilhas são membros, o mundo «o meridiano de permeio» e o vento é gordo com sabor a fiambre hálito «de pão novo». É neste meandro de imagens que, no poema «Nova Largada», a comoção do predicador atinge o clímax no verso interjectivo «oh ídolo de pouca terra» (p. 26), como que extasiado pela possibilidade de encontrar a mítica Pasárgada dentro da própria ilha. Daí que se estabeleça um conflito, uma espécie de hipoteca do «litro de sangue» (p. 26) dos que partem «De coração a bombordo» no dilema do partir e querer ficar, «Naquela homilia / De terra & sangue / Em transfusão / O peito já louco de marulho / De coração a bombordo» (p. 27).

 

Esta imagem épica da odisseia do caboverdiano, do partir - voltar, extremamente sintética, não fica sob ponto de vista da sua expressividade aquém da que Camões nos proporciona no enquadramento da «Partida das Naus», depois da vigília na ermida de Belém, em que se referem as esposas, as mães, vozes anónimas e as palavras simbólicas do Velho e na estância 3 do canto V, pela tripla repetição do verbo "ficar" na partida das naus. A partida das naus é fortemente referencializada no plano da relação humano / sagrado.

 

Os versos «... homilia/ De terra & sangue / Em transfusão» (p. 27) têm o mesmo pendor sacralizador e messiânico de outros que se encontram ao longo do poema. Nele visionamos o fonema como anúncio, semelhante ao de Cristo quando afirma « Eu sou o caminho a verdade e a vida» (Jo 14, 6-7) e só aquele que acredita na transfusão do fruto da terra e do trabalho do homem encontra esse Caminho, Verdade e Vida e, no contexto do poema, passa pelo anúncio de que a «mítica Pasárgada» está ali no meio deles, ou seja dentro da própria ilha. Não se trata em sentido bíblico de uma teofania dos deuses ancestrais, mas de uma parúsia em que estão presentes os elementos sagrados: as palavras, a terra, o sangue, o martelo, a bigorna, o fio de prumo, isto é, o princípio gassetiano de que «o homem e ele e a sua circunstância».

 

Serão «As naus da descoberta» que três crianças, como num ritual de iniciação e de ruptura anti-épica lusíada, «dobram / os degraus da comarca» e «Arrancam da carne» (p. 52). Ritual esse que parte do individual para o colectivo. Daí o sentido épico do poema «Há navio morto na cidade» (p. 52), onde a progressão vai de «Uma criança atravessa a ilha entre tambores», «Duas crianças contornam ... / Com um canto de galo». Há uma correlação semântica entre o estatuto iniciático conferido às crianças, ao canto do galo que anuncia a madrugada e a simbologia cosmogónica do vocábulo «OVO» maiusculado do último poema (pp. 59-62) ou de outras imagens genesíacas como o trigo e o milho, este, «irmão uterino» (p. 54) do primogénito da ilha, todos símbolos da renovação do ciclo da natureza. É essa, a verdadeira parúsia para o Caboverdiano entrando triunfante na cidade [dos Homens] onde estão presentes os tambores festivos.

 

Efectivamente, no final do Canto III, no poema «O pilão e a mó de pedra» (p. 55), símbolos da ruralidade se apresentam «tal táboa E seu tabernáculo» como lugar do contacto íntimo de «Este homem E a sua fêmea /... / O sol na boca grávida» e no seu «O diálogo o dialecto» são para eles «O alarme na boca revolta / O grito da artéria sobre o mapa» ( p. 55). Quer a táboa, quer o tabernáculo são conotadores o primeiro de mesa/cama/fecundação (como em Herberto Helder) e o segundo de revelação. Tal como na Paixão de Cristo o véu do templo (que indicava o lugar reservado aos sacerdotes - o tabernáculo: lugar onde se imolavam as oferendas dos fiéis) se rasgou, isto é, Deus revelou-se a todos, também aqui a revelação é extensiva a todos os caboverdianos, mesmo os espalhados sobre o mapa, na diáspora.

 

CORSINO FORTES, PABLO NERUDA & SAINT- JOHN PERSE

São de P. Neruda os três versos de Navegaciones y Regresos que servem de epígrafe a Pão & Fonema: «Aquí nadie se queda inmóvil. / Mi pueblo es movimiento. / Mi patria es un camino». Neles se alude à busca da pátria pelo povo em movimento. Daí que na Proposição, na sua maneira de compreender o tempo, aluda aos «Tambores rompem / a promessas da terra». Tal como o Nobel da Literatura em 1973, de ideologia leninista, combatente na guerra civil de Espanha ao lado dos Republicanos ergueu uma poesia da terra e do amor, de grande força telúrica - segundo Albano Martins o Canto Geral foi também concebida, conforme se lê na nota de apresentação como «uma obra de contornos épicos» que abarcasse «toda a geografia e história do Chile e as suas repercusssões no homem», assim Corsino constrói uma poesia social de temas simples, enraizados na terra caboverdiana, mas profundamente simbólicos e profundamente humanos.

 

Estamos, em relação a Corsino Fortes, na esteira do lirismo social que tem as suas raízes na Seara Nova e Vértice órgãos do neo-realismo coimbrão. No último poema do Canto Primeiro, o predicador exasperado recusa modelos estéticos obscurantistas «De sol a sol / 'm grit´Rimbaud ô Maiakovsky / largâ-me da mon» (p. 20), o primeiro, autor das Illuminations uma espécie de poeta «maldito» (8), o segundo, conhecido poeta oficial do regime da Revolução russa de 1917. Mas talvez seja de admitir a ressonância do telurismo torguiano ou da irreverência de Joaquim Namorado no poema inédito «Port-Wine» (JL, 5/1/87) em que exorta o seu povo a libertar-se [sinedoquicamente, o sujeito dirige-se aos portugueses, na imagem dos vinicultores do Douro, para quem o seu vinho é a transfusão do tal litro de sangue. Leia-se o poema na sequência da proibição governamental de plantar outras castas de vinha, nomeadamente a americana, mais produtiva e menos sujeita a intempéries, e que se foi motivo de repressão policial em 14 de Maio de 1939, causando dois mortos, na zona da Beira Litoral *Aveiro]

 

No poema "Carta de Bia d'Ideal" (p. 9) que começa com o hipocorístico «Junzin» de João Vário/João Varela ( poeta com o pseudónimo T. Thio Thiofe) vemos que o poeta se sente mais Corsa de David do que Corsino Fortes, demonstrando que a sua poética, toda ela está impregnada do ritmo popular em que predomina o «violão do trovador» (p. 46). Neste ponto há a consciência de artista que define a sua arte poética, admitindo no entanto, no final do poema, conhecer a poética monumental de Saint John Perse, nascido nas Antilhas e radicado em Bordéus, cuja nostalgia pela terra natal se manifesta pela busca exigente de imagens telúricas, pela amplitude de visão de mitos e pela presença constante do sagrado. Além de leitor atento de Perse, também o foi de Pound, Octávio Paz e T. Eliot. Será, no entanto, o poeta e diplomata francês que servirá de ponto de referência para a afirmação da sua individualidade pela modificação do próprio tecido da linguagem, crioulo irmanado com o português, como se quisesse criar uma linguagem, como veremos a seguir, reservada, por si só à sua épica/poesia, lugar onde as palavras no dizer do moçambicano José Craveirinha «só precisam de quem as toque / ao mesmo ritmo para serem / todas irmãs» (9).

 

No plano estrutural dos poemas afigura-se-nos alguma semelhança na mancha tipográfica, aos poemas de «Ladeira Leste» [1962-1968] de Octavio Paz, quer no poema «A Figueira Religiosa» em que os versos têm uma disposição ziguezagueante, além da forte componente telúrica da linguagem coadjuvada pelo versículo oracular, de ritmo curto, em poemas como «O dia em Udaipur», «Golden Lotuses», «Aldeia» «A exclamação» e «Juventude» (10).

 

É de facto, na segunda parte do poema «De boca a barlavento», que Corsino define a sua Arte Poética. O predicador define que «todo o poema: / geometria de sangue & fonema / Escuto Escuta» (p. 8). Será através desta dialéctica que o mesmo pode transmitir o modo de se exprimir poeticamente, ou mais apropriada e esteticamente «viajar com pés de Portinari» (pintor brasileiro deste século do realismo social) (p. 47) ou descendo os navios com o viajante italiano Cadamosto pelas terras de pozolana, sugerindo-nos uma progressão de uma caboverdianitude agressiva para a serena (11): a via emotiva, sensitiva e/ou intelectiva, em que «Um pilão fala»; «tambores / erguem /.../ Um coração»; «mão doméstica / Que solfeja». É o poeta transformado em profeta «receptáculo disponível à assunção de diversa identidade»(12) e também um «fingidor» pessoano cindindo-se entre o coração e as «calhas da razão» (Cf. Poema «Autopsicografia» de Fernando Pessoa).

 

No poema «De rosto a sotavento», fecha-se o círculo do mar e das ilhas, proliferando agora os símbolos genesíacos da terra, o SOL, a árvore e o OVO, isto é, refaz-se o círculo da geografia caboverdiana, da mátria / pátria arquipelágica de que é necessário reencontrar os verdadeiros elos de ligação. É a este canto órfico da terra a que o poeta aspira no sentido em que Mallarmé o defendia.

 

Fonema é para Corsino, no dizer de Ana Mafalda Leite a «reivindicação do próprio acto da escrita e da realização poética - 'poiesis' - enquanto novo acto estético-cultural na tradição literária caboverdiana.» (13) tal como o regista na epígrafe de Árvore & Tambor, a segunda obra de Corsino, colhida na obra de Neruda Navegaciones y Regressos : «Y cuanto más, y cuanto, / amé, pequeña pátria, quanto gané o me dieron / fue sólo para í, para adornarte, / para cantar tu tierra de delgada cintura».

 

PÃO & FONEMA : IDENTIDADE POÉTICA E BUSCA DA PÁTRIA

O Poema de Fortes é um discurso em ruptura da conceptualização da anterior tradição poética, quer dos Claridosos, quer da geração da Certeza (1944): do fatalismo e resignação, do evasionismo e terralongismo, da saudade e da morabeza, da seca e da fome, embora não os erradique completamente da sua obra.

 

Entre 1962 e 1974, houve de facto uma contribuição e alargamento das perspectivas poéticas: Ovídio Martins no tema anti-evasionista, António Nunes e Onésimo Silveira com o apelo ao elemento cultural africano e a reivindicação política com Gabriel Mariano. O primeiro e o último poeta, agora referidos, são evocados, respectivamente, no poema «Toda a terra» (p. 49) - um hino à terra, ao telurismo do qual os poetas se não podem desligar, e no poema «Nova largada» (p. 26) - onde se reafirma a pesquisa da identidade e a legitimidade da luta .

 

Ana Mafalda Leite (14), acentuando a modalização épica de Pão & Fonema, afirma que o maravilhoso se manifesta desde o título pela sua essência profética do ponto de vista linguístico em que se nota «uma constante valorização da voz em detrimento da letra». A própria tríade da estrutura da obra, bem como a inserção do numeral quer no título do poema «Três versículos...» (p. 17) e sua subdivisão em três partes, quer no poema «Há navio morto na cidade» ( p. 52) em que três crianças acedem à comarca e «Arrancam da carne / (...) / As naus da descoberta», são uma espécie de chegada antecipada à Terra Prometida - «Idade do Ouro», a quem numa leitura hipotextual, sacralizadora, pertence o reino dos Céus. Convém notar que os vocábulos do título Pão & Fonema não definem apenas ideias mas sacralizam-nas e daí tornar-se necessária a leitura como resultado do trabalho de escrita hipertextual, tendo em conta as circunstâncias em que foi escrito, sobretudo o canto II em Angola de 1967 a 1973 e o canto III também em Angola e em Lisboa antes do 25 de Abril, onde o movimento e o visionarismo colhido do Canto Geral de Neruda o levam a poematizar a indepêndencia com a sua primeira publicação em 1974, sendo de assinalar que a edição de 1980 por sugestão de Mário de Andrade apareceu com uma nova disposição gráfica.

 

Não há dúvida de que tal como em Neruda [ Canto Geral é o "Retrato das lutas e vitórias da América" (p. 10), onde o poeta falando do Chile e da Argentina escreve «Mas o povo e o trigo uniram-se: então / alisou-se a cabeça da terra, pentearam-se / os cabelos enterrados da luz, a agonia / transpôs as portas livres, derrubadas, do / vento / e, da poeira do caminho, dignidades / submersas, escolas, inteligências, / rostos, ergueram-se, um a um, no pó / até se tornarem unidades estreladas, estátuas da luz, puras pradarias.» (15)], também em Corsino o geno e hipertexto se encontram na «potência fálica da terra + a potência famélica do povo / É o povo de coração em marcha sob a bandeira de Pidjiguiti»(16). Tal como o Canto Geral «Nasceu/ da ira como uma brasa, como os territórios de bosques incendiados .... /Sou, finalmente, livre entre os seres» (17) também o Pão & Fonema nasceu de «tod' aquel negoce dnha sangue ultramarine» (p. 58), negando-lhe a identidade pessoal e nacional. É necessário não esquecer que o ano de 1936, em que surge o movimento da Claridade, é também o da implantação em Abril, na ilha de Santiago, pelo Decreto-Lei 26539, da colónia penal do Tarrafal. Apesar da derrota de Hitler, Salazar resistiu nove anos às pressões internacionais e só em 26 de Janeiro de 1954 o encerrou para o reabrir em 1961 para aí encarcerar os nacionalistas angolanos. É significativo que o Chiquinho de Baltasar Lopes fique aureolado com essa imagem «... não havendo calma no Tarrafal ... a proa era a América» (p. 299)

 

A «Proposição» de Pão & Fonema , tal como acontece em toda a poesia épica, condensa o tema e neste caso evolui da temática telúrica do Canto I para a do II Canto onde se faz a caracterização do mundo ilhéu, em que «Ano a ano / crânio a crânio / Rostos contornam / o olho da ilha» (p. 3). Mar & Matrimónio detem a temática da largada individual em oposição à colectiva já que «Ano a ano / crânio a crânio / Tambores rompem a promessa da terra» (p. 3). A propósito da simbologia dos tambores (vocábulo repetido de forma sistemática ao longo da obra), Vasco Serra, personagem de A Chaga (1972) do escritor angolano Castro Soromenho, diz a Eduardo Sales: « o negro refugiou-se nas associações secretas e nos movimentos profético-messiânicos. (...) O tambor é a grande voz da África. Nunca me esqueci do que me disse um africano que conheci em Benguela: "Só se conhece a África depois de se compreenderem todos os toques dos tambores. Quando se deixarem de ouvir os tambores, a África estará morta" (18).

 

O canto II é o canto da diáspora em que o homem das Ilhas tem de sair e num processo de transculturação dar-se-á conta da sua situação e ressurgirá já homem preparado para a luta. Ao contrário, o canto I e III aludem, respectivamente, à odisseia permanente do homem caboverdiano, da ilha e suas características e os novos bens da pátria, da transformação resultante dessa expatriação do canto II, em que o último poema «Emigrante» (p. 39), a partir da primeira estrofe, remete para o futuro do tempo total ligado à maternidade e geração de um espaço nascente: «O grito das mães leva-te / agora / À sétima esquina/onde a ilha naufraga / onde a ilha festeja / A sua dor de filha / E a tua dor de parturiente». É nesta fusão que a ilha se torna parturiente e espaço de evasão em todo o tempo existencial do caboverdiano. Numa linha hipotextual são aqueles em cujo rosto explode o cansaço «no sangue das formigas» (p. 41), isto é «Rostos-e-proas-da-não-viagem» (p. 39), os que nunca partiram, mas para os quais o épico visiona uma espécie de Aurea Mediocritas ou a magna quies nos «novos campos de pastorícia» (p. 41).

 

Uma vez que o poeta escuta e incita a escutar os sons da terra, o pilão, os tambores e o marulho, é esta relação íntima entre fazer / criar / dizer, na expressão de Ana Mafalda Leite que permite deduzir a « seguinte homologia: criação poética = dizer = fazer a recriação das ilhas» (18) e por isso «Há mãos que cantam / no rosto da página / O fonema / que estala / de pão & opala» (p. 59) pois é impossível amortalhar a sua fome já que se está num tempo «Entre a táboa dos decretos / E a vírgula morta das portarias» (p. 60). É neste eixo semântico que o primeiro poema do segundo livro Árvore & Tambor , com o título Ilha, assenta « Sol & semente: raiz & relâmpago / Tambor de som / Que floresce / a cabeça calva de Deus». Tudo são símbolos genesíacos a apontar para a recriação do homem, criação de Deus, já que no poema «Tchuva» o enunciador nos dá uma imagem de abandono «Nem mar nem céu / nem Criste ca sabê / Boca ta nascê na bô pulse braçode / E Deus já morrê» (Pão & Fonema, p. 19) como que ansiando por encontrar os numes dos antepassados negros, numa mitologia de raiz africana em contraposição com a religião cristã.

 

Não falta também a Pão & Fonema a etopeia, isto é, os caracteres e os traços do quotidiano dos caboverdianos, normalmente através de belas metáforas surrealistas, não da paródia, mas do dramatismo das mesmas. Por exemplo no «Conto» ( p. 15 ), a mãe velha «... é ilha nua / Por Dezembro rasgando / o seu inverno de chita» ( p. 16), imagem do despojamento da ilha e na sua singularidade simbólica / poética é a expressão de uma realidade colectiva e até biográfica. Também quando se trata de referir homens do mesmo ofício como «Junzin» / João Vário, que aliás foi uma espécie de guia intelectual visto que Corsino recomeçou os seus estudos aos 20 anos, em razão das dificuldades económicas da familia, se queixa que «há muito / Que não bebes a água / da nossa secura» ( p. 9), mas que no ano seguinte publica O primeiro livro de Notcha. Também os exilados políticos são referidos como «Recode d'Umbertona» e os amigos «tod'esse pove de Rua de Craca» (p. 11) enviando «mantenhas» (saudações) da Bibia, Bena; Garda, Vavaia e Everybody.

 

«Postais do mar alto» (p. 33), poema dividido em sete partes, tantos quantos os dias da semana, dá-nos verdadeiros «sketches» da aventura do homem crioulo, mas que até certo ponto também representa o percurso do poeta, pela referência ao, colonato de Cabiri (Angola) onde o poeta esteve, mas onde se entrecuzam novamente aspectos da etopeia os nomes familiares/ populares de «Djone / Bana / Morais / Goy / Djosa / Frank / Morgode/ Palaba e Salibana» (p. 35) cuja identidade se define pelos hipocorísticos, alcunhas ou nomes da rua em oposição à identidade imposta pelo «selo branco nos documentos» (p. 35). A problematização não é a cor, embora invocativo da «Crioula!», mas a condição humana e cultural, ponto crucial do Canto III centrado nessa definição de uma identidade territorial, histórica, cultural e afectiva, logo enunciada no primeiro poema a partir de pressupostos anti-evasionistas do homem em atitude marcial em luta pelo património dada pela progressão semântica de «Agora povo» = Nação; «agora pão» = trabalho; «agora poema» = esperança, em que «o batuque não pára» = som pleno da Mãe África, e sugerida pelo estilo oracular, tornando o poema um canto de consciencialização, mas predicado numa semântica contida e de fortes referências culturais em detrimento das alusões ideológicas e políticas.

 

Terminamos esta proposta de leitura transcrevendo versos do primeiro poema do Canto Geral, de Neruda, segundo ele o seu livro mais importante, comparando o Corsino que mergulha teluricamente n '«A terra / aspira / teu falo verde» (p. 40), com Pablo em cujos versos palpita a « Terra minha sem nome [....] / o teu aroma subiu em mim pelas raízes / até à taça em que bebia, até à mais débil / palavra em minha boca ainda não nascida» (20).

 

Concluimos com apenas mais uma pequena observação: a negritude serena de Corsino Fortes assemelha-se ao sentido do equilíbrio épico do compositor da Ilíada que não nos horroriza com as mais atrozes imagens da terrível queda de Troía, mas sabiamente definiu caracteres helénicos masculinos e femininos no enquadramento da areté. Do mesmo modo Corsino, na sua pequena epopeia, soube encontrar esse sentido de equilíbrio na fidúcia com que interpretava os sinais dos tempos na dimensão de poeta caboverdiano, depositário, como acontece com outros escritores, da identidade cosmogónica e sacralizadora do povo a que pertence e cuja história do «passado escravo» e recente situação colonial perfeitamente conhece.

 

Nota: a indicação das páginas, ao longo do texto que se referem a Pão & Fonema, é a da 2ªedição. As restantes indicações de páginas estão devidamente contextuadas, pela referência às obras em que se integram.

 


 Notas

 

1. Francisco TENREIRO, Obra Poética, IN-CM, 1991, p. 82.

 

2.Também Eu Sou a América, (Poemas de Escritores Negros Norte-Americanos), Introdução, Selecção, Tradução e Notas de Hélio Osvaldo ALVES, Editora Pedra Formosa, Guimarães, 1997, p. 143.

 

3. Eloísa ÁLVAREZ, História da Literatura Espanhola, Edições Asa, Porto, 1994, p. 275.

 

4. Terêncio, Heautontimorumenos, 77..

 

5. Ana M. LEITE, A Modalização Épica nas Literaturas Africanas, Vega, Lisboa, 1995, p. 128, nota 1.

 

6. João Lopes FILHO, Vozes da Cultura Cabo-verdiana, Ulmeiro, Lisboa 1998, p. 122.

 

7. Juvenal, 10, 81.

 

8. José CRAVEIRINHA Karingana ua Karingana, Edições 70, Lisboa, 1982, p. 151.

 

9. Tzvetan TODOROV, Simbolismo e interpretação, Edições 70, Lisboa, 1980, pp. 78 -79, onde escreve a propósito do livro referido: «encontramos dificuldades de duas ordens. As primeiras comparáveis ao fim e ao cabo, as de Nerval, advêm de problemas respeitantes ao referente. As frases que compõem o texto são bastante compreensíveis, mas o objecto que evocam nunca é nomeado».

 

10. Octavio PAZ, Antologia Poética, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1998, pp. 83-101.

 

11. Empregamos estes conceitos na acepção de Louis - Vicent Thomas e de acordo com o significado que lhe confere Salvato TRIGO na nota 14 da página 48 do seu estudo Luandino Vieira o Logoteta, Brasília Editora, Porto, 1981.

 

12. Ana M. LEITE, o., c., p. 132.

13. Ana M. LEITE, o.,c., p. 122.

14. Ana M. LEITE, o., c., p. 130.

15. Pablo NERUDA, Canto Geral, Campo das Letras, Porto, 1998, p. 221.

16. Corsino FORTES, Árvore & Tambor, Publicações Dom Quixote, Lisboa 1986, p. 70.

17. Pablo NERUDA, Canto Geral, Campo das Letras, Porto, 1998, p. 587.

18. Castro SOROMENHO, A Chaga, Sá da Costa, 2ª edição, 1979, pp. 191-192.

19. Ana M. LEITE, o., c., p. 133.

20. Pablo NERUDA, Canto Geral, Campo das Letras, Porto, 1998, p. 16.

 

Intervenção na II festa da língua Portuguesa

Corsino Fortes

(http://www.ciberkiosk.pt/arquivo/ciberkiosk6/pagina1/corsinoele.htm)

Ex.mo Senhor Presidente da Mesa,

Ex.mo Senhor Moderador,

Ilustres Convidados,

Caros Confrades,

Minhas Senhoras e meus Senhores

Queira permitir-nos, Senhor Professor Carlos Reis, que enderecemos as nossas congratulações à Ex.ma Autarca, Presidente da Câmara Municipal de Sintra, Dra. Edite Estrela, e a toda a sua nomenclatura política, diplomática, cultural e logística, que potenciou uma vez mais a realização deste Fórum, ora de poetas que festejam, "sem grades na carne, sem algemas no espírito", a pluralidade da língua comum: a grandeza cultural e solidária de um sonho que, ano a ano, vem transformando Sintra numa das capitais do mundo da lusofonia.

Reportando-nos aos três poetas que motivam as intervenções deste painel, a nossa incidência vai primeiro para Luís de Camões, aquele que emblematicamente ficou cativo da sua escrava, libertando-se épica e liricamente da lei da morte como o egrégio construtor do humanismo lusófono.

Este humanismo que, servindo de substrato à comunidade dos países de língua portuguesa, concita-nos a pensar, hoje, noutros fazedores de história e construtores da nossa sociologia política como Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Samora Machel, aqueles que // libertaram o pão da palavra da casca da colónia e cicatriz fascista // e trouxeram ao solo da língua um novo amor // dando-lhe a dimensão histórica de um país sem fronteiras.

Todos eles ensinaram-nos a amar e a valorar a densidade e a nobreza do homem anónimo, aquele que, na sua singularidade, espelha a personalidade colectiva de um povo.

É esta figura de homem anónimo, fraterno e solidário na construção do quotidiano, que o seguinte poema focaliza.

 

NÃO HÁ FONTE

QUE NÃO BEBA

DA FRONTE DESTE HOMEM

 

Nas rugas deste homem

Circulam

estradas de todos os pés que emigram

Quebram-se

vivas ! as ondas de todas pátrias

Anulam-se

de perfil ! as chinas de todas muralhas

Na mão bíblica

No humor bíblico deste homem

crepitam de joelhos

Desertos & catedrais

Onde

deus & demónio

jogam

noite e dia

a sua última cartada

E do pó da ilha à mó de pedra

Não há relâmpago

Que não morda a nudez deste homem

Nudez de liberta!

Que a dor germina

E o espaço exulta

E pela ogiva

ogiva do olho

Não há poente

Que não seja

Uma oração de sapiência

Sobre a face deste homem

o povo ergueu a praça pública

E os tambores transportam

O rosto deste homem

Até à boca das ribeiras

E ao redor

os vulcões respeitam

o silêncio deste homem

 

II

 

Não há chuva

Que não lamba o osso de tal homem

À porta da ilha

Diz o sal de toda a saliva

O sol ondula oceanos no sangue deste homem

Oh cereal altivo ! vertical & probo

Ainda ontem

antes do meio-dia

O vento punha velas na viola deste homem

Hoje !

A viola

De tal dor é sumarenta

E projecta

sobre as almas

a seiva

De uma árvore imensa

Oh oceanos ! que ladram à boca das tabernas

Se o sangue deste homem

é tambor no coração da ilha

O coração deste homem

é corda no violão do mundo

E os joelhos

rodas que vão ! hélices que sobem

com ilhas no interior

 

III

Sombras sobre a colina Rosto sobre o povoado

Quando

pastor & gado jogam à cabra-cega

E chifres de sol

projectam

cidadelas no ocidente

O poente galopa a maré-alta

E ergue

"À taça da noite

Sobre as têmporas deste homem"

Oh noite verde ! oh noite violada

Que a noite não apague

A memória das cicatrizes

E cicatrizes de ontem

Sejam

Sementes de hoje

Para sementeira E floresta de amanhã

Como Noé

As espécies conhecem

A sílaba E a Substância deste homem

Não há milho

Que não ame o umbigo deste homem

Não há raiz

Que não rasgue a carne deste homem

E na fome pública deste homem

Cresce

a ave no voo E a gema na casca

Cresce

o cabo d'enxada E a cintura da terra

Cresce

a porta do sol E o alfabeto da pedra verde

Não há fonte

Que não beba da fronte de tal homem

Que

A erecção deste homem é redonda

E tem o peso da terra grávida

 

 

Francisco José Tenreiro, poeta da ilha do nome Santo, legou-nos uma das mais belas sinfonias do património literário do mundo lusófono. Nela aprendemos a emergência do amor universal na coreografia libertária e na fratemidade da negritude sãotomense.

De S. Tomé a Cabo Verde e de coração em Africa, diremos o poema

 

 

DO NÓ DE SER AO ÓNUS DE CRESCER

ILHA

Do nó de ser ao ónus de crescer

Do dia ao diálogo

Da promoção à substância

Romperam-se

As artérias

Em teu património

Agora povo agora pulso

agora pão agora poema

Ilha

Ilhéu ilhota

noite

noite alta

E o batuque não pára

Em nossas ancas

AGORA POVO AGORA

Que as colinas nascem

na omoplata dos homens

Com um cântico na aorta

Árvore & tambor tambor & sangue

Punho

pulso de terra erguida

Agora

No crânio da Boa Vista

Naufragam mastros e caravelas

E

O mar é rosto que advoga

Entre os tambores e as ilhas em matrimónio

Agora povo agora pulso

Agora pão agora poema

Ilha

Ilhéu ilhota

noite

noite alta

E o batuque não pára

nas nossas ancas de donzela

AGORA PULSO AGORA

Que todo o pão é exequível

Depois da árvore antes do tambor

Depois da fonte antes do fonema

Antes da gengiva

dente e embrião

Que morde

Na mó de pedra

lasca e lisa

O tegumento na sua casca

Agora

Que a ilha cresce na viola do exílio

E

No violão do trovador

Um coração de napalm

Agora povo agora pulso

agora pão agora poema

Ilha

Ilhéu ilhota

noite

noite alta

E o batuque não pára

Em nossas ancas

AGORA PÃO AGORA

Que o pilão viaja com pés de Portinari

Ultrapassando o abcesso

Das ribeiras em viagem

Com hélices de pedra

Ao redor da pedra

E teias de aranha no poente da boca

Agora

Que navios descem

Cadamosto

As terras de pozolana

Carregados de cio E selo branco

E ressonam

Osso osso de caprino sono

E

O milho é datio pro solvendi

Com o timbre de moeda na retina

A usura dos mercados debaixo da língua

Agora povo agora pulso

Agora pão agora poema

Ilha

Ilhéu ilhota

noite

noite alta

E o batuque não pára

nas nossas ancas de donzela

AGORA POEMA AGORA

Que do marulho

às pedras de sílaba longa

Os joelhos rompem

ilhas da tua boca

O violão da unha

a viola e o vento

Viola do tempo ao tempo grávida

De sub

ou

de substância

E todo o fósforo Que soma

A árvore do teu lábio

Ao tambor de tal tâmara

E

Do som E da saliva

Volva o ovo o colmo

Que te apelidam

Do fonema ao fruto

Dedo a dedo polegar e seiva

Na tosse tosse da carne óssea

Tossindo verde

De gema-fogo no poço dos joelhos...

Agora povo agora pulso

agora pão

agora poema agora

 

 

Minhas senhoras e meus senhores:

O terceiro mote vem de Osvaldo Alcântara, o pseudónimo poético de Baltazar Lopes, que apela a que os poetas se casem com a respiração do mundo. A esse respeito adiantaremos:

Há beleza e desafio no despojamento da paisagem lunar do Arquipélago de Cabo Verde, onde, segundo o escritor Aurélio Gonçalves, "a pedra é artigo que nunca falta"; isto é, na nudez desértica da ilha, o silêncio e as dunas são confessionários aonde a pedra é sacerdote.

Desde a nascença, a criança caboverdiana estabelece um pacto telúrico entre a pedra e a planta do pé: um pacto quase matrimónio, que pontua, que vivencia toda a sua existência; já que a ilha, no seu equilíbrio, na sua exiguidade, é menor que a planta do pé do habitante.

Do continente à ilha, da maternidade ao mito, parece-nos que com hélices vulcânicas o arquipélago partiu, ilha a ilha, do maciço africano, numa corrida de estafeta entre os três continentes, e encontra-se há quinhentos anos entre o Atlântico Norte e o Atlântico Sul, oferecendo mãos e serviços à Divisão Internacional do Trabalho.

Não é impunemente que o poeta e ensaísta Gabriel Mariano encontrou na psique do homem da ilha um navio de pedra à procura de rumo. E para Baltazar Lopes, a viagem do emigrante é redonda na sua ilhenitude, tendo como ponto de partida e chegada a bússola de Cabo Verde.

Então, se o emigrante, arquitecto ou artesão, é aquele que regressa antes da partida, levando no estômago uma ribeira de pedras soltas, afirma-se, nesta aldeia global, como uma telha no tecto do mundo.

É esta mesma ribeira de pedras soltas que vem fecundando o que de autêntico nos oferece grande parte da produtividade de muitos escritores e poetas caboverdianos que viveram e vivem longe do solo pátrio. Lembremos aqui Manuel Lopes, o escritor de Os flagelados do vento leste, Teixeira de Sousa, autor de Ilhéu de Contenda, que vêm escrevendo a mais significante da sua obra fora do arquipélago.

Hoje não sabemos se as ilhas ficam dentro ou fora de Cabo Verde. Na verdade, para além das ilhas de Barlavento e de Sotavento, temos ainda a ilha de Portugal, a de Angola, a da França, a da Holanda, a de Boston, etc. Faz sentido neste fim de século e fim de milénio, que escultores caboverdianos levantem na Cidade da Praia um monumento de duas mil pedras como símbolo da unidade da nossa diáspora de vela grande.

Para nós, o que errónea e ensaisticamente se aferiu de evasionismo na vida e na literatura caboverdianas, não é senão o potenciar de uma procura genesíaca e responsável da diferenciação e da completude; a herança e capacidade evolutiva

do poder-dever entre gerações; isto é, a consciência histórica de que o arquipélago, entre a independência e a interdependência, está em movimento: é um monumento inacabado.

Há quinhentos anos que as naus da descoberta, que hoje se comemora, fizeram, africanamente, aguada nos seios da ilha. E no cadinho das pedras do poder e das pedras do pelourinho, entre duas fracturas humanas desenraizadas, foi, antropologicamente, nascendo a flor mestiça da nossa aventura crioula.

Assim, quando no mote, inspirado no poema de Osvaldo Alcântara, este concita a que os poetas se casem com a respiração do mundo, pensamos que semanticamente a pedra da ilha é o pulmão por onde o arquipélago respira, já que, entre a pedra e a planta do pé, começa a raiz da energia biológica e cósmica da aventura crioula.

Vejamos como tentam as pedras respirar em Cabo Verde através de três poemas inéditos do livro Sol & Substância.

 

I

 

NO OMBRO DA MINHA MÃE

A PEDRA DA MULTIDÃO

Ilhas em arco ! arco-íris de pedra

Pedras que do ombro partem

Pedras que partem dos pés do arquipélago

Assim viúvas... assim noivas... assim virgens

A cavalo do vento

A cavalo da vida

À procura dos dias & das nuvens vagabundas

Entre dois rostos ! duas ilhas

Não há pensamento

Que não seja

Esta multidão de pedra & vento

Esta península que corre

Pela cabeça calva de Deus

À procura dos globos brancos vermelhos

Do arquipélago inacabado

Multidão ! se teu pai trazia às costas

o sol as salinas o deserto de Sahel

A minha mãe era então

Uma pirâmide longínqua 

No saxofone de pedra

Da minha avó

E de barlavento a sotavento

A avó ia dizendo àquela infância

Afasta-te da taberna

muito ! pouco

Mas não do tabernáculo

Ali! mora

o desvario da violência

Onde nascem

violinos violas violões

Sons que já foram deuses

E ainda habitam

os pedregulhos do coração

Além é o sítio do sémen & sementeira

Onde ! as pedras foram violadas

Pela maternidade de Agosto

Pela raiz & colmo de Setembro

E pelo Outubro da nossa cesariana

 

Ó pedra de amor ó pedra de amigo

Todos os dias ! mãos de Deus

Colocam uma rocha

nas ancas &

seios de cada ilha

Todos os dias ! braços do arquipélago

Colocam um rochedo

no ombro de cada homem

E grávidas ! pejadas de pedra

E belas ! como penínsulas

As mulheres lavram

As mulheres abalam

a pobreza na colina

a miséria no monte

a desgraça na montanha

 

 

II

 

PEDRA DE IDENTIDADE

 

Todas as manhãs ! "a ilha levanta a corola da saia"

Para que o mar nos proteja

Das pedras ! que levam & trazem

o arquipélago a reboque

Entre a sistole e a diástole

Do "Vale do Amanhecer"

Todas as tardes ! as pedras

Enobrecem as nossas raízes

E tecem nos nossos pés

O seu império de miragens

E com a música de milénios

gota a gota nos ouvidos

As pedras olham-se ! prenhes

Do sol vermelho das palavras...

Há fogo nas pedras novas

Há luz nas pedras velhas

E amor & ódio

No cotovelo do abraço delas

Como ! se não fosse lar

o lugar do vento

o lugar da ilha! Onde

O desespero da paixão repousa

Todas as noites ! as pedras levitam

nos nossos sonhos

a balança do Profeta! Quando

O sismo da esperança

atinge

4033 km2 de terramoto

E os ouvidos iluminam

nos corredores do medo

O vulcão das nossas têmporas

E saltam pedras

para fora das ruínas

Como ostras

para dentro das pérolas

Se aqui ! no ar

nos pés do arquipélago

As ilhas param

para ver as rochas passar

Do deserto das pedras à deserção da pobreza

Gabriel ! antes da meia-noite

Ninguém sabia das pedras em romaria

E com aquela música de milénio

gota a gota nos ouvidos

As pedras fermentam

osso a osso

O alvoroço da tabanca + a

Febre da mazurca e la-

baredas da contra-dança

E das pedras nascem proas de falo & vagem

Assim faluchos de marear

E dragoeiros que ondulam

Úteros

raízes & navios

De terra arável

Todos

da raça e povo de Sema Lopi

Todos

do povo e nação de Manuel de Novas…

Anjos & anjos de pedra

que levam & trazem

Na coladeira da vida

&

No batuque da alma

O hino ! como morna

E o funaná ! como bandeira

E das trovas d'Eugénio

E das crónicas d'Aurélio

pedras caíam

pedras batiam

No solo da pátria

Como ! presentes natalícios

 

III

 

PÁSCOA DE PEDRA

 

Assim! nasço & vou

Nos pés das pedras que nos perseguem

Assim ! nasceste & estás

Nas mãos das pedras que nos interrompem

Deambulavam perto

Os acrobatas da Pedra Rolada

E o deserto bebia pelas dunas

As ondas do crepúsculo

E a ruína das catedrais

E se perguntamos às pedras uterinas

& consanguíneas

Da fortuna do mar...

Na boca das pedras: a pedagogia do marulho

Do marulho à dor ! da erosão ao amor

Mas onde ? onde encontrar

No deserto da fala

A pedra sonora

A língua de pedra

Que salpica de verde

A lucidez da nossa loucura

Mas onde ? onde encontrar

A pedra mãe ! a pedra amante

A primavera de pedra

No verão que nos devora

A montante da infância

A jusante da velhice

isto é

A pedra da cicatriz

A pedra da primeira memória

A leveza

que ergue no coração

esta chuva de pedra

A pedra que foge

Da mão do engenheiro

&

Do pé do arquitecto

E constrói

No terraço da alma

a ogiva

De uma salva de palmas.

 

Para terminar, Senhor Presidente e Ex.ma Audiência, fazemos votos de que deste Fórum partam pombas de paz, de tolerância e fratemidade, para os irmãos da Guiné-Bissau e de Angola e, no que conceme ao martirizado povo Maubere, diremos como ontem que as mães afro-luso-brasileiras se juntem às mães da comunidade internacional e abram portas às mães de Timor Leste para que Xanana Gusmão entre e fale português com a sua oitava pátria recém-nascida nos braços.

 

Ilha & Poema: celebração do arquipélago na poesia de Corsino Fortes

Virgínia Bazzetti Boechat*

E diz a ilha a cada letra do alfabeto que chove Do olho da arte nasce o oásis do artesão (Corsino Fortes, Árvore & tambor) O poeta Corsino Fortes traz em sua obra uma realização poética considerada inovadora e de valor singular para a trajetória cultural de Cabo Verde. Em seus dois livros publicados, Pão& fonema(1974) e Árvore & tambor(1986), a consciência acerca da realidade caboverdiana encontra-se expressa dentro de uma nova proposta temática e formal, que faz de seu texto uma representativa ruptura com os paradigmas literários portugueses e uma nova leitura da própria tradição cultural do Arquipélago. Sua poética, como aponta Carmen Lucia Tindó Secco (1999), "representou um grande salto para uma linguagem verdadeiramente comprometida com o universo ilhéu"1. A questão da insularidade é grande marca na tradição poética caboverdiana, e, como afirma Dina Salústio, em Insularidade na literatura cabo-verdiana,"origina, por reacção, uma das facetas mais marcantes do isleno, a evasão"2. Esses traços culturais estão presentes nos textos poéticos quase como temática constante, desdobrada em angústia, sufocamento, sonho, solidão, ambivalência em relação à ilha e também ao mar. A essa tendência aliam-se ainda as incertezas causadas pela falta de chuvas na quase irremediável paisagem árida e suas conseqüências, a fome e a pobreza e a emigração. No texto poético de Corsino Fortes, essas temáticas são revistas. Seu sujeito poético não é mais aquele que lamenta por uma existência ilhada, cuja marca é o "querer bipartido" do homem ilhéu, como na poesia de Pedro Corsino de Azevedo; nem sua voz traz a ânsia de fuga para o mundo sonhado e desejado como a de Antônio Pedro da Costa; nem encena o "drama do mar" de "querer partir/ e ter que ficar", de Jorge Barbosa, que vê um mar "que nos dilata sonhos e nos sufoca desejos"3. A ilha da poesia de Corsino Fortes não é aquele "mundo pequeno para quem ficou...", como revelado no poema "Cais", de Manuel Lopes (p. 48); nem seu arquipélago deve ser de "ilhas perdidas/ no meio do mar,/ esquecidas/ num canto do mundo", como para Jorge Barbosa (p. 41). A mesma ilha perdida que aprisiona o homem  limitada pelo mar e decadente  Aguinaldo Fonseca retrata em "Herança", nos versos "eu também estou encarcerado/ neste navio fantasma/ eternamente encalhado/ entre mar e céu" (p. 58). A proposta trazida por Corsino Fortes, ao contrário, nega o caminho da evasão, do ilhéu bipartido, do sofrimento, angústia, sufocamento; nega a continuidade da fome e da seca. Coloca a importância da valorização do país, do renascimento e da reconstrução, do trabalho, da força e da esperança no homem das ilhas. Em seu texto está "no ovo da ilha/ o povo que se renova", resistindo num deserto "até onde termina a erosão/ do teu útero! ilha" e "até onde termina a erosão do teu ventre! filha". Seu "arquipélago/ cresceu no ventre de tantas fêmeas"4.O poeta fala "da solidão não só... mas solidária" (p. 38) porque também suas ilhas são, então, "arquipélago", que, como pediu Ovídio Martins em "Unidos venceremos", enfim estenderam as mãos por sobre o mar (p. 68). O pedido de "Um poema diferente", de Onésimo Silveira, parece enfim atendido (p. 73). Foi Ana Mafalda Leite, em seu prefácio para Árvore & tambor, quem apontou para a reinvenção de Cabo Verde que esse livro representa. Uma criação que, inclusive, já se encontrava em "gestação" em Pão & fonema, sendo agora a "terra prometida" de outrora um país regenerado em poema, reformulado a partir de um ponto inicial: O título Árvore & tamborretoma então a proposta de Pão & fonema, alargando-a. Do resquicial fonema que reclamava a liberdade de ser palavra e voz, advém o tambor, som pleno, que pela sua tradição africana impõe uma nova linguagem de identidade com África, de ritmo de festa e de solidariedade (...) Árvore retoma por sua vez o "Pão"; trata-se de concretizar o acto pela acção: plantar, construir, renovar o corpo, o espírito, a palavra, a terra, a nação (...).5A poesia de Árvore & tamboré mais do que o retrato de uma reconstrução que se processa na realidade de Cabo Verde. É a própria recriação, em forma e tema, de um arquipélago que celebra o nascimento e nasce em celebração "depoisda hora zero E da mensagem povo no tambor da ilha" (p. 22), verso que aparece logo após o poema "Proposição & Prólogo", marcando o início do livro. Esse texto poético coloca em primeiro plano a condição laboratorial da arte "exatamente como lugar privilegiado para a observação de fatos que ali são recriados"6. * Virgínia Bazzetti Boechat é bacharel em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A poesia de Corsino Fortes traz esse novo arquipélago, remontado em texto, a que Ana Mafalda Leite chamou de "o cosmos redondo", pela importância simbólica das formas arredondadas e "circularidade do universo que se constrói", um espaço que "ao tomar a sua dinâmica própria, ganha a forma esférica de um cosmos"7. A estrutura do livro Árvore & tambortambém se monta de maneira circular, fazendo com que, nessa dinâmica, o texto seja tanto um cosmos para a criação do novo arquipélago, como a própria celebração de tal criação. As formas arredondadas estabelecem entre si ligações que tornam análogas suas funções e imagens no texto, muitas vezes tornando tais formas unívocas. A ilha é redonda e é "a cabeça calva de Deus" (p. 21), redonda como o mundo, rosto, crânio, semente, gota; como olho, boca, ovo e gema, útero e ventre grávidos, umbigo, vulcão e tambor. Arredondadas também são as letras "D" e "Q", que, no texto, aparecem quase sempre em maiúsculas no início das palavras. Dina Salústio apontou como uma conseqüência da insularidade a "necessidade de explorar até a exaustão o realismo do cenário"8. Corsino Fortes, no entanto, se utiliza não de relatar uma paisagem insular, mas de construir uma realidade onde explora os nomes que representam os motivos da terra e da caboverdianidade como matéria-prima que renova seu arquipélago, como a cabra, por exemplo, que, em sua poética, representa o resistir sob duras condições. A recorrência e a substituição de elementos representativos da identidade caboverdiana, em diferentes combinações e imagens, estabelecem nesse cosmos um estreito elo entre estes. Ana Mafalda Leite afirma que é o uso de um mesmo nome em diversos contextos, nunca por repetição, mas por recorrência, que por sua vez leva à criação de uma ordem metafórica de equivalência. (...) Estes núcleos semânticos (...) tendem a misturar-se, a entrelaçar-se em variadíssimas combinações (...) baseadas num condensado grupo de nomes de forte carga simbólica.9Nessa mistura, a ilha e o arquipélago às vezes têm boca, rosto, ombros, ventre; têm um corpo em constante metamorfose. A ilha pode ser homem na solidão cheia de solidariedade e mulher em sua gravidez, como pode nascer em oásis na mão das crianças para ser plantada na boca do sol. O homem pode ter no corpo pedra e na pele, a terra. As possibilidades das imagens também se renovam constantemente no texto.

No espaço desse novo cosmos toda imagem é fluida, como a seiva e o sangue a que se refere de maneira recorrente. Ocorre o que pode ser definido como uma constante "transfusão" entre as imagens formadas, por sua vez, pela fusão de elementos. Também seriam as imagens filhas mestiças das "coisas da ilha", e em eterno nascimento? A idéia da fusão, na poesia de Corsino Fortes, e da aliança proposta, inclusive, muitas vezes pela forma "&" ou pelo "E" maiúsculo, é uma constante. A mesma "transfusão" se faz entre partes das palavras, através da aliteração. Nesse cosmos, qualquer dimensão espacial também é fluida e se torna relativa no esforço pela renovação. A celebração do novo Arquipélago, em Árvore & tambor,atinge seu grau de plenitude no Canto Segundo, sob o título de "Hoje chovia a chuva que não chove" (pp. 43-56). Trata-se do próprio florescimento, da frutificação pela chuva; é todo um cosmos em deleite por esse renascimento. Segundo Ana Mafalda Leite "não pára de chover no poema, o alfabeto inteiro chove de "a" a "z"10. A gota ganha a dimensão de um cosmos que, em gravidez, gerará o nascimento da ilha. E se uma simples gota é um espaço habitável, a ilha então é imensa: a) ................................................. Não há boca Que não chova a sua gota de corpo & alma Nem gota De água doce Que não seja Um espaço para amar & habitar No laboratório do texto, a água é o elemento que vai provocar a alquimia, transformando todo o resto para reerguer o Arquipélago. Então, nos versos do poeta, como cabras, "as ilhas soerguem-se/ pelo arquipélago das patas", mostrando sua resistência: "E de pé! o arquipélago ganha vela/ porto & terra/ De árvores com hélices nas raízes". São as ilhas que se erguem pela chuva do texto: f) E chove do `r' `s' da erosão Que devolve O milho ao marulho E o mar ao milheiral

A ilha não é mais o espaço para a seca e a fome, já que traz o renascimento "sobre o velho rosto que floresce!", negando o antigo "drama do `se' na boca da sementeira". E, se "achuva que fala & canta/ numa caneca de folha" cai na dimensão do Arquipélago, a ilha então é também um grande espaço para a dança, o canto e o amor, numa festa de viola, funanáe cópula, que gerará a criança a quem o poeta empresta voz para que diga: "Sou a semente/ Por onde sonha/ A cabeça do arquipélago". Na geração desse universo novo, a ilha passa a ser o lugar em que brota a fartura. A resistência, representada pela cabra, se une à volta da água e monta um mundo sem espaço para a fome, já que a ilha pode dar leite na dimensão da Via Láctea: No rosto oblongo da gota As ilhas são cabras as cabras são ilhas com úberes na Via Láctea O poema reinventa o Arquipélago ao mesmo tempo em que o contexto é também de renovação do país e de redescoberta dos valores de Cabo Verde. A referência ao cometa Halley deixa em seus versos a marca da época de nascimento desse novo cosmos: y) ................................ A nordeste! o cometa Halley nos acena Como nação que se festeja Aliando o trabalho estético ao compromisso social, Corsino Fortes devolve ao povo, através da poesia, uma nova cartografia insular de infinitas possibilidades, provando que há a capacidade de transformação, mas que o trabalho também é infinito, não termina em "z", se estende como apelo para além do poema, à dimensão da pátria caboverdiana: z) Labor & mão: mão de labor Dirá a semente ............................................ Amanhã também é ilha

Na árvore de cada vida... E as enxadas dormiram Na veia cava dos homens

1Carmen Lucia Tindó Ribeiro Secco (coordenadora), "Mar, memória e metapoesia na lírica caboverdiana" (introdução), Antologia do mar na poesia africana de língua portuguesa do século XX, 1999, v. II,p. 17.

2 Dina Salústio, "Insularidade na literatura cabo-verdiana", InManuel Veiga (coordenador), Cabo Verde: insularidade e literatura, 1998, p. 36.

3Carmen Lucia Tindó Ribeiro Secco, op. cit., pp. 40-42. Os poemas aqui citados, excetuando-se os de Corsino Fortes, foram retirados desta edição.

4Corsino Fortes, Árvore & tambor, 1986, pp. 25-26. Seus poemas aqui citados foram retirados desta edição.

5Ana Mafalda Leite, "Árvore & tambor  ou a reinvenção da terra cabo-verdiana", Introdução a Corsino Fortes (1986), pp.11-12.

6Eucanaã Ferraz, Drummond: um poeta na cidade, 1994, p. 6.

7Ana Mafalda Leite,op. cit., p.11.

8Dina Salústio, op. cit, p. 34.

9Ana Mafalda Leite, op. cit., p. 12.

10Ana Mafalda Leite,idem, p. 14.

11 Bibliografia: FERRAZ, Eucanaã. Drummond: um poeta na cidade. Rio de Janeiro: UFRJ, Fac. de Letras, 1994.

1 2FORTES, Corsino. Árvore & tambor. Praia: Instituto Caboverdeano do Livro;

13Lisboa: Publicações Dom Quixote,1986.

14 GOMES, Simone Caputo. Uma recuperação de raiz: Cabo Verde na obra de Daniel Filipe.Praia: Instituto Caboverdeano do Disco e do Livro, 1993.

15 LEITE, Ana Mafalda. A modalização épica nas literaturas africanas. Lisboa: Vega, 1995. ___.

16 "Árvore & tambor  ou a reinvenção da terra cabo-verdiana". In: FORTES, Corsino. Árvore & tambor.Praia: Instituto Caboverdeano do Livro;

17 Lisboa: Publicações Dom Quixote,1986.

18 MARIANO, Gabriel. Culturacaboverdeana: ensaios. Lisboa: Vega, 1991.

 19 SALÚSTIO, Dina. "Insularidade na literatura cabo-verdiana". In: VEIGA, Manuel (coordenador). CaboVerde: insularidade e literatura.

20 Paris: Karthala, 1998. SECCO, Carmen Lucia Tindó Ribeiro (coordenador). Antologia do mar na poesia africana de língua portuguesa do século XX.Volume II: Cabo Verde.

21Rio de Janeiro: Fac. de Letras UFRJ, 1999.

22 VEIGA, Manuel. "Introdução". In: ___ (coordenador). Cabo Verde: insularidade e literatura.

23 Paris: Karthala, 1998.

 

UMA PUBLICAÇÃO PARA OS ANAIS DE CABO VERDE 

 

Osvaldo Manuel Silvestre

 

 Título: Anais (nº 1)

Director: J. M. Varela

Periodicidade: quadrimestral

Edição de: Academia de Estudos de Culturas Comparadas

Local e data de edição: Mindelo, Cabo Verde, Abril 1999

 

 

1. De Cabo Verde, mais propriamente do Mindelo, chega-nos o número inaugural de Anais, publicação da recém-criada Academia de Estudos de Culturas Comparadas (AECCOM). Academia e Anais, ambas são dirigidas por João M. Varela que no texto de «Abertura» da revista nos apresenta o programa de uma e outra. O programa, diga-se desde já, é ambicioso e coloca-se sob o signo da Universidade que, embora ainda inexistente, vem sendo uma reivindicação crescente da intelligentsia cabo-verdiana, ultimamente já com tradução no discurso político local. Para se perceber o impulso responsável pela criação da AECCOM e de Anais, convirá recorrer a algumas das palavras de J.M.Varela no referido texto de abertura:

 

«Vai-se tornando evidente que uma sociedade sem Universidade é algo completamente diferente duma sociedade com Universidade. Essencialmente, porque aquela, ao contrário desta, resumindo em poucas palavras um longo postulado, não sabe em geral escolher modelos ou não aprendeu a escolher padrões de conhecimento relativamente comprovados (que tenham sido sujeitos à verificação e reprodutibilidade), ou sistemas de interpretação crítica adequados, que possam impregnar, no longo termo, a cultura, mesmo quotidiana, do cidadão comum. Este é o caso da sociedade cabo-verdiana» (p. 5).

 

A luta pela criação da Universidade em Cabo Verde surge assim associada, nas palavras do director de Anais – como nas de outros colaboradores da revista – à necessidade de produzir um salto qualitativo no espaço público cabo-verdiano. Este salto qualitativo seria pedido pelo actual momento de «transição» do país, enunciado do seguinte modo interrogativo por J. M. Varela: «que liberalismo? que economia? que modelo de crescimento? que revisão constitucional?» (p. 6). Esgotado o modelo político, económico e social da Primeira República – e posto de certo modo em causa pelas novas gerações o modelo cultural da cabo-verdianidade herdado da Claridade, dadas as suas (de)limitações de âmbito, temática e linguagem -, o advento do multipartidarismo e da liberalização económica arrastou o país para o concerto global com todo o stress traumático inerente a quem se habituara a viver sob o olhar vigilante e protector de um Estado edificado, com indiscutível pertinência histórica, sobre uma filosofia da prudência.

 

Anais é assim uma revista que se diria equacionar uma situação de transição paradigmática, não podendo contudo esquecer que tal situação ocorre num país do Terceiro Mundo, com todos os bloqueios que lhe são inerentes. Ou seja: se a referida transição necessita de ser pensada, ela não pode pôr entre parêntesis o facto de que todos os adquiridos do processo de construção nacional neste quase 25 anos – nos domínios das infraestruturas físicas ou da saúde, educação e assistência social – não são, justamente, adquiridos, já pela situação terceiro-mundista do país, já pelo desgaste a que a lógica liberal conduz toda a dimensão assistencial, mesmo em países do Primeiro Mundo. Significa isto que Cabo Verde, e é este um dos tópicos recorrentes na leitura de Anais, se arrisca a dar um salto qualitativo que, entre as conquistas positivas que venha a trazer, acarrete também uma penalização da herança positiva da Primeira República. Estas antinomias e ansiedades, rastreáveis em vários textos da revista (por exemplo, no que José Vicente Lopes assina sobre «A transição para a democracia na África Lusófona»), acabam por atribuir à criação da Universidade um papel entre o vanguardista e o salvífico, como aliás seria inevitável que sucedesse numa sociedade ainda marcada por um alto índice de iliteracia. Se as palavras já citadas de J. M. Varela não fossem suficientemente esclarecedoras disso, poder-se-ia recorrer a uma outra citação sua, na qual o autor nos diz que «Num país do Terceiro Mundo como o nosso (...) a tese, que cabe defender, é que só a investigação científica e implementações tecnológicas podem ajudar a desenvolver os problemas de desenvolvimento» (p. 7). O problema, que é o clássico double bind dos países em desenvolvimento, consiste em saber 1) como pode um país de recursos escassos e amplas carências básicas afectar meios à investigação científica, quando esta não produz mais-valias senão mediatamente?; 2) estando um país dessa tipologia razoavelmente «condenado» a produzir não ciência fundamental mas «aplicada», não o conduz essa opção ao velho ciclo da dependência dos grandes centros (ocidentais) de produção da ciência fundamental de que derivam as referidas aplicações? Sendo a resposta a esta questão em Portugal a que sabemos, o caso cabo-verdiano não oferece excessivas dúvidas quanto ao seu futuro perfil.

 

O contexto em que se prepara a desejável criação da universidade em Cabo Verde explica pois a carga «vanguardista» que Anais atribui à universidade e que a um docente de uma clássica universidade europeia se afigurará algo excessiva, dada a crescente dependência da universidade europeia face aos mecanismos de mercado e a sua incapacidade para se reinventar como instância crítica. Em Cabo Verde, pelo contrário, a universidade parece ainda poder desempenhar todo o seu potencial emancipador, tanto mais que, como vimos antes, os níveis de iliteracia da sua população alargam o espaço de intervenção natural da universidade. Por outro lado, e é esse um dos aspectos mais politicamente fecundos de Anais – ainda que geradores de previsíveis clivagens ou conflitos -, a reivindicação da universidade faz todo o sentido no quadro de um sistema político que, ainda que multipartidário, necessita de gerar e gerir um espaço público liberto das tendências colonizadoras de lógicas aparelhísticas, tanto mais que o regime democrático em Cabo Verde não sofreu ainda a prova empírica da dupla (e idealmente tripla) rotação partidária, sem a qual não se pode falar de uma verdadeira institucionalização do multipartidarismo.

 

A questão que se coloca então é a de saber se a universidade que Anais deseja conquistará a autonomia suficiente para levar a cabo um papel tão amplamente emancipador; ou, ainda, se uma tal universidade não tenderá a esgotar ou, noutra perspectiva, a colonizar o espaço público que, enquanto forum ou ágora privilegiada da cidadania, tenderá naturalmente (e de modo talvez inevitável num país do Terceiro Mundo) a identificar-se, se não mesmo a coincidir, com a universidade. Por outras palavras, que julgo subentendidas no texto de J. M. Varela e nos de outros colaboradores da revista: poderá a universidade rebocar a sociedade cabo-verdiana rumo à emancipação político-cultural sem, no processo, se substituir em excesso às forças sociais que, no exterior da universidade, lutam pelo seu inalienável direito ao reconhecimento? E não será isso pedir-lhe demais? Registe-se, entretanto, que todas estas questões partem do pressuposto, reconhecível em Anais, de que uma Universidade de Cabo Verde não deverá ser apenas um centro de produção de tecno-ciência, mas sim uma escola de cidadania; e que, para que lhes possamos dar uma resposta minimamente válida, será da maior conveniência que a universidade possa enfim passar do plano dos desejos ao da realidade efectiva.

 

 2. De acordo com o texto de abertura, a AECCOM organiza-se em 3 grandes «áreas de prospecção ou investigação científica distribuídas pelos seguintes DEPARTAMENTOS» (p. 5; atente-se no registo «organicamente universitário» destas palavras): 1. Departamento de Cultura e Humanidades; 2. Departamento de Cultura e Res Publica; 3. Departamento de Multiculturalidade e Diáspora (ausente do primeiro número de Anais). A intenção, expressamente declarada, é a de permitir que «o espírito científico que for permeando a sociedade, graças à Universidade, esteja apropriadamente enquadrado pela vertente cultural» (p. 5). Uma tal orgânica departamental responde ao ideal neo-humanista de uma sutura do fosso entre as «duas culturas», sugerindo que só um saber desse tipo poderá desempenhar as funções estratégicas que se atribuem à universidade em geral e em Cabo Verde em particular; e revela, na acentuação da dinâmica comparatista e multicultural do seu modelo conceptual, uma notável percepção da situação pós-colonial. Mais relevante ainda é o facto de a AECCOM surgir, antes do nascimento da universidade de Cabo Verde, com a clara proposta de um modelo conceptual e organizativo para a referida universidade, naquilo que se pode considerar uma (estimulante) jogada de antecipação.

Tudo isto – programa, intenções boas, etc – não seria sustentável sem uma resposta convincente à decisiva questão da massa crítica indispensável à constituição de uma universidade. Anais é, quanto a isso, uma revista inteiramente esclarecedora, já pelos âmbitos abordados, já pela alta proficiência dos estudos que a integram, já pelo escrúpulo colocado no respeito dos protocolos exteriores das publicações académicas. Assinale-se pois a congruência deste perfil de sóbria e exigente erudição com um título tão responsabilizador e ambicioso como Anais, cujo modelo de paginação e sequência nos promete uma revista de referência – e eis-nos perante uma publicação única nos PALOP e, ao seu modo, em todo o universo da lusofonia.

 

A revista abre, aliás, com um texto do seu director que de certo modo dá o tom a tudo o que se segue. O texto, intitulado «A Investigação Científica. Métodos e Enquadramento», é uma rigorosa reflexão epistemológica produzida por um racionalista crítico de ascendência popperiana, sempre disponível para recorrer aos critérios de falsificação do autor de A Miséria do Historicismo para efeitos de demarcação da ciência em relação à não-ciência (e não falta mesmo, em registo muito próximo de Popper, este mais interessado na psicanálise, a negação do estatuto científico à psiquiatria).

 

Destacarei dois pontos, começando por aquilo que é a súmula, deveras estimulante, da reflexão do autor: «(...) há três etapas ou posturas na produção ou evolução do raciocínio científico, que traduzem três éticas, por assim dizer: uma ética hermenêutica: há coisas que não se podem interpretar, porque os nossos meios de aquisição do saber não o permitem, e é preciso reconhecê-lo sem rodeios; uma ética heurística: de nada serve levantar problemas ou atacar questões que ultrapassam os nossos meios de investigação, e uma ética epistemológica: os propósitos, os meios, os objectivos devem ser constantemente avaliados para serem retidos ou rejeitados, eventualmente, sans parti pris (...) ou sem estados de alma» (pp.17-18). Registe-se, neste saber de experiência feito, aquela típica (e correctiva) deflação de expectativas legada por Popper à epistemologia contemporânea.

 

Um segundo ponto, este de ordem simultaneamente epistémica e antropológica, tem a ver com os trabalhos de campo do autor na área da Antropologia Médica. Diz-nos Varela que durante uma dessas investigações no Lesoto, dedicada a «entrevistar os terapeutas tradicionais para obter em primeira mão informações sobre o seu sistema de classificação de doenças, seus sintomas e terapêutica» (p. 10), um terapeuta tradicional lhe afirmou de súbito ser capaz de tornar as pessoas invisíveis. Por um momento, a impessoalidade científica do antropólogo (um dos mitos fundadores da antropologia, como se sabe) foi abalada, tendo Varela, muito consciente do seu «erro», reagido asperamente, dizendo «"Por quem me toma? Como é capaz de acreditar que vou engolir uma patranha dessa natureza"?» (p. 11). Ao que o indivíduo em causa terá respondido, em tom violento, que seria capaz de tornar o investigador invisível naquele preciso momento. Esta história de exemplo – que, agrupada a outras, permite a Varela afirmar que a ciência é essencialmente uma educação do olhar, já que «o olho humano vê coisas que não existem» (p. 11) – é assaz esclarecedora daquilo a que podíamos chamar a difícil conciliação do racionalismo crítico com o relativismo cultural. A perda de serenidade, ou compostura, do observador perante as manifestações do Outro da Razão (o irracionalismo, a razão primitiva, o pensamento selvagem), vem demonstrar-nos que face à universalidade da Razão Crítica (ou científica: as palavras são aqui sinónimas, como aliás na grande tradição herdada da Aufklärung) tudo o resto são «curiosidades de etnólogo». O texto de Varela, como essa tradição de que parte, funda-se assim numa «divisão social e cultural das disciplinas» - ou, noutra perspectiva, numa disciplinação dos objectos e dos saberes -, que reserva para nós, os observadores, a epistemologia, e guarda para os observados a antropologia que deles faz objectos «locais» de ciência. A perda de compostura do observador é pois o limiar sintomático, e por isso sensível, da referida articulação disciplinar: o antropólogo sabe que o objecto é assim e deve ser aceite como tal, isto é, dentro das fronteiras epistémicas que o definem e situam; e contudo, o sabê-lo não elimina o seu desagrado por o objecto ser como é, sobretudo quando ele manifesta ostensivamente – pela linguagem – o seu ser. E isto porque, ao dizer-se sem censura, o objecto extravasa os limites da sua aceitabilidade, ou, se se quiser, da sua (escassa) decência epistemológica. A Razão, como é manifesto, não consegue assistir impassível ao espectáculo da indiferença pela sua universalidade que o pensamento primitivo – ou o objecto «local» - activam.

 

O texto de J.M.Varela articula-se de modo notório, neste ponto, com aquele que é um dos textos mais interessantes do volume, o de Arsénio Firmino de Pina, na secção «Autoradiografia duma actividade profissional: como fiz o que pude», texto intitulado «Cultura, Política e Cuidados de Saúde – Experiência de um Pediatra no Continente Africano». Saúde-se desde já a ideia de criação desta secção, já que o texto em causa nos esclarece amplamente sobre o alcance cívico dela, na medida em que nos permite conhecer o admirável trabalho de edificação de uma nação levado a cabo pela geração que o autor integra. Uma vez que tal geração não parece disponível para produzir as Memórias que deve ao povo cabo-verdiano, esta secção poderá contribuir para minorar os danos de um tal silêncio.

 

Firmino de Pina começa por narrar a história da luta contra a carência assistencial no âmbito pediátrico à data da independência, avançando no final com o elenco – absolutamente eloquente – das estatísticas dos sucessos resultantes de mais de duas décadas de trabalho. Passa então a descrever o seu labor noutros países da África Central, como conselheiro técnico principal da OMS em Saúde Materno-Infantil e Planeamento Familiar. A descrição é penosa e, não raro, suscita no leitor a (desejada) indignação perante as práticas culturais e governamentais dos países em causa. Trata-se contudo de uma descrição na qual é possível perceber uma sintonia de posições críticas entre o autor e J.M.Varela no que toca à sua relação com o Outro que, no caso, é a filosofia e religiosidade animista. Vale a pena citar o autor para nos apercebermos das resistências que os programas assistenciais da OMS podem encontrar em certos países:

 

«O que intriga quem não teve a vivência desses países africanos é a persistência desses tabus, preconceitos e assassínios rituais; na realidade, embora haja leis que as proíbam, estas raramente se cumprem por os dirigentes e intelectuais, na sua grande maioria, também, acreditarem nisso, ou, quando não acreditam, pouco actuam com medo de vinganças (algumas vezes concretizadas, por envenenamento) por contestarem ou negarem a tradição e os costumes, aproximando-se dos europeus. Tive a oportunidade de falar, detidamente, com dois amigos de um desses países (...) sobre o assunto, mas tive de desistir porque acreditavam, piamente, nisso e não me consideravam africano» (p. 95).

 

Estas palavras acabam por, dir-se-ia que inevitavelmente, introduzir a vexata quaestio da definição geo-cultural de Cabo Verde, já que a discrepância de atitudes em relação às práticas em pauta levaria os africanos a negar aos cabo-verdianos um estatuto plenamente africano. Como nos diz o autor, «Na realidade, independentemente da cor da nossa pele, os africanos de gema não nos consideram seus pares» (p. 95, itálico meu). Atente-se na expressão «africanos de gema» e no que ela parece significar de uma extraterritorialidade da cultura cabo-verdiana. O texto de Firmino de Pina, em boa verdade não faz senão acentuar essa extraterritorialidade, contribuindo para lançar mais «achas para a fogueira» da discussão sobre a tipologia da «africanidade» de Cabo Verde: um país não animista e fortemente católico, crioulizado, etc, é menos africano – e mesmo, eventualmente, não-africano - que um dos da África Central? A discussão, décadas depois da teorização da negritude, não deixa de ser cansativamente anacrónica para agora a relançarmos. Mas não há dúvida de que o apelo final do autor a que os intelectuais africanos sejam «consequentes», nos coloca de novo na encruzilhada do racionalismo crítico com o relativismo cultural: por outras palavras, qual é a fronteira entre a compreensão e admissão da diferença cultural e a abdicação perante os custos «humanos» dessa diferença (sobretudo para um médico pediatra que vê crianças serem mortas em práticas rituais de suposto efeito curativo)? Qual a margem de negociação entre a Razão Crítica e o Pensamento Selvagem? Será possível, ou desejável, conciliar, nos países em causa, relativismo cultural com discursos e práticas governamentais de teor iluminista (onde os haja)? O mais interessante dos textos de J.M.Varela e Arsénio Firmino de Pina é justamente a adopção intransigente de uma posição em que a abertura ao relativismo cultural (abertura sempre problemática, como vimos) não redunda em legitimação do status quo, nem sequer em reivindicação de uma qualquer condição de excepção para a cultura política africana (no mais alargado sentido de «política»), argumento recorrente nos discursos de e sobre africanos. Estamos sim perante dois notáveis exemplos de uma intelectualidade africana consequente e intransigente na assunção de todas as consequências do seu posicionamento crítico.

 

 3. Diga-se que todos os textos de Anais afinam por idêntico posicionamento. António Correia e Silva, em «Para uma sociologia histórica de uma cidade-porto. As especificidades do Mindelo no contexto das cidades cabo-verdianas», debruça-se sobre esse «objecto epistemológico privilegiado» da sociologia histórica de Cabo Verde (mas também problemático, dado o seu carácter transitivo) que são as cidades-porto, cidades «que conferem [ao] arquipélago dimensão cosmopolita» (p. 19). A sua análise pode talvez resumir-se nesta citação: «Da observação histórica dos vários casos de integração de Cabo Verde nas redes de circulação atlântica, acima aludidos, parece legítimo erigir-se uma assunção como hipótese: a dinâmica atlântica intervém sobre o arquipélago de forma pontual e quase cirúrgica, dele arrebatando para o mundo dos tráfegos não mais do que um porto e o seu prolongamento terrestre imediato» (p. 20). A sua análise corrobora esta hipótese, tornando clara a situação de dependência das cidades-porto da conjuntura internacional e, com elas, do próprio arquipélago.

 

A questão da inserção de Cabo Verde na dinâmica global é ainda o tema dominante do texto de Manuel Varela Neves, «As Ilhas Maurícias e as ilhas de Cabo Verde. Notas sobre liberalismo e Estado Providência». É este um texto dominado pela ansiedade própria de uma transição de modelos: o autor, que perfilha um liberalismo moderado, dirá que a situação aconselha «o bom senso e a prudência, evitando o desmantelamento da pouca providência que resta em nome dos dogmas neoliberais em naufrágio» (p. 55), chamando a atenção para alguns sinais de crise na economia cabo-verdiana dos anos 90 («um crescimento errante, um avolumar excessivo da dívida pública, essencialmente da dívida interna, uma drástica diminuição das reservas externas», p. 52). E propõe como modelo de desenvolvimento para Cabo Verde as Ilhas Maurícias, cuja experiência, seguida com crescente interesse em todo o mundo, permitiria «entender que a inserção requer uma estratégia, um modelo, uma gestão» (p. 51).

 

Menos conjunturalmente motivado, o estudo de João Estêvão - «A transição económica, a acção do Estado e o contexto insular: algumas considerações sobre o caso de Cabo Verde» - é uma das mais sólidas peças de scholarship do volume, oferecendo uma interpretação macroestrutural, apoiada numa reflexão doutrinária, da economia cabo-verdiana e da sua transição para uma economia de mercado. Como António Correia e Silva ou Manuel Varela Neves, também Estêvão acaba por se fixar na análise dos bloqueios resultantes do facto de a extroversão ser o elemento decisivo da transição nas pequenas economias insulares. Como nos diz a certa altura, «As relações com o exterior são decisivas para o funcionamento das economias insulares devido, principalmente, à inadequação entre as estruturas da oferta e da procura. A importância dessas relações leva Bernard Poirine a falar de uma lei geral do desenvolvimento económico insular. Segundo essa lei, quanto menor o tamanho de uma economia insular mais ela deve abrir-se ao exterior para atingir um determinado nível de desenvolvimento económico» (p. 69). Mais adiante, abordando o conflito entre a dimensão escassa do mercado interno e a dimensão óptima da produção, bem como a associação da pequena dimensão com a distância, afirma o autor: «O problema é relativamente complicado: se o conflito entre a dimensão do mercado interno e a dimensão óptima da produção impede que a estratégia de desenvolvimento seja baseada na dinâmica do mercado interno, a distância em relação aos mercados internacionais torna mais difícil o aproveitamento das possibilidades criadas pela abertura ao comércio internacional. Ou seja, enquanto que a pequena dimensão empurra a economia para uma maior integração internacional, a distância tende a limitar os benefícios dessa integração. Mas a forma mais adequada para reduzir a distância é, precisamente, a intensificação das relações com o exterior. E aqui a acção do Estado é decisiva» (pp. 69-70).

 

Esta indispensável acção do Estado, na promoção e regulação do desenvolvimento, na regulação da conjuntura ou na salvaguarda do bem-estar social (dimensões abordadas por Estêvão no último ponto do seu estudo), é ainda reconhecível na área energética, sobretudo quando se trate de pensar alternativas na área das energias renováveis, matéria abordada por Ruy Spencer Lopes dos Santos em «Vicissitudes e perspectivas das energias renováveis em países e regiões de pequenas dimensões e reduzida população».

 

Uma posição de também alguma ansiedade em relação a um excessivo emagrecimento do papel do Estado é reconhecível no texto, já referido, de José Vicente Lopes, «O Estado e a transição para a democracia na África lusófona». Trata-se de um excelente esboço de uma história da luta pela emancipação dos povos das ex-colónias portuguesas e, depois, da construção dos respectivos Estados. O autor analisa as doutrinas postas em prática nos vários países, da concepção radical de Samora Machel segundo a qual «era preciso matar a tribo para que a nação pudesse nascer» (p. 38) até ao caso cabo-verdiano, em que o facto de se tratar de um arquipélago e de a consciência de nação ser anterior à luta de libertação fez com que o país, como aliás S. Tomé e Príncipe, escapasse aos traumas da formação do Estado-Nação. Para Vicente Lopes, o problema político central em Cabo Verde residiria no facto de «o desequilíbrio de forças ditadas pelas duas eleições [multipartidárias], traduzido numa nova forma de absolutismo, político, em que de partido único se passou para partido dominante ou hegemónico, não [ter] permitido um debate sereno à volta do papel que deve o Estado Ter num país com as características de Cabo Verde, cujos actuais governantes parecem particularmente empenhados em seguir à letra o que dizem, mas não fazem, as potências que ditam as regras do mercado mundial quando estas lhes convêm» (p. 46).

 

 4. Refira-se por fim que Anais inclui ainda, além de noticiário cultural, entrevistas aos galardoados com os prémios Micadinaia, atribuídos pela AECCOM a 3 personalidades mindelenses nas áreas da cultura, do urbanismo ou desenvolvimento físico da cidade, e do mundo empresarial; e ainda um texto, neste número de Humberto Duarte Fonseca, sobre «Alguns aspectos de problema da poluição. Ligação com parâmetros meteorológicos e notas sobre cabo Verde», incluído na secção patrimonial «O nosso espólio científico», secção na qual se pretende republicar «trabalhos de investigadores cabo-verdianos do passado».

 

Parece, pois, evidente que Anais responde, como no início se disse, a um programa que em rigor se deveria designar como sendo «de intervenção cívica» na sociedade cabo-verdiana num momento crucial do seu processo de inserção no contexto internacional. Esse programa pressupõe, como vimos, a criação da universidade que desde já Anais antecipa. Em rigor, Anais é a primeira publicação dessa futura universidade. Resta-nos esperar que honre o seu nome, mantendo-se com a qualidade deste número por longos anos.

 

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