On Capeverdean
literature
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A desmistificação
da emigração Cabo-verdiana na obra de Orlanda Amarílis Kathryn Bishop-Sanchez
A POÉTICA CRIOULA DE SÉRGIO FRUSONI
Brasil e Cabo Verde: um diálogo
entre José Lins do Rego e Baltasar Lopes
«O Caboverdiano
vê-se confrontado, inevitavelmente, com questões de ordem
O crioulo e o
Português no processo de afirmação em Cabo Verde
A escrita da terra
em Manuel Lopes e na Claridade
Entre a fugida e a
viagem: a poética da "ilha"
A construção do
ideal nacional e a constituição de novas literaturas em África
Manuel Lopes
toujours fidèle à Claridade
Inquérito a
escritores de Cabo Verde
Dina Salústio : A Louca
de Serrano por Adelaide Batista
L'univers de l'ile et les iles de l'univers
MYTHES ET LÉGENDES
- LE MOMENT « ATLANDIDE »
Jorge
Barbosa:« Quando o descobridor chegou
Corsino Fortes: O
épico da Caboverdianitude serena?
Corsino Fortes e a tradição
clássica
CORSINO FORTES,
PABLO NERUDA & SAINT- JOHN PERSE
PÃO & FONEMA :
IDENTIDADE POÉTICA E BUSCA DA PÁTRIA
Intervenção na II festa da língua
Portuguesa
Ilha & Poema:
celebração do arquipélago na poesia de Corsino Fortes
UMA PUBLICAÇÃO PARA OS
ANAIS DE CABO VERDE
Inquietos olhares: A construção do processo
de identidade nacional nas obras de Lídia Jorge e Orlanda Amarílis (Jane Tutikian)
http://www.fflch.usp.br/dlcv/posgraduacao/ecl/pdf/via02/via02_07.pdf
Orlanda Amarílis, literatura de
migrante (Benjamin
Abdala Junior)
http://www.fflch.usp.br/dlcv/posgraduacao/ecl/pdf/via02/via02_06.pdf
PhD dissertation on female authors from English speaking countries, Cape Verde (Dina Salústio, Orlanda Amarilis) and Mozambique: http://www.library.uu.nl/digiarchief/dip/diss/2003-0310-101002/inhoud.htm
Micro-universes and Situated Critical Theory: Postcolonial and Feminist Dialogues in a Comparative Study of Indo-English and Lusophone Women Writers (pdf-file)
1. O livro de contos
Cais-do-Sodré té Salamansa (1974) de Orlanda Amarílis (1) insere-se na tradição
literária cabo-verdiana de uma maior tomada de consciência nacional que parece
ter-se divulgado a partir do primeiro número da revista Claridade, de 1936 (2).
É lugar comum considerar-se que os escritores do arquipélago da última metade
do século XX decidiram "romper com os arquétipos europeus e orientar a sua
actividade criadora para as motivações da raiz cabo-verdiana." (Ferreira
37) (3). Este movimento de desapego em relação à literatura europeia
marca o início de uma literatura moderna cabo-verdiana na
qual a realidade de Cabo Verde se torna a temática principal. Surge então na
literatura uma consciência da autenticidade da cultura nacional, a
caboverdianidade (4); os problemas específicos do arquipélago (a fome, as
secas, a emigração, a pobreza, a nostalgia do exilado…) encontram-se no
centro das narrativas. O crítico norte-americano Gerald Moser comenta o evento
da literatura moderna cabo-verdiana da maneira seguinte (5):
•Criaram-se os
alicerces de uma literatura nacional entre 1935 e 1960. Nesta época, um pequeno
grupo de intelectuais juntou-se à
Os autores cabo-verdianos
começaram, portanto, a empenhar-se em representar o
‘chão crioulo’. Influenciados também provavelmente pelo modelo dos
neo-realistas portugueses, os escritores de Cabo Verde começaram a aperfeiçoar a arte do retrato social. Desta perspectiva, o
leitor atento não pode deixar de se dar conta da importância do tema da
emigração na produção literária cabo-verdiana. As
condições económicas das ilhas ajudam a explicar a
emigração
O arquipélago cabo-verdiano,
circundado pelas águas hostis do Oceano Atlântico, tem vindo a ser representado
ciclicamente
Porém, a questão da emigração
•Uma das notas
dominantes da literatura criada por este Movimento [de
Claridade], quer na poesia quer na novelística, foi o evasionismo. Com esta
atitude espiritual propuseram-se os componentes do Movimento exprimir uma dada
situação de existência do povo cabo-verdiano, decorrente do condicionamento
geográfico e telúrico do arquipélago, e que conceberam
Neste
ensaio, uma visão romantizada e simplificada da emigração cabo-verdiana é
claramente alvo de crítica.
Silveira condena tal interpretação da emigração das
ilhas, atribuindo-a às decepções dos escritores "avassalados pela
frustração resultante do desejo irrealizado de conhecer e viver em meios mais
fortemente ocidentalizados que o meio cabo-verdiano."(p.246). Além disso,
a sua crítica denuncia a imagem transtornada da emigração na
literatura cabo-verdiana, indicando que só se costumava reflectir "nas
obras dos claridosos o facto de emigração para as Américas e jamais a emigração
degradante para terras
Passemos
agora à primeira colecção de contos de Orlanda Amarílis (7) que, pelas imagens
que nos transmite da emigração, nos interessa particularmente neste estudo. Publicada uma década depois do ensaio de Onésimo
Silveira, a colecção Cais-do-Sodré té Salamansa ilustra uma perspectiva da
emigração distinta da literatura evasionista dos claridosos denunciada por
Silveira: a contista pinta de facto uma imagem menos idealizada da emigração
cabo-verdiana e "alarga o seu discurso à diáspora cabo-verdiana em
Lisboa." (Ferreira 125) (8)
Em
Cais-do-Sodré té Salamansa, Amarílis apresenta uma visão nostálgica da terra
natal e simultaneamente uma tomada de consciência nacional cabo-verdiana. Temos de sublinhar que esta sensibilidade não é
apresentada a partir das ilhas cabo-verdianas,
Neste estudo,
limitar-nos-emos à análise de um dos contos incluídos na
colecção Cais-do-Sodré té Salamansa, "Desencanto", que testemunha da
visão pouco romantizada da emigração que apresenta Orlanda Amarílis.
conto "Desencanto", situado simbolicamente no
meio da colecção, apresenta o mal-estar do cabo-verdiano (sobre)vivendo longe das
ilhas natais. Em comparação com a tradição evasionista do movimento de
Claridade, os eventos e os sentimentos provocados pela experiência da emigração
são apresentados sem idealização romântica neste
conto. Não se trata de imagens falsamente paradisíacas de terras desconhecidas
ou da "terra-longe" denunciadas por Silveira; a autora sugere, pelo
contrário, uma perspectiva intimamente ligada à realidade do emigrado, sem
tentar poetizá-la nem transformá-la. Estamos nitidamente no
início de uma fase mais madura da literatura cabo-verdiana, mais céptica em
relação aos mitos da emigração dos cabo-verdianos.
No conto
"Desencanto", como aparece de forma explícita em pelo menos dois
outros contos de Amarílis (p.9), a vida lisboeta que é posta em evidência é a
dos lugares públicos de circulação constante de passageiros: a protagonista do
conto mora na linha Lisboa/Cascais e viaja até ao Cais-do-Sodré para depois
apanhar o barco que a levará ao outro lado do Tejo. É nesta
viagem quotidiana que toda a história se desenvolve.
Na viagem de comboio, o movimento apressado continua.
A narração enfatiza a velocidade do comboio, que só pára em certas estações:
"este é rápido. Desliza e apita nas estações onde não pára hoje e todos os
dias." (p.61). Na chegada à outra margem do Tejo,
a pressa é de novo evocada: "Daqui a pouco com mais um esticão será outra
etapa outra corrida para o escritório sobranceiro à praça larga suja de papéis
e folhas secas." (p.62). Todos estes elementos
sublinham o ritmo rápido da viagem que, por analogia, é representativo do ritmo
de vida veloz e cansativo numa sociedade moderna.
Nesta narrativa, Amarílis
inclui retratos significativos da multidão que acompanha o emigrado nesta luta diária para chegar ao lugar de trabalho. A imagem da sociedade assim criada deixa-nos entrever com
clareza o meio ao qual a protagonista tenta adaptar-se e no qual quer sentir-se
integrada. Ao longo da viagem, vemos que os transportes
públicos estão sempre superlotados, o que permite sublinhar o contacto
obrigatório e inevitável de cada passageiro com um grupo de viajantes
habituais. No eléctrico, e depois no comboio, a protagonista deve fazer
face aos transportes sempre cheios: "A bicha nunca mais finda e o
eléctrico ronca de papo-cheio." (p.57). No comboio daquela hora de ponta a
protagonista não consegue encontrar um lugar sentado e faz a viagem em pé: "De
pé, continua a ler os títulos em letras gordas." (p.61). Ao chegar ao
Cais-do-Sodré, ela sai "empurrada pelos outros" (p.61), o que
sublinha de novo a pressa e a agressividade dos
viajantes nessa fase da viagem. E o tumulto prolonga-se na
última etapa do seu trajecto, na travessia do Tejo: "O barquinho das mil e
uma noites vomita uma mole de gente e engole-a por sua vez para a levar à outra
banda." (p.62). O Cais-do-Sodré, lugar de movimento
constante devido às chegadas e partidas de comboios e à proximidade dos barcos
cacilheiros, representa um lugar de agitação. É um cruzar incessante de
pessoas, na maioria desconhecidas entre si, e em
transição no vai-vém perpétuo da cidade moderna. É neste meio que a
cabo-verdiana é obrigada a reflectir sobre a sua posição na
sociedade moderna, da qual tenta seguir, inquietamente, o ritmo.
Esta corrida constante nos
transportes públicos,
Esta agitação da sociedade
moderna lisboeta contrasta com as lembranças de uma vida sossegada na sua terra natal: a "cidade parada" (p.58) do
arquipélago ressurge na memória da protagonista e estabelece um ponto de
comparação com a sua vida actual em Lisboa. É então que ela se indaga sobre a
sua condição de mulher mestiça no estrangeiro: "Voltar para quê? Para
vegetar atrás das persianas da cidade parada e espreitar as mulheres trazendo a
água do Madeiral em latas à cabeça ou os homens puxando as zorras com os sacos
para a casa Morais?" (p.58). Neste excerto percebemos o
sentimento de desapego e desdém que a protagonista sente para com a sua terra
natal. Ela elimina a possibilidade de voltar a Cabo Verde: agora,
acostumada à vida mais civilizada, a vida menos progressista das ilhas não lhe
parece ter muita atracção.
Tudo no conto tende a apresentar-nos o lado impessoal e monótono de uma
sociedade moderna. As relações humanas com os companheiros de viagem (do
edifício, do Cais-do-Sodré, da paragem do eléctrico,…)
não vão além de um cumprimento banal: "Bom dia. Passou bem?" A
repetição do mesmo cumprimento pronunciado distraidamente por pessoas
diferentes reforça a impessoalidade das relações
humanas neste trajecto. A protagonista, apesar de reconhecida
e cumprimentada, permanece uma pessoa anónima. Na
narrativa não se revela nenhuma informação sobre a sua identidade. Ao
chegarmos ao fim do conto, nem sequer sabemos o seu nome. Os companheiros de
viagem da cabo-verdiana podem reconhecê-la, mas não há
nenhuma intimidade entre eles. Por sua vez, a protagonista tenta adivinhar
mentalmente a identidade dos companheiros cujos gestos
e olhares observa com atenção: "Viúvo? Casado? Uma ruga vinca-se-lhe entre as sobrancelhas arranjadas."
(p.63). São contactos estéreis, despidos de interesse e calor
humanos, os que a protagonista tem com os seus companheiros de viagem
quotidianos.
Em cada
etapa da viagem da protagonista surgem-lhe pensamentos que mostram que a sua existência
é totalmente indiferente para as outras pessoas concentradas nas suas próprias
vidas. Presenciamos claramente esta
indiferença na viagem de comboio até ao Cais-do-Sodré:
"Procura lugar com os olhos. Os outros vêem-na
indiferente. O cavalheiro magrinho da frente lê concentrado o jornal da
manhã." (p.61). Nesta cena, à indiferença sentida acrescenta-se a falta de
reconhecimento público, posto este último em relevo
pela comparação que ela faz mentalmente entre a sua vida e a dos heróis
descritos nos jornais. O seu sacrifício diário, por mais importante que lhe
possa parecer a ela pessoalmente, passa despercebido.
Vemo-la reflectir: "Não será ela também uma heroína de todos os dias neste ciclo de etapas cronometradas de onde não pode
fugir?" (p.61). Nesta sociedade impessoal e fria, ela
sente-se abafada, a viver nos confins de uma monótona rotina. A impressão de ser prisioneira num sistema do qual não pode
sair, e de ter que cumprir com "etapas cronometradas", reforça a
ideia de sufocação.
Podemos
afirmar, depois dos comentários e exemplos referidos atrás, que a sua
integração nesta sociedade citadina é apenas superficial. Apesar de compartilhar exteriormente a mesma
experiência que os companheiros de viagem, ela não esquece nem esconde as suas origens; e sente-se só dentro desta sociedade. A compreensão da sua solidão é causa de grande tristeza. Ao
alcançar as docas da outra margem do Tejo, vemo-la só dentro da multidão:
"resvala por entre as gentes, estranha solitária no seu casaco de
quadrados." (p.64). Projecta-se-nos assim a
imagem de uma mulher sozinha (10), estrangeira numa terra alheia.
Apesar da agitação e do movimento dos passageiros, sobressai a monotonia da
viagem, que podemos atribuir à monotonia das relações sociais na sociedade
moderna. Na página 58 lemos: "sempre as mesmas caras
todas as manhãs. Sempre as mesmas." A senhora do
casaco claro, a aprendiza de cabeleireiro, a
mulherzinha da alcofa, a escriturária…fazem parte do seu ritual diário.
Mas, tal
Esta monotonia põe em relevo
a impressão de vazio que a protagonista sente na sua
vida lisboeta. Tal
Neste conto, Amarílis evoca a insatisfação que a protagonista sente em todas as facetas
da sua vida.
Vejamos
alguns exemplos concretos. Amarílis
evoca a dado momento a relação que a protagonista teve com um homem casado que a enganou. A cabo-verdiana tenta afastar esta lembrança,
esperando poder esquecer o tocar insincero do amante: "Se pudesse limpar
da cara a sensação das carícias que ele lhe fazia.
Costumava passar-lhe a mão pela face e prescrutar-lhe bem fundo nos olhos à
espera de não sei de quê. Malandro. Sempre gostava de saber o que é que ele queria." (p.63). Ela fica com dúvidas para as quais, numa vida sem sentido, não
tem resposta que a satisfaça. As suas inquietações e
frustrações remetem-na para a miséria da sua existência triste e medíocre.
mal-estar cultural que lhe nasce ciclicamente das relações
humanas é o que provoca o sentimento de perda da sua dignidade. Tal tema ocupa uma posição proeminente e parece carregar-se de
sugestões. Num dos episódios evocados no conto, é
claramente implicado que ela ocupou anteriormente uma posição de submissão no
emprego. Reflectindo sobre este trabalho
retrospectivamente ela admite: "já estava a adaptar-se à vida de pau
mandado." (p.59). No trabalho, a sua inexperiência, a falta de
conhecimentos e uma educação insuficiente provocaram nela um sentimento de
inferioridade: "nunca conseguiu enfrentar os clientes sabidos e
desnudaram-na com os olhos lascivos. Quando isso acontecia
corava e tremia. Nem sabia já para onde se
voltar." (p.59). A experiência que ela vai
adquirindo no mercado do trabalho reforça a sua consciência das suas humildes
origens de mulher das ilhas cabo-verdianas, passado do qual não se pode
desfazer.
No episódio atrás-referido,
os homens parecem arrogar-se o direito de olhar para a protagonista mestiça com
"olhos lascivos". Podemos ler na atitude
degradante dos homens frente a esta mulher das ilhas simultaneamente uma
manifestação do desequilíbrio racial e da diferença entre os sexos (12). Da mesma maneira, o último encontro relatado nesta narrativa
sublinha a relação de forças desigual que existe entre as raças nesta
mundividência. Isso é claro no comentário que alguém dirige ao
"homem do chapéu preto": "Malandro, estás a fazer-te prá
mulata" (64). A seguir as duas pessoas "riem
baixo". Esta simples conversa entre dois estranhos leva a
protagonista a reflectir mais seriamente sobre a sua condição de mulher mestiça
e emigrante na sociedade portuguesa: "esse riso é
uma afronta. Sempre a fugir de andar com os patrícios de cor
para não a confundirem e afinal é um branco que lhe vem lembrar a sua condição
de mestiça." (p.64). Tentando evitar a companhia de outros
cabo-verdianos, ela não consegue contudo esconder as suas origens.
A ideia de alienação das
raças e de insatisfação social por causa da cor corresponde,
•Apesar de adoptar as
maneiras sociais e ideias culturais do grupo social dominante, o poeta negro
dá-se progressivamente conta que a sua integração na sociedade europeia (i.e.
dos brancos) é apenas parcial e que o seu lugar inferior provém igualmente da
sua cor. Não importa o grau de assimilação do vestir, da linguagem, do
comportamento social, ele é principalmente um advogado ou um senador preto, ou,
politicamente, um preto francês ou americano. Contanto que seja preto (ou
mestiço), a assimilação total está fora de
alcance." (p.2) (13)
Preto-Rodas expõe a seguir
que a posição do negro na sociedade europeia será
sempre insatisfatória, dado que à medida que se assimila à sociedade, ele
"se dissocia de seus compatriotas por causa de suas preferências sociais e
culturais, assim
É este
fenómeno bipartido da assimilação superficial na sociedade ‘dos
brancos’, por um lado, e do afastamento cultural do país de origem, por
outro, que Amarílis põe em cena no conto "Desencanto". A protagonista não pode mudar a sua condição de mestiça, nem
esconder a sua identidade verdadeira; portanto, não vai nunca poder fazer
integralmente parte da sociedade acolhedora. Mendonça comentou este isolamento repetidas vezes sugerido na obra de
Amarílis, isolamento que é evocado neste passo pela protagonista de
"Desencanto": "É em Lisboa que verdadeiramente [os emigrados] se
sentem insulados e, na maior parte das vezes, insulados pela própria cor. Isso
parece trazer-lhes um desencanto permanente…"(p.47).
fim do conto pinta uma triste imagem da realidade de uma
cabo-verdiana no estrangeiro: num cruzamento entre duas culturas e sociedades,
ela já não pertence à sociedade das ilhas, mas ao mesmo tempo a sua aprovação
na sociedade europeia permanece incompleta. Podemos considerar a totalidade da
narrativa da viagem neste conto
Neste conto,
A conclusão do texto é
significativa: "Oh céus! É uma cigana errante, sem
amigos, sem afeições, desgarrada entre
Notas
Amarílis, Orlanda. Cais-do-Sodré té Salamansa. Coimbra: Centelha, 1974.Com o
evento da independência cabo-verdiana, os autores associados aos movimentos
literárias dos anos 40, 50 e 60 puderam começar a publicar as suas obras. Orlanda Amarílis publica a sua primeira colecção de contos naquele
ano.
A revista
Claridade foi publicada intermitentemente entre 1936 e 1960.
Ferreira, Manuel. Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa. Vol. 1. Biblioteca Breve.
Para um
estudo aprofundado deste movimento, ver Araújo,
Moser, Gerald. Changing Africa: the First Literary Generation of
Silveira, Onésimo. "Consciencialização na literatura caboverdiana." Critical Perspectives on Lusophone Literature from
Há de facto
poucas escritoras cabo-verdianas. Orlanda Amarílis é a primeira escritora com livro
publicado. Maria Margarida Mascarenhas e Aydeia Avelino Pires são também entre as (raras) escritoras de origem
cabo-verdiana.
Ferreira, Manuel, e Gerald
Moser. Bibliografia das literaturas africanas de expressão
portuguesa. Lisboa: Casa da Moeda, 1983.
Nesta
colecção Cais-do-Sodré té Salamansa, "Cais-do-Sodré" e
"Nina" são os outros dois contos nesta categoria.
Frequentemente na obra de Orlanda Amarílis evoca-se a solidão das mulheres,
vivendo nas ilhas ou no estrangeiro. Ver a este
propósito: Santilli, Maria Aparecida. "As mulheres-sós de Orlanda
Amarílis." Cadernos de Literatura 17 (1984): 37-41.
Mendonça, Fernando. "Orlanda Amarílis, uma escritora de
Cabo Verde." Vértice 44.461 (1984): 44-53.
Ver a este propósito o estudo seguinte de Gregory McNab que
analisa as relações entre mulheres-objectos e
homens-sujeitos nos contos "Thanon-les-Bains" e
"Salamansa": McNab, Gregory. "The Subjection of Women in Two Stories by
Ver: Preto-Rodas, Richard A.
Negritude as a Theme in the Poetry of the Portuguese-Speaking World.
Éjxenbaum, B. M. "O.
Henry and the Theory of the Short Story." The New Short
Story Theories. Ed. Charles E. May.
http://www.unb.br/il/liv/public/frusoni.htm
Simone Caputo Gomes
Universidade Federal Fluminense
A obra de Sérgio Frusoni, poeta caboverdiano que optou
pela adoção do crioulo
Filho de Giuseppe Frusoni e
Erminia Bonucci, Sérgio nasce no Mindelo, S. Vicente, a 10-08-1901, e morre em
Lisboa, em 1975. Autor de vários contos em crioulo divulgados na Rádio
Barlavento, notabiliza-se
Mesquitela Lima, que faz um
estudo antropológico da obra de Frusoni, para nossa felicidade, recolheu boa parte
dos poemas soltos em pedaços de papel que o poeta eventualmente conservava e,
na maioria das vezes, perdia (
Assim, um corpus
significativo de produção bilingüe1 de Sérgio Frusoni pode hoje ser examinado
pelo pesquisador das áreas de Língua e Literatura, e nossa intervenção se dará
neste segundo nível.
Enquanto conjunto de obra, a
poética de Sérgio Frusoni acompanha a movimentação da Literatura Caboverdiana
em torno de temas básicos à cultura
Conferindo originalidade à
obra de Frusoni percebemos a técnica do poema-retrato e o enfoque do quotidiano
do povo crioulo, nas atividades simples do dia-a-dia.
Não admira, pois, que seus
textos sejam expressos em crioulo, pois este é o veículo de comunicação da
camada de população retratada, que não tinha acesso à língua portuguesa.
O crioulo constitui o
elemento cultural que mais assume, fixa e expressa os valores culturais
caboverdianos, a cultura caboverdiana enquanto comunidade de memória, com um
sentimento de identidade que conjuga todo o Arquipélago e se estende à
diáspora, gerando uma consciência de grupo bem demarcada. Mesquitela Lima
discute, com base nesses argumentos, o fato de ainda não ter sido outorgado ao
crioulo o estatuto de língua e propõe que ele se denomine caboverdiano (ao
invés de crioulo)2, para melhor caracterizar a sociedade que dá a conhecer.
Contudo, as polêmicas língua
ou dialeto, crioulo ou caboverdiano, não nos ocuparão no momento. O que
interessa é examinar os principais temas e processos que fazem da obra de
Sérgio Frusoni um grande momento de Poesia, e de Poesia Caboverdiana.
Frusoni adota para seus
textos o crioulo da Ilha de S. Vicente, e o nosso critério de adoção de uma
forma escrita para o crioulo foi escolher o caminho mais fácil: conservar a
grafia usada pelo poeta (como sabemos, a dificuldade de adotar uma forma escrita
para o crioulo persiste, e sobre isto nos pode dar importante depoimento uma
especialista, a Dra. Dulce Almada
Um preâmbulo sobre alguns
aspectos do crioulo de Cabo Verde para os que fazem os primeiros contactos com
a Literatura Caboverdiana nos parece ainda necessário.
O fenômeno do bilingüismo não
afeta globalmente a sociedade caboverdiana; nem todos os caboverdianos falam o
português, muito mais utilizado na camada culta e rudimentarmente falado nas
camadas populares.
Frusoni é, pois,
praticamente, um dos principais escritores que dão ao crioulo dignidade poética
escrita, visto que no seu tempo a língua originária transmitia fundamentalmente
mornas e coladeiras.
Influenciada pelo movimento
da Claridade, que pensa a sociedade e a cultura como diferenciadas de um modelo
colonial, a produção poética de Sérgio Frusoni recolhida por Mesquitela Lima
compõe-se de 78 poemas, dos quais 15 sonetos (4 em português, 1 em inglês),
escritos no crioulo de S. Vicente e acompanhados das respectivas traduções
literárias
Com o intuito de publicar em
vida o livro Sanvicente crioulo, Frusoni, logo no poema
"Presentaçom", assume sua identidade de caboverdiano e sanvicentino:
Quem mi ê? Um fidje de
Sanvcênte.
Nascide, crióde, lá na ponta
d' Praia.
Lá ondê que mar tâ sparajá
debóxe de bôte,
moda barra dum saia.
Cs' ê que m' crê? Cantá nha
terra!
Companhal na sê dor;
na nôbréza d' sê
na pobréza d' sê vida!
Tradução:
Quem eu sou? Um filho de
nascido, criado, lá na Ponta
da Praia.
Lá onde o mar se espreguiça
debaixo dos botes,
O que eu quero? Cantar a
minha terra!
Acompanhá-la na sua dor;
na nobreza da sua alma;
na pobreza da sua vida!
Esta é a proposta da obra. Os
poemas autobiográficos "Nha coraçôm", "Mnine d'
Sanvicente", "Pracinha", "Igreja D'Nossióra da Luz"
continuam a delinear o retrato do poeta caboverdiano e de sua amada terra:
Nha coraçôm ê dum rapaz de
vint'óne:
êl tâ rí, êl tâ chorá, consoante
êl crê.
Se dá'l pa cantá, êl ê italióne,
pa quêl sangue quêl herdá quand'
m'nascê:
Se dá'l pâ chorá, êl ê
caboverdeóne
(Meu coração é dum rapaz de vinte anos:
ri, chora, consoante ele
quer.
Se lhe dá para cantar, é
italiano,
por aquele sangue que herdou
quando nasci
Se lhe dá para chorar, é
caboverdeano)
No poema "Mnine
d'Sanvicente", Frusoni alude a suas saídas de Cabo Verde, ao tema da
emigração-regresso, tão cantado pela Literatura do Arquipélago:
E j'a m' bá e já m' bem;
já m' torná bá e torná bem;
e alí'm lí, de pê na tchôm,
sem um vintem, sem um tstôm,
tâ crê torná bá...
ma pa torná bem...
(Já fui e já regressei;
já tornei a ir e tornei a
regressar;
aqui estou, de pés no chão,
sem um vintém, sem um tostão,
a querer ir...
e tornar a regressar...)
A técnica do retrato
condensado atinge líricos momentos no "flash" da Pracinha e da
Igreja, cartões postais do Mindelo:
Igreja
Igreja
Cambra
Câmara
Rua da
Luz Rua da Luz
Camim d'
cimter Caminho do cemitério
Dalí ond'ê que m'
tâ
Daqui onde estou
m' ti t' oióbe, nha
Igrejinha: vejo-te, minha Igrejinha
semp caiadinha d'
brónc sempre caiadinha de
branco
por dentre e por
fóra, por dentro e
por fora,
semp tâ
figurá
sempre a fazer figura,
embora
bidjinha!
embora velhinha!
Os costumes da terra (como a
culinária), as fontes de sobrevivência, a seca e a chuva, a fome, a pobreza,
terão expressão nos poemas "Rebêra", "Dia de féria",
"Pâ quês pardalim", "Lembróme", "Infancia" e
"Calôte , fidje de pôbréza, praga de nôs terra". O Porto Grande e a
chuva são focalizados em paralelo no primeiro texto, correlacionando a
abundância da água e da lama, tão necessárias ao cultivo, especialmente do
milho, à abundância de barcos, tão importante para a economia da ilha:
M' câ sabê de
bô,
Não sei de ti,
nem de fórça dêsse
láma
nem da força dessa lama
que bo ti tâ carregá pa
mar. que carregas para o mar.
Sô m' sabê cma
vapor
Só sei que os vapores
já pitá na
baía,
já apitaram na baía
cma aligria d'ága já rebentá
na ar. e que a alegria da água
[á rebentou no ar...]
O milho assado, o rabo de porco
e o feijão malaguetado, a cachupa e o pãozinho de milho (midje assóde, rabim de
tchuc, fejón malaguetóde, catchupa, pômzinha de midje) inscrevem-se em alguns
poemas enquanto pratos típicos da cultura caboverdiana
Em contraste, o sofrimento
das crianças por causa da fome é retratado no poema "Infancia", num
resgate da memória que persiste no poema "Lembróme".
Lembróme bô
perfil:
Lembra-me o teu perfil:
nocênte
(...)
inocente (...)
Ma que já tá
trazê,
Mas que já trazia
sargide na
pêle
serzida na pele
dôr ma
sufrimênte,
a dor e o sofrimento,
sina de nôs
pôve...
sina do nosso povo...
Fôme cá prêsta! Fôme ê
bjôm! A fome não presta! Fome é
[um horror!]
Ma ants fôme do qui pêste ma
guérra! Mas antes fome do que
[peste na guerra!]
Fôme ta minguóne, ta
incudjine, A fome mingua-nos,
[encolhe-nos]
ma quem ta morrê fête
menine, mas quem morre feito
[criança]
ta torná nascê fête
menine, volta a nascer feito
[criança]
de lá de barriga de
terra! de lá da barriga da
terra
No poema "Pâ quês pardalim" Frusoni focaliza a
mulher que, depois de desmaiar de fome, preocupa-se com um saco onde levava
restos de cachupa e tocos de pão. Interpelada
(em português) por que não comeu o farnel, ela diz:
E...e côsa que m' tá
levá... E...e o que é que eu levava...
quês...pardalim
àqueles...àqueles pardaizi-
[nhos]
-Pardais?
-Sim...
Quês...quês...dôs fidjim...de
meu... àqueles...àqueles...dois filhinhos...meus...
A mulher, retratada ora na sua
situação de abandono, em virtude da emigração do marido, ora no trabalho, ora
em situações humorísticas, ou em sua sensualidade ("marmél de bô pêite/ ta
pedí dentada d'ôme" - os marmelos do teu peito/a pedir dentada de homem),
constitui um tema constante na obra de Sérgio Frusoni.
No texto "Quand um
palavra sô tâ dzê tude côsa" Frusoni ridiculariza a mulher que regressa de
rápida viagem a Lisboa com hábitos e até pronúncia diferentes. Uma só palavra
condensará a crítica do povo a esse tipo de personagem: PACIÊNCIA!
Um dia nh'Augusta infermêra,
desembarcá tâ bem
d'Lisboa: (desembarcou, vinha de Lisboa)
luva, cartêra,
cabel caracolóde
cara pintóde
ta pscá confundi
parcença. (procurando confundir a figura)
Um mudjêr q'tava ta passá,
pará tâ spial,
cabá el sucdí cabeçá el dzê:
_Nh' Augusta, nh' armôm,
PACIENÇA!.. (ah!, Meu irmão,
PACIÊNCIA!...)
No poema-sketch (técnica
recorrente em sua obra) "Pai d'Fidje", o poeta mostra a mulher que
reza para que o marido viciado ganhe no jogo, para que seus filhos não passem
fome e ela não apanhe:
Spiá pa fidje, quem? Ele?
Adéh!
importal lá s'ês t'andá
sfarrapóde,
ô sem cmê! Alá'l sentóde
na jôgue, êss ê que'l crê!...
Scompôl? Brigá ma êl? Cónta
d' nada!
Remêde ê rezá, cmáde!
E pdí Nossiôr pa fazel ganhá,
pamóde s'êl perdê, êl
tíntchóme d'pancada...
A situação quase permanente
da mulher só, em virtude do abandono ou emigração do marido, ou do afastamento
do filho que parte para trabalhar longe é constantemente referida em poemas
como "Sirvice de criada ca tá dá têmpe pa nada" e "A
volta":
Sim, êl há
d'voltá. Sim,
há-de voltar.
E cs'ê qu' m há
dzê? E que lhe direi?
Cma
m'speral?
Que o esperei?
Cma m'
sofrê?...
Que sofri?
S'el ca
creditá?
E se ele não acreditar?
Cs' ê qu' m há
fazê? Que hei-de
fazer?
M' há mostral
fidje, Mostro-lhe a
criança?
ô m' ha fcá
calóde? ou fico calada?
E s' êl bem el stranhá
casa; E se ele vem e estranha a
[casa?]
esse nha
magréza;
esta minha magreza
esse portôm
abêrte, este
portão aberto,
ma esse lume
pagóde?... e este lume apagado?...
E s'stude bem dá cêrte?
E se tudo vier a dar certo?
S'el cabá d'
entrá
se acabar de entrar
êl corrê pa
mim?... e
correr para mim?
M' há pô tâ
tchorá,
Hei-de chorar,
ô m' há pô tâ
rí?... ou hei-de
rir?...
Este belíssimo texto dá a
medida da dramaticidade da emigração em terras caboverdianas. Os poemas
"Contratóde" (que fala da partida do contratado, escravo do século
vinte, por força do regime colonial), "Navì ta bá, navì ta bêm"
(Navio que vai, navio que vem), "Na terra strónhe" (Em terra
estranha),"Despedida", "Chamada de mar", "Diante de
mar de sanvicente", "Volta d'imigrante antigo" enquadram-se no
ciclo do terra-longismo (partida/regresso, o querer partir e ter de ficar/e
vice-versa), tão bem teorizado por Manuel Ferreira (FERREIRA 1972).
Por outro lado, o chamado da
terra, a caboverdianidade, a anti-evasão expressa veementemente por Ovídio
Martins
Ma lì qu'
m'nascê
Mas aqui é que nasci
lì qu' m'
criá!
aqui é que me criei!
Êsse mar, êsse cêu, ma êsse
tchôm, Este mar, este céu, este
[chão]
Lì qu'm'ha morrê!
Aqui é que hei-de morrer!
Idêa
d'imbarcá
Ideia de embarcar
nunca passóme pâ cabéça
(...) nunca me passou pela cabeça
Antes fcá pa lì tâ gozá dêsse
mar Antes ficar por cá a
[gozar deste mar]
ma dêsse
cêu.
e deste céu.
Conhecendo e amando Cabo
Verde, é fácil entender o sentimento de Sérgio Frusoni.
NOTAS
1. Considero a tradução
literária dos textos para o português como um corpus poético à parte.
2. Ibidem, p. 26.
BIBLIOGRAFIA
FERREIRA, Manuel. 1972.
O círculo do mar e o terra-longismo em Chiquinho de Baltasar Lopes.
Colóquio-Letras 5.66-70.
LIMA, Mesquitela.
http://www.geocities.com/ail_br/brasilecaboverde.html
Marcia Garcia Dias
Embora a partir da década de oitenta
se verifique um número significativo de trabalhos que põem em foco as relações
interliterárias voltadas para as literaturas não-canônicas, as relações
culturais entre Brasil e Cabo Verde são bem anteriores e para efeito desta
comunicação vamos situá-las na década de trinta.
Manuel Ferreira, no seu longo
prefácio à edição comemorativa dos cinqüentas anos da publicação do primeiro
número de Claridade (março de 1936/ março de 1986), procura analisar os
elementos que, na sua opinião, constituem uma explicação lógica para o
aparecimento desta revista no arquipélago.
Dentre os "elementos
exógenos", aponta primeiramente a presença dos escritores portugueses
Augusto Casimiro, António Pedro e José Osório de Oliveira; depois assinala a
contribuição da revista Presença; considera ainda o contato com alguns jornais
portugueses e, finalmente, a contribuição da literatura brasileira. Nas
palavras do próprio Manuel Ferreira: "Aliás, desde o princípio deste
século, para não irmos mais longe, a presença brasileira é por vezes notória na
literatura caboverdiana. as referências são constantes, quer em obras
literárias quer na Imprensa. E elas vêm das formas mais diversas. Desde as
dedicatórias de escritores caboverdianos, nomeadamente José Lopes, a
personalidades brasileiras, transcrições de poemas por vezes bem longos
dedicados ao Brasil ou a intelectuais brasileiros; na verdade, de forma a mais
variada, o Brasil fixou-se na poesia caboverdiana". (Claridade, p.XXVIII).
A distância imposta pela
configuração geográfica não impediu a circulação de alguns romances
brasileiros, mais particularmente aqueles de características neo-realistas,
entre os escritores das ilhas. É o próprio Baltasar Lopes, em declaração
proferida em 1956, que esclarece como se deu o contato literário dos
caboverdianos com alguns dos nossos escritores: "Há pouco mais de vinte
anos, eu e um grupo reduzido de amigos começámos a pensar no nosso problema,
isto é, no problemas de Cabo Verde. Preocupava-nos sobretudo o problema da
formação social destas ilhas, o estudo das raízes de Cabo Verde. Precisávamos
de certezas sistemáticas que só nos podiam vir, como auxílio metodológico e
como investigação, de outras latitudes. Ora aconteceu que por aquelas alturas
nos caíram nas mãos, fraternalmente juntas, em sistema de empréstimo, alguns
livros que consideramos essenciais pro doma nostra. Na ficção, o José Lins do
Rego d'O Menino do Engenho, do Banguê; o Jorge Amado do Jubiabá e Mar Morto; o
Amândio Fontes d'Os corumbas; o Marques Rebelo d'O caso da mentira, que conhecemos
por Ribeiro Couto. Em poesia foi um alumbramento a "Evocação do
Recife", de Manuel Bandeira, que, salvo um ou outro pormenor, eu
visualizava com as suas figuras dramáticas, na minha vila da Ribeira Brava. O António Rodrigues, que ainda cheguei a conhecer, e
tinha a cara do Padre Vieira das ilustrações dos livros escolares. E a moça
nuinha no banho fora surpreendida nos tanques da Ribeira de João, logo acima do
trapiche da Pequena; em poesia, outro alumbramento foi Jorge de Lima, em que o
sinhàzismo de 'Nega Fulô' e o super-realismo do 'Menino impossível' emparceiram
na nossa receptividade com Jorge de Lima da 'Túnica impossível', com as tosses,
as asmas, máquinas de costura, que precisam dormir, e com o tema, ilhéu e tão
nosso, do avião que matou a saudade dos nossos filhos vagabundos. Claro que o
avião, para a nossa temática, é proteiforme, podendo ser até o veleiro das
travessias entre as ilhas de certos poemas de Jorge Barbosa'"(In FERREIRA,
M. (org.). Claridade, p. XXIX e XXX).
O reconhecimento desse
encontro por parte dos claridosos revela. para além do engajamento ideológico,
uma práxis artística que a um só tempo identifica as literatura brasileira e
caboverdiana e as afasta do modelo do colonizador.
Menino de engenho e Chiquinho
são obras de denúncia, pois nelas se verifica, por meio da narração e das falas
das personagens, uma crítica à ordem social estabelecida. Observam-se
Menino de engenho é publicado
em 1932 e narra a história do menino Carlos que deixa a cidade de Recife depois
da morte da mãe e vai viver no engenho de seu avô materno, na Paraíba.
Apontado pela crítica
consagrada como um documento sociológico, esse romance de José Lins do Rego é
expressão da brasilidade que identifica nosso povo não apenas pelo tema e
feição regionalista, mas também pela linguagem que revela o poder que organiza
as relações humanas e define o destino dos homens.
O destino – "esta
força arbitrária" – apresenta-se na narrativa como um tema a ser
decodificado pela consciência infantil que procura pôr ordem nas múltiplas
experiências vividas no engenho Santa Rosa. Aos poucos, Carlinhos vai tomando
contato com as injustiças sociais e percebendo que elas é que lhe garantem os
privilégios: "Depois mandaram-me para a aula de um outro professor, com
outros meninos, todos de gente pobre. Havia para mim um regime de exceção. Não
brigavam comigo. Existia um copo separado para eu beber água, e um tamborete de
palhinha para 'o neto do Coronel Zé Paulino'. Os outros meninos
sentavam-se em caixões de gás. Lia-se a lição em voz alta. A tabuada era cantada em coro, com os pés balançando,
num ritmo que ainda hoje tenho nos ouvidos. Nas sabatinas nunca levei um bolo,
mas quando acertava, mandavam que desse nos meus competidores. Eu me
sentia bem com todo esse regime de miséria. Os meninos não tinham raiva de mim.
Muitos deles eram moradores do engenho. Parece que ainda os vejo, com seus
bauzinhos de flandres, voltando a pé para casa, a olharem para mim, de bolsa a
tiracolo, na garupa do cavalo branco que me levava e trazia da escola"
(Menino de engenho, p.33-4).
Publicado quinze anos depois do romance brasileiro,
Chiquinho aparece em 1947 em forma de livro, embora os capítulo
"Bibia" e "Infância" tenham sido publicados nos números um
e três da revista Claridade.
As três partes que constituem
a obra ("Infância", "São Vicente" e "As águas")
revelam a trajetória percorrida por Chiquinho. Como narrador-personagem, narra
as diversas situações vividas em companhia de sua família no Caleijão, na ilha
de São Nicolau. Como Carlinhos, de Menino de engenho, Chiquinho observa as
relações familiares, a pobreza da região onde vive, o drama dos lavradores que
se tornam escravos das constantes secas e a emigração de seus patrícios para a
América.
Depois dos estudos no liceu
de São Nicolau, transfere-se para São Vivente, onde passa a freqüentar o seminário
e conviver diariamente com os colegas do Grêmio. Andrezinho, o líder da turma,
tem uma proposta de trabalho: "Para ele, os nossos problemas tinham uma
tonalidade específica, que resultava do 'cerco do atlântico' e do 'drama
ancestral da formação étnica'. O que se impunha era reorganizar completamente
nossas peculiaridades. Na vida administrativa. Na estrutura social. Na arte.
[...] Andrezinho deu a fórmula: enquadramento do nosso caso nas aspirações,
sempre as mesmas, sob qualquer latitude, da alma humana." (Chiquinho, p.
73).
Em outras palavras, a
consciência do narrador amplia-se para além do drama vivido pela comunidade
enraizada em torno da casinho do Caleijão. Na óptica de Chiquinho, o problema
da sobrevivência ultrapassa a sua ilha de origem para se estender a todo o
arquipélago.
Na formação da personalidade
do menino do engenho Santa Rosa não estão apenas as brincadeiras e outras
aventuras proibidas que os recantos do latifúndio do avô José Paulino lhe
possibilitam. Antes de ingressar na escola, o cultivo de sua imaginação faz-se
pelas histórias da Velha Totonha. "Que talente ela possuía para contar as
suas histórias, com um jeito admirável de falar em nome de todos os
personagens! Sem nem um dente na boca, e com
uma voz que dava todos os tons às palavras. As suas histórias para mim valiam tudo." (Menino de engenho, p.
50).
A convivência íntima de
Carlinhos com as negras da senzala contribuem para ampliar o reino fabuloso da
sua imaginação de menino: "Eu vivia em conversa com ela [Galdina], atrás das
suas histórias da costa da áfrica". (Menino de engenho, p. 58).
A essas histórias
acrescentam-se as conversas das costureiras do engenho que além dos bordados
desfiam os enredos que constituem a vida miúda dos trabalhadores do eito, as
aventuras dos grandes do cangaço como Antônio Silvino.
Situação semelhante vive
Chiquinho que antes de entrar para o seminário
Aplica-se aos dois textos o
conceito de Walter Benjamin de que "a experiência que passa de pessoa a
pessoa é a fonte a que recorreram todos os narradores. E, entre as narrativas
escritas, as melhores são as que menos se distinguem das histórias orais contadas
pelos inúmeros narradores anônimos".
Carlinhos, no engenho Santa
Rosa resiste ao ABC que tia Maria amorosamente tenta ensinar-lhe, mas deixa-se
seduzir pelas palestras que os mestres de ofício vão-lhe contando enquanto
executam seus trabalhos de carpintaria e tanoagem: "O que, porém, mais me
prendia aos meus amigos, eram as suas conversas e confissões. O Seu Rodolfo
sabia de muita coisa. Vivia consertando engenhos desde menino. E de toda parte
trazia uma história" (Menino de engenho, p. 69).
José Lins do Rego e Baltasar
Lopes procuram apropriar-se das tradições orais para imprimirem às suas
histórias o "vôo de imaginação" que caracteriza a matéria literária e
dá a elas a fisionomia particular que distingue o texto brasileiro do texto
caboverdiano. Dessa forma, a pobreza e a miséria que afligem os camponeses de
São Nicolau e os lavradores do eito são as mesmas. A fartura da casa-grande
brasileira equivale ao comedimento e segurança da casinha do Caleijão; à
expectativa da cheia do rio Paraíba corresponde à chegada das águas no chão
seco da ilha. No entanto, a fertilidade da terra brasileira não pode
corresponder aos barcos de pesca de baleias, nem a evasão caboverdiana equivale
aos movimentos migratórios do Nordeste brasileiro.
Assim, as semelhanças e
diferenças aqui apontadas ultrapassam a concepção tradicional do comparativismo
francês, em que se cria uma dívida impagável de um autor em relação a seu
precedente. Esse medo rondou o espírito de Manuel Lopes e Jorge Barbosa,
fazendo com que declarassem enfaticamente que a literatura caboverdiana havia
encontrado seu próprio caminho.
António
de Névada
http://www.ciberkiosk.pt/arquivo/ciberkiosk4/entrevistaseinqueritos/antonionevada.htm
Da Claridade à geração novíssima de
representação
cultural e nacional.
Marcada desde o início por uma condição errante e
bilingue, a literature cabo-verdiana é, também por isso, um complexo discursivo
dotado de
capacidade
crítica (e desde logo autocrítica) em relação às exigências e ficções de uma identidade
dominantemente exprimida num idioma outro e
produzida
em espaços por vezes também outros.
António
de Névada, m'nine d'Soncente (nascid e criód), por acaso nascido em Lisboa, e
não tanto por acaso, mas ainda assim acidentalmente,
residente há
uma década em
mítica, recupera uma certa ficção
de pátria na língua portuguesa que,
enquanto escrita,
desalojada que é do quotidiano pela omnipresença do crioulo. Daí a sensação, no
limiar da «estranheza», que experimenta o leitor
dos seus versos - de que os que
publicamos neste número de Ciberkiosk são bem representativos -, os quais são
declinados num português que oscila
entre a dicção grave e nobre que
poderíamos associar a um clássico
«local»,
eis o que não é de determinação fácil, tanto mais que esta poesia parece
interiorizar os dados algo «baralhados» da situação pós-colonial. A
poesia de Névada é cabo-verdiana
sem responder contudo a um programa etnológico; é africana sem rejeitar a
negociação do seu estatuto
(não)periférico com os supostos centros da produção (e da
tradição) poética ocidental; é culta, numa profunda fidelidade à matriz popular
de quase toda
a cultura cabo-verdiana; é tão épica
quanto metafísica, propondo-se
morte.
Ciberkiosk
dá neste número guarida à palavra poética e dialogal de António de Névada, desejando que este seja
apenas o começo de uma relação profícua
com as literaturas pós-coloniais
de língua portuguesa e não só (pensamos, obviamente, neste contexto, no caso do
crioulo). E julga ter começado bem.
Ciberkiosk
agradece pois a António de Névada a disponibilidade
revelada para esta pré-publicação e entrevista. Resta esclarecer que a
entrevista foi
conduzida
por Osvaldo Manuel Silvestre.
Ciberkiosk.
Comecemos pela indispensável apresentação: quem é António de Névada? (Ou
seja: onde e quando nasceu, onde estudou, onde vive?).
António de Névada. A
auto-apresentação envolta toda ela por este sabor
irónico, leva-me,
interrogações de vária
ordem. E para começar, vou citar um trecho que não foge ao tom algo sarcástico
que sustenta o texto, o conto Fragmentos de Um
Acto, a que pertence. E diz:
(...)
eu, filho de Garda e Didial, das restrições da vinha, vinho murcho ou pragas da
vida, filho também das costelas do tempo,
dos
templos ou famintos templos. Guardião deste pedaço, ou sinal da perplexidade,
eu, filho, tal vos tenho dito, das pregas do templo e
do
cheiro da cana ou caniço, maio
tardio, achadas bravas sobre os lombos, derramarei a minha voz obsessiva pelos
cantos, narrador impróprio que sou
porque
assim me conceberam.
...
E pergunto - ó dignidade insituável - que vazio nos suporta e nos abençoa, se cada dádiva estende-se pela horta toda
povoando as nossas
fraquezas?
E se o milheiral e o vento consomem a vida, a gravidez e o
acto de parir?
Essa
citação poderá ser considerada uma representação (recordo que representar também
apresenta) porquanto o eu, o narrador, fala
"porta-voz",
melhor, de um emissário se trata.
o
homem que
cultiva
sobre a terra estéril,
e sobre ela ajoelha-se
para louvar ou barafustar,
para louvar ou possuir
o dom dos deuses.
E assim sendo, passemos à
indispensável apresentação: nasci no ano de mil novecentos e sessenta e sete no
sétimo dia do mês de Setembro. A minha mãe
não terá sido propriamente uma boa
parideira, ou seja, ela não foi, na idade fértil, uma mulher de parto fácil. O
primeiro filho morreu-lhe na sequência
de complicações durante o
parto, o segundo nasceu duma cesariana, e eu, o filho terceiro, vim nascer a
d'Soncente (nascid e criód) ter nascido casualmente em
Lisboa, para regressar com menos de três meses de idade à terra berço.
Vivi toda a minha infância e adolescência
licenciei-me
Como
me formei?
-
junto aos meus tenho bebido a consciência da humildade. E por
aí me tenho pautado.
Ciberkiosk.
Com um livro publicado em 1993 (Acto Primeiro ou o Desígnio das Paixões) e
outro a sair em breve (Esteira Cheia), V. integra a novíssima
geração
literária cabo-verdiana. Entende que o conceito é sustentável?
Queremos
dizer: existe uma literatura cabo-verdiana que se possa atribuir a uma «geração» novíssima? A existir ela, como a
caracterizaria?
No
seu caso, como se situa em relação à história literária cabo-verdiana?
Lembremos
aqui um poema do seu primeiro livro - «Melancolia» - em que se diz: «Qual
quixotismo / nos abarca as velas doentes / nem Nhô Balta nem Tio
Tiofe
/ nem Nhô Roque nem Corsino?» Será pertinente
articular este panteão pessoal com a pergunta
anterior? Isto é, serão estes quatro nomes as suas
referências
fundamentais na literatura cabo-verdiana?
António de Névada.
Tendo começado a publicar em finais da década de oitenta,
eu poderei integrar,
eventualmente, a novíssima geração literária caboverdiana (o Prof. P.
Laranjeira já havia assim referido em relação a
Vera
Duarte e a Névada). E digo eventualmente porque não me parece sustentável, e só
o tempo a seu tempo o dirá, considerar que existe uma
literatura
caboverdiana que se possa atribuir a uma geração novíssima. A
literatura caboverdiana tem encontrado uma linha criadora própria, e dado
mostras de vitalidade, e há efectivamente autores novíssimos com qualidades e
com propostas também elas interessantes, que abrangem e recriam concepções
estéticas diversas. Sem querer aqui ajuizar, por não ser, como é óbvio,
das pessoas mais indicadas para o fazer, e não ser essa a finalidade quando
aprecio a arte e me debruço, espontaneamente, à tarefa crítica, ainda assim,
devo aqui citar alguns nomes como sendo: Vera Duarte (Amanhã Amadrugada, 1993),
Mario Lúcio Sousa (Sob os Signos da Luz, 1994; e Nascimento dum Mundo, 1998), Vadinho
Velhinho (Relâmpagos em Terra,1995; e Adeus Loucura Adeus, 1998), autores que
começaram a publicar a partir ou no limiar da segunda metade da década de
oitenta, e que são de alguma forma significativos.
Tenho mantido presente que nenhum poeta, ou artista de
qualquer arte, detém, solitariamente, o seu completo significado.
E é nessa medida que só
poderemos avaliar uma
geração literária se a enquadrarmos no contexto histórico a que ela pertence,
antes disso tudo é prematuro. Ou seja, como
afirmei
acima, só o tempo a seu tempo o dirá. Sem esquecer,
porém, que o acto de criar, essa forma de avaliar o amontoar dos tempos, a
Arte, a sua
verdadeira dimensão,
adimensional, tem na intemporaneidade a sua
E
é importante acrescentar o seguinte: se abordarmos os novos (entendendo que o
novo se refere aos predecessores dos novíssimos), é fácil constatar
que, em larga medida, está ainda
por apurar a importância (e ela não sera pequena), o que traz e acrescenta à
literatura caboverdiana, a geração
liderada
por João Varela, Corsino Fortes, Arménio Vieira e Oswaldo Osório.
São
todos poetas, os mencionados, o que não será coincidência, se relembrarmos que na literatura caboverdiana,
é
o género literário que mais elevado grau de maturidade atingiu.
Em
1993, aquando da publicação do Acto Primeiro, eu escrevia: quando disse que os
poetas caboverdianos, cujas publicações fazem parte dos meus ditos
"livros de cabeceira" são Arménio Vieira, Corsino
Fortes, João Varela, não queria com isso dizer que outros poetas caboverdianos
não me interessam.
Aliás, poetas há absolutamente imprescindíveis, e a
poesia daqueles levar-me-ia, mesmo que inconscientemente, a procurar a poesia
destes. E como
não me deliciar ao ler os
pré-claridosos e os claridosos, os "pais" da literatura caboverdeana,
para não falar na geração mais nova?
E
acrescentava: Os poetas mencionados, porquanto se encontram em plena
"força criativa", concerteza terão trabalhos a dar a conhecer das
suas obras
em
plena construção. Mas penso que isso não pode
constituir inibição para os nomear aqui. Se falássemos da prosa, não poderia deixar de mencionar
Baltazar
Lopes (sem esquecer Oswaldo Alcântra) ou Aurélio Gonçalves. Mas
não quero sopesar separadamente as influências dos discursos poético e
prosaico.
E
nem o farei em relação a outra arte. Qualquer que seja a arte no nosso tempo,
tempo complexo o nosso, não poderá deixar de ser o movimento dessa
variedade.
E não devemos pensar que poderemos criar ou desenhar gravuras
isoladas, estabelecer rupturas. Sabemos sim de um todo que nos
movimenta. E
não
interessa encontrar mas sim procurar.
Além
de Nhô Balta e Tio Tiofe, Nhô Rôque e Corsino, para erguer um panteão pessoal
seria imprescindível referir Arménio Vieira, e também a nossa
literatura
oral e a literatura cantada. O imaginário mitológico popular recorda-nos, desde
a infância, que, esquecidos ao sabor dos gafanhotos,
ainda
assim, desafiamos os deuses e teimamos em partilhar e recriar esse universo. Essa
literatura oral, os contos tradicionais, ajudam-nos, no
desespero,
a reinventar os sonhos.
A
música assegurou há muito um lugar de destaque na
literatura do meu país, e ela faz parte do quotidiano e da essência do meu
povo. Apreendi com a
música os primeiros acordes da
verdadeira poesia, apreendi com a música que o sublime da arte está na vocação
do inexprimível. E a poesia anónima do
povo, o músico anónimo da noite
caboverdiana, da serenata, trovadores
minhas
referências fundamentais na literatura caboverdiana. Este ultimo autor, dono de
uma enorme subtileza satírica, seguindo a toada tecida por
nomes
adopta uma escrita corredia,
composições
de Teófilo Chantre?
Ciberkiosk. A uma primeira leitura, a sua poesia impressiona por aquilo
a que o poeta Mário Fonseca chamou sedução da palavra, a qual na sua obra
pressupõe
o recurso a um registo elevado ou digno do português. Duas perguntas sobre
isto: 1) Esse registo elevado do português é de aquisição
pessoal e literária
ou tem de algum modo a ver com uma preocupação pedagógica,
escola?
2) Como se lhe coloca a questão do crioulo? Língua sem
possibilidades literárias? Demasiado confinada a um micro-espaço linguístico
e por isso de difícil tradução, no
caso literário, condenando uma eventual literatura em crioulo a um destino
paroquial (esta era aliás, se não
erramos,
a posição de um Baltasar Lopes)? Língua a conciliar com o
português, seguindo o exemplo de Corsino?
António de Névada. Devo
afirmar, com sinceridade, que o fascínio ou a sedução da palavra (que poderá
pressupor o registo elevado do português) é
entendido, em
primeiro lugar,
utensílio maior da
sua arte, que é a linguagem (a palavra) escrita ou falada. E por ser de
aquisição pessoal, não é inconsequente pensarmos que o
despertar desse
fascínio, pela palavra, advém dos amantes da poesia e da literariedade, que eu
tive a sorte de encontrar ao longo da minha formação.
tem
como ferramenta a língua portuguesa. Na linguagem escrita
utilizo com maior destreza o português. Entanto, na linguagem falada
acontece o
contrário, a minha
língua materna, a língua caboverdiana (o crioulo) alcança alguma supremacia. É
ciente dessa aparente contradição que me situo em
relação às questões
que se levantam à
Baltazar
Lopes, afirmou, de forma categórica, que "o crioulo de Cabo Verde
apresenta uma vitalidade que torna impossível a sua «erradicação»
de fala comum, e até uma
viabilidade literária incontestável, a contrastar com a magreza da sua
estrututa morfológica". Ou não teria ele dado o
contributo
que deu na investigação linguística do crioulo.
E
vou transcrever de seguida, para confrontarmos com a opinião científica
anterior, a afirmação duma mulher do povo: "O meu nome é Cesária e canto a
morna porque
porque se o fizer em inglês, em
francês ou mesmo em português não vou fazê-lo bem. O crioulo é o meu sangue, a
minha raiz".
Assim
constatamos que muitas
composições da nossa literatura cantada têm sido traduzidas directamente do
crioulo para o francês ou inglês, embora na sua
generalidade, tais
traduções, feitas um pouco à pressa, pecam por não conseguirem penetrar na veia
poética dos textos originais.
Acerca
da dificuldade de tradução, proponho as coisas
fez
das endechas a Bárbara Escrava!
O
bilinguismo
necessário grau de
maturidade, que permita ter, sem equívocos, na lingual escrita todos os
inumeráveis recursos da língua falada, da nossa elocução
oral.
A acontecer, quando chegar o tempo, deverá ser com naturalidade. E a língua portuguesa ficará, também ela, dignificada e
enriquecida.
Ciberkiosk.
No poema «Aonde jazem os
os seus versos convocam são
deveras congruentes com as suas referências literárias, que
que fornece a epígrafe ao livro
- a Ezra Pound (e
Timóteo
Tio Tiofe, de modo, digamos, algo desequilibrado, em favor
das europeias. Sem querermos ressuscitar velhas polémicas sobre
cabo-verdianidade e
africanidade, considera-se, ainda assim, um poeta africano? Ou será que, na
situação pós-colonial, a questão não faz sentido
para si?
António de Névada. O âmago filosófico duma poesia está intimamente ligado
à
realidade
histórica e cultural no qual se insere o corpus poético do autor.
É
inegável! A nossa mundividência, que nos dá uma especificidade própria,
prova,
também, que a cultura caboverdiana, a caboverdianidade ou tudo aquilo
que
nos define em essência é determinado pelo elemento africano.
Sou
caboverdiano, um ilhéu africano, é óbvio, e nessa medida não posso ser
coisa
nenhuma senão, antes de mais nada, um poeta africano. É tão profundo
quanto
imensurável! E assumo, sem complexos, os meus mestres, os autores das
obras
de arte que marcam as minhas concepções estéticas, independentemente
das
origens (geográficas ou culturais), das restrições territoriais (que não
existem
na arte), dos eventuais desequilíbrios, e muito menos por receios em
ressuscitar
velhas polémicas.
E
se não há credo nem raça para as vicissitudes da vida e nascemos na
encruzilhada
de todos os caminhos, e se a raiz do dorso é carne é osso, no
alvoroço,
então, a gratidão e a afronta são amparadas com firmeza na mais
atroz
das nossas vivências: sal d'nha corp ê c'ma tambor na d'susper
d'SánJon.
Ciberkiosk.
No universo de carência e sofrimento dos seus versos é possível
reconhecer
uma referência constante a Cabo Verde. No entanto, a nomeação
referencial
é evitada e antes objecto de uma metaforização contínua, como
nos
versos seguintes, do poema «Deusa»: «Gemem gemidos rasgados / e cinza
paisagem
/ deixa cair pétalas de basalto / em crateras vivas». Num certo
sentido,
esta poesia não podia ser mais cabo-verdiana (como o é, em
alternativa,
no poema «Captô», em que recupera, digamos, o romanceiro das
ilhas),
e no entanto, na sua retoricidade intensa, ela adopta, de modo algo
ostensivo,
uma atitude de indiferença em relação à agenda emancipatória da
literatura
cabo-verdiana produzida pela geração que «não quis ir para
Pasárgada».
A sua poesia, digamo-lo assim, não seria pensável há 20 anos
atrás,
de tal modo se afasta da temática do engagement, estando por isso,
nessa
data, fatalmente condenada a uma acusação global de «formalismo».
Concorda?
António de Névada.
A geração que «não quis ir para Pasárgada» teve a sua
razão
de existir, no contexto de denúncia, assumindo um discurso liberto da
doutrinação
luso-tropicalista.
Hoje,
quando leio Ovídio Martins não posso deixar de sentir emoção pelo seu
espírito
inconformista e pelo lirismo dos seus versos. E se de alguma forma,
a minha poesia denota uma atitude de
indiferença em relação à agenda dessa
geração
(a emancipação é já um dado adquirido), não é de todo anormal que
assim
seja. Mas denotar isso de modo algo ostensivo é acidental.
Não
concordo com a afirmação final.
E
convém não nos esquecermos que os dois primeiros volumes de Exemplos de
João
Vário, Exemplo Geral (1966) e Exemplo Relativo (1968), anunciam, com
quase
duas décadas de antecedência, um novo processo, que rompendo com as
convenções,
propunha novos caminhos à poesia caboverdiana. A essa data já o
impensável
acontecia?
Há
vinte e picos anos atrás, na Carta a Bia d'Ideal, Corsa de David
associava-se
às críticas sofridas então por Junzin!
Ciberkiosk.
A sua poesia tende para a forma extensa, quer se trate do verso
ou
do poema. Essa forma extensa articula-se com uma dicção grave, que vai
como
que salmodiando o carácter sagrado do seu universo poético - que pode
ser
a «gestação do pilão» na qual «a densidade é um poema». São para si
igualmente
sagrados o texto e o mundo? Ou tem um precedência sobre o outro?
Ou
não aceita sequer as coordenadas desta pergunta?
António de Névada.
semeadura,
a terra cavada, rasgada, lavrada, é uma terra seca, crua, que não
foi,
há muito, amolecida pela água. E curvando ao ritmo das sementes,
largando-as
uma a uma ao semeio, ele, o homem, crê que cumpre, com
abnegação,
o seu dever. E espera e crê!
Ano
após ano, propor, assim, o pão e o vinho, não é temperar a hóstia e o
salmo?
É
evidente que tudo isto tem o seu quê de sagrado. Não o acto mas o ânimo
que
o sustenta! E não pode passar imperceptível ao lado da sensibilidade sem
despertar
a perplexidade.
Vejamos:
no acto de sepultar a semente, a morte não será de uma omnipresença
atroz?
Não
será legítimo que o caboverdiano se veja confrontado, inevitavelmente,
com
questões de ordem ontológica? Acentuo que a poesia lavra ou pretende
lavrar
a própria alma, e que, por excelência, a mente é o instrumento e o
campo
de toda a lavoura.
Eu
até não me importava de encontrar cara a cara com O sagrado, livre de
qualquer
admonenda, pois até tinha algumas questões incómodas para Lhe pôr.
Faço
minhas estas palavras ditas por um velhote da minha cidade. Por
sinal,
dizia-se
que o homem não era muito "católico" das ideias.
Em
horas mais propícias haverá muito a acrescentar à questão do sagrado que
carrega
nas faces as rugas místicas da religiosidade. Essa religiosidade do
meu
universo poético que deve ser entendida no sentido de religare, de unir
o
homem à sua ancestralidade:
São
nuvens?
Não!
São almas nossas.
São
árvores?
Não!
São nossos cadáveres.
A
Bíblia é uma grande obra estética e literária, tanto pela sua carga
poética,
como pela sua importância histórica. E tenho sido um leitor assíduo
de
alguns dos livros nela contidos. Nomeadamente o livro dos Salmos.
Ciberkiosk.
Quer o seu livro publicado, quer o ainda inédito, organizam-se
rigorosamente
em três partes, buscando um fôlego épico para abordar o seu
universo.
O título do seu segundo livro, contudo - Esteira Cheia ou o Abismo
das
Coisas - parece sugerir que o mundo a cantar é tão pleno quanto ausente
(o
que é capaz de ser um sentimento definidor da cabo-verdianidade). O seu
projecto
de uma épica lírica, sobretudo conseguido
deixa
de evocar Corsino Fortes, poeta presente nos seus dois livros. Assim
como
a celebração de um «abismo das coisas» permite uma aproximação à
vertente
metafísica da obra de um João Vário. Aceita situar-se numa relação
privilegiada
com esta ascendência poética?
António de Névada.
Aceito, com naturalidade, tal ascendência poética.
Ciberkiosk.
Quer-nos falar sobre as razões que o levaram a intentar um texto
de teor mais proximamente épico,
António de Névada. É óbvio que alguns dos meus mestres são autores de
épicas
contemporâneas
de inspiração Homérica. Esteira Cheia não está alheia ao
ensejo
que terá movido tais concepções estéticas. Em meados de noventa e
cinco
na Carta ao tio Djom à volta de Esteira Cheia ou Abismo das Coisas, eu
dizia
que esta havia atingido a maturidade: (...) Há sempre uma grande
melancolia
que envolve a peça de arte e o autor. E quando ele (o autor) vê a
peça
encadernada, já impressa ou retirada do cavalete, é como se a própria
alma
transfigurada se apercebesse de que essa separação corporiza o
inacabado,
é uma pausa à semelhança da morte...
A
estrutura do livro (que se assemelha, de certa forma, à estrutura épica, e
que
eu designaria por drama ou polifonia poética) subdividida em Prelúdio,
Canções
1ª, 2ª e 3ª (cada uma composta em três cantos) e Coro (ou rapsódia
final),
é aquela que melhor sustenta os intentos desta proposta poética.
Fazendo
uma analogia com a classificação das óperas, não há aqui o
antagonismo
entre a música pura e o texto dramático, ou seja, a melodia (a
tessitura
ou tecedura textual) e o próprio texto, indissociáveis (porque
como
uma síntese de angústias metafísicas), coexistem e viabilizam o poema.
A
canção primeira (Meditações) de Esteira Cheia tem por epígrafe palavras
ditas por John Coltrane. Trata-se de
um reconhecimento. Esse grande
compositor
compreende (abraça) o religare, procurando de forma obsessiva,
incansável
e mesmo agônica a ancestralidade. É esse o lugar de A Love
Supreme,
Transition, Meditations, obras fundamentais, que alicerçam, também,
a
minha concepção do belo.
Resta-me
acrescentar que o epos, o mito vivente, que sustenta esta proposta
poética,
nada mais é do que o sentido efémero das coisas, a angústia, no
sentido
mais amplo, os pedaços desgarrados do eu doendo, a dimensão humana.
Daí
a premissa de me lançar, também eu, à procura obsessiva e agônica do
mundo
e do lugar no mundo.
Ciberkiosk.
Para terminar, de que modo é que a poesia portuguesa lhe é
relevante?
Ou seja, como se relaciona com ela: como com uma literatura
estrangeira,
no mesmo plano, digamos, da francesa ou inglesa? E que poetas
portugueses
leu ou lê?
António de Névada. Se
a pergunta é feita abordando o conceito de
nacionalidade,
direi que me relaciono com a poesia portuguesa como uma
poesia
que pertence a uma literatura estrangeira. Não no mesmo plano,
neste
país, tenho, de certa forma, um apreço por esta bela cidade que é
Coimbra,
aqui nasceu o meu primeiro filho, mas ainda assim, sou e sinto-me
estrangeiro
em Portugal.
A
poesia caboverdiana, a literatura do meu país, é uma literatura da língua
portuguesa.
E àquilo que digo numa resposta anterior, direi mais: a minha
pátria
é, também, a língua portuguesa.
É
justamente por aí que eu começo, por onde iniciei a descoberta da poesia
portuguesa:
devorei nos primeiros anos da minha adolescência toda a obra
poética
de Pessoa. Visitei com deslumbramento o universo dramático de Antero
de
Quental e a poética de Camões. Tenho lido uma boa parte dos poetas
portugueses
deste e do passado século, e sou um leitor assíduo de Jorge de
Sena, Mário de Sá-Carneiro, Al
Berto. E Herberto Helder e Nuno Júdice têm-me
marcado
profundamente.
Situação Linguística
Estas duas línguas moldam,
embora de maneira diferente, toda a história e toda a visão do povo
cabo-verdiano. Deve-se notar que a Lp passou a existir
A história secular dessas
duas línguas
Não obstante, o estatuto
linguístico das duas línguas continua sendo muito diferente. Com efeito,
enquanto a Lp é língua oficial e do ensino, da literatura, dos mídia e das
situações formais de comunicação, o Ccv é língua de comunicação na família,
língua das tradições orais, principal suporte musical, numa palavra, língua da
oralidade e das situações informais de comunicação.
Esta situação fez com que a
Lp fosse sempre considerada como língua de prestígio e o Ccv como língua de
amizade e do coração. Tratando-se de situações informais de comunicação, o Ccv,
sobretudo junto da elite letrada, teve quase sempre um estatuto de menoridade,
chegando mesmo o seu uso a ser considerado desprestigiante. E isto,
particularmente devido à falta de um alfabeto e de uma escrita estandardizados,
à inexistência, durante muito tempo, de uma gramática escrita e à sua ausência
tanto na administração como no sistema formal de ensino.
A situação de diglossia, no
sentido atribuído por Ch. Ferguson (3), era o que melhor se adaptava e se
adapta ainda ao contexto linguístico do País.
Para além da diglossia, há
também o problema da dialectologia. Cabo Verde é um arquipélago de dez ilhas,
sendo nove habitadas. O povoamento
deu-se em épocas diferentes, as primeiras ilhas no século XV e as últimas no
final do século XVIII. A distância entre as ilhas é pequena (entre 10 e 45
minutos nos pequenos aviões), mas durante muito tempo a comunicação era escassa
e a mobilidade social era quase nula. Daí que a situação geográfica e social
favorecia a formação de variedades dialectais e sociolectais.
Até a manhã da Independência
Nacional, ocorrida em Julho de
2 . Contradições do xadrez
sociolinguístico
A relação entre a Lp e o Ccv,
não sendo totalmente harmoniosa, foi no entanto pacífica, do século XV ao
século XIX, altura em que o sistema do ensino formal, ministrado exclusivamente
em português, conferiu, por um lado, um grande prestígio à língua portuguesa e,
por outro lado, passou não só a marginalizar, como também a menosprezar a
língua crioula.
Notícias históricas dizem que
antes do século XIX a importância do Ccv era tal que um escritor anónimo, em
1784, chegou a afirmar que dos brancos estantes em Santiago “raros (são)
os que sabem falar a língua portuguesa com perfeição, e só vão seguindo o
estilo de falar da terra, que é uma corruptela tão rústica que não se pode
escrever” (4). Nessa altura, alguns puristas e cultores do português
escreviam para o rei de Portugal alertando-o pelo facto de um grande número de
portugueses se terem já acostumado ao “estilo da terra” e, por
isso, pouco a pouco, vão deixando de lado a prática da língua portuguesa.
Não há dúvida de que a larga
prática e preferência não só dos negros e mestiços, mas também dos próprios brancos
em relação ao “estilo da terra”, entenda-se Ccv, era grande e tudo
indicava que um futuro promissor estava reservado ao Ccv. Porém, por mais
estranho que possa parecer, o alargamento do ensino formal no século XIX e a
criação do Seminário-Liceu de S.Nicolau, na segunda metade deste mesmo século
(1867) constituíram, por um lado, os principais entraves ao desenvolvimento do
Ccv e, por outro lado, criaram as condições estruturais e institucionais para a
afirmação e o desenvolvimento da Lp. A partir de então, o desenvolvimento das
duas línguas passou a processar-se num contexto de contradições e de competição
desigual, no âmbito político, cultural e linguístico.
2.1. Contradições do foro
político
Já vimos que, até ao século
XIX, o desenvolvimento tanto da Lp como do Ccv se processaram de forma quase
que espontânea, sem nenhum projecto programático explícito.
Com o alargamento do sistema
de ensino formal, os que determinavam os destinos da sociedade cabo-verdiana
deram-se conta de que a dominação, para ser completa e eficaz, para além da
vertente política e económica, tinha que ser também cultural. Nesta base, o
desenvolvimento do Ccv seria, na interpretação do discurso colonial de então,
um atentado à ideia unitária do Império português. Aliás, num Congresso de
Antropologia Colonial (1934), um dos congressistas, referindo-se à situação
linguística preocupante da então Colónia, diz que até os filhos de Portugal
“animam este uso aprendendo o crioulo logo que chegam da Europa, usando-o
no trato doméstico e educando os seus filhos a falarem quase com a exclusão do
português”. Continuando, o mesmo congressista afirma: “o crioulo
[...] não favorece a ideia unitária do Império” (5). Nesta base, urgia,
de um lado, declarar guerra ao crioulo e, de outro lado, criar as condições
estruturais e institucionais que favorecessem a afirmação da língua portuguesa.
Assim sendo, o uso do Ccv
passou a ser proibido na administração e nos estabelecimentos de ensino, tendo
por legitimação um conjunto de anátemas proferidas a seu respeito, podendo
estas ser resumidas no seguinte:
“ridículo crioulo,
idioma o mais perverso, corrupto e imperfeito; gíria ridícula, composto
monstruoso de antigo português e das línguas da Guiné que aquele povo tanto
preza e os mesmos brancos se comprazem a imitar; miscelânea de português
antigo, de castelhano e francês, sem regras algumas de gramática; língua... que
carece de três letras –scilicet, não se acha nela F, nem L, nem R, coisa
digna de espanto porque assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei e, desta maneira
vivem sem justiça e desordenadamente” (6).
Do lado da Lp, por seu turno,
foi reforçado o ensino, particularmente junto da elite intelectual e foram
criadas mais instituições, tanto do ensino primário como do secundário, na
então Colónia de Cabo Verde, e atribuíram-se bolsas de estudos, como prémio,
aos filhos da classe intelectual privilegiada, para estudos na então Metrópole.
A política linguística de
então visava fundamentalmente promover a Lp e marginalizar o Ccv. No
pós-Independência (a partir de 1975), a situação melhorou relativamente à
política de afirmação e valorização do Ccv, sem no entanto ter podido colocá-lo
no seu devido lugar. Com efeito, à vontade política, claramente expressa nos
diversos Programas de governação faltava o suporte económico e técnico capaz de
tirar o Ccv do subdesenvolvimento em que se encontrava. Nesta base, a Lp que
possuía já os principais instrumentos linguísticos e estruturais para a sua
afirmação e desenvolvimento – como escrita estandardizada, dicionários,
gramática, material didáctico, suporte literário, professores formados,
estabelecimento de ensino -, foi assumida, livremente, como língua oficial. O
Ccv, por sua vez, sendo uma língua largamente oral, sem alfabeto nem escrita
estandardizados, sem gramática escrita nem dicionários, sem professores
formados nem instituições minimamente capazes de assegurar o seu ensino, foi
declarado apenas como língua nacional.
2.2 - Contradições do foro
cultural
Elas decorrem da própria
situação histórica em que se processou o desenvolvimento das duas línguas. O
discurso colonial convenceu a elite letrada e a classe economicamente
favorecida de que a Lp era sinónimo de saber, de educação e de prestígio. As
próprias massas populares, ao constatarem que a Lp era a língua dos espaços
importantes de comunicação, como a administração pública, os tribunais, a
religião, os mídia, convenceram-se, elas também, de que a Lp era a língua de
cultura e o Ccv apenas a sua língua de casa e de família.
Mesmo no pós-Independência, a
atitude da maioria dos cabo-verdianos, frente às duas línguas, na prática, era
e é muito parecida: uma simboliza o prestígio e o saber e a outra representa a
marca identitária e o suporte principal das tradições culturais. Assim, os
políticos, escritores, jornalistas, funcionários públicos optaram pelo uso da
Lp em todas as situações formais de comunicação. Porém, para as situações
informais de comunicação, toda a gente, do campo à cidade, utiliza, geralmente,
o Ccv. Não obstante, as massas populares, os artistas musicais, em geral, os
tradicionalistas, a elite intelectual, bem como ainda todos os que fazem parte
da civilização da oralidade – e que são a maioria do povo cabo-verdiano
-, utilizam, no seu dia-a-dia, o Ccv. Tendo constatado tudo isto, o grande
escritor brasileiro Jorge Amado declarou em 1986 que
que não deixa de ser
significativo é que os próprios políticos, jornalistas e activistas sociais, em
“situações limites” onde é urgente que a comunicação passe no próprio
momento da elocução e com a carga semântica desejada, por mais literatas ou
elitistas que sejam, passam a utilizar o Ccv. Isto acontece, por exemplo, em
campanhas eleitorais ou em situações de catástrofe, por ocasião de erupções
vulcânicas, ou ainda durante o período de uma determinada epidemia. Muitas
vezes ainda, em “spots” televisivos de grande interesse social,
económico ou político, o texto aparece na televisão em português, mas a voz-off
é ouvida em crioulo.
Por tudo isto, a língua de comunicação
Resumindo esta situação,
alguém chegou a dizer que
2.3. - Contradições do foro
linguístico
Se o discurso colonial caracterizou
o Ccv, primeiro como deturpação do português e como algaraviada sem regras nem
gramática e depois como simples dialecto da Lp, no pós-Independência o Ccv,
apesar ter ascendido ao estatuto de língua nacional, continua a enfrentar
gravíssimos problemas de desenvolvimento.
número dos que utilizavam o
próprio Ccv para dizer que ele não tinha gramática diminuiu; porém,
inventaram-se outros argumentos para atrasar o seu processo evolutivo.
Alguns escritores de renome
diziam que não precisavam e não precisam do Ccv para escrever os seus livros. O
que não deixa de ser curioso é que um ou outro desses mesmos escritores dizia
que para a literatura: só o português, mas para falar com a filha: só o
crioulo. Outros defensores do português passaram a argumentar que, sendo o Ccv
a língua forte, em termos de comunicação informal, o seu desenvolvimento
representaria, não um atentado à unidade do Império, como se dizia na época
colonial, mas um atentado à língua portuguesa que só uma minoria da população
dominava. Ora, se o povo já sabe o crioulo, então é preciso investir no
português que ele não sabe ou não domina.
Alguns políticos e
intelectuais ainda achavam que sendo Cabo Verde um país pobre e em vias de
desenvolvimento, não seria o crioulo a ser utilizado quando se deseja pedir
milho ou arroz ao estrangeiro. Para eles, seria mais inteligente e mais
económico fazer-se o investimento no português que, para além de ser
“língua de civilização”, possui a vantagem de dispor de
instrumentos pedagógicos como: a escrita estandardizada, a gramática, os
manuais, os professores e o suporte literário.
Um outro argumento ainda em
desabono do Ccv tem sido a questão dialectal. O povoamento das ilhas em épocas
diferentes e a situação geográfica (arquipélago de dez ilhas, sendo nove
habitadas) , a pouca mobilidade social, particularmente no período colonial,
forjaram variedades linguísticas em cada ilha. Se todas as ilhas são apegadas à
respectiva expressão local, qual poderá ser a variedade ou a variante a ser
implementada como língua do ensino? Para eles, também, a melhor solução seria
ainda o português.
Um outro argumento contra o
desenvolvimento do Ccv dizia que só os que não sabem a língua portuguesa, só os
que não conhecem as vantagens sociais, económicas e culturais dessa grande
língua de civilização é que propugnam pelo desenvolvimento do Ccv.
Finalmente, o argumento que
se julga mais “moderno” diz que, se a língua da
“globalização” é o inglês, torna-se, então, inútil o investimento
no Ccv.
Todos estes argumentos
desencontrados dão razão aos autores de Éloge de
“Notre Histoire [...]
naufragée dans l’Histoire coloniale [...] n’est pas totalement
accessible aux historiens. Leur méthodologie ne leur donne accès qu’à
Diríamos que, para os autores
de l’Éloge de
2.4. Em Defesa do Ccv
São as próprias contradições
do meio sociolinguístico que forneciam e fornecem argumentos aos defensores do
Ccv, aos que detêm a visão artística e antropológica da humanidade. Com efeito:
•O bilinguismo,
É convencidos do valor
patrimonial tanto da Lp como do Ccv que muitas vozes se levantaram em defesa de
ambas as línguas, particularmente do Ccv que tem sido objecto de desprezo e de
marginalização. Assim, vários patriotas têm defendido a causa do crioulo umas
vezes de forma polémica; frequentemente com trabalhos de cunho literário ou
musical; algumas vezes com seminários, colóquios, estudos ou reflexões; outras
vezes com experiência piloto de ensino.
A conclusão que se pode tirar
é que tanto a Lp como sobretudo o Ccv têm direito de cidadania
É dos contornos dessa
política de valorização das duas línguas que mais abaixo trataremos.
- Perspectivas para a
construção de um verdadeiro bilinguismo
Pela importância do crioulo,
como suporte identitário e instrumento insubstituível para a integração no todo
nacional; pela importância do português como suporte de uma parte da visão do
mundo que temos e como instrumento eficaz quer para o diálogo inter-cultural,
quer para a integração de Cabo Verde na comunidade internacional, a situação
linguística que melhor servirá ao país será aquela onde o bilinguismo é um dado
real e não uma simples miragem. Por isso, a política linguística, sem descurar
o ensino de línguas importantes para o concerto das nações, como é o caso do
inglês e do francês, deve apostar seriamente na transformação do português, que
já é língua oficial, em língua veicular e na transformação progressiva do
crioulo em língua co-oficial. Estas duas transformações devem constituir os
dois objectivos fundamentais da política linguística. Não se trata de
transformar o português em língua materna nem do crioulo em língua
internacional. Se isto, porventura, um dia acontecer, Cabo Verde só teria a
ganhar. Por enquanto, o que se pretende é fazer com que o português seja
aprendido com rigor, por todas as crianças na idade escolar e por todos os
estudantes durante a fase académica. O que se pretende é que a sociedade
cabo-verdiana, se não na totalidade, pelo menos de uma forma expressiva e
representativa possa estar preparada para codificar e descodificar a língua
portuguesa, nos diversos domínios do seu emprego, nas diversas funções que
exerce. Para lá chegarmos, não há outro caminho senão a democratização efectiva
da educação e a aposta consequente num ensino de qualidade.
Quanto à transformação
gradual do crioulo em língua co-oficial, o que se pretende não é simplesmente a
adopção de um decreto ou a publicação de uma lei. A co-oficialização do crioulo
significa fazer com que ele esteja presente no ensino (como matéria e como
instrumento), na administração, nos diplomas legais, nas sessões parlamentares,
nas comunicações ao País dos Órgãos de soberania, nos mass-média, na
literatura, enfim, em todas as situações formais de comunicação, dentro do País
como na diáspora.
Os custos tanto do português
veicular” como do “crioulo oficial” são avultados. Alguns,
talvez mesmo muitos bons cabo-verdianos, preferirão perpetuar a situação actual
, isto é deixar o português para a comunicação formal e o crioulo para a
comunicação informal. Para estes, Albert Memmi responderia:
“se résigner à écrire dans une autre langue que celle
de la majorité de la nation, c’est perpétuer le fossé entre lui et la
rue, entre le menu peuple et les privilégiés de l’argent ou de la culture.
Les conséquences n’en sont pas seulement d’ordre moral: la mise à
l’écart culturelle de la majorité d’un peuple a, très probablement,
des résultats socialement et économiquement néfastes ... (et le dilemme
persiste): on choisit une langue européenne pour éviter des dommages immédiats
et pour aller vite; mais ce choix entraîne de nouveaux dommages, qui ne peuvent
être réparés que par le temps”.
Não nos contentemos em, de um
lado, evitar pequenos problemas imediatos e, de outro lado e a longo prazo,
preparar o fosso da desgraça. A construção do bilinguismo terá os seus custos,
mas vale a pena um tal investimento. Vale a pena porque o que está em causa é a
nossa dignidade nacional e a nossa integração internacional; vale a pena porque
é o próprio desenvolvimento integrado que o reclama, que o exige.
Nada de pânico. Não se vai
construir o bilinguismo em detrimento de outras exigências fundamentais como o
pão, a saúde e a habitação. O bilinguismo é para servir o homem e não
vice-versa. Por isso, a sua construção será progressiva e de acordo com as
possibilidades do país real que temos. A operação deverá ser realista,
progressiva e pragmática.
A construção do bilinguismo
não pode processar-se no escuro, no caos ou no vazio. Torna-se indispensável a
formulação de princípios, a definição da metodologia, a criação de estruturas,
a fixação de metas, o estabelecimento das etapas.
É sobejamente sabido que o
ser, o estar e o devir cabo-verdianos possuem, fundamentalmente, duas
gramáticas, dois códigos, dois sistemas linguísticos. Em nome do realismo, mas
também da autenticidade, não podemos nem negar, nem subestimar a nossa
história, a nossa antropologia diglóticas. Em nome desse mesmo realismo
aceitamos, transformamos e valorizamos o mundo que criamos ou que perfilhamos,
de acordo com o nosso ritmo, a nossa visão, as nossas possibilidades e
potencialidades.
Este sentido do real
conduz-nos ao desenvolvimento e ao exercício da filosofia pragmática. Esta
exige que a nossa acção parta do real, no momento oportuno, com um calendário
bem determinado, com a selecção adequada dos “inputs” e garantia
antecipada do “output” desejado ou programado.
Sendo notório que a
antropologia das ilhas fala sobretudo o crioulo e escreve fundamentalmente o
português, tudo indica que a busca de complementaridade entre os dois sistemas
linguísticos deixa de ser uma conveniência para se transformar numa exigência.
Nem substituição, nem sobreposição, nem competição. Apenas complementaridade.
Uma complementaridade onde se ouve a voz do transnacional e se sente o pulsar
do nacional, num concerto harmonioso, integrador e respeitador.
- Conclusão
Qualquer medida de política
linguística tem que estar enquadrada dentro de uma determinada visão. Ora, no dealbar
de um novo milénio, a visão que se pretende para o nosso desenvolvimento é a de
um Cabo Verde virado para a participação de todos os seus filhos ; um Cabo
Verde onde o progresso não é concebido apenas em termos económicos, mas numa
perspectiva de qualidade de vida, de justiça, de equidade e de respeito pelos
direitos da pessoa humana, sejam eles linguísticos ou cívicos ; um Cabo
Verde que reconhece o pluralismo cultural e o aceita como modo de vida normal e
como fonte de riqueza, de desenvolvimento e de bem-estar ; um Cabo Verde
capaz de produzir ciência e técnica tanto em crioulo como em português ;
um Cabo Verde onde haja um contexto favorável ao desenvolvimento integrado, à
preservação da identidade, ao exercício da cidadania e ao diálogo intercultural.
Toda esta visão deve ter como pano de fundo o bilinguismo crioulo-português,
mas sem exclusividade, já que hoje o inglês e o francês , quer se queira ou
não, são instrumentos importantes para o concerto das nações. A aposta de Cabo
Verde deve ser no crioulo como língua nacional e co-oficial, no português como
língua co-ficial e veicular, no inglês e francês como línguas internacionais,
para as relações interculturais, a nível planetário.
Se o discurso colonial
prejudicou o Ccv para que a Lp saísse engrandecido, hoje o discurso do
humanismo e da arte libertadora exige que cada coisa seja colocada no devido
lugar para que o exercício da cidadania seja uma vivência e não uma miragem. E
porque hoje é moda falar-se da globalização ; e porque
“Quanto mais noção
temos da globalidade, mais ficamos conscientes das identidades locais, e mais
as protegemos : é esse o paradoxo da aldeia global. O hiperlocal é
complemento inevitável do hiperglobal”.
Notas:
Manuel VEIGA, Le créole du
Cap-Vert : étude grammaticale descriptive et contrastive, thèse de
doctorat du 3ème cycle, Université d’Aix-en-Provence, octobre 1998, pp.
7-26.
António CARREIRA, O crioulo
de Cabo Verde – surto e expansão, Gráfica EUROPAM, Lisboa, 1982, pp.
62-63.
Charles FERGUSON, Diglossia,
Word, 1959, vol. 15, pp. 325-340.
António CARREIRA, Notícia
Corográfica e Chronológica do Bispado de Cabo Verde, ICL, Lisboa, 1985, p.27.
Manuel FERREIRA, A Aventura
Crioula, 2ª Edição, Plátano Editora, Lisboa, 1973, pp. 127-133.
Idem 2, Ibidem, pp. 62-63
J. Bernabé, P. Chamoiseau,
R.Confiant, Éloge de
Derrick de Kerckhove, A Pele
da Cultura, Relógio d’Água, Lisboa, 1997, p.243. Título original: The
Skin of Culture.
Lisboa, Abril de 1999
Uma das caracterizações deste romance é feita pelo poeta e
ensaísta José Luís Hopffer Almada quando afirma (1):
“[...] Manuel Veiga publica na segunda metade dos anos
80, Odju d’Agu, o primeiro romance em língua cabo-verdiana. Romance de
iniciação aos meandros da nossa língua no que ela contém de riqueza metafórica
e analógica, consubstanciada em ditos, provérbios, adivinhas, reelaboração de
estórias, crenças e costumes tradicionais. Odju d’Agu é, à semelhança do moderno romance africano, uma feliz
recriação da oralidade, e da espiritualidade a ela subjacente, pelas técnicas
do romance moderno.
[...] No que respeita ao seu
conteúdo, Odju d’Agu é assim a história da viagem iniciática das
personagens [...] pelo mundo das suas origens enquanto país, e enquanto país
africano. [...] o romance Odju d’Agu constitui assim como que uma
reformulação de todos os pressupostos estético-ideológicos da claridosidade,
pela sua negação, por um lado, particularmente do lusotropicalismo, e pela sua
complementação, por outro lado, pela inserção de toda a problemática social do
morgadio, do racismo, da africanidade, de uma certa negritude crioula e de toda
a idiossincrasia santiaguense na saga literária caboverdiana. E é neste
aspecto, a par do facto de ter sido integralmente escrito em Crioulo, que
reside a inquestionável importância de Odju d’Agu. Não é pois descabida a
aserção do professor Gerald Moser, segundo a qual Odju d’Agu é
comparável, em certos aspectos, a Piligrim’s Progress ou a Roots”.
Vejamos um extracto do livro
- na versão do ALUPEC, alfabeto unificado, recentemente aprovado, a título
experimental -, que tipifica e encerra a obra, através das palavras do narrador
principal, o já velho “kontador di stória”, Palu di Djódja (um
autêntico griot africano), que, dirigindo-se ao público jovem que o escutava,
como que numa passagem de testemunho, disse (2):
“Es stória ki nhos obi
é sima un livru ki N skrebe y ki N dexa pa nhos lé. Ku txeu pasaji, na poku
létra, el é un padás di nha povu y di mi própi, midjór óbra ki N skrebe y ki,
nin pa mi, ka da pa persebe mutu dretu. Azagua riba di azagua, noti riba-l
noti, N ba ta skrebe ku létra di sangi y ku pónta di nha kurason txeu stória di
nha vida y di nha povu.Na mê di gritus di mudjeris prenha, di kriansas
bandofadu y di soldadus maltratadu, nha kurason fridu ba ta pinga, góta pa
góta, es bokadu di stória ki, na sinku azagua, sén bês kontadu, forma,
finalmenti, un sinfonia dizafinadu, pamodi rítimu bira diferenti, instrumentu
muda di kórda, létra perde sentidu. Y, sô ku konta otu kusa y na otu konpasu,
éra ramedi. Mas, mi nha pérna dja bira fraku, nha vós dja bira roku y,
alendumás, nha sol dja sa ta ba ta kanba”.
Notas:
Ver “A Ficção
Cabo-verdiana pós-Independência”, in Cabo Verde – Insularidade e
Literatura, Khartala, Paris, 1998, pp. 180-181.
Ver Odju d’Agu, ICL,
Praia, 1987.
UMA LEITURA DE DIÁRIO DAS
ILHAS DE MANUEL VEIGA
Eutrópio Lima da Cruz
INTRODUÇÃO
Nas condições ainda precárias
e difíceis em que se desenvolve
Ora, salvos os planos da
comparação e mutatis mutandis, estou querendo visualizar - e convidaria esta
ilustre plateia a fazê-lo comigo - a felicidade do Manuel Veiga por esta sua 5a
obra dada à estampa. O escritor é aquele que escreve, passe o pleonasmo.
Escreve e tira da gaveta, publicando e disponibilizando para os outros o seu
engenho e arte. A actividade exponentiza-se quando ele traz agregada a
consciência da missão. Missão de serviço, ligando a consciência em paralelo com
tantos artistas que assim procederam nos mais variados domínios de criatividade
e expressão, apetecendo-me evocar por exemplo o genial Beethoven para quem a
colocação de cada semifusa numa partitura adquiria tal significado nos fins do
século XVIII e início do séc. XIX, em certa contraposição com escassos períodos
antecedentes em que a produção artística consistia e quase que se resumia a uma
espécie de arte pro arte, arte pela arte. Essa consciência é tão veementemente
apreendida e vivida por outros génios que se seguiram quase contemporaneamente
àquele vulto, reconhecendo-se na obra dele, tão veemente, dizia, que Richard
Wagner por exemplo não se contém e rasga a hipérbole de que Deus criou o mundo
para que Beethoven compusesse a 9a Sinfonia, a tal da Fraternidade Universal.
Couberam-me a honra e o
prazer, por amável convite do Autor, de proceder à apresentação pública do
DIÁRIO DAS ILHAS, de Manuel Veiga, convite a que acedi imediatamente primeiro
porque se me tornava impossível declinar Manuel Veiga, segundo por ter tido a
instantânea percepção de que também sou viajante na nau de todos os tempos, com
obrigação por conseguinte de algo fazer, na modéstia do possível, para o
sucesso da viagem. Por isto, vamos de imediato ao que interessa, aqui e agora.
DIÁRIO DAS ILHAS - “
Antes de mais, entremos na Nau para a viagem a que o poeta nos convida ou
melhor, nos apresenta: ...” . Assim com estas palavras acabadas de citar,
começa o Autor no 1o dia ao estabelecer os umbrais, o pórtico de entrada para o
desenrolar de uma viagem que vai durar séculos, uma viagem de séculos, tecida
por um único ideário global, o ideário da nossa história com a força da sua
lembrança.
Já na 2a linha da obra, o
Autor faz saber que vamos entrar na Nau e viajar a convite do poeta que assim
se exprime, em excertos citados:
“ Era antigamente/ a
primeira nau de escravos/ no rumo do Arquipélago/ rápida
navegando/ sob o impulso dos alísios...” .
A viagem vai-se desenrolar
por um período simbólico de 50 dias, a cada dia correspondendo um diário de
bordo, um relato. O relator é o Jorge, assim familiar e coloquialmente tratado,
o poeta Jorge Barbosa, cuja entrada em cena equivale ao eclipse do
Autor-introdutor, ainda que por vezes se possa ser tentado a reencontrá-los um
sobreposto ao outro.
Desculpar-me-ão e
compreenderão que, antes de tecer qualquer outros comentários, situe o fio
condutor do trabalho de Manuel Veiga, o que apenas ser-me-á possível fazer se
respigar esse fio condutor e a sua ossatura, com recurso ao próprio Autor. Ou
mais propriamente, ao relator, o poeta.
“ Cabo Verde começou com
uma nau [diz ele], não uma nau qualquer” . Era uma nau negreira, de
escravos, mas também de capitães-mores. Uma nau sem identidade porque a sua
história estava ainda no início, nos pórticos de entrada, já que Cabo Verde
ainda não era, estava para ser. Essa nau inicia uma viagem que nós agora
voltamos a fazer porém retrospectivamente, uma vez que se trata de uma viagem
que já é história. “ Era antigamente...” .
A nau dirige-se ao Arquipélago. Navega rapidamente, tem
pressa, vai investida de uma missão. E “ nessa hora então/ nessa hora
inicial começou a cumprir-se/ este destino ainda de todos nós” .
Interessava era a chegada, frisa o Autor. A chegada era condição preliminar
para que tivesse tido razão de ser e sentido o viajar “ sob o impulso dos
alísios” ou seja, viajar movido pela “ vã glória de mandar” ,
como diria Camões ou ainda para implantar a Fé e o Império, como diz ainda o
mesmo poeta. Esses desígnios encontram-se visualmente estampados e
materializam-se na própria modelação e compleição física da nau com - e cita-se
- “ algo de grandeza nos mastros altos/ com vergas em cruzes” .
Mais, Jorge Barbosa retrata poeticamente a nau como “ insubmersível/ e
inquebrável/ a nau sustinha no balanço / o peso dos tufões e das ondas” ,
ela que vinha de velas enfunadas ao sopro salgado das brisas, velas essas que
mantinham o contorno do peito dos pombos, na expressão sempre do poeta. Estes
constituem apenas alguns excertos do poema Relato da Nau, onde Jorge Barbosa,
em cada palavra, em cada verso e numa alegoria, encadeia a história de
sofrimento mas também de resistência. O
poema é mais extenso e contundente, quando refere terríveis tempestades
experimentadas pela nau e que provocam baixas no carregamento escravo de que
ela é portadora. Todavia, ela não soçobra. Antes, é reparada para novas
viagens. Assim como também os escravos não morrem todos, restando vivos ainda
em número suficiente para testemunhar a sua própria história e prosseguir a
saga a que foram votados, saga essa que apontava para um horizonte e um amanhã
de liberdade e dignidade. Aliás, tornam-se constantes na obra duas coisas:
primeiro, cada situação crítica contracena com o seu reverso cujas notas mais
salientes são constituídas exactamente pelas repercussões, da liberdade e da
dignidade; segundo, é mais do que um artifício literário que o relato de cada
dia da viagem no processo histórico desse destino ainda de todos nós, faça a
deixa para o dia seguinte. Essa deixa repete-se à guisa de um refrão no último
parágrafo de 49 dos 50 dias relatados em diários, incutindo esperança.
A trama encontra-se ainda apenas no início, dando já todavia
o relato do 1o dia de viagem, notícia dos elementos que vão ser constantes,
isto é: a escravatura, a arrogância e a petulância, a Fé e o Império pela Cruz
e pela Espada, o sofrimento e a resistência, a emergência de nova realidade
social, cultural e política a coroar a luta de séculos.
Estes arquétipos são todos reconhecíveis
a olho nu no Relato da Nau, poema fundamental para que se entre no âmago da
viagem e dos relatos de bordo diários que a viagem inspirou.
Os elementos opressores deste
processo são violentamente escalpelizados num circuito anímico em que o poeta-relator
e o relator que por vezes se lhe sobrepõe e dá notícias da sua actividade,
fazem ambos efectivamente massa e corpo com o périplo, anunciando-se como vozes
conscientes da caminhada. É que tais elementos implicaram sobremaneira,
interferências e desvirtuamentos, muito difíceis de remediar, sanar e
ultrapassar, com destinos de criaturas humanas de Kukuli, heterónimo de África,
mais do que simpático, constituindo uma forma plástica de exprimir a
necessidade ínsita de originalidade, autonomia e referenciação.
discurso prossegue com a
viagem da nau peregrina. O diário de bordo engorda com novos factos e novas
referências que vão urdindo a trama onde, num rasteio em diagonal, podemos
identificar pontos e teses de convergência, dos quais se isolam alguns,
enunciando-se ainda que em tópicos, quais sejam:
•a entrada do escriba
Jorge Barbosa no arsenal arquivístico e secular da nossa história, arrumando
códice após códice, não obstante a perda de alguns elementos mas restando ainda
o suficiente para os seus intentos e propósitos. Os versos constituíram o
trabalho do 1o dia do diário de bordo da nau, prosseguindo em prosa o seu
diário por assunção cultural, de direito próprio, com consciência de missão
explicitamente confessa, tudo isto contrastando com o desempenho forasteiro dos
que “ descobrem” as ilhas que ele passa a tratar como baías;
•o escriba-vate contempla o mar e saca dele vivências múltiplas e
multifacetadas, entre as quais a partida das naus, da primeira e de outras que
se seguiram, para o negro Continente, o Kukuli, estabelecendo-se o Norte e o
Sul da nossa história, servindo as baías de placa giratória na encruzilhada do
Atlântico; •o encontro do Jorge Barbosa com Nho Nacho, o Ali-Ben-Ténpu,
ambos passando em revista teses fundamentais da vida das ilhas, das baías,
conquanto que nem sempre coincidindo no enfoque das problemáticas e nas saídas
preconizadas para a solução das mesmas; •o florescimento económico da
Ribeira, à custa da destruição da base social e cultural de Kukuli, cuja mesologia
simbolizada no portentoso baobá, viu-se ameaçada mas nem por isso soçobrando.
Outra mesologia nasceria, a que Jorge Barbosa chamaria “ conflito numa
alma só/ de duas almas contrárias/ buscando-se, amalgamando-se/ numa secular
fusão” entre “ o clima tropical e o espelho de Portugal” .
Esta consciência aflorada
Nesse périplo e nos registos,
emerge que o escriba-vate decide cantar. E sobretudo amar nossa nudez, a dos
montes, o nosso “ environnement” , “ nos contorcionismos
extáticos de séculos” . Aceita o realismo umas vezes com amor, outras
vezes com dor mas jamais com ódio;
•o escriba-vate assiste
à organização da jurisdição temporal das baías e da responsabilidade espiritual
das mesmas, no desempenho compaginado da Cruz e da Espada; •a primeira
viagem a Kukuli, primeiro elo de uma cadeia trágica, a escravatura; a chegada insucedida
ao porto que o Autor chama “ da Desgraça” com ancoragem de estranha
nau em noite aziaga e por isso portadora de insónias; o desembarque no porto
chamado “ dos Caçadores” e a primeira caçada de negros, em
cumprimento de um plano hediondo. É uma sexta-feira, dia de semana que se torna
aziago. Numa sexta-feira, a da Paixão, a nau alcança Kukuli; numa sexta-feira,
a nau regressa à Ribeira com a missão cumprida. Dali para frente nem Kukuli nem
a Ribeira seriam como dantes. É a Hora Zero. Se o poeta se deprime e as
palavras lhe movem greve, ele acha consolo no Afro Pedro Cardoso, com a sua
“ Ode à África” ; •há frustrações e interrogações nos
kukulenses trazidos como mercadorias e escambo e parece que os espíritos dos
antepassados e a resistência do baobá terão soçobrado. Confronto vai dar lugar
a reencontro; no chão da Ribeira vai nascer algo de diferente, árvore enraizada
“ no chão arsinário dessas baías centenárias...” ; •os
kukulenses têm como única liberdade o sonho que tempo vai urdindo. Acusando o
toque do desenraizamento, uma tragédia na verdadeira e plena acepção do termo,
não se sentem todavia totalmente estranhos na Ribeira, têm alguma condição para
lutar e criar aquilo que o autor chama “ uma nova mesologia” ;
•a luta vai ser renhida, entre um Norte, impulsionador dos alísios da
dominação e da força da ambição, e um Sul vencido mas não convencido porque
escudado na razão e na Moral da Tradição; •a proveta do tempo trabalha
incessantemente e o caldeamento laboratorial da Ribeira se transforma numa
marcha cada vez mais irreversível; •assiste-se, após a Hora Zero, ao
nascimento de um outro mundo onde o cadinho do tempo vai reelaborando nova
filosofia, novos sistemas, códigos, símbolos, universos de valores,
interpretação do real, codificação e descodificação de mensagens, etc. O futuro
vai ser um parto difícil mas real, de uma mãe negra e de um pai branco, na
expressão do escriba-relator do diário de bordo; •há uma intercomunicação
nascente onde o branco se obriga à humilhação de ter de se aproximar do universo
semiológico do negro. Começa o Pidgin, limitado mas com gérmens para com o
tempo ganhar estatuto, crioulizar-se e desenvolver-se; •pela ladinização
vem a miscigenação religiosa e a afirmação dos aqui chamados “ Caminhos
da Transcendência” , com também nova mesologia religiosa; •o
desmoronamento precoce do efémero fausto da Ribeira; •o baobá,
confrontado com a seiva do pinheiro, transforma-se numa nova planta resistente
e sábia, o tamarindeiro; •o contágio da nova realidade ultrapassa a
Ribeira, espalha-se pelas ribeiras desta ilha de Santiago - a Baía do Milho - e
alastra-se a todas as outras nove baías, sujeitos do fenómeno em
comparticipação, baías “ com mastros e velas, com têmperas do
tamarindeiro e das lavas do vulcão” ; •marinheiros do Norte e lavradores
do Sul, água salgada e terra vermelha, eis a nova convivência ecológica onde a
miscigenação sanguínea comporta também a interpenetração cultural. Há uma nova
“ arquitectura da comunicação” no dizer do Autor, onde a
hierarquização dos elementos não significa a subalternização das partes mas
antes destaca o engenho, o labor e a arte da parte politicamente deprimida, de
cujo lado está a razão; •corporiza-se a morfologia do ritmo e a sintaxe
do som, com expressão máxima na língua; •o ordenamento jurídico nos
sistemas de administração da Justiça e o papel do pelourinho, eis demais
elementos; •emerge aquilo a que o Autor chama “ civilização
baiana” , entenda-se cabo-verdiana, uma nova história igual a si própria;
•o tamarindeiro galga, infesta cutelos, achadas e ribeiras da Baía; os
baianos edificam o seu próprio eco-sistema; é a nova largada; •mas os
alísios não se conformam nem desistem, antes recrudescem com hegemonia,
etnocentrismo e assimilacionismo, sobretudo depois que os grandes deste mundo ratearam
entre si Kukuli pela Conferência de Berlim; •entra em cena a arma da
consciência, com o aparecimento no palco de um novo sujeito, Abel, o
Libertador, leia-se, Amílcar Cabral, cuja missão consistiu na organização do
seu povo “ para mondar as ervas daninhas” , no dizer do vate e
fazer medrar nova mesologia. Para tanto, com outros colegas de luta, cria o seu
MPC-DB, o Movimento para a Conquista da Dignidade Baiana. A travessia do
deserto da luta vai transformar-se no toque liberto do clarim em manhã triunfante.
A alusão é por demais evidente ao PAIGC e à gesta da Independência Nacional;
•entra em cena o Ali-Ben-Ténpu com o signo da oralidade e faz
concorrência ao relato escrito, trabalho até aqui realizado pelo nosso escriba;
Jorge Barbosa passa a palavra a Nho Nacho, carisma e sabedoria popular, forte
na vertente previsão do futuro que é uma das facetas da capacidade profética;
•os deuses da Acrópole ou seja a potência colonial valem-se de todos
recursos e expedientes inclusivamente da PSA - Polícia de Segurança Alísia -
para tolher o processo baiano. Mas debalde, porquanto a força da razão estava
do nosso lado; •a morte de Abel, assassinado, premissa de aceleração do
processo libertador; •a festa dos cravos pelo 25 de Abril de 1974;
•o nascimento da menina Julinha, a Independência Nacional; é a chuva de
Julho para a esperança de colheita em Outubro, diz o Autor. O ovo resulta da
histórica fecundação tendo como óvulo a Bandeira da Liberdade e como
espermatozóide o Hino da Dignidade; •um dia Ali-Ben-Ténpu continuará
contando a saga destas ilhas; •por fim Manuel Veiga despe as próprias
máscaras ele que habilmente navegara endossando as máscaras poéticas de Jorge
Barbosa numa aliciante viagem a bordo de uma nau chamada “ Cabo
Verde” , com um diário de bordo escrito em 50 capítulos. E a chave de
qualquer enigma se patenteia, sendo o próprio Manuel Veiga a fornecer-nos a
decifração:
- Palu di Djódja do romance
Odju d’Agu, mergulha nas raízes da sua sócio-cultura e fá-lo
na língua cabo-verdiana;
- Jorge Barbosa do Relato da
Nau escreve o seu Diário das Ilhas
- finalmente o Ali-Ben-ténpu,
cuja pronúncia ainda por escrever se encontra, porque
mergulhado no futuro ainda em gestação, dará conta dos
últimos desafios da saga onde a diglossia não deverá ser
entendida como sinónimo de bilinguismo.
Remata Manuel Veiga, trata-se de três narrações, sendo
diferentes na forma. A primeira, obviamente um romance, o primeiro por sinal na
língua cabo-verdiana, o Odju d’Agu; a segunda narração, em forma
romanesca, resultando no Diário das Ilhas; a terceira narração no domínio do
porvir.
A esta altura da viagem, minhas senhoras e meus senhores,
peço imensas desculpas e compreensão por ter de alguma forma dado a palavra
mais ao Autor do que a mim mesmo como apresentador e avançado o trabalho que
pertenceria a cada um dos presentes e a quanto mais vão ler o Diário das Ilhas.
Compreendam-me, porquanto eu próprio tive a necessidade de ler em voz alta
ainda que apenas os enunciados e tópicos, primeiro para me aperceber de que de
facto estive sonhando mas efectivamente viajando na nau do tempo, a nossa nau,
portanto muito para além do mero ónus onírico-fingidor do poeta; segundo,
experimentei também a necessidade de interiorizar que, lendo o ïDiário das
Ilhasï, talqualmente lendo Jorge Barbosa, encontrava-me lendo a mim próprio no
meu próprio signo. E isto em virtude dda
caboverdianidade que as obras se impregnam.
Imploro por conseguinte a
vossa benevolência para uma ou outra consideração em torno do trabalho ora dado
à estampa, sobre aspectos estético-formais e alguns outros.
Antes de mais, no que
concerne ao género literário. Estamos inquestionavelmente no domínio da ficção.
Todavia, cautela. Não se trata de uma ficção pura e simples mas antes, de uma
reelaboração ficcional - permitam-me a expressão assente num realismo
histórico. Manuel Veiga não é historiador nem se vislumbra na obra essa
intenção específica e disciplinar. Ele é antes um escritor, um plumitivo que no
caso vertente, consegue o hibridismo feliz entre história e ficção. Esta, a
ficção, assume-se nas asas da sua liberdade e provoca ousadas laborações e
projecções. A liberdade do manuseio do género literário está patente como um
requisito elementar, um dado adquirido e uma constante. Mas a matriz
contenutística do Diário das Ilhas, por sua vez, não constituindo história
pura, não deixa todavia de ser histórica. Faz antes incursões com amplo
recurso, amplo e magistral recurso ao arsenal da história das baías, leia-se,
das ilhas.
Não será da minha
responsabilidade e lavra a catalogação desta obra romanesca como sendo um
romance histórico, ela cuja pedalada, cujo fôlego, cuja amplitude ultrapassa há
muito e de longe o mero conto. Como catalogar então, e em que faixa, o Diário
das Ilhas? Esta tarefa não nos ocupa aqui e agora em linearidade crítica, pelo
que endossamo-la a quantos irão retratar-se na obra bem como a quantos dela
venham a ocupar-se, isso sim, com a especificidade do crivo técnico-literário.
Interessa-nos tão somente reter que a liberdade do procedimento faz de Manuel
Veiga um explorador literário da existência das ilhas, da nossa existência. E um explorador com arte e mestria. Essa exploração
literária é bem hábil na tecitura da trama e dos
ligames históricos com os rumos, parcelas e Continentes em que a nossa
experiência se deu e se afirmou, continuando o processo
A via adoptada,
inquestionavelmente legítima porque tão livre quanto o sonho mormente o sonho
que venceu pela liberdade, tal via faz de Manuel Veiga
um titular e um credor do direito de ser compreendido. É que, di-lo Milan
KUNDERA citado pelo próprio Manuel Veiga, “ o
romance é um espaço imaginário onde ninguém é possuidor da verdade e onde cada
um tem o direito de ser compreendido” . Continua KUNDERA, “ o romancista não é nem um historiador nem um profeta
: é um explorador de existência” E esta é por sua vez “ o campo das
possibilidades humanas” .
Manuel
Veiga é um artista explorador destes meandros. E a questão agudiza-se quando faz
com este pano de fundo, com a
actividade literária e o seu poder transformador do verbo a tornar exponencial
a História, a nossa História, não deixamos de ficar estarrecidos com a
compreensão que o Autor revela das coisas. Ponhamos de lado por instantes o
poder transfigurador do verbo e fixemo-nos na compreensão da matriz histórica.
Esta revela-se ampla, profunda e colhedora do filão essencial de uma
existência, do fio ou dos fios condutores essenciais do processo histórico
operado nas baías. Se nos reportamos ao relativamente grande baú da nossa
história com António Carreira e quantos mais insignes nos têm dado voz e vez na
compreensão de nós mesmos e da nossa COISA, e se por outro lado tecermos nexo
com o material que Manuel Veiga manuseia, torna-se perceptível e impressionante
como o Autor do Diário das Ilhas, viajando na pátina do tempo, se transforma
num colhedor de essências, leia-se, desse filão essencial, perpassa e rastreia
a nossa História com ardente e lúcida paixão - passe o paradoxo da contradição
num lampejo que varre séculos de dor e de esperança. O rastreio é total e só
impressiona que em tão pequeno espaço se diga tanto e tanta essencialidade da
nossa existência. Mas retomemos o fio que nos ocupava. Ressalvá-lo-emos bem
claro, o Diário das Ilhas não é um manual de história, seu autor e os vates aí
consignados não se configuram historiadores. O rastreio faz-se na estação
antropo-sócio-cultural. E é então que a História ganha dimensão exponencial
para além da mera crónica, se humaniza, se projecta, se transfigura pelo poder
do verbo. Para Manuel Veiga, a prioridade da acentuação vai para a estação de
rastreio, descodificação e transfiguração. E isto, pelo poder do verbo; os
temas essenciais da caboverdianidade, deles enunciámos já alguns ao ensaiarmos
a leitura em diagonal pelo enunciado de tópicos. A leitura do Diário das Ilhas
induzirá facilmente a esses temas. E o leitor, mesmo imperceptivelmente, vai
ter que se deixar arrastar na correnteza da intelecção dos temas. Por outro
lado, a intensidade humana com que as coisas jorram em pressão dá bem a
entender a ânsia parturiente e a unção pessoal do investimento igualmente
pessoal que o Autor aqui faz. Manuel Veiga perdoar-me-á a metáfora da ânsia de
parto;
igualmente impressionante se
torna como Manuel Veiga, na esteira de Jorge Barbosa, manuseia o poder da
semiótica e das máscaras. Um fizera-o através da sua poesia musculada de
simplicidade e de tanta profundidade com amplo recurso á poesia-simulacro com
símbolos, metáforas, alegorias. De tal forma que o diário de bordo do 1o dia da
viagem da nau, sem querer, saiu uma poesia, o "Relato da Nau" que dá
o mote no Pórtico desta obra. Outro, o Manuel Veiga, inunda-nos com uma prosa
poética - existiria ela? - também eivada de recursos imagísticos numa linguagem
naturalmente fluente, eivada de tropismos com símbolos, metáforas, alegorias,
tudo convergindo numa formidável libertação de energias secularmente acumuladas
e sedimentadas. Não parece tratar-se de pura coincidência, mormente quando nos apercebemos
do que significa para Manuel Veiga aquele nosso vate-relator dos diários de
bordo, Jorge Barbosa, figura que ao longo da obra, dissemo-lo já, sobrepõe-se
com o próprio relator que dele fala, isto é Manuel Veiga. Não será que devamos
ler nesta libertação de energias o próprio génio baiano, apesar de
momentaneamente parecerem periclitar de hipnotizados tanto o seu carácter como
a sua têmpera, normalmente bem capazes de se indignarem?
Outra nota digna de registo
ainda que sumária é a condição de Manuel Veiga como linguista, que não será sem
consequências no acto como ele alcandora o surgimento e o desenvolvimento da
língua cabo-verdiana como um dos maiores e mais expressivos indicadores do
nosso processo afirmativo de janelas sempre abertas
Muito pouco mais
acrescentaríamos a quanto já dissemos sobre a consciência de si que o Autor tem
como um servidor que se coloca à disposição e cumpre com a sua arte uma notável
função social. Essa consciência revela-se já também explícita para o vate dos
diários de bordo.
As vivências e referências
colectivas não beneficiam de arte colectiva na sua elaboração ou reelaboração
técnica. O povo escreverá colectivamente a sua epopeia com e como gesta. Mas a
elaboração técnica literária colectiva não lhe é apanágio. Ora, o mecanismo
funciona de outro jeito e num circuito - diria - inverso, isto é:
colectivamente o povo lê, relê, reconhece-se, retrata-se, acha-se identificado
ou não com o trabalho sobre produzido. Mas ele próprio não é nem pode ser autor
literário colectivo fora das faixas da estrita oralidade. Ele terá sim
consciência na apreensão e na aplicação a si mesmo dos fenómenos de laboração
técnico-literária por outrem produzidos. Sei dos riscos, calculados, a que não
me exponho, sei do escorregadiço que não seria enveredar por esta teoria da
questão. Perdoem todavia se estiver desfocado. Feliz pois da Nação que tem tais
vozes a se disponibilizarem em serviço e investimento pessoal, para mais, com
amor dedicado. Di-lo a dedicatória. O que Veiga interpreta, colhe e interpreta
de Jorge Barbosa, aplica-se ao seu povo tanto em sentido literal como típico.
Com estes entendimentos, será
imperativo que o Diário das Ilhas surta o seu efeito cultural e pedagógico
junto do povo das Baías seu destinatário e objecto, seja junto dos nossos
infantes, adolescentes, jovens, adultos, círculos académicos, aconchego da
cultura em círculo de base familiar, etc., etc. Particularmente nos círculos
familiares, entre um e outro episódio de novela, com a permissão desta. Ou
então, em momento que se venha a reputar mais propício. Perdoem o aparte. O
trabalho de leitura e assimilação facilita-se imensamente pela estruturação do
Diário das Ilhas em 50 capítulos curtos, com sugestivos títulos cada um deles,
glosando quase sempre o último parágrafo réstias de autoconfiança, esperança e
afirmação. E a propósito, não tarde o dia em que sobre o Diário das Ilhas
surja, surja não, se faça, também nossa longa metragem, encontrando respaldo em
procedimentos internacionalmente consagrados. A nossa argumentística não é tão
desaparelhada nem desinteressante como isso. Pois, podem crer, no dia em que
isso se decidisse, motu proprio nacional e por assunção ou por interesse
estrangeiro com cultura e negócio à mistura, não restam dúvidas de que o guião
argumentístico teria já trabalho algo de bastante facilitado.
O Diário das Ilhas, Manuel
Veiga dedica-o, di-lo expressamente, cita-se, “ ao povo heróico das ilhas
que me legou um nome, uma pátria, uma cultura” . O peso específico é
grande, de cada um destes legados, aliás constituindo razões suficientes para o
doloroso mas reconfortante périplo que não foi a viagem da nossa nau, como
podemos depreender dos seus diários de bordo. E não exageraríamos nem
atraiçoaríamos os vates se extrapolássemos os enunciados do nome, da pátria e
da cultura, deles sacando, inferindo paradigmas e parâmetros comportamentais
dinâmicos para a nossa postura no palco da História. Sofrimento, exclusão,
escravatura, arranque violento, criminoso e trágico do húmus kukulense, eis
algumas dicas do passado, juntamente com o cortejo de outros males que
induziram ou trouxeram por arrastamento. Kukuli perdoa. Mas não esquece.
Conserva a bordo suficiente capacidade de indignação. A resistência com os
gérmens da afirmação em toda a linha acabaram por vencer. Não porém sem deslizes e reparos. As independências
nacionais kukulenses e baiana estão aí para o comprovar, não por elas em si
próprias mas por usos limitados e algo derrapantes que eventualmente terão
proporcionado. Todavia e na sua essência, constituem
ciclos, momentos e desafios, gestas inigualáveis e termos de referência para a
prossecução das viagens com eventuais correcções de rumo. Hesoooooõoooookkkkjjjkkoooooooooje
a ciência da navegação está disponível em todo o lado. Por satélites e
demais avanços tecnológicos. Também via Internet, se calhar.
Não vá por conseguinte qualquer capitão arrogar-se
exclusivisticamente e com timão de ferro a condução da nau, que terá de ser
comparticipada nos seus múltiplos envolvimentos. As independências constituem
testemunhos de vitória. O nascimento da Julinha a 5 de Julho de 1975 é nosso
testemunho e ‘testamento para um dia claro” (perdoe-me o Dr. França
o uso deste título de um dos seus poemas, que espero não fazer
despropositadamente). Testemunho, testamento e paradigma de um ciclo novo nas
vidas. Espero bem que não constitua mero acaso a apresentação pública deste
livro paradigmático quando o País se encontra ainda na quadra da celebração do
seu vigésimo segundo aniversário como independente. A Julinha vai numa idade
interessante em que, nas suas concepções e mundivisões, tudo se espraia aos pés
dela, a esperança credita-lhe gérmens de realização e sucesso, percalços
varrem-se do seu ideário, do seu imaginário, das suas representações, do seu
universo, dos seus tropismos, todos movidos pela força da lembrança como pelo
ardor do porvir que ela crê ser certeza. Todavia, as possibilidades de
derrapagens e mesmo bem perigosas, não se encontram automaticamente
escorraçadas da nau em cuja viagem são colectivas as possibilidades de salvação
como de perdição. A nau das baías é pequena mas nela cabem todos os baianos
E Kukuli, que vai ser dele? E
no momento seguinte, que é que se vai operar quando Kukuli, os baobá de Kukuli,
ainda não deixaram de estremecer nos seus fundamentos, vítimas de novos e
novíssimos estilos bem mais subtis, sofisticados e sofistas de cobiça,
marginalização internacional e rateio, insanáveis conflitos intestinos, cegos e
desvairados apetites de poder ... ... enfim, a espiral de males parece até
repetir-se, parece até determinar o afro-pessimismo, o Kukuli-pessimismo. E nós
as baías, mais uma vez, que estamos ao lado? Já o processo histórico ditara que
Norte e Sul, no dizer do vate, elaborassem com a proveta do tempo um processo
próprio no nosso próprio laboratório. Pois bem, a resistência, a inserção, a
abertura, vão ter que ser terçadas como armas e bagagens da nossa nau
Finalmente, o escritor
sabe-se e confessa-se envolvido num ciclo em três etapas da historiografia
cabo-verdiana potenciada pela arte literária. Ou seja, ele próprio armadilha-se
numa única história com três histórias. Na primeira, Palu di Djódja
protagoniza-se dando um mergulho bem fundo nas raízes do tempo sócio-cultural.
Esse mergulho corporiza-se no romance Odju d’Agu, em língua
cabo-verdiana. É o Prólogo. Na segunda, Jorge Barbosa é o vate com o Diário das
Ilhas em português, que ora nos ocupa. É o Logos. Na terceira história, a
oratura do Ali-Ben-Ténpu, leia-se Nho Nacho, recebe o testemunho tanto de Palu
di Djódja como de Jorge Barbosa sem que a diglossia se confunda com o
bilinguismo. Esta terceira está por vir, como Epílogo. Três narrações, como
no-lo-diz o próprio Manuel Veiga, que diferentes na forma, são complementares
no sentido. Com efeito, todas elas fazem parte da saga baiana. Completam-se
tanto nas letras da poesia escrita pelo vate do Diário das Ilhas como nas
palavras da oratura pronunciadas por Palu di Djódja e por Nho Nacho.
Personagens como Pedrinho, Mamadu e Regina do Odju d’Agu reencarnam-se em
Abel o Libertador e Julinha, isto é,
romance Odju d’Agu,
Prólogo: só compreendido mais tarde. O Diário das Ilhas, Logos: compreendido
logo, será talvez estimado por uns e quiçá odiado por outros. E a parte do
ali-Ben-Ténpu, Epílogo, ainda por escrever? Que dizer dela?
Nada a dizer a respeito, porquanto ainda se encontra nas malhas do futuro,
logo, da possibilidade, da viagem que prossegue.
A voz do ali-Ben-Ténpu terá
de completar o Diário das Ilhas com a terceira parte a partir de 5 de Julho de
1975, de 19 de Fevereiro de 1990, de 13 de Janeiro de 1991 e de outros ciclos
que forem dados a viver às ilhas baianas. A viagem continua sob o signo das
estrelas.
Prólogo, Logos. Falta o
Epílogo. Tenha, pois Manuel Veiga vida, saúde e predisposição para elaborar o
Epílogo e assim completar as premonições da sua TRILOGIA.
Manuel Veiga
Arquitectactada no tempo e no
espaço das nossas ilhas atlânticas - que o poeta chamou “a pátria do meio
do mar” -, a crioulidade de que hoje nos orgulhamos é produto e é também
projecto de uma insularidade que acabou sendo fecunda.
Com efeito, de um certo caos
inicial emergiu e emerge um logos social; de um determinado vazio cultural se
processou uma ordem antropológica, cada vez mais rica e polifacética; das
cinzas do anseio afogado e da angústia que tortura nasceu e nasce a esperança
libertadora; do estatuto de dominado o nosso povo passou a ser senhor do seu
próprio destino.
Nesse longo caminhar da nossa
história tivemos por companheira inseparável uma insularidade madrasta que,
forçada pelas circunstâncias, acabaria por compreender e aceitar o papel de uma
mãe, exigente embora, mas sem deixar de, algumas vezes, ser carinhosa também.
Caprichosa ou acolhedora, a insularidade das nossas ilhas manifesta-se de
múltiplas maneiras: ela é geográfica como climática, histórica como política,
antropológica como existencial.
Note-se que o universo da
insularidade extravasa o sentimento de solidão e nostalgia, emergente do
acanhado espaço geográfico das ilhas, para incorporar outros aspectos
resultantes tanto da dialéctica entre a imensidade do mar arquipelágico e a
pequenez das ilhas retalhadas que as ondas “afogam e afagam”, como
também entre a grandeza do sonho ilhéu que não se conforma com a medida da ilha
e os problemas sociais, políticos e culturais de que a mesma tem sido vítima.
Aliás, a fome existencial do
ilhéu ultrapassa os limites da estreita fronteira contornada pelo mar para se
projectar na procura do mais além. O visível não lhe chega, ele tem a
necessidade do imaginário. Este, por sua vez, não sacia totalmente a sua sede,
ele se sente atraído pelo real existente ... que transborda a medida da ilha.
A insularidade islenha é,
pois, o resultado da luta e dos desafios que nascem no próprio chão das ilhas;
ela é também um projecto inacabado cujos traços ganham forma e conteúdo no
confronto e reencontro da água com a terra , do homem com o mar.
Com efeito, a pequenez
territorial, a falta de água e a exiguidade de recursos naturais estão na base
de flagelos como a seca periódica, a fome, as epidemias (anteriormente sem solução)
e o subdesenvolvimento, de uma maneira geral. Por outro lado, a imensidade do
mar “que ... dilata sonhos e ... sufoca desejos”, com o seu “
... cântico /estranho / ... / que não se cala em nós!” . (1)
Essa insularidade tão
peculiar das ilhas é magnificamente retratada pelo poeta Ovídio Martins quando,
em plena época colonial escreve:
“Árvores/ sem carne/
terra/ de Fogo/ Homens bloqueados/ (espantosamente bloqueados) / Irmãos no
catacismo periódico/ de falta de água / Já sem forças/ para mandarem/ calar
o mar” .(2)
desespero do poeta, porém, um
dia, no pós-independência, se transformará em esperança e , avançando
“ilha a ilha”, é o mesmo que vem segredar-nos que, afinal, “O
nosso destino estamos a cumprí-lo: Dar a Cabo Verde outro mar, outro céu, outro
homem” E para exorcisar os flagelos da insularidade, tornando-a fecunda,
com estrumes e fertilizantes trazidos de longe ou recriados no próprio chão do
Arquipélago, um outro poeta da espernaça, com toda a força do seu estro
telúrico, proclama, como que jurando à Bandeira da Dignidade, já no céu das
ilhas flutuando:
“Mesmo que o céu não
chova/ E o sol e a lua/ Sejam cordas partidas no violão da ilha/ ...
Mesmo que o vento/ Vergue/ No eixo da terra e nos mastros da alma/
Os ossos e séculos de sangue e secura/ Mesmo sendo! já não somos/ Os
flageldados do Vento leste”.(3)
Este poema faz lembrar o
desabafo e a ousadia de um outro poeta da insularidade que, em plena dominação
colonial - quando a Bandeira da Liberdade ainda estava à distância -, com
convicção, proclamava:
“Somos os flagelados do vento leste!/ Morremos e
ressuscitamos todos os anos/para desespero dos que nos impedem/ a
caminhada/ Teimosamente continuamos de pé/ num desafio aos deuses e
aos homens/ E as estiagens já não nos metem medo/ Porque descobrimos a
origem das coisas”. (4)
Vista desta maneira, a
insularidade é geográfica e climática, mas também histórica e política.
Não podia ser fácil a
formação de uma sociedade a partir de mundos e de universos tão diferentes como
os que no recuado século XV, e no chão do arquipélago, se confrontaram. Esses
condicionalismos histórico-culturais corporizaram uma nova forma de
insularidade que é política, mas também é antropológica e é existencial. A este
propósito, Pierre Rivas afirma que, para o ilhéu cabo-verdiano,
“.... l'insularité
géographique devient insularité existentielle, qu'on peut lire comme métaphore
de la négritude, lieu d'exil loin de la patrie africaine, prison coloniale ou
idiossyncrasie ilienne”.(5)
É, pois, esse drama que levou
o poeta do Ambiente a pintar a insularidade das ilhas com letras de sangue
vertido de milhares de pedras feridas no deserto da história e com a seiva de
algumas árvores apenas, curtindo a seca e resistindo ao flagelo das lestadas.
Esse sofrimento e essa resistência são reais e é deles que emerge a crioulidade
insuflada de sonhos, acariciada com os tentàculos do pelourinho, mas
regorgitando a vida.
ilhéu existe, pois, porque
resiste. E nisto consiste o seu drama, mas também o seu mérito.
E, resistindo sempre, o homem
cabo-verdiano acabaria por dar-se conta de que, no ambiente das ilhas,
tornava-se necessário e inevitável o “Conflito numa alma só/ de duas
almas contrárias/ buscando-se, amalgamando-se/ numa secular fusão”.(6)
Relacionado com a
criatividade literária, o tema da insularidade ganha expressão particularmente
através do sentimento e desejo de evasão experimentados pelos
“claridosos”, como também pelo ideário programático de
“fincar os pés no chão” que sintetiza o seu programa literário e o
ideário telúrico que os acompanharia pela vida fora.
Posteriormente, a literatura
cabo-verdiana, embora reconhecendo o elevado sentido do “projecto
claridoso”, acabaria por alargar o horizonte do seu ideário.
Se na década de 40, 50 e 60
havia já alguns indícios, é particularmente a partir dos anos 70 que começa a
ganhar corpo uma literatura nova, com o centro de gravidade
A visão localizada do mundo,
condicionada pela insularidade e veiculada apenas pelo canal do sonho e da
evasão, é posta
“Um ritmo vital
próprio, perfeitamente nuançado aflora hoje no complexo do sentir humano: a
psique atlântica. O infinito azul que nos rodeia, a distância que nos envolve e
beija, sublimaram de sonho a longa simbiose dos sangues [...] E fluindo sempre
para o diferenciado, rasga-nos a vida novo ciclo”. (7)
Porém, como foi dito, é
sobretudo a partir da década de setenta que um novo projecto literário moldado
com a massa e o fermento da alma universal ganha maior expressão. É assim que
T.T.Tiofe (João Varela), falando de escritores do período 75/76, diz:
“[...] não se trata de
poetas de Cabo Verde que escrevem poesia cabo-verdiana mas de poetas de Cabo
Verde que escrevem poesia”.(8)
Igualmente, um Ovídio
Martins, por exemplo, escreve: “eu nasci na ponta da praia por isso trago
todos os mares do mundo” e um Arménio Vieira do Eleito do Sol, completa o
raciocínio ao considerar-se “ [...] homem de todas as raças”.
Como se tudo isto não
bastasse para retratar o novo chão cultural emergente nas ilhas, Vera Duarte,
uma voz femenina da nova largada, vem reafirmar que o processo da nossa cultura
e literatura perspectiva-se em vários sentidos e para vários horizontes:
“A minha ancestralidade
plasmada sobre a baía e o porto grande que se abre ao infinito gerou-me [...]. Manhana
pela manhana montada em meu cavalinho doirado, irei pelo mundo à procura do
sentido da vida”. (9)
Neste processo, uma nova
cultura, uma nova crioulidade têm inaugurado um espaço igualmente aberto. Tudo
indica que hoje a caboverdianidade tende a abrir-se ao mundo e o seu intento
consiste muito mais na procura do humanismo do que em celebrar uma fechada
identidade.
A literatura caboverdiana é
cúmplice do humanismo desejado. É por isso que se para caracterizar a época
“claridosa” numa única palavra escolheríamos a palavra
insularidade, para caracterizar o novo ciclo literário optaríamos pelo signo
humanismo.
Notas
Jorge Barbosa, “O
Mar”, Poesia I, ICL, Praia, 1989, p. 72. Publicado pela 1ª vez
Ovídio Martins, “A
Seca” Caminhada, 1962. Retomado em 100 Poemas, p. 15
(3)Corsino Fortes, “A
Lestada de Lés a Lés” Árvore & Tambor, ICL, Praia, 1986, p. 121.
(4) Idem 2, Ibidem
(5) Pierre Rivas,
“Insularité et Déracinement dans la poesie cap-verdienne”, in
colóquio de Literaturas Africanas de Expressão Oficial Portuguesa, Paris,
Fundação C.Gulbenkian, 1984.
(6) Idem 1,
“Povo”, Poesia I, ICL, Praia, 1989, p. 71. Publicado pela 1ª vez no
livro Arquipélago, 1935
(7) Jaime de Figueiredo, in
cinta de apresentação do livro Arquipélago de J.Barbosa, 1935.Mais tarde citado
por Teixeira de Sousa em “Um Texto Quase Esquecido” in Pré-Textos,
nº 0, 1990.
(8) “Arte e Artefactos
Poéticos
(9) Vera Duarte, Manhã Amadrugada,Vega, Lisboa, 1993.
BLOCO DE NOTAS (Urbano Bettencourt)
l. Cabo Verde - Insularidade
e Literatura (Manuel Veiga (Coord.)),
Paris, Éditions Karthala,
1998
Manuel Veiga, escritor e
investigador do crioulo cabo-verdiano, foi o coordenador deste livro de ensaios
que as Éditions Karthala publicaram no ano passado numa versão em Português e
noutra em Francês.
No seu conjunto, o livro pretende-se
uma abordagem abrangente da realidade cultural cabo-verdiana, de que a
literatura será uma das componentes fortes, como expressão transfigurada de um
processo histórico-social, embora muito menos conhecida do que a componente
musical (que alguém já referiu como um dos três M da identidade cabo-verdiana,
ao lado do Mar e do Milho). Neste sentido, compreende-se a pluralidade dos
ensaístas aí presentes, traduzindo a diversidade dos olhares e dos campos de
observação, organizados em quatro grandes capítulos ou áreas temáticas
(designação que, reconheço, é pouco adequada ao último deles): o "Ciclo do
Mar" (onde a perspectivação histórica se liga à insularidade "como
uma das principais colunas da literatura cabo-verdiana"); o "Ciclo do
Milho" ( que põe em evidência a centralidade deste cereal na alimentação e
na representação cultural e simbólica do arquipélago); "Tradições Orais e
Literatura" (espécie de "guião histórico" da literatura
cabo-verdiana, recuando aos seus primórdios e demarcando alguns dos seus
períodos, antes e depois de "Claridade", em ligação também com um
olhar sobre a oratura, o universo das tradições orais que desempenham um papel
de relevo na expressão da crioulidade); a última parte reúne uma série de notas
de leitura, apontamentos críticos sobre algumas das mais recentes propostas
narrativas e poéticas, mas sem perder de vista as pontes que possam estabelecer
com os "clássicos" da moderna literatura do país.
"Cabo Verde -
Insularidade e Literatura" é um livro que permite ao leitor uma visão de
conjunto extremamente enriquecedora e iluminadora. Visto de fora, de outras
latitudes também elas insulares, é ainda um livro que não pode deixar de
abrir-se a algumas leituras laterais, pelo que revela quanto aos evidentes
benefícios resultantes dessa metodologia de aproximação multidisciplinar, mas
também, e muito principalmente, pela atitude descomplexada de afirmação de uma
realidade própria e consequente empenhamento na sua divulgação.
2ª ed., Centro Cultural
Português, Praia e Mindelo
Pode-se chegar à história de
Blimundo através do violino de Travadinha, nesse disco único em que a sua
criatividade e inventiva demonstram como se (des/re)faz a música tradicional de
Cabo Verde: uma melodia que parece chegar dos confins da terra e do corpo e a
que a voz de Ana Firmino vem imprimir um ainda mais acentuado tom de
encantamento e mistério.
Mas essa é apenas a canção do
conto tradicional caboverdiano em que se narra a história do boi Blimundo,
possante boi de trapiche, irreverente e amante da liberdade, que desafia a
autoridade e o poder do Senhor Rei, incapaz de vencê-lo pela força dos seus
exércitos. E só um rapazinho, munido de cabaça de água, saco de milho torrado e
cavaquinho, será capaz de atrair Blimundo à cilada mortal montada por Senhor
Rei, cantando-lhe essa canção que acena com a (ilusória) promessa do seu
casamento com a Vaquinha da Praia.
Há nesta história de David e
Golias alguns tópicos e motivos que poderão, eventualmente, reenviar a outros
contos populares e mesmo a contextos culturais e literários diversos (o poder
encantatório da música, a paixão que faz desviar caminhos e vontade, a astúcia
sobrepondo-se à força); mas há, sobretudo, um forte investimento simbólico que
arranca das circunstâncias concretas e históricas para "falar" das
dicotomias opressor e oprimido, força de trabalho e posse da riqueza,
escravidão e liberdade, amor e traição. E mesmo o milho, a música e a água com
que a personagem infantil se apresta para a viagem passam obviamente como três
factores de forte carga cultural, identitária.
"A História de
Blimundo" constitui ainda uma manifestação de apreço e respeito pela
cultura popular, o reconhecimento da sua vitalidade.
Cabo Verde - Encontro com escritores
Michel Laban, Porto, Fundação
Engº António de Almeida,1992
Mais de duas dezenas de
escritores e criadores culturais cabo-verdianos em diálogo com Michel Laban. O
resultado é esta obra em dois volumes, em que, pela voz dos seus mais directos
intervenientes, se traça o percurso literário e cultural do arquipélago no
período de cinquenta anos que começa em 1936, ano da "Claridade",
revista da "proclamação da independência cultural de Cabo Verde"
(Gabriel Mariano).
Reconheça-se, porém, o que
poderá haver de redutor em referenciar nestes termos um livro que abrange
outras questões, de ordem histórica, social, linguística, e que acaba por
abarcar um período mais vasto do que esse, dado que ao conhecimento do leitor
são igualmente trazidos os contributos precursores mais relevantes e mesmo
elementos contextuais de uma escrita particularmente atenta ao seu próprio
contexto físico e humano - a justificar até o o reparo de Mário Fonseca a
Michel Laban: "um outro motivo de inconforto intelectual é a ausência, nas
suas perguntas, de qualquer referência à nossa cultura de carácter popular, à
nossa literatura popular em crioulo e em português... ao mundo dos contos e
lendas da literatura oral cabo-verdiana. Não acredito que se possa compreender
a história cultural de Cabo Verde sem ter em conta os domínios acima referidos,
apenas a título indicativo."
Dos depoimentos dos dois
fundadores de "Claridade" ainda ouvidos por Michel Laban - Baltasar
Lopes (entretanto falecido) e Manuel Lopes - o deste último refere a sua
experiência açoriana de onze anos no Faial. Experiência incómoda do ponto de
vista físico, em virtude de uma "difícil e morosa adaptação ao clima dos
Açores, excessivamente húmido em contraste com o de Cabo Verde", mas, por
certo, bem mais profícua a outros níveis: sócio fundador do Núcleo Cultural da
Horta, Manuel Lopes publicou ali o ensaio "Os meios pequenos e a
cultura" (1951) e em Angra do Heroísmo os "Poemas de quem ficou"
(1949), graças ao papel intermediário de Pedro da Silveira que o levou até ao
editor Manuel Joaquim de Andrade, a quem se deve, entre muitas outras coisas, o
facto de ter sido o editor do jovem Vitorino Nemésio.
Elga Vilela Costa
Originally published in Ciberkiosk : http://www.ciberkiosk.pt/arquivo/ciberkiosk5/ensaios/elga.htm
(dead link)
caso de Cabo Verde está, desde há anos, marcado, na sua
mais profunda intimidade, pelo fenómeno da emigração. Um impulso de massas como
este sempre representou para o povo caboverdiano uma realidade dramática que a
própria terra explica sem se precisar de grandes e elaboradas palavras:
basta-nos olhar e viver naquelas ilhas.
Para muitos caboverdianos,
estas movências são o sonho de toda uma vida; este desejo, ou mesmo desespero,
de conhecer outros (outros tudo:
mundos, gentes, costumes, hábitos, cheiros, cores...) torna-se, muitas vezes,
objectivo de vida. Tudo isto é compreensível se atentarmos na dramática imagem
de um povo que anseia, a toda a hora, pela vinda das chuvas que por vezes levam
intermináveis anos a chegar. Por aqui se explica e se compreende o desejo de
querer partir.
Contudo, ninguém pode afirmar
que haja emigrações felizes, mesmo que bem sucedidas, pois implicam consequentemente
uma ruptura, uma distância em relação a uma identidade, um penoso processo de
adaptação, um ajustamento. Muitos conformam-se em viver longe mas sob a
inspiração de Cabo Verde. E é exactamente aqui que assentarei estas breves
linhas sobre Cabo Verde. É justamente nesta cortante e dolorosa dualidade de
viver longe e querer sempre SENTIR Cabo Verde que centrarei o meu trabalho.
Sonhar com a vida para lá do
mar leva à saída, mas viver com a terra no coração leva, inevitavelmente, ao
regresso. E é um regresso sempre desejado: pelo que saíu, que finalmente recupera a "alma" e se
re-identifica, pisando aquele chão sagrado, e pelo que ficou, que recebe agora as novidades vindas do "além", do
para lá das ondas, do "outro lado", de outros mundos. Sempre foi
assim: o homem, tanto o que corajosamente partiu como o que resignada ou
livremente ficou, está tão indissoluvelmente ligado à natureza que dificilmente
se poderá separar daquele chão que eternamente o prende.
Eis porque surgem os poetas e
ficcionistas que proclamam a HORA DA DEFESA: a defesa da terra, do homem de e
E assim se começa a lutar e
aparece, em 1936, no Arquipélago de Cabo Verde, o primeiro número da Revista
Literária e Cultural "Claridade". "Claridade" tinha, de
facto, a dupla feição literária e de cultura, de investigação sociológica:
cantava-se um povo e explorava-se o fio da mentalidade crioula.
As tertúlias claridosas
tinham por objectivo traçar directrizes genéricas, sem programações
específicas; a intenção era escrever Cabo Verde; o propósito era o de
"fincar os pés na terra". Não havia regras para o fazer: cada um
expunha as suas ideias à sua maneira pessoal, contribuindo individualmente para
mergulhar na terra e fazer sair à luz do dia o cheiro mais próprio, mais
autêntico e mais real daquele povo.
Manuel Lopes será
provavelmente o escritor crioulo mais tocado pela acção agreste daquela
natureza que se "impregna" na alma do caboverdiano, dando-lhe uma
postura apática, onde a resignação (marca distintiva da morabeza) se explica
pela profunda ligação e amor puro à terra.
Manuel Lopes conhece
intimamente a alma do seu povo, de tal forma que transpõe para os seus textos
figuras e situações quotidianas perfeitamente reais (o que, aliás, define o
traço estético do seu discurso). Conhece perfeitamente toda a fragilidade do
ilhéu caboverdiano perante a natureza de quem depende inteiramente; conhece o
terrível contraste entre os sonhos de felicidade e a triste realidade da luta
pela vida. Fala-nos, com extremo realismo, da tristeza, do medo, da saudade, do
desânimo e da frustração, num tal discurso que nos enriquece o conhecimento do
conteúdo humano caboverdiano. Diz, como poucos, o medo constante que o povo
sente relativamente às secas prolongadas que assolam as ilhas; o sonho
permanente e o desejo irresistível de ir a outros mundos; e, simultaneamente,
diz também o amor desmedido que o povo sente pela sua terra, e o desejo de
aprofundar e ligar a alma do homem à raíz daqueles solos.
Este "chamamento do
caboverdiano à sua terra" sempre foi o mote cimeiro de toda a escrita de
Manuel Lopes. Se não, vejamos:
"...Que teu irmão que
ficou
Sonhou coisas maiores ainda,
mais ricas e belas que aquelas que conheceste...
Crispou as mãos à beira do mar
e teve saudades estranhas, de terras estranhas,
com bosques, com rios, com outras montanhas
- bosques de névoa, rios de prata, montanhas de oiro -
que nunca viram teus olhos
no mundo que percorreste..."
Crioulo e outros poemas, 1964
Eis o que pretende este
sensível escritor, e tantos outros da sua Geração: convidar o povo a apostar na
terra, evitar que a sua "alma se perca em outras paragens", promover
a união entre os homens para que, juntos, possam "construir" o
remédio para sarar tão grave ferida de uma Mãe que vê seus filhos partir:
"Amar a Mãe-Terra e a Mãe-água com toda a força e pureza do Amor, compreendê-las
como o menino compreende a linguagem da mãe e a canção de embalar e a profunda
significação do embalo daqueles braços, e neles aprende a conhecer a segurança
e a protecção contra as ameaças desconhecidas." (Chuva Braba)
A fé na união dos homens
apostados em seguir um Destino comum - o de ficar e lutar pela terra -
sustentou os "pesados" alicerces de uma Geração que tinha nas mãos e
na pena a dura tarefa de dar voz a um povo ainda calado pela dor de sofrimentos
seculares. E se toda a Geração Claridosa foi pródiga no "lançamento"
de palavras, há muito desejosas de serem escritas, Manuel Lopes soube dar vida
e voz às situações da própria condição humana, denunciar problemas e
sentimentos, apresentar realidades sociais e comportamentais, sempre apartando
os (quase) inevitáveis juízos de valor. Daí o seu reconhecido realismo empregue
nas suas obras: conhecer as suas personagens e conhecer um caboverdiano, é
igual - as personagens não se "disfarçam", não fogem à real
representação de este ou aquele caboverdiano. Está tudo lá: a paisagem, a vida,
o sentir, o agir, o problema e a solução.
próprio Manuel Lopes define o
que aqui tento expôr acerca da sua escrita (e cito): "As melhores páginas
impressas são as experiências daqueles poucos homens que viveram a vida mais
intensamente que o homem comum, que o sentiram, e meditaram com mais
penetração, e se consumiram para nos trazer a mais íntima ressonância das suas
horas mais altamente vividas".
José Osório de Oliveira - A Poesia de Cabo Verde - 1954
Francisco Salinas
Destroços de que continente;
de que cataclismos,
de que sismos,
de que mistérios?...
(Jorge BARBOSA, Arquipélago)
1.- Introdução
A ilha, espaço enclausurado,
numa clausura que é física mas também afectiva, psicológica e vital, é prisão e
lugar de segurança, esquife e berço, útero e sepulcro, centro do mundo onde
convergem os eixos da verticalidade e da horizontalidade, o axis mundi que liga
miticamente o Céu com a terra; é o lugar da partida e destino da viagem, porque
o ilhéu precisa sair desse espaço ofegante e limitado para se abrir ao mundo e
aos outros. Como indica Dina Salústio, "l’insularité est à
l’origine de l’un des traits les plus marquant de l’îlien:
l’évasion qui l’envoie, avec un semblent de fuite, à la rencontre
d’autres êtres, d’autres horizons, d’autres continents et
villes" (1).
A ilha reúne, por um lado, o
espaço perfeitamente delimitado e simbolicamente uno e, por outro, abre-se à pluralidade,
à disgregação em que se projecta quando convertida na multiplicidade do
arquipélago; ela concilia no seu significado os elementos contraditórios
derivados do carácter bifronte e ambíguo de todos os símbolos, como demostrou
Bachelard: segurança e perigo; acção e repouso; alfa e omega do sujeito
individual e colectivo.
A literatura cabo-verdiana,
pelo menos aquela que se produziu até os anos sessenta, funda-se sobre a ideia
da insularidade, do desejo, gorado, e da tensão dialéctica entre o partir
querendo ficar e o ficar querendo partir. Há, portanto, um desarraigo
existencial, comum a qualquer ilhéu, que perpassa o discurso poético
cabo-verdiano, por isso, em palavras de Pierre Rivas, "insularité et
déracinement sont les deux structures constitutives et antagonistes de
l’identité capverdienne mais, au delà, les éléments d’une typologie
des littératures insulaires, des civilisations créolophones et même du statut
des littératures africaines" (2).
Não admira, pois, que um
breve percurso pela literatura cabo-verdiana nos ponha à frente de uma série de
referentes, de que os títulos são o elemento significativamente marcado. Essa
visão panorâmica da literatura de Cabo Verde mostrar-nos-á como é que o
cabo-verdiano e o discurso literário das suas produções culturais convertem a
sua circunstância biográfica e histórica (a condição de ilhéu), incontornável
aliás para qualquer habitante das ilhas, no elemento definidor e definitório de
toda uma poética que, desde os inícios desta literatura em finais do séc. XIX e
primeira metade do séc. XX, vai desenhando toda uma geografia poética e vital
do "ser" cabo-verdiano.
Pensemos, a este respeito, em
títulos como: Jardim das Hespérides (1926) e Hespérides. Fragmentos de um poema
perdido em triste e miserando naufrágio (1930) de Pedro Cardoso; Jardim das
Hespérides (1929), Hesperitanas (1933) ou Alma Arsinária (1951) de José Lopes;
Arquipélago (1935) ou Caderno de um Ilhéu (1956) de Jorge Barbosa; Linha do
Horizonte (1951) de Aguinaldo Fonseca, para nos referirmos ao campo da poesia.
Se pensarmos na ficção,
títulos como Ilhéu de Contenda (1978) de Teixeira de Sousa, Ilhéu dos Pássaros
(1982) de Orlanda Amarilis ou Levedando a Ilha de Mª Margarida Mascarenhas
completaríamos toda essa isotopia da ilha que atravessa, e pour cause, o
discurso literário cabo-verdiano.
2.- As ilhas Hespérides e o
Éden mítico.
Um dos aspectos que mais tem
chamado a atenção dos estudiosos da literatura cabo-verdiana, pela
originalidade de que se reveste, é o chamado período hesperitano ou período
arsinário: aquele momento literário anterior à Claridade (embora se prolongue
em boa medida além dessa circunstância histórico-cultural) em que se formula a
literatura cabo-verdiana.
Com efeito, a criação do mito
das Ilhas Hespérides de que fala Estrabão veio, no dizer de Manuel Ferreira,
"preencher um vazio e dar sentido à componente histórica do fundamento
pátrio alicerçado nas ilhas e não na Metrópole europeia. O mito que funcionou
como corrector do equilíbrio pendular social e psicológico. Ainda mito criador
do espaço da felicidade" (3). Em chave similar, Pires Laranjeira afirma
que "os poetas criaram o mito poético para escaparem idealmente à
limitação da pátria portuguesa, exterior ao sentimento ou desejo de uma pátria
interna, íntima, simbolicamente representada pela lenda da Atlântida, de que
resultou também o nome ‘atlantismo hesperitano’ por oposição ao
continentalismo africano ou europeu" (4).
Na criação deste mito
funciona, como tem sido sublinhado, uma componente ideológica que pretende
ligar as ilhas de Cabo Verde ao continente e à cultura europeias, riscando,
tanto quanto possível, a componente africana que mesmo só pela situação
geográfica, correspondia ao arquipélago (5).
Com efeito, a cultura
clássica a que remete o mito das ilhas Hespérides, ou a própria definição do
mito ligada ao continente submerso da Atlântida (em que se incluem as ilhas
Açores, a Madeira e as Canárias), fazem com que o mito hesperitano permita
ligar a cultura cabo-verdiana ao "mundo que o português criou" numa
prolongação natural, embora adaptada aos "trópicos", da cultura da
metrópole. Ora bem, tal e como se infere da citação de Manuel Ferreira, a
originalidade deste mito (desconhecido no espaço português) singulariza a
literatura cabo-verdiana, confere-lhe qualquer coisa de diferente e de
original, dá-lhe a marca de um discurso-outro, revelador de um mundo também
diferente que autonomizava, em boa medida, o discurso literário cabo-verdiano,
do discurso literário português no interior do qual o discurso crítico oficial
o situava e ao que de facto estava unido, não só pela língua como pelos
referentes literários presentes na obra destes poetas.
mito hesperitano não é, ou
não é só, o feliz achado expressivo de um poeta, mas abrange a quase totalidade
dos escritores e está presente no discurso crítico que modela a recepção destas
obras da parte dos destinatários naturais desta literatura.
Talvez tenha sido a
componente ideológica que jubjaz ao movimento hesperitano, a sua inclusão e
surgimento num determinado contexto político-social (os primeiros anos do
salazarismo e a proclamação do lusotropicalismo como a "única"
teorização politicamente correcta da altura) a que explicou a acusação de
evasionismo (6) que tem acompanhado o discorrer crítico deste interessantíssimo
período da literatura cabo-verdiana que é, no fundo, o movimento fundador duma
literatura em língua portuguesa autónoma e independente doutras literaturas que
também se exprimem na mesma língua.
Ora, o mito hesperitano pode
ser também lido em chave mítica como "nostalgia do Paraíso" que, no
dizer de Eliade, é "desejo de reencontrar o estado de liberdade e
beatitude de antes da ‘queda’, a vontade de restaurar a comunicação
entre a Terra e o Céu; numa palavra, abolir tudo o que foi modificado na
própria estrutura do Cosmos e na forma de existir do homem a seguir à ruptura
primeva" (7). É evidente que a presença das ilhas como "paraíso"
ou Éden onde voltar, não só está presente nos poetas deste período, como também
reaparece noutros momentos literários posteriores, em autores como Corsino
Fortes ou Mário Lúcio.
Pedro Cardoso e José Lopes (o
mais "oficial" dos poetas cabo-verdianos e auto-nomeado "vate
hesperitano") são os mais notáveis poetas hesperitanos, constituindo o
umbral que dá o passo à literatura claridosa, considerada, essa
indiscutivelmente que sim, a primeira literatura autenticamente cabo-verdiana.
3.- Jorge Barbosa: o mar e a
viagem.
Embora em sentido restrito
Jorge Barbosa não possa ser considerado um poeta hesperitano (8), a sua poesia também
não fica longe da mitologia que conformou esse grupo heterogéneo da literatura
anterior à Claridade e, assim, praticamente sem solução de continuidade,
chegamos à obra de Jorge Barbosa (1902-1971), que, já no seu primeiro livro
(Arquipélago, 1935), define o marco da literatura cabo-verdiana, "pois é a
partir dela que se pode falar de cabo-verdianidade, isto é, da
consciencialização das realidades étnico-sociais e culturais da terra
cabo-verdiana, dando lugar a uma literatura que rompe com os modelos europeus,
especialmente portugueses" (9).<Bilde: jbarbosa.jpg (16732 bytes)> A
primeira ilha cultural fica estabelecida assim: a literatura cabo-verdiana
deixa de pertencer ao continente europeu (embora não totalmente, porque, como
já vimos, o mito hesperitano está profundamente ligado a uma tradição europeia
clássica) e vira-se para um novo continente, para o Brasil da Semana Moderna e
dos poetas como Manuel Bandeira, Ribeiro Couto ou Jorge de Lima (10).
Portanto, inicia-se uma
viagem, porque "a ilha concêntrica, girando à volta de si mesma,
saturando-se no seu isolamento, ganha dinâmica no confronto com o mar. Por um
lado, prolongamento da terra, ponte entre as várias ilhas, formando um só corpo
-o arquipélago. Por outro, o mar bravo, oceânico, caminho do emigrante e sonho
da distância" (11). E a pergunta que nós fazemos é se as ilhas não
implicam sempre uma viagem, se não está o desejo de partir (de sair da prisão
do espaço delimitado e ofegante da ilha) implícito na própria ideia e na
idiossincrasia do ilhéu? É por isso que a viagem, real ou imaginária, física ou
mental é o nódulo organizador da poesia de Jorge Barbosa. A ânsia de partir
(com todo o sentimento de saudade e ao mesmo tempo de esperança) forma parte da
visão do mundo do ilhéu e, portanto, converte-se no elemento definidor desta
poética. Mas há um desejo voluntarioso de acção, de movimento, uma viagem que
não é errância sem destino, é objectivo previamente definido para onde se
caminha, embora não se possam esquecer os ecos literários que a evasão
finissecular tenha nesta poesia (daí que a ruptura com os modelos europeus não
seja tão forte como se poderia deduzir das citações anteriores).
No primeiro livro de Jorge
Barbosa aparecem poemas como "Irmão" em que a viagem à América
aparece como a solução aos problemas sociais do arquipélago. Através de um
sujeito lírico que foge da terra nessas "pobres ilhas nossas / és o homem
da enxada / abrindo levadas à água das ribeiras férteis/ [...] / onde às vezes
a chuva mal chega / onde às vezes a estiagem é uma aflição / e um cenário
trágico de fome!" vão aparecendo espaços concretos e bem definidos:
América, o paraíso do cabo-verdiano onde resolver os seus problemas económicos
(e é sob este ponto de vista que é encarada a partida para América) mas que se vai
convertendo, a pouco e pouco, num sonho, e o poema, que mantém o tom do
discurso empenhado do neo-realismo, transita para a descrição de um estado de
alma do sujeito preso da melancolia, da apatia que reflecte a
"pasmaceira" ("saudade fina" defini-la-ia Oswaldo
Alcântara) do ilhéu: "essas Aventuras pelos Oceanos / já não existem... /
Existem apenas / nas histórias que contas do passado, / com o canhoto
atravessado na boca / e risos alegres / que não chegam a esconder / a tua /
melancolia...". Logo dessa queda do sujeito no mundo do sonho e da
melancolia, retoma-se a linha realista e empenhada numa chamada à solidariedade
fraterna do cabo-verdiano.
Em "poema do Mar",
do mesmo livro, define poeticamente, e de maneira muito clara, esse desejo de
partir tendo que ficar: "O Mar! / [...] / deixando nos olhos dos que
ficaram / a nostalgia resignada de países distantes" e o mar acaba por ser
a imagem "criadora" da evasão (12): "Este convite de toda a hora
/ que o Mar nos traz para a evasão / Esse desespero de querer partir / e ter
que ficar!".
Portanto, na poesia de Jorge
Barbosa, como na de muitos outros poetas cabo-verdianos, a condição de ilhéu
leva implícita a ideia da viagem: viagem exterior a um destino concreto, ligada
ao discurso neo-realista, viagem ao interior do próprio sujeito numa procura de
conhecimento, viagem quimérica e impossível na origem de uma frustração
existencial ofegante.
Do ponto de vista da
maturidade poética de Jorge Barbosa interessa salientar o seu Caderno de um
Ilhéu (13) nomeadamente a sua segunda parte, centrada toda ela na viagem e no
mar que, sendo um livro controverso, no que ao valor literário diz respeito,
representa uma prova da madurez poética de seu autor.
No poema "Prelúdio"
faz apelo ao achamento das ilhas e a uma ideia forte que norteia a concepção do
mundo hesperitano: uma espécie de destino trágico: "nessa hora então /
nessa hora inicial / começou a cumprir-se / este destino ainda de todos
nós". Porém, para Elsa Rodrigues dos Santos, "‘esse destino
ainda de todos nós’ não se trata de determinismo, de fado que se cumpre
como predestinação, característico da epopeia. Ele é sinónimo de acto
colonizador inaugurado nessa ‘hora inicial’" (14).
A viagem que se propõe (15)
como tema ao longo destes textos não é tanto uma viagem física de que a poesia
é o seu reflexo ou a sua literaturização quanto uma viagem imaginária, mais no
mundo do desejo do que na sua concretização: "Fui afinal o livro do ponto
/ onde todos os dias deixava melancolicamente / a minha assinatura e a minha
renúncia, / que fez com que todas as minhas viagens / nunca passassem do cais
da ilha de S. Vicente..." (Do poema "Viagens"). Nestes versos
resume as suas viagens imaginárias, mas que, sendo viagens implicam o
conhecimento e, portanto, "exigem" do sujeito o regresso à casa, a
essa nova Ítaca vista com os olhos da experiência acumulada: "Leva-me
contigo / navio // Mas torna-me a trazer" porque, embora haja um pequeno
navio "que nunca partiu, que nunca partirá", as viagens dos outros acabam
por ser apropriadas pelo sujeito:
"A poesia está é na sala
de verificação / no dia em que chegam passageiros à ilha / e nessa sugestão de
outros climas / que ficam por um instante no ambiente" (do poema
"Alfândega").
A sombra de Jorge Barbosa e a
sua presença ao longo de três décadas na literatura cabo-verdiana foi
configurando o discurso evasionista e pasargadista dos escritores
cabo-verdianos numa poética que tem o mar como centro e a viagem como eixo
estruturante duma escrita original.
3.- A construção do discurso
poético cabo-verdiano na imprensa periódica.
Como em muitas das
literaturas emergentes, a imprensa periódica tem-se revelado como o meio
privilegiado para a difusão das produções culturais. No caso de Cabo Verde não
podia também deixar de ser assim se tivermos em conta que o nível cultural das
ilhas na época colonial era, possivelmente, muito superior ao de outras
colónias que tinham maiores e melhores meios económicos, mas que, na estratégia
colonial estavam menos viradas para a cultura.
Instituições como o
Seminário-Liceu de São Nicolau, o liceu Gil Eanes, as Academias são-vicentinas,
uma rica tradição de associaciativismo cultural (16), a ida para Portugal de
alguns dos naturais das ilhas para tirarem cursos na Universidade portuguesa,
fizeram com que se criasse uma massa crítica de leitores que é um dos
fundamentos da literatura cabo-verdiana.
Perante a impossibilidade de
dar conta cabal deste aspecto, resolvemos fazer uma pequena aproximação a uma
das publicações mais marcantes, embora desigual, na história contemporânea da
literatura e da imprensa de Cabo Verde, estamo-nos a referir ao Boletim Cabo
Verde, dirigido por Bento Levy e que teve desde a sua fundação e durante mais
de uma década uma considerável presença da literatura nas suas páginas (17).
Já em 1950 (18) Gabriel
Mariano reivindica a figura de Eugénio Tavares porque, em oposição a outros
poetas, esses "não tinham ouvido a voz do Atlântico à roda das
ilhas". E é o próprio Gabriel Mariano que introduz uma particular visão do
terra-longismo cabo-verdiano: "A Terra-Longe, / irmão, / está na tua
terra".
Trata-se da Terra-longe mais
como um estado de ânimo do que uma situação física de exílio e o desejo de
partida para se libertar da opressiva realidade circunstancial das ilhas é um desideratum
convertido numa tópica linha de força deste discurso poético. Como indica
Teixeira de Sousa, "o sonho de evasão dos poetas mais representativos -
Jorge Barbosa e outros- poderia então realizar-se dentro das próprias ilhas,
primeiras do mar. O isolamento atlântico passaria a ser mera figura retórica da
geração romântica por força das circunstâncias" (19). Porque aquilo que
predomina é a evasão interior, a viagem ao centro do próprio sujeito que é
conhecimento tal e como a exprime Aguinaldo Fonseca: "Mamã / dá-me a tua
benção, porque vou partir / Meu barco é um sonho de coisas futuras / [...] /
Onde está o mapa. Vou traçar o meu rumo / Europa... Ásia ...
América... / Qual será o meu rumo? / Mas que coisa estranha? - / Afinal
o mundo é tão pequenino / [...] / Mamã / Já não vou partir / vou ficar aqui /
Esta terra é pobre mas é a minha terra".
Repare-se, neste texto de
Aguinaldo Fonseca, na dominância do possessivo de primeira pessoa (meu)
mostrando o empenhamento do sujeito na sua própria viagem, a sucessão de
interrogações, por sua vez, a mostrar as dúvidas de um eu cindido num espaço
cheio de dúvidas, do incógnito e perigoso indefinido, do vazio e do inconcreto.
A poesia pode, neste poeta,
ser sinónimo ou substituir, da fuga física das ilhas e, portanto, abrir-se a um espaço de liberdade. O próprio Aguinaldo Fonseca diz
"cada poema que escrevo / é uma fuga para além de mim" (20).
Assim, fica na ilha, não com
a revolta do preso que luta pela liberdade, mas com a melancolia do que não
pode ser alterado; o sujeito fica fechado em si próprio, dividido entre o
desejo de partir e um outro desejo mais poderoso de ficar (por vezes como
expressão de uma impossibilidade indolente).
Manuel Serra exprime-o num
poema intitulado "Evasão", dedicado a Jorge Barbosa: "A fuga já
foi marcada / mas é sempre, sempre, adiada / a hora da minha partida"
(21). Portanto, o partir não se vê como caminho a percorrer/descubrir, antes
aparece como fuga da prisão em que as ilhas se converteram, porque o "mar
largo" é para Manuel Serra, um "longo cativeiro / das nossas ilhas
morenas / [...] / cadeias que nos isolam do mundo" (22), sendo assim que o
mar é libertação de uma cadeia, mas uma libertação que não é só por se tratar
do caminho para a viagem, mas porque ele pode ser o final, o descanso apetecido
de que nos fala um poema de Pedro da Silveira(23):
"E lá para o fim se
nenhum paquete me quiser a bordo, / de proa feita ao Oeste, no rumo das ilhas,
/ para a viagem de quem volta de caminho vazio /
pequeno no morto que fui, nu
mar paralisa o eu, prendido
na impossibilidade, (ou recusa?) de partir, como vemos neste poema de M.ª
Madalena: "Teria de aqui ficar a vida toda / À espera de partir? /[...] /
Olhando o mar / esperando o navio que há-de chegar A morte que há-de vir?"
(25)
mar é caminho de liberdade,
mas é também prisão e assim é visto por vários dos poetas, alguns dos quais já
assinalámos: "Prisioneiro do destino e do mar / contemplo as grades da
minha prisão / o cenário habitual / - azul rolante- cemitério de ilusões"
(26).
Entre o partir e o ficar, o
sujeito lírico de muita desta poesia fica como que paralisado, na indecisão que
representa o desconhecido, do medo ao imprevisto e ao imprevisível, o desejo de
ficar prendido à terra, elemento sólido que nos une à raiz, ao eixo da
verticalidade que representam "essas ilhas perdidas / onde as montanhas
vermelhas / se erguem aos céus / como uma súplica" (27).
Quer a decisão de partir,
quer a de ficar que encontramos nos poetas que se revelam em fins de cinquenta
deixa de ser algo iniludível, é ao sujeito que corresponde a decisão da viagem
/ fuga, tal e como é exprimido por Arménio Vieira: "ver o navio suspender
as âncoras / desejar com ele partir / (podes fazê-lo) e ficar parado na areia /
e vê-lo partir" (28).
Em resumo, nos poetas que se
revelam na imprensa cabo-verdiana entre os anos 40 e os anos 60, o mar é o
centro da sua poética, sempre ligado a um desejo / impossibilidade de partida.
O mar organiza o mundo (29), a começar pelo mundo próximo das ilhas, com uma
intencionalidade quase épica, como no poema "arquipélago" de João de
Deus Lopes da Silva (30): "Dez ilhas / dez fragmentos / de não sei que
continente / que um cataclismo / arrojou no Atlântico // [...] // Dez ilhas /
Dez ilhas / dum gigante heróico // Dez noites vibrantes / no coro duma
epopeia".
Vamos encontrar temas como o
terra-longismo (31), a viagem que é o núcleo da poesia de Jorge Barbosa (32);
viagens que podem ser imaginárias e quiméricas como a de Pedro Silveira (33):
uma ilha ao longe, / azulada vaga / -saudade triste que se prolonga / num barco
apenas imaginado". É finalmente o naufrágio existencial, longe da ilha, de
um sujeito perdido no mundo hostil da grande cidade como vemos no poema de Cais
de Pedra de Nuno Miranda: "o ilhéu naufragado em mar ao largo / o de alma
em meio à multidão apressada / passando...".
5.- O reencontro com a
África. Corsino Fortes.
mito hesperitano formulado
nos termos em que acabámos de ver, entra em crise definitiva em fins dos anos
cinquenta, princípios dos sessenta. Cabo Verde já não é a Atlântida submersa,
já não é o resultando da experiência portuguesa nos trópicos, já não é o
prolongamento da cultura europeia noutro continente. Cabo Verde tem, como
violentamente proclamou Onésimo Silveira, uma vocação africana, um destino de
liberdade fora do jugo colonial (34). A poesia reflectirá, então, esse desejo
de liberdade (poesia heróica e prometeica), unida a uma sensibilização
africanista que aparece muito bem exposta
Não vamos tratar o tema da
poesia de Corsino Fortes que tem levantado várias perspectivas investigadoras
(35), mas não queremos deixar de referir a importância que o mar e a ilha têm
na elaboração deste discurso original.
seu segundo livro Árvore
& Tambor (36) arranca com a "Proposição & Prólogo" incluindo três
poemas em que os próprios títulos se erigem em palavra-tema na acepção de
Guiraud. "ILHA", assim nomeada, sem artigo, tomada no seu sentido
abstracto, é nomeada/definida, no primeiro verso, com dois substantivos de luz
(Sol e Relâmpago) e com dois substantivos da natureza (semente e raiz), os
quatro remetem-nos para o universo simbólico do masculino, do gerador de vida,
a luz criadora e absoluta do Sol, a luz e a violência do relâmpago, enquanto
que força/energia do masculino, a semente-sémen e raiz que se afunde na terra
gerando a vida.
Mas, a seguinte proposição
neste nomear da ilha remete-nos para o feminino: Tambor de som que floresce e
cabeça calva de Deus: os elementos do redondo, do côncavo, sempre ligados ao
lado feminino. Portanto, a ilha reune em si o masculino e o feminino, a vida em
definitivo, ela é o centro do mundo (cabeça calva de Deus).
Se repararmos num poema como
"De Boca Concêntrica na Roda do Sol", a ilha é aí o centro (centro do
mundo e centro da "mensagem"), mas não, ou não só a ilha fortemente
delimitada e identificada com uma realidade extra-poética (Cabo Verde), mas uma
ilha que reunindo os valores afectivos da sua antropomorfização se erige no
espaço clausurado -a ilha é tambor, mas também possui o tambor que chama desde
o seu interior, desde o seu "coração"-, espaço a explodir num
imaginário em que as fronteiras convidam a extravasar os seus limites.
Nesse espaço fechado,
isolado, que é a ilha, a pureza e a inocência são, por enquanto, possíveis- e
daí a valorização do tempo da infância -"no peito das crianças"- como
o tempo mítico e mágico em que a cisão do homem e o mundo não se tinha
produzido; a ilha como metáfora de um novo mundo que se cria/vivifica com o grito
luminoso do tambor que se explicita.
A África nomeada no poema,
como noutros do autor, ela espaço também enclausurado porque tem
"portas", vê alargado o seu significado pelo tambor, um tambor -e não
se pode esquecer a sua ocorrência desde o próprio título- cuja carga
significativa se desdobra nas sugestões do não-dito, mas presente no imaginário
do destinatário. E é que o tambor é música e, portanto, poesia, mas é também a
raíz que remete para uma ancestralidade convertida em seiva frutificadora e é,
ainda, a concretização do redondo, em cuja base se sustenta a ideia da
Mãe-Terra -e por extensão a da Mãe-África-. África é, pois, a Mãe geradora de
vida, mas é também, no reverso de todo símbolo, a Mãe Devoradora que transforma
o sangue em semente.
No discurso de Corsino Fortes
é evidente o pendor épico da sua escrita poética, e a visão/expressão do
carácter ilhéu muito além daquilo a que nos tinham habituado os poetas
anteriores. O compromisso social, que foi levemente mostrado é actualizado pelo
texto corsiniano que concretiza, em palavras de Ana Mafalda Leite "o
imperativo histórico de reformar Cabo Verde, em termos épicos e míticos",
a construção de um país/outro que nasça, através da palavra poética -que é
geradora de energia- que se pode construir e, de facto, se constrói num real
poético que o texto desenvolve.
A ilha está presente ao longo
de todos os poemas, a ilha como regresso e fundamentalmente como expressão do
redondo e, portanto, do feminino e matricial, "o poema -escreve Mafalda
Leite - apresenta-se como engendrador de uma importante simbólica de formas
redondas, onde a circularidade do universo que se constrói, ao tomar a sua
dinâmica própria, ganha a forma esférica de um cosmos" (38):
Ilha-mulher-Mãe, desenham algumas das balizas significativas dos poemas
corsinianos, num livro que ultrapassa a realidade concreta de Cabo Verde e
universaliza a sua literatura.
6.- Conclusão
Neste artigo tentámos mostrar
alguns aspectos que ao longo deste século têm ido configurando a poesia
cabo-verdiana. Arquipélagos físicos de fomes e secas, mas vivos arquipélagos de
palavras poéticas e proféticas de uma cultura que já não é resistência, mas
signo de criatividade. Ilhas de solidão e grades do destino, mas também, luz
que irradia uma zona mal iluminada das literaturas de língua portuguesa.
Se tivermos de definir a
poética cabo-verdiana através de afirmações muito gerais, diríamos que é o mar
e, em consequência, o facto de serem ilhéus, que tem feito com que a literatura
cabo-verdiana nem quisesse, nem pudesse, libertar-se dessa ambígua e produtiva
(em termos literários) situação de exílio, uma insularidade geográfica que, em
palavras de Pierre Rivas, "devient insularité existentielle qu’on
peut lire comme metaphore de la negritude, lieu d’exil loin de la patrie
africaine, prison coloniale [...], ou idiosyncrasie ilienne" (39). A
viagem que é marca da condição do ilhéu, é metáfora da proposta que fazemos de
penetrar nesse mundo poético, tão distante e tão subgerente numa nova viagem de
leitores a acompanhar, no silêncio, a viagem dos criadores pelo mundo da
palavra em liberdade.
NOTAS
SALÚSTIO, Dina,
"Insularité, évasion et résistence" in VEIGA, Manuel (org.),
Insularité et littérature aux îles du Cap-Vert, Paris, Karthala, 1997, p. 36.
RIVAS, Pierre, "Insularité
et déracinement dans la poésie capverdienne" in Actes du Colloque: La
littérature africaine de langue portugaise, Paris, Fond. C. Gulbenkian, 1985,
p. 291.
FERREIRA, Manuel, O Discurso
no Percurso Africano I, Lisboa, Plátano Editora, 1989, p. 193.
LARANJEIRA, Pires,
Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, Lisboa, Universidade Aberta,
1995, p. 181.
Terá de ser o polémico ensaio
de Onésimo SILVEIRA (Consciencialização na Literatura caboverdiana, Lisboa,
Edições da Casa dos Estudantes do Império, 1963) que coloca em termos
político-ideológicos a africanidade de Cabo Verde, superando um certo
barlaventismo que dominava na produção claridosa.
O sentido pejorativo que se
tem dado ao termo "evasionismo" deve-se a uma confusa apreciação de
que os textos assim definidos (e mesmo assim definidos pelos seus autores) não
tinham presente a realidade social, económica ou política das ilhas, ou não
reflectiam essa realidade. É óbvio, primeiro, que o carácter de literatura
empenhada que normalmente define as literaturas africanas, nomeadamente aquelas
que se desenvolvem em processos coloniais, não tem que ser critério excluente;
por outro lado, muitos dos textos que fazem referência ao
"evasionismo", têm uma forte componente de compromisso cívico. Aliás,
o adjectivo evasionista é aplicado, também, ao movimento claridoso.
ELIADE, Mircea, Mitos, Sonhos
e Mistérios, Lisboa, Edições 70, 1989, p. 60.
Embora não se trate de um
trabalho de periodização literária, consideramos que a pretensa ruptura literária
entre os poetas hesperitanos e os claridosos não é tão forte nem tão evidente
para que se possa afirmar com autoridade de que estamos à frente de duas
gerações ou de dois grupos literários.
Vide Elsa Rodrigues dos
SANTOS, As Máscaras Poéticas de Jorge Barbosa e a Mundividência Cabo-Verdiana,
Lisboa, Edt. Caminho, 1989, pp. 40-41.
Para as relações da
literatura caboverdiana com a literatura brasileira, Vide, entre outros,
SALINAS PORTUGAL, Francisco, "O Brasil na construção do imaginário
(literário) caboverdiano" in O Texto nas Margens. Ensaios de literaturas
em língua portuguesa, Santiago de Compostela, Edç. Laiovento, 1997, pp. 71-95.
SANTOS, Elsa Rodrigues dos,
ob. cit., p. 68.
"La mer c’est
l’arrière-pays, elle représente la seule et unique possibilité
d’évasion" (CABRAL, Nelson Eurico, "Jorge Barbosa: la mer et
l’exil" in Notre Librairie, nº 112, Paris, Clef, 1993, p. 28).
BARBOSA, Jorge, Caderno de um
Ilhéu, Lisboa, Agência Geral do Ultramar, 1956 (prémio Camilo Pessanha).
Ob. cit., p. 88.
Ibid., pp. 82 e ss.
Cabo Verde. Boletim de propaganda e informação. Editado na Praia. Asno 1, Nº 1- Outubro, 1949. Director Bento Levy. E